sábado, 12 de setembro de 2026

Medicina: 9 entidades defendem o Enamed. CFM discorda II

Por Gabriele Félix, jornalista de O Povo.

Medida Provisória propõe ampliação do Enamed; conselhos e entidades são contra

A Medida Provisória (MP) nº 1.370, de 19 de junho de 2026, também em tramitação, prevê a aplicação do Enamed em duas etapas da graduação e a aferição da proficiência médica. O Movimento "Uma Só Régua" destaca que a iniciativa aproxima-se da segunda etapa do exame da fase teórica do Revalida.

Com isso, permite o uso da nota no acesso direto a programas de Residência Médica e cria o Sistema Nacional de Avaliação da Residência Médica, passando a integrar, em uma mesma referência nacional, a graduação, a proficiência, a residência e a validação de diplomas.

Procurado pelo O POVO, o Conselho Federal de Medicina (CFM) reafirmou, em nota, que a necessidade de mecanismos que assegurem a qualidade da formação médica no Brasil.

Segundo o órgão, a medida provisória “não responde à principal pergunta de interesse da sociedade: quem garante que uma prova com 100 questões de múltipla escolha, como prevê a MP, vai avaliar se um médico está efetivamente preparado para atender pacientes?”.

O conselho destacou ainda que o Enamed foi concebido como instrumento de avaliação educacional, destinado a medir o desempenho dos cursos de medicina e subsidiar políticas de supervisão e regulação do ensino superior. Trata-se de uma finalidade distinta daquela necessária para certificar a capacidade profissional de um futuro médico.

“(...) avaliar se um médico está apto para exercer a profissão exige muito mais do que uma prova voltada à aferição da qualidade dos cursos de graduação”, diz o texto.

A entidade afirma ainda que “aspectos fundamentais para a prática médica não são adequadamente avaliados pelo modelo proposto na MP nº 1.370/2026, entre eles habilidades clínicas, comunicação com pacientes, realização de procedimentos médicos, competências éticas e avaliação prática”.

O CFM também destaca preocupação com o que chamou de “concentração de atribuições no mesmo sistema estatal responsável por autorizar, reconhecer, supervisionar e fiscalizar escolas médicas, que agora também vai aplicar o exame utilizado para avaliar os resultados desse próprio modelo”.

Por fim, o Conselho Federal defende o modelo previsto no Projeto de Lei nº 2.294/2024, que contempla o Exame Nacional de Proficiência em Medicina.

Presidente do Conselho Regional de Medicina do Estado do Ceará (Cremec), a conselheira Inês Tavares Vale e Melo reforçou o posicionamento da entidade nacional. “A nossa posição está alinhada com a do CFM. A segurança dos pacientes é uma prioridade para o Conselho Federal de Medicina e todos os Regionais. Por isso, o CFM e o Cremec apoiam a aprovação do Projeto de Lei nº 2.294/2024”, afirmou.

De acordo com o conselho regional, “toda a população ganha com o ProfiMed, que é mais uma medida para fortalecer a segurança da assistência médica. Entendemos que quem fiscaliza o exercício da Medicina deve coordenar o ProfiMed. O Conselho Federal de Medicina é a autarquia responsável por fiscalizar e disciplinar o exercício profissional da Medicina no Brasil”.

O Cremec defende que o ProfiMed busca verificar a proficiência dos médicos recém-formados, “contribuindo para um exercício profissional cada vez mais seguro e responsável”.

Sobre o assunto, o presidente da Sociedade Brasileira de Direito Médico e Bioética (Anadem), Raul Canal, argumenta que a medida tende a gerar efeitos positivos para todo o sistema de saúde.

A criação do Profimed representa um avanço relevante para a qualificação da prática médica. Um exame de proficiência amplia a segurança da população e também protege o profissional ao estimular padrões técnicos mais elevados. Com médicos mais preparados, a tendência é reduzir a judicialização relacionada a falhas assistenciais”, pontuou.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 3/08/2026. Cidades. p.15.


