terça-feira, 21 de julho de 2026

Tirar a marca d'água de fotos com IA para não pagar pela imagem é crime

Por Ana Rute Ramires (*)

Parece que alguns corredores que desfilam pela Beira Mar não gostam de pagar o devido valor das imagens de seus treinos aos fotógrafos que madrugam para registrá-las. Mas, usar inteligência artificial para retirar a marca d’água de fotos profissionais e utilizar a imagem sem pagar ao autor — além de desrespeitoso — é crime.

Conforme Iago Capistrano, vice-presidente da Comissão de Direito Digital, Inovação, Inteligência Artificial e Startups da Ordem dos Advogados do Brasil – Secção Ceará (OAB-CE), "a remoção de marcas d’água de fotografias, seja por inteligência artificial ou outros meios, constitui uma violação direta da Lei de Direitos Autorais e do Código Penal".

O fotógrafo pode processar quem utilizou a foto, exigindo a retirada imediata da imagem do ar e uma indenização por danos morais e materiais.

Em Fortaleza, fotógrafos do Fotopix e do Olha a Foto decidiram usar a plataforma de venda de fotos Banlek, que possui um aplicativo para Android e IOS com bloqueio de print na tentativa de coibir a prática.

Nicola Braga, fotógrafo esportivo, diz que começou a perceber o uso indevido de suas fotos de forma mais evidente nos últimos meses, principalmente com a popularização das ferramentas de inteligência artificial.

"Antes já existiam casos de pessoas recortando ou tentando editar as imagens, mas agora o processo ficou muito mais simples e acessível, o que aumentou bastante esse tipo de prática", conta.

Segundo o profissional, que trabalha com fotografia esportiva desde 2000, o impacto financeiro é significativo.

"Cada fotografia comercializada representa o resultado de investimento em equipamentos, deslocamento, equipe, conhecimento técnico e horas de trabalho antes, durante e depois do evento", diz.

Ele destaca que, além do prejuízo financeiro direto, utilizar a foto sem pagar acaba desvalorizando o trabalho do fotógrafo e coloca em risco a sustentabilidade da profissão.

Para Nicola, não vale a pena entrar com um processo: "Prefiro que a pessoa se conscientize em NÃO fazer mais aquilo".

"A intenção do vídeo que publiquei não é apenas denunciar esse tipo de prática, mas conscientizar as pessoas de que por trás de cada fotografia existe um profissional que vive desse trabalho e depende da venda das imagens para continuar registrando momentos especiais", diz, sobre publicação recente no Instagram sobre o tema.

Direitos autorais: o que diz a lei

Conforme a Lei de Direitos Autorais (Lei nº 9.610/1998), a obra fotográfica é protegida por lei desde o momento da sua criação, independentemente de o autor (fotógrafo) ter realizado um registro oficial.

Além disso, o advogado explica que a marca d'água é considerada uma informação de gestão de direitos autorais.

Removê-la por meio de inteligência artificial ou qualquer outra ferramenta é uma conduta proibida, pois viola a mensagem explícita de que a imagem não deve ser utilizada sem a devida remuneração ao autor.

Na esfera criminal, Iago Capistrano afirma que o ato se enquadra no crime de Violação de Direito Autoral Código Penal Brasileiro (Art. 184: Violar direitos de autor e os que lhe são conexos), cuja pena pode ser detenção de 3 meses a 1 ano, ou multa.

Se a remoção da marca d'água for feita com o intuito de vender, explorar publicamente ou lucrar com a imagem (de forma direta ou indireta), a pena torna-se mais severa, podendo chegar a 2 a 4 anos de reclusão e multa.

O que fazer se identificar violação de seus direitos autorais

Se autor identificar que sua obra foi utilizada indevidamente ou que a marca d'água foi removida, a primeira providência é documentar tudo antes de fazer contato com a pessoa que usou a foto indevidamente.

O fotógrafo deve tirar prints (capturas de tela) de onde a imagem foi publicada, registrar a data do acesso, o perfil de quem utilizou a foto e o contexto do uso (se é para fins pessoais ou comerciais).

O autor da imagem também pode utilizar os mecanismos de denúncia das redes sociais (Instagram, X, Facebook, etc.).

As plataformas têm a obrigação legal de remover conteúdos que violem direitos autorais mediante a comprovação da autoria.

"O autor pode notificar extrajudicialmente, ou seja, sem se valer das vias do poder judiciário, a pessoa que fez essa prática, a pessoa infratora, exigindo que o conteúdo seja retirado e até pedindo uma indenização pela violação dos direitos autorais", explica.

De acordo com o advogado Iago Capistrano, uma ação cível é a via mais eficaz para quem busca uma reparação financeira pelos danos causados.

Caso deseje a responsabilização criminal, o fotógrafo deve registrar um Boletim de Ocorrência (BO) para dar início ao processo.

(*) Jornalista de O Povo.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 21/06/26. Esportes, p.2.


segunda-feira, 20 de julho de 2026

BORA BRINCAR

Por Izabel Gurgel (*)

Chegamos em Alcântara para os últimos dias da Festa do Divino. Acompanhamos o Imperador e comitiva em cortejo, indo a cada uma das casas dos nove mordomos previamente escolhidos para receber a real visita. Era o começo da despedida, o Imperador agradecia a acolhida ao longo da temporada.

O cortejo incluía as mulheres caixeiras do Divino Espírito Santo, tocadoras responsáveis pela animação da sala de baile que havia em cada casa. Em cada casa, havia também uma sala do trono e uma do banquete. Os mordomos e suas famílias, o que meus olhos de visitante queriam e podiam perceber, eram a parte mais visível da mobilização de Alcântara inteira para a festa. O todo, sabemos, pode tocar algo maior do que a soma das partes.

Depois de Alcântara, dava mais gosto ainda ver, rever o documentário de Isa Grinspum Ferraz, com argumento de Antônio Risério, feito a partir do livro "O povo brasileiro", de Darcy Ribeiro (1922-1997). E encontrar Agostinho da Silva a dizer do desejo, da utopia de uma era sem fome, onde haveria abundância para todas as pessoas, e todos os seres experimentariam a plenitude. Ouvir Agostinho da Silva (1906-1994) sobre a figura do Imperador Criança, um menino ou uma menina fazendo a real presença viver naquele pedaço do mundo, é uma fala de sustança até hoje.

