sábado, 18 de julho de 2026

Amizade abusiva Parte 2/2

Por Pedro Bezerra de Araújo – Pierre Nadie

- Amizade possessiva e pegajosa. 

Na verdade, um conflito interior de carências e de baixa autoestima, busca, incessantemente, uma tábua de garantir alguma segurança, uma vez que a instabilidade emocional cobra, de maneira possessiva, tornando-se insana obsessão. O ciúme enverga o rigor do bastão do controle, com investidas contra até mesmo um sorriso inocente. Este tipo doentio de amizade não abraça, prende; não dialoga, impõe; não confia, sufoca. Atitudes, que tentam isolar até mesmo do círculo de familiares. Trata-se de uma amizade, que consome e que pode chegar a níveis, altamente, perigosos. Características, que apontam tal amizade: chantagem emocional, invasão de privacidade, vitimização e outras.

- Amizade subserviente e dependente. Esta modalidade também é disfuncional. Enquanto uma parte desdobra-se em servir e ser agradável, a outra parte não reage com cumplicidade, ou seja, não há mutualidade. Há uma carência e uma dependência emocional, com forte medo de perda, se não permanecer, irrestritamente, ‘servil’; e uma ansiedade angustiante termina por uma anulação pessoal, cedendo a atitudes abusivas. Cedo ou tarde, vem o desgaste pelo desequilíbrio ‘inter pares’.

- Amizade dominadora. Pior que ‘um chato de galocha’, esta amizade tóxica é própria de pessoas autossuficientes, egoístas e orgulhosas, com laivos de narcisismo. Determina regras e cobra atitudes, chegando a impor sua vontade, seus valores e suas opiniões. Aponta defeitos, estabelece limites e trata a outra parte como ‘tabula rasa’. Não há espaço para diálogo, nem para críticas.

- Amizade interesseira. Enquanto ferve a panela, prospera a amizade. Na verdade, não há traços vinculantes de afeto, nem dança de empatia. O móvel deste relacionamento é a conveniência para um ou para ambos. A aproximação está sujeita a necessidades, ou seja, quando surgem problemas, sendo que, na maioria das vezes, também não há reciprocidade, se é a outra parte que está precisando de apoio.

- Amizade predadora. Este modal pode-se dizer que é o extremismo do anterior. Os motivos que levam a este tipo são diversos, inclusive a vingança e a inveja, no sentido de falsear sentimentos para extrair vantagens excessivas, que minam bens, segurança e podem anular sonhos e conquistas pessoais. A máscara de empatia busca barganhar confiança da outra parte, com o objetivo de manipular e explorar: dourar a pílula não transforma em ouro ouropel.

O predador intenta anda isolar a pessoa de amigos e de familiares, que possam denunciar a exploração.

Nada, portanto, mais triste e deprimente, quando toda uma afeição amigável é contrastada pela hipocrisia e traição de quem se tinha a certeza de que fluía uma verdadeira amizade e sincera.

Nossa contingência, sabe-se, exibe uma caixinha de surpresas, que orquestram nossas fragilidades, mas norteiam também nossas qualidades, ainda que idiossincrasias internas possam ocultar algumas ou, infelizmente, quase todas. E tudo isso tem um balizamento pelo nosso livre arbítrio, o qual, por sua vez, atende aos alicerces que fundamos no nosso ser e nos torna responsáveis pela amizade que cativamos, como diz o Pequeno Príncipe.

Enfim, a amizade precisa aprender que a atitude do amigo deve ser mais compreensível do que repreensível, porém sem se furtar, tampouco omitir-se em momentos necessários. E, mais do que isso, a prudência deve conjugar-se com a sabedoria, ao compreender que cultivar uma amizade é tomar consciência de que neste jardim, não florescem rosas sem espinhos e que os espinhos falam da humildade e simplicidade, ao lado das rosas, que exalam prazer e alegria. Sem essa consciência assumida, não é de estranhar que se pode perder num minuto uma amizade de muitos anos, talvez, sem mesmo dar tempo de ouvir o ‘canto do cisne’, porque a hora não demora.

Dignidade humilhada e ferida, triste amizade perdida.

E, no caminho, que não se ouça nenhum aboio, porque a toada é do apoio afetuoso, que anda ao lado.

Uma saudável quinta-feira, com as bênçãos de Deus e a proteção de Maria!!!

