terça-feira, 16 de junho de 2026

53 anos da Faculdade de Educação Ciências e Letras do Sertão Central

Por Pe. Francisco Artur Pinheiro Alves (*)

Neste dia 10 de maio, a Feclesc completa 53 anos de história. Criada por lei municipal, pela Câmara Municipal de Quixadá, em 10 de maio de 1973, a Faculdade passou por várias etapas, numa luta contínua por sua consolidação como instituição de ensino superior na região do Sertão Central.

Sua primeira denominação foi Faculdade de Filosofia de Quixadá. Nesta fase inicial tinha como mantenedora a Prefeitura do Municipal de Quixadá.

Em 1976, percebendo-se que não cabia ao município, manter uma instituição de nível superior, foi criada a fundação Educacional do Sertão Central - Funesc, para ser a mantenedora da faculdade. Na ocasião foi também mudado o seu nome, passando a denominar-se Faculdade João XVIII, em homenagem ao Papa homônimo.

Neste período conseguiu instar-se em um terreno de 10.000m², doado por um cidadão local, sr. Joaquim Gomes da Silva, conhecido carinhosamente como Sr. Quinzinho. Foi construída sua sede, com um bloco administrativo e uma Biblioteca e dois blocos de sala aula.

Em 1983, foi encampada pela Fundação Universidade Estadual do Ceará, dentro de um projeto de expansão que contemplou outros municípios, dentre os quais, Iguatu Crateús, Itapipoca, Limoeiro do Norte.

Inicia-se uma nova fase com a realização de concurso público para professores. Os primeiros cursos são criados, vestibulares foram realizados semestralmente e a foi assim, florescendo. Houve uma interrupção na oferta de vestibular, mas foi superada, com a organização e entrega dos projetos profissiográfico dos cursos, pela UECE, junto ao Conselho Federal de Educação.

Após esta fase, novos concursos aconteceram, foi feita uma reestruturação acadêmica, com a criação dos departamentos, a aprovação do Regimento interno, a criação do Curso de Letras, a construção da Residência Universitária, novos blocos de sala de aula, laboratórios de Ciências, auditório e mais concursos, agora para Mestres e doutores.

Hoje, além dos cursos iniciais, Feclesc tem novos cursos e avança na Pós- Graduação, com Mestrados e o primeiro Doutorado, consolidando-se como instituição de nível superior, na região e no interior do Estado.

Oficialmente a Feclesc está comemorando 43 anos, contagem que se inicia com sua anexação pela Uece. Como estudioso e testemunha de sua história, defendemos que esta data seja mudada, já que 10 anos antes da anexação a Feclesc já existia, conforme foi descrito no início deste texto.

Com 43 ou 53 anos, a Feclesc ainda é criança, comparada às universidades e Faculdades nacionais e internacionais. Mesmo ainda na sua infância, ela já deu um grande contributo à região na qual está inserida e dará muito mais no porvir. Viva a Universidade Pública e gratuita, viva a FECLESC, que está contribuindo, com outros centros e faculdades da Uece, com a democratização do acesso à educação superior do Ceará.

(*) Diretor da Fecelsc entre 1992 e 1996.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 14/05/26. Opinião. p.17.


Os nossos "Gulags" de cada dia

Por Carlos Roberto Martins Rodrigues Sobrinho (Doutor Cabeto) (*)

O arquipélago é longe, distante dos olhos e da compreensão. Sua história, para muitos, permanece desconhecida. Atravessa o tempo como um desconforto silencioso. Não se alcança facilmente a dimensão do absurdo.

Os "Gulags" modernos já não precisam de ilhas ou campos congelados. O medo tornou-se mais eficiente do que as antigas grades. Hoje, aprisiona-se sem muros aparentes. A violência contemporânea raramente se manifesta apenas pela força física; ela se instala no medo e no constrangimento permanente, na sensação de impotência. Tem raízes nas heranças familiares, tradições políticas e sociais que se reproduzem de geração em geração.

A insistência contínua do poder cria a impressão de mudança. Promessas são repetidas até adquirirem aparência de verdade. E talvez plantar esperança também possa ser uma forma sofisticada de ilusão. Do latim illudere: ludibriar, fazer troça de alguém.

Foi assim que comecei minha reflexão de domingo. Talvez o único momento em que permito ao pensamento sem amarras, conduzido por livros, músicas, memórias e antigos textos. Uma espécie de reencontro com a infância, quando literatura, poesia e rebeldia conviviam naturalmente.

