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terça-feira, 18 de agosto de 2026

MEU AMADO PAI

Por Patrícia Soares de Sá Cavalcante (*)

Como seguirei sem ouvir a sua voz, sem ouvir a sua risada maravilhosa, sem ouvir o senhor dizer que a casa estava mais bonita quando eu dormia com vocês? Como será não ouvir o senhor perguntar: "Cadê os meninos, minha filha?"? Como será escrever sem ter o meu maior admirador para fazer os comentários amorosos, hiperbólicos e suspeitíssimos - afinal, eram seus, papai? Como seguirei sem o meu melhor amigo, que segurou a minha mão quando eu não tive condições de me sustentar? Como será viver sem o seu olhar e o seu sorriso apaixonados por mim, pai? Como será não ouvir o senhor dizer: "O vovô é axaponado pela Maína"?

Pai, me falta um pedaço. Já não sou mais a mesma. Ao mesmo tempo, algo se expande. Suas raízes se aprofundam em mim. É algo inominável, mas talvez as palavras de Drummond se aproximem do que eu sinto: "A ausência é um estar em mim, e essa ausência assimilada ninguém a rouba mais de mim".

Pai, agradeço a Deus por ter dormido na sua casa na sua última noite. Quando cheguei, conversamos sobre o meu aniversário, que se aproxima, e eu lhe disse: "Vou fazer 45 anos, pai". E o senhor me respondeu: "É muito tempo, minha filha. Mais que o dobro da idade que eu tinha quando perdi o papai".

Ao acordar, dei-lhe um beijo de bom-dia, e o senhor me disse, pela última vez: "A casa está mais bonita!" Depois, voltou-se para a mamãe e perguntou: "Guidinha, quer casar comigo?" Sorri e perguntei: "Quer renovar os votos, pai?" E o senhor respondeu, brincando: "Não. Quero casar de novo com ela".

Lembra do passarinho que vi de longe e mostrei ao senhor, pai? Outro dia, enviei-lhe um vídeo de um bem-te-vi cantando na minha casa, e o senhor me escreveu: "Ele deve estar falando uma coisa muito boa, minha filha". Agora, pai, sempre que um passarinho cantar, vou sentir que é o senhor me falando coisas boas.

Lembra que eu lhe contei que o meu dia anterior tinha sido muito bonito? Que eu tinha ido à Praia de Iracema ver o pôr do sol e senti tanta vontade de tomar banho de mar - porque foi o senhor, pai, quem me ensinou a amar o mar - que entrei de roupa e tudo, e o senhor sorriu? Mostrei também ao senhor a foto de uma criança brincando, e o senhor repetiu uma frase que dizia tantas vezes: "Criança é uma maravilha!"

No seu último dia, pai, o vento soprava forte. Lembra que o senhor dizia: "Dizem que, quando a gente sente o vento no rosto, é Deus nos acariciando." Ele o acariciou, papai.

Lembra que ouvimos juntos "Todo Sentimento", do Chico?

O senhor descansou nos meus braços, papai, que tenham sido o colo do amor mais profundo que uma filha pode oferecer a um pai.

Depois de te perder

Te encontro, com certeza

Talvez num tempo da delicadeza

Onde não diremos nada

Nada aconteceu

Apenas seguirei, como encantada ao lado teu

Da sua sempre, Ticinha

(*) Médica psiquiatra.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 15/07/2026. Opinião. p.17.


domingo, 9 de agosto de 2026

PAI QUERIDO

Por Pedro Bezerra de Araújo – Pierre Nadie

Pai querido,

Eu venho te agradecer

Pela vida e pelo amor,

Que me deste,

Desde o nascer.

 

Pelos exemplos de fé

De resistência aos atropelos

De resiliência nas quedas

Que, no silêncio, me deste.

 

Para mim foste perfeito,

Mesmo nas tuas imperfeições.

Quanto trabalho eu te dei,

E tu nunca me deixaste na mão.

 

Perdão pelos dissabores que te dei,

Gratidão pelo teu amor e carinho,

Pelos conselhos, correções e castigos

Com eles aprendi, cresci e amadureci

 

Eu te vejo em celeste dimensão,

No céu, com Maria, mãe de Jesus,

Ao lado de muitas outras Marias,

Uma delas é minha mãe querida.

 

Por ti, Papai, elevo

Uma ardente prece de amor.

Sê feliz e abençoa-me

Até um dia juntos pra sempre.

 

Com esta mensagem, abraçando meu pai, que já partiu, saúdo todos os pais, tanto os vivos como os que se transmudaram para os páramos da eternidade, onde todos nos encontraremos um dia.

Pedro Bezerra de Araújo

(*) Pediatra e professor da Uece aposentado. Enviado por WhatsApp em 9/08/26.


quarta-feira, 24 de junho de 2026

ÁGUA TAMBÉM SANGRA

Por Patrícia Soares de Sá Cavalcante (*)

Eu choro fácil. De alegria, de tristeza, de emoção, de cansaço. E, por vezes, choro sem saber por quê. Certo dia, veio-me um pensamento nebuloso e persistente: chorar seria como sangrar. Guardei-o.

Na manhã seguinte, ao ver uma fotorreportagem sobre a sangria do açude Orós, no interior do Ceará, fiquei tocada com o título: água também sangra.

Na matéria, o repórter Arthur Gadelha dizia que quase todo fortalezense tem o seu "interior", uma cidade ligada à sua história, às suas raízes.

Eu sou de Fortaleza, mas já trabalhei no interior, justamente em Capistrano, a cidade do repórter. Atendia na zona rural, visitava casas de taipa distantes umas das outras, separadas por estradas de barro. Eu me impressionava com a solidão do lugar. E há algo ainda mais antigo: nas histórias ouvidas, no sotaque, na oralidade que passa de geração em geração, algo que me faz sentir a seca por dentro, mesmo sem jamais tê-la vivido.

A memória da privação me fez lembrar Vidas Secas. Corri para pegar meu exemplar. Lembrei o quanto chorei com Fabiano, com os filhos sem nome e com a inesquecível Baleia, a cachorra. Tinha começado a leitura em 2019; estava lá, anotado na contracapa.

A obra me marcou tanto que, certa vez, no Masp, parei diante de uma pintura e lembrei daquela família. Comentei: só faltou a Baleia. Fui conferir a legenda do quadro; era Cândido Portinari, e a obra se chamava Os Retirantes, que dialoga com Graciliano Ramos.

"Chegaria, naturalmente. Sempre tinha sido assim, desde que ele se entendera. E, antes de se entender, antes de nascer, sucedera o mesmo — anos bons misturados com anos ruins. A desgraça estava a caminho."

