A Renato Roseno
Por
Romeu Duarte Junior (*)
Vivemos um momento muito delicado no
Brasil. A possibilidade de sermos levados de volta a um terrível passado
recente é considerável. Tempos em que o desrespeito à Constituição, a
ladroagem, a corrupção, o desapreço completo pela democracia, as tentativas de
golpe e de assassinato de políticos, entre outras tristes lembranças, foram as
suas marcas. Fomos resgatados, a muito custo, por um governo de recuperação dos
destroços em que este país se encontrava. Mais de um milhão de mortos na
pandemia (quem diz isso é a dra. Margareth Dalcolmo), vidas ceifadas pela
incúria e a irresponsabilidade, fila do osso, destruição dos prédios dos três
poderes da República em Brasília, Brasil voltando ao mapa da fome e sem
prestígio. Eita, vamos viver tudo isso de novo?
O que mais me admira é que as pessoas
parecem ter esquecido tudo o que passaram. O grande Ivan Lessa dizia que, a
cada 15 anos, os brasileiros esqueciam tudo o que havia acontecido há 15 anos.
Para mim, talvez esse prazo tenha diminuído e muito. Não consigo compreender
como alguém sai de casa para votar contra si próprio. Às vezes acho que a
população brasileira é igual ao povo de Gotham City, que vivia em busca de um
salvador, aplaudia o Coringa e o Pingüim e odiava o Batman. Como faz falta um
pouco de consciência de classe e de saber o seu lugar no mundo! Quem sabe esses
conceitos já estejam démodés num tempo em que o entregador de pizza pensa que é
empresário e self-made man. É, está difícil aguentar o tranco.
Passo os olhos no jornal com as páginas
impressas com o sangue das notícias e dou de cara com absurdos. Um prédio da
UFPE que abrigava pesquisadores e seus estudos vítima de três incêndios em uma
semana. A que ponto chegou o vil negacionismo e o ódio à universidade pública.
Uma criança com a camisa amarela em cima de um carro e com algo que parece uma
arma na mão. Uma manifestação pacífica de estudantes em Aracaju foi dissolvida
à bala por um policial. Vejo o casal na televisão batendo no peito e se gabando
de ser de direita. Mudo o canal e assisto ao cidadão dizer que vai definir o
seu voto após os debates. Como dizia Cícero, o tempora, o mores.
Ideologia parece ter batido asas e voado. Mesmo com tanta informação, a leitura
da realidade é deplorável.
Mesmo assim, resiliente, a esperança
resiste. Livramo-nos de muita gente ruim no primeiro turno. Lamento alguns de
boa cepa e gente fina que não lograram ser eleitos. Assim é a democracia, um
"luxo burguês", como diz um amigo meu da linha chinesa. No bar, meus
colegas falam do tempo, das campanhas do Ceará e do Fortaleza, de suas
preferências gastronômicas, das viagens que pretendem fazer, entre outras mil
abobrinhas. Tratar do que realmente importa, nem pensar, os ânimos podem ficar
mais que exaltados. Vivemos um suspense que nem Hitchcock imaginaria. O medo de
perder as conquistas alcançadas, a falta de perspectiva e de futuro, a agonia
de dormir no céu e acordar no inferno. Profira, Simone de Beauvoir: "em
todas as lágrimas há uma esperança". Amém.
(*) Arquiteto e
professor da UFC. Sócio do Instituto do Ceará. Colunista de O Povo.
Fonte: Publicado In: O Povo, de 14/09/26. Vida & Arte. p.2.
