quinta-feira, 3 de setembro de 2026

MEU COLÉGIO INESQUECÍVEL

Por Romeu Duarte Junior (*)

Aos meus amigos do Colégio Cearense

O ano de 2026 é, para mim, motivo de dupla comemoração. Em 1966, há 60 anos, fui matriculado com muita dificuldade por meus pais no Colégio Cearense Sagrado Coração. O empecilho não era porque eu fosse um péssimo aluno, mal educado, traquinas e respondão e sim porque, como era à época a melhor instituição de ensino pública e privada do Ceará, cobrava caro de quem queria lá estudar e meus pais eram de classe média rasteira. Ao contrário: vinha de um começo de primário muito bem feito no Grupo Escolar Visconde do Rio Branco onde fiz o jardim de infância, a alfabetização (foi a minha mãe que lá ensinava que me alfabetizou, um charme, não?) e o primeiro ano primário. Agora iria enfrentar o segundo ano, de farda azul e branco, todo orgulhoso de mim mesmo.

Quase todo dia, logo cedo de manhã e antes do início das aulas, cantávamos os hinos do Brasil e do colégio. Até hoje ressoa em meus ouvidos aquela saudosa canção, cuja letra sei de cor: "Mocidade do Colégio Marista, à sombra do estandarte de Maria...". A educação era de alta qualidade e o sistema disciplinar rigoroso, às vezes injusto. Nossas mestras eram carinhosas e colaborativas, mas sabiam torcer o pepino na hora certa. O tempo do latim e da palmatória já havia passado, mas a pesada carga horária de estudo, a árdua cobrança e as provas difíceis não eram brinquedo. O primário passou bem rápido, momento em que fiz amizades para toda uma vida. O ginásio nos aguardava, com mais desafios. Não temíamos o que viria, pois nosso lema, como no hino, era, "lutar e vencer".

Em 1973, na 4ª série ginasial, o colégio, que só tinha alunos, passou a operar em regime misto, razão da nossa súbita felicidade. As meninas passavam rindo e isso nos enchia de alegria. Foi quando conheci aquele que seria o professor que mais me marcou naquele tempo: Onélio Porto. Além de ensinar diversas disciplinas, era o mentor do Combinado nas Olimpíadas Champagnat e ainda tinha agenda para sair no Maracatu Ás de Ouro no Carnaval e cuidar do zoológico que existia na Cidade das Crianças. Nossos interesses, assim como as espinhas nas nossas caras, aumentaram: futebol, rock'n'roll e as meninas, entre outros. Tal como o primário, o ginásio voou. Agora a tarefa seria encarar o científico e se preparar para o vestibular. Queria ser engenheiro, o que acabei não sendo...

Biologia, Física, Matemática, Português, Química. Naquela época não havia prova de redação; todavia, se houvesse, não haveria problema. No 3º ano, o cursinho, tal como era chamado, entraram vários alunos do Colégio Militar. Em 1976, portanto há 50 anos, terminamos nossa passagem no colégio, sabidos e aplicados, porém ingênuos. Fiz o exame para ser aceito na Universidade Federal do Ceará (UFC). Fui aprovado para engenharia entre os primeiros. Depois prestei vestibular mais duas vezes e entrei na arquitetura, onde me achei. O resto é história. Minhas lembranças do colégio são doces e amargas, aquelas em muito maior número que estas. Ficam as marcas de uma formação bastante qualificada, e que até hoje me serve, e a da severa disciplina. Moldou-me tal como sou, por Deus, pela pátria e por Maria...

(*) Arquiteto e professor da UFC. Sócio do Instituto do Ceará. Colunista de O Povo.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 3/08/26. Vida & Arte. p.2.


quarta-feira, 2 de setembro de 2026

BIOGRAFIA DO MÉDICO ESCRITOR FLÁVIO LEITÃO

FRANCISCO FLÁVIO LEITÃO DE CARVALHO nasceu aos 21 de abril de 1939 em Fortaleza-CE. Filho de José Valdivino de Carvalho, professor e poeta, e Maria Adamir Leitão de Carvalho, pianista. Médico neurocirurgião, contista e memorialista cearense.

