sexta-feira, 19 de junho de 2026

Crônica: O problema do véi... ... e outros causos

O problema do véi...

A prendada dona Juraci e o descolado "mestre Wilson", que tive o privilégio de conhecer a ambos, botaram no mundo, no longínquo 1929, o resistente homem do campo, tornado agricultor de categoria incomum, um contador de causos único - Juroilson Vieira Souza, dado à luz na aprazível Pirapora, légua e meia do Cauípe.

Nunca, enquanto somava "apenas" 92 anos, um hospital. Remédio, somente quando empanzinado e, aqui e acolá, "umas piula" pra dor articular. Até as nove décadas de vida, sete anos atrás, pois, uma rocha no tocante à saúde - nem toque retal da próstata levou. A presença diária no roçado, brocando; tangia o gado com cipó de marmeleiro em busca do açude; despescava galão com o neto aos domingos; comia feito um bicho…

- Eu era um homem!

Mas apareceram ronchas no corpo, vieram o engulho e o reumatismo, a remela excessiva e a mouquice, o esquecimento e o mijo em queda livre. A filha Judite vexada levou "pai" ao consultório do clínico geral. Uma novidade, aquilo, pra quem jamais sequer havia adentrado a um "posto". Após amenidades, o médico perguntou, singelo, qual o problema do paciente ancião. A resposta simples e direta - e perfeita:

- 97 anos...

O alto funcionário do cemitério

Buscando fazer um por fora, o coveiro oferecia caixão feito por ele pela metade do preço ao familiar enlutado à beira da cova. "É pro futuro!" E prometia ao comprador, de brinde, uma camisa oficial do Ceará com a assinatura de Magno Alves. Indagado pela reportagem sobre esse malfeito, o "alto funcionário do campo santo" explicou que "a vida tava de morte, liseira era braba - tô me virando como posso!"

Por que considerado alto funcionário? A mãe do rapaz explicava, altamente maternal:

- Acima dele só Deus! É meu fí quem faz a entrega do cristão morto ao chão que a terra há de comer. E de quem é o chão, senão dEle?

Isto dito, suspirava - a senhora orgulhosa do rebento ilustre, finalizando a defesa com detalhe imprescindível no concerto funéreo gaiato em tela:

- Ah, o rapaz que ajuda meu Zezito a enterrar é Toinho de Laura Lôra! Com a pá na mão, esse rapaz é um rei!

O santinho precoce

Era praxe na cidade, no decesso de alguém, encomendar santinhos de falecimento na gráfica do Mazinho - "Aqui, quem manda é o freguês". Pois bem. Seu Nonô passou desta aos (acreditem!) 105 anos de idade, na madrugada. Familiares e amigos avisados por portadores, casa em casa. Velório às 10h, enterro às 16h no parque "Nas Mãos de Pedro".

Homem de poucos estudos, Dico Rojão, primogênito de seu Nonô, já na gráfica - precária em equipamentos, mas robusta em gentileza. Pede celeridade na confecção dos santinhos.

- É pra missa de corpo presente! Tem aí um modelo já pronto, seu Mazinho?

- Tenho, Dico! Escolha um desses aí!

E despejou no balcão caixa abarrotada - a coleção completa de santinhos de mortos e mortas, entre velhos e novos, pobres e ricos, cujas famílias ali iam imprimir seus pequenos folhetos de luto. Um particularmente agradou o inculto Dico - de um jovem que morrera precocemente.

- Gostei desse! Troque só o nome do rapaz pelo de papai e as datas!

- Na hora! E sobre o texto?

- Deixe exatamente como está!!!

Hora da missa. Santinhos distribuídos. O padre faz a gentileza de ler o impresso:

- "Ao querido Nonato Gonçalves Serra, carinhosamente 'Nonô', falecido precocemente aos 105 anos, o nosso..."

Fonte: O POVO, de 22/05/2026. Coluna “Crônicas”, de Tarcísio Matos. p.2.


quinta-feira, 18 de junho de 2026

ELMO: do capacete à Fundação

Por Vladimir Spinelli Chagas (*)

Todos nós, de forma direta ou indireta, passamos por momentos de intensa preocupação com a pandemia do Sars Covid que se instalou a partir de 2019 e já em 2020 ceifou cerca de 1,8 milhão de vidas no mundo. No Ceará, as perdas beiraram as 10.000 vidas, criando um clima de insegurança a prejudicar também a saúde física e mental dos não infectados, que precisaram conviver com um mundo totalmente diferente.

