quinta-feira, 9 de julho de 2026

Uma historinha de caças e caçadores

 Por Paulo Gurgel Carlos da Silva (*)

O piloto soviético T. Kuznetsov sobreviveu à queda de seu caça Il-2 em 1942, quando este foi abatido em uma missão de reconhecimento. Kuznetsov conseguiu escapar dos destroços e se escondeu nas proximidades. Para sua surpresa, um Bf 109 alemão pousou perto do local do acidente e o piloto começou a vasculhar o Il-2 destruído em busca de "souvenirs". Pensando rápido, Kuznetsov correu até o caça alemão e o usou para voar para casa, escapando por pouco de ser abatido por caças soviéticos durante o retorno.

Várias lições para a vida estão embutidas nessa historinha, que é real.

(*) Médico pneumologista, escritor e blogueiro.

Postado por Paulo Gurgel no Blog EntreMentes em 30/10/2025.

https://blogdopg.blogspot.com/2025/10/uma-historinha-de-cacas-e-cacadores.html

A ECONOMIA CHINESA É RESILIENTE MESMO COM CRISES GEOPOLÍTICAS

 Por José Nelson Bessa Maia (*)

O mundo passa por turbulência e incertezas devido a tensões geopolíticas levadas ao extremo pela agressão dos EUA e Israel ao Irã. Como consequência essa guerra levou a novo choque de energia, com forte elevação nos preços do petróleo e interrupções nos suprimentos. Os mercados financeiros oscilam devido a volatilidades nos preços dos ativos. Nesse contexto poucos países mantêm o crescimento e conseguem amortecer os choques externos.

A China tem sido capaz de preservar o crescimento a julgar pelos dados oficiais. O PIB da China cresceu 1,3% no 1º trimestre de 2026 ou 5% ano a ano, 0,5 ponto percentual mais rápido que o do quarto trimestre de 2025. A produção cresceu e a oferta acelerou-se, com a demanda em recuperação, o emprego se mantendo estável, com aumentos moderados nos preços e avanços nos segmentos da nova economia.

De fato, o produto industrial chinês cresceu 6,1% em base anual no 1º trimestre de 2026. Ritmo mais rápido do que no 4º trimestre de 2025. Em termos mensais, o produto industrial aumentou 0,28% em março. O produto da mineração subiu 6% em termos anuais entre janeiro e março, enquanto o da indústria de transformação cresceu 6,4%. O produto dos serviços de utilidade pública aumentou 4,3%. O produto da manufatura de alta tecnologia teve aumento de 12,5% no 1º trimestre, com participação no produto industrial atingindo 16,9%, e impulsionando o crescimento geral em dois pontos percentuais.

O investimento cresceu 1,7% no primeiro trimestre, revertendo queda de 3,8% em 2025, turbinado pelos gastos com infraestruturas e aceleração dos investimentos industriais, compensando a queda nos investimentos do setor imobiliário. No total, o consumo e o investimento responderam por 84,7% do crescimento do PIB no 1º trimestre, um aumento de quase 30 pontos em relação ao ano anterior, indicando mudança gradual, mas contínua no modelo de crescimento mais baseado no mercado interno e menos dependente do setor externo.

O desemprego urbano ficou em 5,3% no 1º trimestre de 2026, mantendo-se no nível do mesmo período do ano passado. Somente em março, o desemprego urbano ficou em 5,4%, 0,1 ponto percentual acima do mês anterior. A meta estabelecida para o desemprego urbano é de 5,5% em 2026 e projeta-se criar mais de 12 milhões de novos empregos urbanos em 2026.

Por fim, a China gera estabilidade num ambiente global de incerteza, apoiada em seu sistema estatal de planejamento central e a eficácia de suas políticas de longo prazo, sempre atentas às turbulências externas e à necessidade de ajustes a fatores adversos. A melhoria da confiança na China reflete-se nos fluxos de entrada de investimento direto estrangeiro, atraído pelo vigor de seu setor de Inteligência Artificial (IA) e o vasto e denso mercado interno como grandes atrativos. 