Cada um de nós carrega um sertão. Onde a terra racha. Onde a vegetação cresce com espinhos e aprende a guardar água para a hora da escassez.

Meu pai diz que o maduro é aquele que sabe que, quando tudo está bom, vai piorar, e que, quando tudo está ruim, vai melhorar.

A água pode tardar, mas chega. E, quando chega, jorra, sangra o passado da falta.

(*) Médica psiquiatra.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 19/05/2026. Opinião. p.18.

sexta-feira, 5 de junho de 2026

NAQUELA TARDE

Por Pedro Bezerra de Araújo – Pierre Nadie

Naquela tarde, o inverno tinha chovido toda a manhã e continuava um sereno inconstante.

Quando? eu não recordo, mas não havia atravessado os 7 anos de minha meninice.

Aconteceu, à tardinha, ainda com o céu plúmbeo; o cheiro de terra molhada lembrava as pancadas da manhã. Era, na verdade, o petricor, que ainda exsudava da terra molhada.

A rua estendia-se sobre o barro. Aqui e ali, algumas poças d’água, entremeadas de pequenas moitas de plantas silvestres, expandiam-se, livremente, sem a ameaça de transportes, salvo as carroças de seu Odilo, que, naquele dia, estavam recolhidas, e o livre ir e vir de transeuntes.

Foi, nesse cenário, que eu e uma querida amiga, infante como eu, resolvemos desafiar aquela tardezinha cinzenta, com uma das diversas brincadeiras, que criávamos.

Deixamos a calçada, onde estávamos a conversar e rir de nossas tagarelices, caminhamos até o meio da rua e, entre duas poças d’água, naquele pedaço de barro ainda empapado, mas não escorregadio e começamos a rodopiar, segurando-nos com uma mão – mão-com-mão – tendo como ponto de apoio um pé-com-um pé.

E rodopiamos e rodopiamos, com alegria no sorriso, contrastando com a carranca, que as nuvens se nos ofereciam.

E foi, num desses rodopios, que nos pregou um susto uma pequena cobra listrada, que atravessava nosso pequeno espaço; levantou a cabeça com a boca aberta, no que não pude evitar pisar-lhe a cabeça, pois, em nosso rodopio, aquela passada era minha.

Paramos o rodopio, incontinenti. A cobra estava morta, era uma cobra coral. Seu corpo, com as belas listras à vista, tinha também marcas de um pé, provavelmente, de minha amiga.

O pavor apresentou-se na lividez de nossos rostos, enquanto o coração disparava. Assustados, corremos para a calçada, onde, sentados, passamos a examinar, nervosa e ansiosamente, nossos pés e pernas: dobramos a perna direita sobre a coxa esquerda e, depois, a perna esquerda sobre a coxa direita. Nossos olhos varreram-nas, seguindo a palpação de nossas mãos. Então, uma onda de calmaria deu um banho em nosso medo: não havia sinais de picada em nossos pés e pernas.

Respiramos, enfim, aliviados e agradecemos a Deus.

Acabara a brincadeira e retornamos para nossas casas.

Um bom sábado, com as bênçãos de Deus!!!

(*) Pediatra e professor da Uece aposentado. Enviado por WhatsApp em 18/04/26.

quinta-feira, 7 de maio de 2026

SELECINHA

Por Romeu Duarte Junior (*)

Mesmo não chegando a ser nem de longe um Sérgio Redes (também conhecido nos mundos da bola e do livro como Serginho Amizade), meu prezadíssimo amigo, gosto de dar meus pitacos quando o assunto é futebol. Não, hipócrita leitor(a), não falarei da tragédia em curso no futebol cearense, de times em baixa, lisos e abandonados pelos próprios torcedores. Reportar-me-ei a um problema muito maior: a péssima fase da nossa seleção, antes chamada carinhosamente de Canarinho e hoje por mim apelidada de selecinha, pelo péssimo futebol que ela apresenta. Fomos campeões do mundo pela última vez em 2002, já lá se vão 24 anos. De lá para cá, só fracasso e frustração. Lembro-me de que eu parava tudo o que estava fazendo para ver um jogo dela. Hoje prefiro mais ver o Chaves.

Sou do tempo em que um jogador, ao ser convocado para a seleção brasileira, levantava as mãos para o céu e agradecia a Deus pelo presente. Sua família o saudava como a um herói de guerra. Na convocação, o sorriso aberto, o peito estufado de orgulho, a postura de guerreiro. Nas copas a que assisti e que o Brasil ganhou (a primeira em 1970), os técnicos eram praticamente entregadores de camisas aos jogadores. Ora, como ensinar o esporte bretão a um Pelé, a um Tostão, a um Gérson, a um Carlos Alberto, a um Rivelino? Os caras resolviam as coisas no campo com a qualidade, a matreirice e o talento que tinham de sobra. Presentemente, parece-me que os nossos atletas veem qualquer jogo da seleção como uma partida a mais, a frio, sem tesão. Nelson Rodrigues vomitaria.

Senão, vejamos: no último prélio com a França, quando perdemos por 2 a 1, com a seleção gaulesa com um a menos, viu-se uma equipe com uma defesa fraca, um meio de campo sem qualquer criatividade e um ataque comandado por um jogador mais interessado em denunciar atos de racismo contra si (no que está certo) do que jogar futebol. O desempenho que os nossos players exibem nos seus clubes da Europa está muito distante daquele que apresentam na seleção. Quando são chamados de "jogadores de time" ficam bravos, vociferam, brigam. Mas, infelizmente, é o que acontece. Salvo uma ou duas exceções de praxe (que só confirmam a regra), são apenas atletas bonzinhos, daqueles que costumam tirar a canela de jogadas mais duras. Assim não passaremos da fase de grupos.

O morcego que mora no meu escritório, pendurado no varal da área de serviço, leu meus pensamentos e veio de lá com uma provocação: "O Brasil só ganha essa Copa se o Neymar for convocado". "Só se for a Copa de mau-caratismo, trambicagem e jogador mascarado", retruquei. Ele deu de ombros, bateu as asas e saiu voando por aí. "Ainda mais essa, aguentar praga de morcego", disse de mim para comigo. Saio do estúdio para tomar um ar sob a sombra do jasmim-manga do meu jardim, quando ouço a conversa de dois sujeitos: "O Brasil não vai ganhar essa Copa porque o treinador é italiano". Febeapá puro, o que tem a ver o traseiro com as calças? O que falta, na verdade, é futebol bem jogado, com raça, malícia e destreza, como alguém faminto que avança num prato de comida.