Nesse ambiente de luto e extrema pressão sobre o sistema de saúde, a falta de equipamentos e de vagas de UTI, levaram à busca de novas opções, não apenas de convivência, mas sim de combate aos efeitos cruéis que a Covid-19 trouxe.

Povo inteligente e inovador por natureza, o cearense proporcionou ao mundo um dispositivo de respiração assistiva não invasiva, a que se denominou Capacete Elmo, cujo desafio principal era evitar o colapso do sistema hospitalar, que se acentuava na medida em que mais e mais pessoas precisavam ser intubadas nas fases críticas da doença.

Força-tarefa unindo Escola de Saúde Pública do Ceará, Funcap, UFC, Unifor, a FIEC/SENAI e Esmaltec, teve a missão de desenvolver, em tempo recorde, um caminho diferente. E chegou ao mecanismo de pressão positiva proporcionado pelo Elmo, o que reduziu em até 60% a necessidade de internações em UTIs e salvou milhares de vidas.

Hoje, esse símbolo de humanização, que mantinha o paciente lúcido, comunicativo e com um conforto psicológico fundamental para o momento de tanto isolamento, ressurge com ainda maior alcance, na forma de uma Fundação que é um verdadeiro hub para novas tecnologias em saúde assistiva.

Reconhecido pela CNI e Sebrae como inovação em produto; pela Abril e Dasa como tratamento; e pela OMPI como exemplo global do uso da propriedade intelectual para o bem social, o Elmo conquistou ainda o Prêmio Euro de Inovação em Saúde, em 2023.

A aplicação desse prêmio no projeto da Fundação Elmo, criada para fortalecer a pesquisa, a inovação, o ensino e a memória da saúde respiratória, consolida o legado do capacete e acentua o verdadeiro espírito de preocupação com a atenção na saúde e a preservação da vida.

Parabéns a todos os nele envolvidos.

(*) Professor aposentado da Uece, membro da Academia Cearense de Administração (Acad) e conselheiro do CRA-CE. Provedor da Santa Casa da Misericórdia de Fortaleza.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 18/05/26. Opinião. p.18.

UM OBSERVATÓRIO DA EDUCAÇÃO

Por Sofia Lerche Vieira (*)

O processo de urbanização brasileira se intensificou na segunda metade do século XX, em decorrência da formação de grandes aglomerações urbanas e da necessidade de novas formas de planejamento territorial. Nesse contexto surgiram as chamadas regiões metropolitanas, agregando municípios em torno de metrópoles, perspectiva que dá origem à Região Metropolitana de Fortaleza (RMF). Criada em 1973, hoje, agrega 19 municípios: Aquiraz, Cascavel, Caucaia, Chorozinho, Eusébio, Fortaleza, Guaiuba, Horizonte, Itaitinga, Maracanaú, Maranguape, Pacajus, Pacatuba, Paracuru, Paraipaba, Pindoretama, São Gonçalo do Amarante, São Luís do Curu e Trairi.

A ideia subjacente à criação da RMF foi promover maior integração administrativa e coordenação de políticas públicas em áreas urbanas que ultrapassavam os limites municipais. A solução de tais problemas, contudo, não ocorreu como previsto: os problemas urbanos se agravaram, desigualdades entre os municípios se fizeram presentes em várias dimensões da gestão pública e muitos desafios surgiram.

Embora a RMF agregue 63,6% do PIB do estado, a distribuição desigual da riqueza eleva as disparidades entre municípios. Enquanto uns concentram atividades de maior retorno econômico, a exemplo de São Gonçalo do Amarante que abriga o Complexo Industrial e Portuário do Pecém (CIPP); outros, dependem fortemente de recursos da União e do Estado, incluindo programas de transferência direta de renda como o Programa Bolsa Família (PBF), do qual entre 42% e 58% da população são beneficiários.

A análise de indicadores econômicos e educacionais mostra não haver correspondência entre uns e outros. Ou seja, não necessariamente municípios com alto PIB têm equivalente desempenho educacional e vice-versa. Essas e outras questões são objeto de nossos estudos recentes que apontam para desafios a serem enfrentados, sendo a criação de um Observatório da Educação da RMF (@observa.remefor) uma iniciativa necessária e já em andamento. A Universidade é um fórum propício a este diálogo para o qual convidamos governo, sociedade civil e municípios da região.

