quinta-feira, 11 de junho de 2026

Rio, quem te viu, quem te vê

Por Romeu Duarte Junior (*)

Assim como muitos e muitas da minha geração, fui criado sob a égide da visão do Rio de Janeiro como a maior das maravilhas do mundo. Meu pai, mineiro de nascença, mas carioca por desejo, morou cerca de 15 anos na belíssima Cidade Maravilhosa, precisamente no período que é conhecido como "anos dourados". Quando falava do que lá passara, seus olhos brilhavam, para aborrecimento de minha mãe, que via o Rio como um lugar de perdição e pecado. Aprendi, pois, com o autor dos meus dias (obrigado, Aírton Monte, que também era um fã do RJ), a venerar a capital carioca, sua cultura urbana, suas variadas expressões, seus lugares, seu povo. "Algum dia ainda vou morar lá", repetia sempre de mim para comigo esse mantra. Hoje, por várias questões, não mais, e explico porquê.

Meus interesses se concentravam no futebol, na literatura e na música da terra de Machado de Assis, numa relação idealizada e apaixonada. O Rio é um lugar onde o corpo ainda conta muito, principalmente o feminino, em torno do qual todas essas manifestações artísticas orbitam. Juntamente com as muitas praias, formavam um binômio irresistível, a Garota de Ipanema que o diga. O Botafogo de 1969, Doval, Zico, Adílio e Adão, Rivelino no Flu, a zaga do Vasco em 1974, o Bangu e o Ameriquinha, Nelson Rodrigues, Lúcio Cardoso, Rubem Braga, a turma afiada do Pasquim, Clarice Lispector, Antônio Callado, Pixinguinha, Cartola, Nelson Cavaquinho, Jacob do Bandolim, Tom Jobim, Vinícius, Chico Buarque, Edu Lobo, Martinho, Paulinho da Viola, tanta gente boa. E aí, e agora?

Como dizem seus cultores, a História serve para explicar o presente e não para glorificar o passado. No começo do século XX, de um lado, a cidade esplêndida, com a sua natureza magnífica e a sua arquitetura deslumbrante, e de outro, a morraria, que já se via ocupada pelos pobres favelados. Deixados à própria sorte pelo ausente Estado, criaram normas de conduta próprias que findaram dando no que aí está. A perda da condição de capital do Império e da República foi um duro golpe para o Rio, pondo fim a 152 anos de fastígio. A cidade, referência nacional e internacional da boa vida e do turismo, e o morro, abandonado e cada vez mais perigoso, vão ser dominados respectivamente por uma classe política corrupta e por toda sorte de bandidagem, facções e milícias. O resto você sabe...

Vejo na TV o governador-tampão do RJ demitindo centenas de terceirizados que ganhavam sem trabalhar. Vários agentes da Receita Federal envolvidos em grosso esquema de corrupção na zona portuária. Muitos secretários e deputados estaduais presos por meterem a mão no dinheiro público. Em mais de 30 anos, a única dirigente do estado que não foi presa é Benedita da Silva. O Rio é o locus da atuação do grupo político liderado pelo inominável presidiário. A política se deixou dominar por faccionados e milicianos. A polícia carioca, em seu estilo Robocop, é uma das que mais matam cidadãos e cidadãs no Brasil. Em vez de Festa de Arromba, baile funk. Em vez de Bossa-Nova, gangster rap. Em vez de Nuvem Cigana, tiroteios mil. Em vez de João Gilberto, Poze do Rodo. Barbárie...

(*) Arquiteto e professor da UFC. Sócio do Instituto do Ceará. Colunista de O Povo.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 11/05/26. Vida & Arte. p.2.

quarta-feira, 10 de junho de 2026

Convite: Defesa de Memorial para Ascensão a Professora Titular de Ilvana Lima Verde Gomes

Banca de Titular da Profa. Ilvana Lima Verde Gomes, dia 12 de junho de 2026, às 15h no Auditório do Nupeinsc/Uece:

Banca de Titulares:Marcelo Gurgel Carlos da Silva, Patricia Neyva da Costa Pinheiroe Andrea Gomes Linard

Suplentes: José Jackson Coelho Sampaio e Maria Salete Bessa Jorge

Secretária: Edna Maria Camelo Chaves


A economia chinesa é resiliente mesmo com crises geopolíticas

Por José Nelson Bessa Maia (*)

O mundo passa por turbulência e incertezas devido a tensões geopolíticas levadas ao extremo pela agressão dos EUA e Israel ao Irã. Como consequência, essa guerra levou a novo choque de energia, com forte elevação nos preços do petróleo e interrupções nos suprimentos. Os mercados financeiros oscilam devido a volatilidades nos preços dos ativos. Nesse contexto poucos países mantêm o crescimento e conseguem amortecer os choques externos.

A China tem sido capaz de preservar o crescimento a julgar pelos dados oficiais. O PIB da China cresceu 1,3% no 1º trimestre de 2026 ou 5% ano a ano, 0,5 ponto percentual mais rápido que o do quarto trimestre de 2025. A produção cresceu e a oferta acelerou-se, com a demanda em recuperação, o emprego se mantendo estável, com aumentos moderados nos preços e avanços nos segmentos da nova economia.

