A colega doutora
Gente
boa o Neto, homem de bem com quem é bom estar. Servidor e simpático, sóbrio é
esse sujeito maravilhoso; lasca quando toma umas pôde a mais, aí é boneco
federal, o que não inibe em absoluto a percepção que dele temos acerca do
reconhecido valor humano. Sucede que o amigo, de poucas letras, aprontou de
novo e foi chamado a responder processo, aberto pela própria esposa em momento
de justificável aperreio.
E
já está ele diante da juíza - audiência remota. A competente advogada dá as
devidas orientações, no sentido de seu cliente tratar com "respeito e
educação a digníssima juíza". Que use termos condizentes, mantenha a calma
e responda apenas o que for perguntado. Mas vemos um Neto tenso, em risco de
baldear o juízo e botar a causa a perder.
A
advogada, cautelosa, reforça:
—
Ao dirigir-se à meritíssima juíza, chame-a de doutora! Ou de excelência! Ouviu,
Neto?
—
Na hora, dona Maria!
Final
da audiência e a douta juíza prolata:
—
Sr. Francisco Neto, pelo que vejo, o senhor, réu primário, não é pessoa má,
apenas mais uma vítima do álcool. Por isso, sua pena será a prestação de
serviços comunitários.
—
Obrigado, colega!!! Maravilha, colega!!!
Juíza
ouviu os "colegas" e se riu, entendendo o contexto. Pediu maternal:
—
Aproveite (o serviço comunitário) que é numa escola e estude. Seja decente e
brilhe!
—
Eita, dotorinha! A senhora é só o mí disbuiado!
Ô, taria!
Clarice
é esperta. Cinco aninhos e, ouvidos atentos, sabe muito bem o que dizem em
derredor, escutando com perfeição a coisa proferida. Estamos na casa da avó
Dijé que, na sala, assiste às arrumações do marido-vovô em brincadeiras
ingênuas com a netinharada ("calango na parede", "João
atrepa", "carrapicho"). Lá pelas tantas, Dijé solta a forma
foneticamente reduzida da palavra que, em seu uso informal, é utilizada para
descrever bagunça, injustiça, diversão, fulerage, cachorrada...
—
Ô taria!!!
Clarice,
vigilante, vai até onde está Dijé e, professoral, corrige.
—
Vó!!! Não é "taria"! É putaria! Aprende!
Fé muita, fé demais!
Primeiro
ano de namoro do casal e Leléo leva Madinha pra passar final de semana na casa
dos pais. Domingo bem cedo, é praxe, o jovem sai para o grupo de oração.
Madinha fica, entabulando boa conversa com a cunhada. 10 horas da manhã e a
moça sente cólicas - vontade urgente e súbita de evacuar. Corre em busca do
banheiro. De lá, liga encabulada pro namorado; ele, absorto no culto,
"pedindo, agradecendo e louvando o Senhor", não ouve a chamada. Uma,
duas, três tentativas... Até que deu certo.
—
Oi, amor! Jesus contigo!
—
Para, Leléo! O negócio aqui fedeu! Fala baixo! Não volte pra casa sem um...
—
... sem um bocado de louvores abençoados pra te embalar, nunquinha!!!
—
Não, Leléo! Não volte sem um desentupidor, o sanitário entalou! Tô no banheiro
da sala, traga sem fazer enxame!
Largando
vexado o culto, ele compra o desentupidor e, provando que o Senhor lhe tocou o
coração, um buquê de rosas. Em casa, Evangelho de João palpitando ainda,
entrega a "ferramenta de limpeza de desobstruir vasos sanitários" e
as flores, murmurando discreto, na porta entreaberta do banheiro.
—
Madinha, na casa de meu Pai há muitas moradas!
—
É? Então por que justamente na sua a privada enguiçou? Hein? Me fala!
Fonte: O POVO, de 17/07/2026. Coluna
“Crônicas”, de Tarcísio Matos. p.2.
