sexta-feira, 3 de julho de 2026

SANCTA DEI TRINITAS

Por Pedro Bezerra de Araújo – Pierre Nadie

A Trindade é um mistério em si mesmo, um mistério estrito, que a razão não alcança e se curva ante a revelação de Deus, nos escreve Santo Tomás.

Pela fé mergulhamos no mistério, mas, pela razão, jamais o compreenderemos, pois, transcende os limites de nossa contingência.

Deus é amor, diz-nos o Evangelista São João (1Jo 4,16).

O amor é uma relação de saída ao encontro de um amado. E só se concretiza se o amado se fizer amante. E entre os dois, há de nascer o fogo, que impulsiona e consolida o amor. Uma pessoa isolada não dispõe de elementos essenciais para curtir o amor. Assim, Deus, que é amor absoluto, não se fecha num egoísmo narcísico, mas faz-se comunhão intrínseca com o Filho, no fogo amoroso do Espírito Santo.

Não precisou criar o homem para viver o amor, ao contrário, derramou na sua criatura a chama de Seu amor e, no Seu exemplo modelar, transparece a afirmação de Jesus: “Eu quero a misericórdia e não o sacrifício’ (Mt 9,13; 12,7), priorizando a atitude do coração, o amor ao próximo e o perdão, que do amor é irmão.

O Espírito pairava sobre as águas: "A terra estava informe e vazia; as trevas cobriam o abismo e o Espírito de Deus pairava sobre as águas." (Gn 1,2).

O Pai manifesta-se a Moisés: Deus respondeu a Moisés: “Eu sou aquele que sou”. E ajuntou: “Eis como responderás aos israelitas: (Aquele que se chama) ‘Eu sou’ envia-me junto de vós” (Ex 3,14).

O Filho: ‘Respondeu-lhe (à Maria) o anjo: “O Espírito Santo descerá sobre ti, e a força do Altíssimo te envolverá com a sua sombra. Por isso, aquele que nascer de ti será chamado Filho de Deus.’” (Lc 1,35).

E, no batismo de Jesus, Marcos registra a plena revelação da Trindade: ‘No momento em que Jesus saía da água, João viu os céus abertos e descer o Espírito em forma de pomba sobre ele. E ouviu-se dos céus uma voz: “Tu és o meu Filho muito amado, no qual pus toda a minha complacência.”’ (Mc 1,10-11).

A Trindade é concebida pela Patrística, com São Gregório de Nazianzo e desenvolvida por São João Damasceno, com o termo grego περιχώρησις  e em latim circumincessioPericorese’, ou seja, como uma mútua interpenetração e coabitação do Pai, Filho e Espírito Santo. Têm a mesma οὐσία (ousia - essência), habitam um no outro e são um na intimidade de sua amizade. O conceito teológico de Pericorese é ilustrado como uma "dança" eterna de amor, movimento e doação mútua entre as três pessoas.

Este termo já foi utilizado, antes, pelos gregos, como Anaximandro por volta de 450 a.C. e também Platão expõe-no como relação entre alma e corpo. Encontra-se ainda nos textos de Pseudo-Cirilo, todavia, associado à Cristologia.

Em cada uma das três Pessoa da Trindade habitam as outras Pessoas, mutuamente, em perfeita e íntima unidade e comunhão κοινωνία (koinonia), sem perder suas individualidades, nem se fundirem. Não há divisão da divindade. Elas compartilham os mesmos tributos: onisciência, onipotência, eternidade.

Embora todas ajam em conjunto, atribui-se ao Pai a Criação; ao Filho, a Redenção e ao Espírito Santo, a Santificação.

Santo Agostinho comenta:  A Trindade é a estrutura própria do amor absoluto (De Trinitate).

A Koinonia divina inspira a koinonia humana na partilha, no acolhimento e amor mútuos.

Portanto, ser cristão, à luz da Trindade, é ser um ser-em-constante-relação (GRESHAKE, 2001).

A comunhão trinitária é o antídoto cristão contra o individualismo.

