sexta-feira, 5 de junho de 2026

Crônica: "Avohaia" - a vaia que leva o avô paia ... e outros causos

"Avohaia" - a vaia que leva o avô paia

Mencionada vaia eu levei dum menino de sete aninhos - o neto Bernardo. Tudo pela ausência de comprovação de que já treinei no Fortaleza Esporte Clube -Tricolor de Aço do Parque dos Campeonatos. Era o primeiro semestre de 1969, eu estive no Estádio Alcides Santos, no Pici, levado pelo Jurandir Branco (Jurandir "Ratinho", como o conhecíamos em São Gerardo), para mostrar alguma habilidade no "dente de leite".

- Com essa perna, vô? - pergunta curioso o amável netinho conversador.

- Não, eu nem caxingava ainda.

- Como foi nesse dia, no Leão?

- A ruma de meninos em campo, Jurandir botou uma camisa no meu ombro, pediu que eu vestisse e entrasse. Queria que eu desse uma de Croinha!

- Fez gol?

- Dez minutos, somente 10 gols!

- Égua do vô!!! Se garantiu!!! Me mostre uma foto do senhor em campo!!!

- Tem não, Bernardo!

- Mas vô, como é que eu vou acreditar nesses 10 gols?

- Minha palavra num vale?

- Vale, com uma foto!!!

Não deu outra - a "avohaia" comeu de esmola. Inda teve coice:

- Esse vovô jogador é muito paia! Em campo, vô! Em campo!...

A outra foi com tia Dilurde

A gente "véve" falando das coisas passadas, quando quase impossível era comprová-las por imagem, e passamos por loroteiros. Desta vez fui eu que duvidei de uma irmã de papai, na famosa história da dentadura. Nesse tempo não havia a fotografia fácil do celular. Que o comprove tia Dilurde, na consulta ao médico. Pela demora em ser atendida, foi ao banheiro. Terminado o serviço, despiu a boca das próteses dentárias para lavá-las, e assim a Binaca (spray de refrescar o hálito) fazer melhor efeito.

Desprovida dos dentes postiços que levara com esmero, deixados sobre o tampo da pia enquanto passava uma aguinha no rosto, ouviu seu nome ser chamado. Aperreada por ser atendida pelo clínico geral, deixou o banheiro e o par de próteses também. Já em atendimento, nem deu fé que estava banguela. O médico falou que tia estava bem, mas...

- ... precisa só botar esses dentes!

- Dentes? Ah! Peraí, doutor!

Lembrou-se da dentadura no banheiro e correu. Lá, porém, o canto mais limpo. Reclamou-se à atendente, que disse nada poder fazer. Confusão chega à gerência. Diretor vai direto ao assunto, pede foto dos dispositivos removíveis na bancada do WC.

- Como é que eu vou acreditar numa história dessa, senhora Dilurde?

- Minha palavra num vale?

- Vale, com uma foto!!!

Adjetivando o "bife do oião"

Todo santo dia lá estava o amigo Manel no restaurante da Vitória, e sempre a mesma comida no almoço: baião de dois, bife mal passado e farofa. Tinha dois anos isso. Até que uma vez, com jeito, perguntou à proprietária senão havia outra opção. Ela cismou.

- O senhor não está gostando do nosso dicumê, Dr. Manel?

- Tô gostando, sim! Ocorre que, tanto tempo com o cardápio igual eu...

- Ah, pois amanhã se prepare para uma surpresa! Maravilhosa surpresa, meu dotô!

Dia seguinte a surpresa: um ovo frito cobrindo o prato de sempre.

- Gostou?

- Formidável, maravilhoso, sensacional, fantástico, fora de série, inigualável!

Fonte: O POVO, de 8/05/2026. Coluna “Crônicas”, de Tarcísio Matos. p.2.


quinta-feira, 4 de junho de 2026

SONHOS NOSSOS

Por Pedro Bezerra de Araújo – Pierre Nadie

Todos temos nossos sonhos, que vão moldar nossas vidas: sonhos profissionais, sonhos intimamente pessoais, sonhos amorosos, sonhos espirituais.

Muitas pessoas, porém, não conseguem realizá-los. Não há uma explicação tão simples das razões e causas. São muitas variáveis, todavia, pode-se tentar ver o epicentro.

Em nosso processo de socialização, vamos aprendendo a lidar com nossos desejos e nossa vontade. Em princípio, espelhamo-nos em nossa família e dela dependemos também na obtenção de nossos desejos: comida, roupas, diversão. Suas atitudes de passividade e acomodação, de resistência, de proatividade, de resiliência causam-nos forte influência. E tudo isso é absorvido pelo nosso self, mas não de forma totalmente irreversível ou imutável, embora fiquem sombras que nos podem assustar. Ninguém é carimbo, tampouco produto enlatado.

