Em uma escola
médica, pertencente a uma universidade nordestina, durante muito tempo, o
ensino de Anatomia era ministrado em dois anos, com quatro semestres letivos,
cobrindo as chamadas partes descritiva e topográfica dessa cadeira.
Com a reforma do
currículo, para inclusão do Internato no curso médico, a sua carga horária foi
diminuída e concentrada apenas no primeiro ano da faculdade.
Posteriormente, já
no limiar dos anos setenta, essa universidade aderiu ao Acordo MEC/USAID, para
implantação de uma drástica reforma universitária, que, entre outras medidas,
abolia a cátedra, substituía as cadeiras por disciplinas, introduzia o sistema
de créditos, com inclusão de matérias optativas e fim do regime seriado
anualizado, passando a matrícula a ser semestral.
No caso da
Anatomia, a Pró-reitoria de Graduação dessa universidade traçou, como norte ou
balizamento, o enxugamento da carga horária da Anatomia, de modo a ser
lecionada em um único semestre letivo.
Um coordenador
acadêmico do curso, atento à vontade da Reitoria, era simpático à ideia, e,
para pressionar os docentes a acatarem a mudança, ameaçou com uma retração
ainda mais dramática da carga horária da disciplina, arguindo a perda da sua
importância, com a modernização da Medicina e o avanço tecnológico.
A questão só não prosperou, com resultados
nefastos, quando o antigo catedrático, em tom de recado, declarou:
– Se for para ensinar a Anatomia que o nosso
coordenador acadêmico sabe, não precisaremos de dois meses, ou de duas
semanas; bastam duas horas/aula.
Depois disso, a disciplina recuperou parte
de suas perdas em carga horária.
Marcelo Gurgel
Carlos da Silva
Da Sobrames/CE e da Academia Cearense de Médicos
Escritores
Fonte:
SILVA, Marcelo Gurgel Carlos da. Medicina,
meu humor! Contando causos médicos. 2.ed. Fortaleza: Edição do Autor, 2022.
144p. p.75.
SILVA, M.G.C. da. Causo médico: a carga horária da anatomia. Revista AMC (Associação Médica Cearense). Agosto de 2024 - Edição n.35. p. 32-32 (online). (Doc. Nº 8.2.735).