Dia desses, uma contadora de histórias com origem nos Inhamuns e moradora da serra de São Pedro, Caririaçu, me enviou um vídeo da feitura de uma iguaria da Festa do Divino em, salvo engano, algum lugar do imenso Tocantins. Atriz e produtora cultural, Thailyta Feitosa sabe bem que o que quer que seja necessário para uma cena, incontornável é a aplicação ao que precisa ser feito.

Os nove banquetes da (última?) noite de festa em Alcântara vez e outra figuram na memória. Pelo imenso trabalho que torna cada um deles possível. Pela inscrição que deixam em quem viveu pelo menos um deles. Mesmo que, como se deu conosco, nada tenham saboreado, uma vez que as crianças de Alcântara, como diz a boa saúde de uma criança, vivem tal noite tocadas pelo para-sempre e adivinhando os nunca-mais.

Fizemos todo o cortejo, casa após casa, com rapapés na sala do trono, um toque de caixa na sala de baile e a passagem à sala do banquete. As crianças nos antecediam, e pareciam coladas à cada mesa mui fartamente montada. Eram a mais bonita interdição do acesso às bebidas, comidas e lembrancinhas de cada casa. Elas viam melhor o bolo confeitado - cada um único, irrepetível - não porque se tornassem, elas próprias, partes da mesa, mas pelos olhos então nunca saciados da capacidade de se encantar, de lamber o mundo. Dia já clareando, de volta à pousada, provamos no café o doce de espécie servido na festa. E haveria, na manhã iniciada, o banquete final na casa do Imperador.

Foi o colega jornalista Arthur Gadelha ligar sobre a pauta de festa junina que ele acabara de receber e eu lembrar do serviço grande que uma festa requer. Já reparou como brilham cada vez mais as pessoas que brincam quadrilha? A brincadeira é a sustentação do todo-dia.

(*) Jornalista de O Povo.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 21/06/26. Vida & Arte, p.2.


SUAVE COISA NENHUMA

Por Patrícia Soares de Sá Cavalcante (*)

Estava no Parque Ibirapuera em um sábado pela manhã. Costumo ir aos domingos, quando a maioria das pessoas passeia ou se dedica a outras atividades. Havia muito mais gente correndo. Tanta gente que o som dos sapatos batendo no chão se impunha: alto, contínuo, forte.

Lembrei-me de quando morei em São Paulo. Vinda do Ceará, uma das coisas que mais me impressionava era a velocidade com que as pessoas andavam em fluxo no metrô. Não havia outra opção senão seguir. Lá, prevalecia o barulho do trem. Ali, no parque, o som vinha inteiramente dos passos: um ritmo repetido, em cadência, quase uma marcha.

Naquele dia, eu apenas caminhava. Gosto de experimentar os hábitos de quem mora no lugar. Pensei que, para os paulistanos, o parque é como a praia é para mim. Era um dia ensolarado de outono, mas, na sombra, o frio se insinuava. Muitas folhas amareladas cobriam a calçada. Por mim, permaneceriam ali; não precisariam ser varridas, assim como as árvores não deveriam ser podadas. Elas são bonitas em sua inteireza, e também são inteiras quando lhes faltam as folhas.

A agitação da corrida ao meu redor parecia ter se instalado em mim. Meus olhos necessitavam e buscavam o que se movia devagar. Uma rajada de vento trouxe uma chuva dourada. Folhas caíam no chão, mas antes flutuavam, dançavam como leves plumas. Obedeciam a um tempo próprio. Em que momento cairiam?

Já os passos seguiam o tempo do relógio, persistiam firmes, sem trégua, e meu corpo se sentia impelido a acompanhar. Existia um compasso que convidava; bastava entrar. Por um momento, quase fui. Hesitei. Mas decidi não ir - e havia um peso que não se via. Suave coisa nenhuma.

As folhas continuariam caindo por alguns dias. Em breve, aquelas árvores estariam completamente despidas, lembrando os vasos sanguíneos do coração, até que o verde voltasse a pulsar. É assim todos os anos.

A maioria das folhas já havia caído, poucas ainda pairavam sob a brisa, sem direção certa, entregues ao vento. Parecia possível adiar o chão.

Onde pousariam?

(*) Médica psiquiatra.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 16/06/2026. Opinião. p.16.


domingo, 19 de julho de 2026

POSSE DA XXV DIRETORIA DA ACADEMIA CEARENSE DE MEDICINA

Mesa diretora e acadêmicos na solenidade de posse da XXV Diretoria da ACM em 15/05/26. (Foto cedida pelo Argollo de Menezes).

A Academia Cearense de Medicina (ACM) efetuou na noite de 15/05/2026, no Auditório Reitor Martins Filho da Reitoria da Universidade Federal do Ceará (UFC), a solenidade de posse da sua nova diretoria, para o biênio 2026-28, que terá na sua Presidência o Acad. Ivan de Araújo Moura Fé, substituindo o Acad. José Henrique Leal Cardoso.

Comportou ao Acad. José Henrique Leal Cardoso empossar e passar o colar presidencial ao novo presidente, após o que o presidente recém-empossado nomeou e deu posse aos componentes da nova Diretoria Executiva e do respectivo Conselho Fiscal.

A nova Diretoria Executiva da ACM tem a seguinte composição: Acad. Ivan de Araújo Moura Fé (Presidente), Acada. Sara Lúcia Ferreira Cavalcante (Vice-Presidente), Acad. Sebastião Diógenes Pinheiro (Secretário Geral), Acad. Paulo Roberto de Arruda Tavares (Secretário Geral Adjunto), Acad. Paulo Henrique de Moura Reis (1º Secretário), Acad. Lúcio Flávio Gonzaga Silva (2º Secretário), Acad. Paulo Marcos Lopes (1º Tesoureiro), Acad. Ernani Ximenes Rodrigues (2º Tesoureiro) e ainda Acad. José Lima de Carvalho Rocha e Acad. Pedro José Negreiros de Andrade (Diretores Vogais).

