quarta-feira, 30 de setembro de 2026

MISSA DE TRIGÉSIMO DIA POR DR. FLÁVIO LEITÃO

Amanhã (1º/10/2026), quinta-feira, às 19h, na Capela de Santa Filomena, do Colégio, situada na Rua Joaquim Nabuco, 176 – Meireles, Fortaleza-CE, será celebrada a Missa de Trigésimo Dia em sufrágio da alma do acadêmico Dr. Francisco Flávio Leitão de Carvalho, ilustre membro titular da Academia Cearense de Medicina.

O médico neurocirurgião Dr. Flávio Leitão faleceu na noite de 1º/09/2026, causando grande tristeza no seu amplo circuito de relacionamento, constituído por familiares, amigos, confrades, colegas e pacientes, derivado dos reconhecidos méritos humanos e profissionais do ilustre confrade recém-falecido.

Acad. Marcelo Gurgel Carlos da Silva

Membro titular da ACM – Cadeira 18


Várzea Alegre tem memória doce

Por Izabel Gurgel (*)

Dona Beta fez tijolo de leite por mais de meio século. O doce surgia à tarde na paisagem, vendido de porta em porta, Dona Beta anunciando o que levava sob a toalhinha. A passagem dela acontecia como uma diária inscrição sonora, visual, a deixar o céu da boca tão aceso quanto o céu da cidade. Voltava para casa depois de vender toda a produção do dia. Imagine comigo o reluzir do sol na bacia de alumínio vazia e, dia após dia, cheia outra vez, por mais de cinco décadas.

Elisabete Ferreira Pinto, a Dona Beta, vai fazer 95 anos em dezembro. Agora permanece em casa, bem cuidada como a feitura do doce, que continua por outras mãos. O tijolo circula, cria novas memórias e, como um livro que não cessa de encontrar leitores, leva Dona Beta a múltiplos destinos sem que ela saia da rede que a embala na sala, de zelo conventual, feito o papel de seda embalando cada um dos doces viajantes.

No mês que finda amanhã com a Festa de Agosto, o papel de seda é vermelho, a cor do santo padroeiro da cidade, São Raimundo Nonato. Várzea Alegre usa uma medida singular ao fazer as duas coisas, a festa e o leite com açúcar se demorando no fogo. O mundo é grande, o Ceará é maior, e Várzea Alegre em estado de Festa de Agosto é imensidão.

O tijolinho de Dona Beta é um festejo portátil, um banquete de brinquedo, uma oração bem doce. Uma mordida e você fica inteiramente presente. É o auge da concretude do saber fazer. A nos lembrar de sabor e saber tão próximos quanto humano e húmus. A fertilidade da terra se celebra de tantos modos quanto possa se manifestar a vida. A cidade às portas do Cariri, no centro-sul do Ceará, louva a fertilidade da várzea onde nasceu.

O nome do santo, No-nato, tem um não-nascido dentro. É protetor dos partos, das parteiras, guarda quem faz nascer, quem ajuda a nascer, tudo o que nasce, pois. Naquela várzea, juntou-se o santo Raimundo ao ímpeto da vida, feito a poesia, de brotar sempre.

Dona Beta vem do sítio Chico, conta Eniete, como é conhecida a filha caçula do casal. Aniete, de batismo, Eliete, Elizete. O pai, Joaquim Pinto, morreu aos 69 anos. Seu Joaquim Ota tocava a casa de jogos e a roça.

Aos 79 anos, na véspera da viagem para Fortaleza para tratamento de saúde, Dona Beta fez doce pela última vez. Por anos, Eniete caçou aquele gosto. "Comprava, comia e não encontrava o sabor do doce de mãe".

Passou a fazer. "Foi muito, muito difícil acertar, mesmo tendo visto mãe a vida inteira fazendo". O ponto de doce é quando se começa a ver o fundo da panela. O de tijolo, é mais apertado. Nos dois, o borbulhar pode causar queimaduras. Aniete usa luvas, manguita de mototaxista, tecido sob o queixo, óculos e, por vezes, máscara. Marcas da feitura, só as da memória da mãe a tirar do ofício o sustento da família. E ficar para sempre nas histórias daquela várzea como uma vida inventada com sabor.

p.s.: o tijolo é uma joia do Ceará: (88) 99908.5713. Embalagens de cerca de 500g e de 1kg. Na casa da antiga rua do Capim, guarda-se a grade para tijolinhos. Tia Eniete a usou para festejar José, único neto de Dona Beta. Se perder o telefone, grave Dona Isla Mônica. Tem nome de ilha e conhece cada ponto de Várzea Alegre que vale um desembarque. São incontáveis.

