segunda-feira, 2 de novembro de 2026

DIA DOS FINADOS: relembrando nossos pais Luiz e Eldinha

Papai e maãe, Luiz Carlos da Silva e Elda Gurgel e Silva, respectivamente, 82 e 91 anos ao falecerm e com 52 anos vida conjugal.

Foram muitos problemas e dificuldades que superaram juntos, buscando sempre a união e a harmonia familiar.

Também nos deixaram exemplos de honestidade, coragem e ensinamentos cristãos.

Hoje, na passagem do Dia dos Fiéis Falecidos, só temos a agradecer por sermos teus filhos e netos.

Saudade e amor eternos dos teus filhos que preservam tão caras lembranças dos progenitores.


Em nome do pai, do filho e do neto

Por Tales de Sá Cavalcante (*)

A palestra da cientista Margareth Dalcolmo, na Academia Brasileira de Letras, foi brilhantemente sintetizada pelo acadêmico da ABL e articulista na Folha de São Paulo Ruy Castro, quando nos trouxe a preocupante notícia de que, no Brasil, nas duas próximas décadas, teremos mais idosos acima de 60 anos do que jovens menores de 15. Se os mais jovens sustentam os aposentados, como será o futuro?

Hoje muitas famílias têm apenas um filho ou nenhum. E alguns preferem ter como filhos seres vivos e/ou inanimados. O biógrafo Fernando Morais nos lembrou: quando o Brasil ainda não fabricava bicicleta, o cearense Marechal do Ar Casimiro Montenegro Filho imaginou que poderíamos fabricar aviões. Em 1943, ao visitar o MIT, o cearense concluiu: antes de produzirmos aeronaves, precisamos produzir engenheiros. Surgiu, então, um notável filho de Montenegro: o ITA.

Moro em Messejana e não acho longe por seguir Antenor Naspolini ao dizer que a sua casa de praia na Redonda não é longe, fica a 2 CDs de Fortaleza. Com esta unidade de distância quase extinta, mas de conteúdo eterno, eu gasto menos de um CD da casa ao escritório.

A deslocar-me, pela BR-116, de minha residência ao trabalho, contemplo o crescimento de uma edificação que comparo ao de uma pessoa na infância, adolescência e fase adulta. Antes eu via uma criança em choro a desejar servir aos cearenses e aos que aqui viessem em busca da excelência.

A edificação se erguia e via sua juventude na música de Luiz Gonzaga e Zé Dantas ao nos ensinar: "Mandacaru quando fulora na seca é o sinal que a chuva chega no sertão, toda menina que enjoa da boneca é sinal que o amor já chegou no coração. (...) Ela só quer, só pensa em namorar. Mas o doutor nem examina. Chamando o pai de lado, lhe diz logo em surdina que o mal é da idade e que pra tal menina não há um só remédio em toda medicina".

E, agora, já na fase adulta, como noiva, prepara-se para uma próspera união, de vez que se realizará em novembro o casamento das letras, A, C, E, I, R e T. Da união, nascerão brilhantes filhos descendentes de um neto cearense com o próprio Ceará. O enlace será chamado de ITA-Ceará. 

(*) Reitor do FB UNI e Dir. Superintendente da Org. Educ. Farias Brito. Presidente da Academia Cearense de Letras.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 17/09/26. Opinião, p.14.


domingo, 1 de novembro de 2026

Lula acerta ao proibir as bets

Por Alexandre Sobreira Cialdini (*)

Acertadamente, o presidente Lula proibiu, no território nacional, a exploração, a oferta, a intermediação e a publicidade de loterias de apostas de quota fixa, conhecidas como bets, em meio físico ou virtual.

A proibição alcança também agentes sediados no exterior que ofereçam esses serviços a pessoas localizadas no Brasil.

O crescimento exponencial do mercado de apostas online no país trouxe severas externalidades econômicas, sociais e de saúde pública. Estudos de neuroeconomia ajudam a compreender esse fenômeno ao mostrar como as plataformas digitais se valem de vieses cognitivos que influenciam a tomada de decisão. Entre eles está o desconto hiperbólico — tendência de valorizar recompensas imediatas em detrimento de benefícios futuros —, além de mecanismos neurobiológicos associados à expectativa de recompensa.

