sexta-feira, 4 de setembro de 2026

ENTRE A ARTE E A MEDICINA: à memória do Dr. Flávio Leitão

Por Ana Margarida Furtado Arruda Rosemberg (*)

Ontem, 1º de setembro de 2026, partiu um querido confrade da Academia Cearense de Medicina.

Hoje, ao recordá-lo, quero fazê-lo através daquilo que tantas vezes nos encantou: a Arte, esse território onde a Medicina também encontra a sua mais profunda dimensão humana.

Penso na célebre tela de André Brouillet, “Uma lição clínica na Salpêtrière”, que eternizou o professor Jean-Martin Charcot diante de seus alunos, em uma das mais emblemáticas cenas da história da Medicina. Ali, ciência, observação, sofrimento humano e Arte se encontram em uma mesma imagem.

Essa obra, que tantas vezes nos aproximou em conversas e reflexões, hoje adquire, para mim, um significado ainda mais profundo, pois a escolhi, entre tantas outras, para a capa do meu livro, com o intuito de homenagear o Dr. Flávio Leitão.

O médico que partiu deixa de estar entre nós, mas permanece na memória daqueles e daquelas que tiveram o privilégio de compartilhar sua presença, sua amizade e sua dedicação à Medicina e à luta por uma sociedade mais igualitária e justa.

Que a Arte seja também hoje uma forma de dizer adeus e que permaneça, na memória de seus confrades e confreiras, a imagem de um homem que soube compreender que a Medicina é ciência, mas também é humanidade e que, como na grande Arte, cuidar é, antes de tudo, saber olhar.

À sua memória, minha homenagem, meu carinho, meu respeito e minha saudade.

Descanse em paz, querido confrade!

Fortaleza, 2 de setembro de 2026

(*) Da Academia Cearense de Medicina e da Sobrames/CE.


FOLCLORE POLÍTICO: Porandubas 728

Abro com uma historinha de Frei Damião.

Casamento no Maranhão?

Acompanhemos a pregação do Frei Damião em Cajazeiras, na Paraíba. Com aquela voz que parecia sair das cavernas, perorava contra os amancebados, os luxuriosos, os desonestos, desfilando todos os pecados contra os 10 mandamentos. No meio do sermão, parou e perguntou:

– Quantos aqui são amancebados? Quantos vivem juntos e não casaram?

Centenas de pessoas levantaram a mão. O frei ameaçou:

– Nesse estado de barbárie, todos vocês vão para as profundezas do inferno. E serão queimados vivos. Vivos.

Começou a descrever a terra incandescente. E arrematou: "amanhã, quero todos os amancebados, aqui, para um casamento coletivo". Dia seguinte, lá estava a multidão. Começou a cerimônia. Frei Damião limpa o suor e joga a pergunta que ferveu na alma de muitos:

– Quem tiver algum impedimento contra esses sagrados matrimônios, que fale, agora, ou se cale para sempre.

Silêncio. De repente, vê-se, no meio da multidão, o braço no ar de Terezinha das Mercês, devota fervorosa de Senhora da Anunciação:

– Raimundinho de Doca num pode se casar, pois ele já é casado no Maranhão.

Perplexidade geral. Raimundinho, o açougueiro, toma um susto. Silêncio. Frei Damião, curioso, sai do púlpito. Multidão em transe. A companheira de Raimundinho, envergonhada, não sabe o que fazer. E muito menos o que dizer. O homem das carnes, encabulado, grita alto para todos ouvirem:

– Foi no Maranhão, no Maranhão. Faz muito tempo. É muito longe daqui. Muito longe, Frei Damião. E adepois, fui a Juazeiro para tomar as benção do padim Ciço.

O "santo italiano" do sertão nordestino baixou a cabeça. Chamou Raimundinho para perto e cochichou a penitência no ouvido:

– 100 terços e abstinência por 7 dias. Se não cumprir a ordem, os dois queimarão vivos no inferno.

Deu meia volta. Tomou lugar no púlpito. Milagre. O durão Frei Damião abençoou a todos.

Fonte: Gaudêncio Torquato (GT Marketing Comunicação).

https://www.migalhas.com.br/coluna/porandubas-politicas/350256/porandubas-n-728


quinta-feira, 3 de setembro de 2026

Neurocirurgião e escritor, Flávio Leitão morre aos 87 anos em Fortaleza

Descrito pela família como dedicado ao próximo, Flávio Leitão conciliou a carreira médica com a literatura, a fé e a atuação em entidades profissionais

Resumo

Faleceu o médico e neurocirurgião Francisco Flávio Leitão de Carvalho aos 87 anos.

Foi pioneiro em técnicas neurocirúrgicas no Ceará e conselheiro do CRM-CE.

Também atuou como escritor, integrando a Academia Cearense de Letras.

Era conhecido pela generosidade e compromisso com os pacientes.

Seu velório e missa ocorrem em Fortaleza no dia 2 de setembro.

Morreu aos 87 anos o médico e neurocirurgião Francisco Flávio Leitão de Carvalho, figura de destaque na Medicina e na literatura cearenses. Segundo familiares, ele morreu nesta terça-feira, 1º de setembro, em Fortaleza, após um período de doença e de cuidados paliativos nos últimos dias.

Ao longo da carreira, Flávio Leitão teve atuação ligada à modernização da neurocirurgia no Ceará. Segundo o filho, Flávio Leitão Filho, o médico foi responsável por introduzir no Estado técnicas neurocirúrgicas que ainda não eram realizadas na região.

Ele foi o introdutor aqui no Ceará de grandes técnicas neurocirúrgicas. Ele inovou a neurocirurgia do estado do Ceará”, relatou o filho. A atuação profissional também o levou a ocupar funções em entidades representativas da Medicina, incluindo o Conselho Regional de Medicina do Ceará (CRM-CE), do qual foi conselheiro.

A trajetória institucional se estendeu às entidades especializadas. Conforme o filho, Flávio Leitão participou da criação da Sociedade Nordestina de Neurocirurgia e presidiu a Sociedade Cearense de Neurologia e Neurocirurgia. Também esteve à frente de um congresso da Sociedade Brasileira de Neurocirurgia.

Flávio Leitão: Medicina como compromisso

Para a sobrinha Júlia Lopes, a atuação profissional do tio era acompanhada por uma relação próxima com os pacientes e por uma disposição permanente para atender quem precisava. Ela o descreve como um médico generoso e disponível, especialmente em uma área marcada pela complexidade e pelo alto custo dos procedimentos.

Ele foi um médico assim muito querido pelas pessoas, atuou de uma forma muito generosa. Sempre teve disponibilidade para atender quem precisava”, afirmou.

