domingo, 30 de abril de 2023

BISU (OU BIZU) II*

Por Dalgimar Beserra de Menezes

Outra história é a do bizu verdadeiro. El bizu de verdad. De minha própria memória, me transporto ao ano de 1962 (ou 1963?). Não se deve confiar na memória. É sempre construção. Estou às portas de uma grande sala de aula no antigo Instituto Evandro Chagas, também demolido, e vejo chegar pressuroso, exultante e alegre, um colega meu de turma, alcunhado de Barão. Era o Antônio Eurípedes. Ele não se contém:

 Saiu o bizu da prova de Física.

Dito isso, prá quê? É logo cercado. Quero ver, dizia um. Deixa eu ver, outro dizia. Então ele arrancou uma papeleta do bolso, um pedacinho reles de papel amarfanhado, onde se podia ler:

1ª Questão: Tensão Superficial.

2ª Questão. A Bomba de Cobalto.

Não vão querer os meus leitores que eu me lembre de todas as questões, que já lá vão 38 anos. Porém eu as copiei para checar. Era uma manhãzinha ensolarada. E a prova seria feita na tarde do mesmo dia.

Entramos na velha sala já referida para o bizu absoluto do professor Tomé, que era o local da realização da prova bizurada (existe isso?) da disciplina de Physica Medica. Era physica mesmo e não física. O autor do texto adotado, Ney Cabral, insurgia-se contra a reforma ortográfica de 1943, de modo semelhante a José Saramago que exige que seus livros publicados no Brasil portem a ortografia de Portugal. Idiossincrasias. Mas vamos lá. Todo de branco, ele próprio muito branco, distribuindo simpatia, vai o professor à frente do quadro negro acompanhado de seu assistente, e manda que ele escreva no quadro: Primeira Questão: Tensão Superficial Segunda Questão: A Bomba de Cobalto. Terceira Questão…

De novo não vão querer meus poucos leitores que eu me lembre de todas as questões. Mas se sobrepunham completamente às do papel amassado, com escritura de tinta azul de caneta tinteiro, que o Barão apresentara naquela manhã.

Passado o impacto, risota e risinhos disfarçados à parte, um aluno que conhecia perfeitamente o bizu mas que pertencia a outro time quanto à moral e aos costumes, levantou-se e disse alto e bom som:

Professor, essa prova não pode ser dada. Muitos alunos conheciam o seu conteúdo hoje de manhã. O conteúdo da prova vazou, Professor.

O professor volveu a cabeça ao assistente e esfregando ambas as mãos

Fulano, você escutou o que o jovem lá está dizendo?

Fulano não respondeu. Como que envergonhado, porém mais propriamente com risinho de mofa, ofereceu as costas aos alunos dirigindo-se ao quadro negro.

A turma por sua vez constituiu de imediato uma espécie de assembleia. Nada mais fácil. Estavam todos reunidos. Os que dispunham do bizu, com espanto, diziam que aquilo não podia ser, que era uma espécie de imoralidade. Acusação infundada. Os que não dispunham exigiam que fosse feita outra prova.

Num instante o professor nas vestes de brancura imaculado, calças com vincos, camisa de seda, resolveu o problema criado pelo dedo-duro.

Vou fazer duas provas. Esta que está no quadro já está definida.

Quem quiser fazê-la pode começar. Vou agora fazer as questões para os descontentes, isto é, aqueles que dizem que as questões que estão no quadro já são conhecidas.

E procedeu como disse. Sabedoria salomônica, pois não?

O professor, já idoso, tinha um fraco. Gostava de cercar-se das meninas bonitas, e para elas fornecia as questões das provas, em todos os detalhes, inclusive vírgulas.

O aluno que denunciou o bizu verdadeiro, ficou com receio de perseguição, de marcação. De retaliação. Não houve. Tirou até nota excelente. Porém não se sabe qual das duas provas ele fez.

Nota 1 - De acordo com a memória do Computador este pequeno texto foi escrito no dia 16 de julho de 2000. Eu me lembro bem que um estudante de medicina mo encomendou e que lho enviei por e-mail. Seu endereço eletrônico era ou é doutorchicao@hotmail.com.

Nota 2 - Tanto quanto o termo pica-fumo, alguém assevera que tem origem na caserna. Com respeito a pica-fumo, já o encontrei em O Mulato de Aluísio Azevedo, um livro do século XIX.

Fonte: MENEZES, Dalgimar Beserra de. Bisu (ou Bizu). In: MENEZES, Dalgimar Beserra de. Apontamentos diário e eventuais. Fortaleza: Expressão Gráfica, 2006. 231p. p.129-131.

