Por Pedro Bezerra de Araújo – Pierre Nadie
Ontem, foi um dia diferente.
Não, não foi apenas diferente. Foi supimpa.
Tivemos a visita de Hipócrates, que nos
veio saudar. E, no tempo presente, revivemos o passado recente de nossa
juventude, ao encontro de nossos anseios e de nossos sonhos.
Foi, de fato, uma noite maravilhosa.
O auditório do Conselho Regional de
Medicina do Estado do Ceará-CREMEC proporcionou à Turma JK/1976 uma saudosa e
eterna memória, saudosa dos que estavam presentes e eterna dos que já nos
haviam precedido, na última e inexorável viagem.
Ao adentrar o recinto, pareceu-me que uma
nuvem nevada descera do alto e pairava sobre nossas cabeças, contrastando com a
cor de nossos paletós e a beleza das colegas que envergavam seus adornos
pujantes.
A presidente do CREMEC, Dra. Inês Tavares,
abrilhantou a abertura da sessão, com sua imponente vestimenta e com seu
discurso, que calou, profundamente, em nossos corações.
O silêncio era tamanho, que não se perdia
uma só palavra de seu discurso. E aumentou ainda mais, quando o nosso querido e
nobre colega, Dr. Odorico, brindou-nos com uma excelente oratória,
apresentando-nos a história recente de nossa caminhada. Fez-nos navegar no
Danúbio Azul, curtindo as belezas e as agruras de nossos passos e, outras
vezes, voar no tapete de Aladim, revisitando lugares aprazíveis e situações tão
diversas quanto díspares, onde rimos e dançamos, cantamos e choramos aos ritmos
que nos embalaram, na meninice de nossos sonhos e na juventude de nossas
realizações.
Crescemos e amadurecemos.
Cinquenta anos. Tão perto e tão distante.
Tantas coisas para contar. Tantas surpresas inesquecíveis. Tantas corridas, que
nos atiraram em rápidas mudanças, as quais nos ativaram a determinação de
aperfeiçoar, sempre mais, o nosso ‘modus vivendi’ a arte hipocrática.
Somos médicos. Há cinquenta anos, vemo-nos,
agora, num átimo de tempo, jovens cheios da audácia de discípulos de
Hipócrates: nossa juventude exalava a energia de guerreiros, marchando para a
luta, em defesa da vida, em busca da homeostase perdida e do equilíbrio da
economia vital.
Somos médicos. Somos humanos. A humanidade
nunca nos visitou, porque nós éramos e somos humanidade. Desistir seria
inominável, seria a perda da essência de ser, seria a profanação de nosso
mister de cuidar. Como expressou Odorico, com a sabedoria que refletiam suas
cãs, iguais às nossas, “os livros nos ensinaram doenças, [os mestres nos
mostraram sinais e sintomas], porém, foram os pacientes que nos ensinaram
medicina”. Sim, os pacientes trouxeram-nos o viço, o vigor e as fragilidades
criaturais da humanidade, que vive em cada um de nós. Isto, disse-nos Odorico,
para aprendermos que, mesmo quando não for possível curar, ainda assim, jamais
poderemos deixar de cuidar.
Somos médicos. Somos humanos. Somos nossa
espiritualidade, pensando, sentindo, agindo, em cada decisão e atitude tomadas.
E não há espiritualidade consistente sem uma humanidade, conscientemente,
sólida. Deus nos preside, quer queiramos ou não.
O médico é Seu assistente, junto ao irmão
que sofre e cujo olhar suplicante mistura-se à humanidade untada, indefectível,
da espiritualidade latente do esculápio.
É esta espiritualidade, que jamais nos
deixará capitular ao relativismo, nem substituir o sentido essencial da nossa
humanidade pelos avanços científicos e tecnológicos. Aliás, nós somos seus
criadores e, seremos humanos, enquanto continuarmos a ser seus curadores. Sem
espiritualidade, perde-se a humanidade e sem os dois, não haverá medicina.
Cinquenta anos, que nos forjaram o amor no
serviço do bem-estar do ser humano, nós os vivenciamos, em poucos momentos
horários. Encurtou-se o espaço, recuou o tempo indomável e recalcitrante,
montanhas se planificaram. Eis-nos todos no início da jornada, em 1976, cabelos
negros, ânimos decididos, com propósitos firmes, mas sem conhecer o que haveria
de vir. Sem ainda sentir o grito de dores e sem ouvir os pedidos de socorro.
Todavia, com a vontade de prosseguir e nunca desistir. Eis-nos, novamente, em 2026,
com alguns colegas já transmudados para o reino do infinito, aos pés do
Criador, lavados com o sangue do Cordeiro, a receberem os louros da vitória.
Foi uma bela festa.
Magnânima.
Plena de profundas reflexões e eternas
gratidões.
E o anfitrião foram nossos pacientes.
Obrigado à presidente do CREMEC, a todos os
colegas e funcionários, que o constituem, pelo reconhecimento de nossas lutas,
pela humanidade que nos habita, pelo espírito que nos conduz, pelo estado (e
não profissão) que desposamos, pela vida que nos irmana.
Uma saudação agradecida e orante aos que já
nos deixaram.
Um abraço fraterno e cordial a todos e,
privativamente, a cada colega.
Segue também minha saudação, em forma de
canção
(*) Pediatra e professor
da Uece aposentado. Enviado por WhatsApp em 17/10/26.