(*) Ex-secretário de Assuntos Internacionais do Governo do Ceará, mestre em Economia e doutor em Relações Internacionais pela Universidade de Brasília (UnB) e, atualmente, consultor internacional.

Fonte: O Povo, de 8/06/26. Opinião. p.19.

VACINAÇÃO, ALÉM DA HESITAÇÃO

 Por Magda Almeida (*)

A queda das coberturas vacinais no Brasil é um problema grave e merece preocupação. No entanto, reduzir esse fenômeno à hesitação vacinal ou à suposta resistência da população às vacinas simplifica excessivamente uma realidade muito mais complexa e pode nos afastar das soluções necessárias.

É verdade que a circulação de desinformação e os movimentos antivacina ganharam espaço nos últimos anos e devem ser enfrentados com firmeza. Mas explicar o fracasso sucessivo das metas vacinais quase exclusivamente por esse fator produz uma narrativa incompleta, que transfere o peso do problema apenas para o indivíduo e reduz a responsabilidade dos gestores e da organização dos serviços de saúde.

O Brasil já foi referência mundial em vacinação. Não alcançamos coberturas superiores a 90% apenas porque a população confiava nas vacinas, mas porque existia uma rede capilarizada de Atenção Primária à Saúde, com agentes comunitários realizando busca ativa, vacinação nas escolas, campanhas territoriais e equipes capazes de identificar quem estava ficando para trás.

Hoje, esse cenário é diferente. Em muitos municípios, há fragilização das equipes, redução da capacidade territorial e dificuldades operacionais. As salas de vacina nem sempre funcionam em horários compatíveis com a vida das pessoas, o acesso pode ser burocratizado e ainda se observa a exigência de carteira física mesmo diante de registros digitais disponíveis. Pequenas barreiras, somadas, tornam-se obstáculos reais.

Há ainda uma mudança demográfica importante: o Brasil envelheceu. Parte significativa do público-alvo das campanhas é formada por idosos com dificuldades de mobilidade, dependência familiar ou limitações para chegar até as unidades de saúde. Para muitos, não basta a vacina estar disponível no posto, é preciso que o sistema consiga chegar até eles, por meio de vacinação domiciliar, apoio das equipes e atuação dos agentes comunitários de saúde.

Também é preciso olhar para as diferenças regionais. No Nordeste, por exemplo, a sazonalidade da influenza ocorre mais cedo. Quando a vacina chega tardiamente, parte da população já adoeceu ou está em plena circulação do vírus.

A pergunta central, portanto, não deveria ser apenas "por que as pessoas não se vacinam?", mas também "por que o sistema não conseguiu alcançá-las?". Recuperar coberturas vacinais exige enfrentar a desinformação, sim, mas, sobretudo, fortalecer a Atenção Primária, ampliar acesso e reconstruir capacidades que levaram décadas para serem consolidadas e pouco tempo para serem desconfiguradas.

(*) Médica de Família e Comunidade. Professora da Famed/UFC. Gestora pública.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 12/06/2025. Opinião. p.19.

quarta-feira, 8 de julho de 2026

FEIRANTES CARIRIENSES SOFREM COM PREÇOS DOS HORTIFRÚTIS

 Por Rita Fabiana Arrais (*)

A elevação dos preços dos alimentos ocupa a pauta da economia nacional em razão de pressionar o aumento da inflação, dificultando o cumprimento da meta central estipulada em 3% ao ano.

O grupo de hortifrúti encabeça os aumentos, desde o final de 2025, com a disparada dos preços da batata - inglesa (26,29%), tomate (12,97), cenoura (22.5%), pepino (48,60%), abobrinha (36,10%), alface (13,76%), cebola (27,47), brócolis (20,84) e a batata-doce (19,50%).

Dados compartilhados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) destacam a prévia da inflação oficial –medida pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo 15 (IPCA-15) - sendo de 0,62% no mês de maio.

Os impactos socioeconômicos são diversos, porém o que de imediato se verifica é a redução do poder de compra das famílias, e o comprometimento de uma fatia maior do salário para alimentação.

No Cariri o hábito de ir as feiras-livres e ao mercado é uma tradição regional que permite o crescimento e o desenvolvimento sustentável da agricultura familiar, ao mesmo tempo em que fortalece a economia local.