Vivo no Ceará, terra que usa a ironia contra si mesma como forma de suportar o sofrimento, que produz poesia mesmo na escassez: "Sei que aí dentro ainda mora um pedacinho de mim; um grande amor não se acaba assim". Mas também uma terra marcada por estruturas de poder persistentes, que apenas trocam de roupa ao longo do tempo, sem jamais abandonar os velhos acordos.

Aqui, o "mecanismo" frequentemente encontra aceitação na subserviência secular imposta ao nordestino. De tempos em tempos surgem novas narrativas salvadoras, novos discursos, promessas que parecem convincentes no início — tudo dentro de uma única existência humana.

Escutei atentamente cada uma delas. Ouvi justificativas pragmáticas, discursos cuidadosamente construídos para explicar a realidade. Não sou ingênuo. Não acredito em fadas. Sei que gente é gente, submetida às circunstâncias, à sobrevivência e às conveniências. Nesse processo, quase tudo se justifica.

Até a religião, por vezes, serve para anestesiar consciências e acomodar meias verdades. Ainda assim, considero-me um homem de fé. Creio no aperfeiçoamento espiritual como força capaz de construir futuros melhores para as próximas gerações. Mas isso não me impede de reconhecer a maldade, suas múltiplas formas e sua capacidade de retardar a evolução humana.

Apesar de tudo, continuo sonhando. Não no imediatismo, mas no tempo longo da natureza e da história.

Enquanto isso, que venham mais poesias, mais críticas e mais coragem. Talvez assim ainda seja possível acreditar que o nordestino continua sendo, antes de tudo, um forte.

(*) Médico. Professor da UFC. Ex-Secretário Estadual de Saúde do Ceará.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 16/05/2026. Opinião. p.23.


segunda-feira, 15 de junho de 2026

Mães no labirinto da Prainha do Canto Verde

Por Izabel Gurgel (*)

Aíla faz labirinto com a malha bem fina. Bordado rendado ou renda bordada, ofício de agulha e linha, o labirinto refaz um tecido previamente desfiado. O desfiado segue o risco do desenho a ser executado. E o corte correspondente, resultando na "malha, na trama". Aíla conhece todas as etapas do trabalho. "Não sou boa de risco. O corte, não é toda pessoa que faz. Corto reto, mas não corto enviesado. A Prainha do Canto Verde tem três cortadeiras". Aíla aprendeu com a mãe, Francisca. Órfã desde cedo, dona Francisca aprendeu com a avó materna, dona Júlia, que foi sua mãe.

Aíla Maria da Silva Fernandes tem 62 anos. Dona Francisca Pereira da Silva, 86, segue fazendo labirinto. O trancelim do aprender e ensinar, a transmissão, no caso das duas, nomeia-se em cinco gerações. Aíla se enche de graça ao citar a filha labirinteira. "Tem coisa que Jaíla faz até melhor do que eu". Jaíla tem 32 anos. Casada, mora na vizinha Sucatinga. Os dois lugares ficam em Beberibe, limite da região metropolitana de Fortaleza no litoral leste.

A malha bem fina resulta no labirinto mais perto das filigranas de uma joia. Quem viu peças embaladas, percebe o trabalho de minúcias, que nos fez pensar no silêncio sinônimo de acolhimento de enxovais de bebê com bordados mínimos, o gesto do cuidar e do cultivo de uma calmaria necessária, invocada, quase impossível para os dias de sobrecarga de uma mãe.

Ouvi de mulheres labirinteiras, em outras praias do Ceará: o mar tem seca. A pesca artesanal tem período de paradeiro. Faz-se labirinto o ano todo. Nosso entendimento do trabalho das mulheres como complementação da renda familiar talvez seja equivocado. É sustento não só da casa, da família. Sustenta o mundo, sabemos.

Aprendemos a dizer e ver e reproduzir vila de pescadores e, mesmo sabendo que onde tem pesca (tem rede) tem renda, nunca dizemos vila de rendeiras. Equivocado como associar o fazer renda apenas à zona de praia. Um dos registros mais antigos de ensino da renda no Ceará data de 1760 e se refere à escola em vilas indígenas, ação jesuítica, desde a atual Viçosa, na Ibiapaba.

"Aprendi com a minha mãe. Amava ver minha tia e avó fazendo, lavando, colocando no grude", conta Jaíla. Aíla se reporta às oficinas que ministrou na escola, a filha por perto. Escuto, uma vez mais, Aíla dizer das etapas do labirinto: riscar (antes com lápis, hoje usa uma caneta cuja tinta se apaga quando a peça é passada a ferro), cortar, desfiar, encher, torcer, casear, fazer o paletão, o acabamento/recortar, lavar com grude de goma para, literalmente, engomar quando passar a ferro.

