quinta-feira, 16 de julho de 2026

VOLTANDO À (IN)TOLERÂNCIA

 Por Vladimir Spinelli Chagas (*)

Em 2020 estreei nessas páginas com um simbólico artigo "No Reino da Tolerância", por sentir que se agravava, cada vez mais, a falta de diálogo, o desrespeito às opiniões alheias, a falta de reflexão. Então, propunha que eu e você nos tornássemos mais tolerantes para debater fatos e não irmos ampliando as discussões como uma guerra.

Voltei ao tema mais quatro ou cinco vezes, sempre com a perspectiva de que, conseguindo adesão de meia dúzia de pessoas, já teríamos um bom início para que a convivência se tornasse mais amigável, mesmo entre aqueles que defendem ideologicamente campos opostos. Afinal, em que parte do Livro da Vida temos alguma lei que estabeleça a Verdade Absoluta? Não conheço. Pelo contrário, todo ele sempre se dedica a destacar que o amor ao próximo é uma regra pétrea.

Ora, como amar sendo intolerante? Os momentos de mais tensão se deram nos processos eleitorais que vivenciamos desde então. Agora mesmo, começamos uma nova refrega, na qual veremos menos propostas reais em benefício do povo e mais agressões e violência. Ora, nós eleitores seremos, mais uma vez, vítimas de nossas ações e omissões, aceitando esse quadro de discussões estéreis em vez de exigirmos, como é de nosso direito, que o debate vá para o campo de ações públicas?

Já perdemos demais com um Legislativo que não honra o passado de tantos cidadãos até hoje respeitados por suas posições como verdadeiros representantes do povo, que lhe dá os votos. O poder executivo, em todos os níveis, também não é exemplo de real preocupação com a população, que também os elegeu e tem visto um distanciamento das poucas promessas de campanha que a beneficiaria.

Em relação ao Judiciário, as notícias que são estampadas diuturnamente também ferem de morte o direito do cidadão. Nos níveis superiores, não foram eles eleitos, mas escolhidos por quem o foi, com um compromisso assumido de pugnar pela Justiça, pela Democracia e pela defesa intransigente da Constituição, de que são os guardiões.

"Tolerância, mesmo que utópica, continua sendo uma ideia que defendo com veemência. E uma reflexão que proponho mais uma vez." E uma vez mais.

(*) Professor aposentado da Uece, membro da Academia Cearense de Administração (Acad) e conselheiro do CRA-CE. Provedor da Santa Casa da Misericórdia de Fortaleza.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 15/06/26. Opinião. p.18.

PROFESSORES SÃO IMPORTANTES

Por Sofia Lerche Vieira (*)

Professores são importantes. Quanto a isso, não há discordância. No entanto, não é de conhecimento geral que eles representam "o recurso mais significativo das escolas" e são "fundamentais para os esforços de aprimoramento dessas instituições", como destaca relatório da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) elaborado há duas décadas (2006, p. 7).

Na sociedade do conhecimento, o domínio de habilidades humanas e técnicas constitui o principal ativo de um país, como demonstram experiências de nações asiáticas, que reverteram sua história por meio da educação.

O Brasil parece caminhar na contramão das evidências sobre valorização docente. Segundo o Relatório Global Teacher Status Index (GTSI, 2018), ocupamos a última posição (35º lugar) no que diz respeito ao status social dos professores.

Embora tenha sido aprovada uma lei de piso salarial nacional dos professores da educação básica (Lei n° 11.738, de 16 de julho de 2008), o número de docentes concursados vem cedendo espaço a professores temporários.

Artigo recente sobre indicadores docentes nos 19 municípios da Região Metropolitana de Fortaleza (RMF) confirma essa tendência. Na última década, o quantitativo de professores com vínculo permanente (concursados) diminuiu em relação àqueles com vínculo provisório (temporários).

Considerando o conjunto dos municípios analisados, os temporários representavam 29% da força de trabalho docente em 2014 e passaram a corresponder a 44% em 2024, sinalizando um processo de precarização da profissão.

É verdade que a formação docente na região, medida pelo indicador Adequação da Formação Docente (AFD), apresentou melhora significativa. Ainda assim, a maioria dos municípios enfrenta desafios para assegurar formação adequada a seus professores, sobretudo nos anos finais do ensino fundamental.

