“O Ceará é que nem cuscuz - só
presta molhado; seco, entala!”
A
frase-título dessas mal traçadas linhas é da lavra criativa e bem-humorada do
saudoso Hilton Cortez, pai do querido primo Helder Cortez, e me foi repassada
pelo cedrense deputado Deassis Diniz. A Filosofia bem ilustra a bênção desse
fenômeno divino chamado “chuva”, que pro povo aqui de nós é tudo e mais alguma
coisa abaixo das nuvens. É chover e o mundo transmudar. Demócrito Dummar,
contou-nos o amigo Demitri Túlio, dizia, com regozijo: “Eu não perco uma
chuva”!
Chuva
- oração que cai em forma de alegria, aguando esperança - remete a fraseados e
terminologias que, em cearensês castiço, animam demais grandezas:
-
Adivinhando chuva – Dando sinais de que vai chover.
-
Ano bom – Ano de bom "inverno", de chuvas regulares.
-
Bonito pra chover – Tempo meteorológico propício à pancada de chuva.
-
Pau-d’água – Chuva forte. Mesmo que pé d’água.
-
Saprico – Salpico, neblina ("librina"), chuva fina.
-
Sereno – Chuva fina, chuvisco, garoa - a umidade da noite e da madrugada.
-
Formiga de chuva – Formiga que tem asa - "siriri".
-
Chuviscar – Neblinar (‘librinar’), cair chuva fina (‘chuvisco’).
-
Três coisas que cristão nenhum no mundo confia... – Tempo de chuva, doido sem
juízo e bunda de menino novo.
-
Biqueira - Cano por onde escorre a água da chuva que cai no telhado.
A
esse respeito, circula no Instagram cena maravilhosa, inspiradora: ruma de
meninos, sob a regência festiva de um cachorro pé duro, se esbaldando na chuva,
celebrando o “inverno” na maior alegria, se abrindo, frescando. A lapada d’água
a escorrer pela biqueira, tinindo de forte, dá a impressão de que a vida se
resume a chover aos borbotões, permitindo desconexão dos aperreios cotidianos,
congraçar, felicitar gente.
Ah,
quem me dera fosse a pulga da dobra da orelha daquele cachorro fuleiro!
O remédio exato
Por
falar no grande Hilton Cortez, é dele uma receita simples e eficiente para a
cura de males da tristeza e da ansiedade, medicação disponibilizada em qualquer
bodega, restaurante, mercantil... Em tempo: se você está enfrentando algum
“despombalizanento” de cunho emocional ou coisa que o valha, prestenção - esse
aqui é tiro e queda.
Estava
Hilton em Iguatu (à época residindo em Cedro), acompanhando a concunhada dona
Fransquinha, mãe da Derlange, a uma consulta médica. Enquanto esperava,
aboletou-se num boteco de esquina, tranquilamente, tomando sua cerveja gelada.
Hora
e meia mais tarde, a matriarca da família Santos já buscava a farmácia mais
próxima, urgia comprar a medicação passada pelo especialista. Mas, quedê poder
adquirir a gororoba? Esquecera em casa a carteira de identidade. Dispara para o
local onde estava Hilton - consultório popular ameno e descomplicado, sem
efeitos colaterais. Fransquinha se lamenta:
-
Preciso voltar a Cedro e pegar meu RG, Hilton! O remédio que o doutor receitou
é tarja preta. Certamente não tem ele lá.
-
Como é que é!?! Fazer esse entrançado todo por causa dum remédio pros nervos! -
invocou-se Hilton.
-
Sim, tô carecendo de tomar vexado o medicamento!
-
Pois eu vou te receitar um que é infalível, ‘negocim’ bom que dá gosto beber!
E
voltando-se para o garçom, Dr. Hilton Cortez ordenou:
-
Zé Raimundo, traga uma Brahma estupidamente e um copo descansado!
Resultado:
dona Fransquinha nunca tomou o tal remédio prescrito pelo médico, passando a
adotar o de Hilton Cortez, de uso contínuo, dali por diante. Uma dor na unha
sequer sentiu mais!
Fonte: O POVO, de 13/02/2026. Coluna
“Crônicas”, de Tarcísio Matos. p.2.
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