(*) Professora do Programa de Pós-Graduação em Educação da Uece e consultora da FGV-RJ.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 18/05/26. Opinião. p.18.


quarta-feira, 17 de junho de 2026

Vorcaro e o seu crime quase perfeito

Por Raimundo Padilha (*)

Imaginar que o seu crime seria perfeito, foi um erro crasso. Ele esqueceu que a perfeição não está entre os humanos. Ela existe, mas está plano celestial e não no nosso.

Ao armar o golpe gigantesco de bilhões de reais, ele abriu portas, através da quais, encontrou caminhos para as mais diversas formas de captação de recursos de forma lícita e ilícita, comprando graúdos intermediários financeiros e encontrou caminhos escusos e aparentemente invisíveis, para escondê-los em mãos, também, sujas.

Depois de maquinar a captação dos recursos e os seus esconderijos, ele procurou se proteger através do auto poder nacional, inclusive das togas para a sua segurança pessoal. Por isso, o seu plano previa a sua prisão ou fuga. Mas, o risco de ser alcançado era iminente. Daí, ter pago, antecipadamente, e muito bem, os seus futuros defensores.

O compliance e a Auditoria Externa, foram acometidas de miopia ou cegueira absoluta, sem prestar qualquer informação aos órgãos reguladores. E, parece, que não serão apenados. O Brasil que queremos, grandioso e justo não pode, nem deve ser transformado em forno de pizza.

Até Ministros do STF tiveram alguma forma de participação, seja através de escritórios de advocacia de seus familiares ou negócios imobiliários sem visibilidade.

Como forma de alimentar o golpe do Master, que era baseado na cobertura do FGC, houve Senador, chegou a apresentar proposta ao senado para elevar o Fundo Garantidor de Crédito de 250 mil para 1 milhão de reais, o que seria uma forma de alavancar os negócios do Banco Master. Tudo adredemente projetado para cobrir o rombo, que no seu somatório vai próximo dos 60 bilhões. Este é o maior rombo já praticado no Sistema Financeiro Brasileiro.

Através dos Fundos de Pensão, que também foram envolvidos, não é fácil prever quantos investidores pessoas físicas, foram atingidas.

Também, comenta-se que houve Fundo de Pensão que aplicou recursos nos Fundos do Master por influência dos políticos.

Houve Ministro que viajou com a esposa para um Estado fora de Brasília em vôo pertencente ao Vorcaro. Se tudo que tem sido dito sobre as proezas deste cidadão, conclui-se, que se trata de homem perigoso e maquiavélico, que a tudo compra com o poder do dinheiro e absolutamente sem escrúpulos.

Até na prisão o Sr. Vorcaro teve o benefício de não ter o cabelo raspado à zero, mas, apenas rebaixado.

Depois de preso o Sr. Vorcaro, substituiu seus advogados, contratando outra banca e tomou a decisão de fazer uma delação. O assunto está tramitando no poder judiciário e o Sr. Vorcaro, possivelmente reunindo provas para dar validade à sua delação.

A dúvida é se ele nomina todos os envolvidos e qual será o tamanho da sua pena e dos seus comparsas. Um já pagou com a própria vida, sob a alegativa de suicídio com uma camisa de malha.

(*) Economista, professor aposentado da UFC e membro da Academia Cearense de Economia.

Fonte: O Povo, de 13/05/26. Opinião. p.19.


terça-feira, 16 de junho de 2026

53 anos da Faculdade de Educação Ciências e Letras do Sertão Central

Por Pe. Francisco Artur Pinheiro Alves (*)

Neste dia 10 de maio, a Feclesc completa 53 anos de história. Criada por lei municipal, pela Câmara Municipal de Quixadá, em 10 de maio de 1973, a Faculdade passou por várias etapas, numa luta contínua por sua consolidação como instituição de ensino superior na região do Sertão Central.

Sua primeira denominação foi Faculdade de Filosofia de Quixadá. Nesta fase inicial tinha como mantenedora a Prefeitura do Municipal de Quixadá.

Em 1976, percebendo-se que não cabia ao município, manter uma instituição de nível superior, foi criada a fundação Educacional do Sertão Central - Funesc, para ser a mantenedora da faculdade. Na ocasião foi também mudado o seu nome, passando a denominar-se Faculdade João XVIII, em homenagem ao Papa homônimo.

