sábado, 31 de outubro de 2026

DO DESEJO E DO DEVER

Por Romeu Duarte Junior (*)

Gostaria de estar aqui falando da beleza deste setembro, do vento esparzindo o pólen do amor das árvores primaveris, terror também de quem sofre de rinite alérgica. Dos cajus e das mangas que já balançam coloridos nos galhos, atiçando o nosso paladar. Dos ipês amarelos que adornam a escaldante Domingos Olímpio, a que emprestam uma providencial e ligeira sombra. Das flores róseas do pé de jasmim-manga do maltratado jardim do meu escritório, um bouquet que ofereço a quem passa de carro ou a pé pela Antonio Sales. Dos pés de sapoti do jardim da Reitoria da Universidade Federal do Ceará (UFC), com suas verdejantes e densas copas, uma verdadeira festa para os olhos. Da chuva de caju que desce do céu fininha, apenas para garantir o fruto da planta sem derrubar as flores já grávidas.

Gostaria de estar aqui falando da maravilha que foi o congresso brasileiro de arquitetos realizado em Fortaleza em agosto, quando reencontrei festivamente amigos que há muito não via. Do colega e ativista social Pritzker de Burkina Faso dando um show de coerência e humildade no evento. De ver meus alunos, que poderiam ser meus netos, atentos a tudo, aprendendo as coisas no ar. Do livro do professor José Liberal de Castro, talvez o maior compêndio sobre a arquitetura cearense já lançado, que conta, entre outras apresentações, com o meu prefácio, eu que o substituí (se é que alguém substitui José Liberal de Castro) no Instituto do Ceará. De rever "2001 Odisséia no Espaço", de Stanley Kubrick, e de assegurar a letalidade da inteligência artificial. É ou não é isso, Mr. HAL 9000?

Gostaria de estar aqui falando do semblante emocionado e feliz da minha filha Isabel em seu casamento na Igreja de Nossa Senhora da Conceição do Seminário da Prainha. Das muitas quedas que tenho levado nas últimas semanas, causadas talvez pela vista cansada, mesmo auxiliada por óculos novos, ou pelo excesso do consumo da água que passarinho não bebe. Das gostosas colunas do Clóvis Holanda, do Demitri Túlio, da Izabel Gurgel e do Paulo Linhares, publicadas aos domingos no O POVO. Da saudade que sinto da coluna do meu amigo Lúcio Brasileiro, o cara que ensinou todo mundo a usar os talheres de forma correta. Das lembranças que tenho do meu pai, da minha mãe e da minha tia, imortais. Da Base Aérea que vivi e desaparece. De tanta coisa...

Todavia, a brutalidade da realidade cotidiana se impõe e me faz refletir sobre assuntos nada amenos. Crônica não é conto, ela retrata o hoje e amanhã, como dizia o preclaro Airton Monte, só serve para embrulhar peixe, embora algumas delas sobrevivam ao tempo. O STF transformado em lixeira, com ministros de togas enlameadas brigando através de ofícios. O ex-banqueiro e atual presidiário que, do xilindró, dirige os rumos da política brasileira. Os homens de bem que prezam Deus, a família e a pátria de dia e embarcam à noite na suruba da Madame Satã. O candidato da extrema direita que tem como planos apenas livrar o pai da cadeia, trazer o irmão para o Brasil e entregar o país aos EUA. Os pobres de direita que não enxergam nem querem ver. É, leitor, o Brasil me cansa.

(*) Arquiteto e professor da UFC. Sócio do Instituto do Ceará. Colunista de O Povo.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 14/09/26. Vida & Arte. p.2.


PARTICIPAÇÃO NA ANTOLOGIA “FORTALEZA EM DOSE PLENA”

Os autores sobramistas presentes no lançamento da antologia “Fortaleza em Dose Plena”, da Sobrames/CE, ocorrido no Centro de Eventos do Ceará, em 30/10/2026. (Fotografia cedida por Orlania Dutra).

Aconteceu na noite de ontem (30/10/26), no Centro de Eventos do Ceará durante o XXXVII Outubro Médico, o lançamento de Fortaleza em dose plena, a Antologia da Sobrames de 2026, produzida sob a nossa organização, em colaboração com a secretária Orlânia Dutra, reunindo contribuições literárias de 61 sobramistas, dos quais 55 médicos.

Além da apresentação da obra e de duas homenagens póstumas, nela publiquei seis causos inéditos da nossa autoria, todos eles relacionados com Fortaleza, que neste ano comemora seus 300 anos São eles: “Vadiagem e viadagem nos tempos do “homem da lata” em Fortaleza” (p.212-212), ”Barreira versus Severiano” (p.213-214), “A rifa do avião da FAB em Fortaleza” (p.214-215), “Secretário defende consumo de ratos” (p.215-216), “O pênalti perdido” (p.216-216) e “Sessão ou seção” (p.217-217).

Esse material será postado, oportunamente, neste blog, observando a sequência citada.