(*) Jornalista de O Povo.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 30/08/26. Vida & Arte, p.2.


terça-feira, 29 de setembro de 2026

O deus Pã e a Arcádia

Por Pedro Bezerra de Araújo – Pierre Nadie

Queres conhecer a história de um ‘locus amoenus’, onde a paz escondia-se do frenesi da vida urbana e era buscada na harmonia da convivência com a natureza?

Na região montanhosa do Peloponeso, onde rochas escavadas espreitam grandes abismos, vegetação campestre, sem o dossel de florestas, tocada pelo vento que sopra do Mediterrâneo, era ali que Pã se deliciava, ao lado de pastores e ninfas, numa paz bucólica. Um mito nasceu, com o deus da natureza e dos pastores, em idílica harmonia.

Arcádia, uma unidade regional da Grécia, que ainda hoje existe com sua capital Trípoli, é uma região da península do Peloponeso, situação geográfica, que ensejou a mitologia bucólica, exaltando a calmaria e a beleza da natureza, em harmonia com a simplicidade dos pastores. Eles apascentavam seus rebanhos, compondo canções campesinas, nascidas do cenário natural da montanha e encostas, bem distante dos burburinhos e dos contratempos citadinos.

Esta mitologia de uma visão idílica de harmonia da criatura com a natureza, decantada como reino da felicidade, da simplicidade e da paz em comunhão com a natureza e onde os vícios da civilização não punham os pés, ensejou o nascimento do Arcadismo a cultivar tal harmonia, o qual espalhou-se pela Europa, tendo o primeiro movimento literário surgido em Roma, em 1690, a Arcádia de Roma, cujo lema era inutilia truncat (corte as coisas inúteis).

Encontram-se, porém, referências a este mito, nas Bucólicas de Virgílio, com seu gênero pastoril.  Também chamadas Éclogas, escritas acerca de 39 a.C., Virgílio apresenta cenário pastoril com cantos de amores e lamentos, servindo de inspiração ao Arcadismo. Ele, segundo alguns, foi o primeiro latino a criar poesia bucólica, com base na poesia neotérica de Calímaco, cujo ‘sopro’ introduz a Bucólica VI: “Quando eu cantava reis e batalhas, Cíntio [isto é, Apolo] puxou-me a orelha e admoestou-me: ‘Ao pastor, ó Títiro, convém apascentar a gorda ovelha e cantar um poema ligeiro’”.

No Renascimento, também há citações de escritores, como Garcilaso de la Vega que assemelha Arcádia à felicidade e harmonia do Paraíso.

Mas, foi somente nos séculos XVII e XVIII, que se cunhou a nomenclatura Arcadismo, também denominada Setecentismo ou Neoclassicismo e começaram a surgir Arcádias – academias literárias, sendo a segunda a Arcádia Lusitana, fundada em 1756, com seus membros assumindo nomes de pastores, inspirados na antiga Grécia, e estimulando o retorno ao classicismo. Nesses clubes, poetas e intelectuais eram assíduos em ler obras, cultuar literatura clássica.

Entre várias obras marcantes, cita-se Marília de Dirceu de Tomás Antônio Gonzaga, sob o pseudônimo de Dirceu – publicado nos anos de 1792, 1799, 1812 e, no Brasil, destaca-se o mineiro e inconfidente Cláudio Manuel da Costa (1729–1789), sob pseudônimo Glauceste Satúrnio, que marcou o Arcadismo no Brasil, com Obras Poéticas (1768). 

E qual a etimologia de Arcádia?

Arcádia deriva do grego Αρκαδία, (no latim Arcas, Arcadis) e remete ao latim ‘fugere urbem’ (fugir da cidade). O termo pode também ter relação ao semideus Arcas, filho de Zeus e de sua amante, a ninfa Calisto. Arcas remete a Arktos, com a significação de ‘urso, em grego. Diz a mitologia que a ninfa Calisto, mãe de Arcas, teria sido transformada em uma ursa por ciúme de Hera, esposa de Zeus, e, por isso, seu filho levou o nome que significa “urso”. Hermes, então, salva a criança, por ordem de Zeus, o qual, depois, teria transformado sua mãe na constelação de Ursa Maior e Arcas na constelação de Ursa Menor.

Em resumo, pode-se dizer que o Arcadismo se baseia, nos postulados:

1. Inutilia truncat. Este lema da Arcádia Romana colimava o objetivo maior: extirpar todo o excesso inútil, que, mais tarde, inspirou o neoclassicismo a romper com o requintado do estilo barroco;

2. Fugere urbem. Deixar o bulício e a corrupção da cidade para encontrar o ‘locus amoenus’: inocência e conexão com a vida campestre, refúgio de harmonia.