É certo que o cenário apresentado afasta os demandantes destes espaços, como também reduz o volume das suas compras. Pelo lado dos ofertantes (permissionários e feirantes) os custos elevados- em razão da entressafra e das condições climáticas desfavoráveis - aquecem o mercado paralelo de atravessadores que inflam os preços para obterem uma margem de lucro maior.

Em visita in loco nas feiras-livres e mercados de Crato, Juazeiro do Norte e Barbalha verificou-se um aumento entre 15% e 20% sobre o valor das caixas de 25 kg de hortaliças (Cx de 25 Kg do Tomate Cajá por R$ 255,00 Reais e a Cx de 25 Kg da batata-inglesa por R$ 260,00 Reais) que chegam nas bancas e boxes do mercado.

É importante destacar que no Ceasa Cariri (Barbalha) os preços estão com valores bem mais acessíveis. No entanto a demanda constante e crescente do Crajubar que é estimulada por um calendário festivo de 12 meses, e um polo gastronômico consolidado permitem que as oscilações de preços ocorram com mais frequência.

Inseridos neste mercado competitivo, os ofertantes buscam agregar qualidade aos produtos a fim de diferenciar-se dos demais. Quanto a composição do preço final que chegará ao bolso dos consumidores, o objetivo é a fidelização da clientela, mesmo que para isso tenha que reduzir sua margem de lucro.

E quanto aos consumidores? O cenário é de aperto no orçamento familiar e de muita disposição física para transitar nas feiras em busca de melhores preços.

(*) Economista.

Fonte: O Povo, de 5/06/26. Opinião. p.19.

SEU PRÉDIO ESTÁ PREPARADO PARA O CARRO ELÉTRICO?

Por Carlos Farias (*)

O avanço dos veículos elétricos e híbridos no Ceará revela uma mudança importante no comportamento de consumo e na mobilidade urbana. Dados da Secretaria Nacional de Trânsito (Senatran) mostram que a frota de veículos eletrificados no Estado cresceu 226,1% entre fevereiro de 2024 e fevereiro de 2026, ultrapassando 17 mil unidades em circulação.

O crescimento acelerado do setor traz um alerta importante: a infraestrutura elétrica de residências, condomínios e empresas nem sempre está preparada para suportar esse novo perfil de consumo.

Existe um erro comum de acreditar que basta instalar uma tomada ou adaptar um ponto de energia para carregar um veículo elétrico. Na prática, carregadores exigem potência elevada, uso contínuo e instalações dimensionadas corretamente. Quando isso não acontece, os riscos são sérios.

Sobrecarga elétrica, sobreaquecimento de cabos, curtos-circuitos e incêndios podem ocorrer em estruturas que não passaram por avaliação técnica adequada. Em condomínios, o problema ganha proporções ainda maiores, já que uma instalação irregular pode comprometer toda a rede elétrica do prédio.

Um incêndio iniciado em uma instalação inadequada pode causar perda de veículos, danos estruturais e prejuízos materiais, além de colocar vidas em risco. Não se trata apenas de um problema individual, mas de segurança coletiva.

Muitos edifícios antigos não foram projetados para suportar a demanda energética gerada por carregadores elétricos. Por isso, antes de qualquer instalação, é fundamental realizar análise de carga, revisão do cabeamento, avaliação dos quadros elétricos e estudo da capacidade.

A expansão dos veículos elétricos representa um avanço importante para a mobilidade e sustentabilidade, mas o crescimento do setor precisa vir acompanhado de responsabilidade técnica, planejamento e prevenção.

Nos condomínios, esse debate precisa envolver moradores, administração e gestão predial, para que as decisões sobre instalação da infraestrutura elétrica aconteçam com acompanhamento técnico adequado.

(*) Engenheiro eletricista.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 8/06/26. Opinião, p.18.

terça-feira, 7 de julho de 2026

ACENO DE AMIZADE

 Por Pedro Bezerra de Araújo – Pierre Nadie

O tempo não traga amizade;

Amizade, que a gente tem,

Tem, no peito, uma certeza,

Certeza de lealdade gloriosa,

 

Gloriosa é uma amizade gostosa,

Gostosa como o néctar dos deuses;

Deuses lhanos, que povoam minh’alma,

Alma que jamais se quer brejeira.