Fontes: https://www1.unicap.br/ojs/index.php/theo/article/view/826

https://www.youtube.com/watch?v=E2s61E34elY

https://www.youtube.com/watch?v=uAczIwjoHXE

Uma boa segunda-feira, com as bênçãos de Deus!!!

(*) Pediatra e professor da Uece aposentado. Enviado por WhatsApp em 1/06/26.


Crônica: Decidido: o Ceará não exportará mais bulim pros EUA!... e outro causo

Decidido: o Ceará não exportará mais bulim pros EUA!

A crônica de hoje é documento que tem fé, e a Casa Branca que se vire. Depois do anúncio da taxação de 25% das coisas daqui por parte do galego lá, eu me invoquei todo!

Na verdade eu não gostaria de fazer isso com o povo norte-americano. Porém, nós - os produtores de bulim, rosca, broa, coxão de moça e tijolim - seremos obrigados a tomar medida drástica e a parar vexado com a exportação desses produtos, salvo disposição em contrário. Explico: o Brasil não é estratégico somente por possuir a segunda maior reserva de terras raras do planeta, essenciais à fabricação de carros elétricos, turbinas eólicas, eletrônicos...

Nosso país é uma potência, sobremaneira, por ser o tuxaua mundial na manufatura dos itens que acima citei, especialmente quando a eles se somam a rapadura, a tapioca, o cuscuz, o fubá, o mucunzá e a mingonga, "dicumêres" raros que dão sustança ao despombalizado, coragem ao arrombado, categoria ao pebado e alegria ao (amo)finado.

Em conversa com os fabricantes das sete iguarias do parágrafo acima, fui informado que eles também cessarão suas produções e o "comércio bilateral" com os EUA, caso o presidente lá não pare de frescar com a gente aqui. "Estamos cansados desse estica-encolhe, dessa labutica sem futuro", confidenciou-me o maior produtor de maria-maluca, mariola e quebra-queixo da América Latina - o grande Zé Preguim.

- É prego batido e ponta virada! Babau! Num tem pra ninguém mais!

Confesso que me dói saber que o povo de riba do Equador vai parar de degustar alfenim pelos próximos tempos! Sei nem se vão sobreviver! Mas, fazer o quê, né? Eles que começaram!

O casal de moucos

De onde estávamos ouvia-se a gritaria do casal, que chegara à casa ao lado havia uma semana. Pelo tom de voz, discussão ferrenha. Desde que os dois aportaram, nunca um olá, apenas os víamos de longe - ele, grandalhão; ela, miúda e franzina. De seus 80 e poucos anos, ambos. Era mais ou menos assim o berreiro:

- Osman, pelo amor de Deus!!!

- Jarina, eu vou tacar-lhe o cacete!!!

- Se for pra matar, mate logo!!!

- É minha especialidade!!! Tome-lhe!!!

Das duas uma: ou a gente ia apartar a briga, em risco de aquilo virar tragédia, ou chamávamos a polícia. Fizemos os dois: ligamos pro 190 e, enquanto os guardas não apareciam, demos um pulinho lá. Gritos continuavam tonitruantes; nos aproximamos, silentes. Uma pancada forte agora se ouviu e ai, ai, ai: bufo!!!

- Olhaí o sangue escorrendo!!!

- Eu acho é pouco!!!

- Tu é um matador!!!

- Dou carne a gato, não!!!

Tocamos a campainha 15 vezes, ninguém apareceu. Preocupados com o que poderia ter acontecido de pior, entramos - porta só encostada. E lá estava a cena: ela trepada numa cadeira, se tremendo; ele em pé, segurando pelo rabo um guabiru de quase um quilo, sangrando pela boca. De relance, a senhora nos vê e dispara, assustada:

- Qué que vocês tão fazendo aqui?!? Hein?!?

- Achamos que vocês...

- Inês??? Meu nome é Jarina!!!

- Tangerina não, mulher!!! É um rato!!!