Medicina: 9 entidades defendem o Enamed. CFM discorda I

Por Gabriele Félix, jornalista de O Povo.

RESUMO: Em tramitação no Congresso Nacional, o Projeto de Lei n° 2294, de 2024, propõe instituir o Exame Nacional de Proficiência em Medicina. A iniciativa motivou a criação, em julho passado, do Movimento "Uma Só Régua", que reúne nove entidades representativas do ensino superior particular e da educação médica no Brasil e defende a existência de uma avaliação unificada.

Para os representantes do “Uma Só Régua”, a institucionalização do Exame Nacional de Avaliação da Formação Médica (Enamed) é a solução ideal para assegurar a avaliação dos cursos de medicina como uma política de estado.

As nove entidades que integram o movimento são: Associação Brasileira de Educação Médica (Abem), Associação Nacional das Universidades Particulares (Anup), Associação Brasileira das Mantenedoras de Ensino Superior (Abmes), Associação Brasileira das Faculdades (Abrafi), Associação Nacional dos Centros Universitários (Anaceu), Associação Nacional de Educação Católica do Brasil (Anec), Confederação Nacional dos Estabelecimentos de Ensino (Confenen), Sindicato das Entidades Mantenedoras de Ensino Superior de Sao Paulo (Semesp) e Sindicato das Entidades Mantenedoras de Ensino Superior do Rio de Janeiro (Semerj).

O projeto, de autoria do senador Astronauta Marcos Pontes (PL-SP), condiciona a inscrição no Conselho Regional de Medicina à aprovação do Exame Nacional de Proficiência em Medicina (Profimed).

De acordo com o documento inicial, a prova seria oferecida pelo menos duas vezes ao ano em todos os Estados e no Distrito Federal, cabendo ao Conselho Federal de Medicina (CFM) a regulamentação e a coordenação nacional do exame, e aos Conselhos Regionais de Medicina a aplicação da avaliação.

A justificativa para a criação do PL destaca os “maus resultados na prova do Conselho Regional de Medicina de São Paulo (Cremesp)”. “Os resultados da prova, aplicada no Estado mais rico da Federação, evidenciaram um cenário temerário no que tange à qualidade dos recém-graduados em Medicina”, afirma o texto.

E acrescenta: “Temos hoje no País um quadro de proliferação indiscriminada de cursos de Medicina, realidade que aponta para o provável agravamento das deficiências verificadas no ensino médico”.

Em 2025, os resultados do Enamed preocuparam ministérios e entidades. Cerca de 30% das 351 instituições que participaram do exame obtiveram conceitos 1 e 2, considerado insatisfatório. No Ceará, três cursos de Medicina obtiveram nota máxima e um foi punido por nota baixa.

Em entrevista ao O POVO, o presidente da Associação Nacional das Universidades Particulares (Anup) e representante do “Uma Só Régua”, Juliano Griebeler, argumenta que não faz sentido a existência de duas provas distintas, o Enamed e o Profimed, com objetivos semelhantes, o que geraria redundância, custos extras para o aluno e perda de sinergia no processo avaliativo.

Quando você coloca os dois dentro da mesma prova, o Enamed tem um peso grande para a instituição, mas é importante para o aluno também, você acaba tendo uma sinergia maior”, explica.

Juliano Griebeler destaca ainda a importância do exame ser aplicado pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), justificando que o órgão possui estrutura e experiência em avaliações nacionais.

Porque fazer uma outra prova que um outro ente teria que se dispor a fazer organização e todo esse processo? Então vai muito nesse sentido. O Conselho Federal de Medicina é um conselho importante que tem a sua atuação, mas a gente entende que a principal atuação dele é muito no exercício da profissão em si”, detalha.

Ao O POVO, o Ministério da Educação (MEC), afirmou que o exame busca garantir parâmetros para a formação médica objetivando assegurar que a população seja atendida por profissionais qualificados, formados em cursos devidamente avaliados pelo órgão.