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*Bizu também se chamava um jornalzinho de circulação interna na Faculdade de Medicina.


BISU (OU BIZU) I*

Por Dalgimar Beserra de Menezes

Até hoje não sei a origem da palavra bizu. Sei que tem um fonema z tão forte e óbvio que só pode ser escrito com z. Mas, claro poderia ser escrito com s. E que é uma palavra discreta, sutil, segredeiro. Vários dicionários consultados não a registram. Não está no Aurélio nem no Houaiss. E eu me pergunto: onde andaria? Os estudantes também se perguntam, às vésperas de cada prova: onde andaria?

Houve quem me dissesse que é termo onomatopaico, que quereria significar os sonidos do voo de um besouro. O som que traz uma notícia alvissareira. Não fiquei satisfeito. Andei em busca do étimo em outros dicionários, com baldados esforços. A única palavra que encontrei símile foi a que designa calouro em francês: bizut ou bizuth, que, a propósito dá origem também ao termo francês para trote.

Conhecida ou desconhecida a sua origem o bizu corre, o bizu escorre, o bizu flui. Mais filosoficamente, o bizu permeia, o bizu pervaga. Pervaga o cérebro dos estudantes. Permeia o curso médico.

Trocando em miúdos, todavia, bizu (bisu?) é a dica, é a deixa que o professor deixou propositada ou involuntariamente escapar sobre a questão que vai cair na prova. Mas não é só isso. O termo tem seus mistérios.

Quero contar duas histórias sobre bizus. (A palavra teria plural?).

A primeira vou designar como bizu absoluto. Não sei se alguém já a chamou como bizu absoluto. Mas os que se sentaram nos bancos escolares na década de sessenta lembram-se bem dela. Existia um prédio chamado de Andreas Vesalius demolido hoje , e uma grande sala de aula, com uma só entrada/saída. Parece que a estou vendo agora. A turma toda reunida espera a entrada do professor Geraldo de Souza Tomé, Turma 1956, que vai trazer notícias sobre a primeira prova de Anatomia Patológica a ser realizada. E mal tinham começado as aulas da disciplina. Adentra ele ao recinto, a turma toda encantoada, e de sua voz inconfundível larga lá:

Turma: Gostaria de avisar a vocês que nossa primeira prova será feita com a matéria que está contida nas primeiras trezentas páginas do livro de Patologia adotado pela disciplina, o Boyd. Vocês, portanto, leiam, estudem e aprendam as primeiras trezentas páginas desse livro.

Não testemunho de jeito nenhum que essas sejam in verbis (verbatim) suas famosas palavras, mas o sentido era exatamente esse. Boyd era texto célebre oriundo do Canadá, e mutatis mutandis, foi substituído na disciplina pelo Robbins. Mas essa é outra história. Voltando ao tema: não estudasse não as trezentas páginas e você se candidatava à reprovação.

Fonte: MENEZES, Dalgimar Beserra de. Bisu (ou Bizu). In: MENEZES, Dalgimar Beserra de. Apontamentos diário e eventuais. Fortaleza: Expressão Gráfica, 2006. 231p. p.129-131.

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*Bizu também se chamava um jornalzinho de circulação interna na Faculdade de Medicina.

sábado, 29 de abril de 2023

Posses de Sílvia Magalhães e Augusto Guimarães na Academia Cearense de Medicina

Mesa diretora e acadêmicos na solenidade de posse da ACM em 28/04/23.

A Academia Cearense de Medicina (ACM) realizou noite de ontem, 28/04/2023, no Auditório Castello Branco da Reitoria da Universidade Federal do Ceará (UFC), a solenidade de posse dos seus novos membros titulares, os médicos e professores do Departamento de Medicina Clínica da UFC Sílvia Maria Meira Magalhães, docente e especialista em Hematologia, e Antônio Augusto Guimarães Lima, docente e especialista em Cardiologia, nas Cadeiras 32 e 29, patroneadas pelos médicos João Capistrano Mota e Hélio Goes Ferreira, respectivamente.

As Cadeiras 32 e 29 foram, correspondentemente, anteriormente ocupadas pelos acadêmicos Glaura Férrer Martins, que passou para a categoria de membro titular honorável, e José Iran de Carvalho Rabelo, falecido em 9 de abril de 2022.

Os novos acadêmicos foram saudados, em nome da nossa arcádia médica, pelo Acad. Ricardo Pereira Silva.