(*) Arquiteto e professor da UFC. Sócio do Instituto do Ceará. Colunista de O Povo.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 30/03/26. Vida & Arte. p.2.


quarta-feira, 28 de janeiro de 2026

ERA UMA VEZ UM VIOLINO

Por Sofia Lerche Vieira (*)

Era uma vez um violino que viajou por muitos lugares devido às constantes mudanças da família de um oficial do Exército. Quando menino, o Pai havia estudado o instrumento que, então, fazia parte da educação musical de crianças. Aos nove anos, as aulas cessaram. O aspirante a violinista foi matriculado no Colégio Militar de Fortaleza, onde a instrução militar prevalecia. Adulto, vez por outra, ele evocava com certa melancolia suas lembranças de tocar: "Taí, eu fiz tudo pra você gostar de mim" ... O violino silencioso permaneceu na família.

Nenhum dos filhos expressou qualquer vocação musical. A mãe até que tentou, introduzindo as crianças a sessões de piano e acordeom. Apesar do esforço, não funcionou.

Para encurtar uma história longa, o violino bolou por aí uma vida. Quando o Pai faleceu aos 101 anos e sua casa foi desfeita, o violino foi achado quebrado, sem cordas e com o arco em pedaços. Os filhos decidiram que quem herdaria o instrumento seria a filha caçula por ter uma neta que começou a aprender violino muito pequena. Entre optar por fazer do violino um enfeite ou devolver-lhe vida, a decisão dela foi por tentar restaurar.

Depois de muito perguntar por Fortaleza e muita gente se envolver na procura, foi localizado um luthier, em Aquiraz, segundo as indicações, o único capaz de restaurar o violino sem vida. Depois de idas e vindas, a opinião predominante era de que o esforço financeiro e de tempo de restauro (4-5 meses) talvez não compensasse. Mas, convencida do contrário, a filha mais nova optou por um ato de preservação da memória do Pai e de aposta no futuro.

O processo de restauro é lento e meticuloso. O luthier se revelou a pessoa certa na hora certa. Passados meses de trabalho incansável, eis que o violino foi transmutado em presente de Natal para a neta aprendiz de violino, hoje com oito anos. Se ela vai, ou não, praticar no instrumento do bisavô, ainda é cedo para afirmar. Certo é que recuperar o velho violino comoveu a família. Se nossos amores se vão, de algum modo, o legado das coisas que ficam é um talismã para os dias que virão. Feliz Ano Novo!

(*) Professora do Programa de Pós-Graduação em Educação da Uece e consultora da FGV-RJ.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 29/12/25. Opinião. p.16.


sexta-feira, 16 de janeiro de 2026

LIVRE PARA DRIBLAR

Por Tales de Sá Cavalcante (*)

De 1964 até meados da década de 1980, havia censura, e as letras das músicas eram vetadas se consideradas "subversivas", "perigosas" ou por ferirem a "moral" e os "bons costumes". "Acorda Amor", "Milagre Brasileiro" e "Jorge Maravilha", com autoria de Julinho da Adelaide, foram aprovadas, tocadas e cantadas. Um de seus trechos era: "E nada como um tempo após um contratempo / Pro meu coração / E não vale a pena ficar, apenas ficar / Chorando, resmungando / Até quando, não, não / [...] Você não gosta de mim, / Mas sua filha gosta".

O Pasquim, um divertido e inteligente jornal da época, "fabricou" uma entrevista com Julinho da Adelaide, que declarou "ser apolítico", mas suas músicas eram, exatamente, sátiras políticas. Em 1975, o Jornal do Brasil revelou que, por ser muito visado, Chico Buarque usara o pseudônimo Julinho da Adelaide para driblar a censura. No passado, muitos jornalistas, artistas e escritores também usaram. Sérgio Porto (criador do Febeapá, Festival de Besteira que Assola o País) era Stanislaw Ponte Preta.

Júlio Cesar de Melo foi Malba Tahan até em documentos oficiais. Dom Pedro I era Piolho Viajante. Clarice Lispector já foi Tereza Quadros. Apparício Torelly era o Barão de Itararé. Nelson Rodrigues assinou como Suzana Flag; Machado de Assis, o Bruxo do Cosme Velho, como Dr. Semana. Marilyn Monroe era Norma Jeane Mortenson. Stefani Joanne Angelina Germanotta é Lady Gaga. Farrokh Bulsara era Freddie Mercury. Agenor de Miranda Araújo Neto era Cazuza. Voltaire era François-Marie Arouet. Lênin era na realidade Vladimir Ilyich, e Stálin ("homem de ferro", em português) era o pseudônimo de Iosif Dzhugashvili.

Meu pai, Ari de Sá Cavalcante, registrou-me como Ivo. Saiu do cartório, foi a uma livraria e um livro de Matemática levou-o à lembrança de Tales, seu pseudônimo no jornal O Estado, onde criou frases memoráveis.

No dia seguinte, foi ao cartório e trocou Ivo por Tales, que acoplado a Montano, pseudônimo de meu bisavô materno, formou o nome composto Tales Montano. Sem a passagem pela livraria, provavelmente o autor desta crônica seria Ivo Brasil de Sá Cavalcante.

(*) Reitor do FB UNI e Dir. Superintendente da Org. Educ. Farias Brito. Presidente da Academia Cearense de Letras.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 11/12/25. Opinião, p.16.

quarta-feira, 14 de janeiro de 2026

A finitude descortina a exuberância da velhice

Por Márcia Alcântara Holanda (*)

Aos 80 anos, depois de cinquenta dedicados à pneumologia, minha velhice não chegou de mansinho: revelou-se de supetão. Atendia um paciente quando a palavra "dipirona", companheira por meio século, fugiu vertiginosamente da minha memória. Não era falha grave; era um sinal íntimo, uma fresta por onde entrou a consciência da finitude. De súbito, vi a linha reta do mar da Beira Mar — horizonte antigo, mas nunca tão nítido quanto naquele instante, quando se revelou, para mim, como a própria finitude.

Foi aí que compreendi, sem dor, que meu périplo médico se encerrara. Minha amada pneumologia tinha cumprido sua estada em mim. Ficaram as lembranças luminosas do ser médica responsável por vidas que confiaram nos meus cuidados. Mas o que me surpreendeu foi descobrir que a finitude não me encolheu; ela me ampliou. Pela primeira vez senti que podia tomar posse da minha própria vida, sem as pressas, obrigações e tolhimentos que me acompanharam desde a infância.

Ao contrário do que imaginaram Sartre e Beauvoir, ao tratarem a velhice como inviável, percebi que o corpo velho não sela interditos. Apesar das impossibilidades próprias da idade, ele revela contornos: mostra limites, sim, mas também indica por onde ainda posso caminhar, reinventar-me e desejar. Descobri que as limitações não são prisões — são molduras que tornam mais nítida a obra que ainda posso ser. O que se torna inviável pelas limitações da idade cede lugar a novos caminhos possíveis. Como disse Drauzio Varela, ao comentar a interrupção de uma maratona que corria na Alemanha: "Não vou parar de correr. Se não der para fazer todo o percurso, correrei poucos quilômetros — ou até alguns metros. É o poder do querer e do gostar."

