Descrito pela família como dedicado ao próximo, Flávio
Leitão conciliou a carreira médica com a literatura, a fé e a atuação em
entidades profissionais
Resumo
Faleceu
o médico e neurocirurgião Francisco Flávio Leitão de Carvalho aos 87 anos.
Foi
pioneiro em técnicas neurocirúrgicas no Ceará e conselheiro do CRM-CE.
Também
atuou como escritor, integrando a Academia Cearense de Letras.
Era
conhecido pela generosidade e compromisso com os pacientes.
Seu
velório e missa ocorrem em Fortaleza no dia 2 de setembro.
Morreu aos 87 anos o médico e neurocirurgião Francisco
Flávio Leitão de Carvalho, figura de destaque na Medicina e na literatura
cearenses. Segundo familiares, ele morreu nesta terça-feira, 1º de setembro, em
Fortaleza, após um período de doença e de cuidados paliativos nos últimos dias.
Ao longo da carreira, Flávio Leitão teve atuação ligada à
modernização da neurocirurgia no Ceará. Segundo o filho, Flávio Leitão
Filho, o médico foi responsável por introduzir no Estado técnicas
neurocirúrgicas que ainda não eram realizadas na região.
“Ele foi o introdutor
aqui no Ceará de grandes técnicas neurocirúrgicas. Ele inovou a neurocirurgia
do estado do Ceará”, relatou o filho. A
atuação profissional também o levou a ocupar funções em entidades
representativas da Medicina, incluindo o Conselho Regional de Medicina do Ceará
(CRM-CE), do qual foi conselheiro.
A trajetória institucional se estendeu às entidades
especializadas. Conforme o filho, Flávio Leitão participou da criação da
Sociedade Nordestina de Neurocirurgia e presidiu a Sociedade Cearense de
Neurologia e Neurocirurgia. Também esteve à frente de um congresso da Sociedade
Brasileira de Neurocirurgia.
Flávio Leitão: Medicina como compromisso
Para a sobrinha Júlia Lopes, a atuação profissional do
tio era acompanhada por uma relação próxima com os pacientes e por uma
disposição permanente para atender quem precisava. Ela o descreve como um médico
generoso e disponível, especialmente em uma área marcada pela complexidade
e pelo alto custo dos procedimentos.
“Ele foi um médico
assim muito querido pelas pessoas, atuou de uma forma muito generosa. Sempre
teve disponibilidade para atender quem precisava”,
afirmou.
A preocupação com a formação e a atualização profissional
também aparece na memória deixada pela família. Segundo Flávio Leitão Filho, o
pai entendia a Medicina como uma atividade que exigia aprendizado contínuo e
participação ativa na construção da especialidade.
Da medicina à literatura
A atuação de Flávio Leitão, porém, não ficou restrita aos
hospitais e às entidades médicas. Nos últimos anos da vida, o neurocirurgião
passou a se dedicar à literatura, especialmente à produção de contos.
O interesse pela escrita o levou à Academia Cearense de
Letras (ACL). Flávio Leitão tomou posse como integrante da instituição em 10 de
janeiro de 2017. Para o filho, a entrada na Academia representou uma das
últimas grandes conquistas da trajetória do pai.
Além da produção de contos, o médico escreveu sobre a
própria história familiar. Entre seus trabalhos está um livro dedicado à
trajetória do irmão mais velho, Tarcísio Leitão, advogado trabalhista e
ex-vereador de Fortaleza que teve o mandato cassado após o golpe militar de
1964.
Família e formação
A história de Flávio Leitão também esteve ligada a uma
família com diferentes trajetórias na Medicina, na política e na advocacia.
O irmão mais velho, Tarcísio Leitão, teve atuação política e jurídica, enquanto
Vicente Leitão, outro irmão, seguiu a neurologia.
Antes de ingressar na Medicina, Flávio Leitão chegou a
ser seminarista. Segundo o filho, permaneceu no seminário entre os 10 e os 14
anos, mas decidiu abandonar a formação religiosa por sentir falta da família.
Posteriormente, ingressou no curso de Medicina e se especializou em
neurocirurgia.
Na vida familiar, foi casado com Maria Emília Esteves de
Carvalho. O casal teve quatro filhos: Ana Maria, Flávio, André e Manuela. A
família também cresceu com a chegada de cinco netos: Eleazar Filho, Flávia,
José Neto, Letícia e Maria Teresa.
Fé e humanismo
A dimensão religiosa era outra característica destacada
pelos familiares. Segundo Júlia Lopes, Flávio Leitão era um católico
fervoroso e mantinha uma relação próxima com a Igreja, influência que vinha
também da família.
A religiosidade, porém, não era colocada como condição
para suas relações. A sobrinha destaca que ele mantinha uma postura de
compreensão diante de pessoas com diferentes crenças e escolhas religiosas.
Para o filho, a característica mais marcante do pai era
justamente a preocupação com o outro. Mesmo durante os últimos dias, quando já
recebia cuidados paliativos, Flávio Leitão teria demonstrado preocupação em não
provocar sofrimento adicional na família.
Flávio Leitão Filho conta que, quando perguntado por
familiares sobre possíveis dores, o pai procurava tranquilizá-los. Também
costumava repetir uma frase relacionada ao luto: “Está na Bíblia que você só pode chorar os seus mortos por
três dias”.
“Realmente o negócio
dele era pensar no próximo. Essa era a coisa mais marcante do papai”, afirmou.
Despedida
O velório de Flávio Leitão será realizado nesta
quarta-feira, 2 de setembro, a partir das 8 horas, na Funerária Ternura, em
Fortaleza. A missa está marcada para as 15h30min, no mesmo local, conforme
informado pela família.
Para os filhos, a despedida é também um momento de
reconhecer a trajetória construída pelo médico, escritor e pai. Em nome dos
irmãos, Flávio Leitão Filho agradeceu pela convivência com o pai e afirmou que
a família pretende manter os valores que ele defendia.
“Nós agradecemos muito
ao bom e generoso Deus por ter nos dado de presente, como pai, o Doutor
Francisco Flávio Leitão de Carvalho”,
declarou.
Aos familiares, fica a lembrança de um homem cuja
trajetória atravessou diferentes campos — da neurocirurgia à literatura, da
atuação institucional à vida familiar — e que, segundo eles, manteve como
princípio central o compromisso com o próximo.
Fonte: O Povo, de
3/09/26. Farol. p.3 (nota reduzida assinada por jornalista Caynã Marques). Versão
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