Ato contínuo, o presidente recém-empossado nomeou e deu posse aos seguintes dirigentes: Diretor Científico (Acad. Luiz Gonzaga Moura Jr.), Diretor Editorial (Acad. Marcelo Gurgel Carlos da Silva), Diretor de Biblioteca, Arquivo e Museu (Acad. João Martins de Souza Torres), Diretor Social (Acad. Vladimir Távora Fontoura Cruz), Diretor de Informática (Acad. Antônio Augusto Guimarães Lima), Diretor de Cultura: (Acad. Raimundo José Arruda Bastos) e Diretor-Presidente do Conselho Consultivo: (Acad. José Henrique Leal Cardoso).

O Conselho Fiscal da ACM empossado tem por membros efetivos os acadêmicos: Heládio Feitosa de Castro Filho (Presidente), Francisco Jean Crispim Ribeiro e Sílvia Maria Meira Magalhães, e como suplentes Francisco Flávio Leitão de Carvalho e Maria Helena da Silva Pitombeira.

Na oportunidade, a ACM realizou a posse do seu membro honorário Hugo Santana de Figueiredo, ilustre e conceituado oftalmologista radicado no Cariri cearense, que foi recepcionado, em nome do sodalício, pelo Acad. Vladimir Távora Fontoura Cruz, seu colega de turma médica e proponente da concessão desse título acadêmico. Em seguida, cumprindo o ritual de posse, o Acad. Hugo Santana de Figueiredo pronunciou o seu discurso de agradecimento, permeado de caras lembranças da sua trajetória de vida profissional.

O evento foi conduzido de forma exitosa pelo cerimonialista Acad. Vladimir Távora Fontoura Cruz, consoante protocolo cuidadosamente por ele elaborado.

Após o término dos trabalhos, a diretoria da ACM e o Acad. Hugo Santana de Figueiredo proporcionaram aos acadêmicos e seus convidados um coquetel de congraçamento nos jardins da Reitoria da UFC.

Cons. Marcelo Gurgel Carlos da Silva

Membro titular da ACM – Cadeira 18

* Publicado. In: Jornal do médico digital, 22(206): 10-11, junho de 2026. (Revista Médica Independente do Ceará).


O coração que procura, cura e se dá

Por Pe. Reginaldo Manzotti (*)

O mês de junho ocupa um lugar singular na espiritualidade católica. Além de celebrarmos os santos juninos é o tempo em que a Igreja volta seu olhar, de modo especial, para o Sagrado Coração de Jesus, fonte inesgotável de amor, misericórdia e entrega total. Ao mesmo tempo, celebramos Corpus Christi, solenidade que nos convida a contemplar o mistério da Eucaristia: Cristo que permanece conosco, fazendo-Se pão partido para a vida do mundo.

Essas duas devoções, embora distintas em forma, estão profundamente unidas em conteúdo. Ambas nos conduzem ao mesmo centro: o amor de Jesus que Se doa sem reservas.

Desde a infância, a devoção ao Sagrado Coração de Jesus não foi apenas um ensinamento, mas um ambiente em que cresci. Lembro-me nitidamente de minha mãe usando, com simplicidade e fé, a fita do Apostolado da Oração, e de como a Comunhão Eucarística da primeira sexta-feira do mês era parte sagrada da rotina familiar. Antes mesmo de compreender plenamente a teologia dessa devoção, eu já aprendia, pelo exemplo, que o Coração de Jesus é escola de amor, fidelidade e entrega.

Celebrar o Sagrado Coração é deixar-se envolver por um Deus que não permanece distante, mas que se compromete profundamente com a humanidade, um Deus que ama com um coração que pulsa de compaixão, que sofre com a indiferença humana, mas que nunca deixa de amar. Ao contemplarmos esse Coração, somos convidados a reconhecer que Deus não é distante nem indiferente: Ele tem um coração e esse coração nos ama pessoalmente e individualmente.

Na profecia de Ezequiel 34,11-16, Deus se revela como um pastor que não terceiriza o cuidado de seu rebanho. Ele mesmo sai em busca das ovelhas perdidas, recolhe as dispersas, cura as feridas e fortalece as fracas. Esse texto não fala apenas de proteção, mas de proximidade ativa. O coração de Deus é inquieto diante da dor de seus filhos.

Essa imagem do Pastor reflete claramente o Coração de Jesus: um coração que vê, que se move e que age. Não é um amor genérico, mas pessoal. Cada ovelha é conhecida, cada ferida é tocada. No Sagrado Coração, encontramos um Deus que não desiste de procurar, mesmo quando nos afastamos.

Essa Palavra me tocou muito fundo. Ao meditá-la, imagino Jesus dizendo, com a ternura do Bom Pastor: "Eu encontrei e resgatei a minha ovelha que usava drogas. Eu busquei a minha ovelha que pensava em suicídio. Eu encontrei a minha ovelha machucada. A minha ovelha que abandonou a Igreja, eu busquei. A minha ovelha que não se rendeu aos meus ensinamentos, eu busquei. Aquela pessoa que ninguém quis amar, eu busquei. Eu encontrei a minha ovelha."

Assim é o Coração de Jesus: um coração que não se cansa, que atravessa a noite, que vai ao encontro do perdido, do ferido, do rejeitado. Um coração que não desiste de amar.

No Evangelho de João 19,34, ao pé da cruz, o soldado abre com a lança o lado de Jesus, e de seu interior brotam sangue e água. A Igreja sempre reconheceu nesse gesto mais que um fato histórico: é a revelação suprema do amor. O Coração de Jesus é aberto, não por acaso, mas como sinal de que nada é retido, tudo é entregue.

A água recorda o Batismo; o sangue, a Eucaristia. Do Coração transpassado nascem os sacramentos que sustentam a vida cristã. Olhar para esse Coração ferido é compreender que o amor de Deus não é teórico, é concreto, passou pela dor, pela rejeição e pela cruz.

Como expressa belamente Santo Agostinho: "Vosso Coração, Jesus, foi ferido para que na ferida visível contemplássemos a ferida invisível do vosso grande amor."

A lança abriu o lado de Cristo, mas foi o amor que já havia aberto seu Coração muito antes.

A prática da Comunhão reparadora nas primeiras sextas-feiras do mês não é um ritual vazio, mas uma resposta de amor ao amor. Reparar não significa assumir culpas alheias, mas oferecer presença, fidelidade e consolo ao Coração tantas vezes ferido pela indiferença, pelo pecado e pelo esquecimento.