(*) Pediatra e professor da Uece aposentado. Enviado por WhatsApp em 25/06/26.


Amizade abusiva Parte 1/2

Por Pedro Bezerra de Araújo – Pierre Nadie

- Alguma vez, passou-lhe pela mente o termo ‘amizade de araque’?

- Alguma vez, conheceu uma decepção de amizade?

- Você já ouviu: quem tem um amigo ‘assim’ não precisa de inimigo?

Relacionamentos humanos não têm bola de cristal, nem são imunes às fragilidades e instabilidades da natureza humana. Não há um padrão, nem existe uma receita. São uma construção, cuja beleza e segurança provêm de seus fundamentos, da pedra de base.

Antes do uso da razão, somos movidos por emoções, cuja coordenação nos vem na aprendizagem, que nos é dada, inicialmente, no colo materno e no convívio familiar. É de pequeno que se começa a forjar o caráter, que nos marcará tanto relacionamentos intrapessoais como amizades e amores.

Somos todos seres de relacionamento, no tecido social ao qual nos associamos, como próprio de nossa natureza, mesmo antes de nosso nascimento. E, a partir de nosso epicentro, criamos uma interatividade mútua e vamos aprendendo e vivenciando papéis que o convívio social exige de nós. Nossa individualidade nos caracteriza e, com ela e, através dela, estabelecemos relacionamentos de diversos matizes.

Existem as amizades serenas, onde a mutualidade de respeito e afeto sela a dignidade entre os amigos. Este modal traz o sinete das individualidades envolvidas e busca superar os mal-estares que, por certo, surgirão: o melhor amigo, um dia, magoará o outro e é, nessa situação, que o valor da amizade se manifesta, no diálogo amistoso e no apoio da correção honrosa ou no desvalor de uma acusação impiedosa sem diálogo e numa penalidade, estranhamente, desonrosa; e, num minuto, pode-se esvair uma amizade, cujo terreno parecia fértil e ora desnuda-se, mostrando-se pedregoso: ‘amicus certus in re incerta cernitur’.

Há amizades, que, de fato, não mereciam ser assim denominadas. São as ditas amizades abusivas ou tóxicas, aquelas, cujo foco não é o bem-estar de ambas as partes, ou quando interesses outros, que não empáticos, dominam uma das partes. Eis algumas dentre muitas outras tipologias:

--- Continua

Uma boa quarta-feira, com as bênçãos de Deus!!!

(*) Pediatra e professor da Uece aposentado. Enviado por WhatsApp em 25/06/26.


sexta-feira, 17 de julho de 2026

O que pensas? Em que estás a pensar? Como estás pensando?

Por Pedro Bezerra de Araújo – Pierre Nadie

Pensar é uma das características basilares da criatura humana. Pensar nos molda ou nós o moldamos?

Muitas ideias, opiniões, considerações passam pela nossa mente, todavia, há algumas em que nos fixamos, sobretudo, no que se refere a problemas e situações embaraçosas, tarefas pendentes, medos e inseguranças. E, a partir daí, filtramos a modalidade de ‘em que’ estamos a pensar e escolhemos o ‘como’ estamos a pensar. É algo instantâneo, em resposta às tantas investidas experienciais, que têm formatado nosso portfólio mental estrutural.

Os modais de ‘como’ pensar desencadeiam reações tanto gerais como direcionadas a certos órgãos, influenciando nosso bem-estar, nossos relacionamentos, e nosso modus vivendi. Pensar demais (overthinking) nem sempre é danoso, desde que favoreça seu mapeamento e estabeleça uma análise, em vista de uma tomada de decisão, numa ligação lógica epistemológico-cognitiva. Se o período fica demasiado longo, ou este ou aquele pensar fica se repetindo, sem uma perspectiva de solução, o pensar assume outros ares, com implicâncias nocivas.

Podemos imaginar um pensar ruminante automático e descontrolado, que não produz soluções, senão induz mais pensares conflitivos, não evolui e fecha-se sem perspectivas solucionáticas. O tempo importa, sim, para a organização do contexto, avaliação de estratégias e não proceder de maneira desorganizada, aleatória e desequilibrada. Como nos ensina o provérbio latino, aqui cabe também o ’in médio virtus’, ou seja, um tempo médio suficiente para identificar as causas, verificar inconsistências e rever a práxis de princípios e valores.