3. Carpe diem. Desfrutar o hoje, mergulhar na realidade que se está vivendo, nas circunstâncias, sem se inquietar demasiado, nem se angustiar com o amanhã.

Devido ao desejo de uma vida rústica e bucólica, poetas renascentistas tornaram a Arcádia um mito literário: um lugar utópico de inocência, simplicidade, amor e prazeres simples.

Um abençoado domingo, com as bênçãos de Deus!!

(*) Pediatra e professor da Uece aposentado. Enviado por WhatsApp em 5/07/26.


segunda-feira, 28 de setembro de 2026

Autores do Ceará são semifinalistas do Prêmio Oceanos 2026

Por Eloisa Maia Vidal (*)

Resumo

Dois escritores do Ceará e uma autora radicada no Estado representam a região entre os semifinalistas do Prêmio Oceanos 2026;

Na categoria prosa, Moacir Fio foi indicado pelo romance "Aranha Movediça"; na categoria poesia, concorrem Dalgo Silva com "Matriarca Cidade" e Nina Rizzi com "Diáspora não é lar";

Os três representantes integram a lista de 54 semifinalistas, que foram selecionados a partir de mais de 3 mil obras inscritas;

Considerado um dos prêmios literários mais importantes da comunidade lusófona, o Oceanos reúne títulos de países como Brasil, Portugal, Moçambique e Angola;

A lista de semifinalistas também conta com nomes consagrados da literatura, como Milton Hatoum, Aline Bei, Micheliny Verunschk e Noemi Jaffe.

Dois escritores cearenses e uma autora radicada no Ceará representam o Brasil e a Terra da Luz no Prêmio Oceanos de Literatura em Língua Portuguesa. O trio faz parte dos 54 semifinalistas da edição de 2026, anunciados na noite de terça-feira, 25, entre mais de 3 mil obras inscritas.

Na prosa, Moacir Fio foi indicado pelo romance “Aranha Movediça” (Editora Moinhos), enquanto “Matriarca Cidade” (Editora 7Letras), de Dalgo Silva, e “Diáspora não é lar” (Editora Pallas), de Nina Rizzi, estão na categoria poesia.

A premiação, considerada uma das mais importantes entre os países de língua portuguesa, reúne títulos do Brasil, Portugal, Moçambique e Angola, com 26 representantes na prosa e 28 na poesia. A próxima etapa, que selecionará os livros para a final, acontece em outubro.

Além dos cearenses, nomes como Aline Bei, Micheliny Verunschk, Milton Hatoum e Noemi Jaffe entraram na listagem de semifinalistas.

Semifinalistas do Ceará comentam indicação ao Prêmio Oceanos 2026

Para Moacir Fio, a indicação de “Aranha Movediça” é um “tipo particular e especial de alegria”, que oferece esperança em relação ao mercado editorial e as “fronteiras invisíveis” que ainda cercam a região Nordeste.

“Não teria como essa história existir em outro lugar, sabe? Penso muito naquela imagem do movimento manguebeat, da ‘antena parabólica enfiada na lama’, essa ideia de captar e dialogar com as linguagens do mundo sem nunca tirar os pés deste nosso chão”, relata.

Ambientar o romance no próprio Ceará — “um estranho romance de horror”, como descreve Moacir — é uma forma de entender melhor todo o processo de construção do “ser cearense”.

“A gente tende a se prender a uma imagem solar, risonha, que sim, faz parte da nossa identidade, mas existe todo um submundo, um passado de violências, de assombros, como eu gosto de falar, e de contracultura e resistência; tudo isso sendo esquecido”, ressalta.

Essa relação, descrita como “paradoxal”, é o que impulsiona a trama. Na obra, a morte misteriosa de Jota do Lixo, uma lenda do movimento punk em Fortaleza, é o fio condutor de um podcast investigativo, 40 anos depois, na tentativa de desvendar o crime.

Já Nina Rizzi, tradutora e escritora que escolheu a capital cearense como casa, chega na categoria poesia com “Diáspora não é lar”.

“Essa conquista celebra não apenas a qualidade estética e a profundidade do livro, mas também a relevância das questões que coloco no mundo através da palavra. Ver minha obra nesse lugar é motivo de muito orgulho”, diz Rizzi. “Um viva bem grande à literatura, em especial a cearense”.

Quem também compartilha o espaço poético é Dalgo Silva, com “Matriarca Cidade”. O maranguapense já chegou ao posto de finalista no Prêmio Jabuti 2024, na categoria "Escritor Estreante - Poesia".

"Talvez, a ficha não tenha caído completamente ainda por eu ter sempre acompanhado essa premiação literária e saber de sua grandeza. Por figurar na mesma lista que Adélia Prado, por exemplo. Não tem como não ficar boquiaberto", comenta Dalgo.