Antecedendo as posses desses noveis membros titulares, a ACM conferiu a outorga do título de membro honorário ao médico e professor Dalgimar Beserra de Menezes, que foi recepcionado pelo Acad. Marcelo Gurgel Carlos da Silva. Coube ao homenageado pronunciar a sua fala de agradecimento, o que fez repleta de passagens de suas memórias pessoais e marcadas pela informalidade.

A solenidade, sob a presidência do Acad. Janedson Baima Bezerra, foi conduzida pelo experiente Acad. Vladimir Távora Fontoura Cruz como mestre de cerimônia.

Após a conclusão dos trabalhos, os recipiendários propiciaram aos confrades e convidados um coquetel de congraçamento no Salão Nobre da Reitoria da UFC, em virtude da perspectiva de precipitação pluviométrica, impedindo a utilização dos espaçosos jardins dessa instituição universitária.

Acad. Marcelo Gurgel Carlos da Silva

Membro titular da ACM – Cadeira 18


ADÃO LOPES: a Medicina cearense se despede do Adãozinho

 

José Adão Lopes, nascido em 3 de janeiro de 1950 em Limoeiro do Norte-CE, foi o oitavo de uma família de 11 filhos. Estudou em escolas públicas da sua terra natal, recebendo a formação do ensino fundamental.

Em busca de garantir o seu próprio sustento, Adão veio para Fortaleza, para o serviço militar, em 1969, engajando-se como circunscrito da Aeronáutica, onde já servia o irmão mais velho Antônio Ferreira Lopes.

Por esforço pessoal, conseguiu suprir, mediante provas educacionais da época, as certificações de equivalência ao ginasial e ao científico, preparando-se para o vestibular, e de forma exitosa ingressou no Curso de Medicina, aprovado no exame vestibular da Universidade Federal do Ceará (UFC), de janeiro de 1972, diplomando-se médico em 23 de dezembro de 1977, integrando a Turma Dr. José Carlos Ribeiro.

A sua graduação foi conduzida concomitante ao seu ofício de cabo da Aeronáutica, o que exigia dele uma cota maior de sacrifício, por tirar serviços noturnos e no final de semana, a fim de conciliar com as aulas em tempo integral na UFC. Com efeito, quando universitário, enfrentou a dura faina de estudar e cumprir suas obrigações profissionais como militar sujeito à hierarquia do oficialato, o que não o impediu de ser um aluno aplicado.

Logo após a formatura, especializou-se em anestesiologia no CET da Sociedade Brasileira de Anestesiologia que funcionava no Hospital e Maternidade São Raimundo. Exerceu a anestesiologia em vários hospitais da cidade de Fortaleza, na iniciativa privada e, como funcionário público, do Instituto Dr. José Frota de Parangaba, do Hospital da Polícia Militar do Ceará e do Hospital Geral de Fortaleza (ex-Inamps).

Presentemente, suas atividades profissionais estavam concentradas no Hospital e Maternidade Gastroclínica, atual Oto-Meireles, e no Hospital São Carlos.

Foi casado com a médica anestesiologista Mônica Lopes, falecida há dois anos, com quem teve três filhos: Wilson (psicólogo), Victor (médico psiquiatra) e Dominique (expert em gastronomia).

O estado de viuvez decorrente da pandemia de Covid, que dele subtraiu a sua amada Mônica, não abateu a sua força de vontade, pois seguiu prestando assistência aos seus filhos e à sua descendência, como se denotava o carinho que ele devotava às suas netas Amelie e Moniquinha.

Faleceu subitamente, aos 73 anos de idade, em Fortaleza, em 23 de março de 2023, deixando imensa saudades na legião de amigos e colegas que o tinha em grande conta, como cidadão e profissional.

Ao se divulgar o infausto o acontecimento da perda terrena do nosso querido colega Adãozinho, como era carinhosamente chamado pelos colegas, incontáveis mensagens de pesar foram compartilhadas em muitos grupos de WhatsApp, todas uníssonas em realçar as qualidades profissionais e humanas do Dr. José Adão Lopes.

Ele era uma pessoa marcadamente simples, despojado de vaidades, e nunca esqueceu suas origens de Limoeiro do Norte, donde partira ainda adolescente, porém a que terra lhe serviu de berço jamais saíra da sua vida.

Era fartamente comprometido com o trabalho, sempre disposto a atender, não importando o local, o dia ou a hora, as convocações dos colegas de especialidades cirúrgicas, que nele depositavam a absoluta confiança, como decorrência natural da sua grande habilidade de anestesiologista.

Que Deus o receba em Seus misericordiosos braços, caro Adão.

Requiaescat in pace, Adão!

