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quinta-feira, 13 de agosto de 2026

QUANDO O GLOBAL ENCONTRA O LOCAL

Por Sofia Lerche Vieira (*)

Para além dos territórios nacionais, as políticas educacionais contemporâneas circulam globalmente. Neste cenário orientações de organismos internacionais com foco em direitos, inclusão, equidade e sustentabilidade convivem com políticas de avaliação externa e controle de resultados, fenômeno que alguns estudiosos têm denominado de "datificação". Essas ideias, nem sempre convergentes, atravessam fronteiras e chegam às mais diferentes realidades, incluindo as escolas.

Ao aportar no Brasil, tais iniciativas ganham relevo. O país, entretanto, nunca foi um terreno de simples reprodução de políticas. Nosso sistema federativo constitui uma realidade complexa onde União, Estados e Municípios compartilham responsabilidades e preservam margens de autonomia.

Assim, no âmbito local, as políticas globais são apropriadas, negociadas e recriadas. A homogeneidade de formulações globais perde terreno para a heterogeneidade de políticas locais em ambientes marcados por tensões e contradições.

Seus avanços educacionais resultam de políticas locais consistentes de cooperação, avaliação e fortalecimento das redes municipais. As iniciativas, contudo, não chegam a todos os municípios da mesma forma. Embora compartilhem diretrizes comuns, estes constroem caminhos próprios, definem prioridades distintas e inventam diferentes formas de governar a educação.

Em alguns casos, traços do velho clientelismo persistem e imprimem marcas a políticas supostamente novas. Pesquisa recente sobre o tema, cujos resultados estão reunidos no livro "Desafios da Educação na Região Metropolitana de Fortaleza", permitiu perceber que não existe uma única experiência metropolitana, mas múltiplas formas de traduzir orientações comuns em políticas concretas.

A heterogeneidade é, pois, incorporando sentidos tanto das políticas globais quanto da singularidade de suas invenções. A experiência do Programa Alfabetização na Idade Certa (Paic), que o Ceará vem exportando para o mundo, é uma evidência virtuosa do encontro entre o global e o local

(*) Professora do Programa de Pós-Graduação em Educação da Uece e consultora da FGV-RJ.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 13/07/26. Opinião. p.18.


sexta-feira, 7 de agosto de 2026

FOLCLORE POLÍTICO: Porandubas 726

Abro a coluna com uma fábula.

Em cinco anos, tudo pode ocorrer

Um poderoso sultão, sábio entre os sábios, possuía um camelo muito inteligente. Obedecia a todas as ordens que nem precisavam ser emitidas de viva voz. Faltava-lhe apenas o dom da palavra. Esse detalhe entristecia sobremaneira o sultão. Um dia, decidiu convocar o Grande Conselho e chamou o grão-vizir.

- Quero que ensine meu camelo a falar!

- Mas isso é impossível.

- Cortem a cabeça dele! Tragam-me o adjunto!

Mesma afirmação de desejo sultanesco, mesma resposta, mesma sentença. A cena repetiu-se diversas vezes e cabeças rolaram. Exasperado o sultão declarou.

- Aquele que ensinar meu camelo a falar será meu grão-vizir.

Silêncio! O sultão repetiu a exortação. Eis que surgiu um humilde ajudante de cozinheiro. Disse:

-Dá-me, ó incomparável senhor, um prazo de cinco anos, e farei falar teu camelo.

Estupefação geral. Seguida do cumprimento da promessa.

-Doravante, és meu grão-vizir! Mas se falhares, sabes o que te espera!

- Bem sei!

Encantado, o jovem fez profunda reverência e saiu correndo para dar a boa notícia à esposa.

- Infeliz, acabas de assinar tua condenação.

- Não é bem assim, meu bem. Pedi cinco anos. Você sabe que muitas coisas poderão acontecer em cinco anos: morre o camelo, morre o sultão...

(Fábula enviada pelo atento Alexandru Solomon). Nada a ver com as próximas eleições.

Fonte: Gaudêncio Torquato (GT Marketing Comunicação).

https://www.migalhas.com.br/coluna/porandubas-politicas/349194/porandubas-n-726


sexta-feira, 24 de julho de 2026

FOLCLORE POLÍTICO: Porandubas 872

Abro a coluna com uma historinha dos mineiros, contada por Sebastião Nery.

Desde que o dinheiro venha

Mais uma da matreirice mineira. Benedito Valadares chegou a Curvelo/MG, para visitar a exposição de gado do município. Na hora do discurso, atrapalhou-se:

- Quero dizer aos fazendeiros aqui reunidos que já determinei à Caixa Econômica e aos bancos do Estado a concessão de empréstimos agrícolas a prazos curtos e juros longos.

Lá do povo, alguém corrigiu:

- É o contrário, governador! Empréstimo a prazo longo e juros curtos.

- Desde que o dinheiro venha, os pronomes não têm importância.

