segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026

O Banco Central e o caso Master

Por Henrique Marinho (*)

Recentemente me pronunciei nas redes sociais em defesa do Banco Central no caso envolvendo a liquidação do Banco Master por parte do BC e a interferência do TCU, exigindo que fossem enviados aquela Corte dados confidenciais do processo de liquidação, com o intuito de interferir nas decisões tomadas, em cumprimento das funções básicas do BC, que é o de "Garantir a estabilidade do poder de compra da moeda, zelar por um sistema financeiro sólido, eficiente e competitivo, e fomentar o bem-estar econômico da sociedade.". Ao zelar pela estabilidade do sistema financeiro, a Autoridade Monetária previne crises sistêmicas e protege as economias dos cidadãos, funcionando como um pilar de confiança entre agentes econômicos e o Estado e para essa função ele precisa de autonomia institucional. Mesmo com a nova decisão de não proceder a inspeção no Banco Central para reavaliar a liquidação de uma instituição financeira, o TCU não detém competência constitucional para reexaminar o mérito técnico de decisões prudenciais do Banco Central, conforme descreve Adriana de Toledo, em artigo no Linkedin, comentando que a" Liquidação bancária é ato típico de política de supervisão prudencial; é uma decisão técnica e discricionária do regulador, baseada em análises de liquidez, solvência, governança e cumprimento regulatório e financiada por mecanismos privados, como o FGC - e não por recursos públicos.

O controle exercido pelo TCU é legítimo quando incide sobre a aplicação de recursos públicos e não quando pretende avaliar oportunidade, conveniência ou adequação técnica de decisões regulatórias". Quando o Banco Central intervém em alguma instituição financeira é porque a mesma não cumpriu as regras prudenciais de boa governança, envolvendo indicadores de risco, de exposição de capital e de licitude, o que tudo indica que não foram cumpridos por aquela instituição, de acordo com a Nota publicada pelo BC, no dia da Liquidação, em 18 de novembro de 2025, o Banco Central decretou a liquidação extrajudicial do Banco Master S/A, do Banco Master de Investimento S/A, do Banco Letsbank S/A e da Master S/A Corretora de Câmbio, Títulos e Valores Mobiliários, além do Regime Especial de Administração Temporária (RAET) do Banco Master Múltiplo S/A, instituições integrantes do Conglomerado Master, informando que "A decretação dos regimes de resolução nas instituições foi motivada pela grave crise de liquidez do Conglomerado Master e pelo comprometimento significativo da sua situação econômico-financeira, bem como por graves violações às normas que regem a atividade das instituições integrantes do Sistema Financeiro Nacional" e quando o BC, liquida uma instituição financeira é porque ela infringiu as regras com operações ilícitas ou fora das normas. Precisa comentar mais alguma coisa?

(*) Economista. Membro da Academia Cearense de Economia. Ex-presidentes do Corecon-CE.

Fonte: O Povo, de 11/01/26. Opinião. p.22.


Ceará entre o novo e a "volta dos que não foram"

Por Luiz Eduardo Girão (*)

O ano de 2026 promete ser um divisor de águas para o Ceará. Meus conterrâneos vão compreender o que é possível realizar com uma gestão eficaz: enfrentamento real ao crime, serviços públicos de qualidade e até redução de impostos que vão gerar mais emprego e renda. Tudo isso estará em jogo na eleição de outubro, com a chance concreta de uma alternância verdadeira de poder - não o revezamento dos mesmos grupos que já passaram pelo Palácio da Abolição e nos trouxeram ao atual cenário de caos de violência e desesperança.

A mudança que rompe paradigmas só virá com alguém independente, com histórico de superação, coragem e disposição para trabalhar, administrando com valores e princípios éticos. Um líder que encare o mandato como missão existencial, e não como meio de vida, livre de acordões que perpetuam privilégios para essa ou aquela família… O foco precisa ser exclusivamente o bem-estar do cidadão cearense e a retomada do desenvolvimento.

É com esse espírito que, no no próximo dia 30/1, lançaremos no Cariri minha pré-candidatura ao Governo do Ceará e a do General Theophilo ao Senado, em evento semelhante ao realizado em Fortaleza há dois meses, com a presença de lideranças conservadoras e do centro-direita locais e nacionais.

