sexta-feira, 18 de setembro de 2026

COMPOSTURA, SENHORES!

Heládio Feitosa de Castro Filho (*)

Compostura, senhores! - repetia o velho professor de Direito Processual, batendo a régua na mesa, sempre que um aluno exagerava no tom ou na vontade. A palavra soava antiquada, quase um mimo de museu. Mas era a senha para o templo: ali, a toga não era fantasia; era reverência.

Hoje, ao acompanhar as notícias do Supremo Tribunal Federal, tenho a impressão de que o velho professor bate a régua em vão. E os alunos - agora ministros - parecem ter esquecido que a toga não lhes pertence.

Divergência jurídica é saudável. O problema começa quando o conflito deixa de ser apenas processual e passa a envolver acusações recíprocas, suspeitas sobre decisões e a impressão de que a própria Corte se tornou cenário de uma disputa interna de poder.

A crise atual do STF, com questionamentos sobre relatórios da Polícia Federal e decisões de afastamento, não pode ser tratada como simples desacordo entre colegas. Não se trata de antecipar culpa, nem de transformar suspeitas em condenações. Trata-se de reconhecer que, quando a imparcialidade é questionada, a transparência deixa de ser gentileza e passa a ser dever.

O Supremo não é a soma de onze vontades individuais. É uma instituição. E instituição se fortalece quando seus membros aceitam limites, submetem decisões controversas ao debate público e preservam a autoridade do conjunto acima da conveniência de cada gabinete.

O cidadão, porém, não acompanha apenas os votos. Acompanha também o espetáculo. Quando um ministro determina o afastamento do diretor-geral da Polícia Federal e outro reverte a medida, o que chega à calçada é a impressão de que o Estado fala com vozes desencontradas. E a pergunta inevitável é: quem controla quem?

É nesse ponto que a compostura deixa de ser virtude decorativa e passa a ser exigência democrática. Não significa silêncio diante do abuso. Significa que a reação ao abuso deve respeitar as formas que dão legitimidade à Justiça.

O cidadão não espera santos. Espera juízes. Não exige concordância, mas divergência dentro das regras. Não pede uma Corte infalível. Pede uma Corte capaz de reconhecer e corrigir seus erros.

- Compostura, senhores! - repetiria o professor. - Não confundam autoridade com imunidade à crítica. Não confundam independência com ausência de controle.

Se a Justiça precisa de reforma, que se faça. Reformar não é desmoralizar. Criticar não é destruir. Exigir limites não é atacar a democracia. É tentar preservá-la.

O velho professor bate a régua na mesa.

- Compostura, senhores!

Talvez a régua deva ser também uma medida: a distância entre o poder e a vaidade; entre a autoridade e o arbítrio; entre o homem que veste a toga e a instituição que ele tem o dever de honrar.

Porque, quando a Justiça perde a compostura, o cidadão perde a sensação de que existe, acima das disputas, um lugar onde a lei ainda é maior que os homens.

E esse lugar precisa continuar existindo.

Compostura, senhores. Não como favor. Como dever.

(*) Médico cirurgião e professor da UFC. Da Academia Cearense de Medicina e da Academia Cearense de Médicos Escritores.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 18/09/2026. Opinião. p.16.


FOLCLORE POLÍTICO: Porandubas 730

Abro a coluna com a solidariedade em Petrópolis.

Sou solidário e não pago

Antônio Carlos Portela era um senhor rico e bom. Dava aval a todo o mundo, em Petrópolis. Gostava de política. Gostava demais. Quando chegava a campanha eleitoral, sua maneira de ajudar os amigos era avalizar empréstimos para as despesas de campanha. Certa eleição, avalizou um título para um candidato a deputado, que perdeu feio e ficou em dificuldades de pagar. O gerente do banco, sabendo que não receberia do devedor, foi ao avalista:

– Senhor Portela, o título está vencido. Preciso que o senhor pague. Como avalista, o senhor é solidário.

– Sou, sim. Sou muito amigo dele e estou inteiramente solidário com ele. Se ele não pagou, é porque tem seus motivos. Porque estou solidário, não pago também.

Fonte: Gaudêncio Torquato (GT Marketing Comunicação).

https://www.migalhas.com.br/coluna/porandubas-politicas/351366/porandubas-n-730



quinta-feira, 17 de setembro de 2026

Francisco Flávio Leitão (1939-2026): uma forte comoção silenciosa

Por José Maria Bonfim de Morais (*)

Professor Dr. Francisco Flávio Leitão (1939-2026) que está nos deixando, causou uma forte comoção silenciosa, mas profunda no seio da sociedade de Fortaleza.

Flavio nasceu com os horizontes escurecidos da II Guerra Mundial. A Igreja Católica Apostólica Romana, último bastião contra a Modernidade erguia na cidade pernambucana do Recife, o III Congresso Eucarístico Nacional. Um dos versos do hino falava ”quem não crê, brasileiro não é”.  Flávio, cidadão de Fé, estendeu ao longo de sua vida um caminho afortunado de luz. O Congresso Eucarístico do Recife foi um marco que conseguiu frear o Iluminismo que desejava toldar os rumos intangíveis de nossa Igreja.

