segunda-feira, 20 de julho de 2026

BORA BRINCAR

Por Izabel Gurgel (*)

Chegamos em Alcântara para os últimos dias da Festa do Divino. Acompanhamos o Imperador e comitiva em cortejo, indo a cada uma das casas dos nove mordomos previamente escolhidos para receber a real visita. Era o começo da despedida, o Imperador agradecia a acolhida ao longo da temporada.

O cortejo incluía as mulheres caixeiras do Divino Espírito Santo, tocadoras responsáveis pela animação da sala de baile que havia em cada casa. Em cada casa, havia também uma sala do trono e uma do banquete. Os mordomos e suas famílias, o que meus olhos de visitante queriam e podiam perceber, eram a parte mais visível da mobilização de Alcântara inteira para a festa. O todo, sabemos, pode tocar algo maior do que a soma das partes.

Depois de Alcântara, dava mais gosto ainda ver, rever o documentário de Isa Grinspum Ferraz, com argumento de Antônio Risério, feito a partir do livro "O povo brasileiro", de Darcy Ribeiro (1922-1997). E encontrar Agostinho da Silva a dizer do desejo, da utopia de uma era sem fome, onde haveria abundância para todas as pessoas, e todos os seres experimentariam a plenitude. Ouvir Agostinho da Silva (1906-1994) sobre a figura do Imperador Criança, um menino ou uma menina fazendo a real presença viver naquele pedaço do mundo, é uma fala de sustança até hoje.

Dia desses, uma contadora de histórias com origem nos Inhamuns e moradora da serra de São Pedro, Caririaçu, me enviou um vídeo da feitura de uma iguaria da Festa do Divino em, salvo engano, algum lugar do imenso Tocantins. Atriz e produtora cultural, Thailyta Feitosa sabe bem que o que quer que seja necessário para uma cena, incontornável é a aplicação ao que precisa ser feito.

Os nove banquetes da (última?) noite de festa em Alcântara vez e outra figuram na memória. Pelo imenso trabalho que torna cada um deles possível. Pela inscrição que deixam em quem viveu pelo menos um deles. Mesmo que, como se deu conosco, nada tenham saboreado, uma vez que as crianças de Alcântara, como diz a boa saúde de uma criança, vivem tal noite tocadas pelo para-sempre e adivinhando os nunca-mais.

Fizemos todo o cortejo, casa após casa, com rapapés na sala do trono, um toque de caixa na sala de baile e a passagem à sala do banquete. As crianças nos antecediam, e pareciam coladas à cada mesa mui fartamente montada. Eram a mais bonita interdição do acesso às bebidas, comidas e lembrancinhas de cada casa. Elas viam melhor o bolo confeitado - cada um único, irrepetível - não porque se tornassem, elas próprias, partes da mesa, mas pelos olhos então nunca saciados da capacidade de se encantar, de lamber o mundo. Dia já clareando, de volta à pousada, provamos no café o doce de espécie servido na festa. E haveria, na manhã iniciada, o banquete final na casa do Imperador.

Foi o colega jornalista Arthur Gadelha ligar sobre a pauta de festa junina que ele acabara de receber e eu lembrar do serviço grande que uma festa requer. Já reparou como brilham cada vez mais as pessoas que brincam quadrilha? A brincadeira é a sustentação do todo-dia.

(*) Jornalista de O Povo.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 21/06/26. Vida & Arte, p.2.


SUAVE COISA NENHUMA

Por Patrícia Soares de Sá Cavalcante (*)

Estava no Parque Ibirapuera em um sábado pela manhã. Costumo ir aos domingos, quando a maioria das pessoas passeia ou se dedica a outras atividades. Havia muito mais gente correndo. Tanta gente que o som dos sapatos batendo no chão se impunha: alto, contínuo, forte.

Lembrei-me de quando morei em São Paulo. Vinda do Ceará, uma das coisas que mais me impressionava era a velocidade com que as pessoas andavam em fluxo no metrô. Não havia outra opção senão seguir. Lá, prevalecia o barulho do trem. Ali, no parque, o som vinha inteiramente dos passos: um ritmo repetido, em cadência, quase uma marcha.

