quarta-feira, 4 de março de 2026

ECONOMIA CIRCULAR: caminho estratégico para a indústria do futuro

Por Lauro Chaves Neto (*)

A Economia Circular deixou de ser apenas uma pauta ambiental para se consolidar como estratégia essencial de competitividade para a indústria. Em um cenário de escassez de recursos, aumento de custos e pressão por sustentabilidade, reaproveitar materiais, reduzir desperdícios e redesenhar processos produtivos não é mais opção - é necessidade.

Para que essa transformação aconteça de forma consistente, é fundamental promover a colaboração integrada entre os diferentes níveis de governo, os elos da cadeia produtiva e os trabalhadores do setor industrial. A atuação conjunta permite superar barreiras regulatórias, alinhar políticas públicas e criar um ambiente favorável à inovação. Cabe ao poder público criar incentivos, atualizar legislações e oferecer segurança jurídica.

A indústria ocupa papel central nesse processo. É nela que surgem as maiores oportunidades de redução de impactos ambientais, economia de insumos e aumento da produtividade. A adoção de modelos circulares possibilita às empresas reduzir custos operacionais, otimizar o uso de energia, reaproveitar resíduos e desenvolver novos produtos a partir de materiais antes descartados, ampliando também a competitividade nacional e internacional.

Nesse contexto, a colaboração público-privada é decisiva. Parcerias estratégicas estimulam o desenvolvimento de tecnologias limpas, a modernização dos processos produtivos e a criação de novos modelos de negócio. Reconhecer e divulgar experiências bem-sucedidas é fundamental para inspirar outras indústrias a adotarem práticas sustentáveis.

Além dos ganhos ambientais, esse modelo gera impactos sociais positivos, com a criação de empregos, valorização do trabalho local e fortalecimento das cadeias produtivas regionais. Investir em Economia Circular é apostar em desenvolvimento econômico com responsabilidade social.

Para a indústria brasileira, a Economia Circular não é uma escolha, é uma imposição do presente. Permanecer preso a modelos ultrapassados significa perder competitividade, mercados e oportunidades. O futuro da produção exige inovação e uso inteligente dos recursos.

(*) Consultor, professor doutor da Uece e conselheiro do Conselho Federal de Economia.

Fonte: O Povo, de 2/02/26. Opinião. p.20.


As normas contábeis e a reforma tributária

Por Alexandre Sobreira Cialdini (*)

As dificuldades de relacionamento e negociação entre empresas de diferentes países levaram à criação, nos anos 1970, do International Accounting Standards Committee (IASC), organismo independente formado por entidades contábeis da Alemanha, Austrália, Canadá, Estados Unidos, França, Irlanda, Japão, México, Países Baixos e Reino Unido. O objetivo era definir normas contábeis que pudessem ser utilizadas globalmente.

As primeiras medidas foram publicadas pelo International Accounting Standards Board (IASB), que ficou responsável pela emissão das Normas Internacionais de Relatório Financeiro (IFRS). A instituição possui mais de 140 entidades contábeis profissionais, inclusive do Brasil. No mundo empresarial, se cada organização seguir as normas contábeis do seu país, não existirá um padrão para as demonstrações contábeis, consequentemente, estas informações não serão comparáveis. No entanto, se for aplicado o mesmo padrão nos diferentes países a compreensão das informações fluirá de forma natural.

O processo de adoção das normas internacionais de padrões contábeis no Brasil teve início em 2005, com a criação do Comitê de Pronunciamentos Contábeis (CPC), responsável pela tradução e adaptação das normas internacionais às normas brasileiras de contabilidade (NBC). Em 2007, as normas IFRS tornaram-se obrigatórias para as empresas de capital aberto, que tiveram um prazo de adaptação de três anos para implementá-las.

Atualmente, o CPC é responsável pelo alinhamento das regras contábeis brasileiras, emitidas por diversas entidades regulatórias, com os padrões internacionais IFRS e são editadas pela Comissão de Valores Mobiliários (CVM). A última edição aconteceu em 24 de dezembro passado, que tornou obrigatória para as companhias abertas o aprimoramento e a apresentação das demonstrações contábeis, exigiu a divulgação em notas explicativas de medidas de desempenho definidas pela administração e introduziu novos princípios para a agregação e desagregação de informações contábeis.