O pensar, que se fecha num ciclo recorrente, cria uma zona morta, desconecta-se da realidade e raquitiza o processo, tanto pessoal, quanto social, tanto perquiritório quanto científico. Há, todavia, que distinguir reiteração automática de repetição programada, aquela geratriz de ansiedades, sofrimentos e, mesmo, depressão, e esta, a fim de permitir melhor análise e ensejar decisão sensata e eficaz.

É notório que há insinuações emocionais, dependentes do contexto fático, seja traumático ou experiências dolorosas e perturbadoras. Tais situações necessitam de um ‘eu’ moderador que impeça assalto à nossa mente, provocando uma disfunção existencial, que distorce a nossa condução insubstituível de nossa vida. Uma reflexão, portanto, de nossa existência permite-nos conhecer os meandros do rio que somos e sinaliza, como afirma Mário Sérgio Cortella, a busca de maturidade.

Ao pensar impõe-se significar o próprio pensar.

Pensar nos molda ou nós o moldamos?

Uma profícua e aprazível segunda-feira, com as bênçãos de Deus!!!

(*) Pediatra e professor da Uece aposentado. Enviado por WhatsApp em 10/06/26.


Crônica: A doação de ovos!... e outros causos

 A doação de ovos

Eu sei que vocês vão dizer que é tudo mentira e que não pode ser... E muitos dirão, certamente: ah, ele é imoral, escatológico, inimigo da moral e dos bons costumes. Vamos lá então, data vênia. Ele, de quem falo, teve 18 filhos, dos quatro casamentos perpetrados. Se dizia "menineiro". Trabalhou pouco no curso dos 78 anos de vida. Em verdade, Josino Guaru estava mais - como dizia uma das ex-sogras - para um procriador, "tirador de raça" que um pai por convicção. Aposentou-se por idade.

A vista cansada - não enxergava uma unha adiante; as oiças em petição de miséria - ouvindo menos do que era preciso para figurar entre os fofoqueiros maiores da cidade. Fumou muito, bebeu uma ruma, frescou feito um condenado. O físico já não era esses balaios todos - sarcopenia braba, "só o oco e os caboré cantando dentro". Mas era um cocriador de categoria incansável, incurável e inflamável que era.

Em certo encontro de família, assuntava-se a doação de órgãos. O que cada um ali tinha para doar? Que órgão poderia servir a quem mais precisasse? E Josino, em especial, o que teria a oferecer a quem carente de vida estivesse?

Eu doo as córneas, mas Guaru, coisa nenhuma! Quengado como tá, bulhufas pra doar - opinou o primo Vandir.

Nem que eu precisasse do fígado dele, pela cachaça que tomou, eu aceitava! Valei-me! - despachou Braguinha, tio por parte de vizinha.

Eu sempre falei: lascou-se, Zé (José Josino) com esse cigarro! - vituperava Seu Nanan.

Guaru, ouvindo aqueles insultos todos sem poder reagir, pois trazia no corpo "distiorado" as marcas de uma verdade deverasmente pronunciada, mas no fundo acreditava no potencial de botar menino no mundo. Quando a ex-sogra Valdete pronunciou-se, vinagrosa, dizendo que o homem já estava morto, aí ele criou ânimo. E disparou:

Pois eu tenho o que doar pra ti, Biluca!

Só se for as tuas ventas, bicho véi sem futuro!

- É? Quer saber?

- Diz o que tem pra "adoar", fulerage!!!

Meuzóvo!!!

Quis dizer "até a ´próxima"!

Os amigos do 1º científico-manhã do saudoso Colégio Júlia Jorge só se encontravam em velório, parecia brincadeira. Tinha já 50 anos que era assim. Quando se conheceram, naquela que foi uma das turmas que mais doutores deram a UFC, tinham entre 15 e 16 anos. Morreu um, lá estava o magote restante a prantear o de cujus da hora e a marcar, por pura mania, futuros encontros em bar, em aniversário, em estádio, em quermesse... Encontros que, positivamente, nunca existiram, a não ser ali.

Na derradeira cerimônia fúnebre - partia para a outra o colega agrônomo Zé Prata, o estimado Mozinho, um dos mais jovens da referida turma do 1º científico "do Júlia", apresentando as despedidas no portão do complexo velatório famoso, falou assim, porquanto já se tornara praxe entre eles:

- Bem amigo, vou-me já! E até o próximo!

