quinta-feira, 1 de outubro de 2026

QUEM AMA, CUIDA

Por Romeu Duarte Junior (*)

Parece letra de canção ou nome de novela, mas é, nada mais, nada menos, do que a pura verdade. Quem ama alguém, um bicho, uma planta, qualquer coisa, cuida dela com afinco. Observo da janela do meu escritório a moça, lata de coca-cola numa mão e um saco plástico na outra, passeando na calçada com seu lulu da Pomerânia, cachorrinho peludo e afetado. Chama-o de "docinho", toma-o nos braços, beija seu nariz e sua boca. De repente, o animal late e fica naquela posição do Napoleão quando perdeu a guerra. A moça se abaixa, recolhe com o saco plástico o 02 que o lulu depositou e joga a lata de refrigerante vazia (ou melhor, seca, como dizem os cearenses) no meu pobre jardim. "Poderia ser pior", alguém poderia dizer. Ah, Dusek, "troque seu cachorro por uma criança pobre"...

Todavia, divago um pouco. Usei todo esse introito para falar de uma situação que me preocupa e acabei fazendo piada de um instantâneo do existir. Se sobra afeto na relação da moça com seu cãozinho, falta a consideração dela para com os outros. Vivemos fechados nos nossos universos-bolhas e não damos sequer a mínima para quem está fora desses territórios. O chato foi o fato dela ver o meu sofrido garden como uma lixeira, indigna de receber os dejetos do seu doguinho de estimação. Esses problemas acontecem em escalas variadas e me têm tirado o sono. Egoístas e cheios de si, cuidamos com antolhos do nosso mundinho e esquecemos que a vida comunitária é toda composta por conexões e liames de todo tipo. Tudo junto e misturado, como dizem os cantores de forró.

Falo do grave descaso com que tratamos o planeta Terra. Um exemplo disso é que não estamos nem aí para o aquecimento global. Continuamos queimando gasolina, cortando árvores e lançando toneladas de gás carbônico na atmosfera. Os negacionistas da ciência parecem ter ganho a batalha final. Nossa nave-mãe já começa a dar mostras do seu aborrecimento e impaciência para conosco. São ou não são claros os indícios desse esgotamento os recentes terremotos havidos na Venezuela, no Japão e nos EUA (Califórnia), todos de elevadas magnitudes e causadores de milhares de mortes? Na semana passada, no miúdo Nepal, na fronteira que faz com a China e o Tibete, o derretimento de uma geleira causou uma avalanche que arrasou cidades inteiras e muitas famílias. Ninguém vê isso?

Do nosso Cearazinho de açúcar, ou de fel, como queiram, chegam-nos notícias, no mínimo, curiosas. Neste célere 2026, que corre a se perder de vista, foram registradas temperaturas de 13,3º C e 18,9º C, respectivamente, em Aiuaba e Poranga, duas urbes representantes do nosso mais que semiárido Inhamuns. É como diria, na sua sertaneja sabedoria, acocorado na rodagem, o nosso matuto: "É o fim das eras". E los niños, o garoto e a garota, virão aquecendo a água do Oceano Pacífico Equatorial a mais de mil neste ano, complicando ainda mais o quadro. Já, já entraremos nos b-r-o bros, tempo de quentura e chuva de caju, que já era para ter começado neste agosto/desgosto, antes da campanha política. Só me resta pedir que Deus nos salve. Muito antes da política e da seca.

(*) Arquiteto e professor da UFC. Sócio do Instituto do Ceará. Colunista de O Povo.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 31/08/26. Vida & Arte. p.2.

quarta-feira, 30 de setembro de 2026

MISSA DE TRIGÉSIMO DIA POR DR. FLÁVIO LEITÃO

Amanhã (1º/10/2026), quinta-feira, às 19h, na Capela de Santa Filomena, do Colégio, situada na Rua Joaquim Nabuco, 176 – Meireles, Fortaleza-CE, será celebrada a Missa de Trigésimo Dia em sufrágio da alma do acadêmico Dr. Francisco Flávio Leitão de Carvalho, ilustre membro titular da Academia Cearense de Medicina.