Cons. Marcelo Gurgel Carlos da Silva

Médico pela UFC - Turma 1977.2

Publicado In: Jornal do médico digital, 3(38): 48-50, abril de 2023.


sexta-feira, 28 de abril de 2023

LANÇAMENTO DO LIVRO DOS MESTRES (segunda edição)

Para iniciar o ano de comemorações dos 40 anos de existência e atuação, a Fundação Waldemar Alcântara (FWA) lançou ontem, dia 27 de abril, a segunda edição do Livro dos Mestres – O Legado dos Mestres – Cultura e Tradição Popular no Ceará.

Dando continuidade à contação de histórias, na viva voz dos mestres, iniciada pela publicação do primeiro livro, em 2017, os pesquisadores da FWA retomaram a rotina de viagens e pesquisas para registrar, nesta edição, 27 novos Mestres.

Ao todo, o Livro registra a existência de 106 Mestres e é dividido, em duas partes: a primeira, o Tomo dos Vivos, que retrata os Mestres que continuam presentes nesta vida terrena; e a segunda o Tomo dos Mortos, contendo os Mestres que já partiram desta vida. Uma atualização dos Tomos, de uma edição para outra, com Mestres Vivos e Mortos, também pode ser verificada.

A obra é organizada por Dora Freitas e Silvia Furtado, com fotografia de Jarbas Oliveira e é resultado de uma parceria com a Secretaria de Cultura do Ceará, por meio do X Edital Mecenas.

Dora Freitas e Sílvia Furtado, explicam o hiato que ocorreu da primeira para segunda edição: “quando, em 2020, voltamos a viajar pelo Ceará, para novas entrevistas com os Mestres diplomados, fomos sobressaltados, como toda a humanidade, pela pandemia da COVID-19. Paramos os trabalhos. Só recomeçamos em 2021, quando havia controle, vacina, e obedecendo a todos os protocolos de segurança. Conseguimos, depois de tantos desafios, finalizar o registro, entregando uma publicação ainda melhor!”

Essa publicação, além de ser importante registro da existência dos Tesouros Vivos da nossa Cultura, é, também, o justo reconhecimento aos Mestres e Mestras que difundem, com generosidade, tradições, histórias e identidades, atuando no repasse de seus saberes e experiências às novas gerações.

Para leitura dos que se interessam em conhecer mais sobre nossas tradições culturais, a segunda edição foi lançada no dia 27 de abril, na sede da Fundação Waldemar Alcântara (Rua Júlia Vasconcelos, 100, Bairro Pio XII).

O Livro dos Mestres evidencia saberes ancestrais da nossa cultura, consolidando uma sistematização que referencia uma política pública cultural que, ao se firmar como política de Estado, atesta a valorização desses artífices na formação de nossa gente.

Sobre o Projeto

Os Mestres da Cultura Tradicional Popular são a representação mais genuína do povo cearense. Tem vaqueira, sineiro, rezadeira, brincantes de reisado, de maneiro-pau, maracatu, banda cabaçal, dança de São Gonçalo e do coco, pastoril e boi. Manipulador de calunga, rendeiras, palhaço, escultor, cordelistas, dramista, artesão, artista plástico, xilógrafo, cantora de benditos, penitentes, cacique e pajé.

A Lei n.13.351 que, em 2003, instituiu o registro dos Mestres da Cultura Tradicional Popular foi uma forma encontrada pelo Governo do Estado do Ceará para o reconhecimento do valor cultural do trabalho realizado por cada um deles. Através desse registro, os Mestres recebem um apoio financeiro mensal, ao mesmo tempo em que se comprometem a transmitir seus conhecimentos, fomentando, entre as novas gerações, práticas culturais à beira da estagnação.

Até 2017, foram reconhecidos 79 Mestres em todo o Ceará, desde a criação da lei.

Todos eles exercem ofícios que se misturam entre as obrigações e prazeres da lida diária, inventam artefatos e mundos, numa espécie de magia que religa homem e natureza. Constroem um processo ativo de transmissão de práticas, de valores. Passam seus modos de fazer para outras gerações, que criam e reinventam o que aprenderam, fazendo com que a cultura tradicional permaneça viva e dinâmica.

O ofício de cada um dos Mestres é sobretudo criação, seja através da festa, da música e da dança, seja através do trabalho manual, do trabalho experimental. Em tudo o que produzem existem mãos, ideias e fantasia.

É esse universo dos 79 Mestres da Cultura, diplomados pelo Governo Estadual, que a Fundação Waldemar Alcântara está pesquisando desde 2013 e documentando in loco com o objetivo de realizar uma publicação e divulgar a trajetória de cada um.