Naquele dia, eu apenas caminhava. Gosto de experimentar os hábitos de quem mora no lugar. Pensei que, para os paulistanos, o parque é como a praia é para mim. Era um dia ensolarado de outono, mas, na sombra, o frio se insinuava. Muitas folhas amareladas cobriam a calçada. Por mim, permaneceriam ali; não precisariam ser varridas, assim como as árvores não deveriam ser podadas. Elas são bonitas em sua inteireza, e também são inteiras quando lhes faltam as folhas.

A agitação da corrida ao meu redor parecia ter se instalado em mim. Meus olhos necessitavam e buscavam o que se movia devagar. Uma rajada de vento trouxe uma chuva dourada. Folhas caíam no chão, mas antes flutuavam, dançavam como leves plumas. Obedeciam a um tempo próprio. Em que momento cairiam?

Já os passos seguiam o tempo do relógio, persistiam firmes, sem trégua, e meu corpo se sentia impelido a acompanhar. Existia um compasso que convidava; bastava entrar. Por um momento, quase fui. Hesitei. Mas decidi não ir - e havia um peso que não se via. Suave coisa nenhuma.

As folhas continuariam caindo por alguns dias. Em breve, aquelas árvores estariam completamente despidas, lembrando os vasos sanguíneos do coração, até que o verde voltasse a pulsar. É assim todos os anos.

A maioria das folhas já havia caído, poucas ainda pairavam sob a brisa, sem direção certa, entregues ao vento. Parecia possível adiar o chão.

Onde pousariam?

(*) Médica psiquiatra.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 16/06/2026. Opinião. p.16.


domingo, 19 de julho de 2026

POSSE DA XXV DIRETORIA DA ACADEMIA CEARENSE DE MEDICINA

Mesa diretora e acadêmicos na solenidade de posse da XXV Diretoria da ACM em 15/05/26. (Foto cedida pelo Argollo de Menezes).

A Academia Cearense de Medicina (ACM) efetuou na noite de 15/05/2026, no Auditório Reitor Martins Filho da Reitoria da Universidade Federal do Ceará (UFC), a solenidade de posse da sua nova diretoria, para o biênio 2026-28, que terá na sua Presidência o Acad. Ivan de Araújo Moura Fé, substituindo o Acad. José Henrique Leal Cardoso.

Comportou ao Acad. José Henrique Leal Cardoso empossar e passar o colar presidencial ao novo presidente, após o que o presidente recém-empossado nomeou e deu posse aos componentes da nova Diretoria Executiva e do respectivo Conselho Fiscal.

A nova Diretoria Executiva da ACM tem a seguinte composição: Acad. Ivan de Araújo Moura Fé (Presidente), Acada. Sara Lúcia Ferreira Cavalcante (Vice-Presidente), Acad. Sebastião Diógenes Pinheiro (Secretário Geral), Acad. Paulo Roberto de Arruda Tavares (Secretário Geral Adjunto), Acad. Paulo Henrique de Moura Reis (1º Secretário), Acad. Lúcio Flávio Gonzaga Silva (2º Secretário), Acad. Paulo Marcos Lopes (1º Tesoureiro), Acad. Ernani Ximenes Rodrigues (2º Tesoureiro) e ainda Acad. José Lima de Carvalho Rocha e Acad. Pedro José Negreiros de Andrade (Diretores Vogais).

Ato contínuo, o presidente recém-empossado nomeou e deu posse aos seguintes dirigentes: Diretor Científico (Acad. Luiz Gonzaga Moura Jr.), Diretor Editorial (Acad. Marcelo Gurgel Carlos da Silva), Diretor de Biblioteca, Arquivo e Museu (Acad. João Martins de Souza Torres), Diretor Social (Acad. Vladimir Távora Fontoura Cruz), Diretor de Informática (Acad. Antônio Augusto Guimarães Lima), Diretor de Cultura: (Acad. Raimundo José Arruda Bastos) e Diretor-Presidente do Conselho Consultivo: (Acad. José Henrique Leal Cardoso).