Solidariedade é isso!

Confesso que rompante de cooperação humana baseada na empatia eu nunca virá até então. Senhor de 87 anos, na academia do condomínio, caiu exausto na esteira. Dois colegas ao lado (um na bicicleta ergométrica e o outro no remo indoor) interromperam seus exercícios, correram até o velhinho exausto e o colocaram braços, carregando-o até o cronômetro zerar. Emocionante!

Fonte: O POVO, de 19/06/2026. Coluna “Crônicas”, de Tarcísio Matos. p.2.

quinta-feira, 16 de julho de 2026

VOLTANDO À (IN)TOLERÂNCIA

 Por Vladimir Spinelli Chagas (*)

Em 2020 estreei nessas páginas com um simbólico artigo "No Reino da Tolerância", por sentir que se agravava, cada vez mais, a falta de diálogo, o desrespeito às opiniões alheias, a falta de reflexão. Então, propunha que eu e você nos tornássemos mais tolerantes para debater fatos e não irmos ampliando as discussões como uma guerra.

Voltei ao tema mais quatro ou cinco vezes, sempre com a perspectiva de que, conseguindo adesão de meia dúzia de pessoas, já teríamos um bom início para que a convivência se tornasse mais amigável, mesmo entre aqueles que defendem ideologicamente campos opostos. Afinal, em que parte do Livro da Vida temos alguma lei que estabeleça a Verdade Absoluta? Não conheço. Pelo contrário, todo ele sempre se dedica a destacar que o amor ao próximo é uma regra pétrea.

Ora, como amar sendo intolerante? Os momentos de mais tensão se deram nos processos eleitorais que vivenciamos desde então. Agora mesmo, começamos uma nova refrega, na qual veremos menos propostas reais em benefício do povo e mais agressões e violência. Ora, nós eleitores seremos, mais uma vez, vítimas de nossas ações e omissões, aceitando esse quadro de discussões estéreis em vez de exigirmos, como é de nosso direito, que o debate vá para o campo de ações públicas?

Já perdemos demais com um Legislativo que não honra o passado de tantos cidadãos até hoje respeitados por suas posições como verdadeiros representantes do povo, que lhe dá os votos. O poder executivo, em todos os níveis, também não é exemplo de real preocupação com a população, que também os elegeu e tem visto um distanciamento das poucas promessas de campanha que a beneficiaria.

Em relação ao Judiciário, as notícias que são estampadas diuturnamente também ferem de morte o direito do cidadão. Nos níveis superiores, não foram eles eleitos, mas escolhidos por quem o foi, com um compromisso assumido de pugnar pela Justiça, pela Democracia e pela defesa intransigente da Constituição, de que são os guardiões.

"Tolerância, mesmo que utópica, continua sendo uma ideia que defendo com veemência. E uma reflexão que proponho mais uma vez." E uma vez mais.

(*) Professor aposentado da Uece, membro da Academia Cearense de Administração (Acad) e conselheiro do CRA-CE. Provedor da Santa Casa da Misericórdia de Fortaleza.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 15/06/26. Opinião. p.18.

PROFESSORES SÃO IMPORTANTES

Por Sofia Lerche Vieira (*)

Professores são importantes. Quanto a isso, não há discordância. No entanto, não é de conhecimento geral que eles representam "o recurso mais significativo das escolas" e são "fundamentais para os esforços de aprimoramento dessas instituições", como destaca relatório da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) elaborado há duas décadas (2006, p. 7).

Na sociedade do conhecimento, o domínio de habilidades humanas e técnicas constitui o principal ativo de um país, como demonstram experiências de nações asiáticas, que reverteram sua história por meio da educação.

O Brasil parece caminhar na contramão das evidências sobre valorização docente. Segundo o Relatório Global Teacher Status Index (GTSI, 2018), ocupamos a última posição (35º lugar) no que diz respeito ao status social dos professores.

Embora tenha sido aprovada uma lei de piso salarial nacional dos professores da educação básica (Lei n° 11.738, de 16 de julho de 2008), o número de docentes concursados vem cedendo espaço a professores temporários.