O Sistema Único de Saúde (SUS) registrou aumento nos atendimentos relacionados a transtornos associados ao jogo nos últimos anos. Foram 2.262 atendimentos em 2023 e 3.490 em 2024, uma alta de 54%. Entre janeiro e junho de 2025, o sistema contabilizou 1.951 atendimentos.

No campo econômico, os efeitos da expansão das bets também são desastrosos. Estudos indicam que 43% dos apostadores utilizam nas plataformas recursos que seriam destinados a despesas essenciais. Entre os gastos afetados estão contas básicas (13%), pacotes de conectividade (15%) e alimentação (12%). Além disso, 24% dos apostadores frequentes tiveram seus CPFs negativados junto aos serviços de proteção ao crédito.

A dimensão social e sanitária do problema pode ser observada nas estimativas do Instituto de Estudos para Políticas de Saúde (Ieps). A entidade calcula que o custo social associado ao jogo problemático alcance R$ 38,8 bilhões por ano, dos quais R$ 30,6 bilhões estariam relacionados a consequências sanitárias diretas.

Desse montante, R$ 13,4 bilhões corresponderiam ao tratamento de transtornos mentais e R$ 17 bilhões, aos impactos relacionados à mortalidade e às tentativas de suicídio motivadas pelo colapso financeiro. Nos últimos cinco anos, registrou-se um aumento de 140% na busca por atendimento na rede pública em razão da dependência em jogos.

Estudos conduzidos pela consultoria LCA demonstram que o mercado clandestino ou irregular de apostas representa entre 38% e 44% do mercado total no país. Considerando uma carga tributária projetada de 27% sobre a atividade regular, a evasão fiscal provocada pelas plataformas ilegais pode alcançar R$ 10,8 bilhões por ano em receitas não recolhidas.

Longe de constituir uma interferência arbitrária no livre mercado, a proibição total operou como uma intervenção sanitária, social e financeira diante dos danos causados por um setor estruturado sobre falhas cognitivas sistêmicas. O estancamento da drenagem orçamentária constitui o primeiro passo para a reabilitação do consumo produtivo real.

(*) Mestre em Economia e doutor em Administração Pública e Secretário de Finanças e Planejamento do Eusébio-Ceará.

Fonte: O Povo, de 1/10/26. Opinião. p.15.


O DONO DO MUNDO

Por Raimundo Padilha (*)

Quem é o dono do mundo? No plano celestial achamos que é Deus mas, na sua santa humildade, ele assim não se considera. No plano terráqueo, há quem se considere. Mera ilusão. Há quem se considere dono do mundo, ou pensa que é o Deus da terra.

E, talvez, até se considere imortal. Este é o caso de Donald Trump. O fato de dirigir a maior potência do Globo terrestre não lhe dá o direito desta titularidade. Mas, será que ele chega a pensar desta forma? Se assim for, é o caso de absoluta insanidade. E, se confimado o desvio de personalidade, a culpa é de quem o elegeu.

À meu juízo, só há um momento em que ele não se "acha". É quando na sua mente aparece a China. Neste espaço, ele vê como ameaça aos seus sonhos de loucura. E na velocidade do crescimento chinês, em pouco tempo, o poder econômico mudará de mãos. O jogo está jogado e a ameaça está próxima.

Mas ele é dono de cassino. As últimas medidas adotadas pelo Sr. Trump, não obstante as suas falsas manifestações de glórias, demonstram imaginar a titularidade do poder global. Falácias, simples falácias que amaciam o seu ego. A falta de respeito à soberania de outros países, podem, em alguns casos ganhar pela força, mas não pelas leis que fazem o nosso arcabouço jurídico-institucional.

Prender o Presidente da Venezuela pela força é uma coisa, pensar que acaba com a guerra da Rússia com a Ucrânia em 24 horas, é outra coisa e perder a guerra contra o Iran, são coisas que demonstram a sua relativa fragilidade ou visível insanidade.

Os seus ataques com os tarifaços, inclusive contra o Brasil, podem ser o ócio de um presidente, que enquanto pratica a matança podia estar cuidando da saúde e da desigualdade entre os povos. A ameaça que existe à soberania americana ele não ver ou não tem condições de demovê-la.

A corrida tecnológica contra a China, por exemplo, é uma guerra perdida. Mas, o Sr. Trump está preocupado com questiúnculas de países que não lhes causam ameaças, como Cuba, Venezuela e Brasil. Trocar a nomenclatura de um Ministério da Defesa por Ministério da Guerra, é pensar pequeno ou ter espírito de perseguição.

