sexta-feira, 30 de outubro de 2026

FOLCLORE POLÍTICO: Porandubas 741

Armado de admiração

Tenório Cavalcanti, udenista e adversário político de Vargas, foi ao Catete numa comissão de deputados. Andava nas manchetes dos jornais por causa de suas estripulias em Caxias, na base da "Lourdinha" (metralhadora) e da capa preta. Getúlio o cumprimentou, olhou bem para o volume do revólver embaixo do braço esquerdo, sob o paletó:

– Deputado, o senhor está armado?

Tenório ficou vermelho, mas não perdeu o bote:

- Armado de admiração por Vossa Excelência.

Fonte: Gaudêncio Torquato (GT Marketing Comunicação).

https://www.migalhas.com.br/coluna/porandubas-politicas/357021/porandubas-n-741


quinta-feira, 29 de outubro de 2026

DUAS FACES DO MESMO ESPIGÃO

Por Magda Almeida (*)

De um lado do Espigão do Náutico, a Prefeitura de Fortaleza anunciou uma nova piscina de raias no mar, celebrando o esporte e a valorização da orla. Do outro, uma galeria pluvial despeja um líquido escuro e espumoso que atravessa a faixa de areia e chega diretamente ao mar. As duas cenas, separadas por poucos metros, revelam uma contradição da cidade da Luz.

Investir em espaços para esportes aquáticos é uma iniciativa importante. Temos uma relação histórica, econômica e afetiva com o mar. Incentivar a atividade física, o turismo e a ocupação qualificada dos espaços públicos merece reconhecimento.

O próprio boletim de balneabilidade considera o lado esquerdo próprio para banho e o lado direito, impróprio. O espigão pode alterar a circulação da água e dificulta a dispersão do que é lançado do outro lado, mas não elimina o problema

A questão central permanece sem resposta. A galeria é destinada ao escoamento de águas pluviais, mas existem ligações clandestinas de esgoto na rede de drenagem? Há contaminação fecal, microrganismos patogênicos ou substâncias químicas? Água, areia e sedimentos próximos ao ponto de lançamento estão sendo monitorados de forma sistemática? Quais análises foram realizadas e quais os resultados? Sem essas respostas, a população permanece exposta e privada do direito de decidir, com segurança, se deve entrar no mar.

Os impactos vão muito além dos banhistas. A área é utilizada diariamente por nadadores, praticantes de canoa havaiana, caiaque, stand up paddle, pescadores, turistas, comerciantes e trabalhadores. Também podem atingir a fauna marinha, comprometendo peixes, crustáceos, moluscos, algas e outros organismos que sustentam o equilíbrio do ecossistema costeiro.

A segurança alimentar também merece atenção. Não se pode afirmar, sem evidências, que os pescados daquela região estejam contaminados, mas também não é aceitável presumir que estejam seguros sem monitoramento e divulgação dos resultados.

Caso seja confirmada alguma fonte de poluição, a população precisa saber quais providências estão sendo adotadas. Transparência significa investigar, divulgar os achados de forma acessível e sinalizar adequadamente os riscos quando eles existirem.

Saúde ambiental não é pauta ideológica. É uma responsabilidade compartilhada entre Prefeitura, órgãos ambientais e sanitários, concessionária de esgotamento e órgãos de controle.

A piscina de raias pode se tornar um importante legado para Fortaleza. Mas, antes de convidar a população a nadar, é indispensável garantir água limpa e banho seguro para quem frequenta diariamente o outro lado da muralha de pedras. Um mesmo espigão não pode separar a cidade da propaganda, da cidade que vive o mar todos os dias.

(*) Médica de Família e Comunidade. Professora da Famed/UFC. Gestora pública.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 25/09/2026. Opinião. p.19.


quarta-feira, 28 de outubro de 2026

ETNOPSIQUIATRIA: novos desafios em saúde mental

Por Pe. Rino Bonvini (*)

O Movimento Saúde Mental (MSM) celebra este ano 3 décadas de sua missão socioterapêutica de múltiplo impacto. Desde 1996 acolhe, escuta e cuida de pessoas que buscam transformar o sofrimento psíquico em oportunidade de evolução biopsicossocioespiritual. A Abordagem Sistêmica Comunitária é a metodologia que integra as Práticas Integrativas e Complementares em Saúde (PICS) a diversas atividades terapêuticas.

