A médica
pneumologista e pesquisadora da Fiocruz é uma defensora da ciência, do humanismo
e do compromisso inegociável com a verdade
Por Ana Rute Ramires, jornalista de O Povo.
Nascida em uma família de juristas, por muitos
anos ela quis ser diplomata. Mas o encontro com a Medicina foi sem volta. Entre
o amor pela literatura e o empenho na pesquisa científica, forjou-se uma defensora
da ciência, do humanismo e do compromisso inegociável com a verdade. De uma adolescente
engajada nas causas sociais, que sempre gostou de cuidar de gente, Margareth Dalcolmo
tornou-se médica pneumologista e pesquisadora com carreira exitosa.
Ao O POVO, a pesquisadora da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e membro titular
da Academia Nacional de Medicina (ANM) alerta sobre a previsão de novas pandemias
nos próximos anos e elogia a capacidade da comunidade científica nacional em gerar
inovações mesmo sob adversidades. Dalcolmo também reflete sobre os desafios estruturais
do Sistema Único de Saúde (SUS), o compartilhamento de desinformação durante a pandemia
da Covid-19 e a precarização da formação médica no Brasil.
O POVO - A senhora vem de uma família de juristas e pensou em ser
diplomata. Como foi esse encontro com a Medicina?
Margareth
Dalcolmo - Realmente, a minha família é uma família que tem
muito pouca tradição médica. Na verdade, eu só tenho dois primos médicos mais ou
menos da mesma geração que eu, um pouquinho mais velhos, com quem eu tive muito
pouco contato na vida. E eu venho do meio da justiça. Meu pai era advogado, meu
avô era advogado, minhas tias eram uma juíza e outra promotora. Então, cresci nesse
meio e, desde muito pequena, eu sempre li muito, sempre fui uma criança muito curiosa,
muito aventureira, muito sonhadora, tinha um imaginário fertilíssimo e dizia que
ia ser diplomata. E meu primeiro presente, além de uma boneca, naturalmente, que
eu tinha e gostava muito, foi um grande quebra-cabeça de mapa-mundi que meu pai
me deu. Então, eu me lembro que eu botava aqueles alfinetinhos coloridos nos lugares.
Sempre escolhia nomes exóticos para os lugares. E, assim, meus pais levaram aquilo
à sério e me puseram para estudar línguas muito cedo. Na Cultura Inglesa, na Aliança
Francesa, onde eu entrei ainda adolescente. Mas eu sempre fui muito jeitosa para
cuidar. Eu sempre gostei muito de estar com as pessoas mais velhas e sempre tive
um jeito assim, uma curiosidade em relação a ouvir o outro, cuidar do outro, né?
Eu lia muito e, aos 17 anos de idade, já no ano de fazer o cursinho pré-vestibular,
eu tomei a decisão de que não seguiria a carreira de humanas e iria fazer vestibular
para Medicina. Meus pais ficaram muito surpresos nessa ocasião e, enfim, eu tinha
feito curso clássico, não tinha feito curso científico, que era a formação da minha
geração. E eu disse aos meus pais que eu já tinha combinado tudo com os meus colegas,
que eu ia dar aula de português, inglês, história, geografia para eles, eles iam
me ensinar física e química para poder melhorar as minhas condições. E assim foi.
E eu jamais tive qualquer minuto de hesitação. Era um momento do Brasil muito difícil.
Nós estávamos na ditadura militar, no final da ditadura. E eu fiquei muito chocada
vendo gente da minha geração sendo presa. Enfim, foi um momento muito difícil. Eu
sempre fui uma adolescente profundamente consciente e muito engajada nas causas
sociais. De modo que foi uma decisão muito madura para uma adolescente, da qual
eu jamais tive qualquer arrependimento. Meus pais riram na minha primeira decisão,
achando que na primeira aula de anatomia, com cheiro de formol, eu ia mudar de ideia
e voltar para o meu desejo original. Isso nunca aconteceu. Então, foi uma decisão
que me deu muito prazer ao longo da minha vida, de uma carreira bem sucedida, que
me deu certamente muitas preocupações, cuidar de gente é algo muito desafiador,
mas também é fascinante. Eu gosto de gente e, para ser médico, eu sempre digo aos
meus alunos, têm que gostar de gente, né? E eu gosto de gente, gosto de cuidar,
gosto de ouvir, gosto de estudar e continuo trabalhando, pesquisando. Eu sou pesquisadora
clínica, trabalho com pesquisas, não de bancada, de laboratório, mas pesquisas com
pessoas. Então, isso prova, na verdade, ao longo da minha carreira, essa consistência
foi se fazendo trabalhando sempre com pessoas, procurando um propósito, digamos
assim, de fazer alguma coisa que coletivamente pudesse ser útil. Essa foi a minha
entrada na Medicina. Foi serena, surpreendente para os outros, mas enfim, sem volta.
OP - A senhora falou que, desde criança, gostava muito de ler, tinha
muita criatividade e, até hoje, é uma leitora voraz, tem uma super biblioteca também,
é escritora. Quais são os seus livros preferidos, autores? A senhora acha que esse
arcabouço da leitura também influenciou a senhora como médica e como pesquisadora?
Margareth
- Isso
é importante ser dito, hoje, num momento em que nós estamos vivendo, em que as pessoas
ficam muito tentadas a se dispersar ou ler de maneira muito superficial por algo
que eu considero muito nocivo nos dias que nós vivemos, que chamam-se redes sociais.