Em um mundo marcado pela pressa, pela superficialidade e pela dureza das relações, o Sagrado Coração de Jesus permanece como um convite sempre atual: "Aprendei de mim, que sou manso e humilde de coração."

Ele continua procurando ovelhas feridas, oferecendo repouso às cansadas e esperança às que se sentem esquecidas. Celebrar junho como mês do Sagrado Coração é mais do que manter uma tradição; é renovar uma escolha.

Escolher viver a partir do amor que se doa, do cuidado que se compromete, da fé que se traduz em gestos concretos.

Que o Sagrado Coração de Jesus continue sendo nossa morada, nossa escola e nossa esperança.

(*) Fundador e presidente da Associação Evangelizar é Preciso e pároco reitor do Santuário Nossa Senhora de Guadalupe, em Curitiba (PR).

Fonte: O Povo, de 13/06/2026. Opinião. p.24.


sábado, 18 de julho de 2026

Amizade abusiva Parte 2/2

Por Pedro Bezerra de Araújo – Pierre Nadie

- Amizade possessiva e pegajosa. 

Na verdade, um conflito interior de carências e de baixa autoestima, busca, incessantemente, uma tábua de garantir alguma segurança, uma vez que a instabilidade emocional cobra, de maneira possessiva, tornando-se insana obsessão. O ciúme enverga o rigor do bastão do controle, com investidas contra até mesmo um sorriso inocente. Este tipo doentio de amizade não abraça, prende; não dialoga, impõe; não confia, sufoca. Atitudes, que tentam isolar até mesmo do círculo de familiares. Trata-se de uma amizade, que consome e que pode chegar a níveis, altamente, perigosos. Características, que apontam tal amizade: chantagem emocional, invasão de privacidade, vitimização e outras.

- Amizade subserviente e dependente. Esta modalidade também é disfuncional. Enquanto uma parte desdobra-se em servir e ser agradável, a outra parte não reage com cumplicidade, ou seja, não há mutualidade. Há uma carência e uma dependência emocional, com forte medo de perda, se não permanecer, irrestritamente, ‘servil’; e uma ansiedade angustiante termina por uma anulação pessoal, cedendo a atitudes abusivas. Cedo ou tarde, vem o desgaste pelo desequilíbrio ‘inter pares’.

- Amizade dominadora. Pior que ‘um chato de galocha’, esta amizade tóxica é própria de pessoas autossuficientes, egoístas e orgulhosas, com laivos de narcisismo. Determina regras e cobra atitudes, chegando a impor sua vontade, seus valores e suas opiniões. Aponta defeitos, estabelece limites e trata a outra parte como ‘tabula rasa’. Não há espaço para diálogo, nem para críticas.

- Amizade interesseira. Enquanto ferve a panela, prospera a amizade. Na verdade, não há traços vinculantes de afeto, nem dança de empatia. O móvel deste relacionamento é a conveniência para um ou para ambos. A aproximação está sujeita a necessidades, ou seja, quando surgem problemas, sendo que, na maioria das vezes, também não há reciprocidade, se é a outra parte que está precisando de apoio.

- Amizade predadora. Este modal pode-se dizer que é o extremismo do anterior. Os motivos que levam a este tipo são diversos, inclusive a vingança e a inveja, no sentido de falsear sentimentos para extrair vantagens excessivas, que minam bens, segurança e podem anular sonhos e conquistas pessoais. A máscara de empatia busca barganhar confiança da outra parte, com o objetivo de manipular e explorar: dourar a pílula não transforma em ouro ouropel.

O predador intenta anda isolar a pessoa de amigos e de familiares, que possam denunciar a exploração.

Nada, portanto, mais triste e deprimente, quando toda uma afeição amigável é contrastada pela hipocrisia e traição de quem se tinha a certeza de que fluía uma verdadeira amizade e sincera.

Nossa contingência, sabe-se, exibe uma caixinha de surpresas, que orquestram nossas fragilidades, mas norteiam também nossas qualidades, ainda que idiossincrasias internas possam ocultar algumas ou, infelizmente, quase todas. E tudo isso tem um balizamento pelo nosso livre arbítrio, o qual, por sua vez, atende aos alicerces que fundamos no nosso ser e nos torna responsáveis pela amizade que cativamos, como diz o Pequeno Príncipe.

Enfim, a amizade precisa aprender que a atitude do amigo deve ser mais compreensível do que repreensível, porém sem se furtar, tampouco omitir-se em momentos necessários. E, mais do que isso, a prudência deve conjugar-se com a sabedoria, ao compreender que cultivar uma amizade é tomar consciência de que neste jardim, não florescem rosas sem espinhos e que os espinhos falam da humildade e simplicidade, ao lado das rosas, que exalam prazer e alegria. Sem essa consciência assumida, não é de estranhar que se pode perder num minuto uma amizade de muitos anos, talvez, sem mesmo dar tempo de ouvir o ‘canto do cisne’, porque a hora não demora.

Dignidade humilhada e ferida, triste amizade perdida.

E, no caminho, que não se ouça nenhum aboio, porque a toada é do apoio afetuoso, que anda ao lado.

Uma saudável quinta-feira, com as bênçãos de Deus e a proteção de Maria!!!

(*) Pediatra e professor da Uece aposentado. Enviado por WhatsApp em 25/06/26.


Amizade abusiva Parte 1/2

Por Pedro Bezerra de Araújo – Pierre Nadie

- Alguma vez, passou-lhe pela mente o termo ‘amizade de araque’?

- Alguma vez, conheceu uma decepção de amizade?

- Você já ouviu: quem tem um amigo ‘assim’ não precisa de inimigo?

Relacionamentos humanos não têm bola de cristal, nem são imunes às fragilidades e instabilidades da natureza humana. Não há um padrão, nem existe uma receita. São uma construção, cuja beleza e segurança provêm de seus fundamentos, da pedra de base.

Antes do uso da razão, somos movidos por emoções, cuja coordenação nos vem na aprendizagem, que nos é dada, inicialmente, no colo materno e no convívio familiar. É de pequeno que se começa a forjar o caráter, que nos marcará tanto relacionamentos intrapessoais como amizades e amores.