"A Medida Provisória nº 1.370/2026 ampliou o papel do exame, que passa agora a funcionar também como certificação de proficiência para o exercício legal da profissão, para os médicos que ingressam nas instituições de ensino após a publicação da MP. O normativo também permite subsidiar a criação de um sistema nacional de avaliação da residência médica e reforçar as contrapartidas dos cursos de Medicina junto à rede pública de saúde", complementa a nota do MEC.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 3/08/2026. Cidades. p.15.

sexta-feira, 11 de setembro de 2026

Crônica: Quando um guaxinim era o perigo! ... e outros causos

Quando um guaxinim era o perigo!

O motorista se chamava João, rapaz simpático, boa conversa. Eu, no banco de trás do táxi, lia no celular coisas da modernidade intrigante.

A certo instante, espantado com recente episódio de violência no Rio de Janeiro, quebrei o silêncio, dizendo que nesses tempos difíceis "só a proteção divina para nos guardar".

E João, morador da Vila União do amigo Jair Moraes, conta, em contraponto, quão tranquilo era o ir e vir há mais de 40 anos.

- Morávamos na beirada da Lagoa do Opaia e, jovem ainda, íamos ao Vuac - Vila União Atlético Clube, festa animada pelo conjunto Os Morcegos. De casa pra lá, uns 300 metros.

- "Sem os ladrões atrás", perigo nenhum no caminho, nera?

- Nenhum! Ainda assim, mamãe pedia cautela: "Cuidado com cobra e guaxinim!"

A relação glúten/glúteo

Além da dificuldade de ler que prestasse, a vista não ajudava essas coisas todas; os ouvidos, contudo, alcançavam o que os ói não abarcavam.

Prestes a se aposentar, caladão, Dandão é sujeito atento, determinado a aprender. Entre outras, sabe o que é "glúteo", ouvira por vezes a palavra da boca do patrão, Dr. Osvaldo - "bem saidinho".

"Fazedor de mandado" de Dr. Osvaldo, tinha já 20 anos, era por ele "parido".

- Pense numa pessoa pra eu gostar! Um pai pra mim! Dou a vida por ele!

Em casa, certa feita, Dandão ouve da filha Diana, por primeira vez, uma palavrinha parecida com glúteo - aquela "proteína natural encontrada em cereais como trigo, cevada e centeio".

Que consumida por pessoas com condições específicas, é um perigo - provoca reações adversas, a exemplo da autoimune doença celíaca.

A filha, com considerada alergia ao trigo, toda se coçando, é indagada pelo pai sobre a mazela manifestada.

- É intolerância ao glúten!

- Ao quê, Diana?!?

- Glúten, pai! Não sei como ainda tem gente que gosta...

A filha nem bem pronunciou a frase completa ("Não sei como ainda tem gente que gosta de pão") e Dandão, pensando tratar-se do "grupo de três músculos na parte de trás do quadril", corre e arremata:

- Pois eu sei quem gosta! Dr. Osvaldo dá o maior valor!

Esquecendo o que não lembrava

Mal cheiro medonho - de cocô ultrapassado - no consultório. E o senhor, lá dentro, com pressa pra relatar ao médico uma "incapacidade de criar novas memórias, decorrido algum momento", conhecida por amnésia anterógrada.

Põe-se a contar ao geriatra, que se esforça para manter-se calmo, o que sentia. Profissional incomodado enquanto investiga do que sofria "seu Bené", e poder traçar o melhor plano de cuidados.

O octogenário paciente se faz acompanhar da filha Isaura, cuidadora monossilábica, acostumada já com os senões do pai. Começa Bené a discorrer.

- Doutor, eu como uma pratada de feijão, mas é como eu não tivesse comido nada...

- Isaura, ele comeu ou não essa pratada de feijão? - pergunta o doutor.

- Comeu... - responde seca a protetora.