Desde 2019, nosso gabinete destinou R$ 74 milhões em emendas ao Cariri. Utilizo apenas emendas constitucionais, sempre votei contra e denunciei o orçamento secreto. Sem qualquer uso eleitoral, firmamos convênio pioneiro com os Ministérios Públicos estadual e federal e estimulamos a participação popular por meio das redes sociais.

Investimos em todos os 184 municípios, sem distinção partidária e ideológica. O povo não tem culpa das disputas políticas e quer soluções. Priorizei organizações da sociedade civil com excelência em atendimentos sociais, como as 36 APAEs, o Iprede — que ganhou sua 1ª sede fora de Fortaleza, em Quixadá - e a Associação Peter Pan, que juntas receberam mais de R$ 27 milhões.

Não por acaso, fui eleito por vários anos o melhor senador do Ceará no Ranking dos Políticos e reconhecido pelo governo federal como o parlamentar que mais investiu no terceiro setor entre 594 congressistas. A saúde pública concentrou 65% dos nossos recursos, beneficiando hospitais, atenção primária, associações de apoio a deficientes, idosos, mulheres e comunidades terapêuticas inteiras. Também destinamos recursos para segurança, esporte, tecnologia, cultura, turismo, meio ambiente e empreendedorismo.

Em fevereiro, Juazeiro do Norte receberá o primeiro Instituto do Ceará para prevenção do câncer de mama e do colo do útero, beneficiando 45 municípios do Cariri e Centro-Sul. O projeto, fruto de uma emenda que conseguimos de R$ 36 milhões, é vinculado ao Hospital de Amor de Barretos (SP), referência nacional, com 80% dos diagnósticos precoces e 95% de índice de cura. O que já realizamos no Parlamento aponta o que podemos fazer no Executivo! Vamos juntos para um ano de viradas e vitórias, com um projeto verdadeiramente novo.

(*) Empresário. Senador pelo Podemos/CE.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 16/01/26. Opinião, p.17.

domingo, 15 de fevereiro de 2026

INSTITUTO DO CÂNCER DO CEARÁ: Jubileu de Carvalho

O Instituto do Câncer do Ceará (ICC) completou, em novembro de 2024, os seus 80 anos de fundação, alicerçado no amplo reconhecimento público que detém dos préstimos ofertados no Ceará, à conta dos seus serviços de oncologia, como instituição filantrópica, o que é motivo a ser grandiosamente festejado pelo povo cearense.

Ao cabo dos primeiros setenta anos de existência do ICC, com a valiosa colaboração da Profa. Elsie Studart, por duas décadas, foi possível expor as suas efemérides e os seus feitos institucionais, em distintas mídias, com referência especialmente a livros comemorativos, como os que assinalaram os 50, 60, 65 e 70 anos dessa pujante entidade.

Em sessão solene do Instituto do Ceará: Histórico, Geográfico e Antropológico, transcorrida a 22/06/2015, deu-se o lançamento de “Instituto do Câncer do Ceará: 70 anos de conquistas”, livro que, reunindo maiormente crônicas e ensaios, teve a evidenciada proposta de narrar as conquistas do ICC, no correr das suas sete décadas de funcionamento.

Agora, em 2025, passados dez anos do feito literário anterior, para celebrar o jubileu de carvalho, torna-se pública, como forma de atualização das crônicas mais recentes do ICC, a obra “Instituto do Câncer do Ceará: jubileu de carvalho, cuja ênfase principal foi o resgate das publicações precedentes, descortinando os registros escritos de uma exitosa trajetória, iniciada há 80 anos por dez médicos e um padre, que sonharam erigir, no Ceará, uma entidade para, originalmente, prestar atendimentos a pessoas desvalidas portadoras de câncer.

Esse livro, lançado no ICC em 17/10/2025, em comemoração do Dia do Médico, e prefaciado pelo notável urologista Prof. Dr. Lúcio Flávio Gonzaga Silva, está distribuído em seis partes: I – A História do ICC em Livros, II – Dirigentes do ICC em Livros, III – Discursos & Crônicas, IV – Homenagens Institucionais, V – Homenagens Pessoais e VI – Apêndices & Anexos.

Aos nossos fundadores do ICC, abnegados e pioneiros desbravadores, todos eles trasladados deste mundo menor, comporta reiterar a gratidão de todos os cearenses, pelo tão importante legado, semeado e cultivado, que eles fincaram no Ceará.