Flávio entrava no Seminário da Prainha, no mesmo ano em que o Professor Eliseu Paglioli iniciava o ensino da Neurocirurgia no Pavilhão São José da Santa Casa de Misericórdia de Porto Alegre. A Santa Casa gaúcha agrupa em torno de sua imensa enseada cerca de 9 hospitais, sendo 7 de alta complexidade. O maior centro médico da América Latina. O incrível do fenômeno gaúcho é que está plêiade de nosocômios, acontece no próprio seio da Casa da Caridade.

O pai poeta e a mãe pianista, Flávio Leitão aprendeu cedo a compreender cedo que a vida se engrandece com o serviço.  Flávio era um ser onipresente sem ser onipotente. Foi presidente da Sobrames, mas não aceitou ser reeleito. Frequentava com assiduidade a Sociedade São Lucas de Médico Católico. Quando era voluntário no serviço médico de Guanacés sempre o procurava. Sempre era bem acolhido.

João Alves, o sanfoneiro da Vila era um excelente músico. Certa feita começou a tropeçar nas palavras. A errar as notas. Depois começou a ter convulsões. Conseguimos realizar exames. A TC do Crânio mostrava uma massa expansiva na região frontal. Mostrei o caso ao Flávio. Ele acolheu o diagnóstico.  Disse que operaria. Porém seria interessante realizar uma ressonância magnética do crânio.

João era pobre. Um pobre agricultor que aprendeu a tocar sanfona. Senti dó do João. Pobre, doente e sem dinheiro para se tratar. Fui ao Dr. Arimatéia Santos e ele pagou a RNM. Pedíamos a Deus pelo pobre João. Pois fizemos a RNM e o tumor havia desaparecido.  Um milagre. Uma graça de Deus. Ary ajudando. Flávio sensível ao drama do João. Foi quando sem que fosse chamado, Deus faz a sua parte. E cura o João. Ditosa lembrança que guardo de Arimatéia Santos, Flávio Leitão e a Vila de Guanacés.

Deus é bom!

(*) Da Academia Cearense de Médicos Escritores, da Sociedade Médica São Lucas e da Sobrames/CE.


A DOR DAS LEMBRANÇAS

Por Rev. Munguba Jr. (*)

Existem dores que não estão no presente, mas continuam vivas como se nunca tivessem passado. Elas não aparecem o tempo todo nem dominam todos os momentos, mas permanecem guardadas em algum lugar da alma, esperando apenas um estímulo para emergirem novamente.

Se ao lembrar de determinado acontecimento você sente dor, desconforto ou uma reação emocional intensa, isso revela algo importante: aquela ferida ainda não cicatrizou completamente. O tempo, por si só, não cura tudo. Em muitos casos, apenas ensina a pessoa a conviver com aquilo que nunca foi verdadeiramente resolvido.

A dor da alma raramente se apresenta de forma clara. Ela assume diferentes formas, muitas vezes mascaradas, dificultando sua identificação. Pode surgir como raiva desproporcional, inveja silenciosa, vergonha, ansiedade constante, medo ou até rejeição a pessoas, lugares e situações ligados a antigas experiências.

Uma pessoa pode perceber uma irritação recorrente ao conviver com alguém da própria família sem compreender sua origem. Em muitos casos, essa emoção está ligada à sensação de ter sido menos valorizada ou comparada de forma injusta. Em outro contexto, alguém que viveu uma experiência traumática pode não reviver conscientemente aquela dor, mas encontrar enorme dificuldade para confiar nas pessoas e construir vínculos afetivos saudáveis.

A mente humana possui mecanismos complexos de proteção. Experiências carregadas de sofrimento podem permanecer armazenadas em níveis inconscientes, influenciando emoções, escolhas e comportamentos sem que a pessoa perceba claramente sua origem.

É nesse ponto que entram os chamados gatilhos emocionais. Um gatilho é qualquer estímulo capaz de ativar uma memória emocional não resolvida. Pode ser uma palavra, um tom de voz, um ambiente ou uma situação específica. Quando isso acontece, a pessoa não reage apenas ao presente, mas também à dor que continua associada àquela lembrança.

Você não precisa continuar vivendo sob a égide da dor das lembranças. É possível ressignificar o passado. A memória permanece, mas deixa de controlar as emoções, as escolhas e o futuro. 

(*) Pastor Munguba Jr. Embaixador Cristão da Oração da Madrugada e Erradicação da Pobreza no Brasil e presidente da Igreja Batista Seven Church.

Fonte: O Povo, 1/08/2026. Opinião. p.14.


quarta-feira, 16 de setembro de 2026

Lançamento do Nº 10 da Revista Anual da ACEMES

A Diretoria da Academia Cearense de Médicos Escritores (ACEMES), durante o Setembro Cultural do Ideal Clube, conduziu o lançamento do Nº 10 da sua revista anual, agora denominada Coletânea Acemes 2026, tendo o jornalista Vicente Alencar como cerimonialista.

