O problema do véi...
A
prendada dona Juraci e o descolado "mestre Wilson", que tive o
privilégio de conhecer a ambos, botaram no mundo, no longínquo 1929, o
resistente homem do campo, tornado agricultor de categoria incomum, um contador
de causos único - Juroilson Vieira Souza, dado à luz na aprazível Pirapora,
légua e meia do Cauípe.
Nunca,
enquanto somava "apenas" 92 anos, um hospital. Remédio, somente
quando empanzinado e, aqui e acolá, "umas piula" pra dor articular.
Até as nove décadas de vida, sete anos atrás, pois, uma rocha no tocante à
saúde - nem toque retal da próstata levou. A presença diária no roçado,
brocando; tangia o gado com cipó de marmeleiro em busca do açude; despescava
galão com o neto aos domingos; comia feito um bicho…
-
Eu era um homem!
Mas
apareceram ronchas no corpo, vieram o engulho e o reumatismo, a remela
excessiva e a mouquice, o esquecimento e o mijo em queda livre. A filha Judite
vexada levou "pai" ao consultório do clínico geral. Uma novidade,
aquilo, pra quem jamais sequer havia adentrado a um "posto". Após
amenidades, o médico perguntou, singelo, qual o problema do paciente ancião. A
resposta simples e direta - e perfeita:
-
97 anos...
O alto funcionário do cemitério
Buscando
fazer um por fora, o coveiro oferecia caixão feito por ele pela metade do preço
ao familiar enlutado à beira da cova. "É pro futuro!" E prometia ao
comprador, de brinde, uma camisa oficial do Ceará com a assinatura de Magno
Alves. Indagado pela reportagem sobre esse malfeito, o "alto funcionário
do campo santo" explicou que "a vida tava de morte, liseira era braba
- tô me virando como posso!"
Por
que considerado alto funcionário? A mãe do rapaz explicava, altamente maternal:
-
Acima dele só Deus! É meu fí quem faz a entrega do cristão morto ao chão que a
terra há de comer. E de quem é o chão, senão dEle?
Isto
dito, suspirava - a senhora orgulhosa do rebento ilustre, finalizando a defesa
com detalhe imprescindível no concerto funéreo gaiato em tela:
-
Ah, o rapaz que ajuda meu Zezito a enterrar é Toinho de Laura Lôra! Com a pá na
mão, esse rapaz é um rei!
O santinho precoce
Era
praxe na cidade, no decesso de alguém, encomendar santinhos de falecimento na
gráfica do Mazinho - "Aqui, quem manda é o freguês". Pois bem. Seu
Nonô passou desta aos (acreditem!) 105 anos de idade, na madrugada. Familiares
e amigos avisados por portadores, casa em casa. Velório às 10h, enterro às 16h
no parque "Nas Mãos de Pedro".
Homem
de poucos estudos, Dico Rojão, primogênito de seu Nonô, já na gráfica -
precária em equipamentos, mas robusta em gentileza. Pede celeridade na
confecção dos santinhos.
-
É pra missa de corpo presente! Tem aí um modelo já pronto, seu Mazinho?
-
Tenho, Dico! Escolha um desses aí!
E
despejou no balcão caixa abarrotada - a coleção completa de santinhos de mortos
e mortas, entre velhos e novos, pobres e ricos, cujas famílias ali iam imprimir
seus pequenos folhetos de luto. Um particularmente agradou o inculto Dico - de
um jovem que morrera precocemente.
-
Gostei desse! Troque só o nome do rapaz pelo de papai e as datas!
-
Na hora! E sobre o texto?
-
Deixe exatamente como está!!!
Hora
da missa. Santinhos distribuídos. O padre faz a gentileza de ler o impresso:
-
"Ao querido Nonato Gonçalves Serra, carinhosamente 'Nonô', falecido
precocemente aos 105 anos, o nosso..."
Fonte: O POVO, de 22/05/2026. Coluna
“Crônicas”, de Tarcísio Matos. p.2.