O médico neurocirurgião Dr. Flávio Leitão faleceu na noite de 1º/09/2026, causando grande tristeza no seu amplo circuito de relacionamento, constituído por familiares, amigos, confrades, colegas e pacientes, derivado dos reconhecidos méritos humanos e profissionais do ilustre confrade recém-falecido.

Acad. Marcelo Gurgel Carlos da Silva

Membro titular da ACM – Cadeira 18


Várzea Alegre tem memória doce

Por Izabel Gurgel (*)

Dona Beta fez tijolo de leite por mais de meio século. O doce surgia à tarde na paisagem, vendido de porta em porta, Dona Beta anunciando o que levava sob a toalhinha. A passagem dela acontecia como uma diária inscrição sonora, visual, a deixar o céu da boca tão aceso quanto o céu da cidade. Voltava para casa depois de vender toda a produção do dia. Imagine comigo o reluzir do sol na bacia de alumínio vazia e, dia após dia, cheia outra vez, por mais de cinco décadas.

Elisabete Ferreira Pinto, a Dona Beta, vai fazer 95 anos em dezembro. Agora permanece em casa, bem cuidada como a feitura do doce, que continua por outras mãos. O tijolo circula, cria novas memórias e, como um livro que não cessa de encontrar leitores, leva Dona Beta a múltiplos destinos sem que ela saia da rede que a embala na sala, de zelo conventual, feito o papel de seda embalando cada um dos doces viajantes.

No mês que finda amanhã com a Festa de Agosto, o papel de seda é vermelho, a cor do santo padroeiro da cidade, São Raimundo Nonato. Várzea Alegre usa uma medida singular ao fazer as duas coisas, a festa e o leite com açúcar se demorando no fogo. O mundo é grande, o Ceará é maior, e Várzea Alegre em estado de Festa de Agosto é imensidão.

O tijolinho de Dona Beta é um festejo portátil, um banquete de brinquedo, uma oração bem doce. Uma mordida e você fica inteiramente presente. É o auge da concretude do saber fazer. A nos lembrar de sabor e saber tão próximos quanto humano e húmus. A fertilidade da terra se celebra de tantos modos quanto possa se manifestar a vida. A cidade às portas do Cariri, no centro-sul do Ceará, louva a fertilidade da várzea onde nasceu.

O nome do santo, No-nato, tem um não-nascido dentro. É protetor dos partos, das parteiras, guarda quem faz nascer, quem ajuda a nascer, tudo o que nasce, pois. Naquela várzea, juntou-se o santo Raimundo ao ímpeto da vida, feito a poesia, de brotar sempre.

Dona Beta vem do sítio Chico, conta Eniete, como é conhecida a filha caçula do casal. Aniete, de batismo, Eliete, Elizete. O pai, Joaquim Pinto, morreu aos 69 anos. Seu Joaquim Ota tocava a casa de jogos e a roça.

Aos 79 anos, na véspera da viagem para Fortaleza para tratamento de saúde, Dona Beta fez doce pela última vez. Por anos, Eniete caçou aquele gosto. "Comprava, comia e não encontrava o sabor do doce de mãe".

Passou a fazer. "Foi muito, muito difícil acertar, mesmo tendo visto mãe a vida inteira fazendo". O ponto de doce é quando se começa a ver o fundo da panela. O de tijolo, é mais apertado. Nos dois, o borbulhar pode causar queimaduras. Aniete usa luvas, manguita de mototaxista, tecido sob o queixo, óculos e, por vezes, máscara. Marcas da feitura, só as da memória da mãe a tirar do ofício o sustento da família. E ficar para sempre nas histórias daquela várzea como uma vida inventada com sabor.

p.s.: o tijolo é uma joia do Ceará: (88) 99908.5713. Embalagens de cerca de 500g e de 1kg. Na casa da antiga rua do Capim, guarda-se a grade para tijolinhos. Tia Eniete a usou para festejar José, único neto de Dona Beta. Se perder o telefone, grave Dona Isla Mônica. Tem nome de ilha e conhece cada ponto de Várzea Alegre que vale um desembarque. São incontáveis.

