Por
Vladimir Spinelli Chagas (*)
No Brasil de hoje, bares, calçadas ou pontos de ônibus exibem o
brilho de telas de celulares com gráficos coloridos, foguetes que sobem, promessas
de multiplicação instantânea de dinheiro das chamadas "bets". Elas
passaram de entretenimento para um problema de urgência social, econômica e de
saúde pública, ocupando, com uma velocidade impressionante, espaço no cotidiano
de uma população já endividada e pouco alertada para os riscos sobre o
orçamento doméstico.
Dados recentes de pesquisa realizada pela CNC, estimam em 81,6% o
número de famílias endividadas, 29,7% com atraso e 12,3% sem condições de
quitação. Esse recorde histórico, não admitindo mais protelações.
A demora já favoreceu o caminho para aquele clique, que cria um
momento lúdico, mas, na realidade, torna o cidadão um possível viciado, com a
ilusão do ganho fácil, desde que persevere. "Insista, persista, não
desista. O seu dia chegará", já dizia velho bordão da Loteria Cearense.
Contudo, o problema não é o jogo em si, mas o dinheiro da bodega,
da conta de luz ou do mercantil do mês, canalizado para a ilusão do ganho
fácil. Números do Banco Central indicam que os recursos transferidos via Pix para
plataformas de apostas - hoje na casa das 200 legalmente estabelecidas -, podem
chegar a R$ 30 bilhões mensais e, mais grave, análises amostrais apontam para
que 5 milhões de teriam destinado, em um mês, cerca de R$ 3,0
bilhões para essas plataformas.
Não é de estranhar que os varejistas cearenses já se
ressintam da perda de fôlego do consumo básico, porquanto a renda que
circularia no comércio do bairro, por exemplo, está sendo desviada para essas plataformas
e distribuída não se sabe exatamente para onde.
O debate sobre a regulamentação, com regras de publicidade,
tributação e mecanismos de identificação de perfis de risco, já tardio, da
burocracia estatal, em ritmo de tartaruga versus a velocidade do clique.
Devemos tratar o superendividamento por apostas não como um desvio de caráter,
mas como um problema de saúde coletiva— a ludopatia.
(*) Professor aposentado da Uece,
membro da Academia Cearense de Administração (Acad) e conselheiro do CRA-CE.
Provedor da Santa Casa da Misericórdia de Fortaleza.
Fonte: Publicado In: O Povo, de 13/07/26.
Opinião. p.18.
