Por Pedro Bezerra de Araújo – Pierre Nadie
A Trindade é um mistério em si mesmo, um
mistério estrito, que a razão não alcança e se curva ante a revelação de Deus,
nos escreve Santo Tomás.
Pela fé mergulhamos no mistério, mas, pela
razão, jamais o compreenderemos, pois, transcende os limites de nossa
contingência.
Deus é amor, diz-nos o Evangelista São João
(1Jo 4,16).
O amor é uma relação de saída ao encontro
de um amado. E só se concretiza se o amado se fizer amante. E entre os dois, há
de nascer o fogo, que impulsiona e consolida o amor. Uma pessoa isolada não
dispõe de elementos essenciais para curtir o amor. Assim, Deus, que é amor
absoluto, não se fecha num egoísmo narcísico, mas faz-se comunhão intrínseca
com o Filho, no fogo amoroso do Espírito Santo.
Não precisou criar o homem para viver o
amor, ao contrário, derramou na sua criatura a chama de Seu amor e, no Seu
exemplo modelar, transparece a afirmação de Jesus: “Eu quero a
misericórdia e não o sacrifício’ (Mt 9,13; 12,7), priorizando a atitude do coração, o amor ao
próximo e o perdão, que do amor é irmão.
O Espírito pairava sobre as águas: "A terra estava
informe e vazia; as trevas cobriam o abismo e o Espírito de Deus pairava sobre
as águas."
(Gn 1,2).
O Pai manifesta-se a Moisés: Deus respondeu
a Moisés: “Eu
sou aquele que sou”. E ajuntou: “Eis como responderás aos israelitas: (Aquele
que se chama) ‘Eu sou’ envia-me junto de vós” (Ex 3,14).
O Filho: ‘Respondeu-lhe (à Maria) o anjo: “O Espírito Santo
descerá sobre ti, e a força do Altíssimo te envolverá com a sua sombra. Por
isso, aquele que nascer de ti será chamado Filho de Deus.’” (Lc 1,35).
E, no batismo de Jesus, Marcos registra a
plena revelação da Trindade: ‘No momento em que Jesus saía da água, João viu os
céus abertos e descer o Espírito em forma de pomba sobre ele. E ouviu-se dos
céus uma voz: “Tu és o meu Filho muito amado, no qual pus toda a minha
complacência.”’ (Mc 1,10-11).
A Trindade é concebida pela Patrística, com
São Gregório de Nazianzo e desenvolvida por São João Damasceno, com o termo
grego περιχώρησις e em latim circumincessio ‘Pericorese’,
ou seja, como uma mútua interpenetração e coabitação do Pai, Filho e Espírito
Santo. Têm a mesma οὐσία (ousia - essência), habitam um no outro e são um na intimidade de
sua amizade. O conceito teológico de Pericorese é ilustrado como uma
"dança" eterna de amor, movimento e doação mútua entre as três
pessoas.
Este termo já foi utilizado, antes, pelos
gregos, como Anaximandro por volta de 450 a.C. e também Platão expõe-no como
relação entre alma e corpo. Encontra-se ainda nos textos de Pseudo-Cirilo,
todavia, associado à Cristologia.
Em cada uma das três Pessoa da Trindade
habitam as outras Pessoas, mutuamente, em perfeita e íntima unidade e comunhão κοινωνία (koinonia), sem perder
suas individualidades, nem se fundirem. Não há divisão da divindade. Elas
compartilham os mesmos tributos: onisciência, onipotência, eternidade.
Embora todas ajam em conjunto, atribui-se
ao Pai a Criação; ao Filho, a Redenção e ao Espírito Santo, a Santificação.
Santo Agostinho comenta: A Trindade é a estrutura própria do amor
absoluto (De Trinitate).
A Koinonia divina inspira a koinonia humana na partilha, no acolhimento e amor mútuos.
Portanto, ser cristão, à luz da Trindade, é
ser um ser-em-constante-relação (GRESHAKE, 2001).
A comunhão trinitária é o antídoto cristão
contra o individualismo.
Fontes:
https://www1.unicap.br/ojs/index.php/theo/article/view/826
https://www.youtube.com/watch?v=E2s61E34elY
https://www.youtube.com/watch?v=uAczIwjoHXE
Uma boa segunda-feira, com as bênçãos de
Deus!!!
(*) Pediatra e professor
da Uece aposentado. Enviado por WhatsApp em 1/06/26.