O Conselho Fiscal da ACM empossado tem por membros efetivos os acadêmicos: Heládio Feitosa de Castro Filho (Presidente), Francisco Jean Crispim Ribeiro e Sílvia Maria Meira Magalhães, e como suplentes Francisco Flávio Leitão de Carvalho e Maria Helena da Silva Pitombeira.

Na oportunidade, a ACM realizou a posse do seu membro honorário Hugo Santana de Figueiredo, ilustre e conceituado oftalmologista radicado no Cariri cearense, que foi recepcionado, em nome do sodalício, pelo Acad. Vladimir Távora Fontoura Cruz, seu colega de turma médica e proponente da concessão desse título acadêmico. Em seguida, cumprindo o ritual de posse, o Acad. Hugo Santana de Figueiredo pronunciou o seu discurso de agradecimento, permeado de caras lembranças da sua trajetória de vida profissional.

O evento foi conduzido de forma exitosa pelo cerimonialista Acad. Vladimir Távora Fontoura Cruz, consoante protocolo cuidadosamente por ele elaborado.

Após o término dos trabalhos, a diretoria da ACM e o Acad. Hugo Santana de Figueiredo proporcionaram aos acadêmicos e seus convidados um coquetel de congraçamento nos jardins da Reitoria da UFC.

Cons. Marcelo Gurgel Carlos da Silva

Membro titular da ACM – Cadeira 18

* Publicado. In: Jornal do médico digital, 22(206): 10-11, junho de 2026. (Revista Médica Independente do Ceará).


O coração que procura, cura e se dá

Por Pe. Reginaldo Manzotti (*)

O mês de junho ocupa um lugar singular na espiritualidade católica. Além de celebrarmos os santos juninos é o tempo em que a Igreja volta seu olhar, de modo especial, para o Sagrado Coração de Jesus, fonte inesgotável de amor, misericórdia e entrega total. Ao mesmo tempo, celebramos Corpus Christi, solenidade que nos convida a contemplar o mistério da Eucaristia: Cristo que permanece conosco, fazendo-Se pão partido para a vida do mundo.

Essas duas devoções, embora distintas em forma, estão profundamente unidas em conteúdo. Ambas nos conduzem ao mesmo centro: o amor de Jesus que Se doa sem reservas.

Desde a infância, a devoção ao Sagrado Coração de Jesus não foi apenas um ensinamento, mas um ambiente em que cresci. Lembro-me nitidamente de minha mãe usando, com simplicidade e fé, a fita do Apostolado da Oração, e de como a Comunhão Eucarística da primeira sexta-feira do mês era parte sagrada da rotina familiar. Antes mesmo de compreender plenamente a teologia dessa devoção, eu já aprendia, pelo exemplo, que o Coração de Jesus é escola de amor, fidelidade e entrega.

Celebrar o Sagrado Coração é deixar-se envolver por um Deus que não permanece distante, mas que se compromete profundamente com a humanidade, um Deus que ama com um coração que pulsa de compaixão, que sofre com a indiferença humana, mas que nunca deixa de amar. Ao contemplarmos esse Coração, somos convidados a reconhecer que Deus não é distante nem indiferente: Ele tem um coração e esse coração nos ama pessoalmente e individualmente.

Na profecia de Ezequiel 34,11-16, Deus se revela como um pastor que não terceiriza o cuidado de seu rebanho. Ele mesmo sai em busca das ovelhas perdidas, recolhe as dispersas, cura as feridas e fortalece as fracas. Esse texto não fala apenas de proteção, mas de proximidade ativa. O coração de Deus é inquieto diante da dor de seus filhos.

Essa imagem do Pastor reflete claramente o Coração de Jesus: um coração que vê, que se move e que age. Não é um amor genérico, mas pessoal. Cada ovelha é conhecida, cada ferida é tocada. No Sagrado Coração, encontramos um Deus que não desiste de procurar, mesmo quando nos afastamos.

Essa Palavra me tocou muito fundo. Ao meditá-la, imagino Jesus dizendo, com a ternura do Bom Pastor: "Eu encontrei e resgatei a minha ovelha que usava drogas. Eu busquei a minha ovelha que pensava em suicídio. Eu encontrei a minha ovelha machucada. A minha ovelha que abandonou a Igreja, eu busquei. A minha ovelha que não se rendeu aos meus ensinamentos, eu busquei. Aquela pessoa que ninguém quis amar, eu busquei. Eu encontrei a minha ovelha."

