Por Patrícia Soares de Sá Cavalcante (*)
"Já estou pronto", escreveu meu
professor de piano pelo WhatsApp. Ele me aguardava no Google Meet. Entrei pelo
computador e pelo celular: em uma tela, nos víamos; na outra, ele acompanhava
minhas mãos sobre o teclado. Tiago é cearense, mas mora em Quebec.
Ele me pediu que tocasse uma melodia
simples em todas as tonalidades maiores. Contou-me que, quando era mais novo,
ao ouvir no rádio uma música de que gostava, gravava-a em uma fita cassete e
depois ficava escutando e pausando os trechos para fazer, em todas as
tonalidades, o mesmo exercício que acabara de me passar.
Seria por isso que ele toca tão bem?
Lembrei-me da época em que estudei para a residência. Resolvi dez provas
anteriores e depois fiz uma estatística das questões. Separei os temas e, a
cada repetição, acrescentava um pequeno traço a lápis. Meu irmão também tinha
seu próprio método para aprender inglês: cobria com fita crepe preta as
legendas dos seriados na TV.
Será que a dificuldade aumenta o desejo,
enquanto a facilidade proporcionada pela tecnologia o diminui? Não deve ser
isso. O toca-fitas e a televisão também são tecnologias.
Talvez a questão seja outra. Hoje há muitos
caminhos prontos em que o começo coincide com o fim. Podemos encontrar o passo
a passo antes mesmo de experimentar: o GPS escolhe o trajeto sem que precisemos
traçá-lo em nossa mente; nos tutoriais de piano, as teclas acendem. E o
problema do caminho pronto não é somente nos poupar do esforço. É chegar antes
que tenhamos descoberto aonde desejamos ir.
Para percorrer um caminho próprio, é
preciso oportunidade e capacidade de esperar. Mas só espera quem confia que a
espera termina, num mundo em que o que se promete nem sempre chega. E é durante
o percurso que o desejo ganha corpo e a escolha passa a fazer sentido.
Estou pelejando para aprender a música
"Você não me ensinou a te esquecer".
O que pode acontecer entre duas telas;
entre o som e o silêncio; entre uma aula e outra; entre a pergunta e a
resposta; entre o começo e o fim?
(*) Médica
psiquiatra.
Fonte:
Publicado In: O Povo, de 6/10/2026.
Opinião. p.16.