Somos todos seres de relacionamento, no tecido social ao qual nos associamos, como próprio de nossa natureza, mesmo antes de nosso nascimento. E, a partir de nosso epicentro, criamos uma interatividade mútua e vamos aprendendo e vivenciando papéis que o convívio social exige de nós. Nossa individualidade nos caracteriza e, com ela e, através dela, estabelecemos relacionamentos de diversos matizes.

Existem as amizades serenas, onde a mutualidade de respeito e afeto sela a dignidade entre os amigos. Este modal traz o sinete das individualidades envolvidas e busca superar os mal-estares que, por certo, surgirão: o melhor amigo, um dia, magoará o outro e é, nessa situação, que o valor da amizade se manifesta, no diálogo amistoso e no apoio da correção honrosa ou no desvalor de uma acusação impiedosa sem diálogo e numa penalidade, estranhamente, desonrosa; e, num minuto, pode-se esvair uma amizade, cujo terreno parecia fértil e ora desnuda-se, mostrando-se pedregoso: ‘amicus certus in re incerta cernitur’.

Há amizades, que, de fato, não mereciam ser assim denominadas. São as ditas amizades abusivas ou tóxicas, aquelas, cujo foco não é o bem-estar de ambas as partes, ou quando interesses outros, que não empáticos, dominam uma das partes. Eis algumas dentre muitas outras tipologias:

--- Continua

Uma boa quarta-feira, com as bênçãos de Deus!!!

(*) Pediatra e professor da Uece aposentado. Enviado por WhatsApp em 25/06/26.


sexta-feira, 17 de julho de 2026

O que pensas? Em que estás a pensar? Como estás pensando?

Por Pedro Bezerra de Araújo – Pierre Nadie

Pensar é uma das características basilares da criatura humana. Pensar nos molda ou nós o moldamos?

Muitas ideias, opiniões, considerações passam pela nossa mente, todavia, há algumas em que nos fixamos, sobretudo, no que se refere a problemas e situações embaraçosas, tarefas pendentes, medos e inseguranças. E, a partir daí, filtramos a modalidade de ‘em que’ estamos a pensar e escolhemos o ‘como’ estamos a pensar. É algo instantâneo, em resposta às tantas investidas experienciais, que têm formatado nosso portfólio mental estrutural.

Os modais de ‘como’ pensar desencadeiam reações tanto gerais como direcionadas a certos órgãos, influenciando nosso bem-estar, nossos relacionamentos, e nosso modus vivendi. Pensar demais (overthinking) nem sempre é danoso, desde que favoreça seu mapeamento e estabeleça uma análise, em vista de uma tomada de decisão, numa ligação lógica epistemológico-cognitiva. Se o período fica demasiado longo, ou este ou aquele pensar fica se repetindo, sem uma perspectiva de solução, o pensar assume outros ares, com implicâncias nocivas.

Podemos imaginar um pensar ruminante automático e descontrolado, que não produz soluções, senão induz mais pensares conflitivos, não evolui e fecha-se sem perspectivas solucionáticas. O tempo importa, sim, para a organização do contexto, avaliação de estratégias e não proceder de maneira desorganizada, aleatória e desequilibrada. Como nos ensina o provérbio latino, aqui cabe também o ’in médio virtus’, ou seja, um tempo médio suficiente para identificar as causas, verificar inconsistências e rever a práxis de princípios e valores.

O pensar, que se fecha num ciclo recorrente, cria uma zona morta, desconecta-se da realidade e raquitiza o processo, tanto pessoal, quanto social, tanto perquiritório quanto científico. Há, todavia, que distinguir reiteração automática de repetição programada, aquela geratriz de ansiedades, sofrimentos e, mesmo, depressão, e esta, a fim de permitir melhor análise e ensejar decisão sensata e eficaz.

É notório que há insinuações emocionais, dependentes do contexto fático, seja traumático ou experiências dolorosas e perturbadoras. Tais situações necessitam de um ‘eu’ moderador que impeça assalto à nossa mente, provocando uma disfunção existencial, que distorce a nossa condução insubstituível de nossa vida. Uma reflexão, portanto, de nossa existência permite-nos conhecer os meandros do rio que somos e sinaliza, como afirma Mário Sérgio Cortella, a busca de maturidade.

Ao pensar impõe-se significar o próprio pensar.

Pensar nos molda ou nós o moldamos?

Uma profícua e aprazível segunda-feira, com as bênçãos de Deus!!!

(*) Pediatra e professor da Uece aposentado. Enviado por WhatsApp em 10/06/26.


Crônica: A doação de ovos!... e outros causos

 A doação de ovos

Eu sei que vocês vão dizer que é tudo mentira e que não pode ser... E muitos dirão, certamente: ah, ele é imoral, escatológico, inimigo da moral e dos bons costumes. Vamos lá então, data vênia. Ele, de quem falo, teve 18 filhos, dos quatro casamentos perpetrados. Se dizia "menineiro". Trabalhou pouco no curso dos 78 anos de vida. Em verdade, Josino Guaru estava mais - como dizia uma das ex-sogras - para um procriador, "tirador de raça" que um pai por convicção. Aposentou-se por idade.

A vista cansada - não enxergava uma unha adiante; as oiças em petição de miséria - ouvindo menos do que era preciso para figurar entre os fofoqueiros maiores da cidade. Fumou muito, bebeu uma ruma, frescou feito um condenado. O físico já não era esses balaios todos - sarcopenia braba, "só o oco e os caboré cantando dentro". Mas era um cocriador de categoria incansável, incurável e inflamável que era.

Em certo encontro de família, assuntava-se a doação de órgãos. O que cada um ali tinha para doar? Que órgão poderia servir a quem mais precisasse? E Josino, em especial, o que teria a oferecer a quem carente de vida estivesse?

Eu doo as córneas, mas Guaru, coisa nenhuma! Quengado como tá, bulhufas pra doar - opinou o primo Vandir.

Nem que eu precisasse do fígado dele, pela cachaça que tomou, eu aceitava! Valei-me! - despachou Braguinha, tio por parte de vizinha.

Eu sempre falei: lascou-se, Zé (José Josino) com esse cigarro! - vituperava Seu Nanan.

Guaru, ouvindo aqueles insultos todos sem poder reagir, pois trazia no corpo "distiorado" as marcas de uma verdade deverasmente pronunciada, mas no fundo acreditava no potencial de botar menino no mundo. Quando a ex-sogra Valdete pronunciou-se, vinagrosa, dizendo que o homem já estava morto, aí ele criou ânimo. E disparou:

Pois eu tenho o que doar pra ti, Biluca!

