sexta-feira, 4 de abril de 2025

BIENAL DO LIVRO: mais acesso à leitura

Tem início, nesta sexta, dia 4, a XV Bienal Internacional do Livro do Ceará, um evento cultural esperado no Estado por quem admira a literatura, em suas diversas instâncias e variados gêneros e formatos, e por quem participa de alguma forma do cenário literário. Nesta edição, a Bienal chama a atenção para a resistência feminina na literatura e apresenta como tema "Das fogueiras ao fogo das palavras: mulheres, resistência e literatura".

O evento se estende até o dia 13 de abril no Centro de Eventos do Ceará, em Fortaleza. A curadoria, a propósito, é toda feminina, composta por Sarah Diva Ipiranga, nina rizzi, Amara Moira e Trudruá Dorrico, sob a coordenação geral de Maura Isidório. Cada uma, a seu modo, contribui para as vivências e as pesquisas na literatura, nas artes e na cultura em geral. A ideia é celebrar, na edição 2025 da Bienal, a literatura como ferramenta de emancipação e protagonismo feminino.

A cada edição, a Bienal apresenta uma programação diversa e inclusiva, com acesso gratuito ao público, tendo como norte ajudar na democratização do acesso à leitura e à literatura. Espera-se que cada um que vá ao local aproveite uma parte dessa programação, fazendo, desse modo, com que a pluralidade de vozes e vivências culturais ofereça uma experiência cultural ampla e diversa.

Participar de um evento como esse, que oferece aos visitantes um leque heterogêneo de atrações literárias e artísticas significa manter um contato direto e forte com diferentes linguagens e formatos. É assim que a cultura se molda, a partir de vários olhares, mãos e texturas. Na programação deste ano, o público poderá participar de palestras, mesas-redondas, conferências, oficinas, contações de histórias, lançamentos de livros e outros eventos literários. Também poderá conferir apresentações de artistas com reconhecimento no Ceará, no Brasil e no mundo.

O POVO e a Fundação Demócrito Rocha (FDR) estarão na Bienal com estande à disposição para visita do público que se sinta atraído por conhecer mais dos conteúdos produzidos e que queira experimentar a leitura de formatos diversos. Assim, a Bienal receberá a Casa Vida & Arte, que abraça as ações celebrativas aos 40 anos da Fundação Demócrito Rocha (FDR), os lançamentos e os livros das Edições Demócrito Rocha (EDR) e uma programação do Vida & Arte (caderno de cultura do O POVO) e do O POVO. Almeja-se reencontrar com o público ao unir jornalismo e literatura.

Ao garantir o acesso à leitura, promovem-se momentos de diálogo e compartilhamento de experiências. É crucial à educação e à consciência crítica esse contato mais próximo com a literatura. Que a Bienal seja uma ferramenta para essa construção coletiva.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 4/04/25. Editorial, p.18.

FOLCLORE POLÍTICO: Porandubas 836

Abro a coluna com o impagável José Maria Alkmin.

Calma, prisão suavemente...

José Maria Alkmin foi advogado de um crime bárbaro. No júri, conseguiu oito anos para o réu. Recorreu. Novo júri, 30 anos. O réu ficou desesperado:

- A culpa foi do senhor, dr. Alkmin. Eu pedi para não recorrer. Agora vou passar 30 anos na cadeia.

- Calma, meu filho, não é bem assim. Nada é como a gente pensa da primeira vez. Primeiro, não são 30, são 15. Se você se comportar bem, cumpre só 15. Depois, esses 15 são feitos de dias e noites. Quando a gente está dormindo tanto faz estar solto como preso. Então, não são 15 anos, são 7 e meio. E, por último, meu filho, você não vai cumprir esses 7 anos e meio de uma vez só. Vai ser dia a dia, dia a dia. Suavemente.

(Sebastião Nery conta a historinha em Folclore Político).

Fonte: Gaudêncio Torquato (GT Marketing Comunicação).

https://www.migalhas.com.br/coluna/porandubas-politicas/401492/porandubas-n-836


quinta-feira, 3 de abril de 2025

2026: A redenção do Ceará 30 anos depois

Por Luiz Eduardo Girão (*)

Minha avó Maria, nos ensinava: "ou aprendemos pelo amor ou pela dor…". Infelizmente, o despertar dos nossos conterrâneos está vindo através da dor, diante das grandes provações que os cearenses têm sofrido, especialmente na área da segurança pública.