Assim é o Coração de Jesus: um coração que não se cansa, que atravessa a noite, que vai ao encontro do perdido, do ferido, do rejeitado. Um coração que não desiste de amar.

No Evangelho de João 19,34, ao pé da cruz, o soldado abre com a lança o lado de Jesus, e de seu interior brotam sangue e água. A Igreja sempre reconheceu nesse gesto mais que um fato histórico: é a revelação suprema do amor. O Coração de Jesus é aberto, não por acaso, mas como sinal de que nada é retido, tudo é entregue.

A água recorda o Batismo; o sangue, a Eucaristia. Do Coração transpassado nascem os sacramentos que sustentam a vida cristã. Olhar para esse Coração ferido é compreender que o amor de Deus não é teórico, é concreto, passou pela dor, pela rejeição e pela cruz.

Como expressa belamente Santo Agostinho: "Vosso Coração, Jesus, foi ferido para que na ferida visível contemplássemos a ferida invisível do vosso grande amor."

A lança abriu o lado de Cristo, mas foi o amor que já havia aberto seu Coração muito antes.

A prática da Comunhão reparadora nas primeiras sextas-feiras do mês não é um ritual vazio, mas uma resposta de amor ao amor. Reparar não significa assumir culpas alheias, mas oferecer presença, fidelidade e consolo ao Coração tantas vezes ferido pela indiferença, pelo pecado e pelo esquecimento.

Em um mundo marcado pela pressa, pela superficialidade e pela dureza das relações, o Sagrado Coração de Jesus permanece como um convite sempre atual: "Aprendei de mim, que sou manso e humilde de coração."

Ele continua procurando ovelhas feridas, oferecendo repouso às cansadas e esperança às que se sentem esquecidas. Celebrar junho como mês do Sagrado Coração é mais do que manter uma tradição; é renovar uma escolha.

Escolher viver a partir do amor que se doa, do cuidado que se compromete, da fé que se traduz em gestos concretos.

Que o Sagrado Coração de Jesus continue sendo nossa morada, nossa escola e nossa esperança.

(*) Fundador e presidente da Associação Evangelizar é Preciso e pároco reitor do Santuário Nossa Senhora de Guadalupe, em Curitiba (PR).

Fonte: O Povo, de 13/06/2026. Opinião. p.24.


sábado, 18 de julho de 2026

Amizade abusiva Parte 2/2

Por Pedro Bezerra de Araújo – Pierre Nadie

- Amizade possessiva e pegajosa. 

Na verdade, um conflito interior de carências e de baixa autoestima, busca, incessantemente, uma tábua de garantir alguma segurança, uma vez que a instabilidade emocional cobra, de maneira possessiva, tornando-se insana obsessão. O ciúme enverga o rigor do bastão do controle, com investidas contra até mesmo um sorriso inocente. Este tipo doentio de amizade não abraça, prende; não dialoga, impõe; não confia, sufoca. Atitudes, que tentam isolar até mesmo do círculo de familiares. Trata-se de uma amizade, que consome e que pode chegar a níveis, altamente, perigosos. Características, que apontam tal amizade: chantagem emocional, invasão de privacidade, vitimização e outras.

- Amizade subserviente e dependente. Esta modalidade também é disfuncional. Enquanto uma parte desdobra-se em servir e ser agradável, a outra parte não reage com cumplicidade, ou seja, não há mutualidade. Há uma carência e uma dependência emocional, com forte medo de perda, se não permanecer, irrestritamente, ‘servil’; e uma ansiedade angustiante termina por uma anulação pessoal, cedendo a atitudes abusivas. Cedo ou tarde, vem o desgaste pelo desequilíbrio ‘inter pares’.

- Amizade dominadora. Pior que ‘um chato de galocha’, esta amizade tóxica é própria de pessoas autossuficientes, egoístas e orgulhosas, com laivos de narcisismo. Determina regras e cobra atitudes, chegando a impor sua vontade, seus valores e suas opiniões. Aponta defeitos, estabelece limites e trata a outra parte como ‘tabula rasa’. Não há espaço para diálogo, nem para críticas.