Só se for as tuas ventas, bicho véi sem futuro!

- É? Quer saber?

- Diz o que tem pra "adoar", fulerage!!!

Meuzóvo!!!

Quis dizer "até a ´próxima"!

Os amigos do 1º científico-manhã do saudoso Colégio Júlia Jorge só se encontravam em velório, parecia brincadeira. Tinha já 50 anos que era assim. Quando se conheceram, naquela que foi uma das turmas que mais doutores deram a UFC, tinham entre 15 e 16 anos. Morreu um, lá estava o magote restante a prantear o de cujus da hora e a marcar, por pura mania, futuros encontros em bar, em aniversário, em estádio, em quermesse... Encontros que, positivamente, nunca existiram, a não ser ali.

Na derradeira cerimônia fúnebre - partia para a outra o colega agrônomo Zé Prata, o estimado Mozinho, um dos mais jovens da referida turma do 1º científico "do Júlia", apresentando as despedidas no portão do complexo velatório famoso, falou assim, porquanto já se tornara praxe entre eles:

- Bem amigo, vou-me já! E até o próximo!

Solidariedade é isso!

Confesso que rompante de cooperação humana baseada na empatia eu nunca virá até então. Senhor de 87 anos, na academia do condomínio, caiu exausto na esteira. Dois colegas ao lado (um na bicicleta ergométrica e o outro no remo indoor) interromperam seus exercícios, correram até o velhinho exausto e o colocaram braços, carregando-o até o cronômetro zerar. Emocionante!

Fonte: O POVO, de 19/06/2026. Coluna “Crônicas”, de Tarcísio Matos. p.2.

quinta-feira, 16 de julho de 2026

VOLTANDO À (IN)TOLERÂNCIA

 Por Vladimir Spinelli Chagas (*)

Em 2020 estreei nessas páginas com um simbólico artigo "No Reino da Tolerância", por sentir que se agravava, cada vez mais, a falta de diálogo, o desrespeito às opiniões alheias, a falta de reflexão. Então, propunha que eu e você nos tornássemos mais tolerantes para debater fatos e não irmos ampliando as discussões como uma guerra.

Voltei ao tema mais quatro ou cinco vezes, sempre com a perspectiva de que, conseguindo adesão de meia dúzia de pessoas, já teríamos um bom início para que a convivência se tornasse mais amigável, mesmo entre aqueles que defendem ideologicamente campos opostos. Afinal, em que parte do Livro da Vida temos alguma lei que estabeleça a Verdade Absoluta? Não conheço. Pelo contrário, todo ele sempre se dedica a destacar que o amor ao próximo é uma regra pétrea.

Ora, como amar sendo intolerante? Os momentos de mais tensão se deram nos processos eleitorais que vivenciamos desde então. Agora mesmo, começamos uma nova refrega, na qual veremos menos propostas reais em benefício do povo e mais agressões e violência. Ora, nós eleitores seremos, mais uma vez, vítimas de nossas ações e omissões, aceitando esse quadro de discussões estéreis em vez de exigirmos, como é de nosso direito, que o debate vá para o campo de ações públicas?

Já perdemos demais com um Legislativo que não honra o passado de tantos cidadãos até hoje respeitados por suas posições como verdadeiros representantes do povo, que lhe dá os votos. O poder executivo, em todos os níveis, também não é exemplo de real preocupação com a população, que também os elegeu e tem visto um distanciamento das poucas promessas de campanha que a beneficiaria.

Em relação ao Judiciário, as notícias que são estampadas diuturnamente também ferem de morte o direito do cidadão. Nos níveis superiores, não foram eles eleitos, mas escolhidos por quem o foi, com um compromisso assumido de pugnar pela Justiça, pela Democracia e pela defesa intransigente da Constituição, de que são os guardiões.

"Tolerância, mesmo que utópica, continua sendo uma ideia que defendo com veemência. E uma reflexão que proponho mais uma vez." E uma vez mais.

(*) Professor aposentado da Uece, membro da Academia Cearense de Administração (Acad) e conselheiro do CRA-CE. Provedor da Santa Casa da Misericórdia de Fortaleza.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 15/06/26. Opinião. p.18.

PROFESSORES SÃO IMPORTANTES

Por Sofia Lerche Vieira (*)

Professores são importantes. Quanto a isso, não há discordância. No entanto, não é de conhecimento geral que eles representam "o recurso mais significativo das escolas" e são "fundamentais para os esforços de aprimoramento dessas instituições", como destaca relatório da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) elaborado há duas décadas (2006, p. 7).

Na sociedade do conhecimento, o domínio de habilidades humanas e técnicas constitui o principal ativo de um país, como demonstram experiências de nações asiáticas, que reverteram sua história por meio da educação.

O Brasil parece caminhar na contramão das evidências sobre valorização docente. Segundo o Relatório Global Teacher Status Index (GTSI, 2018), ocupamos a última posição (35º lugar) no que diz respeito ao status social dos professores.

Embora tenha sido aprovada uma lei de piso salarial nacional dos professores da educação básica (Lei n° 11.738, de 16 de julho de 2008), o número de docentes concursados vem cedendo espaço a professores temporários.

Artigo recente sobre indicadores docentes nos 19 municípios da Região Metropolitana de Fortaleza (RMF) confirma essa tendência. Na última década, o quantitativo de professores com vínculo permanente (concursados) diminuiu em relação àqueles com vínculo provisório (temporários).

Considerando o conjunto dos municípios analisados, os temporários representavam 29% da força de trabalho docente em 2014 e passaram a corresponder a 44% em 2024, sinalizando um processo de precarização da profissão.

É verdade que a formação docente na região, medida pelo indicador Adequação da Formação Docente (AFD), apresentou melhora significativa. Ainda assim, a maioria dos municípios enfrenta desafios para assegurar formação adequada a seus professores, sobretudo nos anos finais do ensino fundamental.

