Por Carlos Roberto Martins
Rodrigues Sobrinho (Doutor Cabeto) (*)
Uma leitura recente do economista e
escritor americano Thomas Sowell levou-me a uma reflexão que parece cada vez
mais atual. Vivemos a era da inteligência artificial, da informação instantânea
e da abundância de dados. Nunca foi tão fácil saber. Paradoxalmente, talvez
nunca tenha sido tão difícil compreender.
Em Os Intelectuais e a Sociedade, Sowell
distingue conhecimento de sabedoria. Os intelectuais - os chamados
"ungidos" - acumulam informações, formulam teorias e influenciam o
debate público. Mas isso não os torna, necessariamente, sábios. A sabedoria
nasce quando o conhecimento é temperado pela experiência, pela humildade e pelo
compromisso com o bem comum. Seu oposto não é a ignorância, mas a insensatez.
Da mesma forma, a inteligência pode sucumbir à estupidez quando perde a
capacidade de reconhecer os próprios limites.
A história é pródiga em teorias defendidas
com fervor, muitas delas apresentadas como verdades definitivas que acabaram
desmentidas pelo tempo. Ainda assim, seus formuladores permanecem
reverenciados, como se a eloquência pudesse substituir a evidência. O progresso
do conhecimento nunca foi linear; sempre dependeu da disposição de revisar
certezas.
A questão que se impõe é outra: a revolução
tecnológica tornará o debate público mais racional? Seremos mais capazes de
ouvir, ponderar e mudar de opinião diante dos fatos? Ou caminharemos para uma
sociedade dividida entre certezas absolutas, onde qualquer discordância é
tratada como ameaça?
A informação é indispensável ao
desenvolvimento humano. Contudo, isolada do contexto e da reflexão crítica, ela
pode produzir exatamente o efeito contrário. Em vez de aproximar, separa; em
vez de esclarecer, confunde. Narrativas simplificadas encontram terreno fértil
quando oferecem respostas fáceis para problemas complexos. E, na velocidade das
redes, emoções costumam viajar mais rápido que evidências.
Enquanto continuarmos a rotular pessoas
antes de examinar argumentos, pouco avançaremos. Crenças não são artigos de fé
imutáveis. Diferentemente dos gostos pessoais, elas devem estar abertas à
revisão sempre que novas evidências surgirem, sobretudo quando dizem respeito
aos fatos e às relações de causa e efeito.
Decidir bem exige mais do que informação.
Exige método, espírito crítico, capacidade de verificar, responsabilidade
intelectual e, sobretudo, humildade para admitir o erro.
Lembro-me, então, de uma frase de um antigo
professor: "O céu é longe", assim como a caminhada rumo à sabedoria.
Ainda habitamos um mundo de opiniões apressadas e certezas frágeis,
frequentemente sustentadas mais pela convicção do que pela razão.
Talvez por isso permaneça tão atual a
observação de Bertrand Russell: "O problema do mundo é que os estúpidos
têm plena convicção, enquanto os inteligentes são cheios de dúvidas." Em
tempos de excesso de informação, talvez a virtude esteja em cultivar a dúvida
honesta, aquela que não enfraquece o pensamento, mas o torna mais livre e mais
próximo da verdade.
(*) Médico. Professor da UFC.
Ex-Secretário Estadual de Saúde do Ceará.
Fonte:
Publicado In: O Povo, de 11/07/2026.
Opinião. p.23.
