Por
Romeu Duarte Junior (*)
Gostaria de estar aqui falando da beleza
deste setembro, do vento esparzindo o pólen do amor das árvores primaveris,
terror também de quem sofre de rinite alérgica. Dos cajus e das mangas que já
balançam coloridos nos galhos, atiçando o nosso paladar. Dos ipês amarelos que
adornam a escaldante Domingos Olímpio, a que emprestam uma providencial e
ligeira sombra. Das flores róseas do pé de jasmim-manga do maltratado jardim do
meu escritório, um bouquet que ofereço a quem passa de carro ou a pé pela
Antonio Sales. Dos pés de sapoti do jardim da Reitoria da Universidade Federal
do Ceará (UFC), com suas verdejantes e densas copas, uma verdadeira festa para
os olhos. Da chuva de caju que desce do céu fininha, apenas para garantir o
fruto da planta sem derrubar as flores já grávidas.
Gostaria de estar aqui falando da maravilha
que foi o congresso brasileiro de arquitetos realizado em Fortaleza em agosto,
quando reencontrei festivamente amigos que há muito não via. Do colega e
ativista social Pritzker de Burkina Faso dando um show de coerência e humildade
no evento. De ver meus alunos, que poderiam ser meus netos, atentos a tudo,
aprendendo as coisas no ar. Do livro do professor José Liberal de Castro,
talvez o maior compêndio sobre a arquitetura cearense já lançado, que conta,
entre outras apresentações, com o meu prefácio, eu que o substituí (se é que
alguém substitui José Liberal de Castro) no Instituto do Ceará. De rever
"2001 Odisséia no Espaço", de Stanley Kubrick, e de assegurar a
letalidade da inteligência artificial. É ou não é isso, Mr. HAL 9000?
Gostaria de estar aqui falando do semblante
emocionado e feliz da minha filha Isabel em seu casamento na Igreja de Nossa
Senhora da Conceição do Seminário da Prainha. Das muitas quedas que tenho
levado nas últimas semanas, causadas talvez pela vista cansada, mesmo auxiliada
por óculos novos, ou pelo excesso do consumo da água que passarinho não bebe.
Das gostosas colunas do Clóvis Holanda, do Demitri Túlio, da Izabel Gurgel e do
Paulo Linhares, publicadas aos domingos no O POVO. Da saudade que sinto da coluna
do meu amigo Lúcio Brasileiro, o cara que ensinou todo mundo a usar os talheres
de forma correta. Das lembranças que tenho do meu pai, da minha mãe e da minha
tia, imortais. Da Base Aérea que vivi e desaparece. De tanta coisa...
Todavia, a brutalidade da realidade
cotidiana se impõe e me faz refletir sobre assuntos nada amenos. Crônica não é
conto, ela retrata o hoje e amanhã, como dizia o preclaro Airton Monte, só
serve para embrulhar peixe, embora algumas delas sobrevivam ao tempo. O STF
transformado em lixeira, com ministros de togas enlameadas brigando através de
ofícios. O ex-banqueiro e atual presidiário que, do xilindró, dirige os rumos
da política brasileira. Os homens de bem que prezam Deus, a família e a pátria
de dia e embarcam à noite na suruba da Madame Satã. O candidato da extrema
direita que tem como planos apenas livrar o pai da cadeia, trazer o irmão para
o Brasil e entregar o país aos EUA. Os pobres de direita que não enxergam nem
querem ver. É, leitor, o Brasil me cansa.
(*) Arquiteto e
professor da UFC. Sócio do Instituto do Ceará. Colunista de O Povo.
Fonte: Publicado In: O Povo, de 14/09/26. Vida & Arte. p.2.

