segunda-feira, 2 de março de 2026

O MERGULHO

Por Patrícia Soares de Sá Cavalcante (*)

Sentada na escadaria, sentia o sol esquentar a pele e olhava o mar ao longe. Fixava o horizonte e imaginava o outro lado do mundo. Sem a menor noção de geografia, passava horas pensando aonde chegaria se o atravessasse.

Tomava banho no raso, aprendendo o momento certo do mergulho. O caldo era inevitável. Vinha forte, agressivo. Ao cair, eu me assustava, mas depois o prazer predominava. Avançava um pouco em direção ao fundo. Apenas o pescoço de fora. De vez em quando, a onda cobria meu corpo inteiro. Ficava sem dar pé por alguns segundos, mas logo sentia os pés tocarem a areia.

Terra firme. Precisava de terra firme. Tinha que saber onde pisava. O outro lado era um país imaginário, estrangeiro. O desconhecido era areia movediça.

Havia, ainda, a transparência da água. Via o que não queria ver. Dava muito medo. Era bonita, límpida, mas assustava. Preferia a turva - ali, conseguia esquecer os riscos, ou ao menos não pensar neles. Na água turva, permitia-me boiar.

Aquele mar avançou e levou a escada. Perdi o acesso, mas ele não me deixou. Voltava nos meus sonhos. Ficava no alto, observando se conseguiria entrar. Na maré baixa, talvez.

Aventurei-me em outros mares. Pulei em alto-mar. Qual seria a profundidade ali? O que teria embaixo? As pernas agitavam demais. Fui controlando o ritmo e comecei a nadar. Estava tranquila entre o fundo e a superfície. Flutuava na água transparente. A água cintilava.

Mergulhei. A descida foi lenta, muito lenta. O fundo do mar é imenso. A luz do sol penetra na água e abre um feixe luminoso. Meus olhos se arregalaram. Os peixes eram menores do que eu imaginara. Vi um naufrágio. Aproximei-me. Que vestígios guardava? O casco estava coberto de algas e conchas. Não tinha nada de tão assustador. Carregava histórias. Sustentava vida. Descansava no fundo. Também tinha encontrado a terra. Continuei descendo, completamente absorta.

Pisei.

No fundo do mar, a terra é firme.

Voltei a flutuar suavemente. A claridade foi aumentando. Senti o sol sobre a pele. Emergi.

(*) Médica psiquiatra.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 27/01/2026. Opinião. p.16.

Um alerta aos homens de todas as idades

Por Diego Capibaribe (*)

Quando falamos em câncer masculino, a maioria das pessoas se lembra do câncer de próstata. No entanto, existe outro tumor, menos frequente, mas potencialmente grave, que afeta principalmente homens jovens: o câncer de testículo. Apesar de raro, representa o tumor sólido mais comum em homens de 15 a 35 anos, uma faixa etária que, por se considerar saudável, muitas vezes negligencia a própria saúde.

Um ponto animador é o câncer de testículo ser altamente curável na maioria dos casos, mesmo quando diagnosticado em estágios avançados. Mas, para isso, é preciso que o homem esteja atento aos sinais. O sintoma mais frequente é o aparecimento de um nódulo endurecido ou aumento do volume em um dos testículos, geralmente indolor. Para nós, urologistas, a ausência de dor é traiçoeira, pois leva muitos pacientes a retardarem a procura por atendimento.

Embora não exista uma causa única, sabemos que fatores como o histórico de criptorquidia (testículo que não desceu para a bolsa escrotal na infância), antecedentes familiares e algumas condições genéticas aumentam o risco. Por este motivo, sempre reforço a importância do autoexame testicular mensal (que pode ser feito durante o banho, quando a pele do escroto está mais relaxada), um gesto simples, que leva menos de um minuto e pode salvar vidas.

O tratamento da doença depende do tipo e do estágio do tumor, mas normalmente começa com a remoção cirúrgica do testículo afetado. Em seguida, podem ser indicadas quimioterapia ou radioterapia, com excelentes índices de sucesso. E aqui está a mensagem fundamental aos leitores: perder um testículo não afeta necessariamente a fertilidade nem a produção hormonal de forma significativa, e hoje há próteses testiculares que restauram a estética e a autoestima do homem.

Como médico, penso que precisamos quebrar o tabu em torno da saúde masculina. A vergonha e a desinformação ainda são barreiras perigosas, que podem custar caro. O diagnóstico precoce é nossa arma mais poderosa, e começa com a atenção do próprio homem ao seu corpo. Cuidar de si não é sinal de fragilidade, mas de responsabilidade.