Fonte: Home page da Fundação Waldemar Alcântara (com adaptações).


Crônica: “Mentir e frescar, é só começar!” ... e outro causo

“Mentir e frescar, é só começar!”

Seu Zé foi criado no pirão de cangulo, na garapa de murici, direto na manga coité, no manipuçá. Cangapé em lagoa era com ele. Vendeu camarão sossego, moré e "eiú" (iú) na feira da Caucaia. Coco seco também. Estudou na Fênix Caixeiral, formou-se Contador. Labutou no Epitácio, montou bodega no Amadeu Furtado, gerenciou a Varig - conheceu a "América". Adotou Pacajus como recanto labutativo pra não parar na aposentadoria.

Porém, nunca foi homem de se pabular do que tinha, era ou sabia; cagar goma ou mais que um boi, se amostrar e ser cabido não era do feitio dele. Sempre foi invocado com gente metida a "sabida". Januarinho é dessas criaturas, só quer ser as pregas. O tal sabichão que os tantos "gês" evolutivos do celular fez ainda mais pernóstico. E aí, Samsung na mão, aproximou-se do velho e brabo seu Zé pra frescar e lascou-se.

Como se tivesse acabado de aprender algo de serventia, Januarinho dispara ciência, desprecavido de réplica abusadamente graúda do irônico interlocutor:

- A população de formigas no mundo é 2,5 milhões de vezes maior do que a de humanos!

- Quantas dessas bichinhas tem no planeta mesmo, Januário?

- Quatro quatrilhões...

- Quem contou elas?

- Especialistas da Austrália, Alemanha e Hong Kong...

- Ninguém do Itapagé?

- Não. Deu na revista científica Proceedings of the National Academy of Sciences...

- E eu com isso?

- É ciência, seu Zé! Não acredita?

- Bem, se é ciência, sim. E veja só: Bibiu meu neto, filho de Tonha, também fez uma contagem caceteira.

- Contou o quê?

- Cabelo. Tem 221.238,5 cabelos a mais que formigas no mundo...

- Aí mente!!!

- Foi tu que começou!

Evidências esculhambadas

Januarinho tenta resistir à força fuleira de um seu Zé mais que nunca empolgado com as mentiras que conta, de pronto retrucando.

- Não! Não acredito que haja mais cabelo que formiga no mundo! Impossível!

- Posso pedir a Bibiu pra recontar... Bibiu! Ô Bibiu! Chegue cá, meu fí!

Bibiu todo ouvidos e respeitoso diante do pai de Tonha:

- Que é, vozinho?

- Januarinho quer que tu reconte os cabelos que tem na terra...

- Pode ser depois da janta?

- Fazer o que, né? Vá lá!

Enquanto Bibiu fazia a recontagem, Januarinho arrotou mais conhecimento: a picada da aranha-armadeira pode causar uma ereção de até quatro horas. Seu Zé, se abrindo da informação...

- Pois saiba que a cartilagem de lagartixa tem o efeito prolongado por uma semana. O cristão fica subindo as paredes feito um bicho, grudado na coisa!

- Avacalhe não, hômi! Bora falar sério! Sabia, por exemplo, que o café é a segunda bebida mais consumida no Brasil, ultrapassado apenas pela água?

- E a pôde, tá pôde? Arrepare: todo pé direito é menor 0,11145 mm que o outro. Por fim, Dandão, primo de Bibiu, tem as urêa grande de tanto roer castanhola.

- Com essa eu me despeço, seu Zé! Nã!

- Deixa de ser besta, Januarinho! Com essa tal internet, todo abestado hoje é dotô!

Fonte: O POVO, de 7/04/2023. Coluna “Crônicas”, de Tarcísio Matos. p.2.


quinta-feira, 27 de abril de 2023

SUZANA RIBEIRO E A ACADEMIA CEARENSE DE MEDICINA

 

Suzana Dias Martins, nascida no Ipu-CE em 31/12/1917, fora mulher de rara beleza, tendo sido, em sua juventude, eleita rainha dos estudantes do Ceará.

Passou a assinar Suzana Dias da Costa Ribeiro ao se casar, em 1941, com o Dr. José Carlos da Costa Ribeiro, um dos fundadores da Academia Cearense de Medicina (ACM), que a regalou com cinco filhos: Nádja, Zóia, Annya, Carlos e Isabel. O filho Carlos, que recebeu o mesmo nome do avô paterno, formou-se em Medicina e exerce a especialidade de hematologia no Ceará.

