quinta-feira, 2 de julho de 2026

GAIOLA OU ASA

Por Tales de Sá Cavalcante (*)

Em 1997, o Clube do Líbano de Fortaleza resolveu vender sua sede. Em data e horário divulgados, os envelopes foram entregues fechados e, na presença de todos, foram abertos. Seria vencedor quem, além de superar o mínimo prefixado, tivesse o maior preço. Uma empresa possuía vários envelopes para escolher o adequado ao conjunto de competidores que se fizessem presentes.

Ao se ver só, sem concorrentes, entregou o envelope com o menor valor. Ao levar várias propostas, a empresa revelou criatividade e brasilidade. Em 2015, num concurso, em Fortaleza, para escolher a melhor criação de uma startup, alunos de uma entidade pública usaram um computador que não era dos melhores, nem dos mais novos e travou na hora "H". O líder juntou fios daqui, fios dali, peças daqui, peças dali. Aquela "coisa" "ressuscitou" e ganhou o prêmio.

Em reunião no Conselho de Responsabilidade Social da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo relatei o feito. O colega conselheiro e apresentador de TV Marcelo Tas comentou ter ouvido de um grande publicitário americano que "o brasileiro é mais criativo por fazer gambiarras".

Sim, com boas condições, executa perfeições, o que não faz o conterrâneo do yankee, Mr. Trump, que, mesmo com muitos recursos, decide por gambiarras oriundas de sua mente ou de assessoria deficiente.

O saudoso Washington Olivetto dizia: "A ideia é o que faz a diferença". E Rubem Alves afirmou: "Há escolas que são gaiolas e há escolas que são asas. Escolas que são gaiolas existem para que os pássaros desaprendam a arte do voo. Pássaros engaiolados são pássaros sob controle. Engaiolados, o seu dono pode levá-los para onde quiser. Pássaros engaiolados sempre têm um dono. Deixaram de ser pássaros. Porque a essência dos pássaros é o voo. Escolas que são asas não amam pássaros engaiolados. O que elas amam são pássaros em voo. Existem para dar aos pássaros coragem para voar. Ensinar o voo, isso elas não podem fazer, porque o voo já nasce dentro dos pássaros. O voo não pode ser ensinado. Só pode ser encorajado".

Por fim, este articulista indaga: e você? Prefere uma escola que seja gaiola ou asa?

(*) Reitor do FB UNI e Dir. Superintendente da Org. Educ. Farias Brito. Presidente da Academia Cearense de Letras.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 28/05/26. Opinião, p.16.


quarta-feira, 1 de julho de 2026

ONDE E O TEMPO

Por Pedro Bezerra de Araújo – Pierre Nadie

Perguntei ao onde:

- Onde estou?

- Aqui, respondeu-me ele.

- Mas, eu não sei onde estou, como posso saber o que é aqui?

O onde calou-se…

O tempo soprou

Soprou, soprou e soprou.

Então, perguntei ao vento:

- De tanto soprares, jogaste-me mais longe do onde.

O vento não respondeu:

- Tão longe estou do onde, que nem mesmo me vejo.

Com isto, o vento interveio:

- Mas, sabes quem és tu.

- Não, não sei. Não me sei, porém, vejo-me perdido. Mas, não me interessa saber, pelo menos, por agora.

Fez uma pausa. Calou-se.

- Se não sabes quem és tu, por que queres saber o ‘onde’? questionou-me o tempo. O caminho faz-se com a razão. Ela o indica e somente ela pode dizer-te onde estás.

Nisso, o onde volta ao cenário:

- Não posso dizer-te onde está o ‘onde’. Pois, o ‘onde’ anda perto do ‘sou’. E se não sabes o teu ‘sou’, de que adianta buscar o onde? Faze-o em vão.

Fiquei mudo.

E continua o onde:

- Estás louco? Não vês que o teu ‘sou’ é que define e determina o ‘onde’? Caso não saibas o teu ‘sou’, nunca encontrarás o ‘onde’.

- Não consigo entender.

O onde esboçou um riso de ironia.

Foi aí que o tempo falou:

- Não entendes porque não te entendes. E, se não te entendes, como queres entender o ‘onde’?  Ele nem está em mim, mas no esconderijo de tuas narinas.

- Minhas narinas? Quem o colocou nelas?

 O tempo ri, sarcasticamente:

- Estás com amnésia? Com Alzheimer? Ou tua desídia és tu mesmo?

Meu rosto enrubesce e meu corpo tensiona:

- Tua acusação me desonra e me atinge como cruel verdugo a açoitar suas vítimas. Como podes acusar-me de mim mesmo?