Fonte: Gaudêncio Torquato (GT Marketing Comunicação).

https://www.migalhas.com.br/coluna/porandubas-politicas/421845/porandubas-n-872


quinta-feira, 16 de julho de 2026

VOLTANDO À (IN)TOLERÂNCIA

 Por Vladimir Spinelli Chagas (*)

Em 2020 estreei nessas páginas com um simbólico artigo "No Reino da Tolerância", por sentir que se agravava, cada vez mais, a falta de diálogo, o desrespeito às opiniões alheias, a falta de reflexão. Então, propunha que eu e você nos tornássemos mais tolerantes para debater fatos e não irmos ampliando as discussões como uma guerra.

Voltei ao tema mais quatro ou cinco vezes, sempre com a perspectiva de que, conseguindo adesão de meia dúzia de pessoas, já teríamos um bom início para que a convivência se tornasse mais amigável, mesmo entre aqueles que defendem ideologicamente campos opostos. Afinal, em que parte do Livro da Vida temos alguma lei que estabeleça a Verdade Absoluta? Não conheço. Pelo contrário, todo ele sempre se dedica a destacar que o amor ao próximo é uma regra pétrea.

Ora, como amar sendo intolerante? Os momentos de mais tensão se deram nos processos eleitorais que vivenciamos desde então. Agora mesmo, começamos uma nova refrega, na qual veremos menos propostas reais em benefício do povo e mais agressões e violência. Ora, nós eleitores seremos, mais uma vez, vítimas de nossas ações e omissões, aceitando esse quadro de discussões estéreis em vez de exigirmos, como é de nosso direito, que o debate vá para o campo de ações públicas?

Já perdemos demais com um Legislativo que não honra o passado de tantos cidadãos até hoje respeitados por suas posições como verdadeiros representantes do povo, que lhe dá os votos. O poder executivo, em todos os níveis, também não é exemplo de real preocupação com a população, que também os elegeu e tem visto um distanciamento das poucas promessas de campanha que a beneficiaria.

Em relação ao Judiciário, as notícias que são estampadas diuturnamente também ferem de morte o direito do cidadão. Nos níveis superiores, não foram eles eleitos, mas escolhidos por quem o foi, com um compromisso assumido de pugnar pela Justiça, pela Democracia e pela defesa intransigente da Constituição, de que são os guardiões.

"Tolerância, mesmo que utópica, continua sendo uma ideia que defendo com veemência. E uma reflexão que proponho mais uma vez." E uma vez mais.

(*) Professor aposentado da Uece, membro da Academia Cearense de Administração (Acad) e conselheiro do CRA-CE. Provedor da Santa Casa da Misericórdia de Fortaleza.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 15/06/26. Opinião. p.18.

sexta-feira, 10 de julho de 2026

FOLCLORE POLÍTICO: Porandubas 870

Abro a coluna com uma historinha que o ex-governador do Piauí, Alberto Silva, contava. Análise da índole piauiense.

Sou do Piauí, e daí?

Alberto Silva dizia que a alma piauiense sofria de complexo de inferioridade. Na Sudene, em Recife, ouvi dele esse chiste: um interlocutor pergunta a outro: o senhor é de onde? Resposta: sou do Piauí e daí? E já mostrava os punhos para esmurrar o interlocutor.

E foi pensando nisso que ele, quando governador, decidiu criar a Potycabana, uma praia de Copacabana, às margens do rio Poty. Importou equipamentos que faziam ondas nas águas. Não foi bem sucedido. No dia da inauguração, discursou: não precisamos ao Rio de Janeiro para tomar banho em Copacabana. Temos a nossa Potycabana. A criançada, em algazarra, mergulhou nas ondas barrentas. Uma criança morreu. O sonho foi embora.

Bonecos de Olinda, prazer!

Certa feita, acompanhei Michel ao Recife para uma visita ao senador Jarbas Vasconcelos, então governador do Estado. Fazia parte da liturgia do presidente do PMDB ouvir as lideranças do partido, ainda mais se tratando de Jarbas Vasconcelos, que realizou um grande trabalho pelo partido, desde os tempos em que o presidiu.

Chegamos já tardinha, com o sol se pondo. A casa do governador parecia um museu a céu aberto. Pela coleção de bonecos, o artesanato pernambucano se fazia intensamente presente nos cômodos. Sentamo-nos na sala de recepção. Os raios do sol abriam uma pequena claridade numa sala contígua, onde em uma mesa de jantar/almoço, convivas pareciam se regalar com os acepipes.

Fiquei curioso. Michel, então, muito educado, pediu licença de Jarbas, levantou-se e se dirigiu aos convivas, querendo cumprimentar cada um.

Mão estendida para o primeiro, veio o susto. Eram 7 ou 8 bonecos de Olinda, em tamanho natural, sentados à mesa e diante de pratos e talheres. Disfarçando o gesto risível, o presidente da Câmara volta ao nosso convívio sem conseguir o riso.

Fonte: Gaudêncio Torquato (GT Marketing Comunicação).

https://www.migalhas.com.br/coluna/porandubas-politicas/420911/porandubas-n-870

segunda-feira, 6 de julho de 2026

O que é preciso mudar no Brasil: políticos?

Por Pedro Jorge Ramos Vianna (*)

Há tempos venho defendendo que são quatro os fatores essenciais que determinam o grau de desenvolvimento de qualquer região do planeta. São os fatores naturais, os históricos, os aleatórios e os que eu denominei de institucionais, os produzidos pelo homem. Analisemos, agora, o "fenômeno", Brasil.