Ela era bastante afeita às lides literárias, como fundadora, ex-presidente e ativa participante da Sociedade Amigas do Livro, sócia da Associação Brasileira de Bibliófilos e imortal da Academia Fortalezense de Letras. Por muitos anos, lecionou Prática de Ensino no Instituto de Educação do Ceará e na Escola Normal Justiniano de Serpa, buscando incutir entre as normalistas em formação o apreço pela leitura dos livros e pela cultura em geral.

D. Suzana, a despeito de sua idade avançada, fazia questão de estar presente nos mais diversos eventos culturais, tendo especial predileção por participar das solenidades oficiais da ACM. A sua presença nesse sodalício era compreendida como uma manifestação transcendental do seu amado esposo, considerado o secretário perpétuo do silogeu da Medicina cearense.

Sempre que D. Suzana Ribeiro estivesse presente nas solenidades da ACM, a ela estava reservado um assento na mesa diretora dos trabalhos, enquanto que nas poucas vezes em que não pode comparecer a ACM mantinha uma poltrona livre, apenas demarcada por uma pelerine, cobrindo parcialmente a parte superior do encosto, como uma forma de reverência ao seu eterno secretário.

Essa centenária dama das letras do Ceará permaneceu lúcida e intelectualmente ativa até o final dos seus dias quando, serena e placidamente, regressou aos braços do Criador, na capital cearense em 8/03/2020, no Dia Internacional da Mulher, exalando os seus derradeiros suspiros, amparada no carinho dos seus queridos familiares.

Como esposa, mãe, avó, bisavó, tia e amiga, ela sempre esteve disposta a ajudar com gestos e delicadezas a quem se valia dos seus préstimos, legando, sobretudo, o seu testemunho de bondade, afeição e cooperação humana.

Cons. Marcelo Gurgel Carlos da Silva

Membro titular da ACM – Cadeira 18

*Publicado In: Jornal do médico impresso, 18(165): 18, março de 2023. (Revista Médica Independente do Ceará).


ANGÚSTIA NA GESTAÇÃO

Meraldo Zisman (*)

Médico-Psicoterapeuta

“A angústia é, dentre todos os sentimentos e modos da existência humana, aquele que pode reconduzir as mulheres e homens ao encontro de sua totalidade como ser (…).” Martin Heidegger (1889 – 1976)

Gestação de um novo ser traz agora um aumento da angústia vital.

Conceba por um momento que seu filho ou filha ainda não nascido tem uma doença genética rara que fará do mesmo portador de uma vida bastante limitada ou com poucas possibilidades de sobrevivência. Jamais será um adulto normal. Acrescento: a sabedoria chinesa afirma que, quando se pergunta a um asiático: — qual a sua idade? — ele acrescenta os 9 meses de vida intrauterina que sabemos ser o espaço de tempo mais importante quando o ser passa de ovo (junção de um espermatozoide com o óvulo), para embrião (feto) para se tornar um recém-nascido e seguir uma nova vida fora da mãe. O tempo de vida intrauterina é o mais formidável e transformador processo de toda a existência dos seres. Caso tenha nascido no tempo da gestação de um ser humano (em torno de 40 semanas), essas semanas serão mais importantes do que os cerca de 90 anos que viverá fora do útero materno.

As transformações futuras serão sempre menores do que aquelas que ocorrem na barriga da mãe. A vida intrauterina sempre foi um grande mistério e provoca o que denomino angústia vital, mas forte do que outros traumas que possam ocorrem durante a vida pós-parto.

Com o advento da ultrassonografia e demais avanços médico-técnicos começamos a tomar “algum” conhecimento desse estágio da vida, importante fase da existência do Homo sapiens e de outros animais. Por isso, é compreensiva a expectativa do casal grávido (homem e mulher) quanto aos filhos que gerou ou irá gerar.

O aumento dessa expectativa deve-se à  biologia tecnológica, que descobriu o genoma, que sintetiza todos os dados transmitidos de uma geração de seres vivos para outra, armazenados em um organismo que utiliza uma linguagem de códigos, mais precisamente no seu ‘DNA’ (ácido desoxirribonucleico), sendo uma categoria de ácido nucleico que possui papel fundamental na hereditariedade, sendo considerado o portador da mensagem genética, uma espécie de roteiro orgânico molecular que traz todas as orientações que supervisionam a evolução, a atuação e as atitudes das entidades vivas.

Vinte anos depois que o primeiro genoma humano foi mapeado, o preço do sequenciamento do genoma completo caiu o custo a ponto de poder, pelo menos em países ricos, ser oferecido habitualmente a todos os recém-nascidos. O que de princípio parece ser um avanço da Medicina, agudiza a denominada angústia vital.