Mas a exuberância da velhice não nasce só do indivíduo. Como lembra Beauvoir, ninguém envelhece sozinho: é a sociedade que pode fazer da velhice um tempo digno ou miserável. Para que a liberdade dos velhos floresça, o mundo precisa reconhecer sua presença, acolher seus ritmos e valorizar suas contribuições. Nietzsche dizia que a vida deve ser vivida como obra de arte; mas, para que essa obra exista, é preciso um espaço social que a veja e a escute.

Quando a sociedade nos empurra para a invisibilidade, a velhice se apequena. Quando nos integra ao cotidiano, ela se expande. A velhice exuberante depende, portanto, de cidades, Estados e países que ofereçam programas de assistência à saúde dos velhos, que viabilizem participação, cuidados, circulação segura e afeto. Que criem um ambiente que permita ao velho ser um ser-em-projeto, como quis Sartre, ainda que com outros tempos e formas.

A finitude, para mim, foi acontecimento inaugural. Descortinou não só um fim, mas um novo modo de começar. E é nele que sigo: limitada, sim — mas inteira na lucidez e na consciência de que meu envelhecer só se cumprirá plenamente quando a sociedade reconhecer que a velhice não é resto: é potência.

(*) Médica pneumologista; coordenadora do Pulmocenter; membro honorável da Academia Cearense de Medicina.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 14/12/2025. Ciência & Saúde. p.16.

terça-feira, 6 de janeiro de 2026

QUANDO A PALAVRA ME ENCONTRA

Por Patrícia Soares de Sá Cavalcante (*)

Era novembro quando saí em busca da metáfora a céu aberto. O projeto Poesia em Cartaz, idealizado pelo publicitário Paulo Fraga, vem fazendo a cidade respirar arte. Meu verso estava no bairro de Messejana. Que grata surpresa: vivi parte da minha infância lá, no sítio da minha avó. Antes de sairmos de casa, disse: "Mãe, vamos passar um batonzinho... a poesia é para a senhora.

Quero tirar uma foto ao lado do outdoor." No caminho, meu pai disse: "Guidinha, acho que o outdoor está bem próximo de onde a gente começou a namorar." Em seguida, lembrou: "Ela encostou a cabeça no meu ombro, então pensei: estamos namorando." Brinquei: as coisas eram bem mais simples naquela época! A conversa estava boa; víamos as mudanças no bairro ao longo dos anos enquanto relembrávamos o passado.

De repente, avistei a igreja. Ela permanecia lá, a igreja onde meus pais se casaram, numa pequena cerimônia pela manhã. O sol se punha. Seguimos mais um pouco. "É aqui, pai. Vira à direita..." Fiquei sem acreditar. O outdoor já não estava mais lá. Demorei, perdi, não consegui ver. Um silêncio me encontrou.

Segui procurando poesia. Desta vez em outro céu: O Céu da Língua, peça de Gregório Duvivier. Enquanto o ouvia, fui tomada por uma sensação de pertencimento, que só acontece quando alguém nomeia algo do nosso jeito. "A despedida é uma palavra nossa. Em muitas línguas, se despedir é apenas dizer tchau. A despedida não é só dizer adeus, mas é a cerimônia do adeus. Só uma língua que inventou a saudade poderia ter inventado a despedida."

Há palavras que só nos encontram quando deixamos de procurá-las. Lembrei-me do que havia me acontecido. Depois do silêncio, ela surgiu: Messejana. Uma metáfora da minha infância, da memória dos meus pais e, sobretudo, da minha avó, que amava demais aquele lugar.

Estava ao lado dela quando se foi. Ela já tinha perdido a capacidade de nomear as pessoas, as coisas e o que sentia. Confiava em mim, mas já não sabia meu nome. Segurei sua mão. A expressão era de dor. Chamou por Messejana. Despediu-se. Saudade.

(*) Médica psiquiatra.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 2/12/2025. Opinião. p.18.

domingo, 9 de novembro de 2025

Em nome do Pai

Por Patrícia Soares de Sá Cavalcante (*)

Quando eu era pequena, tive um sonho. Vi meu avô Ari caminhando entre outras pessoas na rua. Ele não me via. Senti uma alegria imensa, mas também o receio de não encontrá-lo novamente. Era urgente contar ao papai que ele estava vivo.

Meu avô morreu antes de eu nascer. Cresci sabendo que era possível perder cedo demais alguém muito importante. Isso me angustiava. Por outro lado - talvez pela ausência precoce do meu avô - ganhei um pai amoroso, cuidadoso, que nos transmitiu o gosto e o valor da intimidade.

Embora não o tenha conhecido, o vovô sempre esteve presente em nossa mesa. Papai, um exímio contador de histórias, fez-nos imaginá-lo vividamente: um homem inteligente, culto, à frente de seu tempo, irônico, dedicado à família e extremamente corajoso.

Já adulta, numa tarde na Livraria da Vila, em São Paulo, tomávamos café quando papai me contou algo que eu não sabia:

- Minha filha, depois que o papai morreu, sempre que eu tinha alguma dúvida em um momento difícil, eu sonhava com ele. No sonho, ele me dava a solução. Depois, continuei a sonhar, mas ele já não falava nada. Com o tempo, deixei de sonhar.

Ah, como eu queria sonhar com ele de novo! - disse, rindo emocionado. Não sei se percebeu a minha comoção. Aquilo me atravessou: por um instante, senti a dor que ele carregava pela ausência precoce do pai. Mas o meu pai fez da ausência, presença. Há 25 anos, em um momento de recomeço profissional, homenageou o próprio pai dando o seu nome à Escola Ari de Sá Cavalcante.

Desde então, honra esse legado oferecendo um ensino de excelência e transformando o futuro de tantos jovens estudantes. Em 2025, recebeu o Troféu Sereia de Ouro, concedido pelo Grupo Edson Queiroz, e, com humildade, reconheceu que o prêmio pertence a todos os que fazem a escola.

Na vida íntima, preserva a memória do vovô através de um amor devotado. Talvez seja esse o sentido mais profundo do amor: o desejo - e a capacidade - de manter viva a lembrança do outro em nós.

"O beijo do meu pai, o primeiro que não teria em toda a vida. Ele também veio beijar--me. Não me deixou em um instante ainda. Mora em mim." Blanchard Girão.

