Por
Izabel Gurgel (*)
Chegamos em Alcântara para os últimos dias
da Festa do Divino. Acompanhamos o Imperador e comitiva em cortejo, indo a cada
uma das casas dos nove mordomos previamente escolhidos para receber a real
visita. Era o começo da despedida, o Imperador agradecia a acolhida ao longo da
temporada.
O cortejo incluía as mulheres caixeiras do
Divino Espírito Santo, tocadoras responsáveis pela animação da sala de baile
que havia em cada casa. Em cada casa, havia também uma sala do trono e uma do
banquete. Os mordomos e suas famílias, o que meus olhos de visitante queriam e
podiam perceber, eram a parte mais visível da mobilização de Alcântara inteira
para a festa. O todo, sabemos, pode tocar algo maior do que a soma das partes.
Depois de Alcântara, dava mais gosto ainda
ver, rever o documentário de Isa Grinspum Ferraz, com argumento de Antônio
Risério, feito a partir do livro "O povo brasileiro", de Darcy
Ribeiro (1922-1997). E encontrar Agostinho da Silva a dizer do desejo, da
utopia de uma era sem fome, onde haveria abundância para todas as pessoas, e
todos os seres experimentariam a plenitude. Ouvir Agostinho da Silva
(1906-1994) sobre a figura do Imperador Criança, um menino ou uma menina
fazendo a real presença viver naquele pedaço do mundo, é uma fala de sustança
até hoje.
Dia desses, uma contadora de histórias com
origem nos Inhamuns e moradora da serra de São Pedro, Caririaçu, me enviou um
vídeo da feitura de uma iguaria da Festa do Divino em, salvo engano, algum
lugar do imenso Tocantins. Atriz e produtora cultural, Thailyta Feitosa sabe
bem que o que quer que seja necessário para uma cena, incontornável é a
aplicação ao que precisa ser feito.
Os nove banquetes da (última?) noite de
festa em Alcântara vez e outra figuram na memória. Pelo imenso trabalho que
torna cada um deles possível. Pela inscrição que deixam em quem viveu pelo
menos um deles. Mesmo que, como se deu conosco, nada tenham saboreado, uma vez
que as crianças de Alcântara, como diz a boa saúde de uma criança, vivem tal
noite tocadas pelo para-sempre e adivinhando os nunca-mais.
Fizemos todo o cortejo, casa após casa, com
rapapés na sala do trono, um toque de caixa na sala de baile e a passagem à
sala do banquete. As crianças nos antecediam, e pareciam coladas à cada mesa
mui fartamente montada. Eram a mais bonita interdição do acesso às bebidas,
comidas e lembrancinhas de cada casa. Elas viam melhor o bolo confeitado - cada
um único, irrepetível - não porque se tornassem, elas próprias, partes da mesa,
mas pelos olhos então nunca saciados da capacidade de se encantar, de lamber o mundo.
Dia já clareando, de volta à pousada, provamos no café o doce de espécie
servido na festa. E haveria, na manhã iniciada, o banquete final na casa do
Imperador.
Foi o colega jornalista Arthur Gadelha
ligar sobre a pauta de festa junina que ele acabara de receber e eu lembrar do
serviço grande que uma festa requer. Já reparou como brilham cada vez mais as
pessoas que brincam quadrilha? A brincadeira é a sustentação do todo-dia.
(*) Jornalista de O Povo.
Fonte: Publicado In: O Povo,
de 21/06/26. Vida & Arte, p.2.