- Quanto aos fatores naturais, nosso País tem abundância de terra, a maioria muito produtiva; grandes bacias hidrográficas; climas normalmente amenos; não sofremos de grandes desastres ecológicos. O fator natural não foi problema para o nosso desenvolvimento;

- O fator histórico mais importante foi ter sido descoberto por Portugal, que nunca se preocupou em desenvolver a Colônia Brasil. O importante era extrair as riquezas e levar para Portugal;

- O fator aleatório digno de nota foi a revolução no Haiti em 1791-1804. Esta revolução ganha pelos escravos que trabalhavam nos canaviais do Haiti, à época o maior produtor de açúcar do mundo, teve consequências na produção açucareira do Brasil, atuando como um catalisador para o seu crescimento. O vácuo deixado pelo Haiti permitiu que o açúcar brasileiro supervalorizasse no mercado internacional.

- Quanto aos fatores institucionais, ah, esses são os maiores males deste País:

d.1) A Corrupção - É o mais importante fator institucional que impede um desenvolvimento socioeconômico em nosso País. E começou já no Brasil-Colônia: Pero Borges, que havia sido condenado em Portugal por ladroagem, foi nomeado como Ouvidor-Geral do Brasil, em 1549. Os escândalos do INSS e do Banco Master, atuais, comprovam esta tese. Somos um País de Corruptos, essencialmente, os políticos.

d.2) A Incompetência Político-Administrativa - Essa também é uma praga que sempre contaminou a administração pública no Brasil. Vou citar alguns fatos que demonstram esta tese. O primeiro plano de industrialização do Brasil, o do Presidente Juscelino Kubitschek, criou a indústria automobilística brasileira, mas cometeu erro terrível ao determinar que o nosso sistema de transporte de carga se desse via rodoviária. Outro plano de desenvolvimento, desta vez em relação ao Nordeste, foi o Plano da Sudene. Em Monografia de 1978, "Desenvolvimento do Nordeste e Alternativas" (1º lugar em Prêmio do BNB), demonstrei que o Plano de Desenvolvimento da Sudene para o Nordeste embutia alguns erros crassos: uns na concepção; outros na execução.

Dado o caráter teórico das demonstrações não cabe aqui repeti-las.

(*) Economista e professor titular aposentado da UFC,

Fonte: O Povo, de 31/05/26. Opinião. p.18.


sexta-feira, 26 de junho de 2026

FOLCLORE POLÍTICO: Porandubas 869

Abro com o repeteco de uma historinha. Sempre solicitada por alguns dos meus leitores.

Levo ou não?

A historinha é conhecida e, por ser muito boa, merece um repeteco.

Rui Barbosa, o Águia de Haia, chegava em casa, à noitinha, quando ouviu um barulho vindo do quintal. Chegando lá, viu um ladrão tentando levar seus patos de criação. Aproximou-se vagarosamente do indivíduo e, surpreendendo-o, ao tentar pular o muro com seus amados patos, passou-lhe um pito:

- Oh, bucéfalo anacrônico! Não o interpelo pelo valor intrínseco dos bípedes palmípedes, mas sim pelo ato vil e sorrateiro de profanares o recôndito da minha habitação, levando meus ovíparos à sorrelfa e à socapa. Se fazes isso por necessidade, transijo; mas se é para zombares de minha elevada prosopopeia de cidadão digno e honrado, dar-te-ei com minha bengala fosfórica bem no alto da sua sinagoga, e o farei com tal ímpeto que te reduzirei à quinquagésima potência que o vulgo denomina nada.

E o ladrão, perplexo e confuso, com um fio de voz, perguntou:

- Doutor, eu levo ou deixo os patos?

Fonte: Gaudêncio Torquato (GT Marketing Comunicação).

https://www.migalhas.com.br/coluna/porandubas-politicas/420579/porandubas-n-869


sexta-feira, 12 de junho de 2026

FOLCLORE POLÍTICO: Porandubas 868

A prisão... suavemente...

José Maria Alkmin, o matreiro mineiro, foi advogado de um crime bárbaro. No júri, conseguiu oito anos para o réu. Recorreu. Novo júri, 30 anos. O réu ficou desesperado:

- A culpa foi do senhor, dr. Alkmin. Eu pedi para não recorrer. Agora vou passar 30 anos na cadeia.

- Calma, meu filho, não é bem assim. Nada é como a gente pensa da primeira vez. Primeiro, não são 30, são 15. Se você se comportar bem, cumpre só 15. Depois, esses 15 são feitos de dias e noites. Quando a gente está dormindo tanto faz estar solto como preso. Então, não são 15 anos, são 7 e meio. E, por último, meu filho, você não vai cumprir esses 7 anos e meio de uma vez só. Vai ser dia a dia, dia a dia. Suavemente.

(Sebastião Nery conta a historinha).

Fonte: Gaudêncio Torquato (GT Marketing Comunicação).

https://www.migalhas.com.br/coluna/porandubas-politicas/420140/porandubas-n-868

segunda-feira, 25 de maio de 2026

A EDUCAÇÃO SEM ESCOLA POLÍTICA

Por Raimundo Padilha (*)

No ensino superior quando foi quebrado o sistema seriado, substituído pela oferta por disciplina, se deu uma ruptura na educação política. No sistema seriado as turmas fechadas com seus 40 ou 50 alunos, facilmente eram identificados os seus líderes e com eles formados os seus Centros Acadêmicos, uma excelente escola de formação política. As suas lideranças se revelavam e eram facilmente identificadas.

