Por Pedro Bezerra de Araújo – Pierre Nadie
Jeremias, profeta, que missionou entre 626
a.C. e 586 a.C., e foi testemunha da queda de Jerusalém e do exílio babilônico,
transmite ao povo forte exortação de Deus, conforme a Vulgata: “Audite vocem
meam, et ero vobis Deus, et vos eritis mihi populus; et ambulate in omni via,
quam mandaverim vobis, ut bene sit vobis. Et non audierunt nec
inclinaverunt aurem suam” (Jr 7,23-24).
E, por isso, “periit fides et ablata est de ore eorum” (Jr 7, 28).
(Tradução: “Ouvi a minha voz e serei seu
Deus e vós sereis meu povo; e andai sempre no caminho que vos tenho mandado,
para vosso bem. Mas, eles não ouviram nem ‘escutaram’)
Esta perícope implica muitas reflexões,
mas, pretendo abrir um sucinto ponto de vista sobre o trecho “eles não ouviram,
nem inclinaram seu ouvido e, por isso, morreu a fé e foi tirada de sua boca”
(Jr 7, 24; 28).
Após muitas intervenções de Deus, para com
o seu povo, este as esqueceu e trilhou um caminho de retrocesso da fé, deixando
de ‘ouvir’ e de ‘escutar’ o que Deus lhe ordenara e, então, a fé é ejetada de
sua vida, permanecendo apenas uma opinião e não um assentimento, que é
característica indispensável à fé.
‘Ouvir é instância organo-biológica’ e
desemboca no ‘escutar’, este levando à compreensão e motivando uma resposta ao
que ouviu. ‘Ouvir’ pode criar emoções, todavia, ‘escutar’ desperta a mente,
abre o coração, aprofunda convicções e ajuda a discernir razões e decisões.
E, como o povo deixou de ‘ouvir’ Deus,
passou a escutar seus próprios barulhos interiores, numa celebração desenfreada
de suas paixões, mistura de mediocridade, de ruptura e de volúpia: o diálogo
com Deus foi bloqueado, embora Deus continuasse a exortar e a ‘ouvir’ seu povo
e a ‘escutar’ suas lamentações.
Este relacionamento estabelecia comunicação
com Deus, através de seus profetas do Antigo Testamento. Já, no Novo
Testamento, uma entre muitas outras passagens, Jesus, o Filho de Deus realiza,
presencialmente, milagres, à vista de todos. Mas, a cegueira da fé, a
indignação rabínica e a inveja invertem as ações praticadas por Jesus. Tão
obcecados, que estavam, não conseguem distinguir o bem, na recuperação do
surdo-mudo e consideram o bem um mal e o mal, um bem (cfe. Lc 11,14-23): o
milagre realizado exemplifica a possibilidade, a necessidade e a importância da
comunicação da criatura humana com o seu Deus, ‘ouvir’ a Palavra e ‘escutar’ a
Verdade de Deus.
A indignação e a ‘imunidade cognitiva e
espiritual’ do Sinédrio, em suas próprias contradições teológicas ensinam-nos
lições de nosso contexto atual. Mentiras podem ter sabor de verdade e, muitas
vezes o têm, mas jamais serão a Verdade.
Mentiras visam dividir povos e
civilizações, estabelecem ‘guetos’, provocam lutas fraternas, estimulam
polarizações, destroem credibilidade, honra e justiça e anulam a dignidade e a
liberdade da cidadania.
“Todo reino dividido contra si mesmo
será desolado, e cairá casa sobre casa.” (Lc 11,17).
Tenhamos uma boa sexta-feira, com as
bênçãos de Deus!
(*) Pediatra e professor
da Uece aposentado. Enviado por WhatsApp em 13/03/26.