Neste período conseguiu instar-se em um terreno de 10.000m², doado por um cidadão local, sr. Joaquim Gomes da Silva, conhecido carinhosamente como Sr. Quinzinho. Foi construída sua sede, com um bloco administrativo e uma Biblioteca e dois blocos de sala aula.

Em 1983, foi encampada pela Fundação Universidade Estadual do Ceará, dentro de um projeto de expansão que contemplou outros municípios, dentre os quais, Iguatu Crateús, Itapipoca, Limoeiro do Norte.

Inicia-se uma nova fase com a realização de concurso público para professores. Os primeiros cursos são criados, vestibulares foram realizados semestralmente e a foi assim, florescendo. Houve uma interrupção na oferta de vestibular, mas foi superada, com a organização e entrega dos projetos profissiográfico dos cursos, pela UECE, junto ao Conselho Federal de Educação.

Após esta fase, novos concursos aconteceram, foi feita uma reestruturação acadêmica, com a criação dos departamentos, a aprovação do Regimento interno, a criação do Curso de Letras, a construção da Residência Universitária, novos blocos de sala de aula, laboratórios de Ciências, auditório e mais concursos, agora para Mestres e doutores.

Hoje, além dos cursos iniciais, Feclesc tem novos cursos e avança na Pós- Graduação, com Mestrados e o primeiro Doutorado, consolidando-se como instituição de nível superior, na região e no interior do Estado.

Oficialmente a Feclesc está comemorando 43 anos, contagem que se inicia com sua anexação pela Uece. Como estudioso e testemunha de sua história, defendemos que esta data seja mudada, já que 10 anos antes da anexação a Feclesc já existia, conforme foi descrito no início deste texto.

Com 43 ou 53 anos, a Feclesc ainda é criança, comparada às universidades e Faculdades nacionais e internacionais. Mesmo ainda na sua infância, ela já deu um grande contributo à região na qual está inserida e dará muito mais no porvir. Viva a Universidade Pública e gratuita, viva a FECLESC, que está contribuindo, com outros centros e faculdades da Uece, com a democratização do acesso à educação superior do Ceará.

(*) Diretor da Fecelsc entre 1992 e 1996.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 14/05/26. Opinião. p.17.


Os nossos "Gulags" de cada dia

Por Carlos Roberto Martins Rodrigues Sobrinho (Doutor Cabeto) (*)

O arquipélago é longe, distante dos olhos e da compreensão. Sua história, para muitos, permanece desconhecida. Atravessa o tempo como um desconforto silencioso. Não se alcança facilmente a dimensão do absurdo.

Os "Gulags" modernos já não precisam de ilhas ou campos congelados. O medo tornou-se mais eficiente do que as antigas grades. Hoje, aprisiona-se sem muros aparentes. A violência contemporânea raramente se manifesta apenas pela força física; ela se instala no medo e no constrangimento permanente, na sensação de impotência. Tem raízes nas heranças familiares, tradições políticas e sociais que se reproduzem de geração em geração.

A insistência contínua do poder cria a impressão de mudança. Promessas são repetidas até adquirirem aparência de verdade. E talvez plantar esperança também possa ser uma forma sofisticada de ilusão. Do latim illudere: ludibriar, fazer troça de alguém.

Foi assim que comecei minha reflexão de domingo. Talvez o único momento em que permito ao pensamento sem amarras, conduzido por livros, músicas, memórias e antigos textos. Uma espécie de reencontro com a infância, quando literatura, poesia e rebeldia conviviam naturalmente.

Vivo no Ceará, terra que usa a ironia contra si mesma como forma de suportar o sofrimento, que produz poesia mesmo na escassez: "Sei que aí dentro ainda mora um pedacinho de mim; um grande amor não se acaba assim". Mas também uma terra marcada por estruturas de poder persistentes, que apenas trocam de roupa ao longo do tempo, sem jamais abandonar os velhos acordos.

Aqui, o "mecanismo" frequentemente encontra aceitação na subserviência secular imposta ao nordestino. De tempos em tempos surgem novas narrativas salvadoras, novos discursos, promessas que parecem convincentes no início — tudo dentro de uma única existência humana.

Escutei atentamente cada uma delas. Ouvi justificativas pragmáticas, discursos cuidadosamente construídos para explicar a realidade. Não sou ingênuo. Não acredito em fadas. Sei que gente é gente, submetida às circunstâncias, à sobrevivência e às conveniências. Nesse processo, quase tudo se justifica.

