sexta-feira, 28 de agosto de 2026

Crônica: A colega doutora ... e outros causos

A colega doutora

Gente boa o Neto, homem de bem com quem é bom estar. Servidor e simpático, sóbrio é esse sujeito maravilhoso; lasca quando toma umas pôde a mais, aí é boneco federal, o que não inibe em absoluto a percepção que dele temos acerca do reconhecido valor humano. Sucede que o amigo, de poucas letras, aprontou de novo e foi chamado a responder processo, aberto pela própria esposa em momento de justificável aperreio.

E já está ele diante da juíza - audiência remota. A competente advogada dá as devidas orientações, no sentido de seu cliente tratar com "respeito e educação a digníssima juíza". Que use termos condizentes, mantenha a calma e responda apenas o que for perguntado. Mas vemos um Neto tenso, em risco de baldear o juízo e botar a causa a perder.

A advogada, cautelosa, reforça:

— Ao dirigir-se à meritíssima juíza, chame-a de doutora! Ou de excelência! Ouviu, Neto?

— Na hora, dona Maria!

Final da audiência e a douta juíza prolata:

— Sr. Francisco Neto, pelo que vejo, o senhor, réu primário, não é pessoa má, apenas mais uma vítima do álcool. Por isso, sua pena será a prestação de serviços comunitários.

— Obrigado, colega!!! Maravilha, colega!!!

Juíza ouviu os "colegas" e se riu, entendendo o contexto. Pediu maternal:

— Aproveite (o serviço comunitário) que é numa escola e estude. Seja decente e brilhe!

— Eita, dotorinha! A senhora é só o mí disbuiado!

Ô, taria!

Clarice é esperta. Cinco aninhos e, ouvidos atentos, sabe muito bem o que dizem em derredor, escutando com perfeição a coisa proferida. Estamos na casa da avó Dijé que, na sala, assiste às arrumações do marido-vovô em brincadeiras ingênuas com a netinharada ("calango na parede", "João atrepa", "carrapicho"). Lá pelas tantas, Dijé solta a forma foneticamente reduzida da palavra que, em seu uso informal, é utilizada para descrever bagunça, injustiça, diversão, fulerage, cachorrada...

— Ô taria!!!

Clarice, vigilante, vai até onde está Dijé e, professoral, corrige.

— Vó!!! Não é "taria"! É putaria! Aprende!

Fé muita, fé demais!

Primeiro ano de namoro do casal e Leléo leva Madinha pra passar final de semana na casa dos pais. Domingo bem cedo, é praxe, o jovem sai para o grupo de oração. Madinha fica, entabulando boa conversa com a cunhada. 10 horas da manhã e a moça sente cólicas - vontade urgente e súbita de evacuar. Corre em busca do banheiro. De lá, liga encabulada pro namorado; ele, absorto no culto, "pedindo, agradecendo e louvando o Senhor", não ouve a chamada. Uma, duas, três tentativas... Até que deu certo.

— Oi, amor! Jesus contigo!

— Para, Leléo! O negócio aqui fedeu! Fala baixo! Não volte pra casa sem um...

— ... sem um bocado de louvores abençoados pra te embalar, nunquinha!!!

— Não, Leléo! Não volte sem um desentupidor, o sanitário entalou! Tô no banheiro da sala, traga sem fazer enxame!

Largando vexado o culto, ele compra o desentupidor e, provando que o Senhor lhe tocou o coração, um buquê de rosas. Em casa, Evangelho de João palpitando ainda, entrega a "ferramenta de limpeza de desobstruir vasos sanitários" e as flores, murmurando discreto, na porta entreaberta do banheiro.

— Madinha, na casa de meu Pai há muitas moradas!

— É? Então por que justamente na sua a privada enguiçou? Hein? Me fala!

Fonte: O POVO, de 17/07/2026. Coluna “Crônicas”, de Tarcísio Matos. p.2.


Nenhum comentário:

Postar um comentário