Por
Izabel Gurgel (*)
A calçada da rua onde moro tem um carrinho
de merenda de manhã cedo e no meio da tarde. Tapioca, pão, cuscuz, bolo.
Paulino é uma aula de atendimento. Prioridade por ordem de chegada e habilidade
para fritar nove ovos ao tempo em que mais lâminas de queijo e presunto chiam
na chapa, com bom-dia, boa-tarde, diga, senhora, agora, pois não etc. Duas
mulheres da família cuidam dos refrescos, café com e sem leite, carne moída com
molho sobre o pão de milho, um pratinho com cara de almoço antes da sete da
manhã. Em francês, café da manhã é pequeno almoço.
Paulino está desmontando a banca, depois
das nove e perto das dez, chega o serviço de almoço, outra gente, mesas,
bancos, e o gosto de ouvir o ofertório de mistura, tantas opções no tabuleiro
que carrega um mundo de modos de comer. Leandro, que mora na calçada, auxilia
na montagem e desmontagem do restaurante portátil. O carro de merenda e o
serviço de almoço ficam na esquina, bem vistos na avenida. O vizinho de calçada
fica o dia inteiro, posicionado pela rua que faz esquina com a avenida. Ele
vende bombons.
Na mesma calçada, outra esquina é o ponto
do carro de frutas. Com a obra do metrô, Gilberto levou a banca para a
Beira-mar e de lá voltou, tão logo a esquina foi reaberta, com a novidade,
maior ainda, do copo da terra dos gigantes cheio de frutas cortadas. Permanece
a opção de fazer ali a feira de frutas. Dá para comprar sem sair do carro.
Outro dia expliquei pitomba para turistas que passavam. Se é que posso usar o
verbo explicar associado às pitombas.
Uma banca de fruta é um mapa-mundi, vc e eu
sabemos. Gilberto não corta abacaxi em rodelas. Vai em nacos na salada com
outras frutas. Acho que existe um lugar onde os abacaxis sabem que serão
vendidos na rua, aos pedaços, e imagino que seja o modo de existência preferido
dos abacaxis, de acabar bonito. Os mais saborosos, salvo engano, comi-os todos
das mãos do Senhor da Rua. No Centro de Fortaleza, o ar adorando passar por
ali, ardorando um outro frescor. O abacaxi aos pedaços, em copos, entrou na
paisagem. Vejo cada vez menos abacaxi em rodelas suspensas no palito, um
picaxi.
Com os "picolés de abacaxi",
também saem de cena aqueles roletes de cana feito buquê, uma escultura efêmera
comestível que, eu poderia jurar, seguiriam nascendo de tão bem concebidas
ideia e execução. Nunca os vi na calçada da rua onde moro.
Tem muito mais na rua onde moro. Como no
verso do Caetano (cego de tanto vê-la, na canção "Estrangeiro") a
gente vê quase nada da rua onde mora, não é?
Nas eleições passadas, a melhor mensagem
que recebi quando se anunciou o resultado para presidente da república, a
melhor mensagem foi a do Gilberto. Ele me ligou, falando com firmeza e calma da
prática de cortar abacaxis. Gilberto me telefonou: "Eu não lhe disse que a
gente ganhava?".
Votar pode ser sagrado, feito comida.
(*) Jornalista de O Povo.
Fonte: Publicado In: O Povo, de 27/09/26. Vida & Arte, p.2.
