sexta-feira, 6 de novembro de 2026

ENTRE

Por Patrícia Soares de Sá Cavalcante (*)

"Já estou pronto", escreveu meu professor de piano pelo WhatsApp. Ele me aguardava no Google Meet. Entrei pelo computador e pelo celular: em uma tela, nos víamos; na outra, ele acompanhava minhas mãos sobre o teclado. Tiago é cearense, mas mora em Quebec.

Ele me pediu que tocasse uma melodia simples em todas as tonalidades maiores. Contou-me que, quando era mais novo, ao ouvir no rádio uma música de que gostava, gravava-a em uma fita cassete e depois ficava escutando e pausando os trechos para fazer, em todas as tonalidades, o mesmo exercício que acabara de me passar.

Seria por isso que ele toca tão bem? Lembrei-me da época em que estudei para a residência. Resolvi dez provas anteriores e depois fiz uma estatística das questões. Separei os temas e, a cada repetição, acrescentava um pequeno traço a lápis. Meu irmão também tinha seu próprio método para aprender inglês: cobria com fita crepe preta as legendas dos seriados na TV.

Será que a dificuldade aumenta o desejo, enquanto a facilidade proporcionada pela tecnologia o diminui? Não deve ser isso. O toca-fitas e a televisão também são tecnologias.

Talvez a questão seja outra. Hoje há muitos caminhos prontos em que o começo coincide com o fim. Podemos encontrar o passo a passo antes mesmo de experimentar: o GPS escolhe o trajeto sem que precisemos traçá-lo em nossa mente; nos tutoriais de piano, as teclas acendem. E o problema do caminho pronto não é somente nos poupar do esforço. É chegar antes que tenhamos descoberto aonde desejamos ir.

Para percorrer um caminho próprio, é preciso oportunidade e capacidade de esperar. Mas só espera quem confia que a espera termina, num mundo em que o que se promete nem sempre chega. E é durante o percurso que o desejo ganha corpo e a escolha passa a fazer sentido.

Estou pelejando para aprender a música "Você não me ensinou a te esquecer".

O que pode acontecer entre duas telas; entre o som e o silêncio; entre uma aula e outra; entre a pergunta e a resposta; entre o começo e o fim?

(*) Médica psiquiatra.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 6/10/2026. Opinião. p.16.


Crônica: Um cará tilápia nos olhos... e outros causos

Um cará tilápia nos olhos

Diligente, expedita, sensível, operosa e amiga, Neném de Mocinha disse que faltaria ao trabalho na próxima semana por motivo, evidentemente, mais que justo. Que deveria passar por cirurgia oftalmológica de relativa urgência. Que traria atestado médico; que, se precisássemos, pagaria alguém para lhe substituir nos trabalhos aqui - dicumê de primeira e arrumação de gabarito da casa.

- De maneira alguma, Neném! Fique tranquila! Se opere. Só volte quando estive 100%!

- 10 dias afastada, tá?

- Vá lá! Primeiro a sua saúde!

Eu, que não sou de bisbilhotar a vida de quem quer que seja, pois confio, inventei de perguntar que cirurgia era essa à qual Neném seria submetida. E tive uma surpresa, entre alegre (ela ficaria boa da vista) e cismado (com o procedimento por mim desconhecido) com a resposta inusitada.

- Vão botar um cará tilápia nos meus ói!

- Botar o quê nos olhos, Neném de Mocinha?

- Um cará tilápia!

- Com espinha e tudo? - fresquei, achando que ela mesma estivesse brincando.

- Seu menino, eu não sei dizer direito o que é; só sei que tem um cará tilápia no meio...

Cheio de curiosidade, pedi-lhe que contatasse seu médico de olhos, e ele mandasse áudio, no zap, falando do procedimento. Enfim entendi, ao ouvir a explicação.

- Dona Francisca Neuza, a senhora fará uma cirurgia de córnea. Para tanto, utilizarei a pele de tilápia para tratar a ferida, cicatrizando e regenerando o tecido mais rapidamente. O tiro de baladeira que a senhora levou ano passado do seu sobrinho foi muito sério...

Mudinho eloquente

Neném de Mocinha no ônibus lotado. E lá aparece um sujeito com papel na mão pedindo ajuda. Um mudinho. Pelo menos era o que todo mundo entendia. Ele ia passando pelo corredor, mostrando o papel, abaixando a cabeça e agradecendo com gestos. Coletivo inteiro comovido. Neném também. Daí abriu a bolsa, pegou dois reais e os entregou ao póbi, que sorriu, meneou a cabeça e seguiu recolhendo a solidariedade dos passageiros.