Todos os dias, as páginas deste jornal escancaram um cenário típico da Idade Média, em um Estado cada vez mais dominado pelas facções criminosas, que humilham sem piedade nossos cidadãos, enquanto o governo do PT "assiste de camarote". O clima de medo desse faroeste urbano acontece à luz do dia e, o pior, vitima até idosos e crianças, tanto na capital quanto no interior, consequência da completa omissão e incompetência do governo aliado ao aparelhamento político e ideológico de instituições que deveriam fiscalizar e cobrar ações efetivas do executivo, mas "preferem" silenciar. E quem paga por essa inoperância institucional dos burocratas é quem, de fato, trabalha, carregando nas costas a máquina estatal cheia de privilégios.

Só neste início de fevereiro, além das dezenas de assassinatos que já viraram regra mensal, tivemos a tentativa de chacina em Caucaia, com cinco pessoas baleadas, além de mais uma onda de ataques a empresas provedoras de internet, deixando a população de 4 municípios sem comunicação. Enquanto isso os jovens adoecem pelas drogas e são cooptados neste barco estado que vivemos! Gente, onde vamos parar com essa barbárie?

O que me conforta é constatar um movimento forte e crescente em nossa sociedade, de não mais se curvar a essa velha e má política que nos colocou nessa humilhante situação, onde as trevas e sombras teimam em sufocar a "Terra da Luz". Mas não vão conseguir! Os ventos e o sol da mudança já apontam no horizonte, tal como aconteceu há tempos, em 1986, quando houve a quebra de paradigmas e um novo ciclo na gestão pública!

Tenho muita fé e esperança no levante de irmãs e irmãos de ideal — algo que já está em curso pleno e vigoroso — despertando a consciência desse povo de fibra e libertário por natureza que trará de volta o encanto que está ausente e tirará a ferrugem dos sorrisos! Percebo, nos quatro cantos do Ceará, uma legião do bem se unindo como nunca e tomando as rédeas do próprio destino por meio de uma participação mais ativa na vida política prestes a dar um grito de liberdade que acordará a "vizinhança inteira"!

Aliás, um aperitivo dessa mobilização ordeira e pacífica, inspirada pela indignação dos cearenses diante da inversão de valores e dos "poderosos de plantão", ocorrerá neste próximo domingo, 16/3, às 16h, na Praça Portugal. A organização é da Marcha pela Família.

Estarei lá e convido você a se juntar a nós; pelos nossos filhos e netos! Que Deus nos abençoe.

Paz e Bem!

(*) Empresário. Senador pelo Podemos/CE.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 14/03/25. Opinião, p.17.


quarta-feira, 2 de abril de 2025

TECNOFEUDALISMO

Por Tales de Sá Cavalcante (*)

No livro "Sobre a China", Henry Kissinger elogia Mao Tsé-Tung por ter ordenado seu exército a se manter "comedido e probo" em antiga guerra da China contra a Índia. A vitória sobre posições indianas gerou nova fronteira. Mao determinou a volta ao limite anterior e a devolução dos armamentos pesados retidos.

A China usou a força não para conquistar territórios, senão "para obrigar a Índia a voltar à mesa de negociações". A China de hoje faria o mesmo? E Putin? E Trump? A mídia nos diz que este deseja tomar a Groenlândia, o Canadá e capturar Gaza. E, sem garantir a proteção aos ataques russos, exigiu da Ucrânia US$ 500 bilhões em terras com minerais raros e 50% da renda gerada pela exploração desses recursos.

Em 2001, o consultor internacional Kenichi Ohmae lançou o livro "O Continente Invisível". Nele destacou a descoberta e a colonização dos continentes e o advento da internet, "o continente invisível", que, em seu dizer, seria colonizado, porém, com futuro imprevisível. Após 24 anos, Bolívar Torres, no "O Globo", comenta o compêndio "Tecnofeudalismo", de Yanis Varoufakis, ex-ministro das Finanças da Grécia, a ser lançado no Brasil em abril, em que o autor compara as big techs a senhores feudais e defende que o capitalismo morreu e foi substituído por algo pior.

Varoufakis afirma que os mercados teriam sido trocados "por plataformas de comércio digital que, na prática, operam como os antigos feudos. Os usuários digitais se tornariam 'servos', enquanto os detentores do capital tradicional [...] se limitariam ao papel de 'vassalos'. E o lucro, motor do capitalismo, teria sido substituído por seu antecessor feudal: a renda. [...] Os usuários não são clientes no sentido clássico, mas servos que geram dados e precisam dessas plataformas para acessar informações, trabalho e serviços essenciais".