Essas e outras evidências revelam que avançar na reflexão sobre os complexos problemas da docência requer uma compreensão cuidadosa do que mostram os números. (Observação: O artigo é de Eloísa Maia Vidal, em coautoria com Sofia Lerche Vieira e Rafael Rabelo Cavalcanti). (2.097 caracteres com espaço)

(*) Professora do Programa de Pós-Graduação em Educação da Uece e consultora da FGV-RJ.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 15/06/26. Opinião. p.18.

quarta-feira, 15 de julho de 2026

MAHLER E A PAIXÃO PELA TRANSITORIEDADE

 Por Carlos Roberto Martins Rodrigues Sobrinho (Doutor Cabeto) (*)

Há um momento na vida em que passamos a revisitar o passado.

Não se trata de saudosismo, tampouco de arrependimento. É algo profundo e silencioso. O ato de reviver nossas memórias parece fazer parte de uma preparação para a passagem. Inicia-se de uma forma quase imperceptível, como um reencontro marcado desde sempre pela própria condição humana.

Assim como as células carregam em si a programação da morte, a memória parece organizar uma despedida previsível. Em instantes, quando a vigilância da razão relaxa por um breve momento, imagens do passado retornam com insistência. Surgem sem propósito aparente, afastando-nos da realidade imediata para nos conduzir a uma espécie de lucidez superior.

Talvez nenhuma obra musical tenha traduzido essa trajetória com tanta profundidade quanto a Sinfonia "Ressurreição", de Mahler. Nela, o compositor percorre os caminhos da existência humana desde o confronto inicial com a morte até a possibilidade de uma transformação espiritual.

Nos movimentos iniciais, os "Ritos Fúnebres" apresentam a inevitabilidade do fim. Em seguida, emergem lembranças de um olhar nostálgico para os tempos de inocência, beleza e paz.

Depois, Mahler nos conduz a percepção da futilidade de muitas das nossas inquietações. A vida aparece como um movimento circular, onde os esforços frequentemente carecem de sentido duradouro. Mas a obra se completa com a "Luz Primordial". É o instante em que a alma aspira à redenção. Entre sonoridades quase apocalípticas e momentos de delicadeza, a música aponta para uma transfiguração. A ressurreição de Mahler não é apenas religiosa; é sobretudo a transformação espiritual do ser humano diante do mistério da finitude.

Foi ouvindo essa obra, repetidamente, que passei a resgatar reflexões que marcaram minha vida de médico e minhas próprias contradições humanas. Aos poucos, percebi que as decepções perdiam importância. Permaneciam apenas as lembranças da juventude, dos afetos e dos encontros que moldaram quem sou.

Há algo semelhante a uma despedida silenciosa daqueles que continuarão a caminhada. Uma sensação quase distônica, na qual os acontecimentos do mundo parecem distanciar-se da tormenta cotidiana. Como um movimento centrífugo, afastamo-nos do círculo das urgências para observar a existência sob outra perspectiva.

Passei, então, a preparar o reencontro comigo mesmo. Descobri que não temo a morte. Ao contrário, confesso guardar uma certa fascinação por esse encontro inevitável. Não de forma apoteótica ou narcísica, mas a aceitação serena de um retorno à matéria primordial.

Talvez seja essa a maior lição de Mahler: compreender que a finitude não representa uma derrota, mas uma etapa da grande metamorfose da existência.

Ao final, somos todos pó, poeira carregada pelos ventos do tempo. E há uma estranha beleza nessa condição.

(*) Médico. Professor da UFC. Ex-Secretário Estadual de Saúde do Ceará.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 13/06/2026. Opinião. p.25.

terça-feira, 14 de julho de 2026

ESTRATÉGIA ESTADUAL DE EDUCAÇÃO FINANCEIRA

 Por Alexandre Sobreira Cialdini (*)

O governador Elmano de Freitas acerta mais uma vez ao instituir a Estratégia Estadual de Educação Financeira (E3F), normatizada pelo Decreto nº 36.326/2024. Com base nas diretrizes dessa estratégia, formulamos e estamos executando o Programa de Educação Financeira do Estado do Ceará, em parceria com a Fundação Demócrito Rocha, instituição reconhecida por sua competência e ampla experiência em programas de educação a distância.