Pouco depois, finalzinho da Zé Bastos, chegou o ponto de Neném. Descendo no aperreio natural do ônibus lotado, ao colocar o pé na calçada, quase caiu - tirou um fino. Foi quando ouviu, vindo lá de dentro:

- Dona Maria, muito obrigado pelos dois pau!

Francisca virou-se imediatamente e respondeu:

- De nada, colega!

Dando alguns passos, a diligente amiga pensou, olhou para trás... O ônibus já estava longe. E o mudinho também. Neném seguiu pra casa com dois reais a menos e uma dúvida a mais. Até hoje não ela sabe o que foi maior naquele ônibus: a solidariedade dos passageiros ou o milagre da fala.

Mais da Fala Cearense

Encontro Jair Morais nas cercanias da Rodoviária e ele me dita essas pérolas do cearensês que tenho pesquisado para enfeixar na segunda edição de meu livro:

Botar catinga (numa coisa) - Azarar, agourar, fazer prenúncio ruim.

(Tá) só o endereço! - Bem maguim, só o vem-vem.

Se deitar um pouquinho - Deitar-se por alguns breves instantes. E aí, do outro lado, o gaiato responde: "Homem, se deite logo todo!"

De jeito maneira - De modo algum! Negativo!

Fonte: O POVO, de 9/10/2026. Coluna “Crônicas”, de Tarcísio Matos. p.2.


quinta-feira, 5 de novembro de 2026

DOM EDMILSON: 60 anos de fé e compromisso social

De O Povo, Editorial.

Há trajetórias que ultrapassam os limites de uma instituição e passam a integrar a própria história de uma sociedade. A caminhada de dom Manuel Edmilson da Cruz, bispo emérito de Limoeiro do Norte, no Ceará, é um desses exemplos. Ao celebrar 60 anos de ordenação episcopal, no próximo dia 6 de novembro, o religioso oferece ao Ceará e ao Brasil a oportunidade de reconhecer não apenas a longevidade de seu ministério, mas, sobretudo, a coerência de uma vida dedicada à fé, à justiça social e à defesa da cidadania.

Aos 102 anos de idade, completados em outubro, dom Edmilson carrega uma experiência que atravessa diferentes períodos da história brasileira. Sua atuação como bispo auxiliar em São Luís (MA), bispo auxiliar de Fortaleza e bispo de Limoeiro do Norte revela uma caminhada da compreensão de que a missão da Igreja não pode estar dissociada das necessidades da população.

A história de dom Edmilson está associada a uma compreensão de Igreja que ultrapassa os espaços dos templos e se faz presente no cotidiano das pessoas. Seu apoio às Comunidades Eclesiais de Base (CEBs), sua participação em iniciativas de assistência e sua atuação em pastorais demonstram a importância à organização comunitária e à participação popular.

Outro aspecto significativo de sua trajetória foi a convivência com dom Aloísio Lorscheider, referência da Igreja Católica no Brasil no século XX. Quando dom Edmilson atuou como bispo auxiliar de Fortaleza (1974-1994), os dois compartilharam responsabilidades pastorais em uma Igreja que precisava dialogar intensamente com os desafios sociais e políticos do país.

Um episódio emblemático ocorreu em março de 1994, em uma visita pastoral ao então Instituto Penal Paulo Sarasate (CE). Dom Edmilson e dom Aloísio foram feitos reféns. Houve repercussão nacional, e a lembrança desse episódio faz refletir sobre a necessidade de uma sociedade que não abandone aqueles que se encontram em situações de vulnerabilidade. A relação de dom Edmilson com dom Aloísio ajuda a compreender uma geração de lideranças católicas que procurou aproximar a mensagem do Evangelho dos dilemas de seu tempo.

Em 2010, dom Edmilson recusou a Comenda de Direitos Humanos Dom Hélder Câmara, concedida pelo Senado Federal, em protesto contra o aumento dos salários dos parlamentares. O gesto foi uma manifestação de inconformismo com decisões que, a seu ver, contrariavam princípios de responsabilidade pública e justiça social. Nestas eleições de 2026, ele fez questão de ir votar, mesmo não sendo mais obrigado.

Homenagear dom Edmilson da Cruz é reconhecer uma vida de serviço e reafirmar a importância de uma Igreja comprometida com a justiça social, a democracia, a solidariedade e os direitos humanos.

Que este jubileu seja, para o Ceará e o Brasil, não apenas uma ocasião de gratidão, mas também um chamado à continuidade de seus melhores ideais: colocar a vida em primeiro lugar, defender a dignidade de cada pessoa e compreender que a verdadeira grandeza de uma missão se mede, sobretudo, pelo bem que ela é capaz de produzir na sociedade.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 1/11/26. Editorial p.18.