Essas e outras evidências revelam que avançar na reflexão sobre os complexos problemas da docência requer uma compreensão cuidadosa do que mostram os números. (Observação: O artigo é de Eloísa Maia Vidal, em coautoria com Sofia Lerche Vieira e Rafael Rabelo Cavalcanti). (2.097 caracteres com espaço)

(*) Professora do Programa de Pós-Graduação em Educação da Uece e consultora da FGV-RJ.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 15/06/26. Opinião. p.18.

quarta-feira, 15 de julho de 2026

MAHLER E A PAIXÃO PELA TRANSITORIEDADE

 Por Carlos Roberto Martins Rodrigues Sobrinho (Doutor Cabeto) (*)

Há um momento na vida em que passamos a revisitar o passado.

Não se trata de saudosismo, tampouco de arrependimento. É algo profundo e silencioso. O ato de reviver nossas memórias parece fazer parte de uma preparação para a passagem. Inicia-se de uma forma quase imperceptível, como um reencontro marcado desde sempre pela própria condição humana.

Assim como as células carregam em si a programação da morte, a memória parece organizar uma despedida previsível. Em instantes, quando a vigilância da razão relaxa por um breve momento, imagens do passado retornam com insistência. Surgem sem propósito aparente, afastando-nos da realidade imediata para nos conduzir a uma espécie de lucidez superior.

Talvez nenhuma obra musical tenha traduzido essa trajetória com tanta profundidade quanto a Sinfonia "Ressurreição", de Mahler. Nela, o compositor percorre os caminhos da existência humana desde o confronto inicial com a morte até a possibilidade de uma transformação espiritual.

Nos movimentos iniciais, os "Ritos Fúnebres" apresentam a inevitabilidade do fim. Em seguida, emergem lembranças de um olhar nostálgico para os tempos de inocência, beleza e paz.

Depois, Mahler nos conduz a percepção da futilidade de muitas das nossas inquietações. A vida aparece como um movimento circular, onde os esforços frequentemente carecem de sentido duradouro. Mas a obra se completa com a "Luz Primordial". É o instante em que a alma aspira à redenção. Entre sonoridades quase apocalípticas e momentos de delicadeza, a música aponta para uma transfiguração. A ressurreição de Mahler não é apenas religiosa; é sobretudo a transformação espiritual do ser humano diante do mistério da finitude.

Foi ouvindo essa obra, repetidamente, que passei a resgatar reflexões que marcaram minha vida de médico e minhas próprias contradições humanas. Aos poucos, percebi que as decepções perdiam importância. Permaneciam apenas as lembranças da juventude, dos afetos e dos encontros que moldaram quem sou.

Há algo semelhante a uma despedida silenciosa daqueles que continuarão a caminhada. Uma sensação quase distônica, na qual os acontecimentos do mundo parecem distanciar-se da tormenta cotidiana. Como um movimento centrífugo, afastamo-nos do círculo das urgências para observar a existência sob outra perspectiva.

Passei, então, a preparar o reencontro comigo mesmo. Descobri que não temo a morte. Ao contrário, confesso guardar uma certa fascinação por esse encontro inevitável. Não de forma apoteótica ou narcísica, mas a aceitação serena de um retorno à matéria primordial.

Talvez seja essa a maior lição de Mahler: compreender que a finitude não representa uma derrota, mas uma etapa da grande metamorfose da existência.

Ao final, somos todos pó, poeira carregada pelos ventos do tempo. E há uma estranha beleza nessa condição.

(*) Médico. Professor da UFC. Ex-Secretário Estadual de Saúde do Ceará.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 13/06/2026. Opinião. p.25.

terça-feira, 14 de julho de 2026

ESTRATÉGIA ESTADUAL DE EDUCAÇÃO FINANCEIRA

 Por Alexandre Sobreira Cialdini (*)

O governador Elmano de Freitas acerta mais uma vez ao instituir a Estratégia Estadual de Educação Financeira (E3F), normatizada pelo Decreto nº 36.326/2024. Com base nas diretrizes dessa estratégia, formulamos e estamos executando o Programa de Educação Financeira do Estado do Ceará, em parceria com a Fundação Demócrito Rocha, instituição reconhecida por sua competência e ampla experiência em programas de educação a distância.

A Estratégia Estadual de Educação Financeira está estruturada em três pilares fundamentais: 1) compreensão do poder do dinheiro e identificação de riscos e oportunidades, incluindo o papel da previdência complementar; 2) prevenção de fraudes; e 3) conscientização sobre os jogos de apostas, abordando os problemas decorrentes da ludopatia (vício em jogos), da destruição da renda familiar e dos impactos negativos sobre a economia.

De acordo com a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), a educação financeira é o processo pelo qual consumidores e investidores ampliam sua compreensão sobre produtos, conceitos e riscos financeiros. Por meio de informação e instrução, desenvolvem habilidades e confiança, tornando-se mais conscientes dos riscos e oportunidades existentes, podendo realizar escolhas mais responsáveis e adotar ações que contribuam para o bem-estar financeiro.

No âmbito nacional, o Governo Federal instituiu, por meio d Decreto Nº 7.397/2010, a Estratégia Nacional de Educação Financeira, com a finalidade de promover a educação financeira, securitária e previdenciária. Desde então, o Banco Central do Brasil vem difundido orientações para fortalecer a cultura financeira da população.

Os recentes avanços tecnológicos, especialmente a crescente digitalização e a expansão de produtos sustentáveis, têm implicações para as finanças pessoais. Esse cenário reforça a necessidade de aprimorar a educação financeira, capacitando as pessoas para a tomada de decisões mais acertadas e contribuindo para o fortalecimento da alfabetização e da literacia financeira, esta entendida como a capacidade de compreender e aplicar conceitos financeiros básicos e avançados.

Outro aspecto relevante do programa é sua dimensão comportamental. A iniciativa adota uma abordagem multidisciplinar alinhada às contribuições da Economia Comportamental. Como destaca Richard Thaler, ganhador do Prêmio Nobel de Economia: "A maior lição é que, assim que se percebe um problema comportamental, é possível inventar uma solução comportamental para ele."

Mais informações sobre o Programa de Educação Financeira do Estado do Ceará podem ser acessadas no portal da Fundação Demócrito Rocha: https://fdr.org.br/educacaofinanceira/

(*) Mestre em Economia e doutor em Administração Pública e Secretário de Finanças e Planejamento do Eusébio-Ceará.