(*) Médica psiquiatra.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 7/10/2025. Opinião. p.18.

segunda-feira, 20 de outubro de 2025

UM BOSQUE ABERTO PARA A CIDADE

Por Izabel Gurgel (*)

"Pra completar, parou uma garça branca". Escuto Seu Milton, Francisco Milton de Souza Lima, no bosque do Paço Municipal, o casarão por trás da Catedral, no Centro de Fortaleza. Estamos em 2006, no segundo semestre do ano, como agora.

Anotei no caderno, logo depois da garça, anum branco, anum preto, bem-te-vi, sabiá, periquito australiano. Seu Milton dizendo da fauna do lugar. Acompanho, além da fala, a luz variando, filtrada pelo verde. Entra no rol dos lugares de sensação térmica agradável mesmo com o sol tinindo.

O que me faz lembrar de calçadas nos altos da cidade com vista para o mar, como a da Santa Casa de Misericórdia. Bonito caminho do vento no Centro. A Cidade é uma experiência que a gente sente no corpo.

Sobre o bosque, Seu Milton se referia às árvores como de fato o que eram, criaturas do seu convívio. Pé de acerola, caju, castanhola, fruta-pão, jambo, laranja, manga. Contei pra ele que, entre a infância e adolescência, uma tia morando na vizinhança, íamos as primas para pegar fruta. Chegávamos com saco de mercantil, então de papel. Com sapotis por cima, eram levados com cuidado de mãe de primeira vez dando banho em recém-nascido.

Pedi e ele fez a lista de plantas, desde as de forração às de copa mais alta, semelhando nave de igreja. Guardo a folha, papel timbrado da Prefeitura de Fortaleza, datilografada em duas colunas. São 48 nomes seguidos de "e muitas outras plantas". Anotado à mão, ao final, mini-lacre vermelho, mini-lacre amarelo, mini-lacre azul. Em maiúsculas, área quadrada. Na linha seguinte, 17.313 metros quadrados. Caneta preta.

A lista começa com "1 Pé de Carambola" e vai até "1 Pé de Mulungu", sublinhado para dizer da divisão feita na organização da lista. Segue, então, "Plantas de Flores", aberta por "Abacaxi de Salão". Conhece?

E "Panamá", Pingo de Ouro, "Eu e tu"?

Vivi o bosque também como passagem. De entrar pela então sede da Funcet, no comecinho da Pereira Filgueiras, descer pelo anfiteatro e sair pelo Paço. Ou fazer o caminho contrário.

Pé de graviola, pitomba, maniçoba, jatobá, munguba. Feijó, juá, juazeiro. "22 Pé de Palmeira", quatro de goiaba, dois de ciriguela. Um dos baobás da cidade está lá no quintal da antiga residência do Bispo, onde passa o Pajeú, antes de margear o estacionamento do Mercado Central e chegar no mar.

"Limpar o Pajeú. E deixar de pensar que é esgoto." Diz Seu Milton. É a última linha anotada no caderno.

Abrir o bosque para a gente aprender quase seria a última linha hoje. Mas "Torém - brincadeira dos índios velhos", do antropólogo Gerson Augusto de Oliveira Jr., não sai dos canteiros da minha memória. Professor da Uece, Gerson mostrou o livro no Paço, em noite com Tremembés de Almofala dançando o dito Torém, que é árvore. Daquelas que cresce procurando sol e tem, dentre os ofícios, o de favorecer o reflorestamento. O livro (editora Annablume, 1998) é uma joia do Ceará.

(*) Jornalista de O Povo.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 14/09/25. Vida & Arte, p.2.


quarta-feira, 24 de setembro de 2025

A MERENDA DOS DEUSES

Por Romeu Duarte Junior (*)

A raiz etimológica da palavra "merenda" encontra-se no vocábulo latino merenda, que significa "coisas que são merecidas, ganhos", bem como no verbo de mesma origem merere (merecer), que diz respeito a "algo que deve ser merecido para ser consumido". Há tempos, era a refeição oferecida por volta das 9 horas da manhã aos trabalhadores rurais, que acordavam muito cedo, como recompensa pelo seu trabalho iniciado ao raiar do dia. O termo foi aos poucos ganhando as cidades, principalmente as do Nordeste, e hoje é usado no cotidiano por todas classes sociais. Nada desse negócio de lanche, boquinha ou snack, que isso é coisa de sudestino. Merenda é refeição substanciosa, comida entre o café da manhã e o almoço e entre este e o jantar. Quem é chegado sabe.

Dentre as muitas opções ofertadas, há uma que não dispenso: caldo de cana com pastel de carne, este, claro, com uma gorda azeitona dentro. Comecei a dar valor à mercadoria quando tudo acontecia no Centro, há muitas décadas. Saía à tarde do Colégio Cearense para assistir a filmes nos Cines São Luís ou Diogo e, na ida ou na volta ou tanto na ida quanto na volta, dava um jeito de passar na Leão do Sul para provar do produto. A garapa dourada, doce e geladinha e o salgado no ponto, sequinho e acochado no tempero, eram e continuam sendo irresistíveis. Depois, quando no Iphan, continuei frequentando a garapeira no período vespertino. O pessoal que lá trabalha é irredutível: às 18 horas, a casa fecha, mesmo com o salão cheio. Ano que vem a pastelaria completa 100 anos.

Bem mais recente e, segundo a lenda urbana, criada por ex-funcionários da Leão do Sul, a Guanabara instala-se à rua Major Facundo, quase esquina com a avenida Duque de Caxias, mais ou menos defronte à Igreja do Carmo e vizinha a dois colégios, os quais lhe garantem uma bela frequência. Após as reuniões do Instituto do Ceará, vou direto para lá. O sumo é feito com cana-de-açúcar que vem da Serra Grande e há um grande sortimento de sabores de pastéis. Novidade: se o caldo não deu para o pastel, o freguês recebe um reforço do precioso líquido. Pregado na parede, o cartaz com o mesmo dito filosófico de sua concorrente da Praça do Ferreira: "A azeitona do pastel tem caroço". O que realmente significa isso? A dureza ao lado da delícia? Que filósofo pensou nisso?

A Fortaleza do passado já teve muitas merendeiras, a maioria delas implantadas nas praças e que vendiam, além de caldo de cana e café, chás e leites diversos e até cachaça. Hoje há bem poucas, cujo número foi diminuído pela afluência das lanchonetes que comercializam a gostosura ilusória e letal do fast-food multiprocessado. Pois bem: interposta entre os polos da manhã e da tarde, a merenda mostra-se como um prêmio a quem completou um turno de trabalho e vai enfrentar outro, para tanto precisando de um nutritivo adjutório. Ou seja, do ponto de vista etimológico, continua cumprindo seu papel vernáculo à perfeição. Importante é ter o bucho cheio, pois saco vazio, como dizia a minha mãe, não se põe em pé. Aliás, depois do comercial que fiz, quero o meu em caldo e pastel.

