Por
Izabel Gurgel (*)
Houve um tempo em que nossa Tia Esmeralda
dizia: "Caetano Veloso e Maria Bethânia são a mesma pessoa".
Absoluta, Tia Esmeralda. "Uma só pessoa."
Eu não entendia. Era demais mesmo eu já
tendo visto Fu Man Chu serrar uma mulher ao meio e deixá-la inteira ao final da
mágica mais esperada no circo de passagem por Uruburetama. Também já havia
angariado recursos para a cirurgia de recomposição da "Rose, a decapitada
viva". Como? Levava mais gente para ver Rose na barraca da Feira dos
Municípios, em Fortaleza. A bilheteria era para a cirurgia de recolocação da
cabeça junto ao corpo, dizia o comovido senhor que apresentava cada sessão.
Depois de tanto trabalho, de mobilização de
público, a produção de decapitada, a plateia pagante, vi Rose e o comovido senhor
de mãos dadas na tarde do domingo, em cuja noite se daria a última
apresentação. Estavam no Parque de Exposições, a caminho, talvez, da
barraca-do-drama. Bem que o Dr. Prefeito havia explicado, a pedido da minha
mãe, que era impossível alguém viver decapitado. Explicou como médico que era e
usando um exemplo da física. O que acontecia ali era um truque de ilusionismo,
com espelhos, luz, refração, eu iria ver com meus próprios olhos nos livros que
ele me mostraria na volta para casa.
Ouvir eu ouvi. Valeu nada. Eu não pagava
mais ingresso, pois estava a serviço. Quem pagava, via, no congelador da
geladeira vazia, a cabeça ligada por mangueiras de jardinagem ao corpo na maca.
E Rose falava. Falar com som, emissão de voz, não, mas abria e fechava os
olhos, em diálogo com o citado comovido senhor e, por meio dele, com a plateia.
- Rose, Rose...
Em tom de dramática incerteza, parecia
perguntar a si. A dúvida se Rose ainda teria forças para responder nos abalava.
Silêncio de cortar corações, como cortada estava a cabeça.
Alonga-se a pausa dramática.
- Rose..., você quer viver, Rose?
Mais nove desertos de drama.
... uma sequência mais dramática ainda de
abrir-e-fechar-de-olhos. Por vezes, Rose se fazia em lágrimas. Bem poucas.
Havia mais lágrima na plateia.
Antes e depois da pergunta mil e uma vezes
recolocada (há anos estavam em peregrinação. Via-se pelo estado da geladeira),
o comovido senhor contava tudo o que havia acontecido com ela aos 19 anos. A
tentativa de assassinato pelo marido, a fuga, os primeiros socorros, a
esperança itinerante no combo barraca-Rose-geladeira-maca-comovido-senhor,
único modo de sensibilizar as pessoas. Cada sessão urgia ser a última antes da
cirurgia e restauro. O tempo de vida de Rose cada vez menor, a urgência por
justo aquele tanto que faltava para cobrir o volume de gastos; os
agradecimentos por estarmos ali, não só pagando ingresso, mas doando um tanto
mais, o possível de cada qual para costurar a cabeça ao corpo da artista.
Não sei como, mas eu já sabia que Rose e o
comovido senhor eram artistas. E duas pessoas tão separadas uma da outra quanto
a cabeça e o corpo da Rose.
(*) Jornalista de O Povo.
Fonte: Publicado In: O Povo,
de 16/08/26. Vida & Arte, p.2.
