Aquelas pessoas que alcançaram a terceira
idade, ou que estão bem próximo de se tornarem “sexyagenários”, lembram,
certamente, do clima sombrio do período da paixão, que assinalava o calendário
litúrgico católico.
Vivenciava-se à época, o que era uma
celebração judaica, do Antigo Testamento, conforme o ritual do pessach, ou, simplesmente, a passagem,
quando os cativos hebreus comeram, em família, o pão ázimo, sem fermento, na
véspera de sua partida do Egito, após longos anos de escravidão, para
regressarem à Terra Prometida.
A coincidência do aprisionamento, do
julgamento e da execução de Cristo, durante a pessach hebraica, trouxe um outro significado, diante do
reconhecimento de que Cristo era o Messias, o enviado de Deus, o Filho do
Homem, anunciado por vários profetas do povo judeu.
Esse reconhecimento, levando à conversão ao
cristianismo, de muitos judeus e tantos gentios, encontra guarida nos escritos
dos evangelistas e nos atos dos apóstolos, ensejou a segunda parte do Livro
Sagrado, um novo documento, qual seja, o Novo Testamento.
Na Fortaleza dos anos cinquenta, do século
XX, o fervor religioso dos moradores desta capital acentuava-se no tempo da
quaresma, atingindo o seu ápice no período pascal. As famílias jejuavam e
faziam abstinência de carne, em obediência aos ditames religiosos. As pessoas
pagavam penitências, evitavam o cometimento de pecados, inclusive os veniais, e
realizavam boas ações em troca das indulgências que poderiam ganhar, livrando-as
do fogo do inferno, ou, pelo menos, diminuindo a permanência no purgatório.
Como medidas de interesse popular, várias
práticas eram adotadas para rememorar a Paixão e Morte de Jesus Cristo, extrapolando
os atos litúrgicos oficiais, como a projeção de filmes com teor bíblico, a
transmissão radiofônica de músicas e mensagens religiosas, e a encenação
teatral relacionada à Páscoa de Nosso Senhor, revivendo todo o sofrimento Dele,
pregado na cruz.
Durante a Semana Santa, que se iniciava no
Domingo de Ramos, quando várias procissões circulavam nas ruas adjacentes de
cada paróquia, não havia aulas nas escolas de Fortaleza. Na quarta-feira de
trevas já não se fazia mais casamentos nas igrejas católicas, que eram,
temporariamente, fechadas. Nos altares, os santos eram cobertos por um tecido
roxo, assim como o sacrário, onde ficava guardado o ostensório. O ambiente era
de uma mudez total, em sinal de luto. Na sexta-feira santa havia a procissão do
Senhor Morto. Somente no sábado de aleluia é que ela voltava a ser aberta, para
cumprir o ritual da páscoa. Era comum fazer a via sacra, indo de uma casa a outra, no centro da cidade,
percorrendo as 14 estações. Na madrugada do domingo, a matraca começava a
troar, anunciando a Missa da Ressurreição.
O Cine Familiar, de propriedade dos frades
franciscanos, situado vizinho à Igreja Nossa Senhora das Dores, no bairro
Otávio Bonfim, exibia, a cada hora, “A Paixão de Cristo”, uma película em preto
e branco, e sem falas; para assisti-la se formavam longas filas à entrada; o
sofrimento do crucificado parecia transformar a assistência, pois as pessoas
saíam do cinema comovidas e até enxugando as lágrimas vertidas durante a
projeção.
Todos os anos repetia-se a mesma coisa: nas
emissoras de rádio, transmitia-se um programa específico, criado pela Rádio
Nacional, e considerado o maior trabalho do radioteatro brasileiro: “A Paixão
de Cristo”, um clássico com três horas de duração, na sexta-feira da paixão, no
qual o compositor e ator Roberto Faissal, possuidor de uma belíssima voz,
pronunciava palavras saídas da boca de Cristo. No ambiente doméstico, tendo ao
centro um velho rádio, gravitavam ao seu redor os radiouvintes, prontos para
ouvir e se comover, diante daquela voz carregada de emoção.
Nos salões paroquiais, fazia-se a leitura ou
se representavam cenas da Paixão, por grupos amadores, e até nos teatros, espetáculos,
com mais recursos e usando atores experientes, eram encenados, para deleite (e
sofrimento) do público cristão.
Era assim que a Semana Santa acontecia, nos
meados do século que passou, nesta Fortaleza abençoada por Nossa Senhora da
Assunção.
Marcelo Gurgel Carlos da Silva
Membro da Sociedade Médica São
Lucas
marcelo.gurgel@uece.br
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Publicado In: O Povo, de 26/03/13. Jornal do Leitor. p.1.
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