sexta-feira, 16 de outubro de 2026

Não vou assistir ao país crescer

Por Carlos Roberto Martins Rodrigues Sobrinho (Doutor Cabeto) (*)

Não me refiro apenas aos números — ao PIB absoluto, à renda per capita ou a qualquer indicador que nos ofereça a ilusão de progresso. Falo de um crescimento mais profundo: aquele que se revela no bom senso, na responsabilidade social, na qualidade das escolhas, no respeito ao outro e na dignidade do trabalho.

É nesse terreno que continuamos pobres. Pobres nas atitudes e na compreensão de que nenhuma sociedade se sustenta quando o interesse individual se torna a única medida das coisas. Alguns dizem que nos faltam tempo e maturidade. Outros atribuem nossas fragilidades à herança colonial, a uma cultura dilacerada ou à ausência de identidade comum. Somos, afinal, uma mistura extraordinária e contraditória de povos, raças, crenças e costumes.

Cresci acreditando no país do futuro. Acreditava no esforço, no trabalho e na força do exemplo. Imaginava que a soma de condutas dignas construiria, pouco a pouco, um mundo melhor. Mas o tempo passou depressa. E a tecnologia, que nos libertou das barreiras de acesso à informação, também nos aprisionou em novas formas de manipulação.

Os algoritmos não ampliam necessariamente nossos horizontes; amiúde apenas repetem nossas preferências, confirmam preconceitos e alimentam certezas. Cercados por versões de nós mesmos, tornamo-nos cada vez menos capazes de mudar. É um paradoxo inquietante: nunca tivemos tanto acesso ao conhecimento e talvez nunca tenhamos sido tão resistentes à dúvida.

O que mais me preocupa, porém, é a assimilação dos maus hábitos e sua transformação em herança. Comportamentos repetidos deixam de causar estranheza, tornam-se aceitáveis e são transmitidos às novas gerações como se fossem naturais. A desonestidade vira esperteza; a grosseria, sinceridade; a irresponsabilidade, liberdade; a indiferença, mecanismo de sobrevivência.

Quando perdemos o apego à dúvida, ao questionamento, à análise crítica, à leitura e ao conhecimento, corremos o risco de formar uma sociedade de autômatos: pessoas que repetem palavras de ordem, escolhem sem refletir e obedecem sem compreender. Talvez isso explique a escassez de verdadeiros líderes. Eles não nascem do ruído, da popularidade instantânea ou da submissão às multidões. Nascem da capacidade crítica, da coragem de sustentar convicções legítimas e da disposição de se doar por algo maior do que si mesmos.

Ainda existe uma escolha. Podemos interromper a reprodução dos vícios, recuperar o valor do exemplo e reaprender a pensar. Não há crescimento verdadeiro sem responsabilidade, conhecimento e respeito. Caso contrário, restará o salve-se quem puder: uma sociedade permissiva com os maus hábitos, indulgente com escolhas imprudentes e incapaz de construir um destino comum. Nesse ritmo, talvez eu veja o país enriquecer. Crescer, temo que não.

(*) Médico. Professor da UFC. Ex-Secretário Estadual de Saúde do Ceará.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 10/09/2026. Opinião. p.15.


FOLCLORE POLÍTICO: Porandubas 734

Voltei reanimado

Porandubas está de volta, depois de um bom tempo fora do ar. Recolheu-se, como o profeta Zaratustra, para analisar as curvas da vida e prenunciar os tempos de amanhã. Para não perder o costume volta com uma historinha do coronel Juca Peba, da PB.

O coronel Juca Peba

Desconfiado e matreiro, o coronel Juca Peba não era de muita conversa. Tinha dinheiro, e muito, guardado sob o travesseiro. Até o dia que inauguraram a Agência do Banco do Brasil, em Cajazeiras. A gerente foi procurar o coronel Juca Peba com o argumento:

– Coronel, bote o dinheiro no banco. Vai ser guardado, bem guardado, e vai render juros.