Desta estrutura foram forjados líderes, que posteriormente foram atraídos para a militância político partidária levando valores que passaram a ocupar os parlamentos municipais, estaduais e federais. O nível médio dos parlamentares era bem mais elevado do que os atuais, tendo como consequência um debate de conteúdo e um maior e melhor nível de projetos.

O pensamento deles era voltado para a sociedade, ao contrário do que predomina hoje, que são voltados para os interesses pessoais dos próprios políticos, tendo como exemplo o absurdo de emendas parlamentares. A maioria dos eleitores não sabe em quem votou e a comunicação dos parlamentares com o eleitorado se dá predominantemente no período eleitoral à caça de votos para suas eleições e/ou reeleições. As casas legislativas não são avaliadas pelos seus eleitores, tendo como consequência mandatos sucessivos, quase que se transformando num emprego vitalício. E ainda há, o chamado "baixo clero", que vegeta e dorme em todo o seu mandato. É muito triste e pobre, o nosso parlamento, respeitadas as raríssimas exceções. Precisamos de muitas reformas e quem tem coragem de propor, se a nossa política é da conveniência pessoal? Está cômodo para eles e o povão que se lasque.

Foi apagado o processo de formação de líderes e ninguém contesta o fechamento da antiga escola política, nem alunos, nem professores. É como se estivéssemos no estado da arte, embora, com um parlamento fraco e sem visão de futuro. E onde está o MEC, que não enxerga o mal causado pelo período militar e que ainda persiste? Por conveniência, miopia ou frouxidão, nesta área, nada ou quase nada se faz no nosso país, a superficialidade é o que predomina.

Quando estudante do curso ginasial, hoje ensino fundamental participei ativamente dos Grêmios Literários. Eram verdadeiras escolas de formação política, havendo inclusive eleições bastante disputadas. Nos grêmios se praticava o exercício da oratória, de artes cênicas, dentre outras manifestações culturais. Isto era a base da formação de um caldo de cultura que tinha prosseguimento no período universitário, para aqueles vocacionados, sendo um caminho aberto para as atividades político partidárias. Daí o contraste entre os políticos de ontem e de hoje.

(*) Economista, professor aposentado da UFC e membro da Academia Cearense de Economia.

Fonte: O Povo, de 15/04/26. Opinião. p.21.


sexta-feira, 22 de maio de 2026

FOLCLORE POLÍTICO: Porandubas 867

Abro a coluna com uma historinha de Tancredo Neves, que mostra a índole matreira do grande político das Minas Gerais.

Um disfarçado sorriso

No segundo semestre de 1984, como chefe do Departamento de Jornalismo da Faculdade de Comunicação Cásper Líbero, coordenei um debate com os presidenciáveis Tancredo Neves e Paulo Maluf. Eram candidatos à presidência em eleição indireta, que ocorreria em 15 de janeiro de 1985, quando Tancredo venceu Maluf com 480 contra 180 votos e 26 abstenções. Salão nobre do Teatro Gazeta, enorme, lotado. Tancredo veio primeiro. Aplaudido de pé após um debate que terminou por volta de 23h. Por sugestão do banqueiro e ex-prefeito de São Paulo, Olavo Setúbal, fomos (pequeno grupo de professores) jantar com ele no elegante restaurante-pub de Geraldo Alonso, o famoso publicitário, o Santo Colomba, na rua Padre João Manoel. Sentei-me ao lado dele. Puxei conversa. Falamos de política. "Gaudêncio, de onde você é?", indagou. Observara o sotaque. Respondi: "Sou do RN". A conversa girou então sobre Dinarte Mariz, Aluízio Alves, Djalma Marinho, os Rosados etc. O vinho bom descia suave. De repente, no meio de animado papo, Tancredo fecha os olhos e abre um leve bocejo. Nem houve aviso prévio. Fiquei preocupado. Será que a conversa está chata? Setúbal, sentado na nossa frente, com sua voz de barítono, pisca o olho e avisa, sabendo que ele iria ouvir:

- Professor, não se incomode. É assim mesmo. Quando ele quer ir embora, não fala. Simplesmente, inventa que está dormindo.

Mas era visível seu cansaço. Olhei de leve para nosso ex-primeiro-ministro e confesso ter observado um disfarçado sorriso nos lábios. Setúbal pagou a conta e saímos. Felizes por termos participado de um histórico encontro com a matreirice mineira.

Mais uma de Tancredo.

Conchavo

Premido pelos casuísmos, Tancredo Neves foi obrigado a fundir o seu PP com o MDB de Itamar. Alguns pepistas pularam do barco e protestaram alegando conchavo. Tancredo foi curto e seco: "Conchavo é a identificação de ideias divergentes formando ideias convergentes." Tinha razão. Muitas curvas desembocam em retas.

