Defunto de mocassim?!? Vai nem
desfilar!!!
Zé
de Pêdo Rumão morreu aos 97 anos, assim, que nem um passarim. Como? Terminado o
almoço, tibungou numa rede e pôs-se a balançar-se. Empurrando o pé na parede
pra ganhar força e ir até lá em cima, eis que, súbito...
-
A rede de Zé meu foi bater na cumeeira! - explica a viúva Norinha.
-
Égua!!!
-
E pensando talvez que tivesse asa, ele pulou...
-
Vixe!!!
-
Caiu estatelado no chão, daquela altura toda. E babau!
-
Marrapaz!!!
-
Juro por Nossa Senhora!
-
Como ele estava de saúde, dona Norinha? Andava desgostoso da vida?
-
Sei lá! Ele tinha ido ao Dr. Manel, semana passada!
-
Ah! O que poderia ter acontecido a seu Zé, então, pra do nada inventar de voar
da rede?
-
Bem, ele me falou que o médico inté perguntou qual o problema.
-
E Zé?
-
97 anos, o problema dele!
No velório, "bebendo o
morto"
Na
sala de casa, estava lá hirto quem fora um dia um caba desassombrado no cabo
duma enxada, na frente dum prato de feijão com toicinho. Enfim, mortinho da
silva jazia ali o grande amigo, pai e marido. Zé, no caixão pago em seis
parcelas, com a melhor roupa que tinha - a calça e o paletó com que casara na
Igreja Matriz. Miguel, colega de caçada do morto - já com "quatro
Cinzano" na cabeça, observa no traje geral do finado algo interessante, e
cochicha no ouvido de um primo de Zé:
-
Espia, Azevedo! Vão enterrar nosso amigão com esse sapato novinho! Pode não!
-
Miguel, hômi!!!
-
Até onde eu sei, ele vai é se enterrar, num é desfilar!
-
Miguel, hômi!!!
E
tomando mais duas lapadas da bebida mais quente ofertada no ambiente, Miguel
deu um "migué" e trocou os sapatos mocassim do morto por suas
japonesas quengadas.
-
A meia eu deixo, o amigo Zé é muito "friento"!
"Velho, meu querido
velho..."
Faltando
uma hora e meia pro enterro, no Cemitério do Caranguejo, a uma légua da casa do
finado, ouvia-se ainda um chororô aqui, outro prantear acolá, embora contidos.
E a cachaça troando no meio do mundo, como se os convivas comemorassem uma
vitória do Ferrim sobre o Flamengo no Maracanã. Mas, para que tão singular
cerimônia fúnebre-beberativa ficasse completa, faltava só um DJ, vindo não se
sabe de onde, botar na radiola aquela que a comunidade conhecia como a
"melô das núpcias de Zé de Pêdo Rumão e Norinha". Quando a voz
inconfundível do "Trovador das Américas" deu o primeiro acorde na
sala, a "mulher em vida do cônjuge em morto" lascou o grito:
-
Altemar Dutra não!!! Tire, tire, tire!!!
A
mui entristecida Norinha explicou, em lágrimas, já com duas terças de conhaque
entornadas:
-
"Sem ti, mental eu sou" é a cara d'eu e Zé meu!!! Tire, tire, tire!!!
Tão
feio que preferiu nascer doido
A
família era conhecida pelos membros casando entre si. Tia com sobrinho era
demais comum. Um povo que, quanto mais inteligente, mais feio. E quanto mais
feio, mais doido. E aí o mais jovem casal lá deles, reconhecendo esses
predicados, conversa.
-
Noé, tu queria ter nascido mais inteligente ou mais feio?
-
Tu é doida, Naamá? Doido, ora mais!!!
Fonte: O POVO, de 10/04/2026. Coluna “Crônicas”, de Tarcísio Matos. p.2.