(*) Jornalista de O Povo.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 30/08/26. Vida & Arte, p.2.


terça-feira, 29 de setembro de 2026

O deus Pã e a Arcádia

Por Pedro Bezerra de Araújo – Pierre Nadie

Queres conhecer a história de um ‘locus amoenus’, onde a paz escondia-se do frenesi da vida urbana e era buscada na harmonia da convivência com a natureza?

Na região montanhosa do Peloponeso, onde rochas escavadas espreitam grandes abismos, vegetação campestre, sem o dossel de florestas, tocada pelo vento que sopra do Mediterrâneo, era ali que Pã se deliciava, ao lado de pastores e ninfas, numa paz bucólica. Um mito nasceu, com o deus da natureza e dos pastores, em idílica harmonia.

Arcádia, uma unidade regional da Grécia, que ainda hoje existe com sua capital Trípoli, é uma região da península do Peloponeso, situação geográfica, que ensejou a mitologia bucólica, exaltando a calmaria e a beleza da natureza, em harmonia com a simplicidade dos pastores. Eles apascentavam seus rebanhos, compondo canções campesinas, nascidas do cenário natural da montanha e encostas, bem distante dos burburinhos e dos contratempos citadinos.

Esta mitologia de uma visão idílica de harmonia da criatura com a natureza, decantada como reino da felicidade, da simplicidade e da paz em comunhão com a natureza e onde os vícios da civilização não punham os pés, ensejou o nascimento do Arcadismo a cultivar tal harmonia, o qual espalhou-se pela Europa, tendo o primeiro movimento literário surgido em Roma, em 1690, a Arcádia de Roma, cujo lema era inutilia truncat (corte as coisas inúteis).

Encontram-se, porém, referências a este mito, nas Bucólicas de Virgílio, com seu gênero pastoril.  Também chamadas Éclogas, escritas acerca de 39 a.C., Virgílio apresenta cenário pastoril com cantos de amores e lamentos, servindo de inspiração ao Arcadismo. Ele, segundo alguns, foi o primeiro latino a criar poesia bucólica, com base na poesia neotérica de Calímaco, cujo ‘sopro’ introduz a Bucólica VI: “Quando eu cantava reis e batalhas, Cíntio [isto é, Apolo] puxou-me a orelha e admoestou-me: ‘Ao pastor, ó Títiro, convém apascentar a gorda ovelha e cantar um poema ligeiro’”.

No Renascimento, também há citações de escritores, como Garcilaso de la Vega que assemelha Arcádia à felicidade e harmonia do Paraíso.

Mas, foi somente nos séculos XVII e XVIII, que se cunhou a nomenclatura Arcadismo, também denominada Setecentismo ou Neoclassicismo e começaram a surgir Arcádias – academias literárias, sendo a segunda a Arcádia Lusitana, fundada em 1756, com seus membros assumindo nomes de pastores, inspirados na antiga Grécia, e estimulando o retorno ao classicismo. Nesses clubes, poetas e intelectuais eram assíduos em ler obras, cultuar literatura clássica.

Entre várias obras marcantes, cita-se Marília de Dirceu de Tomás Antônio Gonzaga, sob o pseudônimo de Dirceu – publicado nos anos de 1792, 1799, 1812 e, no Brasil, destaca-se o mineiro e inconfidente Cláudio Manuel da Costa (1729–1789), sob pseudônimo Glauceste Satúrnio, que marcou o Arcadismo no Brasil, com Obras Poéticas (1768). 

E qual a etimologia de Arcádia?