FORMAÇÃO E ATIVIDADE PROFISSIONAL

Graduado pela Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Ceará (UFC) (1959-1964). Realizou especialização em neurocirurgia no Hospital São Francisco, em Porto Alegre (1965-1966).

Fellow do Serviço de Neurocirurgia da Tufts New England Medical Center – Serviço do Prof. Dr. Bennett M. Stein. (1973). Mestre em Cirurgia pela UFC (1998-2000).

É professor adjunto aposentado da Faculdade de Medicina da UFC e médico aposentado do Hospital Geral de Fortaleza (HGF). Presidiu a Comissão de Ensino e Cultura do Corpo Clínico do HGF (1972).

OBRAS LITERÁRIAS

Participou das seguintes Antologias da Sobrames-CE: Esmeraldas (1993), Prescrições (1994), Amostra Grátis (1995), Recidivas (1998), Palpitações (2000), Anseios da Face (2002), Veia Poética (2004), Inspiração (2006), Queixa Principal (2007), Achado Casual (2008), Ressonâncias Literárias (2009), Receitas Literárias (2010), Passeata Literária (2011), Murmúrios Literários (2012), Letras que Curam (2013), Digno de Nota (2014), Ritmo Literário (2015), Semeando Cultura (2016), À Flor da Pele (2017), Lapso Temporal (2018), Pontos de Vista (2019), Sopro de Luz (2020), A Plenos Pulmões (2021), Limiar da Criação (2022), Lampejos da Memória (2023), Uso Profilático (2023) e Piscar de Olhos (2025).

Participou da Revista da Academia Cearense de Médicos Escritores: Nº 1 (2017), Nº 2 (2018), Nº 3 (2019), N° 4 (2020), N° 5 (2021), N° 6 (2022), N° 7 (2023), N° 8 (2024) e N° 9 (2025).

Outras Obras: História da Neurologia e da Neurocirurgia no Ceará (2009), Algumas Achegas à História da Neurologia Cearense. in: História da Neurologia no Brasil (Capítulo 11), Retórica de Circunstâncias (2016), Ventura de Gamalielzinho & Outros Contos (2016) e Tarcísio Leitão – Trajetória de um Coerente (2022).

AGREMIAÇÕES

Membro Titular da Sociedade Brasileira de Neurocirurgia (SBN); da Academia Brasileira de Neurocirurgia; da Sociedade Nordestina de Neurocirurgia (SNNC); da Sociedade Cearense de Neurologia e Neurocirurgia (SOCENNE); do Colégio Brasileiro de Cirurgiões; da Academia Cearense de Medicina (ACM); da Academia Cearense de Letras (ACL); da Academia Cearense de Médicos Escritores, (ACEMES, Fundador); Membro Titular e ex-presidente da Sociedade Brasileira de Médicos Escritores – Regional Ceará (Sobrames‐CE), da Academia Metropolitana de Letras de Fortaleza (AMLEF), da Academia de Letras e Artes do Nordeste (ALANE); Membro Correspondente da Academia Pernambucana de Medicina (2018). Membro Titular da Associação Brasileira de Bibliófilos (2012).

HOMENAGENS

Recebeu as seguintes Homenagens: Homenagem da SOCENNE por ter sido Membro Fundador; Homenagem da Sociedade Brasileira de Neurocirurgia, no seu 60º. aniversário – 2002; Troféu Coruja de Ouro pela SOCENNE (Sociedade Cearense de Neurologia e Neurocirurgia) – 2006; Troféu cinquentenário do I Congresso Brasileiro de Neurocirurgia – 2008; Distinção no Ensino Médico do Departamento de Cirurgia da Faculdade de Medicina da UFC – 2009; Homenagem Especial patroneada pelo NEAN (Núcleo de Estudos Acadêmicos em Neurocirurgia – 2010; Homenagem da Sociedade Nordestina de Neurocirurgia – 2013; Homenagem da Escola Municipal Prof. José Valdivino de Carvalho, Medalha Valdivino de Carvalho – 2014; Medalha do Mérito Ético-Profissional do CRM-CE – 2014; Homenagem do NEAN-UFC – 2015; Comenda do Mérito Médico do Curso de Medicina da Unifor – 2016; Homenagem da Sociedade Nordestina de Neurocirurgia Honra ao mérito condecorado com a medalha Dr. Rafael Rodrigues Holanda – 2017; Homenagem pela Academia Brasileira de Neurocirurgia – 2022; Medalha da Sociedade Brasileira de Neurocirurgia – 2022; Certificado de Gratidão – Refeitório São Vicente de Paulo das Irmãs de Caridade – 2023; e Emérito do Colégio Brasileiro de Cirurgiões.

