Por Kaio
Pimentel, jornalista especial para O Povo
Foto: Divulgação/ Igor Alisson Marques Roman | Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).
Natural
de Fortaleza, a engenheira química Melissa Gurgel Adeodato Vieira passou em 1º
lugar para ocupar cadeira de titularidade acadêmica após 16 anos de docência em
Campinas.
Um professor-titular
representa e exerce atividades nos extramuros do ensino superior. É assim que a
fortalezense Melissa Gurgel Adeodato Vieira, 47, resume o cargo que deve assumir, em janeiro de
2027, após aprovação em 1º lugar na Universidade Estadual de Campinas
(Unicamp). Formada em Engenharia Química pela Universidade Federal do Ceará
(UFC), ela mudou-se para realizar mestrado em São Paulo aos 22 anos, seguindo
para doutorado e pós-doutorados. "Ninguém chega lá em cima sozinho", assegura.
O currículo da
profissional inclui ainda intercâmbio acadêmico na École Centrale Paris (ECP), na França, e
pós-doutorado pela Universität Stuttgart, na Alemanha. Não à toa, desde 2023, é citada na lista
de cientistas mais influentes do mundo, segundo a editora internacional
Elsevier.
Depois de 16 anos como
associada com livre-docência na Unicamp, ela ocupará a nova responsabilidade
institucional, enquanto já coordena dois laboratórios de pesquisas sobre saúde
e meio ambiente e orienta quase 20 estudantes.
O POVO - Qual deve
ser a melhor metodologia para aproveitar o campo da ciência desde a infância e
promover futuros interessados na área?
Melissa Vieira - Acho que a curiosidade
é o mais importante para um futuro cientista. Não aceitar porquês
preestabelecidos, mas buscar sempre novas respostas, porque o conhecimento é
dinâmico. A gente tem que sempre estar investigando. Coisas que antigamente
estavam consolidadas, hoje já se descobre que não é mais dessa forma.
Eu diria que também a
resiliência, nem sempre você tem os dados que está esperando. Ser ambicioso nas
suas perguntas para procurar as respostas que, de fato, vão contribuir para os
desafios que a gente tem hoje. Todo pesquisador tem que ser muito disciplinado
naquilo que faz.
O POVO - O começo
da sua vida acadêmica foi por meio de uma graduação em engenharia química na
UFC. Por que esse curso?
Melissa Vieira - Porque é um curso
muito interdisciplinar. É um curso que consegue, com a formação que a gente tem
ao longo dos cinco anos, resolver problemas relevantes da sociedade em termos
de produção de produtos químicos para fertilizantes, segurança alimentar, desenvolvimento
de larga escala de medicamentos, área de energia limpa, produção de hidrogênio
verde, produção de baterias, energia solar.
O POVO - A
xenofobia contra nordestinos ainda persiste no Brasil. Precisou enfrentar isso
na Unicamp?
Melissa Vieira - Eu não tive problemas
de xenofobia [na Unicamp]. Eu senti um pouco disso quando eu fui fazer
mobilidade na França. Eu fiz vários trabalhos acadêmicos sozinha, porque
ninguém queria fazer grupo comigo lá. Iniciação científica era realizada em
dupla. Ninguém quis fazer dupla comigo, eu fiz sozinha também.
Não me causou nenhum
problema, porque eu já realizava iniciação científica desde o primeiro ano da
graduação. Eu consegui desempenhar bem, trabalhando sozinha. Na França, eu
senti não por ser cearense, mas por ser brasileira.
O POVO - A que
passos o Brasil caminha se comparado à França e à Alemanha no que se refere aos
estudos científicos e à engenharia química?
Melissa Vieira - Eu diria que a Unicamp
tem uma infraestrutura muito mais avançada do que as duas universidades que eu
presenciei. Poderia te dizer certamente que atualmente eu estou numa
universidade de excelência, compatível com as melhores universidades do mundo.
Pesquisadores altamente competentes que não seriam diminuídos em relação a
nenhum outro pesquisador.
O POVO - Morando
em Campinas, você ainda mantém vínculo afetivo com o Ceará? De que forma
consegue fazê-lo?
Melissa Vieira - Sim. Todos os anos eu
retorno ao Ceará. Eu tenho minha família, irmãs, meus pais, sobrinhos, tios,
todos estão no Ceará, com exceção de uma tia que mora em Campinas. Tenho também
convívio com professores da UFC, que foram inclusive meus colegas durante a
graduação e pós-graduação aqui na Unicamp, meus antigos orientadores também são
professores ainda da UFC.
O POVO - Você
passou em primeiro lugar no concurso para professora-titular da Unicamp. Qual é
a sensação?
Melissa Vieira - É uma sensação
gratificante de reconhecimento pelos pares. Porque o professor-titular avalia
toda a trajetória acadêmica do docente, as contribuições na área de ensino,
pesquisa, extensão e gestão universitária. Ser indicada em primeiro lugar
mostra que os meus pares me reconheceram, que eu tenho potencial de liderança,
prevista para um titular.
Fonte: Publicado In: O
Povo, de 6/09/26. Farol. p.4.
Nota do Blog do Marcelo Gurgel: Melissa Gurgel é uma querida sobrinha minha que obteve o primeiro
lugar, disputando esse concurso público da Faculdade de Engenharia Química da
Unicamp, com cinco concorrentes, sendo três da própria Unicamp e dois outros de
fora. Ela está seguindo os brilhantes passos da minha irmã Meuris Gurgel, professora
titular atualmente aposentada da Unicamp.


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