Sr. Trump faça PAZ, não faça GUERRA. Sr. Trump o mundo sofre com a saúde e com as desigualdades econômicas. Pense nisto. Torne o mundo menos desigual. Olhe para a África e a ajude.

Ou será que além de prepotente o Sr. também é racista? Seja Presidente de um País mais rico ajudando os mais carentes e não estimulando o seu arsenal bélico e matando inocentes. O exemplo que o Senhor deu na ocupação do Capitólio foi vergonhosa por ter perdido legitimamente a eleição. Logo mais, daqui a dois anos, o Sr. estará fora da Presidência dos Estados Unidos e talvez tenha que voltar a ser croupier dos seus cassinos, e disto é que o Sr. entende.

(*) Economista, professor aposentado da UFC e membro da Academia Cearense de Economia.

Fonte: O Povo, de 1/10/26. Opinião. p.15.


sábado, 31 de outubro de 2026

DO DESEJO E DO DEVER

Por Romeu Duarte Junior (*)

Gostaria de estar aqui falando da beleza deste setembro, do vento esparzindo o pólen do amor das árvores primaveris, terror também de quem sofre de rinite alérgica. Dos cajus e das mangas que já balançam coloridos nos galhos, atiçando o nosso paladar. Dos ipês amarelos que adornam a escaldante Domingos Olímpio, a que emprestam uma providencial e ligeira sombra. Das flores róseas do pé de jasmim-manga do maltratado jardim do meu escritório, um bouquet que ofereço a quem passa de carro ou a pé pela Antonio Sales. Dos pés de sapoti do jardim da Reitoria da Universidade Federal do Ceará (UFC), com suas verdejantes e densas copas, uma verdadeira festa para os olhos. Da chuva de caju que desce do céu fininha, apenas para garantir o fruto da planta sem derrubar as flores já grávidas.

Gostaria de estar aqui falando da maravilha que foi o congresso brasileiro de arquitetos realizado em Fortaleza em agosto, quando reencontrei festivamente amigos que há muito não via. Do colega e ativista social Pritzker de Burkina Faso dando um show de coerência e humildade no evento. De ver meus alunos, que poderiam ser meus netos, atentos a tudo, aprendendo as coisas no ar. Do livro do professor José Liberal de Castro, talvez o maior compêndio sobre a arquitetura cearense já lançado, que conta, entre outras apresentações, com o meu prefácio, eu que o substituí (se é que alguém substitui José Liberal de Castro) no Instituto do Ceará. De rever "2001 Odisséia no Espaço", de Stanley Kubrick, e de assegurar a letalidade da inteligência artificial. É ou não é isso, Mr. HAL 9000?

Gostaria de estar aqui falando do semblante emocionado e feliz da minha filha Isabel em seu casamento na Igreja de Nossa Senhora da Conceição do Seminário da Prainha. Das muitas quedas que tenho levado nas últimas semanas, causadas talvez pela vista cansada, mesmo auxiliada por óculos novos, ou pelo excesso do consumo da água que passarinho não bebe. Das gostosas colunas do Clóvis Holanda, do Demitri Túlio, da Izabel Gurgel e do Paulo Linhares, publicadas aos domingos no O POVO. Da saudade que sinto da coluna do meu amigo Lúcio Brasileiro, o cara que ensinou todo mundo a usar os talheres de forma correta. Das lembranças que tenho do meu pai, da minha mãe e da minha tia, imortais. Da Base Aérea que vivi e desaparece. De tanta coisa...

Todavia, a brutalidade da realidade cotidiana se impõe e me faz refletir sobre assuntos nada amenos. Crônica não é conto, ela retrata o hoje e amanhã, como dizia o preclaro Airton Monte, só serve para embrulhar peixe, embora algumas delas sobrevivam ao tempo. O STF transformado em lixeira, com ministros de togas enlameadas brigando através de ofícios. O ex-banqueiro e atual presidiário que, do xilindró, dirige os rumos da política brasileira. Os homens de bem que prezam Deus, a família e a pátria de dia e embarcam à noite na suruba da Madame Satã. O candidato da extrema direita que tem como planos apenas livrar o pai da cadeia, trazer o irmão para o Brasil e entregar o país aos EUA. Os pobres de direita que não enxergam nem querem ver. É, leitor, o Brasil me cansa.