Mais tarde, quando vamos tomando consciência de nós e do mundo ao nosso redor, começamos a tecer nossos planos para colimar nossos sonhos. Essa primeira etapa não pode ser burlada, ela vai nos ajudar a perseguir o ‘como’ do ‘o quê’ de nossos sonhos.

A realização de qualquer sonho precisa de uma estratégia, mesmo os mais simples, aliás, não somos nós a seguir nossos sonhos, ao contrário, são eles nos devem seguir. E, para isso, é imperioso conhecer seu portifólio, analisar nosso potencial e as condições que precisamos criar e desenvolver para que eles se nos aprocheguem e nós, em nós, façamos o seu lar.

Nessa empreitada – não é nenhuma novidade – devemos fazer reajustes, corrigir falhas e praticar reparos. Essas atitudes convêm a todos, mas nem todos a seguem. Entram em ação o autoconhecimento e autocrítica, de maneira lhana como convém a pessoas proativas e resilientes, cujo caráter respalda-se na humildade e na honestidade, diante da realidade dos fatos, mesmo porque fantasiar, ignorar ou culpar nunca foram bons assessores.

 Narrativas e desculpas não servem para nada. Desespero e lágrimas entornam o caminhar e decepcionam os sonhos, afastando-os de nós e nos desfazendo deles. 

 Nossa atitude de ousadia ou de covardia para com nossos sonhos traz um sinete de nossos vagidos, porém, o entorpecimento é um hóspede vitalício a nos incomodar e chacoalhar, se não descobrirmos seu esconderijo em nós e não o trouxermos para o campo de batalha a fim de fazê-lo calar-se e podermos prosseguir com os sonhos que desejamos, queremos e nos dispomos a colimar.

Há muitas outras encruzilhadas, algumas insanas e ríspidas, no entanto, o fundamental está na capacidade real do protagonista e, é bom dar-se conta, ao alcance de qualquer mortal.

Aprender as nuances dos sonhos e saber discernir oportunidades e possibilidades, refazendo-nos e reajustando-nos impõem-se, ‘sine qua non’, pois, querermos alcançar objetivos, repetindo os mesmos erros das mesmas estratégias é caldo mais de burrice do que de ignorância. Não se vai ao céu, permanecendo na trilha do inferno, nem vice-versa.

“Quem sabe faz hora, nunca espera acontecer”, assim cantava Geraldo Vandré, ainda em 1968.

Uma boa sexta-feira, com as bênçãos de Deus!!!

(*) Pediatra e professor da Uece aposentado. Enviado por WhatsApp em 17/04/26.

Aos bilionários do Ceará - sugestões II

Por Pedro Jorge Ramos Vianna (*)

Em artigo publicado neste conceituado Jornal, em 10/4/2022, fiz uma sugestão aos bilionários do Ceará. A ideia nasceu de uma reportagem sobre a compra de um iate feita pelo homem mais rico do mundo: o iate custou US$ 500 milhões e isso tinha representado, apenas, 0,03% de sua riqueza.

Àquela época, os bilionários cearenses eram 16 ou 17, segundo os jornais. A diferença talvez seja porque um deles não mora em Fortaleza. Sugeri que usassem 0,03% de suas fortunas para doarem casas populares para os sem-teto de Fortaleza. Em 2025 estes números mudaram: passou de 18 ou 19 e suas fortunas somaram R$ 58 bilhões, conforme os dados publicados na imprensa.

Por que voltei ao tema? Este ano a Campanha da Fraternidade da Igreja Católica tem como tema “Fraternidade e Moradia” e o lema "Ele veio morar entre nós". O que significa o vocábulo "Fraternidade"? Antigamente era a expressão de um valor fundamental de união entre as pessoas. Hoje, seu sentido é de um ideal de que todos os seres humanos devem ser tratados com igual dignidade e afeto.

Temos aqui dois dos temas fundamentais do artigo já publicado: o poder econômico e o problema da moradia para os "sem-teto". O que, na minha opinião, justifica este artigo.

Primeiro, ser bilionário não é ser um "Tio Patinhas". Suas fortunas são constituídas mais de bens valiosos do que de moedas. Por outro lado, os bens físicos têm a propriedade de envolver o sentimento de pertencimento, do apego, o que às vezes prejudica seu comércio.