(*) Arquiteto e professor da UFC. Sócio do Instituto do Ceará. Colunista de O Povo.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 19/08/25. Vida & Arte. p.2.


domingo, 14 de setembro de 2025

MEMÓRIA. A GRANDE EXCURSÃO

Por Paulo Gurgel Carlos da Silva (*)

OS PREPARATIVOS DA EXCURSÃO

Em 1966, nós, os calouros da Faculdade de Medicina reunidos em assembleia, escolhemos por aclamação os representantes da turma para as disciplinas do 1.º ano. Na mesma ocasião, decidimos também sobre a criação de uma entidade (informal) que recebeu o nome de Clube Andreas Vesalius, incorporando o nome latinizado de Andries van Wiesel, famoso médico flamengo que viveu entre 1514 e 1564.

O nome do autor de De humani corporis fabrica (No tecido do corpo humano), que é referido como o fundador da moderna Anatomia, foi escolhido também por aclamação. Era a Anatomia, com a dissecação dos cadáveres humanos conservados em formol e com o manuseio dos esqueletos remontados, a disciplina que dominava mais fortemente o nosso imaginário.

Qualquer nome que não viesse da área da Anatomia seria fatalmente rejeitado. Em meio a outras disciplinas como Histologia e Embriologia, a Bioquímica e a Bioestatística...

A ideia principal, e talvez única, era a de que o clube se destinaria a viabilizar uma grande excursão que faríamos adiante.

Então, toca a trabalhar, arrecadando dinheiro em rifas e tertúlias. E também organizando-nos em grupos que, em períodos noturnos, visitávamos as residências de nossos mestres em busca de doações. Até abrimos um "Livro de Ouro" para que eles se sentissem, ao fazerem suas doações, como se estivessem participando de algo grandioso. É verdade que houve um deles que nos despachou com um ditado ("quem não pode com o pote, não pega na rodilha"), mas esse, no devido tempo (no período de nossa formatura), recebeu o troco: não foi lembrado para ser patrono nem paraninfo.

Além disso, havia as contribuições que nós, futuros excursionistas, pagávamos mensalmente. Sob pena de ter o nome cortado da excursão (o que, aliás, quase aconteceu a este escrivão de bordo).

No início de 1970, com o dinheiro apurado nos quatro anos anteriores, fretamos um ônibus que nos levaria a uma excursão pelo Nordeste, Sudeste e Sul do Brasil. O plano de viagem incluía, após atravessarmos a fronteira, irmos ao Uruguai e à Argentina – o plus que destacaria a Turma Andreas Vesalius da Faculdade de Medicina da UFC das turmas precedentes que haviam excursionado apenas por território nacional. A nossa turma, portanto, seria a que iria mais longe numa excursão - além de Taprobana, como diria Camões.

Esse roteiro fora feito por um grupo que assumiu a liderança.

Éramos trinta e poucos (de quase uma centena de alunos), em nossas férias do término do quarto ano de medicina.

Mas...

O número de excursionistas ultrapassava o de assentos no ônibus!

Divulgou-se, de última hora, a abertura de vagas para quem quisesse aderir ao IDP, o Instituto da Desistência Premiada. Apareceram desistentes e o número de excursionistas foi fechado.

A PARTE BRASILEIRA DA EXCURSÃO

Dois motoristas se revezariam na direção do ônibus: Nelson e Josué. Devido a barbaridades explícitas na estrada que deixaram a gente de cabelo em pé, o segundo logo foi afastado da função. Isto fez com que o Nelson ficasse sobrecarregado em seu trabalho durante a viagem, atingindo os limites dessa situação na fase do retorno.

1) Salvador. Nós, os rapazes, ficamos alojados em uma unidade do Exército, enquanto as moças, em menor número no grupo, foram conduzidas a um hotel. Naqueles anos de chumbo, de descontentamento de parte dos estudantes universitários com as medidas repressivas do governo, a hospedagem fazia parte da "política de boa vizinhança" da ditadura militar. Minhas lembranças de Salvador incluem a Cidade Baixa, o Elevador Lacerda e o Mercado Modelo, onde adquiri uma sacola de fibra vegetal (que foi apelidada de caçuá). Houve também passeio na Baía de Todos os Santos, Ilha de Itaparica e, numa das noites, fomos ao restaurante Varandá, o qual descobrimos se tratar de um reduto LGBTIQIA+ (estou usando a nomenclatura atualizada).

2) Rio de Janeiro. Ficamos na Casa do Marinheiro, na Praça Mauá. Por motivos óbvios, nossas colegas tornariam a se hospedar num hotel, o que talvez tenha sido a causa de uma amotinação masculina. Exigia-se que o "tesoureiro" da excursão fizesse a imediata partilha dos recursos financeiros comuns. Daí para frente, cada um iria administrar sua parte no espólio. Lembro-me de termos ido à Ilha de Paquetá (acesso através de barcas que partem da Praça XV), ao Maracanã (onde assistimos a um jogo de futebol), ao Corcovado (leia-se: Cristo Redentor), a alguma praia da Zona Sul e de termos passeado no bondinho do Pão de Açúcar. Fui procurado por um marujo, Eduardo César, meu primo em 2.º grau, com a proposta de me mostrar o Rio e que me pegou um dinheiro emprestado (acho que não paga mais). Na Cidade Maravilhosa foi quando chegou ao auge o "campeonato de xexo" disputado por alguns colegas.

Xexo Caloteiro (Nordeste)

A palavra xexo vem de seixo (pedrinha). Antigamente, quando se usavam pedras preciosas como dinheiro, os espertos misturam seixos com as pedras preciosas para enganar os outros. Surgiu, aí, a expressão "dar o seixo", que virou "dar o xexo", que quer dizer "deixar de pagar, dar o calote".

3) São Paulo. Hospedamo-nos no Pacaembu, o estádio. Fomos visitados por um colega de uma turma anterior e líder estudantil que, por motivos políticos, vivia clandestino em São Paulo. Ao se despedir nos quotizamos para ajudá-lo naqueles tempos difíceis. E descemos a Serra do Mar para conhecer Santos e Guarujá.

4) Curitiba. Onde nos hospedamos na Casa do Estudante. Foi inesquecível aquela experiência de descer de trem a Serra do Mar até o porto de Paranaguá. Saibam que até hoje a tal viagem turística ainda existe, mas até Morretes. Desta cidade, passando por Antonina, e com o turista voltando pela belíssima Estrada da Graciosa para Curitiba. No trecho Sul da excursão, demos carona a um gringo de nome Michel. Artur brincava muito com ele ao ensinar português.