Desde 2007, o MSM estende suas atividades à aldeia indígena Pitaguary, em Maracanaú. Essa experiência intercultural será apresentada na XLVIII Jornada Cearense de Psiquiatria, de 16 a 19 de setembro, com o tema "Estratégias para Fortalecimento da Rede de Atenção Psicossocial".

Na abertura, a apresentação das crianças Pitaguary, dançando o Toré e cantando em Tupi, evocou a beleza e a potência da cultura indígena. A presença de lideranças indígenas na mesa "Desafios para a Saúde Mental dos Povos Originários e das Periferias Existenciais", no dia 18, ofereceu um lugar de fala para partilhar experiências, sonhos e a potência da IA - Inteligência Ancestral -, tão necessária à sobrevivência do planeta.

O desafio de uma psiquiatria que supera o modelo biomédico e hospitalocêntrico, atualizando a reforma psiquiátrica na rede pública de saúde, inclui acolher os povos originários com uma abordagem etnopsiquiátrica. O respeito e a valorização da cosmologia e da espiritualidade indígenas favorecem a integração do saber acadêmico com a sabedoria ancestral, que traz elementos terapêuticos peculiares, potencializa a cura dos transtornos mentais e favorece a prevenção do suicídio.

Sintomas intensos são ressignificados dentro do universo cosmológico, e percepções extrassensoriais não são vistas simplesmente como sintomas clínicos, mas compreendidas como experiências de evolução biopsicossocioespiritual.

Os pajés acolhem a etnopsiquiatria como coadjuvante nos processos de cura, entendendo que, quando necessário, os remédios psicotrópicos podem salvar a vida da pessoa. Por sua vez, o etnopsiquiatra entende que acolher rituais, orações, cantos, danças, tambores e as interpretações transcendentes dos sintomas, com liberdade para usar a medicina popular tradicional e suas ervas junto aos remédios prescritos, proporciona uma cura integral dos transtornos psiquiátricos. As duas visões dialogam e se integram.

(*) Médico psiquiatra e padre missionário comboniano.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 23/09/2026. Opinião. p.16.


terça-feira, 27 de outubro de 2026

Convite: Lançamento da Antologia “FORTALEZA EM DOSE PLENA”

A Diretoria da Sociedade Brasileira de Médicos Escritores – Regional Ceará (Sobrames/CE) convida para o lançamento de “Fortaleza em dose plena”, a quadragésima-quarta antologia anual da Sobrames-CE.

O livro é prefaciado pelo médico pediatra e escritor Dr. Pedro Bezerra de Araújo, ilustre membro da Academia Cearense de Ciências Sociais e da Academia Cearense de Letras e Jornalismo, e conta com 61 autores participantes.

Local: Centro de Eventos do Ceará (Durante o Outubro Médico).

Av. Washington Soares, 999 – Bairro Edson Queiroz – Fortaleza.

Data: 30 de outubro de 2026 (sexta-feira) Horário: 17h.

Traje: Esporte fino.

Obs.: Após o lançamento transcorrerá a cerimônia de abertura do XXXVI Outubro Médico.

Maria Sidneuma Melo Ventura

Presidente da Sobrames-CE


Cariri ultrapassa 60 mil empreendimentos ativos na economia

Por Rita Fabiana Arrais (*)

A Região do Cariri consolida-se como um dos principais pólos empresariais do interior do Ceará. Com um grande número de empresas ativas e forte expansão na abertura de novos negócios, Juazeiro do Norte ocupa posição central nesse processo e lidera a região na atração de novos empreendimentos, reforçando seu protagonismo no comércio, nos serviços e nos investimentos privados.

Dados do Observatório Sebrae Cariri (2026) revelam que a Região alcançou um expressivo número de 60.275 estabelecimentos ativos no final do primeiro semestre deste ano.

A cidade de Juazeiro do Norte é a líder nos tópicos de geração de emprego e de quantidade de negócios (27.900 estabelecimentos ativos), representando, isoladamente, 46,5% da totalidade regional, enquanto a cidade do Crato atinge o melhor quantitativo de estabelecimentos ativos com 7.125.

Convém salientar - dados da economia juazeirense - dessa totalidade 30,9% direciona-se ao comércio varejista que contabiliza 18.936 estabelecimentos ativos - e tal volume decorre das modificações a longo prazo que ocorreram neste setor - que não atende apenas ao mercado local, mas funciona como uma atividade econômica de alcance regional, capaz de atrair investimentos nos mais distintos setores comerciais.