Também se deve ter em conta que regras do IR permitem que um percentual do Imposto de Renda devido pelo contribuinte seja utilizado para doações. E isso é muito usado pelas pessoas que têm posse. Entretanto, neste caso, a doação é do Governo Federal, e não do contribuinte, pois esse recurso não mais lhe pertencia. Mas, em termos monetários, de quanto estamos falando?

Para responder, utilizarei os dados do artigo de 10/4/2024: àquela época, conforme dados fornecidos por um construtor: o custo da construção de uma casa popular seria em torno de R$ 80 mil. Como a inflação no período 2022-2025 foi de, aproximadamente, 5,63%, a construção de uma casa popular passou para algo em torno de R$ 83 mil. Dessa forma, 0,03% da fortuna de R$ 58 bilhões corresponderia a um valor em torno de R$ 17,4 milhões. O que equivaleria ao valor de, aproximadamente, 209 casas ao preço de R$ 83 mil cada uma,

Considerando que as estatísticas indicam um déficit de 2.863 casas necessárias para abrigar a população de rua de Fortaleza, isso representaria, apenas, 7% do déficit habitacional da cidade.

São dados aproximados, pois poder-se-ia construir casas mais baratas, em bairros distantes. Mas já seria uma grande ajuda para a Campanha da Fraternidade! Que Deus ilumine nossos bilionários!

(*) Economista e professor titular aposentado da UFC,

Fonte: O Povo, de 3/05/26. Opinião. p.18.


quarta-feira, 3 de junho de 2026

CONSAD NO CEARÁ: marco para a gestão pública

A Secretaria de Planejamento e Gestão (Seplag-CE) está trazendo para o Ceará o XV Congresso Consad de Gestão Pública, considerado o maior evento da área da América Latina. Pela primeira vez realizado fora de Brasília, o encontro ocorrerá entre os dias 20 e 22 de maio, no Centro de Eventos.

Com o tema "Governo Digital e Governança Interfederativa: a Agenda Estratégica do Estado do Futuro", o congresso adota uma abordagem multidimensional voltada ao fortalecimento da colaboração e à disseminação de boas práticas na gestão pública brasileira.

Vale ressaltar que a colaboração desempenha um papel fundamental na produção de conhecimento. Estudos recentes indicam que os padrões de interação em congressos podem ser usados para prever a formação de novas parcerias, mesmo quando essas interações são previamente organizadas e não escolhidas livremente pelos participantes.

Nesse contexto, destaca-se o estudo "Catalisando colaborações: interações prescritas em conferências determinam a formação de equipes", coordenado pelos pesquisadores Emma Zajdela e Daniel Abrams, da Universidade Northwestern. A pesquisa demonstrou que os participantes que formaram novas colaborações interagiram, em média, 63% mais do que aqueles que não o fizeram. Além disso, indivíduos inseridos em um cenário com maior interação apresentaram um aumento de mais de oito vezes na probabilidade d c (laborar.

O trabalho de Zajdela e Abrams, disponível em (https://arxiv.org/abs/2112.08468), não apenas sugere que os encontros entre indivíduos são importantes na definição do futuro da ciência, mas que também podem ser planejados para catalisar melhor as colaborações. No Ceará, essa dinâmica já vem sendo aplicada. A partir de 2025, o governador Elmano de Freitas orientou a implementação da governança interfederativa por meio do projeto Caravana Ceará Um Só, baseado justamente na cooperação entre o Estado e os municípios. A iniciativa já percorreu as 14 regiões de planejamento, levando boas práticas fiscais, administrativas e financeiras a mais de 4 mil gestores, servidores e técnicos municipais.

Ampliando essa lógica de cooperação, o XV Consad abre espaço para a produção científica e a interação entre pesquisadores, com a submissão recorde de 1.386 resumos de trabalhos. Diante da alta qualidade das propostas, professores de diversas universidades brasileiras enfrentaram o desafio de selecionar 400 resumos, cujos autores foram habilitados a desenvolver artigos completos que serão publicados em livro editado pela Escola de Gestão Pública do Ceará em parceria com o Insper.

As inscrições para o congresso já estão abertas e podem ser realizadas no portal oficial do evento (https://congressoconsad.org.br), que reúne todas as informações sobre a programação.

(*) Mestre em Economia e doutor em Administração Pública e Secretário de Finanças e Planejamento do Eusébio-Ceará.

Fonte: O Povo, de 30/04/26. Opinião. p.17.