O autor explica que desejava escrever um livro de poesia sobre existências "aparentemente pequeninas", mas que pulsassem.

"Eu acredito nas palavras de minha mãe, na dos meus amigos e amigas, na das crianças, na dos bichos, na das plantas, nas palavras de quem olha a vida dando rasteira. A gente precisa aprender a dar as rasteiras de volta e eu aprendi a fazer isso com as palavras", relata.

Uma das maiores honras é poder dizer que sua literatura é cearense, "que ela come fruta tirada do pé e toma café só para dar dois dedinhos de prosa e, assim, consegue adiar o fim do mundo por mais um dia".

(*) Professora da Uece. Doutora em Educação.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 28/08/26. Opinião, p.18.


domingo, 27 de setembro de 2026

SANTAS CHAGAS: Fonte de Misericórdia e Vida

Por Pe. Reginaldo Manzotti (*)

No mês de setembro somos convidados a fixar os nossos olhos e o nosso coração no mistério mais profundo do amor de Deus, a nossa devoção à Jesus das Santas Chagas.

Quando olhamos para o Crucificado, ou quando contemplamos a imagem de Jesus Ressuscitado que traz em Suas mãos, pés e lado os sinais da Paixão, nós não estamos olhando para marcas de derrota. As Chagas de Jesus não são cicatrizes de uma humilhação passada; elas são as marcas vitoriosas da nossa libertação, as fontes abertas da Misericórdia Divina e os canais por onde corre a cura para nossas próprias feridas.

Vivemos em um mundo marcado por profundas feridas. Feridas na alma, feridas na mente, traumas que sangram em segredo, marcas de rejeição, de abandono, de traição e de pecado. Quantos de nós não trazemos cicatrizes dolorosas que ninguém vê? Tentamos disfarçar sob as máscaras das aparências, mas, por dentro, a alma continua machucada.

Diante do nosso sofrimento, Deus não permaneceu indiferente, assistindo à nossa dor do alto dos céus. O profeta Isaías, séculos antes de Cristo, já profetizava o mistério da Redenção, que cito continuamente: "Ele foi castigado por nossos crimes, e esmagado por nossas iniquidades; o castigo que nos traz a paz caiu sobre ele, e por suas chagas fomos curados." (Is 53, 5)

Na Cruz, Jesus assumiu em Seu próprio Corpo a dureza dos nossos pecados. Os pregos cravados em Suas mãos puras e em Seus pés santíssimos, e, finalmente, a lança que abriu o Seu Coração, tudo isso foi o preço pago para carregar em Si a culpa dos nossos pecados e das nossas dores.

A Tradição da Igreja sempre encontrou nas Santas Chagas um refúgio seguro contra os ataques do inimigo e contra as desesperanças da vida. Os Santos Padres e os grandes místicos da Igreja compreenderam que entrar nas chagas de Jesus é o caminho mais curto para a santidade.

O Catecismo da Igreja Católica ilumina de forma teológica esse mistério, mostrando que o sacrifício de Cristo nas chagas é a expressão máxima da Sua liberdade e do Seu amor por nós: "Jesus conheceu-nos e amou-nos a todos durante sua Vida, sua Agonia e Paixão e entregou-se por todos e cada um de nós: "O Filho de Deus amou-me e entregou-se por mim" (Gl 2,20). Amou-nos a todos comum coração humano. Por esta razão, o sagrado Coração de Jesus, traspassado por nossos pecados e para a nossa salvação." (CIC 478)

E a Tradição vai ainda mais longe. Por que Jesus, ao ressuscitar com um corpo glorioso, capaz de atravessar portas, escolheu manter as Suas chagas? Ele poderia ter ressuscitado com o corpo perfeitamente sem marcas. Mas Ele fez questão de mantê-las. Por quê?

Primeiro, para provar a Sua identidade: Para mostrar aos discípulos assustados que Aquele que ressuscitou era o mesmo que havia sido crucificado por amor.

Segundo, para interceder por nós diante do Pai: A Tradição nos ensina que, no Céu, Jesus apresenta continuamente ao Pai as Suas gloriosas chagas como uma oração perene em nosso favor. Quando o Pai olha para o Filho, Ele vê as marcas do preço que foi pago por cada um de nós.

