Por Carlos Roberto Martins
Rodrigues Sobrinho (Doutor Cabeto) (*)
Escrevi num domingo, não publiquei
imediatamente, dei um tempo. Foi num dia diferente, pelo menos para mim. Numa
manhã, após sair do Hospital, hábito que cultivo há 35 anos, dirigi-me para
encontrar minha irmã. A poucos metros da sua casa, resolvi parar numa venda
para comprar algumas surpresas para o domingo de Páscoa. Ao descer do carro fui
surpreendido por um jovem nervoso e agressivo, descendo de uma moto. Apontou-me
um revólver aparentemente velho, não hesitou em bater com o cano no meu tórax.
Não vou entrar nos detalhes, já que isso é
diário para milhares de cearenses. Mas o que mais me surpreendeu foi a postura
da polícia ao chegar no local do assalto. Naquela ocasião, o policial sem
sequer descer do carro, disse-me, ao ser informado por amigo que se tratava de
um médico e ex-secretário de saúde do Estado, "não tem problema, é
rico". Naquele momento tive dúvida se a minha indignação se devia à
violência ou ao descaso com a sociedade. Entre o discurso de um governo fraco,
essencialmente por sua forma medíocre, amparado por um esquema de sedução dos
poderes, à situação calamitosa em que estamos.
Não que sejamos únicos, mas estamos entre
os piores indicadores de violência no Brasil.
como todos vocês, a reação tem uma mistura de vários sentimentos, entre
eles impotência e, sobretudo, tristeza. Depois de algumas reflexões, resta-nos
crer que em algum momento, mudaremos. Pois, de nada adianta falar do passado,
de uma nação que desde o início foi extorquida. Para quem não sabe, por
curiosidade, era proibido aos que estavam no Brasil emitir notícias a Portugal,
ensurdecendo os absurdos.
Passados todos esses anos, já é o momento
de romper com esse "homem cordial", afeito a informalidade,
adaptando-se em qualquer situação. Se por um prisma é conveniente, por outro
induz ao jeitinho brasileiro, associado à corrupção, à falta de civismo e ao
personalismo.
Dizer que a educação é a solução para todos
os males, parece-me simplista e infantil, quando não se esclarecem os métodos e
os objetivos, quando assistimos aos sucessivos erros. Refiro-me a uma
realidade perversa, um desempenho trágico das competências cognitivas dos
alunos do ensino público. Em dados publicados em 2025 constatamos que somente
5% dos alunos de escola pública atingem conhecimento mínimo em matemática.
Infelizmente os resultados são bem diferentes das narrativas.
Cabe-nos responsabilizar as nossas
lideranças. Uma parte importante dessa mudança, da transformação, de impedir
essa sentença determinista de "sempre foi assim e não vai mudar",
passa, evidentemente, pela política. A frase de "esse é o jogo", que
ouvi de uma certa liderança do nosso Estado, fez a autointitulada esquerda crer
que era preciso entrar no jogo para mudar. Embora, do ponto de vista da
história, pareça tolice, passaram a vestir o papel da antítese de suas
propostas. Ou seja, chegaram para mudar, se corromperam, e, agora, fazem parte
do sistema. Assim mesmo, a teimosia é um surto, e nesse, empregamos uma força
que não reconhecemos. Nessa ruptura que está por acontecer.
(*) Médico. Professor da UFC.
Ex-Secretário Estadual de Saúde do Ceará.
Fonte:
Publicado In: O Povo, de 27/12/2025.
Opinião. p.15.

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