Por Paulo Gurgel Carlos
da Silva (*)
1 Quando eu cursava medicina na UFC, ouvia falarem de um
aluno na Faculdade de Medicina que se destacava por seu talento de compositor.
Chamava-se Belchior, mas não foi por termos sido contemporâneos na Faculdade
que nos conhecemos.
Fui conhecê-lo no dia em que um amigo, Osterne Brandão
(irmão do poeta e letrista de música Antônio José Brandão) me convidou para um
sarau. A casa do meu amigo ficava na Parquelândia e levei comigo o violonista
Claudio Costa. Nesse dia, além de Antonio Carlos Belchior, conheci também o
Miguel da Flauta.
Era manhã e fez-se tarde. Quando alguém sugeriu que
continuássemos a reunião no Bar do Anísio, na Beira-Mar. E fomos todos a esse
local no carro do anfitrião Osternes.
Além de nos apresentar as canções que vinha compondo,
pelas tantas Belchior passou a mostrar outras versatilidades, tais como 1)
fazer repente e 2) contar causos.
Um causo
Faziam os alunos da Medicina um semicírculo em torno do
professor da disciplina de Proctologia. Interessados todos em acompanhar, da
melhor forma possível, os ensinamentos do mestre naquela aula prática. E,
também, em ver os detalhes da lesão que ele, com a ajuda da mão enluvada e
lubrificada, estava a lhes apontar... no ânus de um paciente.
Num dado momento, em seu afã de descrever a patologia, o
mestre empregou uma expressão de duplo sentido: "na entrada". No
jargão proctológico, esta expressão tem um sentido próprio. Mas não para o
paciente que, em posição de prece maometana, tomou por desfeita o que acabara
de ouvir. A ponto de retrucar peremptoriamente:
- Alto lá, doutor, esse negócio aí nunca foi entrada. É
só saída.
E saiu meio que ofendido.
[comentário]
Estimado Paulo,
Como a disciplina de Proctologia, com 4 créditos = 60
horas, foi por mim criada e implantada em 1965, para ser ofertada como
"optativa", é bem provável, ou certamente (a bem da verdade, não
recordo), esse causo aconteceu numa de minhas aulas. De qualquer maneira,
categoricamente afirmo que, muita coisa jocosa e muitos "causos"
patéticos por lá ocorreram.
José Maria Chaves
2 Em 6 de junho de 1969, botei umas cervejas para gelar e
encomendei umas bandejas de salgadinhos. Reuni em minha casa Francisco Dário,
Osternes Brandão, Claudio Costa e o compositor Belchior, entre outros amigos.
Por volta da meia-noite, encerramos a parte doméstica da noitada e fomos ao
Pombo Cheio, onde nos encontramos com o Miguel da Flauta em seu retorno de um
compromisso profissional.
Naquela data, eu estava completando 21 anos. Uma
fita-cassete registrou aquelas maravilhosas canções que foram tocadas e
cantadas durante o encontro. Uma delas, por exemplo, era a canção
"Paralelas", que Belchior originalmente cantava assim: "No
Karmann-Ghia, sobre o trevo a cem por horas, meu amor". Adiante, foi que
ele modificou a letra da canção para: "Dentro do carro..."
No entanto, algo aconteceu com a fita-cassete da festa.
Meu irmão Marcelo usou-a para gravar a leitura das anotações que a nossa irmã
Marta havia feito em caderno de uma aula de biologia do Prof. Hildemar. E, ao
fazer o novo registro, o gravador (que era de fita única) apagou
definitivamente o registro anterior.
3 Em 1972, com frequência eu me deslocava do centro do
Rio para Copacabana, e vice-versa. Quando o ônibus passava por/sobre o viaduto
do Botafogo, dava para ver que existia um pequeno teatro nas proximidades. Um
belo dia, notei que aquele teatro estava com uma placa, onde se lia em letras
garrafais: BELCHIOR. À noite, fui ver o show do conterrâneo. Pouca gente a
prestigiá-lo. No repertório, Belchior incluía um clássico da "música de
fossa" nacional, provavelmente do Lupicínio. Ao interpretá-la, foi que
alguém acionou a estrondosa descarga de um vaso sanitário do teatro (risos, mas
era tudo combinado). Findo o show, descemos ao aterro do Botafogo para
conversar: Belchior, eu e uma terceira pessoa (Lauro Benevides? Pretestato
Melo? Ah, não recordo). Quanto a Belchior, deduzi que a música o havia
desencaminhado das lides acadêmicas. Como, em tempos mais remotos, aconteceu a
Noel Rosa, um "monstro sagrado" da música popular brasileira.
4 Voltando a residir em Fortaleza, numa noite fui a um
show do Gonzaguinha no teatro da Emcetur. Belchior chegou acompanhado do
jornalista Odosvaldo Portugal Neiva, que cobria a pauta de música no Diário do
Nordeste. E tivemos uma conversa rápida.
5 Em minhas andanças boêmias, uma vez resolvi baixar num
restaurante novo (com algumas indicações a point). Não me recordo do nome
do estabelecimento, apenas de que ele ficava próximo à Praça Portugal. Numa
boca de noite, sentei-me a uma mesa e comecei a beber. Algumas horas após, já
meio sonolento, paguei a conta para me retirar. Na calçada, alguém que acabava
de chegar com amigos, abraçou-me e disse: "Professor, já está indo?"
Era Belchior. Mudei de ideia e voltei ao bar. Como eu havia lido um texto de Belchior
no Pasquim e do qual muito gostara, convidei-o para prefaciar um livro que eu
vinha escrevendo. Não posso acusá-lo de haver faltado comigo, pois eu nunca
concluí aquele livro.
6 Show do Belchior no Siará Hall. Fui (com Elba) ao Siará
Hall, uma casa de eventos localizada na av. Washington Soares, em Fortaleza.
Inaugurada em 2005, contava com uma infraestrutura que comportava mega-shows.
Considerada a maior casa de espetáculos da cidade até seu fechamento em 2017,
trouxe shows e espetáculos de níveis nacionais e internacionais. Visitei-o no
camarim, ora pois.
(*) Médico
pneumologista, escritor e blogueiro.
Postado
por Paulo Gurgel no Blog Linha do Tempo em 23/02/2025.
https://gurgel-carlos.blogspot.com/2025/02/encontros-com-belchior.html