Lembremo-nos do relato no Evangelho de São João, os discípulos estavam trancados no cenáculo por medo. Jesus aparece, deseja a paz e mostra as mãos e o lado. Mas Tomé não estava lá. Quando os outros contam, Tomé dúvida: "Se eu não vir a marca dos pregos em suas mãos, se não colocar o meu dedo no lugar dos pregos e não introduzir a minha mão no seu lado, não acreditarei." (Jo 20,24-25)

Oito dias depois, Jesus volta. Ele não vai para condenar a incredulidade de Tomé, mas vai diretamente ao encontro da sua ferida espiritual. Jesus olha para Tomé e diz: "Põe o teu dedo aqui e olha as minhas mãos. Estende a tua mão e coloca-a no meu lado. E não sejas incrédulo, mas fiel." (Jo 20,27)

Ao tocar nas Chagas de Jesus, Tomé não tocou apenas em carne ressuscitada; ele tocou na própria essência de Deus. O homem que duvidava caiu de joelhos e pronunciou a profissão de fé mais bela e direta de todo o Novo Testamento: "Meu Senhor e meu Deus!" (Jo 20,28).

As Chagas de Jesus têm o poder de transformar a dúvida em fé, o desespero em certeza, a morte em vida. Se realmente tocamos as Chagas de Cristo pela oração, pela adoração e, sobretudo, no Sacramento da Reconciliação (Confissão) e da Eucaristia, a nossa incredulidade cai por terra.

Quando o pecado pesar, quando os pensamentos de autodestruição, de desespero ou de impureza assaltarem a sua mente, faça o que os santos ensinam: "Senhor Jesus, esconde-me dentro das Vossas Santas Chagas". Nelas nenhum mal tem poder. Elas são a nossa fortaleza inviolável.

Meus irmãos, as Santas Chagas de Jesus estão abertas e reluzentes de glória eternamente. Elas não exigem de nós perfeição para entrar; elas exigem apenas a nossa pequenez e o nosso desejo de cura.

Acolhamos hoje essa graça. Que cada Chaga aberta seja para nós fonte de misericórdia, e que delas jorre o amor que nos restaura.

Deus abençoe e o Senhor Jesus das Santas Chagas os proteja!

(*) Fundador e presidente da Associação Evangelizar é Preciso e pároco reitor do Santuário Nossa Senhora de Guadalupe, em Curitiba (PR).

Fonte: O Povo, de 8/08/2026. Opinião. p.14.

sábado, 26 de setembro de 2026

Causo Médico: ROJO X ROXO

Esse fato aconteceu em uma escola médica, no final dos anos sessenta do século XX. Para acomodar um novo e improvisado professor, talvez admitido por injunções corporativas, acabou o dito cujo por assumir um cargo, como auxiliar de Bioquímica, cabendo-lhe, inicialmente, ministrar aulas práticas aos acadêmicos.

Em uma das práticas, que consistia em demonstrar a presença de fenolftaleína, o professor seguiu, passo a passo, os procedimentos estabelecidos, e pontificou:

– Agora, atentem para o nosso tubo de ensaio. É só aguardar alguns segundos, que o líquido nele contido ficará roxo, confirmando a presença da fenolftaleína.

Passado algum tempo, a substância ficou vermelha, em franca discordância do que o médico enunciara.

– Acho que cometi algum equívoco nas reações. Vamos fazer de novo, e bem devagar, pra não errar. Tá certo, turma!?

– Sim, professor – responderam, em uníssono, os poucos alunos presentes.

A prática foi reiniciada, observando, pausadamente, a sequência das reações, até o docente sentenciar:

– Pronto, meninos! Fizemos tudo direitinho! Esperem um pouquinho que vai ficar bem roxo.

Para decepção de todos, o líquido tomou uma cor vermelha rutilante. O professor pôs uma mão na cabeça, enquanto a outra sustentava o livro, e protesta:

– Não é possível! Eu segui tudo o que estava escrito no livro. Era pra dar roxo. A não ser que eu tenha falhado no manuseio dos produtos.

Os alunos continuavam sem entender o que se passava, e um deles indagou:

– Professor será que os produtos utilizados estão na validade?

– Sim, eles foram comprados na semana passada. Esse kit é novinho! Vamos fazer de outro modo. Dessa vez, eu cuidarei só da leitura e um de vocês vai fazer as reações. Alguém se habilita?

De imediato, um acadêmico apontou para uma colega e sugeriu:

– Professor, a Terezinha tem curso de técnica laboratorial e trabalha em um laboratório de análises clínicas. Acho que é a mais talhada para essa tarefa.

E assim foi feito: o mestre ditava e a experiente técnica realizava os procedimentos. Conclusa a operação, o tão esperado roxo não vingou; de novo, lá estava o vermelho das vezes anteriores.

O docente, mais do que intrigado com o resultado, ficou furioso e atacou:

– Este livro está redondamente errado! Aqui diz claramente que o resultado é roxo! No próximo semestre não vamos mais adotar essa porcaria!

