Por Patrícia Soares de Sá Cavalcante (*)
Em São Petersburgo, há alguns dias de verão
em que o sol se recusa a desaparecer por completo. As noites não escurecem,
permanecendo suspensas na claridade do crepúsculo. Noites Brancas foi minha
última leitura de 2025. Uma novela de Dostoievski sobre dois jovens que se
encontram durante quatro dessas noites luminosas. Curiosamente, terminei o
livro no dia 25 de dezembro, enquanto recebia mensagens de amigos queridos
desejando feliz Natal e um ótimo Ano-Novo.
O protagonista se autodenomina um sonhador
- alguém que passou a vida inteira sonhando acordado, encolhido em seu refúgio
como um caracol na concha, solitário, distante da realidade concreta.
Nástienka, a moça por quem se apaixona, vive presa: a avó cega mantém os
vestidos das duas unidos apenas por um alfinete.
A atmosfera onírica das noites brancas torna-se
o cenário perfeito para esse encontro improvável.
Nessas quatro noites, caminhando sobre as
pontes da cidade, o sonhador experimenta algo nunca vivido. Um momento de
intimidade, ainda que breve.
As pontes atravessam o rio, mas reduzem a
distância entre dois solitários e ligam o imaginar ao viver. Sonho e realidade
não são opostos irreconciliáveis. São duas faces da mesma moeda, e a vida
acontece justamente no equilíbrio entre eles.
Pensei bastante sobre essa imagem: o sol
que se recusa a se pôr. No sonhador, ela ganha forma: a tentativa de manter
acesa uma luz capaz de dar conta da própria escuridão. Não precisamos viver o
tempo todo sonhando, mas esses intervalos de luz são vitais.
"As noites brancas virão". É o
consolo de quem vive na escuridão durante os meses de inverno em São
Petersburgo. Elas duram apenas algumas semanas por ano. São um fenômeno
efêmero, e é justamente essa brevidade que as torna preciosas.
Haverá dias frios. A escuridão virá
certamente. Mas, por vezes, você será esse sol que insiste em não se pôr. Viva
suas próprias noites brancas: luminosas, imprescindíveis. Ainda que seja por
alguns instantes.
(*) Médica
psiquiatra.
Fonte: Publicado In: O Povo, de 30/12/2025. Opinião. p.18.

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