Um contundente mapa dos cearás do Ceará pode ser fiado no algodão, no linho, na seda, em caminhos cruzados, entrelaçados, riscando diminutos e vastos territórios. De mãos sempre ocupadas e olhos a cuidar das crianças no terreiro, do plantio de quintal, do fogo da casa, as mulheres tratam de nascimentos e mortes e de quase tudo que acontece no intervalo entre um e outro.

(*) Jornalista de O Povo.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 10/05/26. Vida & Arte, p.2.


A Fundação Elmo e o galo para Asclépio

Por Marcelo Alcântara Holanda (*)

"Críon, devemos um galo a Asclépio; não te esqueças". Essas foram as enigmáticas palavras de Sócrates, imediatamente antes de cumprir sua sentença de morte em Atenas, em 399 a.C. O galo representava um sacrifício ao herói deificado da Medicina na Grécia antiga, em "pagamento" pelas curas alcançadas. Intérpretes modernos veem aí uma crítica do filósofo à decadência daquela pólis, doente por matar quem trazia luz e sabedoria em tempos difíceis.

Maio de 2026, 25 séculos depois. Nasce a Fundação Elmo para Suporte à Saúde Respiratória. Em seu nome, carrega uma homenagem a todas as instituições e pessoas que participaram do maior "case" de inovação em saúde durante a pandemia de Covid-19: o capacete Elmo. Desenvolvido pela Funcap, UFC, Unifor, ESP/Sesa, Senai/Fiec e produzido pela empresa Esmaltec, o dispositivo salvou milhares de vidas em todo o Brasil e, em particular, onde foi criado, no nosso Ceará, um dos estados com menos recursos econômicos do País (Gomes G. et al. Helmet CPAP in 1,685 Patients with Covid-19. Chest Critical Care, 2026; 4).

Sua missão: realizar e apoiar ações em benefício da saúde respiratória por meio de quatro pilares: pesquisa, inovação, ensino e memória. Como na Atenas de Sócrates, temos nossas mazelas sociais e no setor da saúde: o negacionismo, a falta de coesão social, as fragilidades do SUS e da rede suplementar, a crise na formação de profissionais, a falta de articulação com o setor industrial, entre outras.

Ao povo cearense, oferecemos uma instituição em prol da respiração suave e saudável que nos permita a vida plena, não como um sacrifício por bens alcançados, mas como dádiva de esperança, potência, união e pacto por tempos melhores e mais resilientes diante das inevitáveis endemias de hoje e das pandemias de amanhã. Bem-vinda, Fundação.

(*) Médico pneumologista intensivista. Professor associado da UFC.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 12/05/2026. Opinião. p.16.


domingo, 14 de junho de 2026

MARGARETH DALCOLMO: entre a literatura e o compromisso com a ciência IV

Por Ana Rute Ramires, jornalista de O Povo.

OP - E o que se esperar de um bom médico?

Margareth - O médico que eu digo não é o médico do futuro, é o médico de agora. Se exige grande qualificação técnica, exige que ele seja formado com noções muito precisas e sólidas de pesquisa, trabalhar em equipe, ninguém trabalha sozinho, ele tem que aprender a trabalhar em equipe desde que entra na escola médica, ter uma noção de gestão, ninguém pode ter de capacidade, desenvolver uma capacidade liderança. Então, ser qualificado para líder, líder de equipe, líder de grupo, líder do seu laboratório. Isso é uma exigência que se faz, ter noções de tecnologia de informação. Ninguém hoje pode ser formado sem saber lidar com o programa de computador para interpretar, para saber ler um artigo científico. Até para você ler um artigo científico, você olha um gráfico para saber interpretar aquilo, né? E hoje nós vemos que até isso é falho. Essas são qualificações que eu julgo indispensáveis na formação de um médico. E por fim, e não menos importante, ser formado e receber sólidos conhecimentos de humanidade. Isso vem muito da educação que ele recebe em casa, naturalmente. Não é a faculdade que vai ensiná-lo, mas a faculdade vai resgatar o que ele recebeu. E se ele não recebeu nada, vai ter tentar incorporar na sua formação conhecimento de humanidade. Hoje, as grandes escolas médicas do mundo — e quem começou isso foi a faculdade de medicina de Harvard, nos Estados Unidos — estabeleceram um curso de humanidades. Humanidade significa um médico ler, ver arte, visitar museus, entender que existe muito da obra de arte, muitas obras de arte que nós vemos nos museus e que são lindas. Não adianta olhar e não saber o que tá vendo. (...) Então, assim, eu acho que dar essa chance ao médico de sair um pouco daquele ambiente e pensar um pouco sobre o livro, sobre literatura, tudo isso faz parte do da formação do que eu julgo um bom médico.