5) Porto Alegre. Tinha uma Serra Gaúcha no meio do caminho, no meio do caminho tinha uma Serra Gaúcha - com vinhos para a nossa degustação. Chegamos a Porto Alegre onde os alojamentos de outro quartel nos esperavam. Numa das noites fomos a um teatro para um show da Gal Costa. Tive a nítida impressão de que ela cantava só para mim (o pior é que outros também pensaram assim com relação a si próprios).

No Chuí (ou Jaguarão), passamos o dia atarefados em resolver nossos entraves burocráticos para podermos atravessar a fronteira. Carreguei a mão na quantidade de azeite que pus no almoço, e atribuí a isso os distúrbios intestinais que me afligiram nas horas seguintes.

Não houve necessidade de providenciar passaporte, apenas a obrigatoriedade de tomar a vacina contra a febre amarela.

A PARTE ESTRANGEIRA DA EXCURSÃO

6) Montevidéu. Jantamos nos arredores da cidade. No restaurante que eu, pressionado por fortes cólicas, escolhi no grito. Fomos tungados na conta (Maureen, por exemplo, não jantou) e, ameaçados pelo dono ("voy a llamar la policía"), pagamos o que ele queria. Passeamos no Centro Histórico de Montevidéu, assistimos a um jogo de futebol no Estádio Centenário e fizemos um passeio do tipo bate-volta a Punta del Este. Por fim, fomos a Colonia del Sacramento para a travessia do Rio da Prata (este detalhe me foi lembrado por Nelson Cunha), com destino à capital portenha.

7) Buenos Aires. Acho que houve uma dispersão do grupo por vários hotéis. Hospedei-me num hotel da Avenida Corrientes, no Centro Histórico de Buenos Aires, que tinha um elevador vintage. Ficava perto da Casa Rosada, da Plaza de Mayo e do Obelisco, o monumento erguido na Praça da República, no cruzamento das avenidas Corrientes e 9 de Julio. Foi onde conheci um Metrô. Tirei fotografias - sem flash - do Metrô de Buenos Aires que só captaram as luzes internas.

Chamaram-me a atenção seus ônibus urbanos: eram pequenos e não tinham cobradores. Escolhi um restaurante para jantar, pollo (frango) y vino. E, no passeio que fiz em La Boca, deparei-me com outro restaurante de grande animação. Era a turma que já estava lá. Subi ao palco para cantar "Garota de Ipanema". E, ao voltar para o hotel, cantei “Sebastiana” no carro de um argentino em que alguns de nós pegamos carona.

Corrientes, 348. Esse endereço em Buenos Aires foi imortalizado por Carlos Gardel, no tango "A Media Luz", um dos mais conhecidos dos chamados "tangos clássicos". Descrito na canção de uma forma envolvente e romântica, já não era mais um hotel e no local existia um estacionamento.

A VOLTA PARA FORTALEZA

8) Porto Alegre (2.ª vez). Carnaval (que acontecia no período de 7 a 10 de fevereiro) no Partenon Tênis Clube, na av. Bento Gonçalves. Problemas particulares me motivaram a antecipar meu retorno para Fortaleza. Na rodoviária de Porto Alegre, peguei um ônibus para o Rio de Janeiro. E, na rodoviária Novo Rio, comprei passagem para um segundo ônibus com destino a Fortaleza. Com algumas horas noturnas disponíveis na Cidade Maravilhosa procurei um hotel para a dormida. Mas quem disse, Berenice? O hotel em que me hospedei, apesar de ficar bem próximo da rodoviária, era uma espelunca. E tinha um postigo que, por não fechar, expunha um medroso hóspede à curiosidade pública. Não dormi, claro. Nunca uma espelunca, como disse o Chico.

A fuga do Nelson

Não estou me reportando ao colega Nelson José da Cunha.

Na década de 2010, atendi algumas vezes o paciente N.A.F. na Multiclínica Fortaleza. Era o motorista Nelson da excursão! Septuagenário, lúcido e com bom estado geral, porém apresentando uma doença associada ao tabagismo em estádio avançado. Numa de suas consultas, Nelson me contou uma história interessante. Quando o grupo voltava para Fortaleza, houve uma noite em que ele foi muito pressionado para não interromper a viagem. No entanto, sentindo-se muito cansado, ele procurou uma pousada para descansar. E não informou a ninguém onde foi dormir. No dia seguinte, reassumiu o volante do ônibus. Se houve quem não gostasse dessa conduta? Sim, mas Nelson agiu assim para o bem de todos.

Relação dos participantes

15 Colegas: Colares, Paulo, Valdenor, Lages, Daniel, Zé Leite, Portela, Beto, Edson, Nelson, César, Ercílio, Clóvis, Mário, Artur

10 Colegas: Adriana, Imeuda, Lúcia, Leni. Maureen, Maura, Mazé, Maria Alice, Maria Regina, Noelma

PAULO GURGEL CARLOS DA SILVA - cearense (Fortaleza). Escritor, blogueiro e médico aposentado do Ministério da Saúde. Foi contemporâneo de Belchior na Faculdade de Medicina da UFC. Membro fundador da Sobrames Ceará e diretor da entidade no período de 1985 a 1987. Tem a biografia no livro "Portal de Memórias" e o currículo na Plataforma Lattes e na Wikipédia. Seu último livro publicado: "Edição Êxtase", em 2023.

Postado por Paulo Gurgel no Blog Préblog em 30/08/2025.

https://preblog-pg.blogspot.com/2025/08/memoria-grande-excursao.html


quinta-feira, 24 de julho de 2025

AMIGOS

Por Tales de Sá Cavalcante (*)

Na década de 50, minha mãe, Hildete, e meu pai, Ari, iniciaram a edificação da casa de seu sítio ao mesmo tempo que seu vizinho começava a sua. Os imóveis situam-se às margens da bucólica lagoa tão enaltecida por José de Alencar em "Iracema". Descreve o autor em sua ficção que Messejana tem o significado de "lagoa abandonada", onde se deu o abandono de Iracema por Martim.

Ali meu pai e seu vizinho, em vez de abandonarem o próximo, resolveram unir-se. Construíram uma cacimba circular dividida ao meio pelo muro que, se fosse uma linha reta, seria o diâmetro. Com uso esporádico, a água poderia ser repartida. Será que hoje 2 confinantes concordariam em usar o mesmo poço? Talvez não adotassem o lema dos 3 mosqueteiros de Alexandre Dumas, pai. E então qualquer um seguiria por si e mais ninguém.