Arcádia deriva do grego Αρκαδία, (no latim Arcas, Arcadis) e remete ao latim ‘fugere urbem’ (fugir da cidade). O termo pode também ter relação ao semideus Arcas, filho de Zeus e de sua amante, a ninfa Calisto. Arcas remete a Arktos, com a significação de ‘urso, em grego. Diz a mitologia que a ninfa Calisto, mãe de Arcas, teria sido transformada em uma ursa por ciúme de Hera, esposa de Zeus, e, por isso, seu filho levou o nome que significa “urso”. Hermes, então, salva a criança, por ordem de Zeus, o qual, depois, teria transformado sua mãe na constelação de Ursa Maior e Arcas na constelação de Ursa Menor.

Em resumo, pode-se dizer que o Arcadismo se baseia, nos postulados:

1. Inutilia truncat. Este lema da Arcádia Romana colimava o objetivo maior: extirpar todo o excesso inútil, que, mais tarde, inspirou o neoclassicismo a romper com o requintado do estilo barroco;

2. Fugere urbem. Deixar o bulício e a corrupção da cidade para encontrar o ‘locus amoenus’: inocência e conexão com a vida campestre, refúgio de harmonia.

3. Carpe diem. Desfrutar o hoje, mergulhar na realidade que se está vivendo, nas circunstâncias, sem se inquietar demasiado, nem se angustiar com o amanhã.

Devido ao desejo de uma vida rústica e bucólica, poetas renascentistas tornaram a Arcádia um mito literário: um lugar utópico de inocência, simplicidade, amor e prazeres simples.

Um abençoado domingo, com as bênçãos de Deus!!

(*) Pediatra e professor da Uece aposentado. Enviado por WhatsApp em 5/07/26.


segunda-feira, 28 de setembro de 2026

Autores do Ceará são semifinalistas do Prêmio Oceanos 2026

Por Eloisa Maia Vidal (*)

Resumo

Dois escritores do Ceará e uma autora radicada no Estado representam a região entre os semifinalistas do Prêmio Oceanos 2026;

Na categoria prosa, Moacir Fio foi indicado pelo romance "Aranha Movediça"; na categoria poesia, concorrem Dalgo Silva com "Matriarca Cidade" e Nina Rizzi com "Diáspora não é lar";

Os três representantes integram a lista de 54 semifinalistas, que foram selecionados a partir de mais de 3 mil obras inscritas;

Considerado um dos prêmios literários mais importantes da comunidade lusófona, o Oceanos reúne títulos de países como Brasil, Portugal, Moçambique e Angola;

A lista de semifinalistas também conta com nomes consagrados da literatura, como Milton Hatoum, Aline Bei, Micheliny Verunschk e Noemi Jaffe.

Dois escritores cearenses e uma autora radicada no Ceará representam o Brasil e a Terra da Luz no Prêmio Oceanos de Literatura em Língua Portuguesa. O trio faz parte dos 54 semifinalistas da edição de 2026, anunciados na noite de terça-feira, 25, entre mais de 3 mil obras inscritas.

Na prosa, Moacir Fio foi indicado pelo romance “Aranha Movediça” (Editora Moinhos), enquanto “Matriarca Cidade” (Editora 7Letras), de Dalgo Silva, e “Diáspora não é lar” (Editora Pallas), de Nina Rizzi, estão na categoria poesia.

A premiação, considerada uma das mais importantes entre os países de língua portuguesa, reúne títulos do Brasil, Portugal, Moçambique e Angola, com 26 representantes na prosa e 28 na poesia. A próxima etapa, que selecionará os livros para a final, acontece em outubro.

Além dos cearenses, nomes como Aline Bei, Micheliny Verunschk, Milton Hatoum e Noemi Jaffe entraram na listagem de semifinalistas.

Semifinalistas do Ceará comentam indicação ao Prêmio Oceanos 2026

Para Moacir Fio, a indicação de “Aranha Movediça” é um “tipo particular e especial de alegria”, que oferece esperança em relação ao mercado editorial e as “fronteiras invisíveis” que ainda cercam a região Nordeste.

“Não teria como essa história existir em outro lugar, sabe? Penso muito naquela imagem do movimento manguebeat, da ‘antena parabólica enfiada na lama’, essa ideia de captar e dialogar com as linguagens do mundo sem nunca tirar os pés deste nosso chão”, relata.

