terça-feira, 3 de março de 2026

Lançamento do livro “Árias e Areias” de Pedro Bezerra de Araújo

Por Pedro Bezerra de Araújo – Pierre Nadie

Árias e Areias são 314 páginas, que fazem dançar ritmos que moldam relacionamentos, ao som de árias que cantam o amor, a amizade e acontecimentos do dia-a-dia, bem como as areias que tanto podem construir como podem esvair-se ao balanço das ondas do mar ou ao sopro dos ventos tempestuosos. São versos livres, ao sabor da sensibilidade de ver, sorrir, abraçar e amar e motivar o pensar.

"Com o raiar do dia, / O sol põe-me a cogitar: / O amor de onde vem? / E a amizade vem de onde?/ Das areias do mar / Ou das árias de Mozart?"


A REVOLUÇÃO 80 +

Texto de Nélia Fontenele, jornalista

Em entrevista exclusiva, o médico, gerontólogo e escritor Alexandre Kalache — que celebra 80 anos de vida e 50 de carreira — desafia o "idadismo" e alerta: o país que não valorizar seus velhos ficará para trás.

Você já pensou na sua velhice? Pensou que, dependendo de sua atual idade, você será o velho de amanhã? O médico, gerontólogo e escritor Alexandre Kalache nos ajuda a refletir sobre o tema a partir de sua trajetória de oito décadas de vida e meio século dedicado à Gerontologia. Em entrevista ao O POVO, ele apresenta reflexões contidas em seu novo livro, "A Revolução da Longevidade", que será lançado em Fortaleza em março.

Quando Kalache nasceu, em 1945, a expectativa de vida no Brasil era de 46 anos. Hoje, avançamos para a casa dos 78 anos — uma transformação imensa ocorrida em pouco tempo. "Em apenas uma vida, conquistamos mais de 30 anos extra. Mas é preciso fazer uma correção urgente no imaginário: não ganhamos 30 anos de velhice; ganhamos 30 anos de vida", alerta.

A longevidade conquistada é, em sua avaliação, algo a se comemorar, mas exige um reenquadramento da visão e da posição ocupada pelos idosos na sociedade. "Vivemos um fenômeno sem precedentes: o único grupo etário que continua aumentando no país é o de pessoas com mais de 60 anos, que já representa cerca de 16% da nossa população. As projeções para 2050 são contundentes: daremos um salto de 33 milhões para 68 milhões de idosos, compondo 31% do país. Enquanto isso, os demais grupos — crianças, jovens e adultos — diminuirão".

Diante desse cenário, a mensagem é clara: os idosos são essenciais para que o Brasil dê certo. No entanto, há um inimigo silencioso e onipresente, aponta Kalache: o idadismo, o preconceito baseado na idade, uma ideologia supremacista que tenta "tirar do caminho" quem já não se encaixa em um padrão produtivo arcaico - algo amplamente aplicado durante a pandemia.

Ele aponta quatro pilares desse preconceito a ser combatido: 1) ideológico (o decreto antecipado de que o idoso não serve, não produz e não tem vez); 2) institucionalizado a negação de oportunidades no mercado de trabalho); 3) interpessoal (silenciamento através de frases como "Você é velho, não tem opinião"); e 4) internalizado (o próprio idoso passa a acreditar que é um fardo). "Eu sou bem claro: sou velho e não sou um fardo", enfatiza ele.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 1/02/2026. Ciência & Saúde. p.14.

segunda-feira, 2 de março de 2026

O MERGULHO

Por Patrícia Soares de Sá Cavalcante (*)

Sentada na escadaria, sentia o sol esquentar a pele e olhava o mar ao longe. Fixava o horizonte e imaginava o outro lado do mundo. Sem a menor noção de geografia, passava horas pensando aonde chegaria se o atravessasse.

Tomava banho no raso, aprendendo o momento certo do mergulho. O caldo era inevitável. Vinha forte, agressivo. Ao cair, eu me assustava, mas depois o prazer predominava. Avançava um pouco em direção ao fundo. Apenas o pescoço de fora. De vez em quando, a onda cobria meu corpo inteiro. Ficava sem dar pé por alguns segundos, mas logo sentia os pés tocarem a areia.

