Por
Izabel Gurgel (*)
Seu Miguel, minha melhor fonte de sapotis
na Cidade. Tem banca à esquerda da porta da Leão do Sul, na Praça do Ferreira,
de segunda a sábado.
Na praça, dar-se conta que o São Luiz não
virou estacionamento, igreja ou loja de produtos cada vez mais desqualificados.
Festejar o feito. Sentir a incidência de política pública sobre a vida da
gente. Sentar no térreo e, antes de começar o programa da vez, voltar ao
primeiro filme visto ali, nos altos: "Quando o coração bate mais
forte". Cada qual guarda como pode uma caixinha de primeiras
vezes.
No Centro, em direção à praça ou dela
saindo, ir pelo antigo Beco, atual rua do Pocinho, só fruindo da brisa, Anarina.
E apreciar o céu entre o Palácio Progresso de um lado e a coluna de cubos
vermelhos do outro plantadinha pelo escultor Sérvulo Esmeraldo (1929-2017).
"Olha pro céu, meu amor". O térreo externo do Palácio do Progresso é
um elogio ao vento. Fica à beira do Pajeú, que um dia poderá voltar como
referência de vida, feito o São Luiz. O projeto do prédio (1964-1969) é do
prof. Liberal de Castro (1926-2022). Anos depois, a pedido de Cláudio Pereira,
então presidente da Fundação Cultural de Fortaleza, o professor sugere 13 de
abril para data de aniversário da Cidade. Ao contar por escrito sobre a
sugestão, diz: "a cidade é uma dádiva do vento".
No Centro, no alto de ruas como a Senador
Pompeu ou Barão do Rio Branco, ver o mar ao tempo da surpresa do vento. Pode-se
ampliar a sensação saindo da capela da Santa Casa de Misericórdia, na calçada,
conspirar por um segundo sobre ter mais árvores no meio do nosso mundo, como o
pedaço sobrevivente do Passeio Público. Passa em frente ao Passeio o ônibus
para a Floresta. É a linha 106.
Imenso Liberal de Castro, das iniciativas,
nos anos de 1960, de tombamentos da Casa de José de Alencar e do Theatro José
de Alencar. Integrada à UFC, a Casa guarda o nosso mais precioso acervo de
rendas. Conspiração em curso: levar rendeiras dos quatro cantos do Ceará para
conhecer as coleções que elas podem ampliar com suas histórias e trabalhos. Uma
escola de apreciação do fio da vida feito poesia tátil. Conhece? Já esteve lá?
O TJA, flor do algodão em renda de ferro
prêt-à-porter, tem uma singularidade no desenho. Do palco dá pra ver a rua, o
lugar mais importante de uma cidade (repito Leminski). Um teatro banhado de
sol, desde a reabertura em janeiro de 1991, depois do segundo restauro
integral, tem quase todos os espaços experimentados com uso cênico, para
apresentações artísticas. À espera de um restauro, é como as mais finas joias:
só têm sentido se forem usadas. São nossos usos que o mantém. Assim como não é
possível hoje pensar o TJA sem o jardim de um lado e o prédio anexo do outro,
não dá para separar teatro e praça. Silêda Franklin chama de ciclorama verde a
cascata de thumbergia no jardim. Natureza é cultura.
A graça das joias, penso eu, é o uso
público. Como faz o maracatu Rei de Paus. Esplende. Na rua.
(*) Jornalista de O Povo.
Fonte: Publicado In: O Povo, de 1/03/26. Vida & Arte, p.2.

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