Fonte: O Povo, de 11/06/26. Opinião. p.15.

segunda-feira, 13 de julho de 2026

SELEÇÃO, SAMBA E RAÇAS

 Por Raimundo Padilha (*)

Estamos entrando em clima de Copa do Mundo. O técnico da seleção brasileira já anunciou a convocação de 26 jogadores. Embora estejamos com um dos mais consagrados técnicos do mundo, não deixa de ser um momento difícil a escolha dos convocados. As torcidas vibram quando os seus ídolos são anunciados. O Brasil é penta

campeão, mas há mais de 20 anos não traz o troféu. Tivemos uma fase áurea do futebol e hoje, embora, com alguns valores individuais não temos conquistado a taça. No dia do anúncio o clima era de expectativa, principalmente, para se saber se Neymar seria ou não convocado. A sua convocação era defendida pela grande maioria dos torcedores.

Acho que um bom time precisa do binômio talento individual e espírito de equipe (entrosamento). E são 11 que precisam estar bem alinhados, Assim, não foi fácil a escolha do técnico Carlo Ancelotti. Pessoalmente, achei longo o período de observação dos jogadores e muito curto o período de treinos para ser criado o espírito de equipe.

Particularmente quanto à convocação do Neymar, talvez, tenha sido a maior dificuldade do Ancelotti. Neymar ainda é um craque, mas já não é o craque de ontem, embora o seu nome ainda pese. Historicamente, ele é muito marcado e recebe muitas faltas passando longos períodos fora de campo.

Acho que o técnico passou pelo seguinte dilema: se não convocar o Neymar e perder a copa, a culpa é dele (técnico), mas se escalar o Neymar e perder a taça a culpa será do jogador. Não desejo que Neymar assuma o peso desta responsabilidade que poderá comprometer o seu desempenho. Quero que entre em campo fazendo o que ele ainda pode fazer de melhor. Ele tem o apoio de toda a torcida brasileira e dos seus 10 companheiros, que ainda veem nele um talento.

E justiça lhe seja feita ele tem noção das quatro linhas, da bola redonda, das traves e dos seus companheiros de equipe. E isto ele vai levar para toda a sua vida, mas a idade vai limitando o seu desempenho. E isto é da natureza humana.

Mas, é bom lembrar que somos 26 e todos têm muito valor e responsabilidade pela camisa que vestem. Enfim, somos penta. E temos raça.

Aliás, a propósito de raça, no mundo temos várias raças: a branca, a negra, a parda, a amarela e a indígena.

No futebol brasileiro e na música, os melhores têm sido da raça negra. Pelo menos, esta é a minha observação pessoal. E isto se constitui num grande valor, que pode eliminar a má ideia dos preconceituosos. A nossa arte musical, principalmente, no samba, no baião, no chorinho e no rap, a predominância com talento e elegância é a raça negra que melhor nos representa.

No futebol/arte é da mesma forma. Basta lembrar de Zizinho, Didi, Pelé, Garrincha, Barbosa, Jairzinho, Djalma Santos e tantos outros, que para orgulho nosso vestiram a camisa canarinha. Sem demérito das demais, a raça negra é orgulho nacional.

(*) Economista, professor aposentado da UFC e membro da Academia Cearense de Economia.

Fonte: O Povo, de 10/06/26. Opinião. p.17.

domingo, 12 de julho de 2026

Iprede completa 40 anos transformando a infância no Ceará II

 

Iprede completa 40 anos transformando a infância no Ceará II

Por Ana Rute Ramires, jornalista de O Povo

OP - Desde o início, vocês se preocuparam em cuidar não apenas das crianças, mas o contexto de cuidado de familiar...

Sulivan - Exatamente. Aí quando a gente passou a gerar esse vínculo, a gente viu que do outro lado passamos não é só uma mãe que é cuidadora, mas que essa cuidadora é uma mulher. O Iprede não enxergava a mulher, ele enxergava a mãe. O Iprede tem essa dívida imensa com a mulher. Foi quando nós passamos a criar, além da trajetória da criança, a trajetória feminina.

OP - Vocês mudaram esse olhar, como é hoje?

Sulivan - Esse olhar é fantástico, porque a gente passa a recuperar, não é só o peso da criança, a gente passa a recuperar um ser humano. A gente passa a garantir para aquela criança um futuro de qualidade e a gente passa a olhar para aquela mulher que chega ali, regra geral, a mulher que passa por maior privação de vida, que é não ter escolhas. Ela não tem escolha de absolutamente nada. Essa mulher, geralmente, recebe violência corporal do seu parceiro. Essa mulher não tem uma formação profissionalizada. Essa mulher vive de bico. Essa mulher não recebe elogios. Mas é essa figura mais sofrida da sociedade que supera, que dá volta por cima, que cresce, que sai da miséria, depois de gerar vínculo, levando seus filhos. É fantástico. Ela passa a ser provedora da sua família. Ela passa a dizer não para violência domiciliar e passa a ter uma outra estruturação organizada, saudável, garantindo qualidade de vida futura para os seus filhos.

OP - Quais projetos vocês desenvolvem com esse foco na mulher, na independência?

Sulivan - Apoio da forma mais ampla possível, a começar pela saúde. Nós temos a ginecologia que assiste a mulher em todos os seus sentidos, na prevenção, no tratamento da doença ginecológica, na implantação de DIU, retirada de DIU e biópsia, se for o caso fazer. Nós temos rodas de conversa com psicólogos, profissionais da área de saúde mental que assegura essa mulher uma escuta. E essa escuta direciona pro atendimento das suas necessidades e pro seu crescimento pessoal. Nós temos também para a mulher a formação profissionalizante. Hoje nós temos geralmente no Iprede mais de 30 tipos de curso que vai atender a mulher. Aquela que não pode sair de casa pro trabalho, exerce sua atividade profissional dentro da sua própria casa, seja ela na culinária, no corte de costura, na gastronomia ou na estética.

Além do impacto direto nas famílias assistidas, o centro, que completa quatro décadas no próximo dia 16, consolidou-se como um importante polo de pesquisa e intercâmbio acadêmico internacional. Ao O POVO, o médico pediatra Sulivan Mota, professor da Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Ceará (UFC) e presidente do Iprede, descreve metodologias inovadoras de baixo custo desenvolvidas no instituto, que utilizam a arte, cultura e esporte para promover a inclusão.

Fonte: O Povo, 7/06/26. Aguanambi 282. p.12.


 

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