Depois de muita conversa, e muitos cafés no varandão da casa, o coronel, ainda desconfiado, foi ao banco com 100 contos numa bolsa de couro. Tirou devagar o pacote. Contou. Uma, duas, três vezes. Depositou. Matreiro, ficou na espreita, na calçada, olhando, espiando o movimento do banco. Para ver se aquele troço não era tramoia. A desconfiança aumentou. Entrou no banco. Foi ao Caixa. Ordenou:

– Quero os 100 contos que eu botei aqui. Já.

Aflito, o bancário foi buscar o dinheiro. O coronel pegou o maço. Conferiu. Uma, duas, três vezes. E devolveu, sob a expressão juramentada:

– Eu só queria mesmo conferir. Pode guardar.

Fonte: Gaudêncio Torquato (GT Marketing Comunicação).

https://www.migalhas.com.br/coluna/porandubas-politicas/354213/porandubas-n-734

quinta-feira, 15 de outubro de 2026

MAIOR

Por Patrícia Soares de Sá Cavalcante (*)

Eu não conhecia "Maior", de Dani Black. Ouvi a música pela primeira vez com os integrantes do nosso coral Pedras que Cantam. A maioria também não a conhecia. Sabe aquela música que você escuta, imediatamente lhe causa um impacto e você já quer mostrar para alguém de quem gosta? Pois foi assim com "Maior". E foi maior por ter tido essa experiência de ouvir e depois cantar com o nosso grupo.

No último domingo, no teatro São José, entramos no palco a uma só voz. Em uníssono, cantamos: Eu sou maior do que era antes. Eu sou melhor do que era ontem. Eu sou filho do mistério e do silêncio. Somente o tempo vai me revelar quem sou.

Em seguida, o mesmo trecho foi cantado em perguntas e respostas. Os sopranos perguntavam, e os contraltos respondiam. Eu, no grupo dos contraltos, precisava ouvir para responder no tempo certo. Conter por alguns instantes a minha voz para que a voz do outro pudesse chegar inteira.

Finalmente, ainda repetindo o mesmo trecho, o coral se dividiu em vozes. Cada naipe assumiu uma linha melódica própria, mas todos permaneceram unidos pela mesma harmonia. A repetição não era desnecessária. Ao contrário: reforçava a ideia contida na letra de que precisamos estar atentos à voz do tempo para que o mistério de quem somos seja revelado.

Dividir vozes não é tarefa fácil. Mas o nosso querido maestro Tiago vem nos ensinando pacientemente. Passa um pequeno trecho de cada voz cantando e diz: "coloca no coração". A melodia dos sopranos, geralmente aquela que reconhecemos com mais facilidade, tende a nos atrair. A entrada de outro naipe pode nos confundir. Cada um precisa sustentar a própria linha, deixando que a diferença de sua voz participe da beleza do conjunto.

A letra fala da evolução do indivíduo com o passar do tempo. Cantamos esse crescimento em grupo. Um grupo ainda na sua segunda apresentação, que também cresce não apesar das diferenças, mas graças a elas.

A harmonia não nasce quando todos se tornam iguais. Ela nasce quando vozes diferentes soam como uma só, sem deixar de ser muitas.

(*) Médica psiquiatra.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 8/09/2026. Opinião. p.14.

ESMOLA versus VÍCIO

Por Pedro Jorge Ramos Vianna (*)

Não sou contra a ação social do Governo. Ou seja, sou a favor das ações nas áreas de justiça e segurança, os chamados "bens públicos" e das ações nas áreas de saúde e educação públicas, os chamados "bens meritórios". Entretanto, advogo o que era defendido pelo Barão Mauá, em 1878:

O melhor programa econômico do governo é não atrapalhar aqueles que produzem, investem, poupam, empregam, trabalham e consomem.

Infelizmente, esta não é a prática dos últimos governos brasileiros. Não só a burocracia, a desonestidade, a política econômica sem rumo e o excesso de "esmolas" à população, distribuído quase que aleatoriamente, são óbices ao desenvolvimento.

E o que isso tem a ver com a frase do Barão de Mauá? Os programas de esmolas do Governo estão criando uma geração brasileira de viciados em não trabalhar.

Há muitas evidências sobre pessoas que recebem o Bolsa Família que só querem emprego com a não assinatura da Carteira de Trabalho. E isso tem atrapalhado o emprego e, portanto, a produção, porque os empresários, por força de lei, só podem ter empregados com carteira assinada.