E o vento volta a assoprar. Não, agora ele assovia um refrão:

- Eu sou Noto. Lá do Mediterrâneo vi teu surto e corri a ajudar-te quebrar alguma corrente, mas percebo que és cabeçudo.

E com uma canção nos lábios:

- O que passou, passou / Teu sou ficou no passado. / O hoje não é presença, teu passado não passou. / O onde também ficou / na esquina do passado. / Se não recuperares, de novo, / o sou que faz o teu onde / o que seria não será mais.

E termina com melancolia:

- O que foi não é, o que é já foi, e o que será seria. O foi não foi, o é não veio e o será em coma adormeceu.

Assustei-me com tal premonição. A raiva deu lugar ao remorso. Incontinenti aos dois eu falei:

- Há uma dor doendo em mim. Grande dor. Não sei onde está, nem de onde veio, mas sinto que me queima.

O onde interveio:

- Se te queima, tu a sentes. E, se a sentes, segue-lhe o rastro e encontrarás o onde.

E o tempo:

- E, lá, no onde, se investigares profundo, darás de cara com o teu ‘sou’.

E lá me fui eu, em busca de mim e de minha orquestra, lá, onde  o onde pode encontrar o sou.

Então, voltei a sonhar e a alegria retornou, minha vida saltando para dentro de mim.

Encontrei o ‘onde’ e descobri o ‘sou’, no seio de mim e na plataforma do tempo.

Vitória do sofrimento, que somente eu vivi, vitória, que somente eu pude ver, curtir e viver. E mais ninguém viu, nem sentiu.

Sem fé em mim, perco o sentido da fé em Deus e a convivência fraterna de paz, partilha e amor, naufraga no orgulho e ousadia de ‘ser’ o que não sou, de não saber ‘onde’ estou e de chegar aonde eu não sei.

Mundus a me transit, sed huius  mea visio a me nascit. Mundum non poneo, sed  in eo interago principiis meis ac valoribus, quomodo sum. Ergo, primum ordo me cognoscere. (O mundo passa por mim, mas minha visão dele nasce dentro de mim. Não posso criar o mundo, mas nele interajo, a partir de meus princípios e valores, como eu sou. Daí que a primeira coisa a fazer é me conhecer).

Uma boa terça-feira, com as bênçãos de Deus!!!

(*) Pediatra e professor da Uece aposentado. Enviado por WhatsApp em 26/05/26.


Gravidez tardia, estilo de vida e síndrome de Down

Por Evangelista Torquato (*)

A gravidez tardia deixou de ser exceção e passou a fazer parte da realidade de muitos casais. Motivos profissionais, estabilidade financeira e mudanças sociais levaram pessoas a postergar o projeto de ter filhos. No entanto, é essencial compreender como a idade e o estilo de vida impactam a fertilidade e os riscos genéticos, entre eles a síndrome de Down, para que decisões sejam tomadas com informação e responsabilidade.

Do ponto de vista feminino, o avanço da idade está diretamente relacionado à diminuição da quantidade e da qualidade dos óvulos. Após os 35 anos, e de forma mais acentuada após os 40, aumenta o risco de alterações cromossômicas nos óvulos, elevando a probabilidade de embriões com aneuploidias, incluindo a trissomia do cromossomo 21. Já no homem, embora a produção de espermatozoides seja contínua, o envelhecimento também traz impactos importantes, como maior fragmentação do DNA espermático e alterações genéticas associadas à idade.

O estilo de vida exerce papel fundamental nesse cenário. Tabagismo, consumo excessivo de álcool, obesidade, sedentarismo, estresse crônico e noites mal dormidas afetam diretamente a qualidade dos gametas femininos e masculinos.

Felizmente, a medicina reprodutiva avançou de forma significativa. Métodos como a fertilização in vitro permitem avaliação criteriosa dos embriões antes da transferência ao útero. O teste genético pré-implantacional é hoje uma ferramenta eficaz para identificar embriões cromossomicamente normais, reduzindo riscos e aumentando as chances de uma gestação saudável. Além disso, estratégias como o congelamento de óvulos em idades mais jovens e o acompanhamento individualizado do casal contribuem.

Falar sobre gravidez tardia não é estimular o medo, mas promover consciência. Informação, planejamento e acompanhamento especializado permitem que pessoas façam escolhas alinhadas aos seus desejos e à ciência. A tecnologia não elimina riscos, mas oferece caminhos mais seguros para quem sonha em formar uma família, mesmo com o passar do tempo.

(*) Ginecologista com atuação em reprodução humana.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 1/06/2026. Opinião. p. 18.