VIDAS EM SUSPENSE

A Renato Roseno

Por Romeu Duarte Junior (*)

Vivemos um momento muito delicado no Brasil. A possibilidade de sermos levados de volta a um terrível passado recente é considerável. Tempos em que o desrespeito à Constituição, a ladroagem, a corrupção, o desapreço completo pela democracia, as tentativas de golpe e de assassinato de políticos, entre outras tristes lembranças, foram as suas marcas. Fomos resgatados, a muito custo, por um governo de recuperação dos destroços em que este país se encontrava. Mais de um milhão de mortos na pandemia (quem diz isso é a dra. Margareth Dalcolmo), vidas ceifadas pela incúria e a irresponsabilidade, fila do osso, destruição dos prédios dos três poderes da República em Brasília, Brasil voltando ao mapa da fome e sem prestígio. Eita, vamos viver tudo isso de novo?

O que mais me admira é que as pessoas parecem ter esquecido tudo o que passaram. O grande Ivan Lessa dizia que, a cada 15 anos, os brasileiros esqueciam tudo o que havia acontecido há 15 anos. Para mim, talvez esse prazo tenha diminuído e muito. Não consigo compreender como alguém sai de casa para votar contra si próprio. Às vezes acho que a população brasileira é igual ao povo de Gotham City, que vivia em busca de um salvador, aplaudia o Coringa e o Pingüim e odiava o Batman. Como faz falta um pouco de consciência de classe e de saber o seu lugar no mundo! Quem sabe esses conceitos já estejam démodés num tempo em que o entregador de pizza pensa que é empresário e self-made man. É, está difícil aguentar o tranco.

Passo os olhos no jornal com as páginas impressas com o sangue das notícias e dou de cara com absurdos. Um prédio da UFPE que abrigava pesquisadores e seus estudos vítima de três incêndios em uma semana. A que ponto chegou o vil negacionismo e o ódio à universidade pública. Uma criança com a camisa amarela em cima de um carro e com algo que parece uma arma na mão. Uma manifestação pacífica de estudantes em Aracaju foi dissolvida à bala por um policial. Vejo o casal na televisão batendo no peito e se gabando de ser de direita. Mudo o canal e assisto ao cidadão dizer que vai definir o seu voto após os debates. Como dizia Cícero, o tempora, o mores. Ideologia parece ter batido asas e voado. Mesmo com tanta informação, a leitura da realidade é deplorável.

Mesmo assim, resiliente, a esperança resiste. Livramo-nos de muita gente ruim no primeiro turno. Lamento alguns de boa cepa e gente fina que não lograram ser eleitos. Assim é a democracia, um "luxo burguês", como diz um amigo meu da linha chinesa. No bar, meus colegas falam do tempo, das campanhas do Ceará e do Fortaleza, de suas preferências gastronômicas, das viagens que pretendem fazer, entre outras mil abobrinhas. Tratar do que realmente importa, nem pensar, os ânimos podem ficar mais que exaltados. Vivemos um suspense que nem Hitchcock imaginaria. O medo de perder as conquistas alcançadas, a falta de perspectiva e de futuro, a agonia de dormir no céu e acordar no inferno. Profira, Simone de Beauvoir: "em todas as lágrimas há uma esperança". Amém.

(*) Arquiteto e professor da UFC. Sócio do Instituto do Ceará. Colunista de O Povo.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 14/09/26. Vida & Arte. p.2.


quarta-feira, 4 de novembro de 2026

COMER É SAGRADO

Por Izabel Gurgel (*)

A calçada da rua onde moro tem um carrinho de merenda de manhã cedo e no meio da tarde. Tapioca, pão, cuscuz, bolo. Paulino é uma aula de atendimento. Prioridade por ordem de chegada e habilidade para fritar nove ovos ao tempo em que mais lâminas de queijo e presunto chiam na chapa, com bom-dia, boa-tarde, diga, senhora, agora, pois não etc. Duas mulheres da família cuidam dos refrescos, café com e sem leite, carne moída com molho sobre o pão de milho, um pratinho com cara de almoço antes da sete da manhã. Em francês, café da manhã é pequeno almoço.

Paulino está desmontando a banca, depois das nove e perto das dez, chega o serviço de almoço, outra gente, mesas, bancos, e o gosto de ouvir o ofertório de mistura, tantas opções no tabuleiro que carrega um mundo de modos de comer. Leandro, que mora na calçada, auxilia na montagem e desmontagem do restaurante portátil. O carro de merenda e o serviço de almoço ficam na esquina, bem vistos na avenida. O vizinho de calçada fica o dia inteiro, posicionado pela rua que faz esquina com a avenida. Ele vende bombons.

