Por
Antônio Fernando Melo Filho (*)
Tentei dar o título de “gentleman” a este humilde
texto, mas já publiquei um esboço de crônica com este título lembrando de meu
pai. Para não ser repetitivo, vou recorrer para sua tradução, ou melhor, para
nosso vernáculo, o português.
Sempre com um sorriso largo, atendia aos amigos e
clientes, fosse em ambiente social ou profissional.
Falo do grande Flávio Leitão, um nome da medicina,
da literatura e da sociedade cearense, feliz de quem teve a alegria de seu
convívio.
Minha convivência foi limitada, mas muito rica de boas
lembranças, muitos escreveram, postaram nos grupos de sociedades, academias
etc.; não me contive e corri para o teclado, para nele extravasar minhas
emoções e lembranças.
O gentleman, quer dizer, meu pai, teve câncer
gástrico, no início dos anos oitenta. Após uma cirurgia para câncer gástrico,
meu velho e querido pai apresentou uma dor lombar; de pronto lhe deram o
diagnóstico de metástase, e nos aconselharam a procurar um neurologista.
Com a minha mãe, fomos ao hospital de referência da
época, “Casa de Saúde e Maternidade São Raimundo”. Era, aproximadamente, 19
horas de um dia de semana, preto no calendário, e lá chegando, encontramos o
Dr. Flávio e outro médico, este disse: interna o Fernando (o pai) que amanhã eu
vejo. Dr. Flávio, num gesto humano, olhou para minha e disse: Thereza, vou à
casa de vocês examinar o Fernando. Felizmente não era nada, poupamos a
internação, e com gratidão ganhamos a noite e uma estória para compartilhar com
os amigos.
Após me iniciar no mundo das letras, entre Sociedade
Brasileira de Médicos Escritores – Sobrames-CE e Academia Cearense de Médicos
Escritores – Acemes, e, para a minha alegria, nossa convivência foi mais
próxima.
Lembro bem de uma palestra, por ele proferida, em uma
reunião da Acemes sobre a História da Neurologia e da Neurocirurgia no Ceará.
A pedido do amigo piauiense Luiz Ayrton, colaborei com um
capítulo para “História da Medicina Piauiense”, sobre o Dr. Ivan de Moura Fé. A
minha principal fonte de pesquisa foi o discurso de saudação, quando da posse
do Dr. Ivan na Academia Cearense de Medicina – ACM, uma obra literária, da
lavra do Dr. Flávio Leitão.
Em maio de 2025, viajamos para Lavras da Mangabeira para
participar do “VII Encontro de Academias de Literatura”, fiquei bem
impressionado com o cuidado e carinho dele para com a sua amada Marimilia.
No segundo semestre do ano pretérito nosso mestre e amigo
foi submetida a uma cirurgia, que não nos cabe aqui detalhar.
Apesar de tudo, do diagnóstico, da cirurgia, no maio
seguinte, neste ano corrente, estivemos juntos naquele ônibus doube deck;
embaixo o alto clero, do qual ele era cardeal, quando fomos à Camocim para o
“VIII Encontro de Academias Literárias do Ceará”. Da primeira escala, em
Itapajé, guardo com carinho uma foto de Inês com o casal querido. Ele
participou de 100% das atividades do evento; na programação social não perdia a
elegância com seu copo de scotch.
Sou muito inquieto e gosto de caminhar. No final da tarde
de sábado, ao sair para caminhar no calçadão de Camocim, encontro nosso mestre
na recepção do hotel tentando uma solução para comprar um medicamento; me
dispus para a compra na minha caminhada, e na volta fiz-lhe a entrega. Ele foi
insistente em me pagar, no que recusei, não podia fazer diferente. Na
segunda-feira chega em nossa residência um envelope com o valor em espécie e um
delicado bilhete, que aqui transcrevo:
“Fort. 25 de maio de 2026.
Meu caríssimo Fernando,
Quase não consigo dormir, com a angústia de Marimilia em
querer que eu pagasse minha dívida com você.
Vão setenta, porque segundo as contas dela é este o valor
e não sessenta, como você havia me dito.
De qualquer modo fico-lhe devendo este favor.
Do seu amigo e admirador.
Flávio”
Do “setenta” não lembro o
destino, o bilhete, com certeza, o guardo com carinho.
Não poderia deixar de dizer
que o “gentleman” e o “cavalheiro”, por um capricho do destino, partiram tendo
como causa o mesmo CID (código internacional de doenças).
Aqui ficamos nós com as
boas lembranças.
(*)
Da Academia Cearense de Médicos
Escritores, da Academia Brasileira de Médicos Escritores e vice-presidente da
Sobrames/CE.