A preocupação com a formação e a atualização profissional também aparece na memória deixada pela família. Segundo Flávio Leitão Filho, o pai entendia a Medicina como uma atividade que exigia aprendizado contínuo e participação ativa na construção da especialidade.

Da medicina à literatura

A atuação de Flávio Leitão, porém, não ficou restrita aos hospitais e às entidades médicas. Nos últimos anos da vida, o neurocirurgião passou a se dedicar à literatura, especialmente à produção de contos.

O interesse pela escrita o levou à Academia Cearense de Letras (ACL). Flávio Leitão tomou posse como integrante da instituição em 10 de janeiro de 2017. Para o filho, a entrada na Academia representou uma das últimas grandes conquistas da trajetória do pai.

Além da produção de contos, o médico escreveu sobre a própria história familiar. Entre seus trabalhos está um livro dedicado à trajetória do irmão mais velho, Tarcísio Leitão, advogado trabalhista e ex-vereador de Fortaleza que teve o mandato cassado após o golpe militar de 1964.

Família e formação

A história de Flávio Leitão também esteve ligada a uma família com diferentes trajetórias na Medicina, na política e na advocacia. O irmão mais velho, Tarcísio Leitão, teve atuação política e jurídica, enquanto Vicente Leitão, outro irmão, seguiu a neurologia.

Antes de ingressar na Medicina, Flávio Leitão chegou a ser seminarista. Segundo o filho, permaneceu no seminário entre os 10 e os 14 anos, mas decidiu abandonar a formação religiosa por sentir falta da família. Posteriormente, ingressou no curso de Medicina e se especializou em neurocirurgia.

Na vida familiar, foi casado com Maria Emília Esteves de Carvalho. O casal teve quatro filhos: Ana Maria, Flávio, André e Manuela. A família também cresceu com a chegada de cinco netos: Eleazar Filho, Flávia, José Neto, Letícia e Maria Teresa.

Fé e humanismo

A dimensão religiosa era outra característica destacada pelos familiares. Segundo Júlia Lopes, Flávio Leitão era um católico fervoroso e mantinha uma relação próxima com a Igreja, influência que vinha também da família.

A religiosidade, porém, não era colocada como condição para suas relações. A sobrinha destaca que ele mantinha uma postura de compreensão diante de pessoas com diferentes crenças e escolhas religiosas.

Para o filho, a característica mais marcante do pai era justamente a preocupação com o outro. Mesmo durante os últimos dias, quando já recebia cuidados paliativos, Flávio Leitão teria demonstrado preocupação em não provocar sofrimento adicional na família.

Flávio Leitão Filho conta que, quando perguntado por familiares sobre possíveis dores, o pai procurava tranquilizá-los. Também costumava repetir uma frase relacionada ao luto: “Está na Bíblia que você só pode chorar os seus mortos por três dias”.

Realmente o negócio dele era pensar no próximo. Essa era a coisa mais marcante do papai”, afirmou.

Despedida

O velório de Flávio Leitão será realizado nesta quarta-feira, 2 de setembro, a partir das 8 horas, na Funerária Ternura, em Fortaleza. A missa está marcada para as 15h30min, no mesmo local, conforme informado pela família.

Para os filhos, a despedida é também um momento de reconhecer a trajetória construída pelo médico, escritor e pai. Em nome dos irmãos, Flávio Leitão Filho agradeceu pela convivência com o pai e afirmou que a família pretende manter os valores que ele defendia.

Nós agradecemos muito ao bom e generoso Deus por ter nos dado de presente, como pai, o Doutor Francisco Flávio Leitão de Carvalho”, declarou.

Aos familiares, fica a lembrança de um homem cuja trajetória atravessou diferentes campos — da neurocirurgia à literatura, da atuação institucional à vida familiar — e que, segundo eles, manteve como princípio central o compromisso com o próximo.

Fonte: O Povo, de 3/09/26. Farol. p.3 (nota reduzida assinada por jornalista Caynã Marques). Versão completa (online)


Morre o neurocirurgião e escritor Francisco Flávio Leitão de Carvalho, professor aposentado da Famed

Professor do Departamento de Cirurgia da Famed da UFC, Flávio Leitão exerceu diferentes funções na universidade

Quarta, 2 setembro 2026 11:22

Atualização: Quarta, 02 setembro 2026 13:59

Escrito por Secom UFC

A Universidade Federal do Ceará (UFC) manifesta profundo pesar pelo falecimento do neurocirurgião, escritor e professor aposentado da Faculdade de Medicina (Famed) da UFC Francisco Flávio Leitão de Carvalho, ocorrido na terça-feira (1º), em Fortaleza, aos 87 anos.

O velório teve início às 8h desta quarta-feira (2/09), na Funerária Ternura, em Fortaleza, com missa às 15h, no mesmo local. O sepultamento será às 16h30, no cemitério São João Batista (rua Padre Mororó, s/n, Centro).

Nascido em Fortaleza, em 1939, ele era o terceiro filho do poeta, jornalista e professor José Valdivino de Carvalho e da pianista Maria Adamir Leitão de Carvalho. Formou-se em Medicina pela UFC em 1964 e especializou-se em Neurocirurgia em Porto Alegre, em 1965. Em 1975, realizou aperfeiçoamento no Tufts New England Medical Center, em Boston, nos Estados Unidos. Em 2000, concluiu mestrado em Cirurgia pela UFC.

Professor do Departamento de Cirurgia da Famed, Flávio Leitão exerceu diferentes funções na universidade, entre elas as de subchefe e chefe do departamento e de chefe do Serviço de Neurocirurgia do Hospital Universitário Walter Cantídio (HUWC). Teve papel de destaque no desenvolvimento da neurocirurgia no Ceará, com a introdução de novas técnicas na área. Integrou o Conselho Regional de Medicina do Ceará (CRM-CE) e a Sociedade Cearense de Neurologia e Neurocirurgia, além de participar da criação da Sociedade Nordestina de Neurocirurgia.

Paralelamente à medicina e à docência, dedicou-se à literatura e integrou a Academia Cearense de Letras (ACL), na qual tomou posse em 2017. Entre suas obras estão História da Neurologia e da Neurocirurgia no Ceará, A Ventura de Gamalielzinho & Outros Contos, Tarcísio Leitão - HIstória de um Coerente, além de inúmeros contos.

Flávio Leitão foi casado com Maria Emília Esteves de Carvalho, com quem teve quatro filhos: Ana Maria, Flávio, André e Manuela. Deixa também cinco netos. Aos familiares, amigos, ex-alunos, colegas e pacientes, a UFC expressa sua solidariedade, desejando conforto neste momento de dor.