A acepção desta tal de angústia vital está associada a emoções que nos causam desconforto e consiste em um medo constante de ser atacado a qualquer momento. Essas emoções limitam as pessoas que as sentem, causando ansiedade, depressão ou outros sentimentos que levam a sensações desagradáveis.

A angústia vital tem efeitos psicológicos e físicos na mãe e no pai, durando muito tempo, indo mais do que o esperado e sendo acrescentado à responsabilidade da criação de um novo ser, seu filho ou filha.

(*) Professor Titular da Pediatria da Universidade de Pernambuco. Psicoterapeuta. Membro da Sobrames/PE, da União Brasileira de Escritores (UBE), da Academia Brasileira de Escritores Médicos (ABRAMES) e da Academia Recifense de Letras. Consultante Honorário da Universidade de Oxford (Grã-Bretanha).

quarta-feira, 26 de abril de 2023

TRIBUTO À SIMONE SIMÕES

Por José Jackson Coelho Sampaio (*)

Iniciava minha carreira de psiquiatra e desenvolvia as primeiras experiências de pesquisa em Saúde Mental e Trabalho, com estudos psicossociais sobre o drama das mulheres castanheiras, quando, certa tarde, sou instado a atender pedido de conversa por parte de professora de Antropologia da UFC, que havia iniciado mestrado na UnB. Uma mulher alta, morena, longos cabelos negros e grandes brincos ocupou o consultório com voz rouca, risada franca e curiosidade intelectual ilimitada. Era Simone Simões Ferreira Soares.

A conversa foi um terremoto que marcou minha história. Discutimos as teorias sobre loucura e estigma e ela demonstrou conhecer meus artigos nas Revistas O SACO e Rádice sobre doença mental e pobreza, migração e tarefa exaustiva. Daí, centramo-nos nas castanheiras, responsável por 3% da População Economicamente Ativa (PEA) feminina cearense e 35% do atendimento em nossa emergência psiquiátrica, sob diagnóstico polêmico e complexos conflitos com a perícia médica.

Simone desenvolveu sua proposta de dissertação de mestrado sobre o tema do estigma e das estratégias de sobrevivência, pensando como campo as demandas de licença-saúde das castanheiras, em trabalho sob a orientação do grande Roberto Cardoso de Oliveira, que aceitara orientá-la e autorizara a busca de um orientador de campo, e ela e ele solicitavam que eu assumisse este papel, mesmo conscientes de eu ainda não ter titulação acadêmica. Assumi e acertei, pois seu trabalho alcançou sucesso intelectual e político ímpar.

Passamos a conviver entre os vinhos e as cervejas que ela gostava de beber na varanda de sua casa, as minhas noites profundas de sono que ela interrompia para apresentar "só mais uma dúvida, outra questão", a parceria do gosto poético, a solidariedade entre nossas famílias que se divertiam e se respeitavam, os cartões dela recebidos em cada aniversário meu. Estivesse ela ou eu onde estivéssemos, a generosidade de Simone acontecia. Os temas de conversa foram evoluindo, entre chistes sobre sua concepção de liberdade e seus enormes brincos (certa vez, ofereci-lhe um aro de bicicleta para que ela fizesse brinco), mas agora, sei, com uma tristeza terna, que em meu próximo aniversário não haverá mais o cartão de Simone na caixa de correio, nem seu chamado insone ao telefone, nem sua risada feliz. 

(*) Professor titular de Saúde Pública e ex-Reitor da Uece.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 26/04/2023. Opinião. p.21.


LULA DA SILVA VERSUS CAMPOS NETO

Por Pedro Jorge Ramos Vianna (*)

Os candidatos a postos executivos no Brasil têm a mania de prometer fazer o que não podem. A grande maioria das ações do poder Executivo depende de aprovação dos poderes legislativos.

O senhor Lula da Silva fez várias promessas sobre as quais não tem poder de decisão. Uma delas foi que o Brasil voltaria a crescer a taxas mais altas que as que hoje conseguimos.

Para tanto, em seu argumento, é preciso baixar a taxa de juros. O problema é que isso não depende do poder executivo (dele, Lula), nem do Congresso, nem do STF.

De fato, não depende, sequer, do "quarto poder", o Banco Central do Brasil. Na realidade a taxa de juros é um dos preços fundamentais da economia, pois é o preço do capital.

Desta forma, como preço, ela depende do comportamento do sistema econômico.

Lembro aqui que o tema "inflação" é um dos temas mais difíceis de se trabalhar na ciência econômica.