 

Brejeira, pois, não adjetiva a confiança,

Confiança, pedra angular do afeto,

Afeto, que é bom, se o perdão corteja,

 

Corteja pra não quebrar o apreço,

Apreço, quando uma pedra quebra,

Quebra o vergueiro e aterroriza lastros da amizade.

 

(*) Pediatra e professor da Uece aposentado. Enviado por WhatsApp em 10/06/26.

O banho dos pássaros e a Casa Plebeu

Por Izabel Gurgel (*)

Fui conhecer o novo endereço do Plebeu Gabinete de Leitura. Que prospere (n)a abundância que oferece. A sofisticação do silêncio. A casa cheia de convites para prestar atenção. O trabalho do desejo, do sonho. O jardim tão pausa e pouso, perplexidade e pergunta.

Já foi lá? Tomara cada presença nossa se torne um encontro íntimo e público (tipo o que a criatura leitora pode instituir ao abrir um livro). Torcendo para a Casa Plebeu ter/ser o que vou chamar aqui de uma agenda-sem-microfone, para estar à altura do lugar que materializou. "Fala baixinho que é pra eu ouvir".

O banho dos passarinhos é por volta das quatro da tarde. Tem uma torneira na lateral da casa, que recebe toda a sombra da mangueira (sob a qual a gente só quer saber de viver). Tão perto do chão quanto as crianças, a torneira deságua nos vasilhames de barro para o banho diário, acontecimento que toda menina e todo menino precisam ver pelo menos uma vez na vida. Para que a memória, senhora movediça, vez e outra se banhe na inscrição e hidrate o cotidiano. Com frescor.

O muro da casa é um livro aberto para a rua, na rua. Preto no branco. Tem o nome de batismo, Plebeu Gabinete de Leitura. Muro-livro de página única, cada palavra conspira para o mais bonito sentido da outra. Mostraram com qual está casada a palavra biblioteca e eu pensei: "é um smart muro". O traço do muro-livre é da Luci Sacoleira.

Dá para fazer mil e uma conversas (conspiradoras, afinal um outro mundo é possível) desfrutando da qualidade da feitura dos bancos de madeira que se assembleiam junto à mesa redonda, vizinhos dos (outrora) bancos de praça. E deixar o olho passear... A lateral da casa é tão enfeitada que dá vontade de ter nascido oitão. Dami Cruz desenhou sete criaturas leitoras. Imparáveis. Vá ver logo porque acho que os temas da Família Cândido podem ser transferidos de lugar. Esplendem cor. Dona Lourdes, a mestra Maria de Lourdes Cândido Monteiro, está a rir de contente com o destino das placas de cerâmica criadas na casa da rua da Boa Vista, Juazeiro do Norte cantando a nação plebeia cujas mãos tecem mundos.

Bora tornar brinquedo a dança das cadeiras? Experimentar cada uma delas, dentro e fora da casa, na livraria loja ateliê, um fiteiro de achados. Sigo ao ar livre, à sombra. Fosse noite, esperava o Aracati passar.

Na rua Tibúrcio Frota, 504, no São João do Tauape, a Casa Plebeu é o labirinto de livros mais bonito de Fortaleza. Achar bonito é uma forma de entender, como nos disse Clarice. Ela também contou que, quando era criança, achava que os livros nasciam em árvores, como as frutas. Entendeu que eram feitos. E fez o que fez.

O Plebeu abre de terça a sábado, das 10h às 17 horas. Os pássaros têm dois dias para banho sem humanos à vista. Nos demais, ensinam a estar no mundo de tal modo que dele se possa sair cantando.

P.s.: Livros, sombra e água fresca, o Plebeu tem. Precisa é de uma geladeira. Aberta a lista de presentes para o canteiro-escola do Tauape.

(*) Jornalista de O Povo.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 7/06/26. Vida & Arte, p.2.


 

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