sábado, 14 de fevereiro de 2026

PISCAR DE OLHOS: 43ª Antologia da Sobrames/CE - 2025

A série de Antologias da Sociedade Brasileira de Médicos Escritores – Regional Ceará (Sobrames/CE), com ponto de partida em 1981, atingiu agora em 2025 a sua 43ª edição, demonstrando vitalidade e continuidade.

Essa publicação possui 64 participantes, sendo 60 médicos, uma acadêmica de Medicina e três sobramistas não-médicos; os três derradeiros, incluídos como autores convidados, visto pertencerem ao nosso quadro de associados como sócios beneméritos.

Na reunião ordinária da Sobrames/CE, conduzida de forma virtual em 11/08/2025, dentre os tantos títulos sugeridos pelos sócios, após sucessivas rodadas de discussão, culminada em escrutínio, foi aprovada a proposta, indicada por Walter Miranda, que se consagra com o maior responsável pelos títulos das antologias da Sobrames/CE.

Desta feita, para 2025, fora aprovado denominar a obra de “Piscar de Olhos”, cujo significado “pode se referir ao ato físico de fechar e abrir as pálpebras rapidamente, que tem funções vitais, como lubrificar e limpar os olhos, além de servir como uma pausa mental. O piscar de olhos também pode ser uma expressão de comunicação não-verbal, uma piscadela, indicando amizade, flerte ou cumplicidade.” Ademais, a frase “num piscar de olhos” significa algo que acontece muito rápido.

Por tradição, e aliás, raramente rompida, a Sobrames/CE recorreu a um literato externo, notadamente vinculado a outras confrarias, para prefaciar suas antologias anuais. Desse modo, observando a mesma excepcionalidade que foi aplicada aos sobramistas Paulo Gurgel, Flávio Leitão e José Maria Chaves, foi indicado o médico e escritor Lúcio Gonçalo Alcântara para dar cabo dessa tarefa, o que é motivo de gáudio nosso, por sua valorosa contribuição como atuante sobramista, no percurso de três lustros, ao tempo em que ele, por justas razões superiores, paulatinamente, vem se desligando de seus vínculos societários.

Lúcio Alcântara é membro titular da Academia Cearense de Letras, da Academia Cearense de Médicos Escritores (Acemes) e da Academia Quixadaense de Letras; membro honorário da Academia Cearense de Medicina e sócio da Sociedade Brasileira de Médicos Escritores – Regional Ceará, da Associação Brasileira de Bibliófilos e do Instituto do Ceará: Histórico, Geográfico e Antropológico. É um assíduo participante das antologias da Sobrames/CE, desde 2011, e da Revista da Acemes desde o número zero.

Na oportunidade, comporta salientar, mais uma vez, a colaboração do colega sobramista Isaac Furtado, prestigiado cirurgião plástico e artista plástico, um mestre na arte do manuseio do bisturi e dos pincéis, um esmerado criador das capas das antologias da Sobrames/CE.

Ao ensejo do momento do lançamento desse livro, a Sobrames/CE agradeceu à Sra. Orlânia Dutra, nossa prestimosa secretária, por sua dedicação à montagem desta antologia, bem como a todas as instituições e empresas que inseriram anúncios no encarte da mesma.

Que, entre um e outro pestanejar, a leitura de “Piscar de Olhos” mantenha os olhos abertos e lubrificados, para sorver bons momentos, em prosa e em verso, do teor deste livro.

Cons. Marcelo Gurgel Carlos da Silva

Sócio da Sobrames/CE – Editor

* Publicado In: Jornal do médico, 21(198): 34-35, novembro de 2025.


RECOMEÇAR É UM ATO DE ESPERANÇA

Por Pe. Eugênio Pacelli SJ (*)

Janeiro chega como uma página em branco, mas não como esquecimento. O recomeço cristão não apaga o que foi vivido; ele o redime. Traz consigo a memória das dores, das perdas e das travessias, mas também a convicção profunda de que Deus continua a agir na história concreta, exatamente onde a vida pareceu mais frágil. Recomeçar, à luz da fé, não é negar o cansaço da alma, mas decidir caminhar com ele, confiando que a graça precede cada passo.

Sob a ótica inaciana, o tempo não é um inimigo a ser vencido, mas um espaço sagrado onde Deus se revela. Santo Inácio de Loyola nos ensina a “buscar e encontrar Deus em todas as coisas”, inclusive nos escombros interiores que carregamos de um ano para outro. O recomeço, portanto, não nasce da pressa por resultados nem da ansiedade por controle, mas do discernimento espiritual: escutar o que o Espírito diz ao coração, reconhecer limites, nomear feridas e permitir que a esperança se organize por dentro, com realismo, paciência e profundidade.