- E aí, dotozim - prossegue Bené -, bebo uma garapa, mas é como se não tivesse bebido.

- E ele, Isaura, bebeu?

- Bebeu...

Agora, explodindo a catinga do "resto de tudo o que o corpo (de seu Bené) não aproveitara dos alimentos digeridos", é o próprio paciente que revela o que tem:

- Como eu ia dizendo, tá com três dias que eu defeco direto nas calças, mas é como se eu não tivesse obrado...

- Tá explicado! Agora tá explicado!

Fonte: O POVO, de 14/08/2026. Coluna “Crônicas”, de Tarcísio Matos. p.2.


quinta-feira, 10 de setembro de 2026

AS BETS EM NOVAS REFLEXÕES

Por Vladimir Spinelli Chagas (*)

Na edição de 13/07/2026, deste Jornal, abordamos uma questão que consideramos de enorme gravidade, caracterizada por uma avalanche do que se designou como bets (apostas, em inglês), as temíveis plataformas de apostas digitais.

No Brasil, elas trazem um problema adicional, por estarem fortemente vinculadas ao futebol, esporte de enorme popularidade, e assim aparentarem uma diversão inocente. Mas, além dos esportes tradicionais, eletrônicos e entretenimentos, as bets exploram, especialmente, jogos de sorte virtuais, como caça-níqueis, roletas e cartas.

O massivo investimento de patrocínio nos clubes e campeonatos brasileiros se dá na contramão do que ocorre, por exemplo, na Europa, em que algumas ligas proíbem as agremiações de estamparem em seus uniformes propagandas de bets. Aqui, pelo contrário, há um incentivo não apenas para uniformes, mas para estádios e programas de televisão, por exemplo.

Assim, as pessoas são expostas a um mundo fantasioso, em que desfilam craques do presente e do passado, influenciadores digitais e outras figuras de destaque, sempre passando a falsa ideia de que apostar é algo glamuroso, que não representa qualquer risco e pode proporcionar uma renda extra, sempre bem-vinda.

No entanto, quando se chegou ao ponto em que os gastos com essas apostas ultrapassaram os R$ 30 bilhões mensais, em contraponto aos R$ 20 bilhões mensais investidos no nosso programa de saúde pública, o SUS, não há dúvidas de que é preciso, para ontem, inibir as facilidades hoje apresentadas, com uma forte regulamentação na publicidade, que não pode se limitar às discretas frases de advertência impostas pelas recentes regulamentações governamentais.

E, para além disso, uma reavaliação, também urgente, na questão da educação financeira e digital já a partir dos primeiros anos escolares, trabalhando o tema de forma transversal em que se ligue Matemática à interpretação de tabelas e juros, o consumo consciente em disciplinas como Geografia e História ou o impacto das mídias na Sociologia, e no campo da Tecnologia, a criação de barreiras virtuais para inibir o consumo por compulsão.

(*) Professor aposentado da Uece, membro da Academia Cearense de Administração (Acad) e conselheiro do CRA-CE. Provedor da Santa Casa da Misericórdia de Fortaleza.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 10/08/26. Opinião. p.18.


VIOLÊNCIA NA ESCOLA: quando o alvo são os professores

Por Sofia Lerche Vieira (*)

Recente editorial de jornal de circulação nacional (Folha de São Paulo, 28 jul. 2026) trata de uma face pouco discutida da violência no interior da escola - a agressão física, verbal e psicológica a professores. Mais do que um problema isolado, reflete um cenário mais amplo de intolerância, conflitos e fragilidade nas relações sociais. O ambiente do qual se espera desenvolvimento humano e aprendizagem tornou-se, para muitos, um espaço de insegurança.

A esse respeito, o Brasil é destaque negativo no cenário internacional. Pesquisa da OCDE (2024), mostra que 47% dos professores do país consideram intimidações e abusos verbais praticados por alunos uma importante fonte de estresse, percentual superior à média de 18% registrada entre cerca de 50 países. O Brasil ainda lidera o tempo perdido com interrupções e indisciplina, comprometendo a qualidade do ensino.