Fonte: Gaudêncio Torquato (GT Marketing Comunicação).

https://www.migalhas.com.br/coluna/porandubas-politicas/419809/porandubas-n-867


sexta-feira, 15 de maio de 2026

FOLCLORE POLÍTICO: Porandubas 866

Abro a coluna com um frio aperto de mão.

O frio aperto de mão

O deputado baiano mandou cartão de Natal para uma mulher que morrera há muito tempo. A família, irritada, retribuiu: "Prezado amigo, embora jamais o tenha conhecido durante os meus 78 anos de vida terrena, daqui de além-túmulo, onde me encontro, agradeço o seu gentil cartão de boas festas, esperando encontrá-lo muito em breve nestes páramos celestiais para um frio aperto de mão. Purgatório, Natal de 2005." O deputado recebeu a resposta. E espera, angustiado e insone, pelo aperto de mão.

Fonte: Gaudêncio Torquato (GT Marketing Comunicação).

https://www.migalhas.com.br/coluna/porandubas-politicas/419404/porandubas-n-866


segunda-feira, 11 de maio de 2026

NO KINGS

Por Tales de Sá Cavalcante (*)

Na edição de "O Príncipe", comentada por Napoleão Bonaparte, Maquiavel define 3 tipos de homens inteligentes: os do primeiro grupo têm discernimento próprio e são os preferidos por Napoleão; os do segundo discernem o que os outros entendem e, se possuírem superioridade intelectual, não são desprezados por Napoleão; e o terceiro é o daqueles que não discernem nem entendem o que os outros discernem.

Para Napoleão I, estes são estúpidos e possuidores de espíritos rotineiros acorrentados a seus métodos. O imperador da França criou um quarto tipo, formado pelos que se perdem ao julgar soberbamente que fazem o melhor.

Segundo Bonaparte, "Há 4 tipos de generais: os inteligentes e ativos; os inteligentes e preguiçosos; os estúpidos e preguiçosos; e os estúpidos e ativos. Os do primeiro bloco são aptos ao Estado-Maior; os do segundo são aptos ao comando; os do terceiro não causam grande dano; mas os do quarto são um perigo e devem ser afastados imediatamente".

A seu juízo, em quais blocos está o atual líder dos EUA? Esse país já tem Porto Rico. Cogitou tornar o parceiro Canadá um estado americano. Desejou a incorporação da Groenlândia e agora a de Cuba. Conquistou a Venezuela e, mais uma vez, insinua que as facções do Brasil são terroristas e que, apoiado pela legislação americana, poderá praticar intervenção militar em nosso país.

Será seu desejo tornar toda a América (Sul, Central e Norte) "part of the USA"? Atribui-se a Lincoln a frase: "Quase todos os homens suportam a adversidade; mas, se você quer testar o caráter de um homem, dê-lhe poder". Estará o pretenso "King of America" sob esse teste? Conforme a mídia, recentemente, mais de 3.000 eventos, nos EUA, Paris, Londres e Roma, clamaram: “NO KINGS” (SEM REIS).

O temor de todos é o conflito entre China e EUA, definido por William Waack, da CNN, como um duelo entre um calculista frio e um palhaço televisivo. Que o futuro se dê sob as luzes de Sun Tzu quando disse: "A suprema arte da guerra é derrotar o inimigo sem lutar". E de John Kennedy quando ensinou: "A humanidade tem de acabar com a guerra antes que a guerra acabe com a humanidade".

(*) Reitor do FB UNI e Dir. Superintendente da Org. Educ. Farias Brito. Presidente da Academia Cearense de Letras.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 2/04/26. Opinião, p.18.


sexta-feira, 1 de maio de 2026

FOLCLORE POLÍTICO: Porandubas 865

 Começo com um "causo" pernambucano.

Perspectivas

Quais as perspectivas que se apresentam ao Brasil em um contexto de crise? Confesso que não sei responder. Mas uma historinha do Sebastião Nery, que nos deixou, há pouco tempo, pode ajudar a responder:

Luís Pereira, pintor de parede, dormiu com 200 votos e acordou como deputado Federal. Era suplente de Francisco Julião, líder das Ligas Camponesas, em Pernambuco, cassado pela ditadura. Chegou a Brasília de roupa nova e coração vibrando de alegria. Murilo Melo Filho melou o jogo, logo no aeroporto, com a pergunta abrupta:

- Deputado, como vai a situação?

Confuso, nervoso, surpreso, sem saber o que dizer, tascou:

- As perspectivas são piores do que as características.

Pois é, a esta altura, tem muito Luís Pereira perorando por aí...

Fonte: Gaudêncio Torquato (GT Marketing Comunicação).

https://www.migalhas.com.br/coluna/porandubas-politicas/418530/porandubas-n-865

sexta-feira, 17 de abril de 2026

FOLCLORE POLÍTICO: Porandubas 864

Para começar, ligeiros causos. Da PB e do Pará.

Silêncio geral

Flávio Ribeiro, presidente da Assembleia (depois foi governador da Paraíba), estava irritado com as galerias, que aplaudiram e vaiavam durante um debate entre o deputado comunista Santa Cruz e o udenista Praxedes Pitanga. De repente, tocou a campainha, pediu silêncio e avisou, grave:

- Se as galerias continuarem a se manifestar, eu evacuo.

Felizmente, as galerias se calaram.