Ambientar o romance no próprio Ceará — “um estranho romance de horror”, como descreve Moacir — é uma forma de entender melhor todo o processo de construção do “ser cearense”.

“A gente tende a se prender a uma imagem solar, risonha, que sim, faz parte da nossa identidade, mas existe todo um submundo, um passado de violências, de assombros, como eu gosto de falar, e de contracultura e resistência; tudo isso sendo esquecido”, ressalta.

Essa relação, descrita como “paradoxal”, é o que impulsiona a trama. Na obra, a morte misteriosa de Jota do Lixo, uma lenda do movimento punk em Fortaleza, é o fio condutor de um podcast investigativo, 40 anos depois, na tentativa de desvendar o crime.

Já Nina Rizzi, tradutora e escritora que escolheu a capital cearense como casa, chega na categoria poesia com “Diáspora não é lar”.

“Essa conquista celebra não apenas a qualidade estética e a profundidade do livro, mas também a relevância das questões que coloco no mundo através da palavra. Ver minha obra nesse lugar é motivo de muito orgulho”, diz Rizzi. “Um viva bem grande à literatura, em especial a cearense”.

Quem também compartilha o espaço poético é Dalgo Silva, com “Matriarca Cidade”. O maranguapense já chegou ao posto de finalista no Prêmio Jabuti 2024, na categoria "Escritor Estreante - Poesia".

"Talvez, a ficha não tenha caído completamente ainda por eu ter sempre acompanhado essa premiação literária e saber de sua grandeza. Por figurar na mesma lista que Adélia Prado, por exemplo. Não tem como não ficar boquiaberto", comenta Dalgo.

O autor explica que desejava escrever um livro de poesia sobre existências "aparentemente pequeninas", mas que pulsassem.

"Eu acredito nas palavras de minha mãe, na dos meus amigos e amigas, na das crianças, na dos bichos, na das plantas, nas palavras de quem olha a vida dando rasteira. A gente precisa aprender a dar as rasteiras de volta e eu aprendi a fazer isso com as palavras", relata.

Uma das maiores honras é poder dizer que sua literatura é cearense, "que ela come fruta tirada do pé e toma café só para dar dois dedinhos de prosa e, assim, consegue adiar o fim do mundo por mais um dia".

(*) Professora da Uece. Doutora em Educação.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 28/08/26. Opinião, p.18.


domingo, 27 de setembro de 2026

SANTAS CHAGAS: Fonte de Misericórdia e Vida

Por Pe. Reginaldo Manzotti (*)

No mês de setembro somos convidados a fixar os nossos olhos e o nosso coração no mistério mais profundo do amor de Deus, a nossa devoção à Jesus das Santas Chagas.

Quando olhamos para o Crucificado, ou quando contemplamos a imagem de Jesus Ressuscitado que traz em Suas mãos, pés e lado os sinais da Paixão, nós não estamos olhando para marcas de derrota. As Chagas de Jesus não são cicatrizes de uma humilhação passada; elas são as marcas vitoriosas da nossa libertação, as fontes abertas da Misericórdia Divina e os canais por onde corre a cura para nossas próprias feridas.

Vivemos em um mundo marcado por profundas feridas. Feridas na alma, feridas na mente, traumas que sangram em segredo, marcas de rejeição, de abandono, de traição e de pecado. Quantos de nós não trazemos cicatrizes dolorosas que ninguém vê? Tentamos disfarçar sob as máscaras das aparências, mas, por dentro, a alma continua machucada.

Diante do nosso sofrimento, Deus não permaneceu indiferente, assistindo à nossa dor do alto dos céus. O profeta Isaías, séculos antes de Cristo, já profetizava o mistério da Redenção, que cito continuamente: "Ele foi castigado por nossos crimes, e esmagado por nossas iniquidades; o castigo que nos traz a paz caiu sobre ele, e por suas chagas fomos curados." (Is 53, 5)

Na Cruz, Jesus assumiu em Seu próprio Corpo a dureza dos nossos pecados. Os pregos cravados em Suas mãos puras e em Seus pés santíssimos, e, finalmente, a lança que abriu o Seu Coração, tudo isso foi o preço pago para carregar em Si a culpa dos nossos pecados e das nossas dores.

