segunda-feira, 21 de setembro de 2026

EU VI!

Por Izabel Gurgel (*)

Houve um tempo em que nossa Tia Esmeralda dizia: "Caetano Veloso e Maria Bethânia são a mesma pessoa". Absoluta, Tia Esmeralda. "Uma só pessoa."

Eu não entendia. Era demais mesmo eu já tendo visto Fu Man Chu serrar uma mulher ao meio e deixá-la inteira ao final da mágica mais esperada no circo de passagem por Uruburetama. Também já havia angariado recursos para a cirurgia de recomposição da "Rose, a decapitada viva". Como? Levava mais gente para ver Rose na barraca da Feira dos Municípios, em Fortaleza. A bilheteria era para a cirurgia de recolocação da cabeça junto ao corpo, dizia o comovido senhor que apresentava cada sessão.

Depois de tanto trabalho, de mobilização de público, a produção de decapitada, a plateia pagante, vi Rose e o comovido senhor de mãos dadas na tarde do domingo, em cuja noite se daria a última apresentação. Estavam no Parque de Exposições, a caminho, talvez, da barraca-do-drama. Bem que o Dr. Prefeito havia explicado, a pedido da minha mãe, que era impossível alguém viver decapitado. Explicou como médico que era e usando um exemplo da física. O que acontecia ali era um truque de ilusionismo, com espelhos, luz, refração, eu iria ver com meus próprios olhos nos livros que ele me mostraria na volta para casa.

Ouvir eu ouvi. Valeu nada. Eu não pagava mais ingresso, pois estava a serviço. Quem pagava, via, no congelador da geladeira vazia, a cabeça ligada por mangueiras de jardinagem ao corpo na maca. E Rose falava. Falar com som, emissão de voz, não, mas abria e fechava os olhos, em diálogo com o citado comovido senhor e, por meio dele, com a plateia.

- Rose, Rose...

Em tom de dramática incerteza, parecia perguntar a si. A dúvida se Rose ainda teria forças para responder nos abalava. Silêncio de cortar corações, como cortada estava a cabeça.

Alonga-se a pausa dramática.

- Rose..., você quer viver, Rose?

Mais nove desertos de drama.

... uma sequência mais dramática ainda de abrir-e-fechar-de-olhos. Por vezes, Rose se fazia em lágrimas. Bem poucas. Havia mais lágrima na plateia.

Antes e depois da pergunta mil e uma vezes recolocada (há anos estavam em peregrinação. Via-se pelo estado da geladeira), o comovido senhor contava tudo o que havia acontecido com ela aos 19 anos. A tentativa de assassinato pelo marido, a fuga, os primeiros socorros, a esperança itinerante no combo barraca-Rose-geladeira-maca-comovido-senhor, único modo de sensibilizar as pessoas. Cada sessão urgia ser a última antes da cirurgia e restauro. O tempo de vida de Rose cada vez menor, a urgência por justo aquele tanto que faltava para cobrir o volume de gastos; os agradecimentos por estarmos ali, não só pagando ingresso, mas doando um tanto mais, o possível de cada qual para costurar a cabeça ao corpo da artista.

Não sei como, mas eu já sabia que Rose e o comovido senhor eram artistas. E duas pessoas tão separadas uma da outra quanto a cabeça e o corpo da Rose.

(*) Jornalista de O Povo.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 16/08/26. Vida & Arte, p.2.


domingo, 20 de setembro de 2026

SULIVAN MOTA

Por Lêda Maria, jornalista de O Povo

Desde criança ele já manifestava o desejo de ser médico. Aos 9 anos, conseguiu comprar o seu primeiro livro de pequenos socorros e logo aprendeu a aplicar injeção, ganhando a confiança das pessoas e entregando-se à prática de um "pequeno doutor", recebendo da família orientação e motivação.

Após a formação em Medicina, pela UFC, conheceu o Iprede, ali exercendo sua vocação de amor. São 40 anos de dedicação. Aqui está Sulivan Mota, nosso entrevistado.

1. Quem é você?

Eu sou o Sulivan Mota. Ou melhor, eu fui o Sulivan Mota até alguns anos atrás, quando assumi o Iprede. A partir dali, passei a ser o Sulivan do Iprede.