Socorro, socorro!

João Botelho, candidato a prefeito de Belém, passou o dia inteiro anunciando um comício, à noite, na praça Brasil. Chegou na praça, não havia ninguém. Será que estou no lugar errado? Pensou. Será que não estou enganado? Perguntou ao assessor.

- Não houve engano não, deputado, a praça é esta mesma.

Foi ao bar mais perto, pediu dois caixotes de madeira, pôs no centro da praça, subiu e passou a berrar alucinado:

- Socorro, Socooorro, Socoooooooro!

Correu gente de todo lado para ver o que era. Plateia arrumada, Botelho começou o comício:

- Socorro para um candidato...

E fez o comício.

Fonte: Gaudêncio Torquato (GT Marketing Comunicação).

https://www.migalhas.com.br/coluna/porandubas-politicas/418115/porandubas-n-864


quinta-feira, 9 de abril de 2026

A cidadania não se acaba aos 70...

Por Heitor Férrer (*)

É muito comum, no meu consultório, ouvir de muitos de meus pacientes que não podem mais votar. Imediatamente, pergunto "por que?". A resposta é automática: "não posso mais votar, doutor, porque completei 70 anos". Isso revela um equívoco disseminado entre a nossa população, principalmente, nos que atingem a terceira idade. Acham que perderam o direito ao voto, como se fossem anulados do processo eleitoral, quando, na verdade, deveria ser o contrário, com mais experiência, melhores escolhas.

Nunca é demais explicar e faço isso com todas as pessoas que dizem não mais poder votar porque completaram70 anos, que o voto apenas deixa de ser obrigatório, mas continua sendo voluntário, permitido e importante. O mais grave desse sentimento comum é que muitos cidadãos e cidadãs simplesmente deixam de votar, abrindo mão de um item importantíssimo de sua cidadania, que é a de participar das decisões eleitorais de sua cidade, do seu estado e do seu país.

Para fortalecer os meus argumentos e convencimento, digo a eles que quem não pode votar são apenas os menores de 16 anos. Completados os 16 anos, até a morte, o direito ao voto é garantido pela Constituição brasileira.

Abraço a iniciativa do Ministério Público, em parceria com o Tribunal Regional Eleitoral, a Ordem dos Advogados do Brasil e a Prefeitura de Fortaleza, que tem intensificado campanhas de cidadania para divulgar que o direito ao voto não se acaba aos 70 anos e que essas pessoas garantam a sua atividade plena nos processos de eleição em todas as esferas de poder. O objetivo, ressaltam os órgãos, é reinserir a população da terceira idade no processo eleitoral de escolha democrática dos seus governantes.

Do ponto de vista psicológico e social, quando o cidadão encarna a ideia de que não pode mais votar, ele acaba se afastando ainda mais da vida pública, do destino de onde mora, caindo numa marginalização cômoda, porque, para muitos, ir às constitui sacrifício. Não sabem eles que estão se anulando em vida.

Devemos ser pedagógicos nesse tema, fazendo todo o esforço de convencimento para que as pessoas a partir dos 70 anos não deixem de votar por desinformação, diminuindo a sua cidadania. O voto continua sendo a mais legitima, importante e poderosa ferramenta para defender posições e influenciar os rumos da política local, regional e nacional.

Em um país que envelhece rapidamente e que, muito em breve, terá mais idosos do que jovens em sua população, é urgente estimular a participação das pessoas com mais de 70 anos no processo eleitoral para que políticas públicas sejam construídas de forma a atender às suas reais necessidades. Garantir essa participação é essencial para a efetivação dos direitos da pessoa idosa.

A cidadania não se acaba aos 70 anos.

(*) Médico e deputado estadual (Solidariedade).

Fonte: Publicado In: O Povo, de 6/03/26. Opinião. p.19.

sexta-feira, 3 de abril de 2026

FOLCLORE POLÍTICO: Porandubas 863

Abro com uma historinha de Leonardo Mota.

Idôneo, o comandante

Em certa cidade fluminense, o chefe local era um monumento de ignorância. A política era feita de batalhas diárias. Um dia, o chefe político recebeu um telegrama de Feliciano Sodré, que presidia o Estado:

- Conforme seu pedido, segue força comandada por oficial idôneo. O coronelão relaxou e gritou para a galera que o ouvia:

- Agora, sim, quero ver a oposição não pagar imposto: a força que eu pedi vem aí. E quem vem com ela é o comandante Idôneo.

(Historinha contada por Leonardo Mota, em seu livro Sertão Alegre)

Fonte: Gaudêncio Torquato (GT Marketing Comunicação).

https://www.migalhas.com.br/coluna/porandubas-politicas/417723/porandubas-n-863

terça-feira, 17 de março de 2026

Carnaval e a inversão de prioridades no Ceará

Por Luiz Eduardo Girão (*)

O exemplo precisa vir de cima, de líderes com coragem para enfrentar e consertar o que está errado e serem os primeiros a renunciar privilégios, como tenho feito no Senado desde que assumi o mandato em 2019.