Foi então que um dos estudantes pediu para ver a obra, cuja página com a citada prática estava marcada com um clip e o resultado final devidamente grifado pelo professor.

O aluno não se conteve e caiu na gargalhada ao se deparar que a obra estava escrita em castelhano e o desfecho grifado era: ROJO, um falso amigo para os lusófonos, que se traduz por vermelho na nossa “última flor do Lácio, inculta e bela”.

De fato, nunca o resultado poderia ser roxo ou violeta. Quem ficou roxo de vergonha foi o infeliz e desqualificado mestre, um desconhecedor do “falso amigo” do idioma mais falado na Espanha e na América Latina.

Marcelo Gurgel Carlos da Silva

Da Sobrames/CE e da Academia Cearense de Médicos Escritores

Fonte: SILVA, Marcelo Gurgel Carlos da. Medicina, meu humor! Contando causos médicos. 2.ed. Fortaleza: Edição do Autor, 2022. 144p. p.29-30.

* Republicado. In: Revista AMC (Associação Médica Cearense). Abril de 2025 - Edição n.43. p. 29-30 (online).


CONVITE: Celebração Eucarística da SMSL - Setembro/2026

 

A Diretoria da SOCIEDADE MÉDICA SÃO LUCAS (SMSL) convida a todos para participarem da Celebração Eucarística do mês de setembro/2026, que será realizada HOJE (26/09/2026), às 19h, na Igreja de N. Sra. das Graças, do Hospital Geral do Exército, situado na Av. Des. Moreira, 1.500 – Aldeota, Fortaleza-CE.

CONTAMOS COM A PRESENÇA DE TODOS!

MUITO OBRIGADO!

Marcelo Gurgel Carlos da Silva

Da Sociedade Médica São Lucas

sexta-feira, 25 de setembro de 2026

Crônica: Djalma Babau e o "waze ariado" no Acaracuzinho ... e outros causos

Djalma Babau e o "waze ariado" no Acaracuzinho

"Me chamam Djalma Babau e tenho um alerta a fazer. Se o amigo conhece o tal "aplicativo gratuito de navegação por GPS para celulares que usa informações em tempo real compartilhadas pelos próprios motoristas para mostrar o melhor caminho", coidado! Cumpade Zé Barbosa, pouco chegado ao modernismo tecnológico, quase se lasca pela falta de categoria na lida com esse negócio! Vou contar a besteira que sucedeu.

Pouco "uberista", Babau inventou de ensinar ao motorista "a rodagem mais curta" para chegar à casa da filha mais velha, no Acaracuzinho, saindo do Siqueira. Desde que entrou no carro, sem reparar - nas fuças dele - o celular do chofer indicando o caminho traçado pelo programa, pôs-se a narrar o trajeto, empolgado à moda Gomes Farias. Motorista aparente se enfezar com o bodejado. A moça da máquina dizia:

- A quinhentos metros, vire à direita na Rua 116...

- Uma ova que vai virar à direita na 116! 116 é do grupo do leão no jogo do bicho. Sou Ceará. Caminhe mais uma coisinha, minha senhora, e siga até o bar de Nozinho!

Ao invés de explodir com os pitacos de Zé Barbosa, o motorista sabiamente deixar correr frouxo, para ver como ia terminar tudo, onde (não) iam chegar, só pra fazer o mal. Quando Zé deu fé, já divisava uma placa que anunciava: "Bem-vindos a Itapebussu". Sem mais o que dizer, cumpade Zé Barbosa reconhece que melou a vara e, acabrunhado, falou no ouvido do aplicativo:

- Tu tá é ariado, waze véi fulerage!

O "bilôto" que mudou uma vida

Já vi crente ir de joelhos a Canindé pagar promessa pro filho que passou no exame de admissão; esposa que rezou novena e trezena em agradecimento pela cura de doença braba no marido arreado; político que deu quinhentos contos à instituição de caridade por ter sido sufragado nas urnas com 15 votos; moça velha grávida de agradecimento a Santo Antônio pelo namorado que arrumou.

Contudo, a colega Francisca foi muito, muito além em sua imensa gratidão: acendeu 10 velas e orou pra mãe da pessoa que inventou a máquina de lavar. Pela primeira vez alguém fez algo assim. Acostumada e "bater roupa", primeiramente, nas águas corrente do Ereré (córrego que corta Pacajus a oeste), passou, depois, a lavar redes e peças de cama e mesa na lavanderia de casa, com sabão em barra, tacando um cacete de jucá no "espinhaço dos panos".

Toinho, marido da Francisca me mandou vídeo da mulher ajoelhada diante do eletrodoméstico, rezando contrita, rodeada de velas de uma semana. Assim falando:

- Obrigado, seu inventor! Apertando um bilôto, o colega tirou das minhas costas e braços uma tonelada! Se tiver uma rede pra nós lavar, manda! Pro senhor é de grátis! Amém!

