Por Carlos Roberto Martins
Rodrigues Sobrinho (Doutor Cabeto) (*)
Não me refiro apenas aos números — ao PIB
absoluto, à renda per capita ou a qualquer indicador que nos ofereça a ilusão
de progresso. Falo de um crescimento mais profundo: aquele que se revela no bom
senso, na responsabilidade social, na qualidade das escolhas, no respeito ao
outro e na dignidade do trabalho.
É nesse terreno que continuamos pobres.
Pobres nas atitudes e na compreensão de que nenhuma sociedade se sustenta
quando o interesse individual se torna a única medida das coisas. Alguns dizem
que nos faltam tempo e maturidade. Outros atribuem nossas fragilidades à
herança colonial, a uma cultura dilacerada ou à ausência de identidade comum. Somos,
afinal, uma mistura extraordinária e contraditória de povos, raças, crenças e
costumes.
Cresci acreditando no país do futuro.
Acreditava no esforço, no trabalho e na força do exemplo. Imaginava que a soma
de condutas dignas construiria, pouco a pouco, um mundo melhor. Mas o tempo
passou depressa. E a tecnologia, que nos libertou das barreiras de acesso à
informação, também nos aprisionou em novas formas de manipulação.
Os algoritmos não ampliam necessariamente
nossos horizontes; amiúde apenas repetem nossas preferências, confirmam
preconceitos e alimentam certezas. Cercados por versões de nós mesmos,
tornamo-nos cada vez menos capazes de mudar. É um paradoxo inquietante: nunca
tivemos tanto acesso ao conhecimento e talvez nunca tenhamos sido tão resistentes
à dúvida.
O que mais me preocupa, porém, é a
assimilação dos maus hábitos e sua transformação em herança. Comportamentos
repetidos deixam de causar estranheza, tornam-se aceitáveis e são transmitidos
às novas gerações como se fossem naturais. A desonestidade vira esperteza; a
grosseria, sinceridade; a irresponsabilidade, liberdade; a indiferença,
mecanismo de sobrevivência.
Quando perdemos o apego à dúvida, ao
questionamento, à análise crítica, à leitura e ao conhecimento, corremos o
risco de formar uma sociedade de autômatos: pessoas que repetem palavras de
ordem, escolhem sem refletir e obedecem sem compreender. Talvez isso explique a
escassez de verdadeiros líderes. Eles não nascem do ruído, da popularidade
instantânea ou da submissão às multidões. Nascem da capacidade crítica, da
coragem de sustentar convicções legítimas e da disposição de se doar por algo
maior do que si mesmos.
Ainda existe uma escolha. Podemos
interromper a reprodução dos vícios, recuperar o valor do exemplo e reaprender
a pensar. Não há crescimento verdadeiro sem responsabilidade, conhecimento e
respeito. Caso contrário, restará o salve-se quem puder: uma sociedade
permissiva com os maus hábitos, indulgente com escolhas imprudentes e incapaz
de construir um destino comum. Nesse ritmo, talvez eu veja o país enriquecer.
Crescer, temo que não.
(*) Médico. Professor da UFC.
Ex-Secretário Estadual de Saúde do Ceará.
Fonte:
Publicado In: O Povo, de 10/09/2026.
Opinião. p.15.