(*) Médico urologista. Especialista em cirurgia robótica.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 25/01/2026. Opinião. p.22.


domingo, 1 de março de 2026

Causo Médico: SALGADOS, MUITOS. SIMANCOL, ZERO

Por volta de 1965, uma determinada escola de Medicina estava sediando um evento comemorativo e decidiu oferecer uma pequena recepção aos participantes. Como não havia recursos para contratar um “buffet” completo, e sequer garçons, para os serviços pertinentes, a direção dessa faculdade decidiu improvisar, colocando o pessoal de limpeza para servir os acepipes aos comensais.

Um dos recrutados para a tarefa foi o faxineiro do bloco didático, bastante conhecido por suas estripulias e pela absoluta falta de “simancol”. Ele estava ali, para o que desse e viesse, sem se mancar com as “ratas” que certamente acabaria por provocar. Foi aí que, portando uma bandeja com salgadinhos, dirigiu-se a um grupo de professores, composto, notadamente, por cirurgiões de nomeada, oferecendo a variedade dos canapés àquela roda de mestres.

Discretamente, o Prof. Aroldo Ferreira (nome fictício) pegou um salgadinho, no que foi surpreendido pelo serviçal, com essa provocação:

– Num se acanhe não, Dr. Aroldo. Pode pegar mais e até “butar” nos “bolso” do paletó, pra levar pros bichinhos da sua casa.

Polidamente, o Prof. Ferreira recusou a oferta, esboçando um sorriso para o colega Prof. Nelson Gonçalo (nome fictício), que estava ao seu lado, ambos tomados por um certo constrangimento, diante da falta de lhaneza do improvisado garçom.

O faxineiro não perdeu a oportunidade para insistir:

– Dr. Nelson, deixe de “encabulação” e “atraque” suas mãos aqui pra pegar um bocado pra levar pra família. Tem muito lá dentro. Acho qui vai sobrá muito desse troço – arrematou o servidor, garçom de araque.

Os dois afamados cirurgiões, como autênticos gentis-homens, decidiram ignorar as tantas tentações do momento e puxaram um assunto médico para seguir a conversa, dispensando os préstimos do pseudogarçom, que ficou a procurar outros mestres dispostos a ouvir suas baboseiras, quiçá a fazer uso da velha tática de juntar pasteis e canudinhos para o “jantar” do cãozinho de estimação, quando, na verdade, eles próprios é que estavam inclinados a fartar o bandulho com os deliciosos salgadinhos da festa.

Marcelo Gurgel Carlos da Silva

Da Sobrames/CE e da Academia Cearense de Médicos Escritores

Fonte: SILVA, Marcelo Gurgel Carlos da. Medicina, meu humor! Contando causos médicos. 2.ed. Fortaleza: Edição do Autor, 2022. 144p. p.73-74.

* Republicado In: SILVA, M.G.C. da. Causo médico: salgados, muitos. Simancol zero. Revista AMC (Associação Médica Cearense). Julho de 2024 - Edição n.34. p. 27-27 (online).


Mais vagas, menos estrutura: o risco da proliferação de cursos de Medicina

Por Daniel Pinheiro (*)

Os resultados mais recentes do Enade, divulgados pelo Ministério da Educação, trouxeram um dado que não pode ser ignorado: um número expressivo de cursos de Medicina (32%) obteve desempenho insatisfatório, levando o próprio governo federal a anunciar medidas de supervisão, redução de vagas e suspensão de novos ingressos.

Mais do que um ranking acadêmico, o Enade funciona como um termômetro da qualidade da formação médica no país - e o diagnóstico é preocupante. Ele expõe, de forma objetiva, os efeitos de uma expansão acelerada e pouco criteriosa das escolas médicas no Brasil.

Apresentada como solução para a escassez e a má distribuição de médicos, a abertura indiscriminada de cursos tem sido conduzida, em muitos casos, sem o planejamento necessário para garantir formação adequada. A Medicina é uma profissão de alta complexidade, cuja aprendizagem depende menos da sala de aula e mais do contato supervisionado com pacientes reais.

Hospitais, unidades básicas, emergências e equipes de preceptores experientes são o verdadeiro núcleo da formação médica. Esses cenários, contudo, não se multiplicam no mesmo ritmo das autorizações de novos cursos.

Criam-se faculdades, mas não se criam hospitais-escola, leitos, centros cirúrgicos, UTIs e preceptores qualificados em quantidade suficiente. Quando o campo de prática é insuficiente, o estudante torna-se observador passivo ou executa atividades sem a supervisão adequada. Isso compromete a formação e coloca o paciente em situação de risco. O problema deixa de ser apenas educacional e passa a ser um problema concreto de segurança do paciente, com potencial aumento de erros, retrabalho, judicialização e custos para o sistema de saúde.