Marcelo Gurgel Carlos da Silva

Organizador da Antologia da Sobrames/CE

sexta-feira, 30 de outubro de 2026

Quando a esperança precisa de companhia

Por Pe. Eugênio Pacelli SJ (*)

Setembro nos apresenta duas convocações distintas. A Igreja no Brasil celebra o Mês da Bíblia, iluminado em 2026 pelo Livro de Daniel; a sociedade vive o Setembro Amarelo, dedicado à prevenção do suicídio e à saúde mental. Ambas, porém, nos levam à mesma pergunta: como permanecer ao lado de quem atravessa a noite?

Daniel nasce da experiência de um povo no exílio, sob poderes aparentemente invencíveis. Seu anúncio — "Seu reino jamais será destruído" — não foge da realidade. Afirma que nenhuma circunstância possui a palavra definitiva sobre a vida. A esperança bíblica não ignora o medo nem encobre a dor; abre espaço para atravessá-los em companhia.

Precisamos compreender que a fé não exige de ninguém uma aparência de fortaleza. Há sofrimentos que pedem oração; há outros que necessitam de acompanhamento psicológico ou médico; muitas vezes, precisam de tudo isso junto. Procurar ajuda não revela falta de fé. Pode ser, ao contrário, um gesto de lucidez, humildade e coragem.

A espiritualidade inaciana ensina a reconhecer os movimentos interiores: aquilo que amplia a vida e aquilo que nos fecha na solidão, na desesperança e no silêncio. Discernir não é observar a vida à distância, mas escutar com honestidade o que se passa em nós e permitir que alguém se aproxime. Deus também cuida pela ciência, pelos profissionais da saúde, pelos amigos e pelas comunidades capazes de acolher sem julgar.

Neste Setembro Amarelo, a Igreja é chamada não apenas a falar sobre a vida, mas a se tornar presença que a protege. Isso exige comunidades atentas, o abandono de respostas simplistas e a compreensão de que frases religiosas, quando usadas para apressar a dor do outro, podem aumentar seu isolamento. Muitas vezes, o cuidado começa quando deixamos de explicar e escolhemos permanecer.

O Livro de Daniel recorda que os impérios passam e que o Reino de Deus se manifesta onde a dignidade resiste. Talvez uma das expressões mais concretas desse Reino, hoje, seja uma pessoa dizendo a outra: "Você não precisa enfrentar isso sozinho". Pedir ajuda é abrir uma fresta para a esperança. Oferecê-la é fazer da fé uma companhia viva.

(*) Sacerdote jesuíta e mestre em Teologia. Escritor. Diretor do Mosteiro dos Jesuítas de Baturité e do Polo Santo Inácio. Fundador do Movimento Amare.

Fonte: O Povo, de 24/09/2026. Opinião. p.14.


FOLCLORE POLÍTICO: Porandubas 741

Armado de admiração

Tenório Cavalcanti, udenista e adversário político de Vargas, foi ao Catete numa comissão de deputados. Andava nas manchetes dos jornais por causa de suas estripulias em Caxias, na base da "Lourdinha" (metralhadora) e da capa preta. Getúlio o cumprimentou, olhou bem para o volume do revólver embaixo do braço esquerdo, sob o paletó:

– Deputado, o senhor está armado?

Tenório ficou vermelho, mas não perdeu o bote:

- Armado de admiração por Vossa Excelência.

Fonte: Gaudêncio Torquato (GT Marketing Comunicação).

https://www.migalhas.com.br/coluna/porandubas-politicas/357021/porandubas-n-741


quinta-feira, 29 de outubro de 2026

DUAS FACES DO MESMO ESPIGÃO

Por Magda Almeida (*)

De um lado do Espigão do Náutico, a Prefeitura de Fortaleza anunciou uma nova piscina de raias no mar, celebrando o esporte e a valorização da orla. Do outro, uma galeria pluvial despeja um líquido escuro e espumoso que atravessa a faixa de areia e chega diretamente ao mar. As duas cenas, separadas por poucos metros, revelam uma contradição da cidade da Luz.

Investir em espaços para esportes aquáticos é uma iniciativa importante. Temos uma relação histórica, econômica e afetiva com o mar. Incentivar a atividade física, o turismo e a ocupação qualificada dos espaços públicos merece reconhecimento.

O próprio boletim de balneabilidade considera o lado esquerdo próprio para banho e o lado direito, impróprio. O espigão pode alterar a circulação da água e dificulta a dispersão do que é lançado do outro lado, mas não elimina o problema

A questão central permanece sem resposta. A galeria é destinada ao escoamento de águas pluviais, mas existem ligações clandestinas de esgoto na rede de drenagem? Há contaminação fecal, microrganismos patogênicos ou substâncias químicas? Água, areia e sedimentos próximos ao ponto de lançamento estão sendo monitorados de forma sistemática? Quais análises foram realizadas e quais os resultados? Sem essas respostas, a população permanece exposta e privada do direito de decidir, com segurança, se deve entrar no mar.