Marcelo Gurgel Carlos da Silva

Médico epidemiologista do ICC

* Publicado In: Revista AMC (Associação Médica Cearense). Outubro de 2025 - Edição n.49. p.16 (online).

Um preito à Nossa Senhora, mãe de Jesus

Por Pedro Jorge Ramos Vianna (*)

Li no Jornal O POVO de 07 deste mês, um trabalho acerca da posição do Papa Leão XIV sobre a não aceitação da condição de Nossa Senhora como "correndentora" pelas outras igrejas cristãs, não-católicas.

O trabalho deixa a mensagem que essa é uma atitude do Papa em direção a um maior entendimento com as outras igrejas ditas "cristãs".

È claro que não se pode comparar Maria com Jesus Cristo. Este é Deus, Maria é humana.

Entretanto o poder que DEUS lhe deu a qualifica para ser, pelo menos, a condutora dessa humanidade desvairada, que tanto precisa de suas graças.

Há de se considerar a imensa coragem dela em aceitar o "encargo" de ser mãe solteira. Se São José não a aceitasse ela seria morta por apedrejamento.

Por outro lado, nas suas aparições Ela já deu provas de seu poder. Aqui vou lembrar alguns fatos.

NOSSA SENHORA DE FÁTIMA

Em 13 de outubro de 1917, 70 mil pessoas, incluindo jornalistas, testemunharam o milagre que tinha sido anunciado pelas três crianças portuguesas. Ao meio-dia, depois de uma forte chuva que parou de repente, as nuvens se abriram diante dos olhos de todos e o sol surgiu no céu como um disco luminoso opaco, que girava em espiral e emitia luzes coloridas

NOSSA SENHORA DE GUADALUPE

A imagem de Nossa Senhora de Guadalupe surgiu em 1531, quando a Virgem Maria apareceu perto da Cidade do México. Como prova, o índio Juan apresentou seu manto, um tecido feito de fibra de cacto e de qualidade bem pobre, no qual a imagem de Maria foi "impressa" depois da aparição. O material foi analisado em diversas ocasiões por cientistas, que nunca conseguiram determinar como a imagem surgiu sobre o tecido. Mais impressionante ainda: não é uma imagem pintada ou estampada no tecido: ela flutua ligeiramente acima do tecido! Ainda hoje o manto está intacto.

NOSSA SENHORA DO BOM CONSELHO

Na Capela de Escodra (Albânia), tinha um ícone de Nossa Senhora, conhecida como Nossa Senhora de Escodra.

Durante um cerco à cidade, dois albaneses devotos se postaram ao pé da imagem e rezaram para que pudessem escapar com segurança. Então a imagem se desprendeu do altar e flutuou no ar, saindo da Capela. Os dois homens, Gjorgji e De Sclavis, seguiram a pintura, até a Itália.

Na cidade Genazzano (Itália),na festa de São Marcos, em 25 de abril daquele ano (1467), a população se reuniu para festejar. Por volta das 16h o povo ouviu uma bela música, e procurou de onde vinha.

Então viram uma nuvem, em meio ao céu claro, descer do céu e cobrir uma das paredes da igreja, lá permanecendo por algum tempo. Quando a nuvem se dissipou, a população viu sobre a parede uma pintura da Virgem com o Menino onde nada existia antes.

Foram milagres vistos por milhares de pessoas!

Por que não ser devoto Dela?

(*) Economista. Professor titular aposentado da UFC.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 11/01/26. Opinião. p.20.


sábado, 14 de fevereiro de 2026

PISCAR DE OLHOS: 43ª Antologia da Sobrames/CE - 2025

A série de Antologias da Sociedade Brasileira de Médicos Escritores – Regional Ceará (Sobrames/CE), com ponto de partida em 1981, atingiu agora em 2025 a sua 43ª edição, demonstrando vitalidade e continuidade.

Essa publicação possui 64 participantes, sendo 60 médicos, uma acadêmica de Medicina e três sobramistas não-médicos; os três derradeiros, incluídos como autores convidados, visto pertencerem ao nosso quadro de associados como sócios beneméritos.

Na reunião ordinária da Sobrames/CE, conduzida de forma virtual em 11/08/2025, dentre os tantos títulos sugeridos pelos sócios, após sucessivas rodadas de discussão, culminada em escrutínio, foi aprovada a proposta, indicada por Walter Miranda, que se consagra com o maior responsável pelos títulos das antologias da Sobrames/CE.