Fonte: O POVO, de 5/06/2026. Coluna “Crônicas”, de Tarcísio Matos. p.2.

quinta-feira, 2 de julho de 2026

UM MURMÚRIO DE EMOÇÕES

Por Pedro Bezerra de Araújo – Pierre Nadie

- Eu peço desculpas

Tomado de raiva, que lhe envermelha o rosto e franze o cenho, a bruta de uma emoção arremete, tão áspera quanto violenta:

- Não, não desculpo.

E repete, com as pulsações do coração soprando-lhe a camisa branca, à altura do peito esquerdo, no inflar célere dos pulmões:

- Não e não.

Emoções são um dos nossos patrimônios humanos. Elas mesmas nos antecedem o farfalhar da razão, nascem conosco, inda que embrionárias, dentro de seu casulo, mas, com, pelo menos, uma probóscide em atividade, ora instintiva.

Elas não explodem sem, antes, nos implodir, por primeiro.

Mas, o que é emoção?

É um sentimento ou uma forte e abrupta reação a algo ou alguém, que nos provoca, ao atingir a fragilidade de nossos domínios interiores e nos bofeteia ou arranha ou nos acaricia, galanteia e empluma?

Derivada do latim e + movére (mover para fora), emoção apresenta-se como reação psicofisiológica instantânea, provocada por um estímulo qualquer e dispõe de três assessores: neurobiológico, comportamental e cognitivo. A psicologia considera a emoção uma reação biológica automática, enquanto o sentimento decorre da interpretação de nosso consciente, fundamentado em nosso livre arbítrio.

Não há muros que suportem o ataque das nossas emoções, dessas catapultas, que assaltam todos os nossos flancos, traindo nossa interioridade ou admoestando o ‘ignoto’, que somos: segredo, que não conseguimos guardar, pois, nalgum momento, nos expõe, às claras.

Essa lava vulcânica não apenas pode destruir, mas lastreia também um terreno fértil ao exercício de nossa maturidade. São emoções que nos afastam de perigos, que nos estimulam empatia ou antipatia. Emoções podem estimular a produção tanto de serotonina como de cortisol: aquela, de emoções positivas, como a gratidão, a admiração, a esperança e este, de emoções negativas, a exemplo da ansiedade, da angústia, da raiva e da ira.

Se deixas tuas emoções te dominarem, elas decidirão por ti e talvez te denunciem orgulho e autossuficiência de uma certa altivez indomada. E não te assustes com as deletérias surpresas que elas te criarão, mais no interior do que ao teu derredor, que também não são menos deletérias.

Tu lhe deste o timão de tua vida.

Lembra-te: toda decisão que tomares em momentos de forte e profunda emoção, seja de qualquer timbre, provocar-te-á arrependimento e para mitigá-lo, tu engendrarás quaisquer justificativas, far-te-ás de vítima ou remoerás remorsos, inda que com a hipocrisia de mambembes disfarces, que não te promovem paz de consciência tampouco tranquilidade de espírito, a não ser que tenhas imposto algum dano ao teu caráter e humana hombridade.

Enfim, emoções são patrimônio de todos e de cada um de nós, sem as quais o viver seria inviável. Todavia, seu descontrole são raptos espúrios de um caráter agonizante.

Há emoções que doem n’alma, antes que a cabeça comece a entender e o coração comece a experienciar.

Nihil sine onere aut sine praemio suo.

Uma boa quarta-feira, com as bênçãos de Deus!!!

(*) Pediatra e professor da Uece aposentado. Enviado por WhatsApp em 27/05/26.

GAIOLA OU ASA

Por Tales de Sá Cavalcante (*)

Em 1997, o Clube do Líbano de Fortaleza resolveu vender sua sede. Em data e horário divulgados, os envelopes foram entregues fechados e, na presença de todos, foram abertos. Seria vencedor quem, além de superar o mínimo prefixado, tivesse o maior preço. Uma empresa possuía vários envelopes para escolher o adequado ao conjunto de competidores que se fizessem presentes.