A Estratégia Estadual de Educação Financeira está estruturada em três pilares fundamentais: 1) compreensão do poder do dinheiro e identificação de riscos e oportunidades, incluindo o papel da previdência complementar; 2) prevenção de fraudes; e 3) conscientização sobre os jogos de apostas, abordando os problemas decorrentes da ludopatia (vício em jogos), da destruição da renda familiar e dos impactos negativos sobre a economia.

De acordo com a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), a educação financeira é o processo pelo qual consumidores e investidores ampliam sua compreensão sobre produtos, conceitos e riscos financeiros. Por meio de informação e instrução, desenvolvem habilidades e confiança, tornando-se mais conscientes dos riscos e oportunidades existentes, podendo realizar escolhas mais responsáveis e adotar ações que contribuam para o bem-estar financeiro.

No âmbito nacional, o Governo Federal instituiu, por meio d Decreto Nº 7.397/2010, a Estratégia Nacional de Educação Financeira, com a finalidade de promover a educação financeira, securitária e previdenciária. Desde então, o Banco Central do Brasil vem difundido orientações para fortalecer a cultura financeira da população.

Os recentes avanços tecnológicos, especialmente a crescente digitalização e a expansão de produtos sustentáveis, têm implicações para as finanças pessoais. Esse cenário reforça a necessidade de aprimorar a educação financeira, capacitando as pessoas para a tomada de decisões mais acertadas e contribuindo para o fortalecimento da alfabetização e da literacia financeira, esta entendida como a capacidade de compreender e aplicar conceitos financeiros básicos e avançados.

Outro aspecto relevante do programa é sua dimensão comportamental. A iniciativa adota uma abordagem multidisciplinar alinhada às contribuições da Economia Comportamental. Como destaca Richard Thaler, ganhador do Prêmio Nobel de Economia: "A maior lição é que, assim que se percebe um problema comportamental, é possível inventar uma solução comportamental para ele."

Mais informações sobre o Programa de Educação Financeira do Estado do Ceará podem ser acessadas no portal da Fundação Demócrito Rocha: https://fdr.org.br/educacaofinanceira/

(*) Mestre em Economia e doutor em Administração Pública e Secretário de Finanças e Planejamento do Eusébio-Ceará.

Fonte: O Povo, de 11/06/26. Opinião. p.15.

segunda-feira, 13 de julho de 2026

SELEÇÃO, SAMBA E RAÇAS

 Por Raimundo Padilha (*)

Estamos entrando em clima de Copa do Mundo. O técnico da seleção brasileira já anunciou a convocação de 26 jogadores. Embora estejamos com um dos mais consagrados técnicos do mundo, não deixa de ser um momento difícil a escolha dos convocados. As torcidas vibram quando os seus ídolos são anunciados. O Brasil é penta

campeão, mas há mais de 20 anos não traz o troféu. Tivemos uma fase áurea do futebol e hoje, embora, com alguns valores individuais não temos conquistado a taça. No dia do anúncio o clima era de expectativa, principalmente, para se saber se Neymar seria ou não convocado. A sua convocação era defendida pela grande maioria dos torcedores.

Acho que um bom time precisa do binômio talento individual e espírito de equipe (entrosamento). E são 11 que precisam estar bem alinhados, Assim, não foi fácil a escolha do técnico Carlo Ancelotti. Pessoalmente, achei longo o período de observação dos jogadores e muito curto o período de treinos para ser criado o espírito de equipe.

Particularmente quanto à convocação do Neymar, talvez, tenha sido a maior dificuldade do Ancelotti. Neymar ainda é um craque, mas já não é o craque de ontem, embora o seu nome ainda pese. Historicamente, ele é muito marcado e recebe muitas faltas passando longos períodos fora de campo.

Acho que o técnico passou pelo seguinte dilema: se não convocar o Neymar e perder a copa, a culpa é dele (técnico), mas se escalar o Neymar e perder a taça a culpa será do jogador. Não desejo que Neymar assuma o peso desta responsabilidade que poderá comprometer o seu desempenho. Quero que entre em campo fazendo o que ele ainda pode fazer de melhor. Ele tem o apoio de toda a torcida brasileira e dos seus 10 companheiros, que ainda veem nele um talento.

E justiça lhe seja feita ele tem noção das quatro linhas, da bola redonda, das traves e dos seus companheiros de equipe. E isto ele vai levar para toda a sua vida, mas a idade vai limitando o seu desempenho. E isto é da natureza humana.