O setor varejista juazeirense possui características bem definidas como: centralidade regional, grande fluxo de consumidores, potencialidade elevada do mercado, oferta de mão -de- obra qualificada e infraestrutura adequada.

Esse cenário permite ao investidor realizar análises concretas de viabilidade comercial, volume de capital a ser investido e a projeção de faturamento mensal/anual. Logo, impulsiona a credibilidade econômica da Região.

Fatores economicamente positivos podem ser percebidos através do avanço do setor varejista, como a concorrência, a inovação e o aumento da oferta de produtos e serviços. Por outro lado, é preciso a solidez da demanda dos consumidores, a constância do acesso ao crédito, uma infraestrutura e ambiente econômico desenvolvidos. Merece um ponto de reflexão perceber a necessidade do setor do varejo mais integrado ao restante do Cariri, proporcionando uma geração e distribuição de riqueza regional.

Isso mostra- se como um desafio para a Região Metropolitana do Cariri, já que envolve a descentralização e a conectividade urbana a uma infraestrutura logística que engloba mercados tradicionais, como as cidades de Crato e Barbalha, a um fluxo de consumo integrado ao polo diversificado como Juazeiro do Norte.

(*) Economista.

Fonte: O Povo, de 25/09/26. Opinião. p.15.


segunda-feira, 26 de outubro de 2026

UMA NAÇÃO DE MENDIGOS?

Por Pedro Jorge Ramos Vianna (*)

Uma pergunta que está martelando minha cabeça é: nós, brasileiros, principalmente os presidentes e os congressistas, estamos transformando o Brasil em um país de mendigos?

Esta preocupação nasceu da consulta que fiz sobre a situação econômica da população brasileira, dados a partir de 2020, em diversas publicações (Ver www.gov.br; Informes do PT; Portal do IFSC; CNN; Agência Brasil).

A seguir, mostro as estatísticas encontradas:

• 49,7 milhões de pessoas, em 8/2026, no Bolsa Família;

• 3,2 milhões de famílias no Auxílio Gás (Gás do Povo), 2023;

• 16,6 milhões de pessoas sem pagar energia (novo), em 4/2026;

• 2,6 milhões de pessoas no Fies (dívida de R$ 115 bilhões com 80% de inadimplência em alguns Estados), em 6/2025;

• 3,85 milhões de estudantes no programa Pé de Meia, 2024;

• 10 milhões no Bolsa Escola (estamos nos últimos lugares do índice Pisa, um ranking mundial de aprendizado na educação básica e temos 30% dos nossos adultos alfabetizados classificados como analfabetos funcionais);

• 2,4 milhões no Pronaf (programa para agricultura familiar) em 2026, aproximadamente, 30% de inadimplência;

• 1,6 milhão de famílias no Programa Minha Casa Minha Vida (2019-2022);

• 83,7 milhões de pessoas "negativadas", em 6/2026;

• 38,8 milhões de trabalhadores informais (7/2026);

• 7,5 milhões de MEIs são considerados precários, que não contribuem para o sistema previdenciário.;

• 42,3 milhões de pessoas penduradas na Previdência (em 7/2026);

• 12 milhões de funcionários públicos;

• 32% dos CNPJs do país estão "negativados" (R$ 170 bilhões de dívida);

Para completar o retrato do Brasil, vejamos a quanta monta a população brasileira, segundo o último Censo:

i. População Total = 203.080.756

ii. População de 15 a 59 anos = 130,7 milhões

iii. PEA = 109,1 milhões

Embora as estatísticas não permitam fazer o cálculo exato de qual o percentual total de pessoas que recebem doações do Governo, pois algumas podem receber mais de um benefício, pode-se inferir alguma estatística com alguns cálculos aproximados.

Por exemplo, vamos imaginar que alguns programas com nomes diferentes beneficiem mais de uma pessoa (caso de estudantes e que a família recebe o Bolsa Família), estes não entraram duas ou mais vezes em nossas estimativas. Mas existem programas, como o Fies ou o Pronaf, que não beneficiam pessoas, também, nos outros programas sociais.

Trabalhando com alguns deles, cheguei à estimativa de que 58,5 milhões de pessoas estão recebendo algum auxílio do Governo. Aproximadamente, 53,6% de nossa PEA. Se dividirmos pela população total, teremos um percentual de 28%. Percentuais bastante consideráveis.