Terra firme. Precisava de terra firme. Tinha que saber onde pisava. O outro lado era um país imaginário, estrangeiro. O desconhecido era areia movediça.

Havia, ainda, a transparência da água. Via o que não queria ver. Dava muito medo. Era bonita, límpida, mas assustava. Preferia a turva - ali, conseguia esquecer os riscos, ou ao menos não pensar neles. Na água turva, permitia-me boiar.

Aquele mar avançou e levou a escada. Perdi o acesso, mas ele não me deixou. Voltava nos meus sonhos. Ficava no alto, observando se conseguiria entrar. Na maré baixa, talvez.

Aventurei-me em outros mares. Pulei em alto-mar. Qual seria a profundidade ali? O que teria embaixo? As pernas agitavam demais. Fui controlando o ritmo e comecei a nadar. Estava tranquila entre o fundo e a superfície. Flutuava na água transparente. A água cintilava.

Mergulhei. A descida foi lenta, muito lenta. O fundo do mar é imenso. A luz do sol penetra na água e abre um feixe luminoso. Meus olhos se arregalaram. Os peixes eram menores do que eu imaginara. Vi um naufrágio. Aproximei-me. Que vestígios guardava? O casco estava coberto de algas e conchas. Não tinha nada de tão assustador. Carregava histórias. Sustentava vida. Descansava no fundo. Também tinha encontrado a terra. Continuei descendo, completamente absorta.

Pisei.

No fundo do mar, a terra é firme.

Voltei a flutuar suavemente. A claridade foi aumentando. Senti o sol sobre a pele. Emergi.

(*) Médica psiquiatra.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 27/01/2026. Opinião. p.16.

Um alerta aos homens de todas as idades

Por Diego Capibaribe (*)

Quando falamos em câncer masculino, a maioria das pessoas se lembra do câncer de próstata. No entanto, existe outro tumor, menos frequente, mas potencialmente grave, que afeta principalmente homens jovens: o câncer de testículo. Apesar de raro, representa o tumor sólido mais comum em homens de 15 a 35 anos, uma faixa etária que, por se considerar saudável, muitas vezes negligencia a própria saúde.

Um ponto animador é o câncer de testículo ser altamente curável na maioria dos casos, mesmo quando diagnosticado em estágios avançados. Mas, para isso, é preciso que o homem esteja atento aos sinais. O sintoma mais frequente é o aparecimento de um nódulo endurecido ou aumento do volume em um dos testículos, geralmente indolor. Para nós, urologistas, a ausência de dor é traiçoeira, pois leva muitos pacientes a retardarem a procura por atendimento.

Embora não exista uma causa única, sabemos que fatores como o histórico de criptorquidia (testículo que não desceu para a bolsa escrotal na infância), antecedentes familiares e algumas condições genéticas aumentam o risco. Por este motivo, sempre reforço a importância do autoexame testicular mensal (que pode ser feito durante o banho, quando a pele do escroto está mais relaxada), um gesto simples, que leva menos de um minuto e pode salvar vidas.

O tratamento da doença depende do tipo e do estágio do tumor, mas normalmente começa com a remoção cirúrgica do testículo afetado. Em seguida, podem ser indicadas quimioterapia ou radioterapia, com excelentes índices de sucesso. E aqui está a mensagem fundamental aos leitores: perder um testículo não afeta necessariamente a fertilidade nem a produção hormonal de forma significativa, e hoje há próteses testiculares que restauram a estética e a autoestima do homem.

Como médico, penso que precisamos quebrar o tabu em torno da saúde masculina. A vergonha e a desinformação ainda são barreiras perigosas, que podem custar caro. O diagnóstico precoce é nossa arma mais poderosa, e começa com a atenção do próprio homem ao seu corpo. Cuidar de si não é sinal de fragilidade, mas de responsabilidade.

