Quando um guaxinim era o perigo!
O
motorista se chamava João, rapaz simpático, boa conversa. Eu, no banco de trás
do táxi, lia no celular coisas da modernidade intrigante.
A
certo instante, espantado com recente episódio de violência no Rio de Janeiro,
quebrei o silêncio, dizendo que nesses tempos difíceis "só a proteção
divina para nos guardar".
E
João, morador da Vila União do amigo Jair Moraes, conta, em contraponto, quão
tranquilo era o ir e vir há mais de 40 anos.
-
Morávamos na beirada da Lagoa do Opaia e, jovem ainda, íamos ao Vuac - Vila
União Atlético Clube, festa animada pelo conjunto Os Morcegos. De casa pra lá,
uns 300 metros.
-
"Sem os ladrões atrás", perigo nenhum no caminho, nera?
-
Nenhum! Ainda assim, mamãe pedia cautela: "Cuidado com cobra e
guaxinim!"
A relação glúten/glúteo
Além
da dificuldade de ler que prestasse, a vista não ajudava essas coisas todas; os
ouvidos, contudo, alcançavam o que os ói não abarcavam.
Prestes
a se aposentar, caladão, Dandão é sujeito atento, determinado a aprender. Entre
outras, sabe o que é "glúteo", ouvira por vezes a palavra da boca do
patrão, Dr. Osvaldo - "bem saidinho".
"Fazedor
de mandado" de Dr. Osvaldo, tinha já 20 anos, era por ele
"parido".
-
Pense numa pessoa pra eu gostar! Um pai pra mim! Dou a vida por ele!
Em
casa, certa feita, Dandão ouve da filha Diana, por primeira vez, uma palavrinha
parecida com glúteo - aquela "proteína natural encontrada em cereais como
trigo, cevada e centeio".
Que
consumida por pessoas com condições específicas, é um perigo - provoca reações
adversas, a exemplo da autoimune doença celíaca.
A
filha, com considerada alergia ao trigo, toda se coçando, é indagada pelo pai
sobre a mazela manifestada.
-
É intolerância ao glúten!
-
Ao quê, Diana?!?
-
Glúten, pai! Não sei como ainda tem gente que gosta...
A
filha nem bem pronunciou a frase completa ("Não sei como ainda tem gente
que gosta de pão") e Dandão, pensando tratar-se do "grupo de três
músculos na parte de trás do quadril", corre e arremata:
-
Pois eu sei quem gosta! Dr. Osvaldo dá o maior valor!
Esquecendo o que não lembrava
Mal
cheiro medonho - de cocô ultrapassado - no consultório. E o senhor, lá dentro,
com pressa pra relatar ao médico uma "incapacidade de criar novas
memórias, decorrido algum momento", conhecida por amnésia anterógrada.
Põe-se
a contar ao geriatra, que se esforça para manter-se calmo, o que sentia.
Profissional incomodado enquanto investiga do que sofria "seu Bené",
e poder traçar o melhor plano de cuidados.
O
octogenário paciente se faz acompanhar da filha Isaura, cuidadora
monossilábica, acostumada já com os senões do pai. Começa Bené a discorrer.
-
Doutor, eu como uma pratada de feijão, mas é como eu não tivesse comido nada...
-
Isaura, ele comeu ou não essa pratada de feijão? - pergunta o doutor.
-
Comeu... - responde seca a protetora.
-
E aí, dotozim - prossegue Bené -, bebo uma garapa, mas é como se não tivesse
bebido.
-
E ele, Isaura, bebeu?
-
Bebeu...
Agora,
explodindo a catinga do "resto de tudo o que o corpo (de seu Bené) não
aproveitara dos alimentos digeridos", é o próprio paciente que revela o
que tem:
-
Como eu ia dizendo, tá com três dias que eu defeco direto nas calças, mas é
como se eu não tivesse obrado...
-
Tá explicado! Agora tá explicado!
Fonte: O POVO, de 14/08/2026. Coluna
“Crônicas”, de Tarcísio Matos. p.2.