Por Ana Rute Ramires, jornalista de O Povo.

OP - Doutora, para finalizar, eu queria que a senhora falasse um pouquinho sobre a pesquisa sobre a qual a senhora tá se debruçando atualmente, que é a paradigma TB. Queria que a senhora explicasse um pouquinho sobre esse ensaio clínico.

Margareth - Nos últimos 30 anos, eu venho me dedicando à pesquisa na área da tuberculose, tentando responder como nós podemos humanizar o tratamento e melhorar a eficácia dos tratamentos. Isso junto com outros pesquisadores da Fiocruz e de outras instituições brasileiras, o Brasil teve chance de participar dos principais ensaios clínicos desenvolvidos nos últimos 25 anos. Eu participei da mudança de tratamento. O Brasil foi de novo pioneiro ao assumir o tratamento de curta duração para formas graves e resistentes de tuberculose. E nós participamos dos estudos que geraram essa informação que permitiram essa tomada de decisão. E, nesse momento, agora, é de novo, através de quatro instituições brasileiras, três da Fiocruz e a outra é da Universidade Federal do Rio de Janeiro, nós estamos começando a participar de um novo estudo internacional cujo objetivo é responder se será ou não possível. A tuberculose ainda tem um tratamento muito longo que dura seis meses para as formas sensíveis e nós queremos responder se é possível com a adição de dois fármacos novos, ainda em fase clínica, se será possível ou não reduzir o tempo de seis para quatro meses. Tudo indica que sim, os resultados dos estudos preliminares até agora mostram resultados muito favoráveis e nós seremos protagonistas de uma resposta histórica mais uma vez e isso nos dá muita alegria.

Um fato que eu gostaria de registrar é que a comunidade acadêmica brasileira, apesar do conservadorismo de alguns, manteve uma capacidade de compromisso público muito grande. Temos vários exemplos. Com todas as adversidades, o Brasil, foi o 10º país que mais publicou em relação à Covid-19 e houve experiências brasileiras que ficam pra a história. E uma delas se deu aqui no Ceará, que foi através de pesquisadores do Ceará, a criação de um mecanismo que salvou muitas vidas. E uma das razões pelas quais eu estou aqui é a Fundação Elmo. O Elmo é um equipamento que foi criado, como eu disse, pelos pesquisadores cearenses, enquanto em São Paulo, grupos da USP participavam de estudos clínicos, enquanto nós participávamos na Fiocruz de estudos da vacina. Aqui, pesquisadores criaram um dispositivo que atendeu pacientes com grave insuficiência respiratória e que, a meu juízo, não tem um número preciso, salvou milhares de vidas, dezenas de milhares de vidas. Isso tem que ser registrado porque isso gerou uma premiação, através do professor Marcelo Alcântara, daqui do Ceará, e gerou a Fundação Elmo que hoje nós estamos aqui para prestigiar. Então, de certa maneira, eu quero dizer que a despeito de todas as dificuldades pelas quais nós conversamos, a comunidade científica e acadêmica brasileira demonstrou uma enorme capacidade de trabalho, um compromisso público absolutamente inegável e uma criatividade que propiciou algo que fica registrado pra história, não é pra história para ser esquecido, é para ser usado. Então isso faz muita diferença e eu faço questão de registrar.

LIVRO

A pesquisadora lançou o livro "Um tempo para não esquecer – A visão da ciência no enfrentamento da pandemia do coronavírus e o futuro da saúde", em 2021. A obra compila artigos que narram a batalha contra a Covid-19, analisando evidências científicas, vacinas e o cenário da saúde.

ELMO

Dalcolmo esteve em Fortaleza em maio e participou do lançamento da Fundação Elmo, instituição de suporte à saúde respiratória. Ela foi uma das homenageadas na cerimônia, junto da pneumologista Márcia Alcântara.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 8/06/26. Páginas Azuis. p.6-7.


MARGARETH DALCOLMO: entre a literatura e o compromisso com a ciência III

Por Ana Rute Ramires, jornalista de O Povo.

OP - Nesse período, também se acentuou a questão que o discurso de alguns profissionais se misturava com questões políticas e ficou muito evidente o caráter bem conservador da categoria médica. Como é que foi isso pra senhora? Como é que a senhora observa os impactos negativos disso durante esse período de crise?