(*) Médico urologista. Especialista em cirurgia robótica.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 25/01/2026. Opinião. p.22.


domingo, 1 de março de 2026

Causo Médico: SALGADOS, MUITOS. SIMANCOL, ZERO

Por volta de 1965, uma determinada escola de Medicina estava sediando um evento comemorativo e decidiu oferecer uma pequena recepção aos participantes. Como não havia recursos para contratar um “buffet” completo, e sequer garçons, para os serviços pertinentes, a direção dessa faculdade decidiu improvisar, colocando o pessoal de limpeza para servir os acepipes aos comensais.

Um dos recrutados para a tarefa foi o faxineiro do bloco didático, bastante conhecido por suas estripulias e pela absoluta falta de “simancol”. Ele estava ali, para o que desse e viesse, sem se mancar com as “ratas” que certamente acabaria por provocar. Foi aí que, portando uma bandeja com salgadinhos, dirigiu-se a um grupo de professores, composto, notadamente, por cirurgiões de nomeada, oferecendo a variedade dos canapés àquela roda de mestres.

Discretamente, o Prof. Aroldo Ferreira (nome fictício) pegou um salgadinho, no que foi surpreendido pelo serviçal, com essa provocação:

– Num se acanhe não, Dr. Aroldo. Pode pegar mais e até “butar” nos “bolso” do paletó, pra levar pros bichinhos da sua casa.

Polidamente, o Prof. Ferreira recusou a oferta, esboçando um sorriso para o colega Prof. Nelson Gonçalo (nome fictício), que estava ao seu lado, ambos tomados por um certo constrangimento, diante da falta de lhaneza do improvisado garçom.

O faxineiro não perdeu a oportunidade para insistir:

– Dr. Nelson, deixe de “encabulação” e “atraque” suas mãos aqui pra pegar um bocado pra levar pra família. Tem muito lá dentro. Acho qui vai sobrá muito desse troço – arrematou o servidor, garçom de araque.

Os dois afamados cirurgiões, como autênticos gentis-homens, decidiram ignorar as tantas tentações do momento e puxaram um assunto médico para seguir a conversa, dispensando os préstimos do pseudogarçom, que ficou a procurar outros mestres dispostos a ouvir suas baboseiras, quiçá a fazer uso da velha tática de juntar pasteis e canudinhos para o “jantar” do cãozinho de estimação, quando, na verdade, eles próprios é que estavam inclinados a fartar o bandulho com os deliciosos salgadinhos da festa.

Marcelo Gurgel Carlos da Silva

Da Sobrames/CE e da Academia Cearense de Médicos Escritores

Fonte: SILVA, Marcelo Gurgel Carlos da. Medicina, meu humor! Contando causos médicos. 2.ed. Fortaleza: Edição do Autor, 2022. 144p. p.73-74.

* Republicado In: SILVA, M.G.C. da. Causo médico: salgados, muitos. Simancol zero. Revista AMC (Associação Médica Cearense). Julho de 2024 - Edição n.34. p. 27-27 (online).


Mais vagas, menos estrutura: o risco da proliferação de cursos de Medicina

Por Daniel Pinheiro (*)

Os resultados mais recentes do Enade, divulgados pelo Ministério da Educação, trouxeram um dado que não pode ser ignorado: um número expressivo de cursos de Medicina (32%) obteve desempenho insatisfatório, levando o próprio governo federal a anunciar medidas de supervisão, redução de vagas e suspensão de novos ingressos.

Mais do que um ranking acadêmico, o Enade funciona como um termômetro da qualidade da formação médica no país - e o diagnóstico é preocupante. Ele expõe, de forma objetiva, os efeitos de uma expansão acelerada e pouco criteriosa das escolas médicas no Brasil.

Apresentada como solução para a escassez e a má distribuição de médicos, a abertura indiscriminada de cursos tem sido conduzida, em muitos casos, sem o planejamento necessário para garantir formação adequada. A Medicina é uma profissão de alta complexidade, cuja aprendizagem depende menos da sala de aula e mais do contato supervisionado com pacientes reais.