Mas, é bom lembrar que somos 26 e todos têm muito valor e responsabilidade pela camisa que vestem. Enfim, somos penta. E temos raça.

Aliás, a propósito de raça, no mundo temos várias raças: a branca, a negra, a parda, a amarela e a indígena.

No futebol brasileiro e na música, os melhores têm sido da raça negra. Pelo menos, esta é a minha observação pessoal. E isto se constitui num grande valor, que pode eliminar a má ideia dos preconceituosos. A nossa arte musical, principalmente, no samba, no baião, no chorinho e no rap, a predominância com talento e elegância é a raça negra que melhor nos representa.

No futebol/arte é da mesma forma. Basta lembrar de Zizinho, Didi, Pelé, Garrincha, Barbosa, Jairzinho, Djalma Santos e tantos outros, que para orgulho nosso vestiram a camisa canarinha. Sem demérito das demais, a raça negra é orgulho nacional.

(*) Economista, professor aposentado da UFC e membro da Academia Cearense de Economia.

Fonte: O Povo, de 10/06/26. Opinião. p.17.

domingo, 12 de julho de 2026

Iprede completa 40 anos transformando a infância no Ceará II

 

Iprede completa 40 anos transformando a infância no Ceará II

Por Ana Rute Ramires, jornalista de O Povo

OP - Desde o início, vocês se preocuparam em cuidar não apenas das crianças, mas o contexto de cuidado de familiar...

Sulivan - Exatamente. Aí quando a gente passou a gerar esse vínculo, a gente viu que do outro lado passamos não é só uma mãe que é cuidadora, mas que essa cuidadora é uma mulher. O Iprede não enxergava a mulher, ele enxergava a mãe. O Iprede tem essa dívida imensa com a mulher. Foi quando nós passamos a criar, além da trajetória da criança, a trajetória feminina.

OP - Vocês mudaram esse olhar, como é hoje?

Sulivan - Esse olhar é fantástico, porque a gente passa a recuperar, não é só o peso da criança, a gente passa a recuperar um ser humano. A gente passa a garantir para aquela criança um futuro de qualidade e a gente passa a olhar para aquela mulher que chega ali, regra geral, a mulher que passa por maior privação de vida, que é não ter escolhas. Ela não tem escolha de absolutamente nada. Essa mulher, geralmente, recebe violência corporal do seu parceiro. Essa mulher não tem uma formação profissionalizada. Essa mulher vive de bico. Essa mulher não recebe elogios. Mas é essa figura mais sofrida da sociedade que supera, que dá volta por cima, que cresce, que sai da miséria, depois de gerar vínculo, levando seus filhos. É fantástico. Ela passa a ser provedora da sua família. Ela passa a dizer não para violência domiciliar e passa a ter uma outra estruturação organizada, saudável, garantindo qualidade de vida futura para os seus filhos.

OP - Quais projetos vocês desenvolvem com esse foco na mulher, na independência?

Sulivan - Apoio da forma mais ampla possível, a começar pela saúde. Nós temos a ginecologia que assiste a mulher em todos os seus sentidos, na prevenção, no tratamento da doença ginecológica, na implantação de DIU, retirada de DIU e biópsia, se for o caso fazer. Nós temos rodas de conversa com psicólogos, profissionais da área de saúde mental que assegura essa mulher uma escuta. E essa escuta direciona pro atendimento das suas necessidades e pro seu crescimento pessoal. Nós temos também para a mulher a formação profissionalizante. Hoje nós temos geralmente no Iprede mais de 30 tipos de curso que vai atender a mulher. Aquela que não pode sair de casa pro trabalho, exerce sua atividade profissional dentro da sua própria casa, seja ela na culinária, no corte de costura, na gastronomia ou na estética.

Além do impacto direto nas famílias assistidas, o centro, que completa quatro décadas no próximo dia 16, consolidou-se como um importante polo de pesquisa e intercâmbio acadêmico internacional. Ao O POVO, o médico pediatra Sulivan Mota, professor da Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Ceará (UFC) e presidente do Iprede, descreve metodologias inovadoras de baixo custo desenvolvidas no instituto, que utilizam a arte, cultura e esporte para promover a inclusão.

Fonte: O Povo, 7/06/26. Aguanambi 282. p.12.