Fonte: Secretaria de Comunicação e Marketing da UFC - e-mail:secom@ufc.br


MEU COLÉGIO INESQUECÍVEL

Por Romeu Duarte Junior (*)

Aos meus amigos do Colégio Cearense

O ano de 2026 é, para mim, motivo de dupla comemoração. Em 1966, há 60 anos, fui matriculado com muita dificuldade por meus pais no Colégio Cearense Sagrado Coração. O empecilho não era porque eu fosse um péssimo aluno, mal educado, traquinas e respondão e sim porque, como era à época a melhor instituição de ensino pública e privada do Ceará, cobrava caro de quem queria lá estudar e meus pais eram de classe média rasteira. Ao contrário: vinha de um começo de primário muito bem feito no Grupo Escolar Visconde do Rio Branco onde fiz o jardim de infância, a alfabetização (foi a minha mãe que lá ensinava que me alfabetizou, um charme, não?) e o primeiro ano primário. Agora iria enfrentar o segundo ano, de farda azul e branco, todo orgulhoso de mim mesmo.

Quase todo dia, logo cedo de manhã e antes do início das aulas, cantávamos os hinos do Brasil e do colégio. Até hoje ressoa em meus ouvidos aquela saudosa canção, cuja letra sei de cor: "Mocidade do Colégio Marista, à sombra do estandarte de Maria...". A educação era de alta qualidade e o sistema disciplinar rigoroso, às vezes injusto. Nossas mestras eram carinhosas e colaborativas, mas sabiam torcer o pepino na hora certa. O tempo do latim e da palmatória já havia passado, mas a pesada carga horária de estudo, a árdua cobrança e as provas difíceis não eram brinquedo. O primário passou bem rápido, momento em que fiz amizades para toda uma vida. O ginásio nos aguardava, com mais desafios. Não temíamos o que viria, pois nosso lema, como no hino, era, "lutar e vencer".

Em 1973, na 4ª série ginasial, o colégio, que só tinha alunos, passou a operar em regime misto, razão da nossa súbita felicidade. As meninas passavam rindo e isso nos enchia de alegria. Foi quando conheci aquele que seria o professor que mais me marcou naquele tempo: Onélio Porto. Além de ensinar diversas disciplinas, era o mentor do Combinado nas Olimpíadas Champagnat e ainda tinha agenda para sair no Maracatu Ás de Ouro no Carnaval e cuidar do zoológico que existia na Cidade das Crianças. Nossos interesses, assim como as espinhas nas nossas caras, aumentaram: futebol, rock'n'roll e as meninas, entre outros. Tal como o primário, o ginásio voou. Agora a tarefa seria encarar o científico e se preparar para o vestibular. Queria ser engenheiro, o que acabei não sendo...

Biologia, Física, Matemática, Português, Química. Naquela época não havia prova de redação; todavia, se houvesse, não haveria problema. No 3º ano, o cursinho, tal como era chamado, entraram vários alunos do Colégio Militar. Em 1976, portanto há 50 anos, terminamos nossa passagem no colégio, sabidos e aplicados, porém ingênuos. Fiz o exame para ser aceito na Universidade Federal do Ceará (UFC). Fui aprovado para engenharia entre os primeiros. Depois prestei vestibular mais duas vezes e entrei na arquitetura, onde me achei. O resto é história. Minhas lembranças do colégio são doces e amargas, aquelas em muito maior número que estas. Ficam as marcas de uma formação bastante qualificada, e que até hoje me serve, e a da severa disciplina. Moldou-me tal como sou, por Deus, pela pátria e por Maria...

(*) Arquiteto e professor da UFC. Sócio do Instituto do Ceará. Colunista de O Povo.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 3/08/26. Vida & Arte. p.2.


quarta-feira, 2 de setembro de 2026

BIOGRAFIA DO MÉDICO ESCRITOR FLÁVIO LEITÃO

FRANCISCO FLÁVIO LEITÃO DE CARVALHO nasceu aos 21 de abril de 1939 em Fortaleza-CE. Filho de José Valdivino de Carvalho, professor e poeta, e Maria Adamir Leitão de Carvalho, pianista. Médico neurocirurgião, contista e memorialista cearense.

FORMAÇÃO E ATIVIDADE PROFISSIONAL

Graduado pela Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Ceará (UFC) (1959-1964). Realizou especialização em neurocirurgia no Hospital São Francisco, em Porto Alegre (1965-1966).

Fellow do Serviço de Neurocirurgia da Tufts New England Medical Center – Serviço do Prof. Dr. Bennett M. Stein. (1973). Mestre em Cirurgia pela UFC (1998-2000).

É professor adjunto aposentado da Faculdade de Medicina da UFC e médico aposentado do Hospital Geral de Fortaleza (HGF). Presidiu a Comissão de Ensino e Cultura do Corpo Clínico do HGF (1972).

OBRAS LITERÁRIAS

Participou das seguintes Antologias da Sobrames-CE: Esmeraldas (1993), Prescrições (1994), Amostra Grátis (1995), Recidivas (1998), Palpitações (2000), Anseios da Face (2002), Veia Poética (2004), Inspiração (2006), Queixa Principal (2007), Achado Casual (2008), Ressonâncias Literárias (2009), Receitas Literárias (2010), Passeata Literária (2011), Murmúrios Literários (2012), Letras que Curam (2013), Digno de Nota (2014), Ritmo Literário (2015), Semeando Cultura (2016), À Flor da Pele (2017), Lapso Temporal (2018), Pontos de Vista (2019), Sopro de Luz (2020), A Plenos Pulmões (2021), Limiar da Criação (2022), Lampejos da Memória (2023), Uso Profilático (2023) e Piscar de Olhos (2025).

Participou da Revista da Academia Cearense de Médicos Escritores: Nº 1 (2017), Nº 2 (2018), Nº 3 (2019), N° 4 (2020), N° 5 (2021), N° 6 (2022), N° 7 (2023), N° 8 (2024) e N° 9 (2025).

Outras Obras: História da Neurologia e da Neurocirurgia no Ceará (2009), Algumas Achegas à História da Neurologia Cearense. in: História da Neurologia no Brasil (Capítulo 11), Retórica de Circunstâncias (2016), Ventura de Gamalielzinho & Outros Contos (2016) e Tarcísio Leitão – Trajetória de um Coerente (2022).

AGREMIAÇÕES

Membro Titular da Sociedade Brasileira de Neurocirurgia (SBN); da Academia Brasileira de Neurocirurgia; da Sociedade Nordestina de Neurocirurgia (SNNC); da Sociedade Cearense de Neurologia e Neurocirurgia (SOCENNE); do Colégio Brasileiro de Cirurgiões; da Academia Cearense de Medicina (ACM); da Academia Cearense de Letras (ACL); da Academia Cearense de Médicos Escritores, (ACEMES, Fundador); Membro Titular e ex-presidente da Sociedade Brasileira de Médicos Escritores – Regional Ceará (Sobrames‐CE), da Academia Metropolitana de Letras de Fortaleza (AMLEF), da Academia de Letras e Artes do Nordeste (ALANE); Membro Correspondente da Academia Pernambucana de Medicina (2018). Membro Titular da Associação Brasileira de Bibliófilos (2012).