Para Arthur Bezerra, também citado por Torres, a influência das big techs sobre Trump leva muitos a achar que Elon Musk é o "verdadeiro" chefe de Estado dos EUA. Será o tecnofeudalismo uma das respostas às indagações de Kenichi Ohmae sobre o continente invisível? O futuro dirá.

(*) Reitor do FB UNI e Dir. Superintendente da Org. Educ. Farias Brito. Presidente da Academia Cearense de Letras.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 6/03/25. Opinião, p.18.

terça-feira, 1 de abril de 2025

BONITO PRA CHOVER

Por Izabel Gurgel (*)

Melhor do que Carnaval é Carnaval com chuva.

Vale, claro, para quem, como eu, gosta das duas coisas.

Escrevo fora de hora e ouvindo trovões.

Chove lá fora e me vem à lembrança um Carnaval que passou, o primeiro trio elétrico da vida passando e parando justo onde estávamos. Salve Salvador. "Chove lá fora..." começou tão santinho, santinho e eu não sabia que era só a largada para o demo solto (e ele é legião). Só eu não sabia.

Não lembro das cordas e dos cordeiros, como se diz dos homens que seguram as cordas, fronteira que separa quem brinca dentro e quem pula fora. Conheci a nomeação 'cordeiros' anos depois e só hoje, trovejando lá fora, percebo que talvez venha da corda o batismo deles e não do bicho associado ao sacrifício e invocado na missa. Aquele que tira o pecado do mundo.

É preciso saber ler os sinais. Estamos pessoas exauridas... As redes que uma querida professora farejou anos atrás como antissociais estão cheias de lições extraviadas de interpretação de texto. Diz-se isso nas redes em várias línguas. Com sotaque dos quatro cantos do mundo, que não são aquela encruza benta por tudo de bom que é brincar. O chamado Quatro Cantos de Olinda, os da canção "Me segura que senão eu caio", de Alceu Valença.

Anoto Olinda outra vez e volto ao título do texto, Bonito pra chover, o lindo trio que Leonardo Mota (1891-1947) anotou pra gente de ouvir dizer em suas andanças pelos sertões do mundo.

Bonito pra chover, que o querido professor Gilmar de Carvalho (1949-2021) tornou título e tutano de livro de ensaios sobre a cultura cearense (o subtítulo). Publicação da Fundação Demócrito Rocha, 2003. Vou citar Leota. O livro é "No tempo de Lampião", primeira edição no começo da década de 1930. Lampião vivinho da silva.

Cito o Leota: "À noitinha, no pátio da fazenda, um silêncio de angústia imobilizava os sertanejos, de ouvidos atentos a algum trovão longínquo. Há três meses, uma preocupação indisfarçável chumbava os espíritos à expectativa do inverno daquele ano. Seria possível que, mais uma vez, o anjo mau do extermínio adejasse sobre a terra mártir? (...) Pleno março e nenhuma esperança de inverno. Pela madrugada, ao filho varão que saíra ao terreiro, a fim de ver se estava relampeando pro lado do Piauí ou se o céu estava promisso de chuvas, o velho sertanejo pergunta, da rede em que está deitado na sala da frente:

- Manoé, meu filho, está bonito pra chover?".

É domingo de Carnaval. Em Fortaleza, vai ter Rei de Paus na Domingos Olímpio. Cada vez que passa o maracatu do seu Geraldo (Barbosa), fica bonito pra chover. Tem mais maracatu na rua. "Me chama" é o título da canção que me fez ir atrás do trio elétrico. Ainda estamos aqui.

(*) Jornalista de O Povo.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 2/03/25. Vida & Arte, p.2.

segunda-feira, 31 de março de 2025

A SANTA CASA E A SAÚDE PÚBLICA

Por Vladimir Spinelli Chagas (*)

Em diversos momentos, neste espaço e em outras oportunidades, vimos falando sobre a questão crucial de termos novamente a Santa Casa em pleno funcionamento, por tudo aquilo que ela representa para a sociedade cearense, desde o longínquo 1854, quando foram iniciadas as tratativas para a sua criação, concretizada em 14.03.1861, com sua instalação.