Na realidade, isso já era previsto em uma canção do Luiz Gonzaga e Zé Dantas, de 1953, que dizia: "Mas, doutor, uma esmola para um homem que é são ou lhe mata de vergonha ou vicia o cidadão".

Aqui, também, vale relembrar uma frase do filósofo e político romano Marco Túlio Cícero, escrita em 55, a.C.: "As pessoas devem novamente aprender a trabalhar. Em vez de viver às custas do Estado".

Outra frase, desta feita de Margareth Tatcher, merece reflexão: "Para cada pessoa que recebe sem trabalhar, uma outra deve trabalhar sem receber".

É esta a situação atual do emprego no Brasil.

Por que, no lugar do "Bolsa Família", não se cria o "Bolsa Emprego"? O que seria essa bolsa?

O "Bolsa Emprego" teria a seguinte característica: toda pessoa que fosse do Bolsa Família poderia se empregar recebendo o salário mínimo mais um percentual do que recebia pelo Bolsa Família. O salário seria pago pelo empregador e a outra parte, pelo Governo.

Como isso poderia acontecer? Todas as pessoas do "Bolsa Família" seriam cadastradas no "Bolsa Emprego", e haveria a oferta de emprego para essas pessoas.

Quem não pudesse, comprovadamente, trabalhar, seja por questão de saúde, seja por incapacidade física, continuaria no "Bolsa Família".

Para aquelas mulheres que não teriam com quem deixar seus filhos, os empregadores ofereceriam creches para cumprirem essa função. Mas quem pudesse trabalhar e não se empregasse perderia tal Bolsa.

Os salários de lei seriam pagos pelo empregador. As condições sociais fariam o resto.

É uma proposta. Cabe discussão.

(*) Economista e professor titular aposentado da UFC,

Fonte: O Povo, de 23/08/26. Opinião. p.18.


quarta-feira, 14 de outubro de 2026

Com apoio da Uece, ACM apresenta pesquisa com 486 biografias de médicos cearenses

(ACM) apresenta, nesta quarta-feira (14/10), os resultados de projeto que reúne 486 biografias de médicos cearenses formados até a metade do século XX.

A pesquisa será apresentada pelo professor da Uece e acadêmico Marcelo Gurgel, durante a Conferência Acad. Edísio Tavares de História da Medicina, intitulada “Alfarrábios de João Mota: biografias de médicos cearenses formados até a metade do século XX”. A apresentação do conferencista será feita pelo acadêmico Antônio Augusto Guimarães.

O evento ocorrerá às 15h, no auditório da Associação Médica Cearense, localizado no Shopping Avenida, 11º andar, sala 1.122, no bairro Meireles, em Fortaleza.

https://www.uece.br/noticias/com-apoio-da-uece-acm-apresenta-pesquisa-com-486-biografias-de-medicos-cearenses/

Fonte: ASCOM. Portal da Uece, 14/10/2026.

O RACIOCÍNIO CLÍNICO E A MÁQUINA

Por José Lima de Carvalho Rocha (*)

A Inteligência Artificial (IA) pode analisar sintomas, sugerir diagnósticos, propor exames e organizar informações em poucos segundos. Para o estudante de medicina, essa rapidez é atraente, mas oculta um perigo: uma resposta bem elaborada pode parecer correta mesmo quando não está.

Na formação médica, o uso inadequado da IA pode acarretar três efeitos: o estudante pode deixar de desenvolver competências, ao delegar cedo demais o raciocínio; perder competências já adquiridas por falta de exercício; ou aprender de modo inadequado ao aceitar respostas incorretas sem questioná-las.

Em todos os casos, surge um perigo: parecer competente com a ajuda da IA, mas não conseguir decidir sozinho. Assim, há um paradoxo: quanto mais eficiente a tecnologia, maior a tendência de confiar nela e delegar decisões; quanto maior essa dependência, maior o risco de enfraquecer justamente as habilidades necessárias para perceber quando a máquina erra.