Ao se ver só, sem concorrentes, entregou o envelope com o menor valor. Ao levar várias propostas, a empresa revelou criatividade e brasilidade. Em 2015, num concurso, em Fortaleza, para escolher a melhor criação de uma startup, alunos de uma entidade pública usaram um computador que não era dos melhores, nem dos mais novos e travou na hora "H". O líder juntou fios daqui, fios dali, peças daqui, peças dali. Aquela "coisa" "ressuscitou" e ganhou o prêmio.

Em reunião no Conselho de Responsabilidade Social da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo relatei o feito. O colega conselheiro e apresentador de TV Marcelo Tas comentou ter ouvido de um grande publicitário americano que "o brasileiro é mais criativo por fazer gambiarras".

Sim, com boas condições, executa perfeições, o que não faz o conterrâneo do yankee, Mr. Trump, que, mesmo com muitos recursos, decide por gambiarras oriundas de sua mente ou de assessoria deficiente.

O saudoso Washington Olivetto dizia: "A ideia é o que faz a diferença". E Rubem Alves afirmou: "Há escolas que são gaiolas e há escolas que são asas. Escolas que são gaiolas existem para que os pássaros desaprendam a arte do voo. Pássaros engaiolados são pássaros sob controle. Engaiolados, o seu dono pode levá-los para onde quiser. Pássaros engaiolados sempre têm um dono. Deixaram de ser pássaros. Porque a essência dos pássaros é o voo. Escolas que são asas não amam pássaros engaiolados. O que elas amam são pássaros em voo. Existem para dar aos pássaros coragem para voar. Ensinar o voo, isso elas não podem fazer, porque o voo já nasce dentro dos pássaros. O voo não pode ser ensinado. Só pode ser encorajado".

Por fim, este articulista indaga: e você? Prefere uma escola que seja gaiola ou asa?

(*) Reitor do FB UNI e Dir. Superintendente da Org. Educ. Farias Brito. Presidente da Academia Cearense de Letras.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 28/05/26. Opinião, p.16.


quarta-feira, 1 de julho de 2026

ONDE E O TEMPO

Por Pedro Bezerra de Araújo – Pierre Nadie

Perguntei ao onde:

- Onde estou?

- Aqui, respondeu-me ele.

- Mas, eu não sei onde estou, como posso saber o que é aqui?

O onde calou-se…

O tempo soprou

Soprou, soprou e soprou.

Então, perguntei ao vento:

- De tanto soprares, jogaste-me mais longe do onde.

O vento não respondeu:

- Tão longe estou do onde, que nem mesmo me vejo.

Com isto, o vento interveio:

- Mas, sabes quem és tu.

- Não, não sei. Não me sei, porém, vejo-me perdido. Mas, não me interessa saber, pelo menos, por agora.

Fez uma pausa. Calou-se.

- Se não sabes quem és tu, por que queres saber o ‘onde’? questionou-me o tempo. O caminho faz-se com a razão. Ela o indica e somente ela pode dizer-te onde estás.

Nisso, o onde volta ao cenário:

- Não posso dizer-te onde está o ‘onde’. Pois, o ‘onde’ anda perto do ‘sou’. E se não sabes o teu ‘sou’, de que adianta buscar o onde? Faze-o em vão.

Fiquei mudo.

E continua o onde:

- Estás louco? Não vês que o teu ‘sou’ é que define e determina o ‘onde’? Caso não saibas o teu ‘sou’, nunca encontrarás o ‘onde’.

- Não consigo entender.

O onde esboçou um riso de ironia.

Foi aí que o tempo falou:

- Não entendes porque não te entendes. E, se não te entendes, como queres entender o ‘onde’?  Ele nem está em mim, mas no esconderijo de tuas narinas.

- Minhas narinas? Quem o colocou nelas?

 O tempo ri, sarcasticamente:

- Estás com amnésia? Com Alzheimer? Ou tua desídia és tu mesmo?

Meu rosto enrubesce e meu corpo tensiona:

- Tua acusação me desonra e me atinge como cruel verdugo a açoitar suas vítimas. Como podes acusar-me de mim mesmo?