Eu mesmo escrevi e publiquei, em 2003, o livro com o título "Inflação". Recordo que para escrever sobre o tema li e analisei mais de duzentas obras sobre o assunto.

Mas, agora, o senhor Lula da Silva do alto de sua "sapiência" critica a política do Bacen sobre a taxa de juros.

Note-se que sendo um preço, a taxa de juros tem influência sobre a inflação. E aqui é que o problema surge. Pois cabe ao Bacen o combate a este mal, conforme foi estabelecido pelo art. 1º da LC Nº 179, de 24/02/2021, conforme se lê: "O Banco Central do Brasil tem por objetivo fundamental assegurar a estabilidade de preços". Estabilidade de preços é o antônimo de "inflação".

O combate à inflação é uma tarefa árdua e envolve vários mecanismos. O uso da taxa de juros é apenas um deles. O controle dos gastos públicos, também.

No atual contexto, a política fiscal anunciada contribuirá para aumentar a inflação.

Aqui não há como criticar o Bacen por usar a taxa de juros. Neste mister, este é o mais importante instrumento que ele possui, afora o controle da emissão de dinheiro e o uso da taxa de depósito compulsório, quando se tem como objetivo a diminuição do dinheiro circulante na economia.

Volto aqui ao meu livro. Lá está anotado que a inflação possui 37 diferentes nomes. Portanto, seu combate é extremamente difícil.

Note-se que que usar somente a taxa de juros no combate à inflação, é admitir, implicitamente, que a inflação atual é uma "inflação de demanda". E isso não é verdade. Tivemos uma pandemia, o que determinou a contração do setor produtivo no País, contribuindo para a diminuição da oferta de bens.

Por outro lado, os custos da geração de energia elétrica aumentaram. Os preços do petróleo, também. Assim, tivemos várias causas para a inflação.

Assim, o controle da inflação depende não só do BCB, mas, também, do poder Executivo.

(*) Economista e professor titular aposentado da UFC,

Fonte: O Povo, de 12/03/23. Opinião. p.18.

terça-feira, 25 de abril de 2023

CÂNCER DE INTESTINO MATA, ÍDOLOS MORREM

Por Sérgio Pessoa (*)

Estádio Azteca, 1970: O Rei Pelé pula mais alto que o italiano Giacinto Fachetti, para no espaço, de olhos fixos e abertos, desfere uma mortal cabeçada no canto do goleiro Albertosi e sai dando socos no ar comemorando o primeiro gol na lendária final da copa do tri, no México.

Maracanã, 1976: Roberto Dinamite recebe um cruzamento na marca do pênalti, aplica um lençol no zagueiro botafoguense Osmar e fuzila, de voleio, o goleiro Wendell aos 45 minutos do segundo tempo.

Lances imortalizados nas telas da TV, do cinema e agora no YouTube nos dão a impressão de que os dois craques não morrerão jamais. No nosso imaginário, certamente, mas, infelizmente, a realidade mundana é outra. Pelé e Dinamite tiveram sua passagem terrena abreviada pelo câncer de intestino, uma doença comum e absolutamente passível de prevenção e cura, se precocemente diagnosticada.

O câncer colorretal (CCR), popularmente conhecido como câncer de intestino, é o segundo tumor maligno mais frequente entre mulheres e homens no Brasil. É uma lesão que pode ser prevenida e diagnosticada em fases precoces, o que permite altas taxas de cura, se utilizarmos ferramentas como pesquisa de sangue oculto nas fezes e colonoscopias periódicas a partir dos 50 anos.

A Federação Brasileira de Gastroenterologia (FBG) e as Sociedades Brasileiras de Endoscopia Digestiva (SOBED) e de Coloproctologia (SBCP) promovem, em todo o Brasil, a campanha Março Azul. O objetivo é esclarecer a população e cobrar do poder público estratégias que reduzam o risco da doença e permitam o diagnóstico antes da instalação do câncer ou em suas fases iniciais.

A campanha busca popularizar a ideia de que a partir dos 50 anos na população geral, e mais cedo em grupos especiais, como parentes em primeiro grau de portadores de CCR ou indivíduos portadores de doença inflamatória intestinal, a realização de exames laboratoriais e colonoscopias devem fazer parte do cuidado individual de cada um de nós. Lamentavelmente, as doenças de Pelé e de Roberto Dinamite já foram identificadas em fase muito avançada, o que reduziu em muito a chance de cura.

Marque um gol de placa. Lembre-se do Março Azul e previna-se!

(*) Médico gastroenterologista. Presidente da Federação Brasileira de Gastroenterologia.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 1/03/2023. Opinião. p.20.

 

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