Por
Romeu Duarte Junior (*)
Como se dizia antigamente no saudoso
Pasquim, meninos, eu vi! Vi com estes olhos que a terra há de comer um dia. Foi
com assombro e êxtase que dei com ele pela primeira vez.
Já abandonado, esvaziado dos seus moradores, o mato crescendo à
volta, os palacetes fechados, em meio a um dos locais mais belos da Aldeota
onde os oitizeiros dão-se os galhos num abraço de sombra e afeto. Sim, caras e
caros, estou falando do Castelo do Plácido, obra monumental que o seu
dono mandara projetar pelo maior arquiteto do Ceará de todos os tempos, João Sabóia Barbosa,
para agradar sua esposa italiana. Em 1974, um grupo empresarial comprou e
demoliu o edifício para no terreno construir um centro comercial. Talvez por
maldição, quebrou que apartou. Os palacetes restaram lá.
Ednardo, o grande cantor de Fortaleza, nos
embalou com a bela "Longarinas" logo após a perda do palácio: "E
a lua viu desconfiada; a noiva do sol com mais um supermercado; era uma vez o
meu castelo entre mangueiras; e jasmins florados; e o mar engolindo lindo; e o
mal engolindo rindo". Algum tempo depois, alguém teve a bela ideia de
implantar na praça criada um centro de exposição e comercialização do
artesanato cearense. Confiou-se o projeto ao engenheiro Pedro Natale Rossi,
sobrinho da proprietária original e famoso pelas casas que então projetava e
construía. No projeto que elaborou, usou carnaúba, concreto, alvenaria e telha
de barro. Talvez porque foi retirada a casca dos troncos da palmeira, a estrutura
colapsou, o que fez com que a obra fosse demolida. Triste.
Súbito, chega-me a infausta notícia de que
o Metrofor interditará a praça por dois anos e meio para a construção de uma
estação metroviária subterrânea, cuja implantação importará na escavação de uma
vala de 38 metros de profundidade com diâmetro de mesma dimensão, o que fará
com que seja suprimida boa parte da arborização. Pergunta-se: a central de
artesanato e os palacetes serão também afetados pelo impiedoso tatuzão? Mais
uma indagação: Fortaleza tem um metrô ou é o metrô que manda
na cidade? Será que não há alternativas para a solução do problema de
engenharia? Acode-me Roberto Carlos, o Rei: "Não sou contra o progresso,
mas apelo pro bom senso". Depois da tragédia de Parangaba, mais essa. Será
que o Ednardo vai ter que fazer mais uma canção?
(*) Arquiteto e
professor da UFC. Sócio do Instituto do Ceará. Colunista de O Povo.
Fonte: Publicado In: O Povo, de 6/07/26. Vida & Arte. p.2.

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