Margareth - Olha, eu não acredito em inocência, digamos assim, como um princípio. Tudo tem um, o que eu chamaria um dolo. No sentido de que você tem que ter um propósito. Nada é inocente. Dizer que a ciência não pode ser politizada é uma ingenuidade. Ela pode ser para o mal, mas ela também pode ser para o bem. Houve uma coisa muito curiosa. Em 2020, nós não tínhamos vacina, nós tínhamos uma pandemia que crescia e se alastrava pelo Brasil de maneira muito dramática. E nós começamos a vacina sazonal pra gripe, pra influenza no meio do outono, no mês de abril, nós nunca vacinamos tanta gente porque as pessoas acorriam aos centros de saúde achando que vacinar para a gripe protegia contra Covid. Olha que coisa incrível. Isso, naquele momento, começou a ser contaminado, a partir daquele momento, por um discurso e por essa retórica nociva a qual eu me referi de que vacina não protegia. Desde as minhas primeiras entrevistas, eu disse uma frase… Qual é a arma mais preciosa que nós temos para viroses agudas de transmissão respiratória? Não é remédio. Remédio é para virose crônica. Então, hoje nós tratamos viroses crônicas como aids, infecção pelo HIV, hepatite C, para isso tem remédio. São viroses crônicas de outra evolução. Viroses de transmissão aguda respiratória, a grande arma é vacina. E nós sabíamos disso, aprendido há décadas pelo sarampo. Como é que nós conseguimos eliminar o sarampo? Porque é a virose que mais rapidamente se transmite, uma pessoa transmite para 15 outras. Nós sabíamos que a arma era essa. Mas, desde o início, médicos não necessariamente são conservadores por natureza. Mas existia naquele momento uma polarização no País que já era óbvia. Porque havia uma fratura, digamos assim, social que já se havia demarcado pelo processo eleitoral. E isso contamina. Médicos são pessoas e podem ser influenciados. Em geral, pertence a uma categoria que, pelo fato de se deter muito aquilo que faz, pode ficar muito conservadora, sem se abrir para uma crítica, digamos assim, mais ampla ou para o que eu chamo de uma consciência social mais ampla, baseada em fatos. Quando houve a questão que eu considero uma tragédia, que foi a questão da cloroquina, foi o pior exemplo. E não nasceu no Brasil. Na verdade, aquilo nasceu na França através de um pesquisador que hoje está no ostracismo. O seu CRM cassado, inclusive. O professor Didier Raoult que inventou isso. Naquele momento, junho, julho de 2020, estimadamente, havia no planeta mais de 3 bilhões de pessoas usando cloroquina. Não foi só no Brasil, houve uma contaminação feita pela irracionalidade. Alguém disse, todo mundo tinha medo. A Covid-19 gerava um temor imenso nas pessoas. Pessoas morriam, famílias perdiam, a dor estava estabelecida, ritos sociais estavam rompidos pelo isolamento. O isolamento social é algo que, digamos, corrompe toda a nossa cultura. Ainda mais nós, que somos latinos, somos gregários por natureza. Então, o isolamento era algo que violava muito a nossa cultura. Tudo isso gera medo e o medo nos torna muito frágeis. O medo pode nos encorajar em algumas situações muito particulares, mas o medo nos faz mais fáceis de sermos contaminados por uma informação. O exemplo da cloroquina é isso. Rapidamente alguém oportunista criou isso. Na verdade, todos os estudos, hoje, mais do que nunca, mostram que nunca houve nada que mostrasse que a cloroquina melhorasse, curasse ou impedisse alguém de morrer por Covid-19. Então, o exemplo mais paradigmático que eu acho é esse. Isso se juntou quando naquele momento todo mundo, o mundo desenvolvido todo, investia, as casas farmacêuticas investiam na produção rápida de uma vacina. Eu considero as plataformas vacinais, as novas e as recuperadas durante aquele período de 2020, 2021, talvez a descoberta mais sensacional das últimas décadas da saúde, que foi a elaboração das vacinas para Covid-19 que geraram essa coisa linda, que foi a plataforma de RNA mensageiro que deu o prêmio Nobel ao casal, a dra. Karikó. E que hoje gera a plataforma que vai fazer não apenas as novas vacinas para várias doenças, como remédios. Então, hoje na área da oncologia, por exemplo, são muitos fármacos que estão sendo fabricados sobre a plataforma de RNA mensageiro, que é algo espetacular pela sua plasticidade, pela maneira como ela permite ser adaptada para diversas produções numa mesma situação, no mesmo local. Então, eu acho que a Covid-19, a despeito desse excesso de luto, que nós não precisávamos… Eu quero deixar claro, o Brasil não precisaria ter tido esse excesso de mortes que comprovadamente teve, bem como esse excesso de cicatrizes e de luto que nós temos com 718 ou 720.000 mortes. E isso gerou uma consequência que eu considero muito grave. A Covid-19, o SARS COV 2 é um vírus que ele virou endêmico, ele vive entre nós, ele não vai nunca mais desaparecer, isso vai exigir que nós sejamos vacinados anualmente como fomos vacinados para a gripe. Hoje, o nosso desejo é que nós consigamos nos próximos anos ter uma vacina conjugada para a influenza e para Covid juntas. Isso já tem muitos locais de pesquisa nesse objetivo. Isso é o que nós desejamos nos próximos anos. Mas nós precisamos nos preparar para as próximas epidemias e esclarecer com esse propósito. Dizer a verdade, dar as boas notícias, mas, sobretudo, dar as más notícias quando necessário.