Na mesma calçada, outra esquina é o ponto do carro de frutas. Com a obra do metrô, Gilberto levou a banca para a Beira-mar e de lá voltou, tão logo a esquina foi reaberta, com a novidade, maior ainda, do copo da terra dos gigantes cheio de frutas cortadas. Permanece a opção de fazer ali a feira de frutas. Dá para comprar sem sair do carro. Outro dia expliquei pitomba para turistas que passavam. Se é que posso usar o verbo explicar associado às pitombas.

Uma banca de fruta é um mapa-mundi, vc e eu sabemos. Gilberto não corta abacaxi em rodelas. Vai em nacos na salada com outras frutas. Acho que existe um lugar onde os abacaxis sabem que serão vendidos na rua, aos pedaços, e imagino que seja o modo de existência preferido dos abacaxis, de acabar bonito. Os mais saborosos, salvo engano, comi-os todos das mãos do Senhor da Rua. No Centro de Fortaleza, o ar adorando passar por ali, ardorando um outro frescor. O abacaxi aos pedaços, em copos, entrou na paisagem. Vejo cada vez menos abacaxi em rodelas suspensas no palito, um picaxi.

Com os "picolés de abacaxi", também saem de cena aqueles roletes de cana feito buquê, uma escultura efêmera comestível que, eu poderia jurar, seguiriam nascendo de tão bem concebidas ideia e execução. Nunca os vi na calçada da rua onde moro.

Tem muito mais na rua onde moro. Como no verso do Caetano (cego de tanto vê-la, na canção "Estrangeiro") a gente vê quase nada da rua onde mora, não é?

Nas eleições passadas, a melhor mensagem que recebi quando se anunciou o resultado para presidente da república, a melhor mensagem foi a do Gilberto. Ele me ligou, falando com firmeza e calma da prática de cortar abacaxis. Gilberto me telefonou: "Eu não lhe disse que a gente ganhava?".

Votar pode ser sagrado, feito comida.

(*) Jornalista de O Povo.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 27/09/26. Vida & Arte, p.2.

terça-feira, 3 de novembro de 2026

OPINIÃO E IDEOLOGIA

Por Pedro Bezerra de Araújo – Pierre Nadie

Uma opinião é um ponto de vista, não é, em si, um julgamento e não carece de evidências, a não ser de assentimento de sua razão.

Ela liga-se aos seus valores, com os quais você decodifica impressões e pensares, que lhe produz a mente. Trata-se de uma manifestação de sua maneira pessoal de ver. Pode debruçar-se sobre pessoas, acontecimentos, textos, músicas e qualquer outra coisa ou assunto, na subjetividade do pensar. Seus trâmites percorrem o caminho dos neurônios e sua expressão imprime-se na liberdade incondicional da criatura pensante, em íntimo diálogo com o espelho de experiências, de sentimentos, de princípios, de crenças.

Uma opinião apresenta várias nuances:

a) pode ser vetor de autenticidade e segurança, quando se embasa em fatos e valores, que o sujeito desposa, sem o ranço de fundamentalismos e sem o fechamento em extremismos;

b) pode ter um rosto de teimosia, regado a autossuficiência, orgulho, vaidade.

c) pode ser refém de imunidade cognitiva, alheia a qualquer fato, a qualquer diálogo, a qualquer outro ponto de vista.

Opiniões movem nossos sentimentos e nos conduzem a atitudes e tomadas de decisões. Ter opinião é um direito universal de cada pessoa, porém, para nos secundar, é necessário avaliar os seus alicerces.

A visão que nós temos de mundo passa por tudo que temos albergado em nossa mente, em nosso espirito. Assim, algumas considerações se apresentam: a busca de informações deve submeter-se a questionamentos pertinentes; a ânsia de conhecimentos e a avidez de leituras devem ser norteadas por indagações, sensatez e verdade; ouvir outros pontos de vista, sem o tapume de preconceitos; analisar fatos e não ideias, nem julgar pessoas; respeitar opiniões, inda que não sejam sápidas ou que  pareçam contraditórias ou contrárias ou tenham ares de oxímoro.

A liberdade, que nós temos em nossas opiniões, tem o mesmo lastro de liberdade de quem tem uma opinião discrepante da nossa, é preciso darmo-nos conta disso.