Os impactos vão muito além dos banhistas. A área é utilizada diariamente por nadadores, praticantes de canoa havaiana, caiaque, stand up paddle, pescadores, turistas, comerciantes e trabalhadores. Também podem atingir a fauna marinha, comprometendo peixes, crustáceos, moluscos, algas e outros organismos que sustentam o equilíbrio do ecossistema costeiro.

A segurança alimentar também merece atenção. Não se pode afirmar, sem evidências, que os pescados daquela região estejam contaminados, mas também não é aceitável presumir que estejam seguros sem monitoramento e divulgação dos resultados.

Caso seja confirmada alguma fonte de poluição, a população precisa saber quais providências estão sendo adotadas. Transparência significa investigar, divulgar os achados de forma acessível e sinalizar adequadamente os riscos quando eles existirem.

Saúde ambiental não é pauta ideológica. É uma responsabilidade compartilhada entre Prefeitura, órgãos ambientais e sanitários, concessionária de esgotamento e órgãos de controle.

A piscina de raias pode se tornar um importante legado para Fortaleza. Mas, antes de convidar a população a nadar, é indispensável garantir água limpa e banho seguro para quem frequenta diariamente o outro lado da muralha de pedras. Um mesmo espigão não pode separar a cidade da propaganda, da cidade que vive o mar todos os dias.

(*) Médica de Família e Comunidade. Professora da Famed/UFC. Gestora pública.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 25/09/2026. Opinião. p.19.


quarta-feira, 28 de outubro de 2026

ETNOPSIQUIATRIA: novos desafios em saúde mental

Por Pe. Rino Bonvini (*)

O Movimento Saúde Mental (MSM) celebra este ano 3 décadas de sua missão socioterapêutica de múltiplo impacto. Desde 1996 acolhe, escuta e cuida de pessoas que buscam transformar o sofrimento psíquico em oportunidade de evolução biopsicossocioespiritual. A Abordagem Sistêmica Comunitária é a metodologia que integra as Práticas Integrativas e Complementares em Saúde (PICS) a diversas atividades terapêuticas.

Desde 2007, o MSM estende suas atividades à aldeia indígena Pitaguary, em Maracanaú. Essa experiência intercultural será apresentada na XLVIII Jornada Cearense de Psiquiatria, de 16 a 19 de setembro, com o tema "Estratégias para Fortalecimento da Rede de Atenção Psicossocial".

Na abertura, a apresentação das crianças Pitaguary, dançando o Toré e cantando em Tupi, evocou a beleza e a potência da cultura indígena. A presença de lideranças indígenas na mesa "Desafios para a Saúde Mental dos Povos Originários e das Periferias Existenciais", no dia 18, ofereceu um lugar de fala para partilhar experiências, sonhos e a potência da IA - Inteligência Ancestral -, tão necessária à sobrevivência do planeta.

O desafio de uma psiquiatria que supera o modelo biomédico e hospitalocêntrico, atualizando a reforma psiquiátrica na rede pública de saúde, inclui acolher os povos originários com uma abordagem etnopsiquiátrica. O respeito e a valorização da cosmologia e da espiritualidade indígenas favorecem a integração do saber acadêmico com a sabedoria ancestral, que traz elementos terapêuticos peculiares, potencializa a cura dos transtornos mentais e favorece a prevenção do suicídio.

Sintomas intensos são ressignificados dentro do universo cosmológico, e percepções extrassensoriais não são vistas simplesmente como sintomas clínicos, mas compreendidas como experiências de evolução biopsicossocioespiritual.

Os pajés acolhem a etnopsiquiatria como coadjuvante nos processos de cura, entendendo que, quando necessário, os remédios psicotrópicos podem salvar a vida da pessoa. Por sua vez, o etnopsiquiatra entende que acolher rituais, orações, cantos, danças, tambores e as interpretações transcendentes dos sintomas, com liberdade para usar a medicina popular tradicional e suas ervas junto aos remédios prescritos, proporciona uma cura integral dos transtornos psiquiátricos. As duas visões dialogam e se integram.

(*) Médico psiquiatra e padre missionário comboniano.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 23/09/2026. Opinião. p.16.


terça-feira, 27 de outubro de 2026

Convite: Lançamento da Antologia “FORTALEZA EM DOSE PLENA”

A Diretoria da Sociedade Brasileira de Médicos Escritores – Regional Ceará (Sobrames/CE) convida para o lançamento de “Fortaleza em dose plena”, a quadragésima-quarta antologia anual da Sobrames-CE.

O livro é prefaciado pelo médico pediatra e escritor Dr. Pedro Bezerra de Araújo, ilustre membro da Academia Cearense de Ciências Sociais e da Academia Cearense de Letras e Jornalismo, e conta com 61 autores participantes.

Local: Centro de Eventos do Ceará (Durante o Outubro Médico).

Av. Washington Soares, 999 – Bairro Edson Queiroz – Fortaleza.

Data: 30 de outubro de 2026 (sexta-feira) Horário: 17h.

Traje: Esporte fino.

Obs.: Após o lançamento transcorrerá a cerimônia de abertura do XXXVII Outubro Médico.

Maria Sidneuma Melo Ventura

Presidente da Sobrames-CE


 

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