As redes sociais, se bem usadas, podem ser muito úteis, são úteis para o nosso trabalho,
para uma informação imediata, a inteligência artificial chegou para nos ajudar nesse
sentido. Eu tenho escritores que marcaram muito, desde cedo de ter lido, livros
que marcaram muito a minha vida. Eu já escrevi um artigo sobre isso. O livro que
marcou a minha vida, a minha carreira, a minha especialidade é a Montanha Mágica,
de Thomas Mann, que é um livro absolutamente seminal na minha formação, como A Morte
de Ivan Ilitch, do (Liev) Tolstói. Mas a minha autora querida, preferida é Marguerite
Yourcenar, que escreveu livros maravilhosos, tem uma biografia maravilhosa, Simone
de Beauvoir naturalmente, porque marcou a minha geração, né? Eu me lembro quando
eu fiquei assim uma noite sem dormir, quando eu li o Segundo Sexo e aquela volúpia
de entender o nosso papel de mulher no mundo. Então, ler Simone naquele momento
fez muita diferença. Muitos outros autores, eu sempre li muito. Você acabou de mencionar
que eu tenho uma bela biblioteca, né? Eu fui casada durante quase três décadas com
um grande intelectual também (Cândido Mendes de Almeida, imortal da Academia Brasileira
de Letras, falecido em 2022). Era uma casa que não tinha filhos, mas tinha duas
bibliotecas, né? Hoje, tem uma só. Então, nós passávamos de uma para outra. Isso
foi enriquecedor também porque propiciou um diálogo humano. Meu marido era um grande
humanista, então, um diálogo de grande densidade e humana, né? Eu acho que um médico
não pode ler só artigos. Existe uma frase dita ainda no século XIX por um médico
português que dizia: "Um médico que só sabe medicina, nem medicina sabe."
E eu considero essa frase absolutamente definitiva. Se nós não procurarmos entender
onde nós estamos inseridos, sobretudo sendo brasileiros… E gostando do Brasil, como
eu gosto, né? Eu gosto muito do Brasil, eu gosto muito de viver aqui. Viver no Brasil
para mim é uma opção. Uma escolha deliberada. Foi aqui que eu fiz a minha carreira,
foi aqui que eu conheci pessoas e encontrei os amores, tenho minha família, embora
minha família seja de imigrantes. Eu sou de origem italiana. Então, eu sou como
grande parte do Brasil, venho daqueles que vieram para construir esse país. Acho
que isso reforça um compromisso muito forte.
OP - A senhora teve uma atuação muito conhecida pela população em
geral por causa da Covid-19, muito por causa do seu quê de comunicação também, né?
Como foi essa experiência de comunicar sobre a ciência em um período tão delicado
com relação a fake news, tão eivado de desinformação?
Margareth
- De novo, foi
um compromisso público que eu assumi desde que percebi ainda no dia 14 de março
de 2020, quando eu dei a primeira entrevista pública sobre a Covid-19 no Brasil
numa grande rede de televisão que me convidou. Porque eu havia gravado um pequeno
filminho, eu nem sabia naquela época usar esse termo que eu vou usar que chama-se
viralizar. Havia viralizado, em 36 horas no ar tinha alcançado 25 milhões e meio
de visualizações. Foi por essa razão que uma rede de televisão me telefonou. E eu
tinha gravado esse pequeno videozinho porque eu havia saído de Brasília, onde estava
assessorando o ministro (Luiz Henrique) Mandetta, na ocasião, para elaborar as primeiras
recomendações para conduta, como nós deveríamos nos comportar na epidemia que tava
chegando, que já estava se instalando no Brasil. Eu havia participado, 17 anos antes,
do grupo que havia assessorado o ministério quando houve a epidemia de H1N1. Na
época, era ministro (José Gomes) Temporão. Naquela ocasião, fizemos todas as providências
necessárias, tínhamos estoque de remédio, tínhamos vacina comprada, ao contrário
do que estava acontecendo naquele momento onde o Brasil não tinha nem sequer a continência
necessária para enfrentar a tragédia que começava a se abater sobre o País. E eu
anunciei ao público isso. Ao fazê-lo, eu percebi que havia tido um impacto muito
grande nas televisões e nos órgãos de comunicação. Havia uma maneira de informar
e eu tomei esse compromisso de dizer a verdade sempre, por pior que ela fosse. Há
um exemplo muito paradigmático para mim que foi no Natal de 2020, quando o jornal
me perguntou: “É verdade que a senhora vai dizer que não pode ter Natal no país
mais católico do mundo?”. Eu disse “Vou dizer que não pode ter Natal”. Estavam morrendo
2.000 pessoas por dia, não tinha nem como enterrar, né? Nós estávamos abrindo cova
rasa em São Paulo, Manaus, a tragédia instalada. Então, eu sempre disse que sim.
Com todos os ônus e bônus que isso, evidentemente, encerrava. Essa forma de se comunicar
é algo que acho que é uma característica, não diria que é um dom, mas uma característica,
uma coisa de quem ensina. Uma maneira pedagógica, digamos assim, de dar as piores
notícias, como nós damos as notícias más. Como nós damos a alguém que tem uma doença
grave, que não há mais o que fazer ou comunicar a família, né? Há uma maneira de
se saber fazer isso de modo a atenuar o sofrimento, seja ele individual, seja ele
coletivo. E eu acho que, de certa maneira, eu consegui.
Fonte: Publicado In: O Povo, de 8/06/26. Páginas Azuis. p.6-7.