Há ainda um equívoco estrutural que o próprio Enade ajuda a revelar: formar mais médicos não significa, automaticamente, garantir médicos onde a população precisa. A experiência brasileira demonstra que a simples ampliação do número de diplomas não corrige a concentração de profissionais nos grandes centros.

Fixação depende de carreira, remuneração, infraestrutura, suporte diagnóstico e condições de trabalho - fatores que não se resolvem simplesmente com a abertura de faculdades. Países com bons indicadores de saúde não alcançaram esse patamar multiplicando escolas sem critério, mas investindo em planejamento, avaliação rigorosa e forte integração entre ensino e sistema assistencial.

Persistir na expansão descontrolada da formação médica é assumir um risco coletivo. Em Medicina, os custos do improviso não são abstratos nem estatísticos: recaem diretamente sobre vidas humanas. E esse é um preço alto demais para qualquer sociedade responsável.

(*) Médico otorrinolaringologista.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 19/02/2026. Opinião. p.11.


A formação médica não pode ser laboratório político

Por Heitor Férrer (*)

Ser atendido por um médico mal formado corre-se mais risco do que não ser atendido. Essa afirmação, dura, resume o momento crítico que atravessa a formação médica no Brasil. Não se trata de debate acadêmico nem de disputa ideológica. Estamos falando de vidas humanas, de saúde pública e do futuro do sistema de atenção à saúde no Brasil.

Os dados recentes do Exame Nacional de Desempenho dos Estudantes de Medicina são um alerta inequívoco. Cerca de 32% das faculdades avaliadas apresentaram desempenho catastrófico. Na prática, mais de 100 instituições com desempenho abaixo do mínimo aceitável, sujeitas a sanções e até à suspensão de vagas, ainda que a maioria tenha alcançado proficiência. É um contingente elevado demais para ser tratado com indiferença.

Há um risco direto à sua pública. Cada médico mal formado representa um risco concreto a cada um de nós. Não é apenas um dado estatístico, mas alguém exposto a erros de diagnóstico, condutas inseguras e equivocadas. Durante a pandemia, isso ficou evidente quando profissionais recém-formados demonstraram dificuldades em procedimentos básicos, como a correta intubação de pacientes graves. Falhas como essa se transformam em tragédia. Elas custam vidas.

Minha crítica não é de agora. Desde o ano passado, venho alertando, na Assembleia Legislativa, para a proliferação irresponsável de cursos de medicina sem estrutura adequada. Formar médicos exige mais do que autorização administrativa. Exige professores qualificados, hospitais de ensino, leitos disponíveis, preceptores experientes e uma rede pública preparada para receber estudantes com supervisão rigorosa.

No Ceará, diante da quantidade de cursos autorizados, pergunta-se: onde estão os hospitais de ensino? Onde estão os campos de prática? Onde estão os mestres?

Ao se permitir faculdades sem condições reais de formação, estamos comprometendo a formação médica e quem pagará essa conta será o cidadão.

A expansão sem critérios transforma a medicina em laboratório político, como a atual política do MEC, dirigido pelo ex-governador Camilo Santana insiste em fazer. A formação médica exige planejamento, responsabilidade e compromisso com a qualidade. Reduzi-la ao aumento do número de vagas é erro grave. Vidas estão em jogo.

(*) Médico e deputado estadual (Solidariedade).

Fonte: Publicado In: O Povo, de 6/02/2026. Opinião. p.17.


sábado, 28 de fevereiro de 2026

Proliferação de escolas médicas - a compaixão como solução

Por Fernando Barroso (*)

Nos dias de hoje um dos temas mais debatidos, é sem dúvida a grande proliferação de escolas médicas, essa profissão nobilíssima, desde os primórdios da humanidade. Há relatos que temos no Brasil aproximadamente 500 escolas médicas na atualidade e este número é mesmo inexato, e somente de janeiro de 2024 até setembro deste ano, mais 77 escolas médicas foram criadas e estima-se que mais de 50000 médicos se formam por ano, e só perdemos para Índia, que tem 600 escolas médicas, porém tem 1,4 bilhões de habitantes.

Podemos dizer que na busca de resolver o problema, criamos um maior. Existe uma plêiade de questões envolvidas: Não temos professores suficientes para o ensino, estas faculdades em sua maioria não têm um Hospital escola para treinamento destes estudantes, e esse trinômio professor, hospital e paciente, é essencial para a formação adequada. Infelizmente corremos o risco de formar profissionais despreparadas para o exercício e as vagas de residência médica, um campo de prática necessário, não são suficientes.