E o vento volta a assoprar. Não, agora ele assovia um refrão:

- Eu sou Noto. Lá do Mediterrâneo vi teu surto e corri a ajudar-te quebrar alguma corrente, mas percebo que és cabeçudo.

E com uma canção nos lábios:

- O que passou, passou / Teu sou ficou no passado. / O hoje não é presença, teu passado não passou. / O onde também ficou / na esquina do passado. / Se não recuperares, de novo, / o sou que faz o teu onde / o que seria não será mais.

E termina com melancolia:

- O que foi não é, o que é já foi, e o que será seria. O foi não foi, o é não veio e o será em coma adormeceu.

Assustei-me com tal premonição. A raiva deu lugar ao remorso. Incontinenti aos dois eu falei:

- Há uma dor doendo em mim. Grande dor. Não sei onde está, nem de onde veio, mas sinto que me queima.

O onde interveio:

- Se te queima, tu a sentes. E, se a sentes, segue-lhe o rastro e encontrarás o onde.

E o tempo:

- E, lá, no onde, se investigares profundo, darás de cara com o teu ‘sou’.

E lá me fui eu, em busca de mim e de minha orquestra, lá, onde  o onde pode encontrar o sou.

Então, voltei a sonhar e a alegria retornou, minha vida saltando para dentro de mim.

Encontrei o ‘onde’ e descobri o ‘sou’, no seio de mim e na plataforma do tempo.

Vitória do sofrimento, que somente eu vivi, vitória, que somente eu pude ver, curtir e viver. E mais ninguém viu, nem sentiu.

Sem fé em mim, perco o sentido da fé em Deus e a convivência fraterna de paz, partilha e amor, naufraga no orgulho e ousadia de ‘ser’ o que não sou, de não saber ‘onde’ estou e de chegar aonde eu não sei.

Mundus a me transit, sed huius  mea visio a me nascit. Mundum non poneo, sed  in eo interago principiis meis ac valoribus, quomodo sum. Ergo, primum ordo me cognoscere. (O mundo passa por mim, mas minha visão dele nasce dentro de mim. Não posso criar o mundo, mas nele interajo, a partir de meus princípios e valores, como eu sou. Daí que a primeira coisa a fazer é me conhecer).

Uma boa terça-feira, com as bênçãos de Deus!!!

(*) Pediatra e professor da Uece aposentado. Enviado por WhatsApp em 26/05/26.


Gravidez tardia, estilo de vida e síndrome de Down

Por Evangelista Torquato (*)

A gravidez tardia deixou de ser exceção e passou a fazer parte da realidade de muitos casais. Motivos profissionais, estabilidade financeira e mudanças sociais levaram pessoas a postergar o projeto de ter filhos. No entanto, é essencial compreender como a idade e o estilo de vida impactam a fertilidade e os riscos genéticos, entre eles a síndrome de Down, para que decisões sejam tomadas com informação e responsabilidade.

Do ponto de vista feminino, o avanço da idade está diretamente relacionado à diminuição da quantidade e da qualidade dos óvulos. Após os 35 anos, e de forma mais acentuada após os 40, aumenta o risco de alterações cromossômicas nos óvulos, elevando a probabilidade de embriões com aneuploidias, incluindo a trissomia do cromossomo 21. Já no homem, embora a produção de espermatozoides seja contínua, o envelhecimento também traz impactos importantes, como maior fragmentação do DNA espermático e alterações genéticas associadas à idade.

O estilo de vida exerce papel fundamental nesse cenário. Tabagismo, consumo excessivo de álcool, obesidade, sedentarismo, estresse crônico e noites mal dormidas afetam diretamente a qualidade dos gametas femininos e masculinos.

Felizmente, a medicina reprodutiva avançou de forma significativa. Métodos como a fertilização in vitro permitem avaliação criteriosa dos embriões antes da transferência ao útero. O teste genético pré-implantacional é hoje uma ferramenta eficaz para identificar embriões cromossomicamente normais, reduzindo riscos e aumentando as chances de uma gestação saudável. Além disso, estratégias como o congelamento de óvulos em idades mais jovens e o acompanhamento individualizado do casal contribuem.