De fato, o produto industrial chinês cresceu 6,1% em base anual no 1º trimestre de 2026. Ritmo mais rápido do que no 4º trimestre de 2025. Em termos mensais, o produto industrial aumentou 0,28% em março. O produto da mineração subiu 6% em termos anuais entre janeiro e março, enquanto o da indústria de transformação cresceu 6,4%. O produto dos serviços de utilidade pública aumentou 4,3%. O produto da manufatura de alta tecnologia teve aumento de 12,5% no 1º trimestre, com participação no produto industrial atingindo 16,9%, e impulsionando o crescimento geral em dois pontos percentuais.

O investimento cresceu 1,7% no primeiro trimestre, revertendo queda de 3,8% em 2025, turbinado pelos gastos com infraestruturas e aceleração dos investimentos industriais, compensando a queda nos investimentos do setor imobiliário. No total, o consumo e o investimento responderam por 84,7% do crescimento do PIB no 1º trimestre, um aumento de quase 30 pontos em relação ao ano anterior, indicando mudança gradual, mas contínua no modelo de crescimento mais baseado no mercado interno e menos dependente do setor externo.

O desemprego urbano ficou em 5,3% no 1º trimestre de 2026, mantendo-se no nível do mesmo período do ano passado. Somente em março, o desemprego urbano ficou em 5,4%, 0,1 ponto percentual acima do mês anterior. A meta estabelecida para o desemprego urbano é de 5,5% em 2026 e projeta-se criar mais de 12 milhões de novos empregos urbanos em 2026.

Por fim, a China gera estabilidade num ambiente global de incerteza, apoiada em seu sistema estatal de planejamento central e a eficácia de suas políticas de longo prazo, sempre atentas às turbulências externas e à necessidade de ajustes a fatores adversos. A melhoria da confiança na China reflete-se nos fluxos de entrada de investimento direto estrangeiro, atraído pelo vigor de seu setor de Inteligência Artificial (IA) e o vasto e denso mercado interno como grandes atrativos.

(*) Ex-secretário de Assuntos Internacionais do Governo do Ceará, mestre em Economia e doutor em Relações Internacionais pela Universidade de Brasília (UnB) e, atualmente, consultor internacional.

Fonte: O Povo, de 10/05/26. Opinião. p.23.

terça-feira, 9 de junho de 2026

Convite: Defesa de Memorial para Ascensão a Professora Titular de José Joaquim Neto Cisne

Banca de Titular do Prof. José Joaquim Neto Cisne, dia 10 de junho de 2026, às 15h no Miniauditório Áurea Bessa do CESA/Uece:

Titulares: Ana Augusta Ferreira de Freitas, Jair do Amaral Filho e Almir Bittencourt da Silva

Suplentes: Marcelo Gurgel Carlos da Silva e Krishnamurti de Morais Carvalho

Secretária: Thiciane Mary Carvalho Teixeira


Polo de Saúde impulsiona o hub logístico juazeirense

Por Rita Fabiana Arrais (*)

A consolidação da economia caririense como um dos principais eixos de crescimento econômico do interior do Nordeste, apoia-se estrategicamente na eficiência do polo de saúde - Hospital Regional do Cariri, Hospital São Vicente, Hospital do Coração e Hospital Santo Antônio - que concentra uma gama de especialidades médicas, bem como ofertas de serviços capazes de suprirem os atendimentos da Região Metropolitana do Cariri (RMC) pelo Sistema Único de Saúde (SUS) e pelo setor privado.

O dinamismo do setor de saúde é um atrativo para o aumento dos investimentos privados, pois há segurança de retorno do capital mediante a demanda crescente e consistente do mercado, e o aumento das Parcerias Público - Privadas (PPPs) em que o setor público investe na aquisição de serviços do setor privado para preencher a oferta insuficiente da rede pública.

É importante pontuar os impactos socioeconômicos para a RMC, tais como: geração de emprego, inovação tecnológica, aumento da oferta de serviços em saúde, melhorias na infraestrutura das cidades, construção de hospitais públicos e privados, e a elevação na exigência de qualificação profissional, que vieram por meio de volumosos investimentos tanto públicos, quanto privados.

Economicamente, esses pontos descritos juntam-se a outros setores (indústria, serviços, educação) permitindo a diversificação do mercado, ao mesmo tempo que impulsiona o crescimento e o desenvolvimento da região com a abertura de novos empreendimentos visando suprir a cadeia produtiva regional. É cabível de registro que a região faz fronteira com os estados do Pernambuco, Paraíba e Piauí, favorecendo a integração dos mercados e o aumento da demanda por bens e serviços.

Neste cenário, um conjunto de fatores infraestruturais faz da cidade de Juazeiro do Norte um hub logístico estratégico, que funciona otimizando o custo de distribuição de mercadorias, proporcionando eficiência nos prazos de entregas, principalmente aqueles relacionados ao mercado de suprimentos hospitalares, medicações e insumos de alta sensibilidade.