- Amizade interesseira. Enquanto ferve a panela, prospera a amizade. Na verdade, não há traços vinculantes de afeto, nem dança de empatia. O móvel deste relacionamento é a conveniência para um ou para ambos. A aproximação está sujeita a necessidades, ou seja, quando surgem problemas, sendo que, na maioria das vezes, também não há reciprocidade, se é a outra parte que está precisando de apoio.

- Amizade predadora. Este modal pode-se dizer que é o extremismo do anterior. Os motivos que levam a este tipo são diversos, inclusive a vingança e a inveja, no sentido de falsear sentimentos para extrair vantagens excessivas, que minam bens, segurança e podem anular sonhos e conquistas pessoais. A máscara de empatia busca barganhar confiança da outra parte, com o objetivo de manipular e explorar: dourar a pílula não transforma em ouro ouropel.

O predador intenta anda isolar a pessoa de amigos e de familiares, que possam denunciar a exploração.

Nada, portanto, mais triste e deprimente, quando toda uma afeição amigável é contrastada pela hipocrisia e traição de quem se tinha a certeza de que fluía uma verdadeira amizade e sincera.

Nossa contingência, sabe-se, exibe uma caixinha de surpresas, que orquestram nossas fragilidades, mas norteiam também nossas qualidades, ainda que idiossincrasias internas possam ocultar algumas ou, infelizmente, quase todas. E tudo isso tem um balizamento pelo nosso livre arbítrio, o qual, por sua vez, atende aos alicerces que fundamos no nosso ser e nos torna responsáveis pela amizade que cativamos, como diz o Pequeno Príncipe.

Enfim, a amizade precisa aprender que a atitude do amigo deve ser mais compreensível do que repreensível, porém sem se furtar, tampouco omitir-se em momentos necessários. E, mais do que isso, a prudência deve conjugar-se com a sabedoria, ao compreender que cultivar uma amizade é tomar consciência de que neste jardim, não florescem rosas sem espinhos e que os espinhos falam da humildade e simplicidade, ao lado das rosas, que exalam prazer e alegria. Sem essa consciência assumida, não é de estranhar que se pode perder num minuto uma amizade de muitos anos, talvez, sem mesmo dar tempo de ouvir o ‘canto do cisne’, porque a hora não demora.

Dignidade humilhada e ferida, triste amizade perdida.

E, no caminho, que não se ouça nenhum aboio, porque a toada é do apoio afetuoso, que anda ao lado.

Uma saudável quinta-feira, com as bênçãos de Deus e a proteção de Maria!!!

(*) Pediatra e professor da Uece aposentado. Enviado por WhatsApp em 25/06/26.


Amizade abusiva Parte 1/2

Por Pedro Bezerra de Araújo – Pierre Nadie

- Alguma vez, passou-lhe pela mente o termo ‘amizade de araque’?

- Alguma vez, conheceu uma decepção de amizade?

- Você já ouviu: quem tem um amigo ‘assim’ não precisa de inimigo?

Relacionamentos humanos não têm bola de cristal, nem são imunes às fragilidades e instabilidades da natureza humana. Não há um padrão, nem existe uma receita. São uma construção, cuja beleza e segurança provêm de seus fundamentos, da pedra de base.

Antes do uso da razão, somos movidos por emoções, cuja coordenação nos vem na aprendizagem, que nos é dada, inicialmente, no colo materno e no convívio familiar. É de pequeno que se começa a forjar o caráter, que nos marcará tanto relacionamentos intrapessoais como amizades e amores.

Somos todos seres de relacionamento, no tecido social ao qual nos associamos, como próprio de nossa natureza, mesmo antes de nosso nascimento. E, a partir de nosso epicentro, criamos uma interatividade mútua e vamos aprendendo e vivenciando papéis que o convívio social exige de nós. Nossa individualidade nos caracteriza e, com ela e, através dela, estabelecemos relacionamentos de diversos matizes.