Desta feita, para 2025, fora aprovado denominar a obra de “Piscar de Olhos”, cujo significado “pode se referir ao ato físico de fechar e abrir as pálpebras rapidamente, que tem funções vitais, como lubrificar e limpar os olhos, além de servir como uma pausa mental. O piscar de olhos também pode ser uma expressão de comunicação não-verbal, uma piscadela, indicando amizade, flerte ou cumplicidade.” Ademais, a frase “num piscar de olhos” significa algo que acontece muito rápido.

Por tradição, e aliás, raramente rompida, a Sobrames/CE recorreu a um literato externo, notadamente vinculado a outras confrarias, para prefaciar suas antologias anuais. Desse modo, observando a mesma excepcionalidade que foi aplicada aos sobramistas Paulo Gurgel, Flávio Leitão e José Maria Chaves, foi indicado o médico e escritor Lúcio Gonçalo Alcântara para dar cabo dessa tarefa, o que é motivo de gáudio nosso, por sua valorosa contribuição como atuante sobramista, no percurso de três lustros, ao tempo em que ele, por justas razões superiores, paulatinamente, vem se desligando de seus vínculos societários.

Lúcio Alcântara é membro titular da Academia Cearense de Letras, da Academia Cearense de Médicos Escritores (Acemes) e da Academia Quixadaense de Letras; membro honorário da Academia Cearense de Medicina e sócio da Sociedade Brasileira de Médicos Escritores – Regional Ceará, da Associação Brasileira de Bibliófilos e do Instituto do Ceará: Histórico, Geográfico e Antropológico. É um assíduo participante das antologias da Sobrames/CE, desde 2011, e da Revista da Acemes desde o número zero.

Na oportunidade, comporta salientar, mais uma vez, a colaboração do colega sobramista Isaac Furtado, prestigiado cirurgião plástico e artista plástico, um mestre na arte do manuseio do bisturi e dos pincéis, um esmerado criador das capas das antologias da Sobrames/CE.

Ao ensejo do momento do lançamento desse livro, a Sobrames/CE agradeceu à Sra. Orlânia Dutra, nossa prestimosa secretária, por sua dedicação à montagem desta antologia, bem como a todas as instituições e empresas que inseriram anúncios no encarte da mesma.

Que, entre um e outro pestanejar, a leitura de “Piscar de Olhos” mantenha os olhos abertos e lubrificados, para sorver bons momentos, em prosa e em verso, do teor deste livro.

Cons. Marcelo Gurgel Carlos da Silva

Sócio da Sobrames/CE – Editor

* Publicado In: Jornal do médico, 21(198): 34-35, novembro de 2025.


RECOMEÇAR É UM ATO DE ESPERANÇA

Por Pe. Eugênio Pacelli SJ (*)

Janeiro chega como uma página em branco, mas não como esquecimento. O recomeço cristão não apaga o que foi vivido; ele o redime. Traz consigo a memória das dores, das perdas e das travessias, mas também a convicção profunda de que Deus continua a agir na história concreta, exatamente onde a vida pareceu mais frágil. Recomeçar, à luz da fé, não é negar o cansaço da alma, mas decidir caminhar com ele, confiando que a graça precede cada passo.

Sob a ótica inaciana, o tempo não é um inimigo a ser vencido, mas um espaço sagrado onde Deus se revela. Santo Inácio de Loyola nos ensina a “buscar e encontrar Deus em todas as coisas”, inclusive nos escombros interiores que carregamos de um ano para outro. O recomeço, portanto, não nasce da pressa por resultados nem da ansiedade por controle, mas do discernimento espiritual: escutar o que o Espírito diz ao coração, reconhecer limites, nomear feridas e permitir que a esperança se organize por dentro, com realismo, paciência e profundidade.

Não é por acaso que janeiro também é o mês dedicado à saúde mental. Cuidar da mente é um gesto profundamente espiritual. Uma fé que ignora o sofrimento psíquico torna-se abstrata; uma espiritualidade que não acolhe a fragilidade humana perde sua encarnação. O cristianismo não propõe uma felicidade artificial, mas uma esperança realista, capaz de conviver com a ansiedade, o luto, o medo e a exaustão, sem transformá-los em culpa ou fracasso pessoal.