A Tradição da Igreja sempre encontrou nas Santas Chagas um refúgio seguro contra os ataques do inimigo e contra as desesperanças da vida. Os Santos Padres e os grandes místicos da Igreja compreenderam que entrar nas chagas de Jesus é o caminho mais curto para a santidade.

O Catecismo da Igreja Católica ilumina de forma teológica esse mistério, mostrando que o sacrifício de Cristo nas chagas é a expressão máxima da Sua liberdade e do Seu amor por nós: "Jesus conheceu-nos e amou-nos a todos durante sua Vida, sua Agonia e Paixão e entregou-se por todos e cada um de nós: "O Filho de Deus amou-me e entregou-se por mim" (Gl 2,20). Amou-nos a todos comum coração humano. Por esta razão, o sagrado Coração de Jesus, traspassado por nossos pecados e para a nossa salvação." (CIC 478)

E a Tradição vai ainda mais longe. Por que Jesus, ao ressuscitar com um corpo glorioso, capaz de atravessar portas, escolheu manter as Suas chagas? Ele poderia ter ressuscitado com o corpo perfeitamente sem marcas. Mas Ele fez questão de mantê-las. Por quê?

Primeiro, para provar a Sua identidade: Para mostrar aos discípulos assustados que Aquele que ressuscitou era o mesmo que havia sido crucificado por amor.

Segundo, para interceder por nós diante do Pai: A Tradição nos ensina que, no Céu, Jesus apresenta continuamente ao Pai as Suas gloriosas chagas como uma oração perene em nosso favor. Quando o Pai olha para o Filho, Ele vê as marcas do preço que foi pago por cada um de nós.

Lembremo-nos do relato no Evangelho de São João, os discípulos estavam trancados no cenáculo por medo. Jesus aparece, deseja a paz e mostra as mãos e o lado. Mas Tomé não estava lá. Quando os outros contam, Tomé dúvida: "Se eu não vir a marca dos pregos em suas mãos, se não colocar o meu dedo no lugar dos pregos e não introduzir a minha mão no seu lado, não acreditarei." (Jo 20,24-25)

Oito dias depois, Jesus volta. Ele não vai para condenar a incredulidade de Tomé, mas vai diretamente ao encontro da sua ferida espiritual. Jesus olha para Tomé e diz: "Põe o teu dedo aqui e olha as minhas mãos. Estende a tua mão e coloca-a no meu lado. E não sejas incrédulo, mas fiel." (Jo 20,27)

Ao tocar nas Chagas de Jesus, Tomé não tocou apenas em carne ressuscitada; ele tocou na própria essência de Deus. O homem que duvidava caiu de joelhos e pronunciou a profissão de fé mais bela e direta de todo o Novo Testamento: "Meu Senhor e meu Deus!" (Jo 20,28).

As Chagas de Jesus têm o poder de transformar a dúvida em fé, o desespero em certeza, a morte em vida. Se realmente tocamos as Chagas de Cristo pela oração, pela adoração e, sobretudo, no Sacramento da Reconciliação (Confissão) e da Eucaristia, a nossa incredulidade cai por terra.

Quando o pecado pesar, quando os pensamentos de autodestruição, de desespero ou de impureza assaltarem a sua mente, faça o que os santos ensinam: "Senhor Jesus, esconde-me dentro das Vossas Santas Chagas". Nelas nenhum mal tem poder. Elas são a nossa fortaleza inviolável.

Meus irmãos, as Santas Chagas de Jesus estão abertas e reluzentes de glória eternamente. Elas não exigem de nós perfeição para entrar; elas exigem apenas a nossa pequenez e o nosso desejo de cura.

Acolhamos hoje essa graça. Que cada Chaga aberta seja para nós fonte de misericórdia, e que delas jorre o amor que nos restaura.

