Por Daniel
Pinheiro (*)
O recente internamento de um comunicador
cearense por mastoidite aguda despertou preocupação e gerou um
debate nas redes sociais. Como ele relatou ter realizado uma lavagem nasal
antes do início dos sintomas, muitas pessoas passaram a estabelecer uma relação
direta entre o procedimento e a doença. Essa associação, entretanto, não
encontra respaldo nas evidências científicas.
A mastoidite é uma infecção do osso
localizado atrás da orelha, a mastoide, e quase sempre representa uma
complicação de uma otite média aguda. Embora hoje seja incomum graças ao uso
dos antibióticos, continua sendo uma condição potencialmente grave, capaz de
provocar perda auditiva, meningite e outras complicações quando o tratamento é
retardado.
É importante esclarecer: a lavagem nasal
com soro fisiológico não causa mastoidite. Pelo contrário, ela é recomendada
pelas principais sociedades médicas para o tratamento da rinite e da
rinossinusite. Quando realizada corretamente, melhora o funcionamento da mucosa
nasal, facilita a eliminação de secreções e pode, inclusive, reduzir a
ocorrência de otites, especialmente em crianças.
Como qualquer procedimento, entretanto,
exige técnica adequada. O uso de pressão excessiva, principalmente durante
episódios de intensa congestão nasal, pode provocar desconforto nos
ouvidos e, em situações específicas, favorecer a passagem de secreções para a
tuba auditiva. Se houver uma infecção respiratória em curso, isso pode
contribuir para o aparecimento de uma otite. A mastoidite, quando ocorre,
decorre da evolução dessa infecção do ouvido - não da lavagem nasal.
Criar uma relação de causa e efeito entre a
irrigação nasal e a mastoidite pode produzir um efeito indesejado: afastar
pacientes de um tratamento simples, seguro e eficaz por medo de uma complicação
extremamente rara.
Mais do que procurar culpados, este caso
deve servir para reafirmar o valor da informação baseada em evidências. Em
tempos de conclusões apressadas, a ciência continua sendo o caminho mais seguro
para orientar decisões que envolvem a saúde. Afinal, informação de qualidade
também salva vidas.
(*) Médico
otorrinolaringologista.
Fonte:
Publicado In: O Povo, de 24/07/2026.
Opinião. p.18.