OP - Ainda falando sobre a categoria médica, a senhora é muito incisiva quando fala sobre os problemas da formação médica atual. O que mais preocupa a senhora quando a gente fala desse médico que tá se formando e tá chegando ali ao paciente?

Margareth - Eu sou membro titular da Academia Nacional de Medicina, uma das nossas grandes preocupações nesse momento é exatamente a formação do médico, hoje, no Brasil. Eu acho que nós vivemos algo muito grave que foi a liberação desse excesso de escolas médicas de péssima qualidade. E o resultado do Enamed que nós vimos recentemente prova isso que eu tô dizendo. O rendimento muito sofrível de muitas dessas escolas, ou seja, um país da complexidade do Brasil, da diversidade do Brasil, do tamanho continental do Brasil, exige que tenha um sistema de saúde com o SUS, exige a formação de médicos que efetivamente estejam preparados para tratar pessoas numa população, sobretudo, que envelhece. (...)

Tudo isso exige uma formação médica. O médico hoje formado exige uma qualificação técnica muito alta, os desafios são muito grandes. Então, eu não admito formar um médico hoje que não esteja qualificado para diagnosticar um caso de sarampo numa UPA, num centro municipal de saúde. E que também esteja qualificado para tratar uma pneumonia grave numa terapia intensiva num hospital público ou privado. Nós temos que saber isso. O médico tem que ter necessariamente esta formação. E para que ele possa tê-la, é preciso que ele receba uma formação adequada. É preciso que ele tenha instrutores, tutores, professores, que sejam devidamente qualificados para tal e que ele tenha vivência prática. Não pode ter aula online, não pode ter aula por EAD de Medicina. Isso não existe. Essas faculdades que não obtiveram nota, a meu juízo, tinham que ser fechadas, mas essa é uma posição individual minha. Elas tinham que ser impedidas de formar mais médicos. E hoje temos um drama estabelecido no Brasil. O que é que nós vamos fazer com esses médicos que não têm diploma? Isso se soma ainda a gravidade dos que são formados fora do Brasil também em péssimas faculdades na zona de fronteira ou países aqui vizinhos e que não passam no Revalida. A taxa de aprovação do Revalida não passa de 20%. E o que nós faremos com esses 80% de jovens que não vão ter CRM, não vão ter licença? Onde eles estão? Então, a minha posição é que não se pode punir esses jovens. Nós temos que dar uma chance a eles. E eu me dei o trabalho de fazer uma verificação e essas pessoas nunca tiveram nenhuma aula sobre tuberculose ao longo de 6 anos de formação. Talvez tenham visto caso e não tenham sabido diagnosticar, entende? Uma doença que é tão prevalente no Brasil para dar apenas um exemplo, poderia dar N outros. Como cânceres e doenças cardiovasculares, mas não pode formar um médico que não seja capaz pelo menos de pensar na hipótese diagnóstica atendendo alguém, que aquela pessoa esteja tendo um infarto agudo do miocárdio. Isso não é inadmissível. Ou fazer um diagnóstico de uma apendicite aguda e tomar as providências para mandar operar, que é uma coisa simples, mas alguém tem que ensinar isso durante o curso médico. Então, eu considero que é muito grave o que aconteceu no Brasil. Considero imperdoável a liberação dessas escolas sem nenhum critério e, agora, o MEC, vejo de maneira muito louvável que o MEC esteja conseguindo corrigir. Mas nós ainda não resolvemos o que que nós vamos fazer. Nós apenas resolvemos como nós vamos avaliar as escolas. A Academia Nacional de Medicina tem essa posição também, que o aluno tem que ser… Primeiro ele entra na escola, ao final do ciclo básico ele faz a primeira avaliação e, depois, antes de chegar ao final do curso, uma nova avaliação para saber se se ele tem condições de progredir ou se ele tem que repetir, como se repete ano na escola. (...)