Nota: Elaborada com base na postagem feita por Pedro Mendes, para o Projeto de Iniciação Artística intitulado “Perfis de médicos escritores do Ceará: incursões literárias e culturais” (Chamada Pública 82/2023 - Exercício 2024), sob orientação e revisão do Dr. Marcelo Gurgel, aprovado pela Pró-Reitoria de Extensão da Universidade Estadual do Ceará.

Acad. Marcelo Gurgel Carlos da Silva

Membro Titular da ACM, da ACEMES e da ACL


PESAR POR DR. FLÁVIO LEITÃO

É com imemso pesar que aqui registro o falecimento na noite de ontem, 1º de setembro de 2026, do Dr. FLÁVIO LEITÃO, médico neurocirurgião e membro de diversas confrarias profissionais e literárias cearenses.

Francisco Flávio Leitão de Carvalho nasceu em Fortaleza-CE, em 21/04/1939, filho de José Valdivino de Carvalho e Maria Adamir de Leitão de Carvalho.

Boa parte da sua formação escolar transcorreu no Seminário Arquidiocesano de Fortaleza, o afamado Seminário da Prainha, onde adquiriu muitos conhecimentos religiosos, filosóficos e literários e, também, absorveu qualidades morais que o levaram a pautar a sua existência observando e praticando as virtudes teologais.

Ingressou na Faculdade de Medicina da recém-criada Universidade Federal do Ceará (UFC) em 1959, concluindo o curso médico em 1964. Realizou Residência Médica em Neurologia e Neurocirurgia no Instituto de Neurocirurgia de Porto Alegre.

Sua atividade médica predominante foi realizada no Serviço de Neurocirurgia do Hospital Geral de Fortaleza e a de docência superior exercida na UFC, estando aposentado, como servidor público, de ambos os cargos.

Como católico, era um assíduo participante da Sociedade Médica Saõ Lucas, e ainda trabalhava, como médico voluntário, em um ambulatório para pessoas carentes ditigido por religiosas.

Casado, desde 1966, com Marimília Quevedo Esteves, deixa quatro filhos: Anamaria, Flávio Filho, André e Manuela.

Sinto intensamente por tão grande perda de um valoroso cidadão cearense, dotado de tantos predicados humanos, que, como médico, professor, escritor e outros relevantes atributos pessoais, muito contribuiu para o engrandecimento do Ceará.

Que Deus o acolha em Seus braços misericordiosos.

O corpo do Dr. Flávio Leitão será sendo velado, a partir das 8 horas de hoje, dia 2 de setembro de 2026, no Velatório Ternura, à Rua Pe. Valdivino, Nº 2.255. A missa de corpo presente será celebrada às 13h e, em seguida, seus despojos serão levados para sepultamento no Cemitério São João Batista.

Marcelo Gurgel Carlos da Silva

Da Sociedade Médica São Lucas


DJ Renatinha, Gonzagão e os livros

Por Izabel Gurgel (*)

Antes da última pandemia, a DJ Renatinha viajou com radiola e dois engradados de discos de vinil. Projeto "Long Play em Feiras e Romarias".

Em Juazeiro do Norte, radialistas subiram o Horto, levando discos para ouvir e conversar com ela. Em Canindé, cada fã de Roberto Carlos, mexendo nos discos, tinha pelo menos uma história coalhada de detalhes para contar para a DJ.

Na feira de Messejana, um adolescente se surpreendeu com Fiuk na capa de 'uma coisa tão antiga como aquela'. Era o pai do rapaz, Fábio Júnior, galã, galã na capa de um LP.

Na feira do Crato, a banca da DJ era perto da venda de farinha de mandioca dos irmãos Aniceto, da mais festejada banda cabaçal do Ceará.