A Reforma Tributária muda profundamente o papel da contabilidade, exigindo adaptação dos sistemas, revisão de processos e capacitação, com o CPC tendo um papel crucial na normatização do IVA Dual (CBS e IBS) e na orientação sobre a não cumulatividade plena, créditos fiscais mais amplos e novas obrigações acessórias. O CPC será fundamental para emitir pronunciamentos que interpretem e orientem a aplicação das novas regras do IVA Dual, do conceito de "estoques" e da apuração de créditos.

Em resumo, a reforma tributária exige uma reengenharia dos processos contábeis, direcionando o foco para uma gestão mais estratégica e integrada ao negócio, com o CPC liderando a normatização desse novo cenário.

(*) Mestre em Economia e doutor em Administração Pública e Secretário de Finanças e Planejamento do Eusébio-Ceará.

Fonte: O Povo, de 22/01/26. Opinião. p.19.


terça-feira, 3 de março de 2026

Lançamento do livro “Árias e Areias” de Pedro Bezerra de Araújo

Por Pedro Bezerra de Araújo – Pierre Nadie

Árias e Areias são 314 páginas, que fazem dançar ritmos que moldam relacionamentos, ao som de árias que cantam o amor, a amizade e acontecimentos do dia-a-dia, bem como as areias que tanto podem construir como podem esvair-se ao balanço das ondas do mar ou ao sopro dos ventos tempestuosos. São versos livres, ao sabor da sensibilidade de ver, sorrir, abraçar e amar e motivar o pensar.

"Com o raiar do dia, / O sol põe-me a cogitar: / O amor de onde vem? / E a amizade vem de onde?/ Das areias do mar / Ou das árias de Mozart?"


A REVOLUÇÃO 80 +

Texto de Nélia Fontenele, jornalista

Em entrevista exclusiva, o médico, gerontólogo e escritor Alexandre Kalache — que celebra 80 anos de vida e 50 de carreira — desafia o "idadismo" e alerta: o país que não valorizar seus velhos ficará para trás.

Você já pensou na sua velhice? Pensou que, dependendo de sua atual idade, você será o velho de amanhã? O médico, gerontólogo e escritor Alexandre Kalache nos ajuda a refletir sobre o tema a partir de sua trajetória de oito décadas de vida e meio século dedicado à Gerontologia. Em entrevista ao O POVO, ele apresenta reflexões contidas em seu novo livro, "A Revolução da Longevidade", que será lançado em Fortaleza em março.

Quando Kalache nasceu, em 1945, a expectativa de vida no Brasil era de 46 anos. Hoje, avançamos para a casa dos 78 anos — uma transformação imensa ocorrida em pouco tempo. "Em apenas uma vida, conquistamos mais de 30 anos extra. Mas é preciso fazer uma correção urgente no imaginário: não ganhamos 30 anos de velhice; ganhamos 30 anos de vida", alerta.

A longevidade conquistada é, em sua avaliação, algo a se comemorar, mas exige um reenquadramento da visão e da posição ocupada pelos idosos na sociedade. "Vivemos um fenômeno sem precedentes: o único grupo etário que continua aumentando no país é o de pessoas com mais de 60 anos, que já representa cerca de 16% da nossa população. As projeções para 2050 são contundentes: daremos um salto de 33 milhões para 68 milhões de idosos, compondo 31% do país. Enquanto isso, os demais grupos — crianças, jovens e adultos — diminuirão".

Diante desse cenário, a mensagem é clara: os idosos são essenciais para que o Brasil dê certo. No entanto, há um inimigo silencioso e onipresente, aponta Kalache: o idadismo, o preconceito baseado na idade, uma ideologia supremacista que tenta "tirar do caminho" quem já não se encaixa em um padrão produtivo arcaico - algo amplamente aplicado durante a pandemia.

