Corriam os anos
setenta do século antanho, quando a comunidade médica e a sociedade locais
foram colhidas pelo abrupto falecimento de um dos fundadores da primeira
Faculdade de Medicina de um estado nordestino.
À beira do túmulo,
sem pedir licença a ninguém, um antigo catedrático da escola médica, possuidor
de grande erudição, resolveu fazer uso da palavra e tome a falar, discorrendo
sobre os notáveis feitos do falecido, enaltecendo suas valorosas qualidades.
Falou tanto, que
só faltou dizer que o morto, como sempre, estava na vanguarda institucional, e
que, logo mais, seria seguido por seus colegas docentes, que fariam companhia a
ele na morada eterna. Por muito pouco, o orador não chegou a apontar e a nomear
os seus colegas médicos, dentre os ali assistentes, que o acompanhariam, algo
que, certamente, causaria um certo rebuliço e desconforto entre os que seriam indicados
para um tão inusitado séquito funéreo.
Após mais de uma
hora de laudatório no campo santo, com o sol a pino, pois chegara o meio-dia, sem
sinais de quaisquer nebulosidades que amenizassem os efeitos das radiações
ionizantes, com os presentes suando a cântaros, os coveiros, cansados de
esperar, encostaram suas pás e foram descansar sob a sombra de uma velha
árvore.
O receio era de
que o extinto, a qualquer instante, decidisse despertar do sono da morte,
rogando que o fastidioso discurso fosse interrompido, deixando-o, finalmente,
descansar na eternidade, liberando, assim, familiares e amigos de tão demorada
cerimônia fúnebre.
Marcelo Gurgel
Carlos da Silva
Da Sobrames/CE e da Academia Cearense de Médicos
Escritores
Fonte: SILVA, Marcelo Gurgel Carlos da. Medicina, meu humor! Contando causos médicos. 2.ed. Fortaleza:
Edição do Autor, 2022. 144p. p.77.
* Republicado In: SILVA, M.G.C. da. Causo médico: o enterro de um fundador. In: Revista AMC (Associação Médica Cearense). Janeiro de 2025 - Edição n.40. p.24 (online). (Doc. Nº 8.2.747).