Não é por acaso que janeiro também é o mês dedicado à saúde mental. Cuidar da mente é um gesto profundamente espiritual. Uma fé que ignora o sofrimento psíquico torna-se abstrata; uma espiritualidade que não acolhe a fragilidade humana perde sua encarnação. O cristianismo não propõe uma felicidade artificial, mas uma esperança realista, capaz de conviver com a ansiedade, o luto, o medo e a exaustão, sem transformá-los em culpa ou fracasso pessoal.

Para 2026, a esperança cristã não se apresenta como promessa de facilidades, mas como certeza de companhia. Deus não nos promete ausência de desertos, mas sua presença fiel no meio deles. Recomeçar é aceitar que a vida segue em processo, que nem tudo se resolve de imediato e que a saúde da alma também se constrói com pausas, silêncio, oração, acompanhamento espiritual e ajuda concreta.

Talvez o maior recomeço deste tempo seja aprender a viver com mais verdade, menos exigência e mais misericórdia consigo mesmo. Onde há cuidado, há reconciliação interior. Onde há escuta, nasce a esperança. E onde há esperança, mesmo que pequena, Deus já está trabalhando.

(*) Sacerdote jesuíta e mestre em Teologia. Escritor. Diretor do Mosteiro dos Jesuítas de Baturité e do Polo Santo Inácio. Fundador do Movimento Amare.

Fonte: O Povo, de 10/01/2026. Opinião. p.18.


sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026

Crônica: “Na minha época era só um lesado” ... e outros causos

Na minha época era só um lesado

Dr. Chico Mamão, colega do Grupo Escolar Gustavo Barroso - bairro de São Gerardo, final dos anos 1960. Pense num menino "avoado", tipo desligadão de tudo, se abrindo pro tempo, "obrando e andando pra não fazer ruma"... Ele me conta, em síntese - via zap, novidade deveras valendo, nos tempos atuais.

- Jornalista, de repente eu me deparo com uma ruma de gente se descobrindo portadora de condições como Transtorno do Espectro Autista (TEA), TDAH, dislexia e tal e coisa. Do nada, um povo se dizendo neurodivergente.

Eu, confabulando comigo mesmo ealguns botões...

- Na verdade, Mamãozim! Tudo isso são "variações naturais do funcionamento cerebral humano", não são falhas. E se havia ontem, muito mais se observa presentemente. São amores nossos!

- É vero! Minha filha, médica, assume na boa que tem déficit de aprendizagem. Bacana!

- Isso é fruto da maior conscientização e aceitação social! Legal! E tu?

- Eu? Na idade dos meus 12 pros 13 anos, pelo jeitão de ser, eu era só um lesado véi!

Sonhou que era um vulcão...

Leontino Camiranga, guardem esse nome, acordou no meio da madrugada aos gritos. Pesadelo brabo. A mulher quem o despertou do "sonho vívido e perturbador", ao assistir ao desespero monossilábico do marido, trêmulo e suando em bicas.

- León!!! León!!! Acorda!!!

- Ham! Ham! Ham!... Medo, Jandira!!! Medo!!!

- Medo de que, homem?!?

- Medo, Jandira!!! Medo!!!

- De avião?!?

- Não, Jandira!!! Medo!!!

- Medo de que, criatura de Deus?!?!?!?

- Medo de peidar, Jandira!!!

- Ah! Passou, passou, passou...

Levantaram-se, higienizaram as partes, trocaram de roupa. Estão tomando café. Na mesa, um Leontino de olhar esgazeado, como se no mundo da lua. Algo a lhe doer muito - tal a densidade do sonho penoso de há pouco. Como se fosse provocar. Jandira analisa.

- Tá normal não, o meu véi! Tonha (filha deles), vá ao quintal do Zé Expedito e pegue cidreira, capim santo e alfavaca!

- Um peso, Jandira!!! Um peso!!! - murmurou Camiranga, em risco de desabar.

- Num falei, Tonha! Tá zuruó do juízo o meu esposo!

- Um peso, Jandira!!! Um peso!!! - continuou Leontino.

- Na consciência?!?

- Nos meus eggs!!!

Feita a comparação implícita...

Na casa de cumade Eurídice, professora prática de Português da única escola da comunidade. 11 da manhã e o menino mais novo dela reclama-se da dor que somente uma pratada de feijão com toicim pode aplacar.