Esse é o retrato do Brasil na atualidade. Estamos beneficiando a população de duas Argentinas.

(*) Economista e professor titular aposentado da UFC,

Fonte: O Povo, de 20/09/26. Opinião. p.22.


domingo, 25 de outubro de 2026

Júbilo. Ir a pé para Canindé

Por Izabel Gurgel (*)

Em visita ao Museu Indígena Kanindé, no sítio Fernandes, em Aratuba, observei o tanto de pessoas chamadas Francisca, Francisco. Quis saber sobre devoção a São Francisco, se costumavam ir para a festa em Canindé, se havia gente que descia a pé. Ouvi como resposta: "Sim, todo ano". São cerca de 40km de distância.

Em abril, de chuvas mil, a estrada Canindé - Aratuba é uma louvação. Nossa abundância de céu com margens que esplendem os verdes, viço, alegria de várzea com a passarada, jardins de terreiro só querendo saber de viver. Fartura, para fartar-se, festejar. Poucas casas no caminho. Muita, muita vida ao redor.

Nos meses de setembro e outubro, quando tem mais gente a caminho de Canindé, é outra paisagem. Imagino o reverso de quando subimos de carro na Semana Santa. Descer a pé, ao ritmo do corpo, do grupo que se desloca, e ir vislumbrando a cidade sertaneja que é maior do que seu desenho físico, uma vez que se irradia e se move e se amplia em cada criatura peregrina, que vai e vem pelos caminhos e modos possíveis. Canindé, sabemos, é, depois de Assis, na Itália, a maior fonte franciscana. A cidade uma flor da fé a atrair abelha, o que incide tanto na polinização quanto na feitura do mel.

Fiz uma vez a pé, no começo dos anos 2000. Digo fui a pé para Canindé e quem escuta pode achar que a criatura sai de casa com o ímpeto de quem corre para tirar a roupa do varal porque bateu uma chuva e só para na Basílica, um estirão entre 110-120km. Claro que não. Uma romaria tem rumo. E prumo.

É uma alegria viajar a pé, por escolha, e com o serviço de bastidor feito por gente dedicada. Você com a mais leve das bolsas carregando escova e pasta de dente, prato, talher e copo, água, uma toalhinha, uma merenda... E, talvez, percebendo pela primeira vez o peso do mínimo, do básico, do incontornável do cotidiano.

Saímos da igreja de Jesus, Maria e José, no bairro Antônio Bezerra, umas cinco da tarde. Caminhamos diariamente depois das quatro da tarde e até umas nove, na madrugada por volta das quatro e até umas sete da manhã. Noite funda e o dia todo, pausa para a maioria, no pouso já combinado por quem cuida da romaria. Quatro noites em alpendres, ao ar livre sob pés de algaroba, com redário à beira da estrada ou guardado em casas de morar ou de comércio há tempos ajustadas para acolher romarias.

Nosso grupo de mais de duzentas pessoas contava com caminhão-baú para bagagem (a rede de dormir é o móvel principal), ônibus-cozinha, carros de apoio com água, a ir e vir também para deixar menos inseguro o caminho, a maior parte sem via para caminhantes. A estrada é bem parecida com a cidade que a gente tem. Desaconselhável para pedestre.

A Caravana Maria Salgado começou em 1935. Maria Salgado e Liberato Salgado, com três filhos crianças, saem de Fortaleza para Canindé, com um jumento de apoio para levar a bagagem. A viagem se realizava como ex-voto, feita pela graça alcançada junto a São Francisco, a saúde de Dona Maria. Em 2026, sai dia 9 de outubro.

Raimunda Gomes Braga e José Alves Braga, Seu Braguinha e Dona Mundinha, também para pagar promessa, fizeram o caminho em 1958. A romaria Dom Joaquim (o nome da rua onde moravam) sai dia 7. O neto Lucas disse que são 226 pessoas.

O grupo com o qual caminhei faz 30 anos em 2026. E se desdobra em seis romarias. Naquele ano, ouvi o coordenador Paulo Helmut nos saudar à saída dizendo: "A nossa romaria não é de penitência. É de alegria".

P.S.: Que São Francisco nos guie na votação do dia 4. É melhor ser alegre que ser triste.

(*) Jornalista de O Povo.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 13/09/26. Vida & Arte, p.2.


 

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