Existem as amizades serenas, onde a mutualidade de respeito e afeto sela a dignidade entre os amigos. Este modal traz o sinete das individualidades envolvidas e busca superar os mal-estares que, por certo, surgirão: o melhor amigo, um dia, magoará o outro e é, nessa situação, que o valor da amizade se manifesta, no diálogo amistoso e no apoio da correção honrosa ou no desvalor de uma acusação impiedosa sem diálogo e numa penalidade, estranhamente, desonrosa; e, num minuto, pode-se esvair uma amizade, cujo terreno parecia fértil e ora desnuda-se, mostrando-se pedregoso: ‘amicus certus in re incerta cernitur’.

Há amizades, que, de fato, não mereciam ser assim denominadas. São as ditas amizades abusivas ou tóxicas, aquelas, cujo foco não é o bem-estar de ambas as partes, ou quando interesses outros, que não empáticos, dominam uma das partes. Eis algumas dentre muitas outras tipologias:

--- Continua

Uma boa quarta-feira, com as bênçãos de Deus!!!

(*) Pediatra e professor da Uece aposentado. Enviado por WhatsApp em 25/06/26.


sexta-feira, 17 de julho de 2026

O que pensas? Em que estás a pensar? Como estás pensando?

Por Pedro Bezerra de Araújo – Pierre Nadie

Pensar é uma das características basilares da criatura humana. Pensar nos molda ou nós o moldamos?

Muitas ideias, opiniões, considerações passam pela nossa mente, todavia, há algumas em que nos fixamos, sobretudo, no que se refere a problemas e situações embaraçosas, tarefas pendentes, medos e inseguranças. E, a partir daí, filtramos a modalidade de ‘em que’ estamos a pensar e escolhemos o ‘como’ estamos a pensar. É algo instantâneo, em resposta às tantas investidas experienciais, que têm formatado nosso portfólio mental estrutural.

Os modais de ‘como’ pensar desencadeiam reações tanto gerais como direcionadas a certos órgãos, influenciando nosso bem-estar, nossos relacionamentos, e nosso modus vivendi. Pensar demais (overthinking) nem sempre é danoso, desde que favoreça seu mapeamento e estabeleça uma análise, em vista de uma tomada de decisão, numa ligação lógica epistemológico-cognitiva. Se o período fica demasiado longo, ou este ou aquele pensar fica se repetindo, sem uma perspectiva de solução, o pensar assume outros ares, com implicâncias nocivas.

Podemos imaginar um pensar ruminante automático e descontrolado, que não produz soluções, senão induz mais pensares conflitivos, não evolui e fecha-se sem perspectivas solucionáticas. O tempo importa, sim, para a organização do contexto, avaliação de estratégias e não proceder de maneira desorganizada, aleatória e desequilibrada. Como nos ensina o provérbio latino, aqui cabe também o ’in médio virtus’, ou seja, um tempo médio suficiente para identificar as causas, verificar inconsistências e rever a práxis de princípios e valores.

O pensar, que se fecha num ciclo recorrente, cria uma zona morta, desconecta-se da realidade e raquitiza o processo, tanto pessoal, quanto social, tanto perquiritório quanto científico. Há, todavia, que distinguir reiteração automática de repetição programada, aquela geratriz de ansiedades, sofrimentos e, mesmo, depressão, e esta, a fim de permitir melhor análise e ensejar decisão sensata e eficaz.

É notório que há insinuações emocionais, dependentes do contexto fático, seja traumático ou experiências dolorosas e perturbadoras. Tais situações necessitam de um ‘eu’ moderador que impeça assalto à nossa mente, provocando uma disfunção existencial, que distorce a nossa condução insubstituível de nossa vida. Uma reflexão, portanto, de nossa existência permite-nos conhecer os meandros do rio que somos e sinaliza, como afirma Mário Sérgio Cortella, a busca de maturidade.

Ao pensar impõe-se significar o próprio pensar.

Pensar nos molda ou nós o moldamos?

Uma profícua e aprazível segunda-feira, com as bênçãos de Deus!!!

(*) Pediatra e professor da Uece aposentado. Enviado por WhatsApp em 10/06/26.


 

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