Por
Romeu Duarte Junior (*)
Está aberta a temporada de extermínio dos
papudinhos e dos biriteiros. O papagaio de pirata imaginário que vive aboletado
no meu ombro esquerdo, curioso que só, me pergunta qual a diferença entre os
dois tipos de pinguços. Respondo-lhe que o papudinho é aquele que vive para
beber enquanto o biriteiro bebe para viver por ter uma relação hedonista com a
vida. Insistente, o bicho me pergunta a qual categoria pertenço. Mando-o caçar
o que fazer. Trato o assunto na base do aniquilamento dos bebedores pelo fato de
sempre ter havido bebida falsificada à farta, porém nunca ao ponto de levar a
óbito aqueles chegados aos destilados. Algo assim deve ser considerado
homicídio doloso, cometido por quem tem a intenção de matar. Seria raiva de
quem molha o bico?
O clima anda meio complicado no ecossistema
(argh!) dos bares fortalezenses. Dia desses, um vereador com um nome esquisito
(e que não se perca por este) e daquele tipo que ninguém sabe como chegou à
Câmara, resolveu anunciar a morte do Seu Raimundo do Queijo. Comoção geral na
cidade. Meu celular quase pegou fogo de tanta chamada que recebeu. Equívoco
desfeito, baixou o espírito galhofeiro do Bode Ioiô propondo a festa da
ressurreição daquele que nunca morreu, agora monumento vivo. Pense num
regabofe, uma real manifestação de carinho e apreço do povo de Fort City pelo
nosso querido taberneiro. Uma penca de políticos esteve presente aproveitando o
ensejo para tirar foto com o dono do pedaço, entre eles o tal edil, que, além
de um duro carão, levou uma bela vaia...
Todavia, nem tudo por aqui é metanol
misturado à água que passarinho não bebe. Há alguns dias, o Paraíba,
proprietário do bar homônimo, inteirou cem janeiros com uma grande comemoração.
Aquele que talvez seja o botequim-raiz mais antigo ainda em operação em
Fortaleza (em disputa renhida com o Bar Vitória, no Centro) acha-se à Rua Dom
Jerônimo, 256, no Benfica, artéria esta em cuja extremidade sul encontra-se o
vetusto Solar dos Monte, lar do escritor e amigo Aírton Monte, o eterno
ocupante deste espaço de crônica. Mas, voltando ao Paraíba, o cabra é invocado,
faz o que quer e bem entende. A cachaça vem acompanhada de uma cumbuca com um
supimpa feijão gordo. O cliente elogia a iguaria e pede mais. Não há força
divina que faça o bodegueiro trazer o pedido.
Como já começa a nevar, as renas voam pelos
ares e as crianças fazem bonecos de neve nas calçadas, é hora de nos
prepararmos para as festividades de fim de ano. O Bar do Seu Nonato, na
heráldica Gentilândia, completará 65 primaveras de contínua existência e
resistência etílica neste dezembro. O estabelecimento é daqueles dotados de
balcão feito para criar calo nos resilientes cotovelos dos frequentadores. A
cultura lá é a da arenga mútua entre a turma do funil e o gentil (às vezes, nem
tanto) gerente da taberna, com chistes impagáveis, tiradas espirituosas e
piadas grossas, tudo o que caracteriza uma baiuca de escol. Por falar nisso,
escrevendo no sábado, já me organizo para pousar no Bar do Vicente e na
Embaixada. Sem essa de wine-bars, gastrobars e rooftops, caros meirelers.
(*) Arquiteto e
professor da UFC. Sócio do Instituto do Ceará. Colunista de O Povo.
Fonte: Publicado In: O Povo, de 13/10/25. Vida & Arte. p.2.
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