É assim que a sociedade carinhosamente me chama. E eu sou imensamente feliz por isso — por estar nesta casa e ouvir "o Sulivan do Iprede" e não o inverso, "o Iprede do Sulivan", o que me deixaria profundamente triste. Sou pediatra de alma.

Professor aposentado da Universidade Federal do Ceará, onde exerci a docência por escolha de vida durante 44 anos.

2. Por que optou pela profissão de médico?

É difícil dizer, porque me falta a lembrança de ter pensado em qualquer outra profissão. Sempre tive a certeza absoluta de que seria médico.

O que me levou a isso, realmente, não sei. Não tive um pai ou um irmão mais velho médico para me influenciar.

Aos 10 anos de idade, depois de insistir muito, meu pai comprou para mim um livro que ensinava a aplicar injeção intramuscular.

Li e reli aquele livro e, depois de meu pai tomar a lição repetidamente, abri meu pequeno ambulatório para fazer curativos e aplicar injeções.

Tinha uma maletinha que eu carregava para cima e para baixo, atendendo a vizinhança ou alguém da família que necessitasse. Assim, ainda menino, eu já me projetava médico.

3. E o Iprede, como chegou à sua vida?

O Iprede chegou de forma muito suave, muito terna. Não sou fundador, mas, logo depois de fundado, cheguei ao Iprede como professor da UFC, levando meus alunos da disciplina de Desnutrição para aulas práticas.

Naquela época, a desnutrição atingia um pouco mais de um terço de nossas crianças. Logo me encantei com o Iprede, pela sua capacidade de estudar e por suas articulações com entidades do mundo inteiro, como o Instituto de Nutrição de Londres, onde Waterlow era o maior pesquisador em desnutrição da época.

Depois passamos a ser plantonista e médico do ambulatório, sempre nos comprometendo com aquele trabalho lindo, que transforma vidas. Falo no plural porque essa caminhada tem a companhia inseparável do pediatra João Nelson.

Nos encantamos tanto que, quando o Iprede esteve ameaçado de fechar as portas, decidimos assumir a entidade, mesmo em meio a grandes dificuldades. Chegamos com o coração aberto, com muita fé em Deus, que se faz manifestar aqui a todo instante.

4. Hoje quais são os seus dois principais desejos nessa caminhada no Iprede?

Alimentamos um dos maiores sonhos: a autossustentabilidade. No início nos pareceu utopia, mas a cada dia nos aproximamos mais dela. O primeiro desejo foi honrar e pagar as dívidas.

O segundo, o sonho que hoje nos move, é alcançar escala no atendimento das crianças neurodivergentes. Hoje temos uma demanda que jamais o Estado brasileiro terá condições de atender sozinho.

Mesmo havendo recursos, não teremos profissionais suficientes para assistir todas as crianças necessitadas.

A metodologia que se tem hoje para a intervenção no autismo exige um contingente de especialistas que o Brasil não dispõe.

O Iprede estudou e desenvolveu uma metodologia 10 a 12 vezes mais barata que a tradicional e que pode ser implantada tanto no pequeno quanto no grande município do Brasil.

Meu sonho é vê-la implantada, atendendo à demanda por inteiro. Só em Fortaleza, esta demanda ultrapassa 55.000 crianças buscando uma vaga para atendimento que, certamente, não terão se nada mudar.

5. Devoto de Irmã Dulce, como se relaciona com ela e qual uma graça alcançada?

Irmã Dulce tem sido a nossa mentora, a nossa santa milagrosa fazendo com que aqui dentro hoje possamos atender 4 mil crianças, 4 mil famílias.

A gente conseguir fazer a transformação dessas realidades confirma a cada momento a verdadeira realização de um milagre dela.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 19/09/2026. V&A. Lêda Maria. p.3.


A COLISÃO DE TRENS

Um dia o chefe de uma estação ferroviária, conversando com um dos funcionários, pergunta-lhe:

- Diga-me, o que você faria se visse que dois trens iriam colidir?

- Avisaria por rádio ou com bandeiras para mudar de faixa - o funcionário responde com muita segurança.

- E se eu não tivesse rádio nem bandeiras? - insistiu o chefe.