Ele aponta quatro pilares desse preconceito a ser combatido: 1) ideológico (o decreto antecipado de que o idoso não serve, não produz e não tem vez); 2) institucionalizado a negação de oportunidades no mercado de trabalho); 3) interpessoal (silenciamento através de frases como "Você é velho, não tem opinião"); e 4) internalizado (o próprio idoso passa a acreditar que é um fardo). "Eu sou bem claro: sou velho e não sou um fardo", enfatiza ele.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 1/02/2026. Ciência & Saúde. p.14.

segunda-feira, 2 de março de 2026

O MERGULHO

Por Patrícia Soares de Sá Cavalcante (*)

Sentada na escadaria, sentia o sol esquentar a pele e olhava o mar ao longe. Fixava o horizonte e imaginava o outro lado do mundo. Sem a menor noção de geografia, passava horas pensando aonde chegaria se o atravessasse.

Tomava banho no raso, aprendendo o momento certo do mergulho. O caldo era inevitável. Vinha forte, agressivo. Ao cair, eu me assustava, mas depois o prazer predominava. Avançava um pouco em direção ao fundo. Apenas o pescoço de fora. De vez em quando, a onda cobria meu corpo inteiro. Ficava sem dar pé por alguns segundos, mas logo sentia os pés tocarem a areia.

Terra firme. Precisava de terra firme. Tinha que saber onde pisava. O outro lado era um país imaginário, estrangeiro. O desconhecido era areia movediça.

Havia, ainda, a transparência da água. Via o que não queria ver. Dava muito medo. Era bonita, límpida, mas assustava. Preferia a turva - ali, conseguia esquecer os riscos, ou ao menos não pensar neles. Na água turva, permitia-me boiar.

Aquele mar avançou e levou a escada. Perdi o acesso, mas ele não me deixou. Voltava nos meus sonhos. Ficava no alto, observando se conseguiria entrar. Na maré baixa, talvez.

Aventurei-me em outros mares. Pulei em alto-mar. Qual seria a profundidade ali? O que teria embaixo? As pernas agitavam demais. Fui controlando o ritmo e comecei a nadar. Estava tranquila entre o fundo e a superfície. Flutuava na água transparente. A água cintilava.

Mergulhei. A descida foi lenta, muito lenta. O fundo do mar é imenso. A luz do sol penetra na água e abre um feixe luminoso. Meus olhos se arregalaram. Os peixes eram menores do que eu imaginara. Vi um naufrágio. Aproximei-me. Que vestígios guardava? O casco estava coberto de algas e conchas. Não tinha nada de tão assustador. Carregava histórias. Sustentava vida. Descansava no fundo. Também tinha encontrado a terra. Continuei descendo, completamente absorta.

Pisei.

No fundo do mar, a terra é firme.

Voltei a flutuar suavemente. A claridade foi aumentando. Senti o sol sobre a pele. Emergi.

(*) Médica psiquiatra.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 27/01/2026. Opinião. p.16.

Um alerta aos homens de todas as idades

Por Diego Capibaribe (*)

Quando falamos em câncer masculino, a maioria das pessoas se lembra do câncer de próstata. No entanto, existe outro tumor, menos frequente, mas potencialmente grave, que afeta principalmente homens jovens: o câncer de testículo. Apesar de raro, representa o tumor sólido mais comum em homens de 15 a 35 anos, uma faixa etária que, por se considerar saudável, muitas vezes negligencia a própria saúde.

Um ponto animador é o câncer de testículo ser altamente curável na maioria dos casos, mesmo quando diagnosticado em estágios avançados. Mas, para isso, é preciso que o homem esteja atento aos sinais. O sintoma mais frequente é o aparecimento de um nódulo endurecido ou aumento do volume em um dos testículos, geralmente indolor. Para nós, urologistas, a ausência de dor é traiçoeira, pois leva muitos pacientes a retardarem a procura por atendimento.