É triste ver políticos do Ceará “sambarem” com o dinheiro de quem paga imposto em nosso Estado, que fica mais caro a cada dia com PT. Constatar que prefeitos não têm sensibilidade e torram dinheiro público com festas, mesmo diante de graves fatos como a bilionária roubalheira dos aposentados e a maior fraude no sistema financeiro do Brasil: a do Banco Master, que envolve autoridades poderosas.

É de constranger ver prefeituras reclamando dos altos cachês de artistas para o carnaval, quando deveriam cancelar as festas e fazer investimentos urgentes e prioritários como em saúde e segurança, que estão em frangalhos na maioria dos municípios. Eu visito pessoalmente meus conterrâneos e vejo quão sofríveis estão esses serviços básicos.

Gerir um Estado de forma responsável economicamente não difere muito de cuidar de um lar familiar. Os princípios são os mesmos: manter equilíbrio entre o que se arrecada e o que se gasta. Desde 2023, o governador Elmano já solicitou mais de R$ 13 bilhões em empréstimos e, só em 2025, a Assembleia Legislativa aprovou 3 novos pedidos, totalizando R$ 6 bilhões. Isso não tem como dar certo quando se mantém no caminho da irresponsabilidade.

Para exemplificar: O governo estadual petista possui 36 Secretarias para uma população de pouco mais de 9 milhões de habitantes, em 184 municípios. Minas Gerais, governada pelo Partido Novo, tem apenas 16 secretarias para uma população de quase 22 milhões em 853 municípios. Sem falar dos cargos comissionados, que, no Ceará, passam dos 10 mil. Uma indecência que visa acomodar interesses político-partidários.

Tenho aproveitado o lançamento da pré-candidatura ao governo para apresentar um novo modelo de administração, que tem tido boa receptividade conforme atesta a última pesquisa da CNN, que nos dá 16% das intenções de voto. Depois de Fortaleza e da Região do Cariri, o lançamento acontecerá em Sobral no próximo dia 14 de março.

Tenho trabalhado para beneficiar os 184 municípios do Ceará em emendas com transparência, fiscalização e participação popular. Na região Norte foram investidos quase R$ 49 milhões. Só em Sobral, foram mais de R$ 6 milhões atendendo à Santa Casa de Misericórdia, Hospital do Coração, unidades básicas de saúde, comunidades terapêuticas e Apae.

A direita e os conservadores cearenses estão preparados para virar a página do atraso produzido por uma oligarquia que se revezou por 20 anos no poder. Deu no que deu. Vamos juntos escrever um "Novo" capítulo de desenvolvimento do Ceará. Paz & Bem

(*) Empresário. Senador pelo Podemos/CE.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 13/02/26. Opinião, p.19.


domingo, 15 de março de 2026

Convertei-vos e crede no Evangelho

Por Emanuel Freitas da Silva (*)

Nesta quarta começa a Quaresma, tempo litúrgico do catolicismo. Constitui-se de quarenta dias de preparação para a celebração da Páscoa, ponto alto da fé cristã. Na liturgia de hoje, lê-se a passagem de Marcos 1, versículo 15: "O tempo já se completou e o Reino de Deus está próximo. Convertei-vos e crede no Evangelho!"

Sim, o chamado maior do Cristo foi, e é, o da conversão, a metanóia. Seguir a Cristo é "nascer novamente", "renunciar-se a si mesmo", ser "outro": "Eis que faço novas todas coisas".

Lembrei disso ao ver, na volta dos trabalhos à Alece, o discurso proferido por uma deputada para mostrar desacordo com o Plano de Enfrentamento ao Feminicídio, lançado pelo governo federal. Segundo ela, por não ter "chamado as igrejas", o plano não merecia ser considerado; daí a performance de rasgá-lo para "sair no jornal" - nisso, foi ela prontamente atendida, pois nossos jornais publicaram a cena, viralizando-a.

Mas, a deputada evangélica, esquecendo-se que Cristo veio "para que todos tenham vida, e vida em abundância", desejou às feministas "três crises de convulsão e AVC". Em vez de conversão, desejou doença (grave). Em vez de vida, padecer.

A retórica não é deslocada: pelo contrário, como nos lembra declaração captada por este jornal, ano passado, da boca de um outro deputado, também evangélico, falando a políticos de seu grupo, admoestando-os de que desejar a morte de Lula “não funciona”, pois ele mesmo já orou "muito".

"Fazei bem aos que vos perseguem e orai pelos vossos inimigos" é ordem dada pelo Cristo, a quem dizem seguir; ordem que se junta a tantas outras, às quais os nobres deputados parecem desconhecer.

Nas proximidades de sua "paixão", segundo relato do Evangelho de João, lê-se o que seria a "oração sacerdotal" que Cristo fez ao Pai, com um desejo: que olhando para seus seguidores, "o mundo creia". O testemunho que tais falas nos dão nos permitem crer no Cristo? O leitor veria Jesus, Maria, os apóstolos, os profetas e os santos desejar "crises de convulsão", "AVC" e "oração pela morte" de desafetos? Como esquecer a ordem de Jesus para que Pedro guardasse sua espada, que desejava usar contra o soldado romano?

Nobres excelências, "convertei-vos e crede no Evangelho". Em nome de Jesus, "até por uma coroa trocar!". 