-  Bem, então eu ligaria para meu primo.

Surpreso, o patrão lhe pergunta:

- O seu primo saberia o que fazer?

- Não, é que ele nunca viu um acidente de trem.

Fonte: Disponível na home page “Tudoporemail”.


sábado, 19 de setembro de 2026

PESAR POR DR. NEY LEMOS

É com intenso pesar que aqui registro o falecimento na noite de ontem, 18 de setembro de 2026, do Dr. Ney Lemos, médico cirurgião geral e bariátrico.

Francisco Ney Lemos nasceu em Várzea Alegre, Ceará, em 15 de agosto de 1948. Era filho do médico e escritor Manoel Gonçalves de Lemos e de Francisca Mirtes Bitu Lemos.

Médico inscrito no Conselho Regional de Medicina do Ceará (CREMEC com RQE de Cirurgia Geral e de Medicina do Trabalho. Ele foi um renomado médico cirurgião cearense, com uma trajetória de grande destaque na medicina do Ceará.

Sua carreira médica foi dedicada principalmente à Cirurgia Geral, tendo realizado especialização em Cirurgia Geral na Clínica Cirúrgica do Hospital Getúlio Vargas, em Recife, no período de 10 de janeiro de 1977 a 9 de janeiro de 1979.

Atuou ativamente em entidades médicas, tendo exercido cargos de destaque como o de Vice-Presidente do Setor I do Colégio Brasileiro de Cirurgiões (CBC) e participação em marcos da cirurgia geral e bariátrica no estado do Ceará.

Um dos aspectos mais importantes de sua trajetória foi sua longa vinculação ao Hospital Geral Dr. César Cals (HGCC), da Secretaria da Saúde do Estado do Ceará.

Nessa instituição, atuou como preceptor de Cirurgia Geral e preceptor-chefe da Residência Médica, além de ter exercido funções relacionadas ao Serviço de Controle de Infecção Hospitalar. Sua atuação ganhou especial destaque com a implantação do Serviço de Cirurgia Bariátrica e Metabólica do HGCC.

Era Membro Titular do Colégio Brasileiro de Cirurgiões (CBC) e da Sociedade Brasileira de Cirurgia Bariátrica e Metabólica (SBCBM).

Em 2006, ele presidiu o I Congresso de Cirurgia do Setor II do Colégio Brasileiro de Cirurgiões, realizado em Fortaleza, reunindo os capítulos do Ceará, Piauí e Maranhão.

No biênio 2008–09, Ney Lemos ocupou a posição de Vice-Presidente do Setor II do Colégio Brasileiro de Cirurgiões, representando a região Nordeste.

Em 2012, quando o serviço alcançou a marca de 500 cirurgias bariátricas, o Governo do Ceará registrou que a unidade já funcionava havia aproximadamente dez anos. Ney Lemos era um dos médicos responsáveis pelo serviço.

Em 2015, ele aparece expressamente identificado como coordenador da Unidade de Cirurgia Bariátrica e Metabólica do HGCC.

Lamento a perda do colega Francisco Ney Lemos. Pessoa muito querida e estimada na classe médica cearense. De fino trato, cordial e afável, qualidades que se agregavam à sua competência técnica como cirurgião geral.

Trabalhamos juntos na organização de congressos e em vários processos seletivos de residência médica. Foi nosso aluno em Curso de Epidemiologia Clínica.

Estive hoje cedo no velório desse nosso colega. A sua esposa Mercia Lima de Carvalho Lemos me pediu para reunir as mensagens de pesar em grupos de WhatsApp para repassar para ela.

Nossos pêsames à família enlutada.

Que Deus o acolha entre os Seus eleitos em sua nova morada.

O corpo do Dr. Ney Lemos está sendo velado, desde às 7 horas de hoje, dia 19 de setembro de 2026, no Velatório Ternura, à Rua Pe. Valdivino, Nº 2.255. A missa de corpo presente será celebrada às 15h e, em seguida, seus despojos serão levados para sepultamento, às 16h30min, no Cemitério Parque da Paz.

Marcelo Gurgel Carlos da Silva

Da Sociedade Médica Saõ Lucas

OS BÊBADOS NA ESTAÇÃO DE TREM

Três bêbados chegam à estação de trem.

