quinta-feira, 2 de abril de 2026

JOIAS DA FORTALEZA DE 300 ANOS

Por Izabel Gurgel (*)

Seu Miguel, minha melhor fonte de sapotis na Cidade. Tem banca à esquerda da porta da Leão do Sul, na Praça do Ferreira, de segunda a sábado.

Na praça, dar-se conta que o São Luiz não virou estacionamento, igreja ou loja de produtos cada vez mais desqualificados. Festejar o feito. Sentir a incidência de política pública sobre a vida da gente. Sentar no térreo e, antes de começar o programa da vez, voltar ao primeiro filme visto ali, nos altos: "Quando o coração bate mais forte". Cada qual guarda como pode uma caixinha de primeiras vezes.

No Centro, em direção à praça ou dela saindo, ir pelo antigo Beco, atual rua do Pocinho, só fruindo da brisa, Anarina. E apreciar o céu entre o Palácio Progresso de um lado e a coluna de cubos vermelhos do outro plantadinha pelo escultor Sérvulo Esmeraldo (1929-2017). "Olha pro céu, meu amor". O térreo externo do Palácio do Progresso é um elogio ao vento. Fica à beira do Pajeú, que um dia poderá voltar como referência de vida, feito o São Luiz. O projeto do prédio (1964-1969) é do prof. Liberal de Castro (1926-2022). Anos depois, a pedido de Cláudio Pereira, então presidente da Fundação Cultural de Fortaleza, o professor sugere 13 de abril para data de aniversário da Cidade. Ao contar por escrito sobre a sugestão, diz: "a cidade é uma dádiva do vento".

No Centro, no alto de ruas como a Senador Pompeu ou Barão do Rio Branco, ver o mar ao tempo da surpresa do vento. Pode-se ampliar a sensação saindo da capela da Santa Casa de Misericórdia, na calçada, conspirar por um segundo sobre ter mais árvores no meio do nosso mundo, como o pedaço sobrevivente do Passeio Público. Passa em frente ao Passeio o ônibus para a Floresta. É a linha 106.

Imenso Liberal de Castro, das iniciativas, nos anos de 1960, de tombamentos da Casa de José de Alencar e do Theatro José de Alencar. Integrada à UFC, a Casa guarda o nosso mais precioso acervo de rendas. Conspiração em curso: levar rendeiras dos quatro cantos do Ceará para conhecer as coleções que elas podem ampliar com suas histórias e trabalhos. Uma escola de apreciação do fio da vida feito poesia tátil. Conhece? Já esteve lá?

O TJA, flor do algodão em renda de ferro prêt-à-porter, tem uma singularidade no desenho. Do palco dá pra ver a rua, o lugar mais importante de uma cidade (repito Leminski). Um teatro banhado de sol, desde a reabertura em janeiro de 1991, depois do segundo restauro integral, tem quase todos os espaços experimentados com uso cênico, para apresentações artísticas. À espera de um restauro, é como as mais finas joias: só têm sentido se forem usadas. São nossos usos que o mantém. Assim como não é possível hoje pensar o TJA sem o jardim de um lado e o prédio anexo do outro, não dá para separar teatro e praça. Silêda Franklin chama de ciclorama verde a cascata de thumbergia no jardim. Natureza é cultura.

A graça das joias, penso eu, é o uso público. Como faz o maracatu Rei de Paus. Esplende. Na rua.

(*) Jornalista de O Povo.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 1/03/26. Vida & Arte, p.2.

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