HOMENAGENS

Recebeu as seguintes Homenagens: Homenagem da SOCENNE por ter sido Membro Fundador; Homenagem da Sociedade Brasileira de Neurocirurgia, no seu 60º. aniversário – 2002; Troféu Coruja de Ouro pela SOCENNE (Sociedade Cearense de Neurologia e Neurocirurgia) – 2006; Troféu cinquentenário do I Congresso Brasileiro de Neurocirurgia – 2008; Distinção no Ensino Médico do Departamento de Cirurgia da Faculdade de Medicina da UFC – 2009; Homenagem Especial patroneada pelo NEAN (Núcleo de Estudos Acadêmicos em Neurocirurgia – 2010; Homenagem da Sociedade Nordestina de Neurocirurgia – 2013; Homenagem da Escola Municipal Prof. José Valdivino de Carvalho, Medalha Valdivino de Carvalho – 2014; Medalha do Mérito Ético-Profissional do CRM-CE – 2014; Homenagem do NEAN-UFC – 2015; Comenda do Mérito Médico do Curso de Medicina da Unifor – 2016; Homenagem da Sociedade Nordestina de Neurocirurgia Honra ao mérito condecorado com a medalha Dr. Rafael Rodrigues Holanda – 2017; Homenagem pela Academia Brasileira de Neurocirurgia – 2022; Medalha da Sociedade Brasileira de Neurocirurgia – 2022; Certificado de Gratidão – Refeitório São Vicente de Paulo das Irmãs de Caridade – 2023; e Emérito do Colégio Brasileiro de Cirurgiões.

Nota: Elaborada com base na postagem feita por Pedro Mendes, para o Projeto de Iniciação Artística intitulado “Perfis de médicos escritores do Ceará: incursões literárias e culturais” (Chamada Pública 82/2023 - Exercício 2024), sob orientação e revisão do Dr. Marcelo Gurgel, aprovado pela Pró-Reitoria de Extensão da Universidade Estadual do Ceará.

Acad. Marcelo Gurgel Carlos da Silva

Membro Titular da ACM, da ACEMES e da ACL


PESAR POR DR. FLÁVIO LEITÃO

É com imemso pesar que aqui registro o falecimento na noite de ontem, 1º de setembro de 2026, do Dr. FLÁVIO LEITÃO, médico neurocirurgião e membro de diversas confrarias profissionais e literárias cearenses.

Francisco Flávio Leitão de Carvalho nasceu em Fortaleza-CE, em 21/04/1939, filho de José Valdivino de Carvalho e Maria Adamir de Leitão de Carvalho.

Boa parte da sua formação escolar transcorreu no Seminário Arquidiocesano de Fortaleza, o afamado Seminário da Prainha, onde adquiriu muitos conhecimentos religiosos, filosóficos e literários e, também, absorveu qualidades morais que o levaram a pautar a sua existência observando e praticando as virtudes teologais.

Ingressou na Faculdade de Medicina da recém-criada Universidade Federal do Ceará (UFC) em 1959, concluindo o curso médico em 1964. Realizou Residência Médica em Neurologia e Neurocirurgia no Instituto de Neurocirurgia de Porto Alegre.

Sua atividade médica predominante foi realizada no Serviço de Neurocirurgia do Hospital Geral de Fortaleza e a de docência superior exercida na UFC, estando aposentado, como servidor público, de ambos os cargos.

Como católico, era um assíduo participante da Sociedade Médica Saõ Lucas, e ainda trabalhava, como médico voluntário, em um ambulatório para pessoas carentes ditigido por religiosas.

Casado, desde 1966, com Marimília Quevedo Esteves, deixa quatro filhos: Anamaria, Flávio Filho, André e Manuela.

Sinto intensamente por tão grande perda de um valoroso cidadão cearense, dotado de tantos predicados humanos, que, como médico, professor, escritor e outros relevantes atributos pessoais, muito contribuiu para o engrandecimento do Ceará.

Que Deus o acolha em Seus braços misericordiosos.

O corpo do Dr. Flávio Leitão será sendo velado, a partir das 8 horas de hoje, dia 2 de setembro de 2026, no Velatório Ternura, à Rua Pe. Valdivino, Nº 2.255. A missa de corpo presente será celebrada às 13h e, em seguida, seus despojos serão levados para sepultamento no Cemitério São João Batista.

Marcelo Gurgel Carlos da Silva

Da Sociedade Médica São Lucas


DJ Renatinha, Gonzagão e os livros

Por Izabel Gurgel (*)

Antes da última pandemia, a DJ Renatinha viajou com radiola e dois engradados de discos de vinil. Projeto "Long Play em Feiras e Romarias".

Em Juazeiro do Norte, radialistas subiram o Horto, levando discos para ouvir e conversar com ela. Em Canindé, cada fã de Roberto Carlos, mexendo nos discos, tinha pelo menos uma história coalhada de detalhes para contar para a DJ.

Na feira de Messejana, um adolescente se surpreendeu com Fiuk na capa de 'uma coisa tão antiga como aquela'. Era o pai do rapaz, Fábio Júnior, galã, galã na capa de um LP.

Na feira do Crato, a banca da DJ era perto da venda de farinha de mandioca dos irmãos Aniceto, da mais festejada banda cabaçal do Ceará.

Em Limoeiro do Norte, a filha do colecionador de música Osmar Onofre ficou in-vi-sí-vel por horas. Era o encontro de mestras e mestres da cultura tradicional popular e a banca da DJ parecia ter um ímã a atrair gente de todas as idades, de menos de oito a mais de oitenta. O lugar mais perto dela era depois de pencas de pessoas em rodas concêntricas, cada uma com sete vidas. Não arredaram pé. A brincadeira era pedir uma música e sair. Cadê que saía?

Quem não conhecia, queria saber como funcionava aquilo que aterrissara ali, direto de outro mundo. Lindo ver o mói de crianças de olhos arregalados, boca aberta e todo o interesse do mundo pelo que não conheciam. Conhecedores de LPs queriam fruir da presença da DJ, levá-la para outros terreiros, passear com ela mostrando o que ela mostrava, abrir velhos guarda-roupas cheios de discos doidos para serem ouvidos.