Outro dado impactante refere-se a estudo do Centro do Professorado Paulista -CPP (2025), onde há registro de que 65% dos docentes já sofreram algum tipo de agressão no ambiente escolar. A violência verbal lidera as ocorrências, atingindo 71% dos casos, seguida pela psicológica e moral (58%), institucional (27%) e física (19%). Além disso, 74% dos professores afirmam não se sentir seguros em sala de aula.

Se casos de maior gravidade devem ser investigados pelas autoridades competentes, situações de tal natureza demandam, sobretudo, prevenção. O Unicef, por exemplo, recomenda a criação de protocolos específicos para lidar com agressões, sistemas acessíveis de denúncia e monitoramento, além de programas voltados à mediação de conflitos, cooperação, autocuidado e educação emocional.

Especialistas defendem ainda maior integração entre escola, família e comunidade, sem esquecer ação efetiva do Estado no combate a toda sorte de crimes de ódio. Tão importante quanto valorizar os professores, melhorar suas condições salariais e trabalhistas é assegurar sua integridade física e psicológica. Há algo de assustador em uma sociedade que aceita com naturalidade que seus professores se tornem alvo de violência.

(*) Professora do Programa de Pós-Graduação em Educação da Uece e consultora da FGV-RJ.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 10/08/26. Opinião. p.18.


quarta-feira, 9 de setembro de 2026

Defesa de Memorial de Valberto Barbosa Porto para Professor Titular da Biologia da Uece

Ocorreu na manhã de quarta-feira (9/09/26), na Sala 3 do Instituto Superior de Ciências Biomédicas da Universidade Estadual do Ceará - ISBC/Uece, a Defesa de Memorial, seguida da avaliação de desempenho, para a promoção funcional da referência “O” de professor associado para referência “P” da classe Titular do Grupo Ocupacional Magistério Superior-MAS, do professor Valberto Barbosa Porto, docente do Curso de Ciências Biológicas da Uece.

A Comissão Especial Julgadora, composta pelos Profs. Drs. Marcelo Gurgel Carlos da Silva (efetivo Uece), Maria Iracema Bezerra Loiola (efetivo UFC), José Roberto Feitosa Silva (efetivo UFC), Marcony Silva Cunha (suplente interno) e Pedro de Lima Neto (suplente externo), tendo por secretário o Prof. Dr. Fernando Mourão Cavalcante, aprovou o Memorial apresentado pelo professor doutor VALBERTO BARBOSA PORTO.

Efusivos parabéns ao professor Valberto Porto, por alçar o cimo da carreira universitária em sua exitosa caminhada, plena de realizações pessoais e profissionais, que bem expõem o seu vigor de educador dedicado e a sua substantiva contribuição ao ensino superior cearense.

Igualmente dignos de encômios se colocam a graduação (licenciatura e bacharelado) em Biologia, que tem o professor Valberto Porto como docente, e o Laboratório de Paleontologia, por ele dirigido.

Marcelo Gurgel Carlos da Silva

Professor do PPSAC-Uece


SEMPRE AOS DOMINGOS

Por Pedro Salgueiro, cronista de O Povo

"Os homens que foram aqueles meninos não querem lembrar dos domingos."

Recebi, por esses dias, uma pequena pérola literária (dessas que deveriam viajar na boleia de nossas melhores leituras, tão pródigas em relegar os melhores talentos à surrada carroceria... não sei se me entendem!?).

O livrete foi escrito por Julio Lira, editado pelo escritor-professor Rodrigo Marques na sua "aluáEditora", com tradução, isso mesmo!, para o inglês da canadense Odile Cisneros; ah!, também com belo projeto gráfico e diagramação de Barbarah Freire; recebi o lindo objeto-branco-delicado com deleite, já prevendo chocolate dos bons, pois vindo de uma amigo de longas datas e algumas caminhadas juntos (embora quase nunca nos avistemos pelas ruas, becos e vielas de nossa sonsa loirinha desmilinguida pelo sol).