Em Limoeiro do Norte, a filha do colecionador de música Osmar Onofre ficou in-vi-sí-vel por horas. Era o encontro de mestras e mestres da cultura tradicional popular e a banca da DJ parecia ter um ímã a atrair gente de todas as idades, de menos de oito a mais de oitenta. O lugar mais perto dela era depois de pencas de pessoas em rodas concêntricas, cada uma com sete vidas. Não arredaram pé. A brincadeira era pedir uma música e sair. Cadê que saía?

Quem não conhecia, queria saber como funcionava aquilo que aterrissara ali, direto de outro mundo. Lindo ver o mói de crianças de olhos arregalados, boca aberta e todo o interesse do mundo pelo que não conheciam. Conhecedores de LPs queriam fruir da presença da DJ, levá-la para outros terreiros, passear com ela mostrando o que ela mostrava, abrir velhos guarda-roupas cheios de discos doidos para serem ouvidos.

A banca-biblioteca sonora ambulante virou brinquedo. A quase dizer que valia por um parque de diversões todinho. Os discos rodando, rodando, passando de mão em mão, cada criatura contando do que lhe tocava, a bem dizer uma audiência sem ouvintes. Toda a gente dizia de si e de mundos.

No caminho, Pentecoste, Barbalha, outros lugares, e em cada parada uma cacimba de histórias parecia sair pela primeira vez para passear.

Ficou na memória a fila crescente, esticando, perto do museu-casarão-azul do Horto. Foi passando de boca em boca que, dentre os livros junto à banca da DJ, havia um que era botija desejada.

Peregrinação. Naquela manhã, todo tato do mundo se dedicou a apreciar "O Rei e o Baião", livro grande como bolo de tabuleiro. É um projeto contemplado pelo Ministério da Cultura via Fundo Nacional da Cultura e Instituto Brasileiro de Museus. Publicação da Fundação Athos Bulcão, Brasília, 2010. Organização: Bené Fonteles.

A foto da capa, do Seu (nosso) Chico Albuquerque (1917-2000), é Luiz Gonzaga (1912-1989) em preto e branco, estralando de vida, mais feliz do que sanfona chamando dança.

É livro de muitas vozes (textos, xilos, fotos, em ensaios encarte). Vou citar só duas, das professoras Elba Braga Ramalho e Sulamita Vieira, autoras também de publicações como "Luiz Gonzaga: a síntese poética e musical do sertão" e "Velhos Sanfoneiros".

Os livros cantam.

(*) Jornalista de O Povo.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 2/08/26. Vida & Arte, p.2.


terça-feira, 1 de setembro de 2026

Escritor potiguar lança romance histórico sobre o Nordeste do século XIX

O romance histórico "Dona Quitéria: A Senhora de Caraúbas" será lançado pelo escritor Italo Gurgel no dia 1º de setembro, no Ideal Clube, em Fortaleza

Trazendo um romance histórico situado entre o Ceará e o Rio Grande do Norte, o livro "Dona Quitéria: A Senhora de Caraúbas” será lançado pelo escritor Ítalo Gurgel no dia 1º de setembro, no Ideal Clube, em Fortaleza.

A história acontece no século XIX, passeando entre Aracati (CE) e Caraúbas (RN). A protagonista Quitéria, que se transfere para o então vilarejo de Caraúbas, passa a descobrir aspectos fortes e também sensíveis na sua vida.

"Em Caraúbas, Quitéria se projetou como liderança, tendo tido forte participação no crescimento do vilarejo e na sua emancipação. Muito generosa e religiosa, prestou ajuda essencial na construção da Igreja Matriz", conta Ítalo ao Vida&Arte.

Personagens e acontecimentos reais e fictícios dialogam na trama, que busca mostrar homens e mulheres do Nordeste como os principais operários na construção de um novo Brasil. Recriar costumes e vozes é um dos objetivos, preservando a cultura regional.

O romance tem capítulos independentes que narram, aos poucos, a história de Quitéria. Há ainda trechos que trazem enredos paralelos, abordando Caraúbas e outros de seus habitantes.

Inspirações para a obra

O autor do romance de 370 páginas é Italo Gurgel, jornalista, professor e poeta natural de Caraúbas. Conforme ele, "Dona Quitéria: A Senhora de Caraúbas” surgiu a partir dos registros que encontrou sobre a cidade.