A banca-biblioteca sonora ambulante virou brinquedo. A quase dizer que valia por um parque de diversões todinho. Os discos rodando, rodando, passando de mão em mão, cada criatura contando do que lhe tocava, a bem dizer uma audiência sem ouvintes. Toda a gente dizia de si e de mundos.

No caminho, Pentecoste, Barbalha, outros lugares, e em cada parada uma cacimba de histórias parecia sair pela primeira vez para passear.

Ficou na memória a fila crescente, esticando, perto do museu-casarão-azul do Horto. Foi passando de boca em boca que, dentre os livros junto à banca da DJ, havia um que era botija desejada.

Peregrinação. Naquela manhã, todo tato do mundo se dedicou a apreciar "O Rei e o Baião", livro grande como bolo de tabuleiro. É um projeto contemplado pelo Ministério da Cultura via Fundo Nacional da Cultura e Instituto Brasileiro de Museus. Publicação da Fundação Athos Bulcão, Brasília, 2010. Organização: Bené Fonteles.

A foto da capa, do Seu (nosso) Chico Albuquerque (1917-2000), é Luiz Gonzaga (1912-1989) em preto e branco, estralando de vida, mais feliz do que sanfona chamando dança.

É livro de muitas vozes (textos, xilos, fotos, em ensaios encarte). Vou citar só duas, das professoras Elba Braga Ramalho e Sulamita Vieira, autoras também de publicações como "Luiz Gonzaga: a síntese poética e musical do sertão" e "Velhos Sanfoneiros".

Os livros cantam.

(*) Jornalista de O Povo.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 2/08/26. Vida & Arte, p.2.


terça-feira, 1 de setembro de 2026

Escritor potiguar lança romance histórico sobre o Nordeste do século XIX

O romance histórico "Dona Quitéria: A Senhora de Caraúbas" será lançado pelo escritor Italo Gurgel no dia 1º de setembro, no Ideal Clube, em Fortaleza

Trazendo um romance histórico situado entre o Ceará e o Rio Grande do Norte, o livro "Dona Quitéria: A Senhora de Caraúbas” será lançado pelo escritor Ítalo Gurgel no dia 1º de setembro, no Ideal Clube, em Fortaleza.

A história acontece no século XIX, passeando entre Aracati (CE) e Caraúbas (RN). A protagonista Quitéria, que se transfere para o então vilarejo de Caraúbas, passa a descobrir aspectos fortes e também sensíveis na sua vida.

"Em Caraúbas, Quitéria se projetou como liderança, tendo tido forte participação no crescimento do vilarejo e na sua emancipação. Muito generosa e religiosa, prestou ajuda essencial na construção da Igreja Matriz", conta Ítalo ao Vida&Arte.

Personagens e acontecimentos reais e fictícios dialogam na trama, que busca mostrar homens e mulheres do Nordeste como os principais operários na construção de um novo Brasil. Recriar costumes e vozes é um dos objetivos, preservando a cultura regional.

O romance tem capítulos independentes que narram, aos poucos, a história de Quitéria. Há ainda trechos que trazem enredos paralelos, abordando Caraúbas e outros de seus habitantes.

Inspirações para a obra

O autor do romance de 370 páginas é Italo Gurgel, jornalista, professor e poeta natural de Caraúbas. Conforme ele, "Dona Quitéria: A Senhora de Caraúbas” surgiu a partir dos registros que encontrou sobre a cidade.

Escritores como a cearense Rachel de Queiroz, o alagoano Graciliano Ramos e os paraibanos José Lins do Rego e José Américo de Almeida estão entre as inspirações para a obra e para o apreço pela cultura regional.

Em segundo plano, a pesquisa histórica exerceu influência para a escrita do livro. Ainda que seja um romance, a intenção sempre foi ter um caráter memorialístico.

"A narrativa tomou forma naturalmente. Nem sempre aquilo que é planejado pelo escritor se concretiza. Muitas vezes, é o personagem quem 'decide' o que vai acontecer na cena seguinte. O meu cuidado era não transgredir os parâmetros da verossimilhança, da plausibilidade, da coerência histórica", completa o escritor.

Lançamento de "Dona Quitéria: A Senhora de Caraúbas"

Quando: terça-feira, 1º, às 19 horas

Onde: Ideal Clube (av. Monsenhor Tabosa, 1381 - Meireles)

Valor: R$ 100

Fonte: Publicado In: O Povo, de 1º/09/26. Vida & Arte. p.2.


A CAVERNA DO DRAGÃO

Por Pedro Salgueiro, cronista de O Povo

Na minha "Crônica da Gentilândia", do livro "Fortaleza Voadora", digo que: "…o velho dragão Alcides Pinto sobrevoando as copas das árvores, com suas asas negras — quando ele se cansa de resmungar sozinho em sua caverna e sai para assustar os últimos bêbados da Gentilândia".

À sua casa corriam as mais diversas faunas literárias; escritores de várias idades, ideologias e estéticas, principalmente os mais jovens, que ficavam embevecidos com as atitudes despojadas, estridentes e loquazes do velho poeta.

Sua residência mais famosa foi a da Rua Rodrigues Junior, casa grande, sempre muito frequentada; ainda hoje muitos contam histórias e causos nem sempre verídicos, muitas fantasias e traquinagens ficaram no anedotário boêmio-intelectual dessa nossa loirinha desmiolada pelo sol, tão pródiga em tipos populares e bodes YoYôs, literários ou não.

Já o conheci na Vila Cordeiro, na Av. Tristão Gonçalves, bem próximo à vila onde ainda hoje mora minha mãe. Habitava uma casinha conjugada, numa pobreza franciscana mas digna, com sua querida filha Jamaica. Também conheci seu filho Antonin Artaud, um rapaz magro como o pai, porém de temperamento calmo, com uma timidez oposta à tagarelice do seu progenitor; também avistei algumas vezes sua bela filha Alessandra, que morava com a mãe.

Convivi por um bom tempo com o poeta (era meados dos anos 1990), através dele e de suas muitas visitas fiquei sabendo dos subterrâneos de nossa literatura, tão pródiga em fofocas e vaidades. Ali tive um curso intensivo de como transitar, e sair sem arranhões (embora eu não tenha tirado boas notas em algumas matérias) da famigerada guerrilha literária e suas disputas por farelos e migalhas.

Um dia me pediu para que organizasse seus contos, que estavam dispersos em um livro, "Editor de Insônias" (1965), e uma miscelânea, "Reflexões, terror, sobrenatural" (1984), além de alguns inéditos datilografados em gastas folhar amarelecidas. Em 1997, o Dr. Martins Filho publica essa edição de seus contos completos, "Editor de Insônias e outros contos", pela Coleção Alagadiço Novo.