(*) Professor adjunto de teoria política da Uece/Facedi.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 18/02/26. Opinião. p.10.

sábado, 7 de março de 2026

LISTA TENEBROSA

Por Rev. Munguba Jr. (*)

No Novo Testamento, a palavra grega allélon () significa “uns aos outros” ou “mutuamente”. Ela aparece cerca de 100 vezes, com ênfase nos relacionamentos de qualidade. Realça para nós um dos significados da Cruz de Cristo, com suas duas hastes apontando: a vertical para o relacionamento com Deus e a horizontal para o relacionamento com os homens.

O texto sagrado afirma em 1 João 3:16: “Nisto conhecemos o amor: que Cristo deu a sua vida por nós; e nós devemos dar nossa vida pelos irmãos”. Ser um cristão verdadeiro é amar o próximo como a si mesmo.

No início deste mês de fevereiro, os EUA liberaram metade da lista de Epstein, lista que retrata uma faceta terrível do gênero humano. São revelações que, até pouco tempo, eram chamadas de “teoria da conspiração”; postagens nas redes sociais eram derrubadas, remunerações proibidas e, para se falar sobre o assunto, era necessário alterar partes das palavras na tentativa de se proteger da censura.

A ONU afirma que cerca de um milhão de crianças somem todos os anos no mundo e nunca mais são encontradas. Já o International Centre for Missing & Exploited Children aponta para mais de oito milhões. Meninas e meninos levados para ilhas distantes, desconstruindo definitivamente seus sonhos e trazendo traumas para toda a existência, chegando, em alguns casos, à subtração da própria vida.

Constam na lista líderes mundiais, políticos proeminentes, príncipes e empresários de grande expressão no cenário internacional. Homens e mulheres que já conquistaram praticamente tudo o que se pode comprar e entraram em uma espiral de loucura, buscando novos e proibidos prazeres.

A que ponto de degradação pode descer o ser humano? Manchar deliberadamente a criação de Deus quando indefesa, ou ludibriada com promessas de uma vida de prosperidade.

Existem relatos de canibalismo e assassinatos com tentativa de ocultação de cadáveres.

O plano de Deus para o nosso planeta é que mantenhamos o princípio cristão de tratar os outros como gostaríamos de ser tratados. Olhar no outro a glória de Deus, a beleza dos iguais que, mesmo diferentes, são igualmente preciosos.

Vamos orar, pedindo a Deus que ilumine as nações, trazendo verdadeiro amor e consideração entre nós, humanos.

(*) Pastor Munguba Jr. Embaixador Cristão da Oração da Madrugada e Erradicação da Pobreza no Brasil e presidente da Igreja Batista Seven Church.

Fonte: O Povo, 17/01/2026. Opinião. p.16.


No "Messias", todos encontram a salvação (?)

Por Emanuel Freitas da Silva (*)

A instrumentalização do campo evangélico pelo bolsonarismo encontra algumas vozes dissidentes, que se expressam tanto no mercado editorial (vide as obras “E a verdade vos libertará”, de Ricardo Alexandre, e “Igreja Polarizada”, de Gutierres Siqueira) como nos púlpitos das igrejas e dos parlamentos.

Nestes, destacam-se o deputado federal Otoni de Paula (MDB-RJ) e o nosso estadual Apóstolo Luiz Henrique (REP).

Otoni tem sido a voz evangélica nacional mais estridente contra a captura das igrejas pelos próceres do bolsonarismo, incluindo, em suas críticas, Silas Malafaia.

Na sua empreitada para desvencilhar a fé cristã (evangélica) das amarras do bolsonarismo, o deputado chegou a um ponto muito interessante no último dia 29/01, em vídeo postado em suas redes, ao lembrar que a “manipulação” e “o engano” de pastores teriam sido “tão grandes” que os levou a fechar os olhos ao ato de “consagração do Brasil a Nossa Senhora” pelo ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), em vez de terem denunciado “o pecado da idolatria” cometido pelo “Messias”.

O leitor não entendeu? Explico: o deputado lembrou a seus irmãos de fé aquilo que se diz, diuturnamente, em muitos templos evangélicos desde a reforma protestante, ou seja, que católicos praticam “idolatria” ao “adorarem imagens” de Jesus, Maria, dos santos e dos anjos; tal “pecado”, como se dizem nas pregações evangélicas, não leva à salvação. Como, pois, denunciar o que faz um fiel católico e se calar diante de idolatria maior cometida pelo presidente que os evangélicos apontam como “cristão”?

Quem circula por ambientes católicos também escuta a exclusão de evangélicos do “reino” de Cristo, para onde alguns poucos irão. Carismáticos nomeiam como “falsas doutrinas” toda e qualquer denominação que não seja a própria Igreja, pois só esta tem “as chaves do céu”; o mesmo pode se ouvir nas pregações dos “tradicionalistas”, ambos animados pelo conteúdo da Declaração Dominus Iesus, assinada no ano 2000 por João Paulo II – “fora da Igreja Católica não há salvação”.

Mas, no Brasil vemos o milagre da união dos tidos como “idolatras”, por uns, com os tidos seguidores das “falsas doutrinas”, por outros, que põem fim às diferenças em nome da causa do “Messias”.

(*) Professor adjunto de teoria política da Uece/Facedi.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 4/02/26. Opinião. p.14.


 

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