Quando, porém, a opinião perde a identidade de nossa subjetividade, ela nos conduz, atrelados à coleira como um cão, provoca dissonância cognitiva, como o defender a vida e promover o aborto ou como querer emagrecer e atolar-se em pratos de doces, condutas que destoam dos valores que a pessoa diz ter. Quando ainda nos fecha ao outro, prende-nos, cega-nos e faz-nos repetidores pascácios de opiniões, cujo sentido deglutimos sem digerir, tudo isso não pertence mais ao domínio de opinião, mas, adquire uma outra extensão, passa a se constituir uma ideologia, que manipula sem evidência e termina por alienar o espírito, amordaçando o pensar e assolapando a liberdade: desenvolvimento é anulado, protagonismo é pisado, decisões e escolhas são conspurcadas.

Ideologia, este termo polissêmico, foi cunhado pelo filósofo iluminista francês Destutt de Tracy, no final do século XVIII.

Na visão clássica, refere-se a um conjunto de ideias que formam a intelectualidade humana, como parece ter sido o propósito de Tracy.

Numa visão crítica, é uma ilusão criada por uma classe para manter a aparente legitimidade de um sistema de dominação. Conjunto de ideias falsas, ilusórias ou enganadoras, pode ter alguns laivos de verdade, de realidade.

Trata-se de uma falsa consciência, negando a realidade fática, criando narrativas irreais, fantasiosas, agregando-lhes pseudovalores. Podem conter algumas verdades, falsos petiscos que ocultam o objetivo maior de manipular fatos, alienar mentes, produzir dependência e provocar intolerância, com pretexto de segurança, garantia.

Surgem, então, terror, medo, escravidão.

Duas cidades limítrofes, mas divergentes: uma cidade é Várzea, sem fronteiras, com cidadãos livres, ao brilho do sol e ao luar prateado, e desenvolvimento a todo vapor; a outra denomina-se Antro, cercada de gradis e anteparo ao sol para que não incomode sua escuridão, nem alimente pensares e clareie questionamentos, que oportunizem crescimento e dignidade de vida.

Uma boa sexta-feira, com as bênçãos Deus!!!

(*) Pediatra e professor da Uece aposentado. Enviado por WhatsApp em 25/09/26.


PROCISSÃO

Por Pedro Salgueiro, cronista de O Povo

"...ninguém dirige aquele que Deus extravia" (Um copo de cólera - Raduan Nassar)

O Senhor Morto ainda não havia dobrado a esquina da farmácia, demorava-se nas louvações em frente à janela do conselheiro Antônio Nobre. Dona Bertolina erguia as mãos para o céu, repetindo o ritual de sempre. Os galhos de benjamins foram colocados em posição que propiciasse a demora. O meio da rua completamente forrado com as folhas e flores que o sacristão e os mais devotos providenciavam desde a madrugada.

E foi logo de manhãzinha, quando o magricela teve a triste ideia de largar sua tarefa de jogar rosas pelas calçadas para se dirigir ao balcão do boteco Riso da Noite, que a desavença aconteceu. Ele entrou implorando licença, olhou tímido para o proprietário e pediu um refresco. A gargalhada foi geral, uns riram por gosto, outros para agradar os parceiros. Negro Nilson se destacou dos camaradas e pegou o magrinho pela gola, enfiou-lhe a mão aberta no rosto, olhando de soslaio para os companheiros. Depois que o devoto bebeu meia garrafa de aguardente e levou alguns safanões, foi atirado no meio da rua.

O cortejo havia acabado de passar pelo mercado e contornava a esquina da farmácia. Os freqüentadores do boteco saíam para a calçada e se misturavam com a multidão, perdendo-se entre os devotos — os olhos fixos no corpo estendido do Senhor Morto, as narinas invadidas pelo cheiro de velas queimadas e o adocicado das flores murchas. Os mais firmes arriscavam alguns passos atrás da procissão, logo desistiam e cambaleavam de volta; aqueles menos bêbados se escoravam nas paredes e no tronco de um benjamim, acompanhando com os olhos tristes o féretro.

Os fiéis desciam já o alto da matriz, as velas tremelicando na direção do cemitério. No Riso da Noite restou apenas o silêncio. Em todos um certo clima de paz e medo, os olhos perdidos no infinito. Menos o negro Nilson, que jazia debruçado sobre a janela, com os olhos arregalados e a boca aberta buscando desesperada o ar — as mãos cheias segurando as vísceras.

Bem longe o cortejo descia vagarosamente a Rua da Saudade, um dos braços do andor vazio, o Senhor Morto ligeiramente inclinado para a direita.

Fonte: O POVO, de 18/09/2026. Coluna “Crônicas”, de Pedro Salgueiro. p.2.


 

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