Depois soube que ele andou criticando umas palavras que inseri como "Nota do Organizador", ou sugerindo que eu estava querendo aparecer às suas custas. Nunca passei recibo nem tomei satisfação, apenas me afastei um pouco de seu convívio. Depois disso ele sempre repetia para mim ou para alguns amigos: "Se não fosse você, o livro não teria saído", no que eu sempre respondia: "Pois não é, poeta. Quem sabe se um dia a gente não tira uma 2ª edição, não é mesmo!?". No seu último livro tem um poema dedicado a mim (quem sabe ainda resquício de uma consciência pesada) e a Nilto Maciel, a quem levei, depois da volta definitiva deste ao Ceará, à sua casa e anunciei alto da porta:

"— Poeta, tô aqui com o maior contista do Ceará!", no que ele perguntou lá de dentro: "— Quem, poeta, o Airton Monte?", acabando de vestir as calças; caímos na gargalhada.

A última vez que o vi ele estava saindo da sua vilinha com a Jamaica, cumprimentei-o e ele me perguntou onde era o "Buraco da Gia", pois estava querendo arranjar uma empregada e lhe deram um endereço, falei que era na Princesa Isabel, vizinho à minha casa, e fomos caminhando devagar. Quando chegou perto do beco ele parou, receoso, e disse que só entraria lá se eu fosse com eles, depois puxou uma pequena faca de mesa, dessas de cortar bife, e disse que estava preparado (mas que era bom eu entrar com ele, disse assombrado). Olhei para Jamaica, que também estava rindo, e disse que não tivesse receio que ali só morava gente de bem, e me despedi alegando ainda ir pegar minha filhinha no colégio.

Não tive coragem de ir vê-lo em seu velório na Academia Cearense de Letras. Queria ficar com a lembrança dele vivo, alegre e brincalhão, sempre contando lorotas.

E, ainda hoje, quando alguém se refere a ele, vejo algum dos seus livros ou passo em frente à Vila cordeiro, parece que estou vendo aquele sujeito magro ("tão magro que parecia estar sempre de perfil", como bem disse, em seu "A Guerra do Fim do Mundo", Vargas Llosa), com sua gargalhada espalhafatosa mas sempre sincera, dizendo — e apontando pra si mesmo — para os muitos anjinhos (ou demoninhos, tanto faz) que lhe cercam em algazarra:

"— Agora quem manda aqui é esse poeta 'Viadão Pós-Moderno'!"

"Eu sou aquele que come as flores do aniversário."

(José Alcides Pinto, 10/09/1923 — 03/06/2008)

Fonte: O POVO, de 24/07/2026. Coluna “Crônicas”, de Pedro Salgueiro. p.2.


segunda-feira, 31 de agosto de 2026

Lavagem nasal não causa mastoidite

Por Daniel Pinheiro (*)

O recente internamento de um comunicador cearense  por mastoidite aguda despertou preocupação e gerou um debate nas redes sociais. Como ele relatou ter realizado uma lavagem nasal antes do início dos sintomas, muitas pessoas passaram a estabelecer uma relação direta entre o procedimento e a doença. Essa associação, entretanto, não encontra respaldo nas evidências científicas.

A mastoidite é uma infecção do osso localizado atrás da orelha, a mastoide, e quase sempre representa uma complicação de uma otite média aguda. Embora hoje seja incomum graças ao uso dos antibióticos, continua sendo uma condição potencialmente grave, capaz de provocar perda auditiva, meningite e outras complicações quando o tratamento é retardado.

É importante esclarecer: a lavagem nasal com soro fisiológico não causa mastoidite. Pelo contrário, ela é recomendada pelas principais sociedades médicas para o tratamento da rinite e da rinossinusite. Quando realizada corretamente, melhora o funcionamento da mucosa nasal, facilita a eliminação de secreções e pode, inclusive, reduzir a ocorrência de otites, especialmente em crianças.

Como qualquer procedimento, entretanto, exige técnica adequada. O uso de pressão excessiva, principalmente durante episódios de intensa congestão nasal, pode provocar desconforto nos ouvidos e, em situações específicas, favorecer a passagem de secreções para a tuba auditiva. Se houver uma infecção respiratória em curso, isso pode contribuir para o aparecimento de uma otite. A mastoidite, quando ocorre, decorre da evolução dessa infecção do ouvido - não da lavagem nasal.

Criar uma relação de causa e efeito entre a irrigação nasal e a mastoidite pode produzir um efeito indesejado: afastar pacientes de um tratamento simples, seguro e eficaz por medo de uma complicação extremamente rara.

Mais do que procurar culpados, este caso deve servir para reafirmar o valor da informação baseada em evidências. Em tempos de conclusões apressadas, a ciência continua sendo o caminho mais seguro para orientar decisões que envolvem a saúde. Afinal, informação de qualidade também salva vidas.

(*) Médico otorrinolaringologista.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 24/07/2026. Opinião. p.18.


domingo, 30 de agosto de 2026

Causo Médico: A EQUIPE DE DISSECAÇÃO MATRIARCAL

Mesmo tendo decorrido mais de meio século, também temos boas recordações dos saudosos tempos da disciplina de Anatomia Humana, que bem merecem ser compartilhadas.

Valemo-nos aqui para trazer uma lembrança de nossa equipe de dissecação ao tempo em cursávamos a disciplina de Anatomia Humana do Curso de Medicina da Universidade Federal do Ceará (UFC) em 1973.1. Éramos Maria Edsoni Guerra Bezerra, Myria do Egyto Vieira de Sousa, Marcos Sandro Fernandes de Vasconcelos, Marcus Davis Machado Braga e Marcelo Gurgel Carlos da Silva.

Formávamos uma equipe que se diferenciava das demais, pois era a única “matriarcal”: as duas acadêmicas dissecavam o cadáver enquanto os rapazes davam o “apoio moral”, somente cuidando da leitura do livro-texto do Gardner e da visualização do Atlas de Anatomia do Gardner, cabendo as duas, seguindo o manual da dissecção, manejar pinças, bisturis e tesouras.

Recordamos que houve um dia em que as colegas Edsoni e Myria, talvez se sentindo exploradas pelos seus companheiros de equipe, decidiram cruzar os braços para que assumíssemos a dissecação, desprezando a nossa tentativa de convencimento de que elas gozariam da regalia do treinamento que “grosso modo” seria sonegada às acadêmicas de outras equipes.

Foi um horror para os três marmanjos, que pouco rendiam na exploração do corpo humano inerte, o que fez com que as duas estudantes se apiedassem dos viris mancebos e retomassem à prática de desbravar o estudo que nos foi legado por Andreas Vesalius, um seguidor de Aulus Cornelius Celsus, autor De Re Medica, após um longo período de obscurantismo da história da humanidade em que se vedava o exame dos corpos de pessoas falecidas.