Fonte: Publicado In: O Povo, de 8/06/26. Páginas Azuis. p.6-7.


sábado, 13 de junho de 2026

MARGARETH DALCOLMO: entre a literatura e o compromisso com a ciência II

Por Ana Rute Ramires, jornalista de O Povo.

OP - A senhora também menciona que, durante esse período da Covid-19, a gente teve um retrocesso de 10 anos no combate à tuberculose. Como é que o Brasil pode recuperar esse tempo perdido? A senhora acha que a gente vai conseguir recuperar?

Margareth - Vai. Mas, quer dizer, você não recupera um tempo perdido. Ele não é recuperável, né? O tempo perdido, ele é, eu diria, recomponível de uma outra maneira. Então, nós tivemos um retrocesso em todas as doenças, não foi só nas doenças transmissíveis, a tuberculose foi a que mais sofreu, mas nós tivemos um retrocesso muito grande em outras doenças, como as cardiovasculares, onde a mortalidade aumentou, mas sobretudo nos cânceres. Nos cânceres realmente foi devastador o retrocesso. Por quê? Porque pessoas que estavam em tratamento, muitas interromperam, pessoas não tiveram seus exames preventivos feitos, portanto, não tiveram seus diagnósticos de câncer de mama, de câncer de próstata e de outros cânceres e pessoas que não foram operadas, não foram tratadas numa temporalidade adequada. Então, sem dúvida, o impacto sobre o câncer foi devastador. Na tuberculose também, porque o Brasil tem um paradoxo, né? O Brasil tem uma carga de doença muito alta ainda. Nós tínhamos aproximadamente 90.000 casos por ano, passamos para 100.000 casos por ano. Uma mortalidade que também teve um impacto muito grande, porque as pessoas deixaram de se tratar, os serviços não funcionaram. Eu trabalho na Fiocruz, um serviço que nunca deixou de funcionar, porque como nós fazemos pesquisa, nós temos voluntários e não podíamos deixar de ser atendidos de modo algum. Tem muitas implicações de natureza ética e, além disso, nós desenvolvemos pesquisa, então, nós estávamos lá o tempo todo, mas isso não aconteceu com a maior parte do serviço. Então, o paradoxo ao qual eu me refiro é que o Brasil tem tratamento rápido molecular na rede pública, ou seja, um diagnóstico que pode ser feito em 24 horas. O Brasil tem tratamento gratuito, governamental, para todo mundo, inclusive com medicamentos de alto custo e que são oferecidos pelo SUS. Então, nada justifica a não ser uma ineficiência dos serviços e eu acho que isso é um exemplo bastante revelador das necessidades de melhoria do funcionamento do SUS. O SUS, você sabe, eu sou defensora absolutamente convicta do SUS, né? Eu acho que o SUS é o maior programa de inclusão social do mundo. Não há nenhum país que tenha mais de 100 milhões de habitantes que ofereça serviço para todo mundo de maneira equânime. Como SUS, com todos os seus problemas, com todas as suas falhas, com todo o seu subfinanciamento, nós ainda gastamos muito pouco com saúde, né? Nós gastamos menos de 5% do nosso PIB com saúde, quando outros países gastam muito mais, mais de 10%. Então, assim, nós precisamos aumentar o investimento do SUS, precisamos melhorar a qualificação das pessoas que lá trabalham. Então, essa questão de recursos humanos é muito importante e nós precisamos dar acesso maior, lembrando algo que eu considero muito importante que todo mundo tem que ter essa consciência. O Brasil é um país que envelheceu rapidamente. Nossa população aumentou a sua longevidade de maneira quase abrupta nos últimos 40 anos, né? Nós aumentamos a nossa expectativa de vida ao nascer de 54 para 78 anos em 40 anos. Isso se deve a uma ação de saúde pública chamada vacinas. E essa crença, essa confiabilidade, é muito importante que seja retomada para que nós consigamos manter não só a confiança da nossa população, como as medidas que estão ligadas a isso. Então, as doenças tiveram impacto com a Covid-19, sem dúvida nenhuma, mas isso levou a uma consciência e que hoje tá muito clara para nós. Essa não foi a última pandemia das nossas vidas. A Covid-19 não é a última pandemia, teremos outras. Então, o relatório global publicado no final de 2024, o Global Report publicado na revista Lancet agora em 2025, revela por estudos muito bem feitos que nós temos uma chance real de 48%, matematicamente calculada, de que nós teremos nos próximos 8 anos uma grande pandemia com muitas de mortes, por mais de 1 milhão de mortes. E isso é esperado. Então, o Brasil não pode mais ser apanhado tão desprevenido como foi quando a Covid a chegou, de modo algum. Então, o Brasil precisa de uma nova institucionalidade que cuide disso, que prepare o país para isso. Então, faço parte de um grupo criado pelo Ministro Padilha, assim que ele assumiu no ano passado, para a criação de uma nova institucionalidade que nesse momento tá aprovada e que depende apenas agora de um marco legal, né, um projeto de lei, uma medida provisória, algo que possa institucionalizar de maneira definitiva e nós possamos ter todas as providências rapidamente tomadas.