Depois do susto comecei a leitura, indo e vindo do português para o inglês, correndo às "notas-dobras" esclarecedoras do final do livro, não consegui mais largar até a última letrinha; depois reli e tresli, sem ainda me contentar.

Antes de agradecer, ainda no calor do espanto me dirigi ao santo-oráculo que me socorre nesses raros momentos de espanto:

"Meu caro, estou lendo um poema de um autor cearense sobre um internato nos Estados Unidos. Com tanta coisa para escrever sobre o Brasil, isso não é um sintoma de colonização cultural?"

No que ele, sem titubeios, me respostou: Você certamente está falando de Visita Dominical, de Júlio Lira, mas antes de responder a essa saudável inquietação, preciso dizer do que trata o livro. Um grupo de gestores, urbanistas e convidados visita às ruínas de uma instituição que, durante mais de um século, funcionou em Massachusetts e foi considerada a maior e mais modelar instituição americana dedicada à educação, segundo os termos da época, de "idiotas" e "retardados mentais". Os visitantes se deslumbram e pensam em novos usos para os prédios históricos. Basta, porém, atravessar as alamedas e os corredores abandonados para que o passado se arrebente contra eles.

Surgem as vozes de crianças internas, de familiares separados, de administradores, de psiquiatras, de legisladores. Falam os jornais, os prontuários, os relatórios. Falam também os mortos. A visita deixa de ser um percurso arquitetônico para tornar-se uma travessia de uma memória apagada. As ruínas, os móveis e os objetos, resíduos de quase dois séculos, não se calam.

É verdade que o livro está profundamente interessado nos Estados Unidos. Mas não pelos motivos habituais. Em vez de perseguir o American Way of Life, procura compreender como esse imaginário foi construído. Afasta-se dos monumentos gloriosos e mergulha em um dos seus subterrâneos mais abjetos, conduzindo o leitor até uma história vergonhosa.

E faz isso pela poesia. Visita Dominical se aproxima de um antiépico. O poema se embrenha nas sombras, nos apagamentos e nas manchas da história.

O tempo também deixa de obedecer à cronologia. A visita contemporânea, o funcionamento da instituição e a leitura acontecem simultaneamente. O leitor caminha entre os vivos e os mortos, entre os fatos e a sensibilidade do poeta.

Volto, então, à sua pergunta. Sim, faz sentido um poeta cearense escrever sobre um internato em Massachusetts. Porque o livro pretende compreender um aspecto da formação dos Estados Unidos. As teorias raciais e a eugenia nasceram na Europa, mas encontraram nos Estados Unidos um dos lugares em que foram institucionalizadas, ampliadas e transformadas em práticas sociais.

Compreender a institucionalização da eugenia nos Estados Unidos é também compreender a circulação internacional dessas ideias e a maneira como elas repercutiram em sociedades como a brasileira. O livro é uma janela para essa história.

Durante décadas, os Estados Unidos produziram ou estimularam os chamados brasilianistas para interpretar o Brasil. Visita Dominical realiza, de certo modo, o movimento inverso: um poeta brasileiro toma os Estados Unidos como objeto de investigação. Não para reproduzir suas imagens gloriosas, mas para interrogar os seus abismos.

Por isso, vejo aí um gesto de descolonização cultural. Um poema brasileiro devolve o olhar.

Em vez de aceitar as imagens que uma potência construiu de si mesma, digere seus arquivos e seus resíduos e pergunta o que ainda têm a dizer sobre o presente, sobretudo num tempo em que ideias eugênicas voltam a circular, sob novas linguagens, pelas redes sociais."

Fonte: O POVO, de 7/08/2026. Coluna “Crônicas”, de Pedro Salgueiro. p.2.


 

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