Conta-se que em
uma determinada escola de Medicina, nos anos sessenta do século XX, havia uma
bela aluna, que estava muito mal nas provas parciais de uma dada cadeira, e
que, mesmo obtendo a nota máxima, um dez, na última avaliação, ficaria
reprovada, já que ela necessitava de doze para ser aprovada.
Na véspera dessa
tal prova, a jovem fez uma demorada e privada visita ao catedrático e regente
da cadeira, em seu gabinete de trabalho. Esse velho professor tinha a fama de
galanteador do belo sexo e gostava de lançar olhares fulminantes direcionados
aos decotes e às pernas das acadêmicas.
Aplicada a prova,
e passados os dois dias previstos da correção, os alunos que aguardavam os
resultados da correção estavam não apenas preocupados com as próprias notas,
mas igualmente curiosos quanto ao desfecho reservado à colega previamente
reprovada.
O catedrático
convocou os discentes ao anfiteatro, para anunciar as notas e comentar as
respostas às questões discursivas. Apesar de observar a ordem alfabética da
lista de chamada, o magister,
propositadamente, saltou o nome da aluna em questão, o que deixou a turma muito
intrigada.
Praticamente
conclusa a entrega das notas, o professor, portando uma pasta de couro,
finalmente, dirige-se à turma ali reunida:
– Meus diletos discípulos, gostaria de dar
conhecimento a todos, de uma situação muito especial.
Nisso, retirou da pasta a prova remanescente,
exibindo-a, à distância, lá do púlpito, onde se encontrava.
– Como eu ia dizendo, ao corrigir as provas
de vocês, deparei-me com esta preciosidade – falou, elevando o caderno de papel
almaço rabiscado.
– Era uma perfeição! O seu conteúdo
reproduzia, com absoluta integridade, o teor dos melhores livros-textos,
inclusive, com a indicação das várias obras consultadas, patenteando o vasto
domínio da matéria, próprio de quem se dedica com afinco ao estudo.
Os alunos observavam o entusiasmado mestre,
na expectativa de logo ver aflorar o veredicto.
O professor prosseguiu com suas explicações:
– Essa prova, na tentativa de identificar
alguma falha, porque eu não acreditava no que viam esses cansados olhos, que a
terra um dia haverá de comer, foi lida e revista. Até a busca de erros
gramaticais foi perpetrada e nada achei. Em vista disso, com incontido júbilo,
concedi-lhe dez, com louvor.
Os discentes se entreolhavam, e alguns até
piscavam os olhos, enquanto o docente seguia com a sua narrativa:
– Ao fazer a média de vocês, notei, contudo,
que a única acadêmica que tirara a nota máxima ficara entre os poucos
reprovados.
Ele fez uma longa
pausa, espalma a mão direita na cabeça, abrindo os dedos por seus cabelos.
Depois, deu sequência à sua locução:
– Então, eu comecei a cogitar. Essa prova
mereceu nota máxima “cum laude”, e não é um mero dez. Daí, não titubeei e
lancei um doze, o que permitiu à aluna alcançar a média de aprovação.
Os alunos estavam pasmos, pareciam não crer
no que ouviam, face à estranheza do fato, e começaram a cochichar no
anfiteatro. O lente não perdeu a esportiva e continuou:
– Pois bem! Eu lancei o doze na caderneta;
porém, o secretário do departamento me alertou que a universidade não aceita
nota superior a dez em nenhuma condição.
Um dos estudantes,
ressabiado com o comportamento anômalo do catedrático, apressa-o, provocando:
– E aí, professor! Como o senhor resolveu
esse “imbróglio”?
– Como era uma perfeição de prova, jamais
por mim vista na minha longa carreira de magistério, digna do doze ou até mais
do que isso, alterei para dez, mas atribuí os dois pontos que sobraram ao exame
anterior, adicionando-os, naturalmente, à nota passada.
Marcelo Gurgel
Carlos da Silva
Da Sobrames/CE e da Academia Cearense de Médicos
Escritores
Fonte:
SILVA, Marcelo Gurgel Carlos da. Medicina,
meu humor! Contando causos médicos. 2.ed. Fortaleza: Edição do Autor, 2022.
144p. p.70-72.