(*) Arquiteto e professor da UFC. Sócio do Instituto do Ceará. Colunista de O Povo.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 14/09/26. Vida & Arte. p.2.


PARTICIPAÇÃO NA ANTOLOGIA “FORTALEZA EM DOSE PLENA”

Os autores sobramistas presentes no lançamento da antologia “Fortaleza em Dose Plena”, da Sobrames/CE, ocorrido no Centro de Eventos do Ceará, em 30/10/2026. (Fotografia cedida por Orlania Dutra).

Aconteceu na noite de ontem (30/10/26), no Centro de Eventos do Ceará durante o XXXVII Outubro Médico, o lançamento de Fortaleza em dose plena, a Antologia da Sobrames de 2026, produzida sob a nossa organização, em colaboração com a secretária Orlânia Dutra, reunindo contribuições literárias de 61 sobramistas, dos quais 55 médicos.

Além da apresentação da obra e de duas homenagens póstumas, nela publiquei seis causos inéditos da nossa autoria, todos eles relacionados com Fortaleza, que neste ano comemora seus 300 anos São eles: “Vadiagem e viadagem nos tempos do “homem da lata” em Fortaleza” (p.212-212), ”Barreira versus Severiano” (p.213-214), “A rifa do avião da FAB em Fortaleza” (p.214-215), “Secretário defende consumo de ratos” (p.215-216), “O pênalti perdido” (p.216-216) e “Sessão ou seção” (p.217-217).

Esse material será postado, oportunamente, neste blog, observando a sequência citada.

Marcelo Gurgel Carlos da Silva

Organizador da Antologia da Sobrames/CE

sexta-feira, 30 de outubro de 2026

Quando a esperança precisa de companhia

Por Pe. Eugênio Pacelli SJ (*)

Setembro nos apresenta duas convocações distintas. A Igreja no Brasil celebra o Mês da Bíblia, iluminado em 2026 pelo Livro de Daniel; a sociedade vive o Setembro Amarelo, dedicado à prevenção do suicídio e à saúde mental. Ambas, porém, nos levam à mesma pergunta: como permanecer ao lado de quem atravessa a noite?

Daniel nasce da experiência de um povo no exílio, sob poderes aparentemente invencíveis. Seu anúncio — "Seu reino jamais será destruído" — não foge da realidade. Afirma que nenhuma circunstância possui a palavra definitiva sobre a vida. A esperança bíblica não ignora o medo nem encobre a dor; abre espaço para atravessá-los em companhia.

Precisamos compreender que a fé não exige de ninguém uma aparência de fortaleza. Há sofrimentos que pedem oração; há outros que necessitam de acompanhamento psicológico ou médico; muitas vezes, precisam de tudo isso junto. Procurar ajuda não revela falta de fé. Pode ser, ao contrário, um gesto de lucidez, humildade e coragem.

A espiritualidade inaciana ensina a reconhecer os movimentos interiores: aquilo que amplia a vida e aquilo que nos fecha na solidão, na desesperança e no silêncio. Discernir não é observar a vida à distância, mas escutar com honestidade o que se passa em nós e permitir que alguém se aproxime. Deus também cuida pela ciência, pelos profissionais da saúde, pelos amigos e pelas comunidades capazes de acolher sem julgar.

Neste Setembro Amarelo, a Igreja é chamada não apenas a falar sobre a vida, mas a se tornar presença que a protege. Isso exige comunidades atentas, o abandono de respostas simplistas e a compreensão de que frases religiosas, quando usadas para apressar a dor do outro, podem aumentar seu isolamento. Muitas vezes, o cuidado começa quando deixamos de explicar e escolhemos permanecer.

O Livro de Daniel recorda que os impérios passam e que o Reino de Deus se manifesta onde a dignidade resiste. Talvez uma das expressões mais concretas desse Reino, hoje, seja uma pessoa dizendo a outra: "Você não precisa enfrentar isso sozinho". Pedir ajuda é abrir uma fresta para a esperança. Oferecê-la é fazer da fé uma companhia viva.

(*) Sacerdote jesuíta e mestre em Teologia. Escritor. Diretor do Mosteiro dos Jesuítas de Baturité e do Polo Santo Inácio. Fundador do Movimento Amare.

Fonte: O Povo, de 24/09/2026. Opinião. p.14.


 

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