OP - E o que é que a gente faz enquanto espera a próxima pandemia? A senhora falou desse grupo de trabalho que está sendo institucionalizado. O que é que a gente precisa fazer para se preparar para outro evento como esse?

Margareth - Primeiro, nós temos que ter toda uma questão logística de entendimento institucional da relevância, da magnitude que o problema pode ter. Isso é muito importante. Segundo, qualquer pandemia ou qualquer epidemia daqui para a frente será sempre, ou uma maioria delas, de origem zoonótica. Ela virá do mundo animal. O homem tá fazendo tão mal ao planeta com esses desmatamentos e mudanças climáticas e tudo que de modo negacionista pode ser negado, mas nós sabemos que é verdade. Tudo isso está relacionado, nada disso é independente. Então, muito provavelmente, as próximas epidemias serão não só de origem zoonótica, ou seja, gripes aviárias, mas relacionadas a viroses, doenças virais de transmissão respiratória, isto é, uma pessoa contaminada pode transmitir para várias outras. Então, é preciso que esse entendimento seja público, que as pessoas saibam disso. Segundo, que a comunicação seja muito imediata, seja feito alerta e que as pessoas possam cumprir normas e recomendações sanitárias que protejam as pessoas. E terceiro, que o Brasil tenha a contingência necessária. Então, você se lembra que nós não tínhamos máscara, nós não tínhamos vidro para envasar vacinas. Nós precisamos de autonomia, autonomia da indústria, para que nós tenhamos estoque adequado de tudo que é necessário para controlar algo que é transmissível e que é é transmissível de um vetor ou que é transmissível de uma pessoa para outra. Essa logística, que eu chamo de contingência, é crucial pro Brasil nesse momento. Nós precisamos disso e nós precisamos de autoridade. É claro que uma institucionalidade nova não terá poder de polícia. Eu não posso chegar e fechar esse hotel onde nós estamos, ou escola, não. Mas eu posso dizer ao público: escolas devem ser fechadas, cinemas devem ser fechados, locais públicos, festas canceladas, porque há uma transmissão que é coletiva e que uma pessoa pode transmitir para várias outras. Alguém com essa autoridade, um grupo de pessoas com a chancela governamental. E isso não pode estar ligado a governos. Isso tem que ser uma institucionalidade de Estado que não sofra nenhuma interferência de natureza política. Nós estamos aqui para orientar, prover informações, gerar conhecimento e, sobretudo, dizer do que foi encontrado, seja isso uma resposta boa, uma informação ruim, preocupante ou alarmante, mas nós temos que dizer a verdade. Felizmente, a imprensa brasileira, eu sou particularmente muito grata à imprensa brasileira de modo geral, salvo raras exceções, a imprensa brasileira optou numa encruzilhada de opção, optou pelo caminho correto. Ouviu-nos e nos deu voz permanente, como você viu. Tinha dias que eu dava quatro, cinco entrevistas em canais diferentes de televisão, de rádio, de jornais. Eu passei a escrever em um jornal semanalmente, eu dei entrevista para muitos órgãos internacionais, porque a situação do Brasil preocupava o mundo todo, naturalmente. Nós convivemos desde o início com algo muito nocivo ao Brasil, faço questão de frisar isso. Nós convivemos com uma tensão entre a nossa voz e a retórica governamental que era extremamente danosa à nossa população. Então, nós vivemos nessa tensão desde o início e procuramos, digamos assim, diminuir isso dando informação precisa e verdadeira.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 8/06/26. Páginas Azuis. p.6-7.


 

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