Que o exemplo da cacimba nos estimule a conseguir, possuir e preservar amigos, atitudes que inclusive proporcionam boa saúde física, mental e emocional. Renunciemos, portanto, ao egoísmo motivado por fatores vários dos novos tempos, principalmente o uso de celular. Como experiência, sugiro ao leitor que, quando em um restaurante, conte em cada mesa o número de pessoas que dialogam entre si e quantas preferem o múltiplo uso do telefone móvel ao desprezarem quem está a seu lado.

A maior vivência em coletividade traria paz e, por consequência, menos violência ao nosso país, e assim nos aproximaríamos do nível de Weggis, na Suíça. Nessa pequena cidade, a seleção brasileira concentrou-se antes da Copa do Mundo de 2006, na Alemanha. Lá, "a única delegacia policial existente só abria duas vezes por semana, e seu prefeito, à época, não lembrava quando aconteceu o último crime".

Hoje, a mídia diz não haver registro de crimes na história da cidade. "E a delegacia, um pequeno escritório, abre três vezes na semana. Quem quiser reclamar algo, preenche um formulário e coloca numa caixa de correio." Chegaremos a esse grau? Que tal seguir o indígena que treinava para sua flecha alcançar a Lua? Nunca alcançou, porém era a que ia mais longe.

(*) Reitor do FB UNI e Dir. Superintendente da Org. Educ. Farias Brito. Presidente da Academia Cearense de Letras.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 26/06/25. Opinião, p.18.

quinta-feira, 3 de julho de 2025

VIDA 3

Por Rev. Munguba Jr. (*)

Meu tio, Dr. Silas Munguba, nome dado a avenida do Castelão, veio para Fortaleza com o propósito de fundar o Hospital Batista, e meu pai, Pr. Samuel Munguba, nome dado a rua da Seven Church, veio para fundar o Colégio Batista. Juntos, fundaram o Desafio Jovem do Ceará, que foi a primeira comunidade terapêutica do sul da Bahia ao norte do Acre.

Sempre acompanhei meu pai e meu tio em suas jornadas de investimento na qualidade de vida dos seus semelhantes. Lembro que passei mais de um ano fazendo palestras no Presídio Amanari, onde Dr. Silas foi diretor. Também realizamos visitas sistemáticas ao Desafio Jovem do Ceará, que leva o nome do Dr. Silas Munguba.

Mas descobri algo muito importante: não podemos mudar a vida de quem acredita que não precisa de mudança. É necessária uma decisão, uma forte disposição para transformar a própria realidade. Milhares de jovens tiveram suas vidas restauradas, mas nem todos conseguiram beber do amor desses dois homens de Deus e ressignificar suas histórias.

No início do ano de 1999, recebi em meu gabinete pastoral um jovem que havia passado pelo Desafio Jovem e, infelizmente, havia recaído no vício das drogas. Ele estava visivelmente abalado. Relatou que sua família o internara em uma clínica psiquiátrica, onde recebeu choques elétricos na cabeça e muitas injeções para ficar quieto e sem forças. Contou ainda que havia fugido de lá e que não retornaria sob hipótese alguma.

Conversei com ele por mais de uma hora e acalmei o seu coração. Ele me disse que tomaria um banho em casa e voltaria para participar de uma das nossas celebrações.

Cerca de duas horas depois, recebi um telefonema da família pedindo que eu fosse com urgência à sua residência.

Quando cheguei, deparei-me com a imagem mais triste que já marcou a minha vida: um jovem lindo, com um futuro promissor, estava pendurado em uma corda, em um quartinho nos fundos da casa.

Naquele dia, pedi a Deus uma ideia que me permitisse ajudar a ressignificar a vida das pessoas, para que eu pudesse ser parceiro dos profissionais de saúde mental atuando na prevenção.

Foi assim que, em 1999, nasceu o Vida 3 - o Seminário de Desenvolvimento Espiritual, Emocional e Financeiro -, que já influenciou positivamente a vida e a história de mais de sessenta mil pessoas ao longo desses anos. @vida3oficial

(*) Pastor Munguba Jr. Embaixador Cristão da Oração da Madrugada e Erradicação da Pobreza no Brasil e presidente da Igreja Batista Seven Church.

Fonte: O Povo, 7/06/2025. Opinião. p.18.


terça-feira, 4 de fevereiro de 2025

RETROSPECTIVA DE CINCO ANOS

Por Vladimir Spinelli Chagas (*)

Em 03/2/2020, estreávamos nesse espaço do O POVO, com pauta totalmente livre, como é da política democrática deste Jornal. E aproveitamos o primeiro desses 63 artigos para falar sobre a questão crucial da intolerância que grassa em nossa sociedade. Este tema rendeu quatro artigos, com o título "No Reino da Tolerância (I a IV), e outras abordagens semelhantes, propondo mudanças de costumes que permitam formas de lidar com o outro e debater os temas importantes, sem o ranço hoje existente, e provocamos sobre temas como os pets, o metaverso e as controvérsias do plano de ocupação de Marte.

Na época, eclodiu a pandemia da Covid-19, que não poderia deixar de ser tratada, pelo que significava para todo o mundo. Uma doença desconhecida, que gerou um sem-fim de discrepâncias no seu tratamento e na convivência entre pessoas.

Foram também destacadas instituições, como os conselhos profissionais, a Academia Cearense de Administração (Acad), as empresas juniores, a Rede dos Núcleos de Inovação Tecnológica (Redenit-CE, a Universidade Estadual do Ceará (Uece) a Associação Beneficente do Parque do Cocó (ABPC) e a Santa Casa da Misericórdia de Fortaleza.

O espaço homenageou figuras que me inspiram, como minha mãe, o político Virgílio Távora, o jornalista Ciro Saraiva, o ex-reitor da Uece, Assis Araripe, a dama do folclore cearense, Elzenir Colares, uma funcionária da Uece, Dilce Feitosa, esses falecidos; a pintora com os pés e a boca, Goret Chagas, o ex-presidente do BNB, João Alves de Melo e o ex-governador Gonzaga Mota.

Com a Santa Casa como pano de fundo o tema mais presente foi a realidade das entidades filantrópicas na área da saúde, a partir das dificuldades financeiras que sofrem com a tabela SUS totalmente defasada, obrigando-as à esdrúxula situação de terem que pagar pelos serviços que prestam.

Já agora nos manifestamos sobre as eleições de Fortaleza, em relação ao setor de saúde pública, confiantes de que, a partir de uma série de tratativas ocorridas, a Santa Casa possa voltar ao funcionamento pleno, ajudando a reduzir as enormes filas hoje existentes. Que 2025 seja de mais alegrias!

(*) Professor aposentado da Uece, membro da Academia Cearense de Administração (Acad) e conselheiro do CRA-CE. Provedor da Santa Casa da Misericórdia de Fortaleza.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 30/12/24. Opinião. p.16.

 

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