quarta-feira, 9 de setembro de 2026

SEMPRE AOS DOMINGOS

Por Pedro Salgueiro, cronista de O Povo

"Os homens que foram aqueles meninos não querem lembrar dos domingos."

Recebi, por esses dias, uma pequena pérola literária (dessas que deveriam viajar na boleia de nossas melhores leituras, tão pródigas em relegar os melhores talentos à surrada carroceria... não sei se me entendem!?).

O livrete foi escrito por Julio Lira, editado pelo escritor-professor Rodrigo Marques na sua "aluáEditora", com tradução, isso mesmo!, para o inglês da canadense Odile Cisneros; ah!, também com belo projeto gráfico e diagramação de Barbarah Freire; recebi o lindo objeto-branco-delicado com deleite, já prevendo chocolate dos bons, pois vindo de uma amigo de longas datas e algumas caminhadas juntos (embora quase nunca nos avistemos pelas ruas, becos e vielas de nossa sonsa loirinha desmilinguida pelo sol).

Depois do susto comecei a leitura, indo e vindo do português para o inglês, correndo às "notas-dobras" esclarecedoras do final do livro, não consegui mais largar até a última letrinha; depois reli e tresli, sem ainda me contentar.

Antes de agradecer, ainda no calor do espanto me dirigi ao santo-oráculo que me socorre nesses raros momentos de espanto:

"Meu caro, estou lendo um poema de um autor cearense sobre um internato nos Estados Unidos. Com tanta coisa para escrever sobre o Brasil, isso não é um sintoma de colonização cultural?"

No que ele, sem titubeios, me respostou: Você certamente está falando de Visita Dominical, de Júlio Lira, mas antes de responder a essa saudável inquietação, preciso dizer do que trata o livro. Um grupo de gestores, urbanistas e convidados visita às ruínas de uma instituição que, durante mais de um século, funcionou em Massachusetts e foi considerada a maior e mais modelar instituição americana dedicada à educação, segundo os termos da época, de "idiotas" e "retardados mentais". Os visitantes se deslumbram e pensam em novos usos para os prédios históricos. Basta, porém, atravessar as alamedas e os corredores abandonados para que o passado se arrebente contra eles.

Surgem as vozes de crianças internas, de familiares separados, de administradores, de psiquiatras, de legisladores. Falam os jornais, os prontuários, os relatórios. Falam também os mortos. A visita deixa de ser um percurso arquitetônico para tornar-se uma travessia de uma memória apagada. As ruínas, os móveis e os objetos, resíduos de quase dois séculos, não se calam.

É verdade que o livro está profundamente interessado nos Estados Unidos. Mas não pelos motivos habituais. Em vez de perseguir o American Way of Life, procura compreender como esse imaginário foi construído. Afasta-se dos monumentos gloriosos e mergulha em um dos seus subterrâneos mais abjetos, conduzindo o leitor até uma história vergonhosa.

E faz isso pela poesia. Visita Dominical se aproxima de um antiépico. O poema se embrenha nas sombras, nos apagamentos e nas manchas da história.

O tempo também deixa de obedecer à cronologia. A visita contemporânea, o funcionamento da instituição e a leitura acontecem simultaneamente. O leitor caminha entre os vivos e os mortos, entre os fatos e a sensibilidade do poeta.

Volto, então, à sua pergunta. Sim, faz sentido um poeta cearense escrever sobre um internato em Massachusetts. Porque o livro pretende compreender um aspecto da formação dos Estados Unidos. As teorias raciais e a eugenia nasceram na Europa, mas encontraram nos Estados Unidos um dos lugares em que foram institucionalizadas, ampliadas e transformadas em práticas sociais.

Compreender a institucionalização da eugenia nos Estados Unidos é também compreender a circulação internacional dessas ideias e a maneira como elas repercutiram em sociedades como a brasileira. O livro é uma janela para essa história.

Durante décadas, os Estados Unidos produziram ou estimularam os chamados brasilianistas para interpretar o Brasil. Visita Dominical realiza, de certo modo, o movimento inverso: um poeta brasileiro toma os Estados Unidos como objeto de investigação. Não para reproduzir suas imagens gloriosas, mas para interrogar os seus abismos.

Por isso, vejo aí um gesto de descolonização cultural. Um poema brasileiro devolve o olhar.

Em vez de aceitar as imagens que uma potência construiu de si mesma, digere seus arquivos e seus resíduos e pergunta o que ainda têm a dizer sobre o presente, sobretudo num tempo em que ideias eugênicas voltam a circular, sob novas linguagens, pelas redes sociais."

Fonte: O POVO, de 7/08/2026. Coluna “Crônicas”, de Pedro Salgueiro. p.2.


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