Por Patrícia Soares de Sá Cavalcante (*)
Sentada na escadaria, sentia o sol
esquentar a pele e olhava o mar ao longe. Fixava o horizonte e imaginava o
outro lado do mundo. Sem a menor noção de geografia, passava horas pensando
aonde chegaria se o atravessasse.
Tomava banho no raso, aprendendo o momento
certo do mergulho. O caldo era inevitável. Vinha forte, agressivo. Ao cair, eu
me assustava, mas depois o prazer predominava. Avançava um pouco em direção ao
fundo. Apenas o pescoço de fora. De vez em quando, a onda cobria meu corpo
inteiro. Ficava sem dar pé por alguns segundos, mas logo sentia os pés tocarem
a areia.
Terra firme. Precisava de terra firme.
Tinha que saber onde pisava. O outro lado era um país imaginário, estrangeiro.
O desconhecido era areia movediça.
Havia, ainda, a transparência da água. Via
o que não queria ver. Dava muito medo. Era bonita, límpida, mas assustava.
Preferia a turva - ali, conseguia esquecer os riscos, ou ao menos não pensar
neles. Na água turva, permitia-me boiar.
Aquele mar avançou e levou a escada. Perdi
o acesso, mas ele não me deixou. Voltava nos meus sonhos. Ficava no alto,
observando se conseguiria entrar. Na maré baixa, talvez.
Aventurei-me em outros mares. Pulei em
alto-mar. Qual seria a profundidade ali? O que teria embaixo? As pernas
agitavam demais. Fui controlando o ritmo e comecei a nadar. Estava tranquila
entre o fundo e a superfície. Flutuava na água transparente. A água cintilava.
Mergulhei. A descida foi lenta, muito
lenta. O fundo do mar é imenso. A luz do sol penetra na água e abre um feixe
luminoso. Meus olhos se arregalaram. Os peixes eram menores do que eu
imaginara. Vi um naufrágio. Aproximei-me. Que vestígios guardava? O casco
estava coberto de algas e conchas. Não tinha nada de tão assustador. Carregava
histórias. Sustentava vida. Descansava no fundo. Também tinha encontrado a
terra. Continuei descendo, completamente absorta.
Pisei.
No fundo do mar, a terra é firme.
Voltei a flutuar suavemente. A claridade foi
aumentando. Senti o sol sobre a pele. Emergi.
(*) Médica
psiquiatra.
Fonte:
Publicado In: O Povo, de 27/01/2026.
Opinião. p.16.