Marcelo Gurgel Carlos da Silva

Sócio jubilado da Associação Médica Cearense

* Extraído de SILVA, Marcelo Gurgel Carlos da. Medicina da UFC 1977-2022: 45 anos de formatura da Turma Prof. José Carlos Ribeiro. Fortaleza: Edição do autor, 2022. 160p. p.90.

* Republicado In: SILVA, M.G.C. da. Causo médico: a equipe de dissecação matriarcal. Revista AMC (Associação Médica Cearense). Fevereiro de 2025 - Edição n.41. p.6-7. (online).


Encontrar Deus nas pequenas coisas: o legado de Santo Inácio

Por Pe. Eugênio Pacelli SJ (*)

No dia 31 de julho, a Igreja celebra Santo Inácio de Loyola, fundador da Companhia de Jesus e um dos maiores mestres da espiritualidade cristã. Diferentemente do que fazemos ao comemorar aniversários, a liturgia recorda o dia de sua páscoa definitiva, sua entrada na vida eterna. Mais do que recordar uma data, celebramos o testemunho de uma vida que continua iluminando pessoas em busca de sentido.

Vivemos um tempo marcado pela velocidade, pela hiperconectividade e pela dificuldade de permanecer em silêncio. Somos constantemente estimulados a produzir, responder e consumir, mas pouco ensinados a contemplar. É justamente nesse cenário que a espiritualidade inaciana revela toda a sua atualidade. Santo Inácio nos convida a desacelerar, a discernir e a reconhecer que Deus continua presente na simplicidade da vida.

Seu ensinamento mais conhecido, "encontrar Deus em todas as coisas", é um verdadeiro caminho de transformação. Deus não se manifesta apenas em acontecimentos extraordinários ou em momentos de intensa emoção religiosa. Ele também está na mesa compartilhada em família, no trabalho realizado com honestidade, no gesto de perdão, na escuta atenta, na contemplação da natureza e no cuidado com o outro.

Essa espiritualidade torna-se necessária dentro das famílias. Em meio às telas, às agendas cheias e à convivência cada vez mais apressada, corremos o risco de estarmos fisicamente próximos, mas emocionalmente distantes. Santo Inácio nos recorda que a presença é uma forma de amor e que Deus costuma falar nos espaços onde existe atenção, escuta e disponibilidade interior.

Pausa não representa perda de tempo, mas exercício de sabedoria. Quando silenciamos o coração, reorganizamos os afetos e recuperamos a capacidade de perceber a presença amorosa de Deus no cotidiano. Essa também é a inspiração de Tempo de Pausa e Calma: recordar que a serenidade nasce da confiança em Deus e da disposição de viver cada instante com profundidade.

Celebrar Santo Inácio é renovar esse convite. Em um mundo fascinado pelo extraordinário, talvez a maior revolução espiritual seja aprender a reconhecer Deus nas pequenas coisas.

(*) Sacerdote jesuíta e mestre em Teologia. Escritor. Diretor do Mosteiro dos Jesuítas de Baturité e do Polo Santo Inácio. Fundador do Movimento Amare.

Fonte: O Povo, de 25/07/2026. Opinião. p.22.


sábado, 29 de agosto de 2026

Evento literário comemorativo dos 85 anos do Sindicato dos Médicos do Ceará

O Sindicato dos Médicos do Ceará (Simec), como um momento muito especial dentro das celebrações de seus 85 anos de história, realizou no Piazza Aldeota, na noite de ontem, 28 de agosto de 2026, o lançamento da obra "Escritos e prescritos: as mãos que curam também escrevem".

Trata-se de um livro, organizado por Vanessa Gomes de Moraes e impresso na Expressão Gráfica, que reúne textos de médicos autores e celebra a sensibilidade, a cultura e a riqueza da produção literária da classe médica.

Dessa antologia literária, participam 20 (vinte) autores, dos quais sete (Edmar Fernandes, Fernando Furtado, Luiz Barbosa, Fernando Melo. Francisco Eleutério, Marcelo Gurgel e Maria Sidneuma) são sócios da Sociedade Brasileira de Médicos Escritores – Regional Ceará (Sobrames-CE), sendo os quatro últimos mencionados, também, membros titulares da Academia Cearense de Médicos Escritores (Acemes).

Tomei parte dessa obra, publicando o texto: “Nossos elóquios acadêmicos” In: Sindicato dos Médicos do Ceará. Fortaleza: Simec/Expressão, 2026. 144p. p.88-91.

Congratulações merecidas cabem à atual diretoria do Simec e, especialmente, ao seu presidente Edmar Fernandes de Araújo Filho, por tão louvável iniciativa no da cultura.

Dr. Marcelo Gurgel Carlos da Silva

Membro da Sobrames-CE e da Acemes


Sob o manto da mãe do Carmelo

Por Pe. Reginaldo Manzotti (*)

Há amores que o tempo não apaga. Há experiências de Deus que marcam a alma para sempre. E há devoções que se tornam morada permanente dentro do coração sacerdotal. Assim é minha relação com Nossa Senhora do Carmo.

Sou padre, filho do Carmelo por vocação e amor, hoje diocesano pois a Providência me conduziu pelos caminhos da Igreja e me confiou uma missão diferente daquela que um dia imaginei viver. Contudo, existe algo que nunca deixei para trás: meu amor profundo pela Mãe do Carmelo. Ainda carrego no peito o santo escapulário, ainda me emociono ao ouvir os antigos cantos carmelitas, ainda sinto o perfume espiritual do Carmelo cada vez que pronuncio o nome daquela que sempre considerei minha Mãe, minha Rainha e minha Protetora.

Meu sacerdócio foi consagrado a ela, a Obra Evangelizar é Preciso a tem como Madrinha. E, enquanto eu tiver voz, falarei da beleza da força do escapulário e da ternura da Virgem Santíssima.

Foi Ela quem me tomou pela mão nos dias de prova e quem me conduziu à fonte da compaixão sacerdotal. Ao celebrarmos sua festa, quero partilhar um pouco desse afeto e da graça que recebi, para que outros também encontrem refúgio no manto da Mãe do Carmelo.

Quantas vezes, nos momentos difíceis do meu ministério, segurei o escapulário e rezei em silêncio! Quantas vezes senti que a Virgem do Carmo me sustentava quando minhas forças humanas já não bastavam!

E posso testemunhar: Maria jamais abandona os filhos que a ela se consagram.

Existe uma razão ainda mais profunda pela qual prometi anunciar a Mãe do Carmelo por onde eu passar.