- Tô com fome, mãe!

- Tem paciência, José!

- Mas eu tô com fome, mãezinha! Bucho colado no espinhaço...

- Filho, a fome é uma metáfora!

- Pois cozinhe uma pra mim... E bote uma coisinha de farinha por cima!

- Tá bom, José! Tá bom! Vou fazer um escondidinho de carne de sol pra você.

- Não, mãe! Me dê um dicumê que eu não precise procurar!

Fonte: O POVO, de 16/01/2026. Coluna “Crônicas”, de Tarcísio Matos. p.2.

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

LAUDATE: homenagens a confrades das academias médicas do Ceará

Por Antônio Augusto Guimarães Lima (*)

O livro Laudate – Aos Confrades das Academias Médicas do Ceará, de Marcelo Gurgel Carlos da Silva, é uma obra dedicada à valorização da história, da ética e da identidade das academias médicas do Estado. Publicado pelas Edições INESP (ALECE), o livro reúne registros históricos, homenagens a confrades e reflexões sobre o papel dessas instituições na preservação da tradição médica.

Mais do que um tributo, Laudate propõe uma reflexão sobre os desafios contemporâneos da profissão, especialmente diante das mudanças no ensino médico e na organização da assistência à saúde. O autor destaca que as academias não são apenas espaços honoríficos, mas centros de memória, cultura e responsabilidade moral.

Ao resgatar trajetórias de médicos que marcaram a história do Ceará, a obra reforça a importância da continuidade institucional e da formação humanística. O livro se dirige a médicos, professores e interessados na história da medicina, funcionando como um convite à preservação do legado profissional e ao fortalecimento dos valores éticos que sustentam a prática médica.

(*) Membro titular da Academia Cearense de Medicina.


MÉDICOS ESPECIALISTAS, EM TERMOS

Por Jocélio Leal (*)

Não é raro um paciente ser atendido por um médico portador de RQE - o Registro de Qualificação de Especialista - mesmo que este nem tenha feito uma residência. Em suma, um programa de pós-graduação lato sensu para médicos formados. Nesta formação, o foco é a especialização prática e teórica em uma área específica. Pode ser cardiologia ou nefrologia, por exemplo. É um período de treinamento intensivo em hospitais sob supervisão, visando obter o título.

Médicos com RQE, mas sem residência são uma temeridade. Mas é tudo legalizado. Pode ter sido aprovado em prova de título de especialista organizada por uma sociedade de especialidade reconhecida pela Associação Médica Brasileira (AMB). Só precisa da comprovação do dobro do tempo da residência no exercício da especialidade. Uma declaração de um município onde atuou como generalista sustentando que sim, atuava em área específica, resolve.

Com o número emitido pelo Conselho Regional de Medicina (CRM), fica oficializado. E como o paciente checa o RQE? Procura no site do Conselho Federal de Medicina (CFM) ou no Conselho Regional (CRM) - no Ceará o Cremec. Encontra o Registro, mas não sabe se foi obtido do modo mais consistente.

Aliás, há situações em que, por exemplo, hospital de oftalmologia emprega ainda residentes no serviço de urgência, mas esta já é outra história. Não é ilegal, porque enquanto médico ele pode abrir um peito ou uma cabeça. Não o faz porque não tem formação, mas legalmente pode.

E por que aumentou a olhos vistos a quantidade de especialistas sem residência? Porque as vagas para residência estão muito aquém da demanda, oriunda da enxurrada de faculdades Brasil afora, daí o pessoal busca o caminho mais curto. O número de escolas chega perto de 500, com mais de 50 mil vagas anuais, conforme diferentes levantamentos.

Sabe como é, o garoto ou garota passa seis anos a estudar na graduação, pagando algo na casa dos dois dígitos, e tem pressa para rentabilizar o canudo.

Agora no Ceará um pequeno alento. Após aderir a dois editais do Governo Federal e conseguir a aprovação dos projetos submetidos, a Escola de Saúde Pública do Estado passa a contar com novas 174 bolsas: 92 para a Residência Médica e outras 82 voltadas à Residência em Área Profissional da Saúde (Uniprofissional e Multiprofissional.

(*) Jornalista de O Povo.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 8/01/2025. Economia. p.13.

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2026

POSSES DOS NOVOS SÓCIOS NO INSTITUTO DO CEARÁ (fevereiro de 2026)

Alguns sócios na solenidade de posses de novos consócios no Instituto do Ceará em 10/02/26. (Foto cedida por Dr. Luciano Dídimo Camurça Vieira).

