terça-feira, 4 de agosto de 2026

Como superar a persistente lacuna de produtividade no Brasil

Por José Nelson Bessa Maia (*)

Tornou-se um lugar-comum afirmar que a baixa produtividade é um dos principais entraves ao crescimento econômico do Brasil, permanecendo praticamente estagnada há décadas. Por causa disso o país enfrenta uma "armadilha de baixo crescimento", com trabalhadores produzindo, em média, cerca de um quinto do que nos EUA, tido como referência nessa matéria.

A comparação internacional de produtividade costuma ser feita em PIB por trabalhador empregado em dólares internacionais ajustados por Paridade de Poder de Compra. Os dados mostram que o Brasil teve forte perda relativa entre 1980 e 2000 e depois ficou praticamente estagnado. Hoje, um trabalhador brasileiro produz 24% do que produz um trabalhador norte-americano médio.

Por outro lado, a China partiu de base extremamente baixa em 1980, mas teve o maior avanço da história econômica recente. Com isso, a produtividade chinesa passou de 4% da americana para 40% em pouco mais de quatro décadas.

O dado mais impressionante é que, em 1980, o Brasil possuía uma produtividade de oito vezes superior à da China. Hoje, a situação se inverteu: a produtividade média do trabalhador chinês já é 60% maior que a do trabalhador brasileiro. O Brasil permaneceu praticamente estagnado por quatro décadas, enquanto a China convergiu rapidamente para os níveis das economias avançadas.

Entre as principais causas estão a falta de concorrência, dificuldades de acesso a crédito, distorções tributárias e regulatórias e má alocação de recursos, que impedem empresas mais produtivas de crescer. Além disso, grande parte da força de trabalho está concentrada em setores de baixa produtividade, como agricultura e comércio.

Para resolver esse impasse e superar o desafio da baixa produtividade, diversos estudos apontam a necessidade de promover reformas estruturais, maior integração produtiva, maiores investimentos em pesquisa e desenvolvimento (P&D), melhoria na educação básica, média e superior e maior abertura a investimentos estrangeiros. Esse pacote de medidas poderia impulsionar a produtividade do trabalho e alavancar o crescimento em bases sustentáveis. Além disso, muitos defendem a estímulos direcionados a setores intensivos em conhecimento, inserção planejada em cadeias globais de valor e modernização da agroindústria.

Em um país com tantas potencialidades, como recursos naturais abundantes, sistema financeiro sofisticado, grande mercado interno e boas universidades como o Brasil, conclui-se que, embora o problema seja estrutural, há uma janela de oportunidade para se evitar mais uma década perdida, desde que governos, empresas e universidades atuem de forma coordenada no bojo de uma Estratégia Nacional de Desenvolvimento para romper o circuito da baixa produtividade e superar a armadilha da renda média.

(*) Ex-secretário de Assuntos Internacionais do Governo do Ceará, mestre em Economia e doutor em Relações Internacionais pela Universidade de Brasília (UnB) e, atualmente, consultor internacional.

Fonte: O Povo, de 27/06/26. Opinião. p.25.


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