Por Pedro Salgueiro, cronista de O Povo
"Os homens que foram aqueles meninos
não querem lembrar dos domingos."
Recebi, por esses dias, uma pequena pérola
literária (dessas que deveriam viajar na boleia de nossas melhores leituras,
tão pródigas em relegar os melhores talentos à surrada carroceria... não sei se
me entendem!?).
O livrete foi escrito por Julio Lira,
editado pelo escritor-professor Rodrigo Marques na sua "aluáEditora",
com tradução, isso mesmo!, para o inglês da canadense Odile Cisneros; ah!,
também com belo projeto gráfico e diagramação de Barbarah Freire; recebi o
lindo objeto-branco-delicado com deleite, já prevendo chocolate dos bons, pois
vindo de uma amigo de longas datas e algumas caminhadas juntos (embora quase
nunca nos avistemos pelas ruas, becos e vielas de nossa sonsa loirinha
desmilinguida pelo sol).
Depois do susto comecei a leitura, indo e
vindo do português para o inglês, correndo às "notas-dobras"
esclarecedoras do final do livro, não consegui mais largar até a última
letrinha; depois reli e tresli, sem ainda me contentar.
Antes de agradecer, ainda no calor do
espanto me dirigi ao santo-oráculo que me socorre nesses raros momentos de
espanto:
"Meu caro, estou lendo um poema de um
autor cearense sobre um internato nos Estados Unidos. Com tanta coisa para
escrever sobre o Brasil, isso não é um sintoma de colonização cultural?"
No que ele, sem titubeios, me respostou:
Você certamente está falando de Visita Dominical, de Júlio Lira, mas antes de
responder a essa saudável inquietação, preciso dizer do que trata o livro. Um
grupo de gestores, urbanistas e convidados visita às ruínas de uma instituição
que, durante mais de um século, funcionou em Massachusetts e foi considerada a
maior e mais modelar instituição americana dedicada à educação, segundo os
termos da época, de "idiotas" e "retardados mentais". Os visitantes
se deslumbram e pensam em novos usos para os prédios históricos. Basta, porém,
atravessar as alamedas e os corredores abandonados para que o passado se
arrebente contra eles.
Surgem as vozes de crianças internas, de
familiares separados, de administradores, de psiquiatras, de legisladores.
Falam os jornais, os prontuários, os relatórios. Falam também os mortos. A
visita deixa de ser um percurso arquitetônico para tornar-se uma travessia de
uma memória apagada. As ruínas, os móveis e os objetos, resíduos de quase dois
séculos, não se calam.
É verdade que o livro está profundamente
interessado nos Estados Unidos. Mas não pelos motivos habituais. Em vez de
perseguir o American Way of Life, procura compreender como esse imaginário foi
construído. Afasta-se dos monumentos gloriosos e mergulha em um dos seus
subterrâneos mais abjetos, conduzindo o leitor até uma história vergonhosa.
E faz isso pela poesia. Visita Dominical se
aproxima de um antiépico. O poema se embrenha nas sombras, nos apagamentos e
nas manchas da história.
O tempo também deixa de obedecer à
cronologia. A visita contemporânea, o funcionamento da instituição e a leitura
acontecem simultaneamente. O leitor caminha entre os vivos e os mortos, entre
os fatos e a sensibilidade do poeta.
Volto, então, à sua pergunta. Sim, faz
sentido um poeta cearense escrever sobre um internato em Massachusetts. Porque
o livro pretende compreender um aspecto da formação dos Estados Unidos. As
teorias raciais e a eugenia nasceram na Europa, mas encontraram nos Estados
Unidos um dos lugares em que foram institucionalizadas, ampliadas e
transformadas em práticas sociais.
Compreender a institucionalização da
eugenia nos Estados Unidos é também compreender a circulação internacional
dessas ideias e a maneira como elas repercutiram em sociedades como a
brasileira. O livro é uma janela para essa história.
Durante décadas, os Estados Unidos
produziram ou estimularam os chamados brasilianistas para interpretar o Brasil.
Visita Dominical realiza, de certo modo, o movimento inverso: um poeta
brasileiro toma os Estados Unidos como objeto de investigação. Não para
reproduzir suas imagens gloriosas, mas para interrogar os seus abismos.
Por isso, vejo aí um gesto de
descolonização cultural. Um poema brasileiro devolve o olhar.
Em vez de aceitar as imagens que uma
potência construiu de si mesma, digere seus arquivos e seus resíduos e pergunta
o que ainda têm a dizer sobre o presente, sobretudo num tempo em que ideias
eugênicas voltam a circular, sob novas linguagens, pelas redes sociais."
Fonte: O POVO, de 7/08/2026. Coluna
“Crônicas”, de Pedro Salgueiro. p.2.