Olhos nos ovos

Joseph, bodegueiro famoso de São Romão. Pacato e gentil, dizia-se "remediado", mas que tinha uma riqueza: o filho Peter Joaquim Muller Gregório, seu assistente no sortido estabelecimento. Pra contrabalançar, uma mulher braba feito "siri na latra" - Candinha. E era dezembro, mercearia enfeitada de detalhes natalinos. Chega a vendedora de ovos caipira - Lica, a generosa. 75 unidades numa caixa escura, lacrada. Joseph, de calção num tamborete, deixando aparecer "as partes", derrama-se todo ante a senhora estupefata:

- Lilica! Sempre novona e bonita! E isso aí, na caixa?!?

- São seus ovos, são seus ovos! - responde ela, olhos grelados nas 'ovanças' de Joseph.

Candinha ouve a conversa, de dentro de casa, e grita com o cão nos couros:

- Que raparigagem é essa aí? Hein?

Fazendo valer a autoridade, ordena ao filho Peter Joaquim e ao marido Joseph:

- Almoço tá quase pronto, Quinca! E tu, Zé, traga a farinha do pirão com os meus ovos!!!

Fonte: O POVO, de 28/08/2026. Coluna “Crônicas”, de Tarcísio Matos. p.2.


quinta-feira, 24 de setembro de 2026

ESTRATÉGIA E INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL

Por Lauro Chaves Neto (*)

Durante décadas, possuir tecnologia era um privilégio de grandes empresas. Hoje, com a Inteligência Artificial (IA), ferramentas capazes de analisar dados, automatizar processos, produzir conteúdo e apoiar decisões estratégicas estão disponíveis para organizações de todos os portes.

Esse é o tema do livro "Competitive Advantage and Strategy for Small Businesses and Startups in an Artificial Intelligence Environment", o décimo primeiro de minha autoria, resultado de pesquisa no pós-doutorado em Boston, Massachusetts, sobre estratégia e adoção de Inteligência Artificial por pequenas empresas.

A tecnologia, por si só, não cria vantagem competitiva. Ela potencializa aquilo que já existe dentro da organização. Empresas com processos eficientes tendem a ampliar seus resultados. Já as demais apenas automatizam suas próprias ineficiências.

Na pesquisa com 104 pequenas empresas do Brasil e dos EUA, observou-se que as organizações que utilizam IA apresentaram crescimento médio anual de 12,93%, enquanto aquelas que ainda não a utilizam cresceram, em média, 6,23%. O livro reforça que o crescimento está ligado à forma como a IA é incorporada à estratégia do negócio aliada a geração de valor para o cliente, e não simplesmente à sua utilização.

No Brasil, a adoção da IA já é disseminada entre pequenas empresas, enquanto nos EUA ela ainda ocorre de maneira mais seletiva. Entretanto, lá, nas que utilizam IA, o impacto sobre o desempenho é significativamente maior. Isso sugere que a diferença competitiva não está apenas em usar IA, mas em utilizá-la para inovar, compreender melhor os clientes e apoiar decisões estratégicas.

Nesse novo cenário, a maior vantagem das pequenas empresas talvez seja justamente sua agilidade. Elas conseguem experimentar, aprender e adaptar seus modelos de negócio com rapidez muito superior à das grandes organizações.

A IA continuará evoluindo, mas o fator decisivo permanecerá essencialmente humano. Estratégia significa fazer escolhas, definir prioridades e criar valor para o cliente. No futuro, vencerão as empresas que souberem utilizar a IA com inteligência estratégica.

(*) Consultor, professor doutor da Uece e conselheiro do Conselho Federal de Economia.

Fonte: O Povo, de 17/08/26. Opinião. p.18.


quarta-feira, 23 de setembro de 2026

A ARQUITETURA DO DESCONTO HIPERBÓLICO

Por Alexandre Sobreira Cialdini (*)

Entre receber R$ 1.000 hoje ou R$ 1.200 daqui a um mês, a maioria das pessoas escolherá a primeira opção. O benefício imediato parece ter muito mais valor do que os R$ 200 adicionais no futuro, ainda que não esteja tão distante.

Se a escolha passar a ser entre receber R$ 1.000 daqui a um ano ou R$ 1.200 um mês depois, a lógica se inverte: a maior parte das pessoas prefere esperar um pouco mais para receber a recompensa maior. Afinal, quando a espera já é longa, o intervalo de um mês tende a fazer pouca diferença.

