Por Ana Rute Ramires, Ana Sá e Samuel Setúbal
Força de trabalho no Brasil é feminina
Segundo o Conselho Federal de Enfermagem
(Cofen), 87% da força de trabalho na enfermagem brasileira é de mulheres.
"Enfermagem é feminina,
com traços de uma força de trabalho jovem em sua maioria, hegemônica na Saúde e
que se constitui como equipe profissional que atua em harmonia e competência em
todo o território nacional", analisa Maria Helena Machado, pesquisadora da Escola
Nacional de Saúde Pública da Fundação Oswaldo Cruz (ENSP/Fiocruz).
Cientista social e doutora em Sociologia,
ela coordenou a pesquisa nacional intitulada "O perfil da Enfermagem no Brasil" (Fiocruz-Cofen,
2017).
A maioria feminina na enfermagem se mantém
seja na categoria de enfermeira(o), seja entre os técnicos e auxiliares de
enfermagem, chegando a mais de 80%, já constatado na pesquisa.
A pesquisadora acrescenta que a categoria
está presente em todas as regiões geográficas do País, com mais de três milhões
de profissionais.
A ciência do cuidado: humanismo,
observação, protocolos rígidos e decisões rápidas
Em meio à explosão na demanda por
profissionais especializados durante a pandemia de Covid-19, a missão chamou a
enfermeira Ana Lívia Girão, que à época atuava em sala de aula, de volta para
as UTIs. Em um momento de incertezas e medos, ela retornou à linha de frente da
terapia intensiva.
"Eu me sentia muito mal
de estar ensinando para os meus alunos uma coisa que eu não estava mais
colocando em prática. E estava tendo a demanda de profissionais especializados
na área",
relata Ana Lívia, doutora em Cuidados Clínicos em Saúde e coordenadora de
enfermagem de terapia intensiva do Instituto Dr. José Frota (IJF), em
Fortaleza.
No cenário de caos vivenciado durante a
pandemia, a enfermagem liderou a montagem de leitos, o dimensionamento de
pessoal e a gestão de equipamentos vitais nas unidades de saúde, provando ser
um pilar de sustentação.
O diagnóstico de enfermagem foca nos
cuidados necessários para o restabelecimento do paciente. Jéssica Benevides,
doutora em Enfermagem e coordenadora de enfermagem de terapia intensiva no IJF,
detalha que a autonomia da enfermagem no processo de saúde manifesta-se através
do Processo de Enfermagem.
O método científico, conforme a
profissional, é dividido em cinco etapas: histórico (coleta de dados para
entender o estado do paciente), diagnóstico (identificação das necessidades de
cuidado), planejamento (elaboração do que será feito com base nas prioridades
elencadas), implementação (execução das ações planejadas) e reavaliação
(análise contínua dos resultados para ajustar o ciclo de cuidado conforme a
evolução do paciente).
Enquanto outras categorias passam pelo
leito em momentos específicos, a equipe de enfermagem permanece 24 horas ao
lado do paciente, o que permite identificar precocemente alterações clínicas.
Jéssica e Ana Lívia explicam que a equipe de enfermagem é treinada para
perceber alterações clínicas (como desorientação ou queda de débito urinário)
antes que uma parada cardiorrespiratória ocorra, agindo preventivamente.
Também cabe à enfermagem decidir
prioridades clínicas, gerenciar recursos escassos e tomar decisões autônomas,
como definir qual paciente necessita de monitoramento mais intensivo em um
cenário de alta demanda.
Jéssica Benevides frisa que a atuação da
enfermagem é feita em parceria e diálogo com as demais profissões, sempre com o
intuito de atingir o mesmo objetivo: o bem-estar e a evolução clínica do
paciente.
As coordenadoras destacam que essa atuação
científica é aliada a um olhar humanizado, que enxerga o paciente não apenas
como um diagnóstico de trauma, por exemplo, mas como o pai ou filho de alguém,
integrando a técnica à sensibilidade necessária para cuidar de quem está em
vulnerabilidade.
Para as profissionais, o momento de fechar
unidades de terapia intensiva após passado o período crítico da Covid-19 foi
marcante. "No dia que a gente foi
fechar mesmo [a unidade], que olhou um pro outro assim mesmo sem nem a gente se
conhecer direito. A gente não conhecia as pessoas direito porque era todo mundo
todo coberto... Olhou um pro outro como se dissesse assim: 'Obrigada, a gente
conseguiu'",
compartilha.
A segunda reportagem da série "Enfermagem: a espinha
dorsal da saúde" abordará a formação profissional e a luta por valorização da
categoria.
Fonte: Publicado In: O Povo, de 5/07/26.
Caderno Ciência & Saúde. p. 13-14.