As dores de cabeça da cobra-de-duas-cabeças
Sábado
chuvoso e lá encontramos um exemplar, passeando "apressada" no
bananeiral do quintal de seu Zezinho, que "cavava lento" o terreno de
semear feijão. Theo, neto observador, pergunta que "bicho era
aquele", movendo-se retilineamente. Especialista em tijubinas, piriguás,
punarés e cururus, tão-somente, pesquisei ligeiro na Internet e falei que se
tratava de "um lagarto sem patas com hábitos subterrâneos".
-
Falou um quilo, não entendi "uma" grama, vô! É ver uma minhoca!
-
Não é. Essa aí "se move cavando o solo com movimentos musculares anelados,
similares aos de uma lagarta"...
-
Nem de "largata" eu gosto!!!
-
No popular, meu bichim, chama-se "cobra-de-duas-cabeças", alcunhada
cientificamente de Amphisbaena.
Em
seguida fomos prosear no alpendre da fazenda, matutando sobre o réptil de
"corpo cilíndrico e musculoso" que "pode se locomover pra frente
ou pra trás, criando a ilusão de ter duas cabeças funcionais". Theo
quebrou o silêncio de segundos e, fraternal, expôs, conforme a tenra vivência,
o que supunha lógico: a mãe deveria usar duas colheres pra dar a sopa dela -
"uma pra cada cabeça". Me abri, dei corda e assuntei, frescando.
-
Eu tenho pra mim que são dois bonés que ela usa em dia de sol brabo!
-
Vô! Será que uma só vê o sol nascer enquanto a outra só vê o sol se pôr? Ou as
duas cabeças da cobra-de-duas cabeças concordam e olham pro mesmo lado?
-
Na minha mente olham pro mesmo lado, são amigas. Diferente do bicho homem...
-
Então, vô, quando tomam banho, cantam a mesma música, né?
-
"A cobra não tem pé / A cobra não tem mão / Como é que a cobra sobe / Num
pezinho de limão?"
-
Vô, tu num disse que era uma cobra só de agá?!?
Com
pouco, falando sério, tornei a pescar no celular que, ao sentir-se ameaçada,
"a cobra-de-duas-cabeças levanta tanto a cauda quanto a cabeça,
confundindo predadores sobre qual extremidade é a verdadeira". Também
aprendi que, apesar da mordida forte, aquela de que falamos não tem peçonha nem
oferece riscos graves. "Não ofende um pinto".
Nesse
momento, tomado de invulgar espírito moleque, indaguei de mim para comigo, sob
o olhar questionador de um Theo - felizmente - ainda desconhecedor dessas
coisas de adultos metido a besta, sem graça:
-
Se o namorado dela fugir com a minhoca da vizinha, em qual cabeça fica o
chifre?
Apracur Duo
Ele
ainda existe e é comercializado aos montes. Medicamento antigripal clássico e
bastante tradicional, é utilizado há um tempão para o alívio dos sintomas de
gripes e resfriados, conhecido que é pela ação combinada - atuando como
analgésico, antitérmico e antialérgico. O nome é motivo de gozação pela
molecagem aqui de nós. Nem na versão duplamente terapêutica ele escapa da
fulerage.
Na
casa da septuagenária Rosita Meire, esse comprimido revestido, tiro e queda em
caso de "estalicido", sempre foi motivo de gaiatice pelos irmãos.
Tanto que a moça velha evitava pronunciar-lhe o nome onde fosse. Certo dia, bem
chumbada - e sem ter quem fosse à farmácia pegar uma caixa com 12 comprimidos,
ela mesma chegou lá espirrando, se queimando de febre. Com muito esforço e
lascada de vergonha ousou perguntar:
-
Tem Aprabunda, seu Dedé?
Fala Cearense - edição segunda
Aguar
a grama - Fazer sexo.
Precisa
só dum pezim! - Carece só dum motivo, pequeno que seja, pra começar uma
discussão, uma briga.
Puxe
um banco e sente no chão! - Pegue um tamborete e se abanque - sente-se!
Fonte: O POVO, de 24/04/2026. Coluna
“Crônicas”, de Tarcísio Matos. p.2.