Falar sobre gravidez tardia não é estimular o medo, mas promover consciência. Informação, planejamento e acompanhamento especializado permitem que pessoas façam escolhas alinhadas aos seus desejos e à ciência. A tecnologia não elimina riscos, mas oferece caminhos mais seguros para quem sonha em formar uma família, mesmo com o passar do tempo.

(*) Ginecologista com atuação em reprodução humana.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 1/06/2026. Opinião. p. 18.

terça-feira, 30 de junho de 2026

LEITURAS NO CÉU DA BOCA

Por Izabel Gurgel (*)

Brincamos, entre pessoas queridas, sobre testes de vida que podem ser feitos antes de tocar nossos enterros.

No meu caso, os últimos a serem feitos são simples como dizer até logo no dia-a-dia.

Pertinho do caixão, alguém comenta sobre um livro que está lendo. Fala com o entusiasmo das criaturas doidas por livro e leitura. Vislumbra o outro fruindo da graça de ler o dito cujo citado para, de fato, saber, sentindo, o que um irmão de "A Casa" (Natércia Campos), "Yuxin" (Ana Miranda), "Um defeito de cor" (Ana Maria Gonçalves), "O infinito em um junco - A invenção dos livros no mundo antigo" (Irene Vallejo) pode fazer nas veredas de alguém em estado de leitura, vasto sertão. A pessoa falante arremata o comentário: "Será que a Izabel leu? Não lembro de ter comentado com ela...".

Outra prova pode se dar com a mesma criatura leitora, desde que tenha a fome de viver para quem a gula é promessa de paraíso, uma biblioteca a ser incorporada. Aquela criatura que, saindo da sorveteria do Juarez (a da Barão de Studart), ainda que reconhecendo as mudanças no sorvete dos sorvetes de Fortaleza (e se não mudar, não há como permanecer, sabemos), a tal criatura quer nem que seja só uma mordida do picolé rosa choque avistado nas mãos de uma passante. Não importa se acabou de tomar um ou dois sorvetes, e lembrou do Juarez, ampliando os sentidos do termo presente, abrindo um freezer depois do outro e, de colherzinha na mão, vir ensinar a fazer de cada prova de sabor uma festa no céu da boca. Cajarana, capim santo, cajá tão felizes por encerrar a vida vegetal virando sorvete do Juarez.

Cheia da fome de viver, ao pé do meu caixão, a pessoa convida outra para um café com bolo da Walma Laena, tapioca da Lalá, ou pão de chapa de rua, tão passado que afina e nos faz pensar em papel manteiga. Se for amiga da onça, a pessoa falante vai saber cutucar diretamente a finada, sem vara. Pode citar o bolo de caco cuja lembrança fez Seu Nery - cozinheiro na casa de Arneiroz que ele transformou em pousada - inventar um passeio com a hóspede até o Planalto, na zona rural. Ele dirigindo não só o carro, mas dando ao deus do acaso a vez de manobrar o passeio para chegarem à casa de uns conhecidos bem na hora de festejar o calor da tarde, na calçada alta, com café que a gente precisa soprar antes de tomar. A mãos-de-fada dona da morada na rodagem estava botando na janela a travessa de bruaca de farinha de milho. Reluzia o açúcar com canela.

O outro teste de vida é tocar ou cantarolar "Reconvexo" na voz da Maria Bethânia ou uma canção de Carnaval com letra do Fausto Nilo. Pode ser baixinho.

Nas três provas, se a finada não levantar do caixão, pode tocar o enterro. Está mortinha da silva. E talvez danada por perder a volta do cemitério, entre pessoas muito queridas. Que sabem estar ao redor de uma mesa, ao pé de um balcão, ou em alguma beirada do mundo, olhando o tempo.

Mas tem gente que não sabe brincar.

(*) Jornalista de O Povo.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 24/05/26. Vida & Arte, p.2.

 

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