Até a religião, por vezes, serve para anestesiar consciências e acomodar meias verdades. Ainda assim, considero-me um homem de fé. Creio no aperfeiçoamento espiritual como força capaz de construir futuros melhores para as próximas gerações. Mas isso não me impede de reconhecer a maldade, suas múltiplas formas e sua capacidade de retardar a evolução humana.

Apesar de tudo, continuo sonhando. Não no imediatismo, mas no tempo longo da natureza e da história.

Enquanto isso, que venham mais poesias, mais críticas e mais coragem. Talvez assim ainda seja possível acreditar que o nordestino continua sendo, antes de tudo, um forte.

(*) Médico. Professor da UFC. Ex-Secretário Estadual de Saúde do Ceará.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 16/05/2026. Opinião. p.23.


segunda-feira, 15 de junho de 2026

Mães no labirinto da Prainha do Canto Verde

Por Izabel Gurgel (*)

Aíla faz labirinto com a malha bem fina. Bordado rendado ou renda bordada, ofício de agulha e linha, o labirinto refaz um tecido previamente desfiado. O desfiado segue o risco do desenho a ser executado. E o corte correspondente, resultando na "malha, na trama". Aíla conhece todas as etapas do trabalho. "Não sou boa de risco. O corte, não é toda pessoa que faz. Corto reto, mas não corto enviesado. A Prainha do Canto Verde tem três cortadeiras". Aíla aprendeu com a mãe, Francisca. Órfã desde cedo, dona Francisca aprendeu com a avó materna, dona Júlia, que foi sua mãe.

Aíla Maria da Silva Fernandes tem 62 anos. Dona Francisca Pereira da Silva, 86, segue fazendo labirinto. O trancelim do aprender e ensinar, a transmissão, no caso das duas, nomeia-se em cinco gerações. Aíla se enche de graça ao citar a filha labirinteira. "Tem coisa que Jaíla faz até melhor do que eu". Jaíla tem 32 anos. Casada, mora na vizinha Sucatinga. Os dois lugares ficam em Beberibe, limite da região metropolitana de Fortaleza no litoral leste.

A malha bem fina resulta no labirinto mais perto das filigranas de uma joia. Quem viu peças embaladas, percebe o trabalho de minúcias, que nos fez pensar no silêncio sinônimo de acolhimento de enxovais de bebê com bordados mínimos, o gesto do cuidar e do cultivo de uma calmaria necessária, invocada, quase impossível para os dias de sobrecarga de uma mãe.

Ouvi de mulheres labirinteiras, em outras praias do Ceará: o mar tem seca. A pesca artesanal tem período de paradeiro. Faz-se labirinto o ano todo. Nosso entendimento do trabalho das mulheres como complementação da renda familiar talvez seja equivocado. É sustento não só da casa, da família. Sustenta o mundo, sabemos.

Aprendemos a dizer e ver e reproduzir vila de pescadores e, mesmo sabendo que onde tem pesca (tem rede) tem renda, nunca dizemos vila de rendeiras. Equivocado como associar o fazer renda apenas à zona de praia. Um dos registros mais antigos de ensino da renda no Ceará data de 1760 e se refere à escola em vilas indígenas, ação jesuítica, desde a atual Viçosa, na Ibiapaba.

"Aprendi com a minha mãe. Amava ver minha tia e avó fazendo, lavando, colocando no grude", conta Jaíla. Aíla se reporta às oficinas que ministrou na escola, a filha por perto. Escuto, uma vez mais, Aíla dizer das etapas do labirinto: riscar (antes com lápis, hoje usa uma caneta cuja tinta se apaga quando a peça é passada a ferro), cortar, desfiar, encher, torcer, casear, fazer o paletão, o acabamento/recortar, lavar com grude de goma para, literalmente, engomar quando passar a ferro.

Um contundente mapa dos cearás do Ceará pode ser fiado no algodão, no linho, na seda, em caminhos cruzados, entrelaçados, riscando diminutos e vastos territórios. De mãos sempre ocupadas e olhos a cuidar das crianças no terreiro, do plantio de quintal, do fogo da casa, as mulheres tratam de nascimentos e mortes e de quase tudo que acontece no intervalo entre um e outro.

(*) Jornalista de O Povo.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 10/05/26. Vida & Arte, p.2.


 

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