DIN DON DIN! O trem com destino a Lagos parte neste momento na plataforma 4.

Eles começam a correr, o Chefe da Estação ajuda um a subir, depois ajuda outro, e quando chega ao terceiro o trem já ganhou velocidade e ele não consegue subir.

- Sinto muito, mas é tarde demais!

- Bom, eles vão sentir mais, já que vieram apenas para se despedir de mim.

Fonte: Disponível na home page “Tudoporemail”.


A VIAGEM DE TREM

Durante uma viagem de trem, o inspetor vem pedir passagens aos passageiros:

- Sua passagem, por favor.

- Estou aposentado - responde um.

- Sou funcionário do Ministério dos Transportes - responde o outro.

- Sou deputado, responde o terceiro.

- E você senhor?

- Eu... eu sou um idiota que paga impostos, aqui está minha passagem.

Fonte: Disponível na home page “Tudoporemail”.


sexta-feira, 18 de setembro de 2026

COMPOSTURA, SENHORES!

Heládio Feitosa de Castro Filho (*)

Compostura, senhores! - repetia o velho professor de Direito Processual, batendo a régua na mesa, sempre que um aluno exagerava no tom ou na vontade. A palavra soava antiquada, quase um mimo de museu. Mas era a senha para o templo: ali, a toga não era fantasia; era reverência.

Hoje, ao acompanhar as notícias do Supremo Tribunal Federal, tenho a impressão de que o velho professor bate a régua em vão. E os alunos - agora ministros - parecem ter esquecido que a toga não lhes pertence.

Divergência jurídica é saudável. O problema começa quando o conflito deixa de ser apenas processual e passa a envolver acusações recíprocas, suspeitas sobre decisões e a impressão de que a própria Corte se tornou cenário de uma disputa interna de poder.

A crise atual do STF, com questionamentos sobre relatórios da Polícia Federal e decisões de afastamento, não pode ser tratada como simples desacordo entre colegas. Não se trata de antecipar culpa, nem de transformar suspeitas em condenações. Trata-se de reconhecer que, quando a imparcialidade é questionada, a transparência deixa de ser gentileza e passa a ser dever.

O Supremo não é a soma de onze vontades individuais. É uma instituição. E instituição se fortalece quando seus membros aceitam limites, submetem decisões controversas ao debate público e preservam a autoridade do conjunto acima da conveniência de cada gabinete.

O cidadão, porém, não acompanha apenas os votos. Acompanha também o espetáculo. Quando um ministro determina o afastamento do diretor-geral da Polícia Federal e outro reverte a medida, o que chega à calçada é a impressão de que o Estado fala com vozes desencontradas. E a pergunta inevitável é: quem controla quem?

É nesse ponto que a compostura deixa de ser virtude decorativa e passa a ser exigência democrática. Não significa silêncio diante do abuso. Significa que a reação ao abuso deve respeitar as formas que dão legitimidade à Justiça.

O cidadão não espera santos. Espera juízes. Não exige concordância, mas divergência dentro das regras. Não pede uma Corte infalível. Pede uma Corte capaz de reconhecer e corrigir seus erros.

- Compostura, senhores! - repetiria o professor. - Não confundam autoridade com imunidade à crítica. Não confundam independência com ausência de controle.

Se a Justiça precisa de reforma, que se faça. Reformar não é desmoralizar. Criticar não é destruir. Exigir limites não é atacar a democracia. É tentar preservá-la.

O velho professor bate a régua na mesa.

- Compostura, senhores!

Talvez a régua deva ser também uma medida: a distância entre o poder e a vaidade; entre a autoridade e o arbítrio; entre o homem que veste a toga e a instituição que ele tem o dever de honrar.

Porque, quando a Justiça perde a compostura, o cidadão perde a sensação de que existe, acima das disputas, um lugar onde a lei ainda é maior que os homens.

E esse lugar precisa continuar existindo.

Compostura, senhores. Não como favor. Como dever.

(*) Médico cirurgião e professor da UFC. Da Academia Cearense de Medicina e da Academia Cearense de Médicos Escritores.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 18/09/2026. Opinião. p.16.


 

Free Blog Counter
Poker Blog