Por
Izabel Gurgel (*)
Por volta das cinco da tarde, Francisco
Finim sai de casa, no Moura Brasil, no Centro de Fortaleza, apetrechado para
pescar no mar à vista. Leva a tiracolo a balsa artesanal, feita por ele com
pranchas de isopor, sacos de ráfia e pedaços de madeira. Um primor de desenho,
de corte e costura manual, de reuso e aproveitamento de materiais. Fino
designer, fino design.
O acervo de gestos, cultivados em uma vida
de práticas de invenção, integra desde a feitura quanto o transporte da balsa e
remos, o manejo nas águas e na terra, na descida do morro até o mar, na subida
de volta à casa, com frutos do trabalho. Leva junto o galão, a rede sintética
que é uma operação entre vazio e cheio, leveza e peso. A rede é adornada com
chumbo para tanto submergir (a trama geométrica) quanto deixar a borda visível
e firme para lançamento e arrasto. A balsa, a pesca, a vida cotidiana constituem
uma rede quase invisível de agenciamentos para existir.
Dos altos do Moura Brasil, Finim faz o
caminho-serpentina descendo para a praia, cruzando a avenida Leste-Oeste, cuja
construção mudou os contornos de onde vive, desde a retirada de ruas e casas e
moradores ao barulho de grande circulação de veículos, constituindo um outro
espaço e um outro tempo.
Finim realiza o apelido incorporado quando,
ele ao mar, nosso ponto de vista partindo da sede do Nupac, vemos o pescador
como um risco na imensidão. O Nupac é o Núcleo de Patrimônio Cultural do Moura
Brasil, conduzido por Ismael Gutemberg e Débora Soares, na casa da família, na
'rua de frente' do morro. Finim é um risco na imensidão. No alto, eu o vejo
porque Ismael me ajuda a olhar.
Quando começa a remar, de costas para o
mar, de frente para a praia e a Cidade, Finim é um músico solista em concerto
sinfônico. Com seus instrumentos, e a orquestração para o encontro com o mar,
Finim toca o que tem de melhor. Eu o vi partir um dia, depois de fazer com ele
o caminho da casa à praia, Finim tão íntimo dos materiais de trabalho e do chão
onde pisa quanto aberto ao que pode ser que pensamos em quando um bailarino
dança.
Finim se lança ao mar dando as coordenadas
para Ismael melhor se posicionar e fotografá-lo. Que Ismael fosse pelo pontão
da marina do hotel de mesmo nome. Fazemos pelo pontão o percurso que Finim faz
nas águas. Finim músico, orquestra, maestro e música. Na plateia, Ismael e eu
nos deslocamos em paralelo até Finim nos ultrapassar, remando sem parar, indo,
seguindo, avançando rumo ao "endereço" onde quer chegar.
Ao longo do pontão, conversa com a gente,
da água para a terra, querendo me fazer ver como lhe é perfeita, na adequação
ao corpo exíguo, a balsa várias vezes revestida de sacos de farinha de trigo,
oriundos da padaria da família da Débora, nos altos do Moura. Com a proa feito
noiva do vento, Finim se distancia e nos acena com os remos: "Dona Izabel,
agora só oito horas". É o horário de retorno. À imagem de São Francisco e
os pássaros, acrescentamos a movente paisagem Finim e os peixes.
(*) Jornalista de O Povo.
Fonte: Publicado In: O Povo, de 12/04/26. Vida & Arte, p.2.