ÁGUA, BENDITA SOIS

Por Romeu Duarte Junior (*)

À memória do Prof. Eng. Francisco de Assis Souza Filho

Dizia o grande cearense Virgílio Távora que o maior governador do Ceará é o inverno. "Tendo água, doutorzinho, o povo, que já é inventivo e trabalhador, constrói a sua vida", falava ele com seu tom de voz peculiar. Minha mãe ia pela mesma linha, só que mandando um recado certeiro: duas coisas não podem faltar no Ceará: chuva e mão nos beiços de menino respondão (adivinhem quem era o peralta). A cultura alencarina elaborou em torno da água e da chuva um verdadeiro rito, quase uma religião. Lembro-me de uma senhora minha vizinha lá na Base que, toda vez que chovia, botava um maiô, punha três dedos de cana num copo e ficava debaixo da bica, chorando. Era o trauma dos anos de seca no sertão. Esses momentos não se perderão no tempo como lágrimas na chuva.

Como choveu neste torrão neste abril que se despede... Tenho amigos atentos que monitoram nossos açudes. "Está faltando apenas 11 centímetros para o Orós sangrar! Deve ser de hoje para amanhã! Vamos para lá agora", gritam uns para os outros, como garotos à volta de um brinquedo novo. Param tudo o que estão fazendo, catam suas coisas e caem na estrada embalados. Chegando lá, sob o céu plúmbeo, aguardam a chuva instalados em barraquinhas, tomando umas e outras e tirando o gosto com cará frito. Quando o pé-d'água cai, é uma alegria só: homens e mulheres abraçados, celebrando o milagre do dilúvio. De repente, um, aos berros, avisa: "Vai sangrar! É agora que o bicho sangra! Muito obrigado, meu Deus!". A torrente lambendo os tornozelos é uma ansiada benção.

Todavia, o mais importante é pensar no que o aguaceiro dará de retorno às pessoas. Curimatã ovada, tilápia, traíra pau-de-negro, tucunaré, as opções de pescado de água doce (que o cearense ainda não valoriza devidamente) são muitas. As hortas e pomares irrigados produzindo o legume, verduras e frutos variados. O de beber ao dispor do gado e das criações e para garantir o pasto esmeraldino. O precioso líquido guardado nos potes, cacimbas e cisternas para dele precisar se e quando faltar. A fartura que se enxerga nos olhos rasos d'água de quem vê o temporal cair. Muita gente que mora na capital se vale desses benefícios, mas não imagina o que isso representa para a população rural. Só quer saber da comida chegando à mesa e nada mais. Alienados bichos urbanos.

Ligo a TV e vejo dois jovens escalando a parede de concreto do sangradouro do Açude Orós. Não imaginam o perigo que correm, talvez estejam impondo a si um ritual de passagem da adolescência para a idade adulta, uma prova de fogo em meio a veloz corrente d'água ou simplesmente a afirmação de macheza. Rio da arrumação que vejo, uma temerária brincadeira, mas meu pensamento me leva à contribuição de um já saudoso amigo, alguém que dedicou a vida a estudar a água e as secas, a compreender o semiárido e a elaborar alternativas técnicas para a plena superação dos nossos problemas de desenvolvimento socioeconômico. Como professor da UFC, era idolatrado pelos seus alunos. É por tudo isso, Assis, que essa crônica lhe é dedicada. Chovendo, penso em você.

(*) Arquiteto e professor da UFC. Sócio do Instituto do Ceará. Colunista de O Povo.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 27/04/26. Vida & Arte. p.2.


terça-feira, 2 de junho de 2026

Defesa de Memorial de Heraldo Simões para Professor Titular da Educação Física da Uece

Flagrante da Comissão Especial Julgadora, logo depois da defesa do Memorial do educador físico HERALDO SIMÕES. O Prof. Heraldo Simões está ladeado pelos professores José Jackson Coelho Sampaio e José Gerardo Vasconcelos, à esquerda, e por Profs. Marcelo Gurgel Carlos da Silva e Paula Matias Soares, à direita. Ao fundo, aparece a imagem do Prof. Fabricio Boscolo del Vecchio, que participou da avaliação de forma remota. (Foto cedida por Paula Matias).

Aconteceu na tarde de ontem, segunda-feira (1º/06/26), rm formato híbrido: pelo Zoom e no Auditório do Mundo Verde da Universidade Estadual do Ceará - Uece, a Defesa de Memorial, seguida da avaliação de desempenho, para a promoção funcional da referência “O” de professor associado para referência “P” da classe Titular do Grupo Ocupacional Magistério Superior-MAS, da Professor Titular do docente do Curso de Educação Física da Uece.