Num tempo de angústia, minha família passou por uma provação, com um diagnóstico de câncer. Foi então que recorri à Mãe do Carmelo e pedi pela minha irmã. Não como padre. Não como alguém forte. Mas como um filho necessitado do colo da mãe. Em oração, clamei à Mãe do Carmo com a simplicidade de quem confia tudo à Sua Mãe. Foi nessa confiança que vi brotar a graça da cura. Não nego a ação dos tratamentos; porém, para nós, aquele restabelecimento teve o caráter de um milagre, uma luz que revelou a presença materna de Maria em meio à nossa dor.

Diante dessa graça intensifiquei minha promessa: por onde eu for, proclamarei o amor de Nossa Senhora do Carmo e recomendarei o escapulário como sinal de consagração e proteção.

Muitas vezes, vejo pessoas usando o Escapulário do Carmo como se fosse um "patuá", ou um simples ornamento. Meus filhos e filhas, o Catecismo da Igreja Católica nos ensina no parágrafo que a religiosidade popular, como o uso de sacramentais, deve ser uma extensão da vida litúrgica da Igreja (cf. CIC 1674).

O Escapulário é um Sacramental. Diz o Catecismo: "Os sacramentais não conferem a graça do Espírito Santo à maneira dos sacramentos; mas, pela oração da Igreja, preparam para receber a graça e dispõem para cooperar com ela." CIC (1670).

Quando você coloca o Escapulário, você está dizendo: "Maria, eu sou Teu". É como se você estivesse vestindo a "farda" da Rainha. E uma Rainha nunca deixa um soldado Seu desamparado no meio da batalha.

Por isso, reforço: o escapulário do Carmelo não é um amuleto, mas um sacramental que nos recorda nossa pertença a Cristo por Maria; é chamado à conversão diária, à oração e à perseverança. Vestir-se do escapulário é vestir-se da confiança filial que nos impele a viver segundo o Evangelho.

Nossa Senhora do Carmo nos ensina a contemplação ativa: juntar a oração ao serviço, o recolhimento à caridade, o silêncio à palavra que consola. Ela não é um fim em si mesma, mas a estrada segura que nos leva ao Filho. No Carmelo aprendi que todo gesto mariano deve desembocar no mistério pascal de Cristo - e foi essa verdade que quis levar comigo ao me tornar padre diocesano.

Convido vocês a entregar a vida a Maria: confiar-lhe as angústias, entregar aos cuidados da Mãe, sua casa. Colocar no peito o escapulário como lembrete de uma filial pertença. Quem se entrega verdadeiramente a Maria jamais caminha sozinho.

Que a Mãe do Carmelo, a Virgem que acompanha os passos dos seus filhos, interceda por nós e nos conduza sempre mais perto do seu Filho Jesus.

(*) Fundador e presidente da Associação Evangelizar é Preciso e pároco reitor do Santuário Nossa Senhora de Guadalupe, em Curitiba (PR).

Fonte: O Povo, de 11/07/2026. Opinião. p.22.


sexta-feira, 28 de agosto de 2026

Crônica: A colega doutora ... e outros causos

A colega doutora

Gente boa o Neto, homem de bem com quem é bom estar. Servidor e simpático, sóbrio é esse sujeito maravilhoso; lasca quando toma umas pôde a mais, aí é boneco federal, o que não inibe em absoluto a percepção que dele temos acerca do reconhecido valor humano. Sucede que o amigo, de poucas letras, aprontou de novo e foi chamado a responder processo, aberto pela própria esposa em momento de justificável aperreio.

E já está ele diante da juíza - audiência remota. A competente advogada dá as devidas orientações, no sentido de seu cliente tratar com "respeito e educação a digníssima juíza". Que use termos condizentes, mantenha a calma e responda apenas o que for perguntado. Mas vemos um Neto tenso, em risco de baldear o juízo e botar a causa a perder.

A advogada, cautelosa, reforça:

— Ao dirigir-se à meritíssima juíza, chame-a de doutora! Ou de excelência! Ouviu, Neto?

— Na hora, dona Maria!

Final da audiência e a douta juíza prolata:

— Sr. Francisco Neto, pelo que vejo, o senhor, réu primário, não é pessoa má, apenas mais uma vítima do álcool. Por isso, sua pena será a prestação de serviços comunitários.

— Obrigado, colega!!! Maravilha, colega!!!

Juíza ouviu os "colegas" e se riu, entendendo o contexto. Pediu maternal:

— Aproveite (o serviço comunitário) que é numa escola e estude. Seja decente e brilhe!

— Eita, dotorinha! A senhora é só o mí disbuiado!

Ô, taria!

Clarice é esperta. Cinco aninhos e, ouvidos atentos, sabe muito bem o que dizem em derredor, escutando com perfeição a coisa proferida. Estamos na casa da avó Dijé que, na sala, assiste às arrumações do marido-vovô em brincadeiras ingênuas com a netinharada ("calango na parede", "João atrepa", "carrapicho"). Lá pelas tantas, Dijé solta a forma foneticamente reduzida da palavra que, em seu uso informal, é utilizada para descrever bagunça, injustiça, diversão, fulerage, cachorrada...

— Ô taria!!!

Clarice, vigilante, vai até onde está Dijé e, professoral, corrige.

— Vó!!! Não é "taria"! É putaria! Aprende!

Fé muita, fé demais!

Primeiro ano de namoro do casal e Leléo leva Madinha pra passar final de semana na casa dos pais. Domingo bem cedo, é praxe, o jovem sai para o grupo de oração. Madinha fica, entabulando boa conversa com a cunhada. 10 horas da manhã e a moça sente cólicas - vontade urgente e súbita de evacuar. Corre em busca do banheiro. De lá, liga encabulada pro namorado; ele, absorto no culto, "pedindo, agradecendo e louvando o Senhor", não ouve a chamada. Uma, duas, três tentativas... Até que deu certo.

— Oi, amor! Jesus contigo!

— Para, Leléo! O negócio aqui fedeu! Fala baixo! Não volte pra casa sem um...

— ... sem um bocado de louvores abençoados pra te embalar, nunquinha!!!

— Não, Leléo! Não volte sem um desentupidor, o sanitário entalou! Tô no banheiro da sala, traga sem fazer enxame!

Largando vexado o culto, ele compra o desentupidor e, provando que o Senhor lhe tocou o coração, um buquê de rosas. Em casa, Evangelho de João palpitando ainda, entrega a "ferramenta de limpeza de desobstruir vasos sanitários" e as flores, murmurando discreto, na porta entreaberta do banheiro.

— Madinha, na casa de meu Pai há muitas moradas!

— É? Então por que justamente na sua a privada enguiçou? Hein? Me fala!

Fonte: O POVO, de 17/07/2026. Coluna “Crônicas”, de Tarcísio Matos. p.2.


 

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