Decidido: o Ceará não exportará mais bulim pros EUA!
A
crônica de hoje é documento que tem fé, e a Casa Branca que se vire. Depois do
anúncio da taxação de 25% das coisas daqui por parte do galego lá, eu me
invoquei todo!
Na
verdade eu não gostaria de fazer isso com o povo norte-americano. Porém, nós -
os produtores de bulim, rosca, broa, coxão de moça e tijolim - seremos
obrigados a tomar medida drástica e a parar vexado com a exportação desses
produtos, salvo disposição em contrário. Explico: o Brasil não é estratégico
somente por possuir a segunda maior reserva de terras raras do planeta,
essenciais à fabricação de carros elétricos, turbinas eólicas, eletrônicos...
Nosso
país é uma potência, sobremaneira, por ser o tuxaua mundial na manufatura dos
itens que acima citei, especialmente quando a eles se somam a rapadura, a
tapioca, o cuscuz, o fubá, o mucunzá e a mingonga, "dicumêres" raros
que dão sustança ao despombalizado, coragem ao arrombado, categoria ao pebado e
alegria ao (amo)finado.
Em
conversa com os fabricantes das sete iguarias do parágrafo acima, fui informado
que eles também cessarão suas produções e o "comércio bilateral" com
os EUA, caso o presidente lá não pare de frescar com a gente aqui.
"Estamos cansados desse estica-encolhe, dessa labutica sem futuro",
confidenciou-me o maior produtor de maria-maluca, mariola e quebra-queixo da
América Latina - o grande Zé Preguim.
-
É prego batido e ponta virada! Babau! Num tem pra ninguém mais!
Confesso
que me dói saber que o povo de riba do Equador vai parar de degustar alfenim
pelos próximos tempos! Sei nem se vão sobreviver! Mas, fazer o quê, né? Eles
que começaram!
O casal de moucos
De
onde estávamos ouvia-se a gritaria do casal, que chegara à casa ao lado havia
uma semana. Pelo tom de voz, discussão ferrenha. Desde que os dois aportaram,
nunca um olá, apenas os víamos de longe - ele, grandalhão; ela, miúda e
franzina. De seus 80 e poucos anos, ambos. Era mais ou menos assim o berreiro:
-
Osman, pelo amor de Deus!!!
-
Jarina, eu vou tacar-lhe o cacete!!!
-
Se for pra matar, mate logo!!!
-
É minha especialidade!!! Tome-lhe!!!
Das
duas uma: ou a gente ia apartar a briga, em risco de aquilo virar tragédia, ou
chamávamos a polícia. Fizemos os dois: ligamos pro 190 e, enquanto os guardas
não apareciam, demos um pulinho lá. Gritos continuavam tonitruantes; nos
aproximamos, silentes. Uma pancada forte agora se ouviu e ai, ai, ai: bufo!!!
-
Olhaí o sangue escorrendo!!!
-
Eu acho é pouco!!!
-
Tu é um matador!!!
-
Dou carne a gato, não!!!
Tocamos
a campainha 15 vezes, ninguém apareceu. Preocupados com o que poderia ter
acontecido de pior, entramos - porta só encostada. E lá estava a cena: ela
trepada numa cadeira, se tremendo; ele em pé, segurando pelo rabo um guabiru de
quase um quilo, sangrando pela boca. De relance, a senhora nos vê e dispara,
assustada:
-
Qué que vocês tão fazendo aqui?!? Hein?!?
-
Achamos que vocês...
-
Inês??? Meu nome é Jarina!!!
-
Tangerina não, mulher!!! É um rato!!!
Fonte: O POVO, de 5/06/2026. Coluna
“Crônicas”, de Tarcísio Matos. p.2.