Artigo recente sobre indicadores docentes nos 19 municípios da Região Metropolitana de Fortaleza (RMF) confirma essa tendência. Na última década, o quantitativo de professores com vínculo permanente (concursados) diminuiu em relação àqueles com vínculo provisório (temporários).

Considerando o conjunto dos municípios analisados, os temporários representavam 29% da força de trabalho docente em 2014 e passaram a corresponder a 44% em 2024, sinalizando um processo de precarização da profissão.

É verdade que a formação docente na região, medida pelo indicador Adequação da Formação Docente (AFD), apresentou melhora significativa. Ainda assim, a maioria dos municípios enfrenta desafios para assegurar formação adequada a seus professores, sobretudo nos anos finais do ensino fundamental.

Essas e outras evidências revelam que avançar na reflexão sobre os complexos problemas da docência requer uma compreensão cuidadosa do que mostram os números. (Observação: O artigo é de Eloísa Maia Vidal, em coautoria com Sofia Lerche Vieira e Rafael Rabelo Cavalcanti). (2.097 caracteres com espaço)

(*) Professora do Programa de Pós-Graduação em Educação da Uece e consultora da FGV-RJ.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 15/06/26. Opinião. p.18.

quarta-feira, 15 de julho de 2026

MAHLER E A PAIXÃO PELA TRANSITORIEDADE

 Por Carlos Roberto Martins Rodrigues Sobrinho (Doutor Cabeto) (*)

Há um momento na vida em que passamos a revisitar o passado.

Não se trata de saudosismo, tampouco de arrependimento. É algo profundo e silencioso. O ato de reviver nossas memórias parece fazer parte de uma preparação para a passagem. Inicia-se de uma forma quase imperceptível, como um reencontro marcado desde sempre pela própria condição humana.

Assim como as células carregam em si a programação da morte, a memória parece organizar uma despedida previsível. Em instantes, quando a vigilância da razão relaxa por um breve momento, imagens do passado retornam com insistência. Surgem sem propósito aparente, afastando-nos da realidade imediata para nos conduzir a uma espécie de lucidez superior.

Talvez nenhuma obra musical tenha traduzido essa trajetória com tanta profundidade quanto a Sinfonia "Ressurreição", de Mahler. Nela, o compositor percorre os caminhos da existência humana desde o confronto inicial com a morte até a possibilidade de uma transformação espiritual.

Nos movimentos iniciais, os "Ritos Fúnebres" apresentam a inevitabilidade do fim. Em seguida, emergem lembranças de um olhar nostálgico para os tempos de inocência, beleza e paz.

Depois, Mahler nos conduz a percepção da futilidade de muitas das nossas inquietações. A vida aparece como um movimento circular, onde os esforços frequentemente carecem de sentido duradouro. Mas a obra se completa com a "Luz Primordial". É o instante em que a alma aspira à redenção. Entre sonoridades quase apocalípticas e momentos de delicadeza, a música aponta para uma transfiguração. A ressurreição de Mahler não é apenas religiosa; é sobretudo a transformação espiritual do ser humano diante do mistério da finitude.

Foi ouvindo essa obra, repetidamente, que passei a resgatar reflexões que marcaram minha vida de médico e minhas próprias contradições humanas. Aos poucos, percebi que as decepções perdiam importância. Permaneciam apenas as lembranças da juventude, dos afetos e dos encontros que moldaram quem sou.

Há algo semelhante a uma despedida silenciosa daqueles que continuarão a caminhada. Uma sensação quase distônica, na qual os acontecimentos do mundo parecem distanciar-se da tormenta cotidiana. Como um movimento centrífugo, afastamo-nos do círculo das urgências para observar a existência sob outra perspectiva.

Passei, então, a preparar o reencontro comigo mesmo. Descobri que não temo a morte. Ao contrário, confesso guardar uma certa fascinação por esse encontro inevitável. Não de forma apoteótica ou narcísica, mas a aceitação serena de um retorno à matéria primordial.

Talvez seja essa a maior lição de Mahler: compreender que a finitude não representa uma derrota, mas uma etapa da grande metamorfose da existência.

Ao final, somos todos pó, poeira carregada pelos ventos do tempo. E há uma estranha beleza nessa condição.

(*) Médico. Professor da UFC. Ex-Secretário Estadual de Saúde do Ceará.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 13/06/2026. Opinião. p.25.

 

Free Blog Counter
Poker Blog