O Instituto do Ceará (Histórico, Geográfico e Antropológico) realizou na noite de ontem (11/02/26), no Palacete Jeremias Arruda, a solenidade de posse dos seus associados efetivos Drs. Angélica Cecília Freire Sampaio de Almeida, Joaquim de Albuquerque e Reginaldo Ayrton Pequeno Vasconcelos Bomfim Júnior, admitidos nas vagas geradas pela passagem à condição de sócio remido dos sócios efetivos Miguel Ângelo de Azevedo (Nirez), Paulo Elpídio de Meneses Neto e Pedro Sisnando Leite, e dos seus novos sócios colaboradores os Drs. Luciano Dídimo Camurça Vieira e Marco Antônio Praxedes César de Moraes Filho.

A saudação coletiva aos novos sócios, em caráter oficial do Instituto do Ceará,  foi pronunciada pela sócia efetiva Greciany Carvalho Cordeiro, que salientou as qualidades e a competências técnicas dos seus homenageados.

As palavras de agradecimento, em nome dos sócios efetivos recém-empossados, foram proferidas pela sócia Angélica Sampaio, seguidas do discurso do novo sócio colaborador Marco Antônio Praxedes, que falou pelos dois sócios colaboradores.

A solenidade, presidida pelo Seridião Correia Montenegro, Presidente do Instituto do Ceará, que assinalou a conclusão das melhorias fisicas efetuadas na seda da instituição.

Após a solenidade de posse, foi oferecido pelos recipiendários um coquetel aos convidados, nos majestosos salões e sacadas do Palacete Jeremias Arruda, que estava vistosa exibido, a partir da bela escadaria de entrada, objeto de um cuidado especial de restauração.

Marcelo Gurgel Carlos da Silva

Sócio do Instituto do Ceará

UMA QUESTÃO DE BOM SENSO

Por Tales de Sá Cavalcante (*)

A opção pelo uso de siglas é por vezes duvidosa. No caso de CPF, por exemplo, é de melhor uso do que "Cadastro de Pessoa Física". Por feliz iniciativa do prefeito Roberto Pessoa, a Biblioteca de Maracanaú chama-se "José Augusto Bezerra", decerto ali não haverá placa com a sigla BJAB. Esta seria ofensiva ao notório intelectual e à palavra biblioteca, que é de origem grega, na junção de biblíon (livro) com thḗkē (caixa, depósito), a formar uma coleção de preciosidades. Homenageados e fundadores não devem ser reduzidos a letras.

Já Mr. (mister) Trump fez pior ao extinguir a biblioteca da NASA (por sinal, uma boa abreviação). O saudoso e notável empresário José Dias de Macêdo, que criou a J. Macêdo (e não JDM), ensinava: "mais importante do que o que eu digo é o que você entende". O uso de siglas possibilita erro de interpretação, por serem simples iniciais.

A defender essa tese, a antiga Revista São Paulo Magazine já publicou texto sobre a visita de britânicos a uma casa alemã para alugá-la. De volta à Inglaterra, a senhora lembrou-se de não ter visto o WC e escreveu ao proprietário: "(...) sou da família que (...) o visitou (...), mas (...) agradeceríamos se nos informasse onde se encontra o WC". O alemão, não compreendendo o sentido da abreviatura "WC" e julgando tratar-se da capela da seita inglesa White Chapel, assim respondeu: "(...) o local a que se refere fica a 12 km da moradia. Isto é muito cômodo, sobretudo se tem o hábito de ir lá frequentemente (...). Alguns vão a pé, outros de bicicleta. Há lugar para 400 pessoas sentadas e 100 em pé. Os assentos são de veludo; recomenda-se chegar cedo para arrumar lugar sentado. (...) À entrada, é fornecida uma folha de papel a cada pessoa, mas, se chegar depois (...), pode usar a do vizinho ao lado. Tal folha deve ser restituída à saída para ser usada durante o mês. Existem amplificadores de sons. (...) Fotógrafos especiais tiram flagrantes para os jornais da cidade, de modo que todos possam ver seus semelhantes no cumprimento de um dever tão honrado". O uso de siglas é uma decisão sua, portanto uma questão de bom senso. E não "UQBS".

(*) Reitor do FB UNI e Dir. Superintendente da Org. Educ. Farias Brito. Presidente da Academia Cearense de Letras.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 8/01/26. Opinião, p.16.

 

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