Para a Secretaria de Desenvolvimento Econômico do município, a existência de uma malha rodoviária eficiente e o transporte aéreo garantem uma conectividade regional, em que na prática significa vincular fornecedores, transportadores e consumidores.

A necessidade de promover saúde para 1,5 milhão de pessoas em 45 municípios trouxe mudanças significativas na infraestrutura das cidades polo através da mobilidade urbana, e também na captação de novas empresas para atuar no ramo de operador logístico especializado no mercado de saúde e hospitalar.

(*) Economista.

Fonte: O Povo, de 8/05/26. Opinião. p.21.

segunda-feira, 8 de junho de 2026

QUANDO ME LEMBRO DO SEU NOME

Por Patrícia Soares de Sá Cavalcante (*)

Os nomes começaram a escapar depois dos quarenta. Pergunto, não memorizo e, logo em seguida, repito: qual é mesmo o seu nome? Daí, associo-o ao nome de alguém que conheço - uma amiga, uma tia, um irmão.

Às vezes, surpreendo-me ao relembrar pessoas há tempos esquecidas: Raimundinha. Mundinha costureira. Casa da vovó. Baralho com os primos. Vovó falando para quem não estava no jogo: "Não vale peruar". Uma lembrança puxa a outra e, se continuo, é como puxar a linha de um novelo que não termina.

Quando a associação funciona, respiro aliviada. É delicado chamar as pessoas pelo nome, reconhecê-las. Talvez porque, ao ouvir o próprio nome, a gente se sinta, ainda que por um instante, existindo para alguém.

Outro dia, entrei em uma ótica e uma moça muito gentil me atendeu. Como é o seu nome? Wendy, respondeu. Fiquei animada e logo associei: a Wendy do Peter Pan? Ela sorriu e disse: não, foi um nome que minha mãe viu num romance. Você conhece a história original? Só conheço as adaptações da Disney, ela respondeu.

"Wendy estava brincando no jardim e, depois de colher mais uma flor, correu para junto de sua mãe. "Ah, se você ficasse assim para sempre!", disse a senhora Darling. Foi a partir daí que Wendy soube que teria de crescer. A gente sempre sabe quando tem dois anos: dois é o começo do fim."

Peter Pan foi, certamente, o livro que mais li para os meus filhos. Logo na primeira página, eu já ficava angustiada, engasgava-me e, em seguida, falava com uma voz bem animada, quase cantada: "Dois é o começo do fim!" Eles riam e pediam: faz de novo, mamãe, faz de novo.

E eu fazia tantas vezes que, em certo momento, já não lia mais aflita e me demorava um pouco mais na Terra do Nunca. Quem sabe ali fosse a terra do sempre.

Nessa época, eu lia sem óculos. Agora, compro meu primeiro par. Espero que me ajudem a enxergar melhor as minúcias do mundo, dos outros e as minhas, como escreveu José Saramago, "Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara."

Qual é mesmo o seu nome?

(*) Médica psiquiatra.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 21/04/2026. Opinião. p.22.


domingo, 7 de junho de 2026

Causo Médico: O ENTERRO DE UM FUNDADOR

Corriam os anos setenta do século antanho, quando a comunidade médica e a sociedade locais foram colhidas pelo abrupto falecimento de um dos fundadores da primeira Faculdade de Medicina de um estado nordestino.

À beira do túmulo, sem pedir licença a ninguém, um antigo catedrático da escola médica, possuidor de grande erudição, resolveu fazer uso da palavra e tome a falar, discorrendo sobre os notáveis feitos do falecido, enaltecendo suas valorosas qualidades.

Falou tanto, que só faltou dizer que o morto, como sempre, estava na vanguarda institucional, e que, logo mais, seria seguido por seus colegas docentes, que fariam companhia a ele na morada eterna. Por muito pouco, o orador não chegou a apontar e a nomear os seus colegas médicos, dentre os ali assistentes, que o acompanhariam, algo que, certamente, causaria um certo rebuliço e desconforto entre os que seriam indicados para um tão inusitado séquito funéreo.

Após mais de uma hora de laudatório no campo santo, com o sol a pino, pois chegara o meio-dia, sem sinais de quaisquer nebulosidades que amenizassem os efeitos das radiações ionizantes, com os presentes suando a cântaros, os coveiros, cansados de esperar, encostaram suas pás e foram descansar sob a sombra de uma velha árvore.

O receio era de que o extinto, a qualquer instante, decidisse despertar do sono da morte, rogando que o fastidioso discurso fosse interrompido, deixando-o, finalmente, descansar na eternidade, liberando, assim, familiares e amigos de tão demorada cerimônia fúnebre.

Marcelo Gurgel Carlos da Silva

Da Sobrames/CE e da Academia Cearense de Médicos Escritores

Fonte: SILVA, Marcelo Gurgel Carlos da. Medicina, meu humor! Contando causos médicos. 2.ed. Fortaleza: Edição do Autor, 2022. 144p. p.77.

* Republicado In: SILVA, M.G.C. da. Causo médico: o enterro de um fundadorIn: Revista AMC (Associação Médica Cearense). Janeiro de 2025 - Edição n.40. p.24 (online). (Doc. Nº 8.2.747).


 

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