Hospitais, unidades básicas, emergências e equipes de preceptores experientes são o verdadeiro núcleo da formação médica. Esses cenários, contudo, não se multiplicam no mesmo ritmo das autorizações de novos cursos.

Criam-se faculdades, mas não se criam hospitais-escola, leitos, centros cirúrgicos, UTIs e preceptores qualificados em quantidade suficiente. Quando o campo de prática é insuficiente, o estudante torna-se observador passivo ou executa atividades sem a supervisão adequada. Isso compromete a formação e coloca o paciente em situação de risco. O problema deixa de ser apenas educacional e passa a ser um problema concreto de segurança do paciente, com potencial aumento de erros, retrabalho, judicialização e custos para o sistema de saúde.

Há ainda um equívoco estrutural que o próprio Enade ajuda a revelar: formar mais médicos não significa, automaticamente, garantir médicos onde a população precisa. A experiência brasileira demonstra que a simples ampliação do número de diplomas não corrige a concentração de profissionais nos grandes centros.

Fixação depende de carreira, remuneração, infraestrutura, suporte diagnóstico e condições de trabalho - fatores que não se resolvem simplesmente com a abertura de faculdades. Países com bons indicadores de saúde não alcançaram esse patamar multiplicando escolas sem critério, mas investindo em planejamento, avaliação rigorosa e forte integração entre ensino e sistema assistencial.

Persistir na expansão descontrolada da formação médica é assumir um risco coletivo. Em Medicina, os custos do improviso não são abstratos nem estatísticos: recaem diretamente sobre vidas humanas. E esse é um preço alto demais para qualquer sociedade responsável.

(*) Médico otorrinolaringologista.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 19/02/2026. Opinião. p.11.


A formação médica não pode ser laboratório político

Por Heitor Férrer (*)

Ser atendido por um médico mal formado corre-se mais risco do que não ser atendido. Essa afirmação, dura, resume o momento crítico que atravessa a formação médica no Brasil. Não se trata de debate acadêmico nem de disputa ideológica. Estamos falando de vidas humanas, de saúde pública e do futuro do sistema de atenção à saúde no Brasil.

Os dados recentes do Exame Nacional de Desempenho dos Estudantes de Medicina são um alerta inequívoco. Cerca de 32% das faculdades avaliadas apresentaram desempenho catastrófico. Na prática, mais de 100 instituições com desempenho abaixo do mínimo aceitável, sujeitas a sanções e até à suspensão de vagas, ainda que a maioria tenha alcançado proficiência. É um contingente elevado demais para ser tratado com indiferença.

Há um risco direto à sua pública. Cada médico mal formado representa um risco concreto a cada um de nós. Não é apenas um dado estatístico, mas alguém exposto a erros de diagnóstico, condutas inseguras e equivocadas. Durante a pandemia, isso ficou evidente quando profissionais recém-formados demonstraram dificuldades em procedimentos básicos, como a correta intubação de pacientes graves. Falhas como essa se transformam em tragédia. Elas custam vidas.

Minha crítica não é de agora. Desde o ano passado, venho alertando, na Assembleia Legislativa, para a proliferação irresponsável de cursos de medicina sem estrutura adequada. Formar médicos exige mais do que autorização administrativa. Exige professores qualificados, hospitais de ensino, leitos disponíveis, preceptores experientes e uma rede pública preparada para receber estudantes com supervisão rigorosa.

No Ceará, diante da quantidade de cursos autorizados, pergunta-se: onde estão os hospitais de ensino? Onde estão os campos de prática? Onde estão os mestres?

Ao se permitir faculdades sem condições reais de formação, estamos comprometendo a formação médica e quem pagará essa conta será o cidadão.

A expansão sem critérios transforma a medicina em laboratório político, como a atual política do MEC, dirigido pelo ex-governador Camilo Santana insiste em fazer. A formação médica exige planejamento, responsabilidade e compromisso com a qualidade. Reduzi-la ao aumento do número de vagas é erro grave. Vidas estão em jogo.

(*) Médico e deputado estadual (Solidariedade).

Fonte: Publicado In: O Povo, de 6/02/2026. Opinião. p.17.


 

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