Por Pedro Salgueiro, cronista de O Povo
Sempre desconfiei de que nós, os
pobres escrevinhadores de vãs malfeitorias, não escolhemos o gênero literário
no qual vamos nos expressar
Talvez por preguiça, sempre tive
fascínio por textos curtos. Frases aparadas até quase o miolo. Gracilianos,
Rulfos, Moreiras e João Cabrais limando adjetivos. Procurando substantivos que
dispensem adereços, penduricalhos. Nenhum preconceito contra os caudalosos rios
Euclidianos, Proustianos, Joyceanos, Roseanos. Apenas predileção e pronto.
Ponto.
Sempre desconfiei de que nós, os
pobres escrevinhadores de vãs malfeitorias, não escolhemos o gênero literário
no qual vamos nos expressar. Mas ele, irremediavelmente, nos escolhe. Tenho
certo amigo que até para me passar um número de telefone conta seu dia
inteirinho. Outro, inquirido, me deixa apenas fragmentos de suas intenções.
Claro que alguns podem, e até devem ir contra a corrente. Deslizar rio acima,
olhos estufados de lama. Alma pesada, mas satisfeita.
Para mim, o "barato" é
tentar dizer o máximo com o mínimo de palavras. Mesmo sem quase nunca
conseguir.
Há tempos recebi convites dos
colecionadores Marcelino Freire (Os Menores Contos Brasileiros do Século XX) e
Laís Chaffe (Contos de Algibeira) para participar, com textos mínimos, de duas
coletâneas. Tomei gosto pela coisa. Resumi contos antigos. Li Haicais. Reli
Dalton Trevisan. Arrumei esmeril, comprei estilete. Lupa de relojoeiro, dedal
de sapateiro... Encontrei um cinzel.
Os perigos do laconismo, da
incompreensão total, da pura piada. Quase nunca encontramos o ponto certo. Mil
tentativas e pouquíssimos acertos. Vamos tentando pulverizar o mundo, atomizar
o cotidiano. Minimalistas que fomos. Minianimalista que somos. Ao pó que
retornaremos.
Alguns amigos, recentemente, têm
incorrido nessa prática de limar continhos já por demais curtos, numa quase
obsessão.
Resgatei alguns relatos mínimos
para distrair preguiçosos:
Mecanismo
Mesa posta. Pai, mãe e filho regem
o silêncio.
Preces.
Novamente.
Medo na Praça
Silêncio. O artista sua, lapida
suas preces. Aplausos. De novo. O silêncio.
Peso do morto
Noite sem lua. Rasga-mortalha.
— Dorme, pai. Deixa de falar só...
Já no meu segundo livro, "O
Espantalho" (1996) eu havia (em vão) tentado:
Daltonianas em Fá Menor
A mulher matou o marido. Mandou
matar em cima do túmulo. O único pecado dele trocar seu nome por outro e
acender velas todas as quartas-feiras.
* * *
Havia olhos fugindo de órbita, um
coração descompassado. Um medo de ir... outro de voltar.
Havia ossos enterrados no quintal e
um medo danado de assombração.
Havia uma multidão de adrenalinas e
uma certa dúvida...
* * *
Enquanto cancão brinca no quintal,
deixei muleta, um pé-de-cabra e uma bengala. Deixei um grito preso no elevador.
* * *
Antigas visitas já mortas retornam
à antiga sala de visitas. Cumprimentam o cadáver de minha mãe, recebem um aceno
eufórico de meu pai moribundo.
— Cala a boca, velho caduco, deixa
de falar só.
Grita a Suzete, lá da pia.
Fonte: O POVO, de 26/06/2026. Coluna
“Crônicas”, de Pedro Salgueiro. p.2.