Escritores como a cearense Rachel de Queiroz, o alagoano Graciliano Ramos e os paraibanos José Lins do Rego e José Américo de Almeida estão entre as inspirações para a obra e para o apreço pela cultura regional.

Em segundo plano, a pesquisa histórica exerceu influência para a escrita do livro. Ainda que seja um romance, a intenção sempre foi ter um caráter memorialístico.

"A narrativa tomou forma naturalmente. Nem sempre aquilo que é planejado pelo escritor se concretiza. Muitas vezes, é o personagem quem 'decide' o que vai acontecer na cena seguinte. O meu cuidado era não transgredir os parâmetros da verossimilhança, da plausibilidade, da coerência histórica", completa o escritor.

Lançamento de "Dona Quitéria: A Senhora de Caraúbas"

Quando: terça-feira, 1º, às 19 horas

Onde: Ideal Clube (av. Monsenhor Tabosa, 1381 - Meireles)

Valor: R$ 100

Fonte: Publicado In: O Povo, de 1º/09/26. Vida & Arte. p.2.


A CAVERNA DO DRAGÃO

Por Pedro Salgueiro, cronista de O Povo

Na minha "Crônica da Gentilândia", do livro "Fortaleza Voadora", digo que: "…o velho dragão Alcides Pinto sobrevoando as copas das árvores, com suas asas negras — quando ele se cansa de resmungar sozinho em sua caverna e sai para assustar os últimos bêbados da Gentilândia".

À sua casa corriam as mais diversas faunas literárias; escritores de várias idades, ideologias e estéticas, principalmente os mais jovens, que ficavam embevecidos com as atitudes despojadas, estridentes e loquazes do velho poeta.

Sua residência mais famosa foi a da Rua Rodrigues Junior, casa grande, sempre muito frequentada; ainda hoje muitos contam histórias e causos nem sempre verídicos, muitas fantasias e traquinagens ficaram no anedotário boêmio-intelectual dessa nossa loirinha desmiolada pelo sol, tão pródiga em tipos populares e bodes YoYôs, literários ou não.

Já o conheci na Vila Cordeiro, na Av. Tristão Gonçalves, bem próximo à vila onde ainda hoje mora minha mãe. Habitava uma casinha conjugada, numa pobreza franciscana mas digna, com sua querida filha Jamaica. Também conheci seu filho Antonin Artaud, um rapaz magro como o pai, porém de temperamento calmo, com uma timidez oposta à tagarelice do seu progenitor; também avistei algumas vezes sua bela filha Alessandra, que morava com a mãe.

Convivi por um bom tempo com o poeta (era meados dos anos 1990), através dele e de suas muitas visitas fiquei sabendo dos subterrâneos de nossa literatura, tão pródiga em fofocas e vaidades. Ali tive um curso intensivo de como transitar, e sair sem arranhões (embora eu não tenha tirado boas notas em algumas matérias) da famigerada guerrilha literária e suas disputas por farelos e migalhas.

Um dia me pediu para que organizasse seus contos, que estavam dispersos em um livro, "Editor de Insônias" (1965), e uma miscelânea, "Reflexões, terror, sobrenatural" (1984), além de alguns inéditos datilografados em gastas folhar amarelecidas. Em 1997, o Dr. Martins Filho publica essa edição de seus contos completos, "Editor de Insônias e outros contos", pela Coleção Alagadiço Novo.

Depois soube que ele andou criticando umas palavras que inseri como "Nota do Organizador", ou sugerindo que eu estava querendo aparecer às suas custas. Nunca passei recibo nem tomei satisfação, apenas me afastei um pouco de seu convívio. Depois disso ele sempre repetia para mim ou para alguns amigos: "Se não fosse você, o livro não teria saído", no que eu sempre respondia: "Pois não é, poeta. Quem sabe se um dia a gente não tira uma 2ª edição, não é mesmo!?". No seu último livro tem um poema dedicado a mim (quem sabe ainda resquício de uma consciência pesada) e a Nilto Maciel, a quem levei, depois da volta definitiva deste ao Ceará, à sua casa e anunciei alto da porta:

"— Poeta, tô aqui com o maior contista do Ceará!", no que ele perguntou lá de dentro: "— Quem, poeta, o Airton Monte?", acabando de vestir as calças; caímos na gargalhada.