Embora não exista uma causa única, sabemos que fatores como o histórico de criptorquidia (testículo que não desceu para a bolsa escrotal na infância), antecedentes familiares e algumas condições genéticas aumentam o risco. Por este motivo, sempre reforço a importância do autoexame testicular mensal (que pode ser feito durante o banho, quando a pele do escroto está mais relaxada), um gesto simples, que leva menos de um minuto e pode salvar vidas.

O tratamento da doença depende do tipo e do estágio do tumor, mas normalmente começa com a remoção cirúrgica do testículo afetado. Em seguida, podem ser indicadas quimioterapia ou radioterapia, com excelentes índices de sucesso. E aqui está a mensagem fundamental aos leitores: perder um testículo não afeta necessariamente a fertilidade nem a produção hormonal de forma significativa, e hoje há próteses testiculares que restauram a estética e a autoestima do homem.

Como médico, penso que precisamos quebrar o tabu em torno da saúde masculina. A vergonha e a desinformação ainda são barreiras perigosas, que podem custar caro. O diagnóstico precoce é nossa arma mais poderosa, e começa com a atenção do próprio homem ao seu corpo. Cuidar de si não é sinal de fragilidade, mas de responsabilidade.

(*) Médico urologista. Especialista em cirurgia robótica.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 25/01/2026. Opinião. p.22.


domingo, 1 de março de 2026

Causo Médico: SALGADOS, MUITOS. SIMANCOL, ZERO

Por volta de 1965, uma determinada escola de Medicina estava sediando um evento comemorativo e decidiu oferecer uma pequena recepção aos participantes. Como não havia recursos para contratar um “buffet” completo, e sequer garçons, para os serviços pertinentes, a direção dessa faculdade decidiu improvisar, colocando o pessoal de limpeza para servir os acepipes aos comensais.

Um dos recrutados para a tarefa foi o faxineiro do bloco didático, bastante conhecido por suas estripulias e pela absoluta falta de “simancol”. Ele estava ali, para o que desse e viesse, sem se mancar com as “ratas” que certamente acabaria por provocar. Foi aí que, portando uma bandeja com salgadinhos, dirigiu-se a um grupo de professores, composto, notadamente, por cirurgiões de nomeada, oferecendo a variedade dos canapés àquela roda de mestres.

Discretamente, o Prof. Aroldo Ferreira (nome fictício) pegou um salgadinho, no que foi surpreendido pelo serviçal, com essa provocação:

– Num se acanhe não, Dr. Aroldo. Pode pegar mais e até “butar” nos “bolso” do paletó, pra levar pros bichinhos da sua casa.

Polidamente, o Prof. Ferreira recusou a oferta, esboçando um sorriso para o colega Prof. Nelson Gonçalo (nome fictício), que estava ao seu lado, ambos tomados por um certo constrangimento, diante da falta de lhaneza do improvisado garçom.

O faxineiro não perdeu a oportunidade para insistir:

– Dr. Nelson, deixe de “encabulação” e “atraque” suas mãos aqui pra pegar um bocado pra levar pra família. Tem muito lá dentro. Acho qui vai sobrá muito desse troço – arrematou o servidor, garçom de araque.

Os dois afamados cirurgiões, como autênticos gentis-homens, decidiram ignorar as tantas tentações do momento e puxaram um assunto médico para seguir a conversa, dispensando os préstimos do pseudogarçom, que ficou a procurar outros mestres dispostos a ouvir suas baboseiras, quiçá a fazer uso da velha tática de juntar pasteis e canudinhos para o “jantar” do cãozinho de estimação, quando, na verdade, eles próprios é que estavam inclinados a fartar o bandulho com os deliciosos salgadinhos da festa.

Marcelo Gurgel Carlos da Silva

Da Sobrames/CE e da Academia Cearense de Médicos Escritores

Fonte: SILVA, Marcelo Gurgel Carlos da. Medicina, meu humor! Contando causos médicos. 2.ed. Fortaleza: Edição do Autor, 2022. 144p. p.73-74.

* Republicado In: SILVA, M.G.C. da. Causo médico: salgados, muitos. Simancol zero. Revista AMC (Associação Médica Cearense). Julho de 2024 - Edição n.34. p. 27-27 (online).


 

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