Deus abençoe e o Senhor Jesus das Santas Chagas os proteja!

(*) Fundador e presidente da Associação Evangelizar é Preciso e pároco reitor do Santuário Nossa Senhora de Guadalupe, em Curitiba (PR).

Fonte: O Povo, de 8/08/2026. Opinião. p.14.

sábado, 26 de setembro de 2026

Causo Médico: ROJO X ROXO

Esse fato aconteceu em uma escola médica, no final dos anos sessenta do século XX. Para acomodar um novo e improvisado professor, talvez admitido por injunções corporativas, acabou o dito cujo por assumir um cargo, como auxiliar de Bioquímica, cabendo-lhe, inicialmente, ministrar aulas práticas aos acadêmicos.

Em uma das práticas, que consistia em demonstrar a presença de fenolftaleína, o professor seguiu, passo a passo, os procedimentos estabelecidos, e pontificou:

– Agora, atentem para o nosso tubo de ensaio. É só aguardar alguns segundos, que o líquido nele contido ficará roxo, confirmando a presença da fenolftaleína.

Passado algum tempo, a substância ficou vermelha, em franca discordância do que o médico enunciara.

– Acho que cometi algum equívoco nas reações. Vamos fazer de novo, e bem devagar, pra não errar. Tá certo, turma!?

– Sim, professor – responderam, em uníssono, os poucos alunos presentes.

A prática foi reiniciada, observando, pausadamente, a sequência das reações, até o docente sentenciar:

– Pronto, meninos! Fizemos tudo direitinho! Esperem um pouquinho que vai ficar bem roxo.

Para decepção de todos, o líquido tomou uma cor vermelha rutilante. O professor pôs uma mão na cabeça, enquanto a outra sustentava o livro, e protesta:

– Não é possível! Eu segui tudo o que estava escrito no livro. Era pra dar roxo. A não ser que eu tenha falhado no manuseio dos produtos.

Os alunos continuavam sem entender o que se passava, e um deles indagou:

– Professor será que os produtos utilizados estão na validade?

– Sim, eles foram comprados na semana passada. Esse kit é novinho! Vamos fazer de outro modo. Dessa vez, eu cuidarei só da leitura e um de vocês vai fazer as reações. Alguém se habilita?

De imediato, um acadêmico apontou para uma colega e sugeriu:

– Professor, a Terezinha tem curso de técnica laboratorial e trabalha em um laboratório de análises clínicas. Acho que é a mais talhada para essa tarefa.

E assim foi feito: o mestre ditava e a experiente técnica realizava os procedimentos. Conclusa a operação, o tão esperado roxo não vingou; de novo, lá estava o vermelho das vezes anteriores.

O docente, mais do que intrigado com o resultado, ficou furioso e atacou:

– Este livro está redondamente errado! Aqui diz claramente que o resultado é roxo! No próximo semestre não vamos mais adotar essa porcaria!

Foi então que um dos estudantes pediu para ver a obra, cuja página com a citada prática estava marcada com um clip e o resultado final devidamente grifado pelo professor.

O aluno não se conteve e caiu na gargalhada ao se deparar que a obra estava escrita em castelhano e o desfecho grifado era: ROJO, um falso amigo para os lusófonos, que se traduz por vermelho na nossa “última flor do Lácio, inculta e bela”.

De fato, nunca o resultado poderia ser roxo ou violeta. Quem ficou roxo de vergonha foi o infeliz e desqualificado mestre, um desconhecedor do “falso amigo” do idioma mais falado na Espanha e na América Latina.

Marcelo Gurgel Carlos da Silva

Da Sobrames/CE e da Academia Cearense de Médicos Escritores

Fonte: SILVA, Marcelo Gurgel Carlos da. Medicina, meu humor! Contando causos médicos. 2.ed. Fortaleza: Edição do Autor, 2022. 144p. p.29-30.

* Republicado. In: Revista AMC (Associação Médica Cearense). Abril de 2025 - Edição n.43. p. 29-30 (online).


 

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