A última vez que o vi ele estava saindo da sua vilinha com a Jamaica, cumprimentei-o e ele me perguntou onde era o "Buraco da Gia", pois estava querendo arranjar uma empregada e lhe deram um endereço, falei que era na Princesa Isabel, vizinho à minha casa, e fomos caminhando devagar. Quando chegou perto do beco ele parou, receoso, e disse que só entraria lá se eu fosse com eles, depois puxou uma pequena faca de mesa, dessas de cortar bife, e disse que estava preparado (mas que era bom eu entrar com ele, disse assombrado). Olhei para Jamaica, que também estava rindo, e disse que não tivesse receio que ali só morava gente de bem, e me despedi alegando ainda ir pegar minha filhinha no colégio.

Não tive coragem de ir vê-lo em seu velório na Academia Cearense de Letras. Queria ficar com a lembrança dele vivo, alegre e brincalhão, sempre contando lorotas.

E, ainda hoje, quando alguém se refere a ele, vejo algum dos seus livros ou passo em frente à Vila cordeiro, parece que estou vendo aquele sujeito magro ("tão magro que parecia estar sempre de perfil", como bem disse, em seu "A Guerra do Fim do Mundo", Vargas Llosa), com sua gargalhada espalhafatosa mas sempre sincera, dizendo — e apontando pra si mesmo — para os muitos anjinhos (ou demoninhos, tanto faz) que lhe cercam em algazarra:

"— Agora quem manda aqui é esse poeta 'Viadão Pós-Moderno'!"

"Eu sou aquele que come as flores do aniversário."

(José Alcides Pinto, 10/09/1923 — 03/06/2008)

Fonte: O POVO, de 24/07/2026. Coluna “Crônicas”, de Pedro Salgueiro. p.2.


segunda-feira, 31 de agosto de 2026

Lavagem nasal não causa mastoidite

Por Daniel Pinheiro (*)

O recente internamento de um comunicador cearense  por mastoidite aguda despertou preocupação e gerou um debate nas redes sociais. Como ele relatou ter realizado uma lavagem nasal antes do início dos sintomas, muitas pessoas passaram a estabelecer uma relação direta entre o procedimento e a doença. Essa associação, entretanto, não encontra respaldo nas evidências científicas.

A mastoidite é uma infecção do osso localizado atrás da orelha, a mastoide, e quase sempre representa uma complicação de uma otite média aguda. Embora hoje seja incomum graças ao uso dos antibióticos, continua sendo uma condição potencialmente grave, capaz de provocar perda auditiva, meningite e outras complicações quando o tratamento é retardado.

É importante esclarecer: a lavagem nasal com soro fisiológico não causa mastoidite. Pelo contrário, ela é recomendada pelas principais sociedades médicas para o tratamento da rinite e da rinossinusite. Quando realizada corretamente, melhora o funcionamento da mucosa nasal, facilita a eliminação de secreções e pode, inclusive, reduzir a ocorrência de otites, especialmente em crianças.

Como qualquer procedimento, entretanto, exige técnica adequada. O uso de pressão excessiva, principalmente durante episódios de intensa congestão nasal, pode provocar desconforto nos ouvidos e, em situações específicas, favorecer a passagem de secreções para a tuba auditiva. Se houver uma infecção respiratória em curso, isso pode contribuir para o aparecimento de uma otite. A mastoidite, quando ocorre, decorre da evolução dessa infecção do ouvido - não da lavagem nasal.

Criar uma relação de causa e efeito entre a irrigação nasal e a mastoidite pode produzir um efeito indesejado: afastar pacientes de um tratamento simples, seguro e eficaz por medo de uma complicação extremamente rara.

Mais do que procurar culpados, este caso deve servir para reafirmar o valor da informação baseada em evidências. Em tempos de conclusões apressadas, a ciência continua sendo o caminho mais seguro para orientar decisões que envolvem a saúde. Afinal, informação de qualidade também salva vidas.

(*) Médico otorrinolaringologista.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 24/07/2026. Opinião. p.18.


 

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