Por
Romeu Duarte Junior (*)
Assim como muitos e muitas da minha
geração, fui criado sob a égide da visão do Rio de Janeiro como a maior das
maravilhas do mundo. Meu pai, mineiro de nascença, mas carioca por desejo,
morou cerca de 15 anos na belíssima Cidade Maravilhosa, precisamente no período
que é conhecido como "anos dourados". Quando falava do que lá
passara, seus olhos brilhavam, para aborrecimento de minha mãe, que via o Rio
como um lugar de perdição e pecado. Aprendi, pois, com o autor dos meus dias
(obrigado, Aírton Monte, que também era um fã do RJ), a venerar a capital
carioca, sua cultura urbana, suas variadas expressões, seus lugares, seu povo.
"Algum dia ainda vou morar lá", repetia sempre de mim para comigo
esse mantra. Hoje, por várias questões, não mais, e explico porquê.
Meus interesses se concentravam no futebol,
na literatura e na música da terra de Machado de Assis, numa relação idealizada
e apaixonada. O Rio é um lugar onde o corpo ainda conta muito, principalmente o
feminino, em torno do qual todas essas manifestações artísticas orbitam.
Juntamente com as muitas praias, formavam um binômio irresistível, a Garota de
Ipanema que o diga. O Botafogo de 1969, Doval, Zico, Adílio e Adão, Rivelino no
Flu, a zaga do Vasco em 1974, o Bangu e o Ameriquinha, Nelson Rodrigues, Lúcio
Cardoso, Rubem Braga, a turma afiada do Pasquim, Clarice Lispector, Antônio
Callado, Pixinguinha, Cartola, Nelson Cavaquinho, Jacob do Bandolim, Tom Jobim,
Vinícius, Chico Buarque, Edu Lobo, Martinho, Paulinho da Viola, tanta gente
boa. E aí, e agora?
Como dizem seus cultores, a História serve
para explicar o presente e não para glorificar o passado. No começo do século
XX, de um lado, a cidade esplêndida, com a sua natureza magnífica e a sua
arquitetura deslumbrante, e de outro, a morraria, que já se via ocupada pelos
pobres favelados. Deixados à própria sorte pelo ausente Estado, criaram normas
de conduta próprias que findaram dando no que aí está. A perda da condição de
capital do Império e da República foi um duro golpe para o Rio, pondo fim a 152
anos de fastígio. A cidade, referência nacional e internacional da boa vida e
do turismo, e o morro, abandonado e cada vez mais perigoso, vão ser dominados
respectivamente por uma classe política corrupta e por toda sorte de
bandidagem, facções e milícias. O resto você sabe...
Vejo na TV o governador-tampão do RJ
demitindo centenas de terceirizados que ganhavam sem trabalhar. Vários agentes
da Receita Federal envolvidos em grosso esquema de corrupção na zona portuária.
Muitos secretários e deputados estaduais presos por meterem a mão no dinheiro
público. Em mais de 30 anos, a única dirigente do estado que não foi presa é
Benedita da Silva. O Rio é o locus da atuação do grupo político liderado
pelo inominável presidiário. A política se deixou dominar por faccionados e
milicianos. A polícia carioca, em seu estilo Robocop, é uma das que mais matam
cidadãos e cidadãs no Brasil. Em vez de Festa de Arromba, baile funk. Em vez de
Bossa-Nova, gangster rap. Em vez de Nuvem Cigana, tiroteios mil. Em vez de João
Gilberto, Poze do Rodo. Barbárie...
(*) Arquiteto e
professor da UFC. Sócio do Instituto do Ceará. Colunista de O Povo.
Fonte: Publicado In: O Povo, de 11/05/26. Vida & Arte. p.2.
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