A medicina é uma das profissões mais nobres que alguém pode escolher, aprendemos desde cedo que a saúde é o bem maior que temos e precisa ser preservado. O curso de medicina exige muita dedicação nos estudos, nos plantões, nas noites mal dormidas, na angústia de ter que dar um diagnóstico correto ou mesmo decidir qual a melhor conduta, fazendo que muitas vezes nos deparemos com a vida e a morte, e esta então temos que aprender a lidar, sem jamais perdermos a esperança ou o sentimento de compaixão com a dor do paciente ou seus familiares.

Inevitavelmente me questiono o que pode ser feito para atenuar essa situação, pois nos últimos anos vimos a criação de programas de governo, como Mais médicos ou o mesmo o Mais Especialistas, mas lamentavelmente não acompanham em termos proporcionais os milhares de novos médicos e novas escolas que pululam do mar ao sertão.

Talvez nossa missão no momento, seja alertar e até mesmo apelar para o sentimento de compaixão para com os pacientes, de se ter empatia, tentar entender a dor e o desespero do outro, preservando a sua privacidade e se desvencilhando de qualquer preconceito ou vaidade pessoal, e tudo isso precisa ser exercitado, para minimizar as deficiências de uma formação médica sob riscos claros de degeneração.

Se espera dos médicos a santidade, a bondade, a resiliência, a caridade, o acolhimento, as boas virtudes, a compreensão e talvez atitudes sobre-humanas mesmo, mas eu ouso afirmar que o principal requisito é gostar de gente, do contrário jamais deveria abraçar essa profissão.

Que possamos seguir e que essa discussão não seja esquecida, pois toda a sociedade paga o preço por essa situação.

(*) Professor da UFC e chefe da Hematologia e Transplante de Medula Óssea do Hospital Universitário Walter Cantídio. Membro titular da Academia Cearense de Medicina.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 29/01/2026. Opinião. p.17.


O desafio da formação médica com qualidade

Por João Macêdo Coelho Filho (*)

A abertura de novas escolas médicas, que possibilitou o acesso de milhares de jovens ao curso de Medicina, não se deu por mecanismos uniformes de planejamento, aprovação, acompanhamento e supervisão. Concentrada majoritariamente na iniciativa privada, esteve, em diversos contextos, associada a interesses políticos e econômicos, frequentemente dissociados de critérios técnicos, das reais necessidades do Sistema Único de Saúde (SUS) e da capacidade instalada para garantir formação de qualidade. Esses fatores passaram a suscitar questionamentos quanto à qualidade da formação médica atualmente em curso no país.

O Exame Nacional de Avaliação da Formação Médica (Enamed), instituído pelo Ministério da Educação (MEC), trouxe resultados relevantes e preocupantes. Entre os 351 cursos avaliados, mais de um terço dos estudantes concluintes situou-se nas faixas insatisfatórias (conceitos 1 e 2, em uma escala de 1 a 5).

Quase 60% das instituições privadas com fins lucrativos permaneceram nessas faixas. Em contrapartida, entre as instituições públicas federais e estaduais, 87% alcançaram conceitos elevados, dados que evidenciam a centralidade dessas instituições na formação médica de qualidade no Brasil e a importância de investimento contínuo e estruturante nesse setor.

Enquanto alguns cursos atingiram, nessa avaliação, patamares de excelência - como o curso de Medicina da UFC Fortaleza -, outros revelaram fragilidades que colocam em dúvida sua capacidade de formar profissionais alinhados às necessidades do SUS e às exigências contemporâneas da prática médica. Esses resultados deverão servir de referência para ações regulatórias do MEC, que se mostram urgentes e imprescindíveis.

A implementação sistemática do Enamed representa um avanço importante, mas persistem desafios para o seu aperfeiçoamento. Trata-se de uma prova objetiva de múltipla escolha, focada predominantemente no conhecimento técnico-teórico, que deixa à margem competências práticas e habilidades relacionadas à ética, à comunicação e à empatia - todas essenciais e previstas como obrigatórias nas Diretrizes Curriculares Nacionais. Ademais, os processos avaliativos deveriam contemplar de forma mais direta as próprias instituições e seus cursos, e não apenas o desempenho individual dos estudantes.

Espera-se, portanto, que a formação médica no país seja qualitativamente rigorosa e assumida como uma responsabilidade estratégica, afinal trata-se da preparação de profissionais que cuidarão de bens insubstituíveis: a saúde e a vida de toda a sociedade.

(*) Médico geriatra e diretor da Faculdade de Medicina da UFC.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 28/01/2026. Opinião. p.15.


 

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