Por Pe.
Reginaldo
Manzotti (*)
No mês de setembro somos
convidados a fixar os nossos olhos e o nosso coração no mistério mais profundo
do amor de Deus, a nossa devoção à Jesus das Santas Chagas.
Quando olhamos para o
Crucificado, ou quando contemplamos a imagem de Jesus Ressuscitado que traz em
Suas mãos, pés e lado os sinais da Paixão, nós não estamos olhando para marcas
de derrota. As Chagas de Jesus não são cicatrizes de uma humilhação passada;
elas são as marcas vitoriosas da nossa libertação, as fontes abertas da
Misericórdia Divina e os canais por onde corre a cura para nossas próprias
feridas.
Vivemos em um mundo marcado
por profundas feridas. Feridas na alma, feridas na mente, traumas que sangram
em segredo, marcas de rejeição, de abandono, de traição e de pecado. Quantos de
nós não trazemos cicatrizes dolorosas que ninguém vê? Tentamos disfarçar sob as
máscaras das aparências, mas, por dentro, a alma continua machucada.
Diante do nosso sofrimento,
Deus não permaneceu indiferente, assistindo à nossa dor do alto dos céus. O
profeta Isaías, séculos antes de Cristo, já profetizava o mistério da Redenção,
que cito continuamente: "Ele foi castigado por nossos crimes, e esmagado por nossas iniquidades;
o castigo que nos traz a paz caiu sobre ele, e por suas chagas fomos curados." (Is 53, 5)
Na Cruz, Jesus assumiu em
Seu próprio Corpo a dureza dos nossos pecados. Os pregos cravados em Suas mãos
puras e em Seus pés santíssimos, e, finalmente, a lança que abriu o Seu
Coração, tudo isso foi o preço pago para carregar em Si a culpa dos nossos pecados
e das nossas dores.
A Tradição da Igreja sempre
encontrou nas Santas Chagas um refúgio seguro contra os ataques do inimigo e
contra as desesperanças da vida. Os Santos Padres e os grandes místicos da
Igreja compreenderam que entrar nas chagas de Jesus é o caminho mais curto para
a santidade.
O Catecismo da Igreja
Católica ilumina de forma teológica esse mistério, mostrando que o sacrifício
de Cristo nas chagas é a expressão máxima da Sua liberdade e do Seu amor por
nós: "Jesus conheceu-nos e amou-nos a todos durante sua Vida, sua Agonia e
Paixão e entregou-se por todos e cada um de nós: "O Filho de Deus amou-me e
entregou-se por mim" (Gl
2,20). Amou-nos a todos comum coração humano. Por esta razão, o sagrado Coração
de Jesus, traspassado por nossos pecados e para a nossa salvação." (CIC
478)
E a Tradição vai ainda mais
longe. Por que Jesus, ao ressuscitar com um corpo glorioso, capaz de atravessar
portas, escolheu manter as Suas chagas? Ele poderia ter ressuscitado com o
corpo perfeitamente sem marcas. Mas Ele fez questão de mantê-las. Por quê?
Primeiro, para provar a Sua
identidade: Para mostrar aos discípulos assustados que Aquele que ressuscitou
era o mesmo que havia sido crucificado por amor.
Segundo, para interceder
por nós diante do Pai: A Tradição nos ensina que, no Céu, Jesus apresenta
continuamente ao Pai as Suas gloriosas chagas como uma oração perene em nosso
favor. Quando o Pai olha para o Filho, Ele vê as marcas do preço que foi pago
por cada um de nós.
Lembremo-nos do relato no
Evangelho de São João, os discípulos estavam trancados no cenáculo por medo.
Jesus aparece, deseja a paz e mostra as mãos e o lado. Mas Tomé não estava lá.
Quando os outros contam, Tomé dúvida: "Se eu não vir a marca dos pregos em suas mãos, se
não colocar o meu dedo no lugar dos pregos e não introduzir a minha mão no seu
lado, não acreditarei." (Jo
20,24-25)
Oito dias depois, Jesus
volta. Ele não vai para condenar a incredulidade de Tomé, mas vai diretamente
ao encontro da sua ferida espiritual. Jesus olha para Tomé e diz: "Põe o teu dedo aqui e olha
as minhas mãos. Estende a tua mão e coloca-a no meu lado. E não sejas
incrédulo, mas fiel." (Jo 20,27)
Ao tocar nas Chagas de
Jesus, Tomé não tocou apenas em carne ressuscitada; ele tocou na própria
essência de Deus. O homem que duvidava caiu de joelhos e pronunciou a profissão
de fé mais bela e direta de todo o Novo Testamento: "Meu Senhor e meu Deus!" (Jo 20,28).
As Chagas de Jesus têm o
poder de transformar a dúvida em fé, o desespero em certeza, a morte em vida.
Se realmente tocamos as Chagas de Cristo pela oração, pela adoração e,
sobretudo, no Sacramento da Reconciliação (Confissão) e da Eucaristia, a nossa
incredulidade cai por terra.
Quando o pecado pesar,
quando os pensamentos de autodestruição, de desespero ou de impureza assaltarem
a sua mente, faça o que os santos ensinam: "Senhor Jesus, esconde-me dentro das Vossas
Santas Chagas". Nelas
nenhum mal tem poder. Elas são a nossa fortaleza inviolável.
Meus irmãos, as Santas
Chagas de Jesus estão abertas e reluzentes de glória eternamente. Elas não
exigem de nós perfeição para entrar; elas exigem apenas a nossa pequenez e o
nosso desejo de cura.
Acolhamos hoje essa graça.
Que cada Chaga aberta seja para nós fonte de misericórdia, e que delas
jorre o amor que nos restaura.
Deus abençoe e o Senhor
Jesus das Santas Chagas os proteja!
(*) Fundador e presidente da
Associação Evangelizar é Preciso e pároco reitor do Santuário Nossa Senhora de
Guadalupe, em Curitiba (PR).
Fonte: O Povo, de 8/08/2026.
Opinião. p.14.