A Comissão Especial Julgadora, composta pelos Profs. Drs. professores doutores José Jackson Coelho Sampaio (efetivo Uece), Fabricio Boscolo del Vecchio (efetivo UF Pel), José Gerardo Vasconcelos (efetivo UFC), Emerson Franchini (suplente externo) e Marcelo Gurgel Carlos da Silva (suplente interno), tendo por secretária a Profa. Dra. Paula Matias Soares, aprovou o Memorial apresentado pelo professor doutor HERALDO SIMÕES FERREIRA.

Cumprimentos efusivos ao professor Heraldo Simões, por chegar ao ápice da carreira acadêmica, ratificada em sua robusta trajetória de vida, pontuada por expressivas realizações pessoais e profissionais, que consagram o seu ardor científico e a sua valorosa dedicação ao ensino universitário.

Também dignos de parabéns estão a graduação em Educação Física e os programas de pós-graduação em Educação e o de Ensino da Saúde da Uece, por terem o professor Heraldo Simões entre os seus docentes etetivos.

Marcelo Gurgel Carlos da Silva

Professor do PPSAC-UECE


Comida, louvor e festa e a Casa Plebeu

Por Izabel Gurgel (*)

Maria Socorro Alves Bezerra faz o bolo de milho com rapadura servido no café-da-manhã dos dias 6 de janeiro no sítio Aroeiras, em Guassussê, Orós. Abre-se com uma mesa longa feito estrada reta o encontro sobre experiências de chuva realizado há mais de 20 anos na casa da família do poeta, compositor, cantor Zé Vicente. O bolo leva cravo, erva doce, canela em pau e gergelim. Na finalização, já na forma, Socorro coloca amendoim e castanha.

Os dias 6 no sítio Aroeiras têm cortejo de Santos Reis depois do café. A manhã inteira é cantada. Tem poeta repentista, tem coro livre na partilha das sementes, improviso na roda de conversa e sanfoneiro depois do almoço, outro banquete, de renovada comunhão.

Ricardo Bernardo Silva faz os sequilhos para a Renovação na casa de Dona Teresinha e do finado Seu Manoel, no sítio Baixa do Quaresma, em Missão Velha. É a casa junto à qual a filha loiceira Corrinha construiu a olaria, com forno no quintal. Tornou-se museu e manteve a placa "Mão na Massa Artesanato".

Renovação, a palavra anuncia, é como se diz da confirmação, a cada ano, da entrega da casa e da família ao Sagrado Coração de Jesus. O Cariri cearense cultua e cultiva a prática. A entronização do Sagrado Coração quase sempre se dá relacionada à data das núpcias do casal. O casamento de Dona Teresinha e Seu Manoel se deu em um mês de novembro. Seu Manoel manteve a data da Renovação que trazia da casa dos pais, Josefa Joaquina do Espírito Santo e Vicente José do Nascimento, o dia 6 de janeiro. Corrinha conta que a avó paterna levou o Sagrado Coração para Padre Cícero benzer e ele recomendou o dia de Santos Reis. Ricardo, na casa dos 30 anos, mora no sítio Passagem de Pedra. É "tirador" de Renovação, como se nomeia o encarregado das rezas e cânticos.

Cuscuz de milho com galinha cozida foi o prato de sustança servido na manhã de 6 de janeiro último, quando da saída do Reisado dos Irmãos, na casa-sede no bairro João Cabral, em Juazeiro do Norte. O grupo dançaria o dia inteiro conduzido por Mestre Antônio, subindo e descendo as ruas do bairro, com encontro final à noite no terreiro da casa de onde havia saído depois da comida de sustentação.

Sexta-feira agora, como todo primeiro de maio, acontece a Renovação do Reisado São Miguel, na casa-sede do grupo do Mestre Tarcísio, no citado João Cabral. A louvação, a brincadeira e o comer junto se dão com fartura, abundância, na batida da casa aberta, terreiro aceso e, como sabemos sobre as festas, muito trabalho e investimento nos bastidores para que se realize.

Em Fortaleza, estaremos assim no primeiro de maio, nos festejos de abertura da Casa Plebeu, nova sede do Plebeu Gabinete de Leitura, no São João do Tauape. Escrevo Tauape e me dou conta que contém Tauá, o lugar de nascença da leitora Adelaide Gonçalves, que nos daria a biblioteca. Plebeu é uma casa-sementeira, de força e fé na produção da alegria. Louvação da leitura, livros pra comer com os olhos, mesa farta. Tem açude sangrando na Fortaleza.

(*) Jornalista de O Povo.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 26/04/26. Vida & Arte, p.2.


 

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