Durante esses anos, a Santa Casa funcionou como Maternidade, administrou uma Funerária e continua contando com o Hospital da Santa Casa, o Hospital Psiquiátrico São Vicente de Paulo, a gestão do Cemitério São João Batista e a Clínica Eduardo Salgado.

A crise atual, agravada durante a pandemia, é mais uma das muitas que as filantrópicas, via de regra, padecem por conta do subfinanciamento das atividades clínicas e cirúrgicas sob a Tabela SUS, com mais de 20 anos de defasagem.

As formas de solucionar o problema já foram também continuadamente expostas e resultaram em reunião no Ministério da Saúde, em setembro de 2024, de onde se saiu com o compromisso de ações, como o aporte emergencial de recursos e a cobertura do déficit mensal hoje existente.

Lamentavelmente, em início de fevereiro, voltou-se à estaca zero, alegando-se que as medidas haviam sido em caráter ad referendum, carecendo, portanto, de serem reiniciadas, causando tristeza e mal-estar entre todos os que acompanham a situação e se esforçam por solucioná-la.

Lembramos que, em 01.10.1895, pela Lei no. 278, o governo estadual autorizou o elevado aporte de 37.000$000 (em réis da época) para o resgate da dívida da Santa Casa. Em outros momentos, novos aportes foram feitos, porquanto os serviços são sempre remunerados abaixo dos reais valores.

Continuamos com a força e a resiliência em mantê-la aberta, em prol da população mais carente, mas reivindicamos a complementação dos valores da Tabela SUS e outras formas de transferência de recursos. Nos últimos anos, a Santa Casa vinha realizando em média 50 cirurgias por dia, podendo, com extensão de turnos, duplicar esse número, ajudando a reduzir as trágicas filas de hoje no Ceará.

Vamos continuar salvando vidas? A Santa Casa sabe como. 

(*) Professor aposentado da Uece, membro da Academia Cearense de Administração (Acad) e conselheiro do CRA-CE. Provedor da Santa Casa da Misericórdia de Fortaleza.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 24/02/25. Opinião. p.20.

AINDA ESTAMOS AQUI

Por Sofia Lerche Vieira (*)

As últimas imagens de "Ainda estou aqui" costumam se confundir com uma plateia comovida e silenciosa. A experiência de ver o filme é única. A um só tempo, individual, coletiva e reverente. O que desperta tal sentimento?

São muitas as razões para aplaudir o filme de Walter Salles. O tema do trauma político nacional tem um sentido universal. Rubens Paiva expressa um caso brasileiro de tortura e morte durante a ditadura. Alexei Navalni, dissidente político russo, morto sob circunstâncias obscuras em 2024, foi reverenciado por mais de mil pessoas em 16 de fevereiro deste ano por ocasião do aniversário de sua morte.

É oportuna a forma escolhida para abordar o tema: a vida de uma família antes e depois da tragédia do assassinato de sua principal figura. A reconstrução através de imagens de luz e alegria, sombra e tristeza expressam um tratamento preciso de imagens onde se misturam flashbacks e cenas do contexto político. Sobre dessas duas realidades, paira a busca incessante da verdade que tem na figura de Eunice Paiva sua âncora. O drama pessoal se mescla, assim, com o contexto político ditatorial, entrelaçando os diferentes níveis de aproximação à realidade.

Outro destaque da obra é a economia de gestos e a inexistência de recursos e efeitos apelativos visível na controlada dor de Eunice e dos seus; nos gritos nos porões da ditadura; e, nos rastros de sangue que se procura expurgar pela lavagem do chão. Imagens grotescas são explícitas apenas nos personagens caricaturescos que levam Rubens Paiva preso para nunca mais voltar. O entrelaçamento entre o dito e o não dito, resulta em uma trama precisa, real e infinitamente triste.

A família, que não perde a capacidade sorrir mesmo em meio a tal adversidade, é o grande esteio da sobrevivência e superação. É exemplo de uma fé na vida que sequer os grilhões de uma ditadura torturante podem conter.

Contrapondo-se aos avanços de um crescente totalitarismo no Brasil e no mundo, a arte é a resposta singular de que, apesar de tudo, como Eunice e sua família, ainda estamos aqui. Venham ou não os Oscars, o filme já venceu!

(*) Professora do Programa de Pós-Graduação em Educação da Uece e consultora da FGV-RJ.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 24/02/25. Opinião. p.20.

 

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