Para 2026, a esperança cristã não se apresenta como promessa de facilidades, mas como certeza de companhia. Deus não nos promete ausência de desertos, mas sua presença fiel no meio deles. Recomeçar é aceitar que a vida segue em processo, que nem tudo se resolve de imediato e que a saúde da alma também se constrói com pausas, silêncio, oração, acompanhamento espiritual e ajuda concreta.

Talvez o maior recomeço deste tempo seja aprender a viver com mais verdade, menos exigência e mais misericórdia consigo mesmo. Onde há cuidado, há reconciliação interior. Onde há escuta, nasce a esperança. E onde há esperança, mesmo que pequena, Deus já está trabalhando.

(*) Sacerdote jesuíta e mestre em Teologia. Escritor. Diretor do Mosteiro dos Jesuítas de Baturité e do Polo Santo Inácio. Fundador do Movimento Amare.

Fonte: O Povo, de 10/01/2026. Opinião. p.18.


sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026

Crônica: “Na minha época era só um lesado” ... e outros causos

Na minha época era só um lesado

Dr. Chico Mamão, colega do Grupo Escolar Gustavo Barroso - bairro de São Gerardo, final dos anos 1960. Pense num menino "avoado", tipo desligadão de tudo, se abrindo pro tempo, "obrando e andando pra não fazer ruma"... Ele me conta, em síntese - via zap, novidade deveras valendo, nos tempos atuais.

- Jornalista, de repente eu me deparo com uma ruma de gente se descobrindo portadora de condições como Transtorno do Espectro Autista (TEA), TDAH, dislexia e tal e coisa. Do nada, um povo se dizendo neurodivergente.

Eu, confabulando comigo mesmo ealguns botões...

- Na verdade, Mamãozim! Tudo isso são "variações naturais do funcionamento cerebral humano", não são falhas. E se havia ontem, muito mais se observa presentemente. São amores nossos!

- É vero! Minha filha, médica, assume na boa que tem déficit de aprendizagem. Bacana!

- Isso é fruto da maior conscientização e aceitação social! Legal! E tu?

- Eu? Na idade dos meus 12 pros 13 anos, pelo jeitão de ser, eu era só um lesado véi!

Sonhou que era um vulcão...

Leontino Camiranga, guardem esse nome, acordou no meio da madrugada aos gritos. Pesadelo brabo. A mulher quem o despertou do "sonho vívido e perturbador", ao assistir ao desespero monossilábico do marido, trêmulo e suando em bicas.

- León!!! León!!! Acorda!!!

- Ham! Ham! Ham!... Medo, Jandira!!! Medo!!!

- Medo de que, homem?!?

- Medo, Jandira!!! Medo!!!

- De avião?!?

- Não, Jandira!!! Medo!!!

- Medo de que, criatura de Deus?!?!?!?

- Medo de peidar, Jandira!!!

- Ah! Passou, passou, passou...

Levantaram-se, higienizaram as partes, trocaram de roupa. Estão tomando café. Na mesa, um Leontino de olhar esgazeado, como se no mundo da lua. Algo a lhe doer muito - tal a densidade do sonho penoso de há pouco. Como se fosse provocar. Jandira analisa.

- Tá normal não, o meu véi! Tonha (filha deles), vá ao quintal do Zé Expedito e pegue cidreira, capim santo e alfavaca!

- Um peso, Jandira!!! Um peso!!! - murmurou Camiranga, em risco de desabar.

- Num falei, Tonha! Tá zuruó do juízo o meu esposo!

- Um peso, Jandira!!! Um peso!!! - continuou Leontino.

- Na consciência?!?

- Nos meus eggs!!!

Feita a comparação implícita...

Na casa de cumade Eurídice, professora prática de Português da única escola da comunidade. 11 da manhã e o menino mais novo dela reclama-se da dor que somente uma pratada de feijão com toicim pode aplacar.

- Tô com fome, mãe!

- Tem paciência, José!

- Mas eu tô com fome, mãezinha! Bucho colado no espinhaço...

- Filho, a fome é uma metáfora!

- Pois cozinhe uma pra mim... E bote uma coisinha de farinha por cima!

- Tá bom, José! Tá bom! Vou fazer um escondidinho de carne de sol pra você.

- Não, mãe! Me dê um dicumê que eu não precise procurar!

Fonte: O POVO, de 16/01/2026. Coluna “Crônicas”, de Tarcísio Matos. p.2.

 

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