quinta-feira, 6 de agosto de 2026

Praça Luiza Távora: um pedaço de cidade sem sorte

Por Romeu Duarte Junior (*)

Como se dizia antigamente no saudoso Pasquim, meninos, eu vi! Vi com estes olhos que a terra há de comer um dia. Foi com assombro e êxtase que dei com ele pela primeira vez. Já abandonado, esvaziado dos seus moradores, o mato crescendo à volta, os palacetes fechados, em meio a um dos locais mais belos da Aldeota onde os oitizeiros dão-se os galhos num abraço de sombra e afeto. Sim, caras e caros, estou falando do Castelo do Plácido, obra monumental que o seu dono mandara projetar pelo maior arquiteto do Ceará    de todos os tempos, João Sabóia Barbosa, para agradar sua esposa italiana. Em 1974, um grupo empresarial comprou e demoliu o edifício para no terreno construir um centro comercial. Talvez por maldição, quebrou que apartou. Os palacetes restaram lá.

Ednardo, o grande cantor de Fortaleza, nos embalou com a bela "Longarinas" logo após a perda do palácio: "E a lua viu desconfiada; a noiva do sol com mais um supermercado; era uma vez o meu castelo entre mangueiras; e jasmins florados; e o mar engolindo lindo; e o mal engolindo rindo". Algum tempo depois, alguém teve a bela ideia de implantar na praça criada um centro de exposição e comercialização do artesanato cearense. Confiou-se o projeto ao engenheiro Pedro Natale Rossi, sobrinho da proprietária original e famoso pelas casas que então projetava e construía. No projeto que elaborou, usou carnaúba, concreto, alvenaria e telha de barro. Talvez porque foi retirada a casca dos troncos da palmeira, a estrutura colapsou, o que fez com que a obra fosse demolida. Triste.

Súbito, chega-me a infausta notícia de que o Metrofor interditará a praça por dois anos e meio para a construção de uma estação metroviária subterrânea, cuja implantação importará na escavação de uma vala de 38 metros de profundidade com diâmetro de mesma dimensão, o que fará com que seja suprimida boa parte da arborização. Pergunta-se: a central de artesanato e os palacetes serão também afetados pelo impiedoso tatuzão? Mais uma indagação: Fortaleza tem um metrô ou é o metrô que manda na cidade? Será que não há alternativas para a solução do problema de engenharia? Acode-me Roberto Carlos, o Rei: "Não sou contra o progresso, mas apelo pro bom senso". Depois da tragédia de Parangaba, mais essa. Será que o Ednardo vai ter que fazer mais uma canção?

(*) Arquiteto e professor da UFC. Sócio do Instituto do Ceará. Colunista de O Povo.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 6/07/26. Vida & Arte. p.2.


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