A solução não é proibir a tecnologia, mas aprender a usá-la com método: primeiro pensar, depois consultar a IA. Diante de um caso clínico, o estudante deve inicialmente identificar os dados relevantes, formular hipóteses, considerar diagnósticos alternativos e justificar seu raciocínio, para depois comparar suas conclusões com as sugestões da ferramenta.

Se bem utilizada, a IA também enriquece o ensino, pois simula pacientes, apresenta situações clínicas pouco frequentes, oferece feedback e ajuda a identificar lacunas de aprendizagem. O professor pode apresentar respostas plausíveis, porém equivocadas, de IA e pedir ao estudante que identifique o problema, avalie suas consequências e reconstrua a decisão correta.

A avaliação também precisa mudar. Trabalhos escritos, isoladamente, dizem cada vez menos sobre o que o aluno, de fato, sabe fazer. Provas presenciais, discussões de casos e justificativas orais ajudam a verificar se o raciocínio é realmente do estudante. O desafio da educação médica será formar profissionais capazes de pensar sem IA, pensar melhor com ela e, sobretudo, reconhecer quando não devem confiar nela.

(*) Médico e pedagogo. Reitor do Centro Universitário Christus (UniChristus) e diretor do Colégio Christus. Membro da Academia Cearense de Medicina.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 21/08/2026. Opinião. p.18.


O CEARÁ E A DINÂMICA DA TRANSFORMAÇÃO

Por José Nelson Bessa Maia (*)

O desenvolvimento consiste em mudança estrutural contínua em sistemas econômicos e sociais. Ele ocorre por meio da superação de desequilíbrios e integração entre inovação tecnológica, adaptação institucional e melhoria na qualidade de vida, exigindo ajustes coordenados entre Estado, mercado e sociedade. Uma combinação difícil de ocorrer conforme destaca a literatura econômica.

Dentre os fatores que geram esse processo virtuoso estão: i) a migração de atividades de baixa produtividade (como agricultura de subsistência e terciário informal) para setores de maior valor agregado (indústria e serviços avançados); ii) a acumulação de capital, com investimentos em infraestrutura física, máquinas e novas tecnologias produtivas e iii) a inovação, que reflete a capacidade local de gerar e absorver conhecimento para elevar a eficiência geral da economia.

Crucial para o desenvolvimento é a capacitação pela elevação dos níveis de educação, saúde e qualificação profissional da força de trabalho, além da melhoria na governança, dada pelo aprimoramento de leis, regulações e instituições que garantam segurança jurídica e transparência. De resto, mas não menos importante, a redistribuição de renda que reduz disparidades, reforça a coesão social, amplia o mercado interno e gera estabilidade política.

Em que pesem as notórias restrições ainda existentes após 40 anos de reformas modernizantes, no Ceará atual respira-se transição acelerada e protagonismo regional. O estado registra crescimento econômico acima da média nacional, impulsionado pela consolidação de uma matriz energética limpa, atração de investimentos globais de alta tecnologia e por descentralização econômica voltada para o interior, inclusive no Sertão Central.

Apesar do ciclo virtuoso atual no Ceará, a dinâmica da transformação enfrenta barreiras críticas, como o clima semiárido, que exige gestão hídrica de precisão para evitar que estiagens travem o avanço da agropecuária, da industrialização e do abastecimento urbano, e a persistente desigualdade, que impede que a riqueza gerada no Complexo do Pecém, na Região Metropolitana de Fortaleza e nos hubs tecnológicos em formação, resulte em rápida redução da pobreza e em melhorias diretas na segurança pública e na renda de toda a população.

O desafio atual que o Ceará enfrenta em sua dinâmica de transformação, além das limitações de unidade subnacional num país de baixo crescimento, é superar a armadilha do crescimento sem mudança de patamar, o que exige converter bons indicadores fiscais, educacionais e de energia renovável em alteração profunda na renda média e no bem-estar da população, com aumento de sua participação para muito além dos parcos 2,1% na economia brasileira. Um desafio que precisa ser de vez enfrentado e superado!

(*) Ex-secretário de Assuntos Internacionais do Governo do Ceará, mestre em Economia e doutor em Relações Internacionais pela Universidade de Brasília (UnB) e, atualmente, consultor internacional.

Fonte: O Povo, de 22/08/26. Opinião. p.15.


 

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