Iprede completa 40 anos transformando a infância no Ceará I

 Iprede completa 40 anos transformando a infância no Ceará I

Por Ana Rute Ramires, jornalista de O Povo

Sulivan Mota, médico pediatra e presidente do Instituto da Primeira Infância (Iprede) em Fortaleza, fala sobre as mudanças nas demandas da entidade

O Instituto da Primeira Infância (Iprede) foi criado 1986 para combater a desnutrição grave. Ao longo de 40 anos, a instituição vem transformando a infância de milhares de crianças e famílias. Atualmente, a organização destaca-se também no suporte a crianças com transtorno do espectro autista (TEA) e no empoderamento de mulheres em situação de vulnerabilidade, oferecendo desde cuidados médicos até formação profissional.

Além do impacto direto nas famílias assistidas, o centro, que completa quatro décadas no próximo dia 16, consolidou-se como um importante polo de pesquisa e intercâmbio acadêmico internacional. Ao O POVO, o médico pediatra Sulivan Mota, professor da Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Ceará (UFC) e presidente do Iprede, descreve metodologias inovadoras de baixo custo desenvolvidas no instituto, que utilizam a arte, cultura e esporte para promover a inclusão.

O POVO - No início, o foco do atendimento era a desnutrição. Após 40 anos, isso mudou. Qual o foco do atendimento hoje em dia?

Sulivan Mota - A grande diferença vem através das demandas. Na época que o Iprede foi fundado, na década de 80 — precisamente em junho de 86 — a demanda era desnutrição. Nós tínhamos que combater a desnutrição. Nós tínhamos um pouquinho mais de um terço de nossa infância toda desnutrida. E não era a desnutrição do primeiro e segundo grau. A grande maioria era do terceiro grau. Era aquela sensação de quando se entrava dentro do Iprede que nós estávamos chegando na África. Porque eram crianças realmente em estágios que nos diziam: "Isso não pode existir". Tinha aquelas crianças que só tinha realmente, como a expressão popular diz, o couro e os ossos, né? Eu me liguei ao Iprede por ser professor de pediatria, por dar aula sobre desnutrição e eu levava os alunos lá. Eu não sou fundador do Iprede. O Iprede foi fundado de uma forma muito mais linda do que fosse por mim. Ele foi fundado por sete mulheres dentro do Hospital Infantil Albert Sabin (HIAS). Essas mulheres todas, algumas Ana, algumas Maria, algumas Ana Maria, realmente chamando a memória da presença da mãe e da avó de Jesus, né, Ana e Maria. E fundada a casa, eu passei a frequentar. Frequentei durante 20 anos como professor, levando aluno, como voluntário depois. E, depois, há 20 anos, nós assumimos a direção. Quando nós assumimos, era aquele conceito dentro do mundo que o ser humano ele se formata nos primeiros seis anos de vida, que é a chamada primeira infância, ou até mesmo dentro da primeira metade, que é a primeiríssima infância, três anos. E o Iprede passou a reconhecer que mesmo a criança que chegava lá em vulnerabilidade social extrema era uma criança até 6 anos, era a primeira infância. Então, não havia mais aquela urgência extrema da desnutrição, mas havia uma urgência de se investir no ser humano em termos de formação, em termos de capital humano. E esse capital humano, ele é formado principalmente através dos afetos. O afeto leva ao brincar, leva ao cuidar e isso estava ausente nessa criança que chegava ao Iprede. Essa criança só tinha algo em comum, que era a falta de vínculo entre ela e sua mãe. E o Iprede então passou a buscar no mundo algum método e encontramos uma metodologia muito rica que é chamada MISC, que trabalha formando e fortalecendo o vínculo mãe e filho. É uma metodologia antiga, mas que tem um resultado maravilhoso. Uma metodologia que foi usada após Segunda Guerra Mundial e nós aplicamos ainda hoje no Iprede entre mãe e filhos que vêm oriundos da miséria. A miséria é uma desorganização social absoluta, desorganização social, profissional, familiar. Você ter uma mãe que não tem vínculo com seu filho, você vê o nível de desorganização. Essa criança que crescer, no sentido de não ter um porto seguro, não ter uma mediação, porque você só é mediado se você tiver alguém que você tem vínculo. Nessa mediação é que se estimula uma criança pelo brincar, pelo afeto, pelo afago, pelo contato que nós temos. A mãe que não tem vínculo com a criança, ela nem sequer toca o olho no olho da criança.

Fonte: O Povo, 7/06/26. Aguanambi 282. p.12.

 

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