Por Pedro Salgueiro, cronista de O Povo
Na minha "Crônica da
Gentilândia", do livro "Fortaleza Voadora", digo que: "…o
velho dragão Alcides Pinto sobrevoando as copas das árvores, com suas asas
negras — quando ele se cansa de resmungar sozinho em sua caverna e sai para
assustar os últimos bêbados da Gentilândia".
À sua casa corriam as mais diversas faunas
literárias; escritores de várias idades, ideologias e estéticas, principalmente
os mais jovens, que ficavam embevecidos com as atitudes despojadas, estridentes
e loquazes do velho poeta.
Sua residência mais famosa foi a da Rua
Rodrigues Junior, casa grande, sempre muito frequentada; ainda hoje muitos
contam histórias e causos nem sempre verídicos, muitas fantasias e traquinagens
ficaram no anedotário boêmio-intelectual dessa nossa loirinha desmiolada pelo
sol, tão pródiga em tipos populares e bodes YoYôs, literários ou não.
Já o conheci na Vila Cordeiro, na Av.
Tristão Gonçalves, bem próximo à vila onde ainda hoje mora minha mãe. Habitava
uma casinha conjugada, numa pobreza franciscana mas digna, com sua querida
filha Jamaica. Também conheci seu filho Antonin Artaud, um rapaz magro como o
pai, porém de temperamento calmo, com uma timidez oposta à tagarelice do seu
progenitor; também avistei algumas vezes sua bela filha Alessandra, que morava
com a mãe.
Convivi por um bom tempo com o poeta (era
meados dos anos 1990), através dele e de suas muitas visitas fiquei sabendo dos
subterrâneos de nossa literatura, tão pródiga em fofocas e vaidades. Ali tive
um curso intensivo de como transitar, e sair sem arranhões (embora eu não tenha
tirado boas notas em algumas matérias) da famigerada guerrilha literária e suas
disputas por farelos e migalhas.
Um dia me pediu para que organizasse seus
contos, que estavam dispersos em um livro, "Editor de Insônias"
(1965), e uma miscelânea, "Reflexões, terror, sobrenatural" (1984),
além de alguns inéditos datilografados em gastas folhar amarelecidas. Em 1997,
o Dr. Martins Filho publica essa edição de seus contos completos, "Editor
de Insônias e outros contos", pela Coleção Alagadiço Novo.
Depois soube que ele andou criticando umas
palavras que inseri como "Nota do Organizador", ou sugerindo que eu
estava querendo aparecer às suas custas. Nunca passei recibo nem tomei
satisfação, apenas me afastei um pouco de seu convívio. Depois disso ele sempre
repetia para mim ou para alguns amigos: "Se não fosse você, o livro não
teria saído", no que eu sempre respondia: "Pois não é, poeta. Quem
sabe se um dia a gente não tira uma 2ª edição, não é mesmo!?". No seu
último livro tem um poema dedicado a mim (quem sabe ainda resquício de uma
consciência pesada) e a Nilto Maciel, a quem levei, depois da volta definitiva
deste ao Ceará, à sua casa e anunciei alto da porta:
"— Poeta, tô aqui com o maior contista
do Ceará!", no que ele perguntou lá de dentro: "— Quem, poeta, o
Airton Monte?", acabando de vestir as calças; caímos na gargalhada.
A última vez que o vi ele estava saindo da
sua vilinha com a Jamaica, cumprimentei-o e ele me perguntou onde era o
"Buraco da Gia", pois estava querendo arranjar uma empregada e lhe
deram um endereço, falei que era na Princesa Isabel, vizinho à minha casa, e
fomos caminhando devagar. Quando chegou perto do beco ele parou, receoso, e
disse que só entraria lá se eu fosse com eles, depois puxou uma pequena faca de
mesa, dessas de cortar bife, e disse que estava preparado (mas que era bom eu
entrar com ele, disse assombrado). Olhei para Jamaica, que também estava rindo,
e disse que não tivesse receio que ali só morava gente de bem, e me despedi
alegando ainda ir pegar minha filhinha no colégio.
Não tive coragem de ir vê-lo em seu velório
na Academia Cearense de Letras. Queria ficar com a lembrança dele vivo, alegre
e brincalhão, sempre contando lorotas.
E, ainda hoje, quando alguém se refere a
ele, vejo algum dos seus livros ou passo em frente à Vila cordeiro, parece que
estou vendo aquele sujeito magro ("tão magro que parecia estar sempre de
perfil", como bem disse, em seu "A Guerra do Fim do Mundo",
Vargas Llosa), com sua gargalhada espalhafatosa mas sempre sincera, dizendo — e
apontando pra si mesmo — para os muitos anjinhos (ou demoninhos, tanto faz) que
lhe cercam em algazarra:
"— Agora quem manda aqui é esse poeta
'Viadão Pós-Moderno'!"
"Eu sou aquele que come as flores do
aniversário."
(José Alcides Pinto, 10/09/1923 —
03/06/2008)
Fonte: O POVO, de 24/07/2026. Coluna
“Crônicas”, de Pedro Salgueiro. p.2.