O evento aconteceu no Ideal Clube, no Espaço José Telles, em Fortaleza-CE, em 15 de setembro de 2026 (terça-feira) e contou com a expressiva presença de acadêmicos e de muitos convidados, além de familiares do Acad. Flávio Leitão.

A obra, expondo a produção literária dos confrades e de membros honorários dessa arcádia, foi apresentada pelo médico e escritor Luiz Moura Jr, atual Presidente da Acemes, que foi seguido em seu discurso, pelo pronunciamento da professora e escritora Laéria Fontenele, da Academia Cearense de Letras e membro honorária da Acemes, que cuidou de esmiuçar o teor e as características proeminentes da coletânea em lançamento.

Uma sensível homenagem aos acadêmicos Josué de Castro Filho e Flávio Leitão, ilustres membros honoráveis da Acemes, recentemente falecidos, foram lembrados em discurso proferido pelo Acad. José Maria Bonfim de Morais, ilustre vice-presidente do sodalício, sendo sucedido pela fala de agradecimento do neurocirurgião Flávio Leitão Filho.

O confrade Luiz Moura Jr, que presidiu a solenidade, conclamou a audiência a prestar um minuto de silêncio em reverência aos dois imortais que nos deixaram.

Participei dessa obra com três produções literárias: “Haroldo Juaçaba em livros”, “Luiz Carlos da Silva: 25 anos de saudades” e “ICC: importa fazer o bem”.

Dr. Marcelo Gurgel Carlos da Silva

Membro da Sobrames-CE e da Acemes


DE MAU A PIOR

Por Raimundo Padilha (*)

O mundo está passando por aceleradas e profundas transformações. Na área da tecnologia, a velocidade tem sido inimaginável. A inteligência artificial veio para ficar e, com ela, profundas transformações. Igualmente, as energias alternativas já se constituem uma nova realidade.

O mundo avança a passos largos, não obstante a política e as guerras se constituem um retrocesso. Aliás, a política e a corrupção convivem em harmonia, comprometendo o homem nos seus valores morais. A política é praticada com "p" minúsculo, em que predomina o jogo imoral do salve-se quem puder.

No Parlamento, legisla-se em causa própria, buscando as vantagens pessoais. Raros são os honestos. E mais raros ainda são os projetos de qualidade votados em benefício da coletividade. A corrupção com suas mais diversas facetas, enlameando a ética e a moral, inclusive do cardinalato republicano. A justiça é perniciosamente lenta, estimulando a prática dos crimes e da sua impunidade.

Nestas áreas, estamos de mau a pior. E falta homem de estatura moral elevada que dê o grito de basta. Por isso, estamos a caminho do pior. A coletividade já não crê nos homens públicos. E se avizinham as eleições e a ameaça de dias piores.

Não tenho filiação partidária, não obstante tenha tido amizade com os três coronéis Adauto Bezerra, César Cals e, principalmente, Virgílio Távora, que militaram na política do Ceará por alguns anos.

Há um desencontro visível entre os estatutos partidários e a prática dos seus militantes, acho até que eles não leem referidos estatutos. Talvez só o PT guarde alguma identidade, mesmo assim distante das suas origens.

Antes da revolução de 64, os partidos guardavam maior fidelidade. Nesse período, houve o bipartidarismo: Arena e MDB. A Arena era um partido do Governo central, e o MDB se constituía numa frente com diversos matizes, no que se assemelha ao "Centrão" de hoje.

Atualmente funcionam perto de 30 partidos, quase todos de cores desbotadas. Somente dois personagens agrupam a maioria dos eleitores no que são acompanhados pelos demais partidos, inclusive os nanicos.

Dos grandes temas nacionais, quase nenhum é debatido congressoalmente. A coletividade é marginalizada, somente sendo procurada próximo às eleições. Estamos com a nossa democracia ameaçada? Como politizar a população? Existem, todavia, os apaixonados de raiz, num radicalismo entediante. Já não se debatem projetos ou programas de governo. Os xingamentos estão presentes na pauta, traduzindo-se num show de baixarias. Pobre política, desavergonhados políticos, com algumas exceções. A qualidade dos políticos está ladeira abaixo. Como será o nosso amanhã? 

(*) Economista, professor aposentado da UFC e membro da Academia Cearense de Economia.

Fonte: O Povo, de 5/08/26. Opinião. p.15.


terça-feira, 15 de setembro de 2026

.CONVITE: Lançamento do Nº 10 da Revista Anual da Acemes

O presidente da Academia Cearense de Médicos Escritores (Acemes), Dr. Luiz Gonzaga de Moura Jr., convida para o lançamento do Nº 10 da “Coletânia Acemes 2026”, antiga Revista Anual da Acemes.

A Coletânia, de autoria dos membros titulares da Acemes, será apresentada pelo médico e escritor Acad. Luiz Moura, e pela professora e escritora Laéria Fontenele, da Academia Cearense de Letrs e membro honorária da Acemes

Local: Ideal Clube – Av. Monsenhor Tabosa, 1.381, Meireles - Fortaleza

Data: Dia 15 de setembro de 2026 (terça-feira). Horário: 19h30min.

Traje: Esporte fino. Aos acadêmicos indica-se o uso de pelerine e medalha.


 

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