Essas duas situações ilustram o chamado desconto hiperbólico, um viés cognitivo explorado pelos jogos de azar e pelas bets. O valor atribuído aos ganhos futuros cai rapidamente em comparação ao das recompensas imediatas, mas essa queda desacelera à medida que a espera se prolonga.

O conceito de desconto hiperbólico foi formalizado pelo psiquiatra americano George Ainslie, em 1975. Mais tarde, o economista David Laibson adaptou esse modelo para uma versão mais aplicável à economia.

Na prática, o pesquisador Vincent Berthet propõe três ferramentas para reduzir os efeitos do desconto hiperbólico.

A primeira consiste na utilização de "dispositivos de compromisso", como planos automáticos de poupança e metas que evitem decisões impulsivas.

Outra estratégia é o "compromisso prévio", que envolve criar barreiras ao comportamento impulsivo. Um exemplo é o agendamento automático de investimentos regulares.

A terceira ferramenta consiste no uso de lembretes (visuais, escritos ou em conversas) que reforcem decisões de longo prazo.

Nesse contexto, a Secretaria do Planejamento e Gestão do Estado (Seplag-CE) e a Fundação Demócrito Rocha lançaram, em junho deste ano, o Programa de Educação Financeira do Estado do Ceará, cuja primeira iniciativa foi o Curso de Educação Financeira para Cidadania Plena.

O projeto é inovador em âmbito nacional e incorporou esse arcabouço teórico para orientar pessoas e famílias sobre os riscos das bets. O curso alcançou 10.870 participantes, superando a meta inicial de 3 mil.

As inscrições já foram encerradas, mas o Programa de Educação Financeira continuará com uma série de atividades multidimensionais.

Portanto, a análise da interação entre o viés do presente, os instrumentos de comprometimento e o endividamento revela que o autocontrole pode manifestar-se tanto na capacidade de evitar situações tentadoras quanto na habilidade de resistir a elas.

Contudo, por mais eficazes que sejam os mecanismos de autocontrole, as ações de educação financeira devem considerar as diferenças entre os diversos públicos, como servidores públicos, jovens, idosos e outros segmentos.

Além disso, o fortalecimento da literacia financeira e o acesso ao aconselhamento profissional deverão constituir recursos complementares.

(*) Mestre em Economia e doutor em Administração Pública e Secretário de Finanças e Planejamento do Eusébio-Ceará.

Fonte: O Povo, de 6/08/26. Opinião. p.15.

terça-feira, 22 de setembro de 2026

NOVOS TEMPOS?

Por Tales de Sá Cavalcante (*)

A expressão francesa "Mardi Gras", literalmente, significa "terça-feira gorda". É a terça-feira de Carnaval. O termo vem do consumo de alimentos gordurosos antes da abstinência da quaresma. Em cidades como New Orleans, "Mardi Gras" passou a ser Carnaval e nesse período lá estive. O desfile é bem distinto do nosso.

Lembrava o das antigas escolas do Brasil em 7 de Setembro. Indaguei a um dos policiais por que alguns deles entravam num carro comum e logo saíam. Disse-me ele: "É o carro do médico da polícia. Estamos em operação. Se alguém achar que irá gripar, entra no veículo e recebe uma injeção". Imaginei o cuidado que os americanos deveriam ter com seus soldados numa guerra.

Segundo a mídia, em novembro de 2025, o porta-aviões USS Abraham Lincoln foi ao Mar da China. Após a guerra entre EUA e Irã, o navio deslocou-se ao Oriente Médio. Os porta-aviões devem atracar a cada 30 ou 40 dias para descanso da tripulação e reabastecimento, mas o navio americano está no mar 3 meses a mais do que o previsto, e parentes dos militares que estão a bordo denunciaram, entre outros problemas, a escassez de comida e itens para higiene pessoal, além da contaminação da água, e que o longo período no mar e em guerra já impacta a saúde mental da tripulação. Novos tempos?

Noticiou-se que, em recente viagem do presidente, com a desconfiança de ataque iraniano ao avião, o líder dos EUA saiu secretamente para outra aeronave ao usar o caminhão de abastecimento e deixou, como "isca", os repórteres e assessores, que viajaram sem saber do perigo que corriam. Novos tempos?

O truque lembra o que teria acontecido em Brasília quando um marido sentiu que, para a esposa crer na sua viagem, teria de vê-lo entrar no avião. O esposo nele ingressou, saiu pelo caminhão e ficou em Brasília com a "outra".

Em 1998, o presidente Clinton quase perdeu o mandato, não por trair a esposa, mas por mentir. Hoje, em novos tempos, se daria o mesmo?

Para o neurocientista Miguel Nicolelis, "os EUA estão em uma autodestruição, com derretimento interno, sua democracia está morrendo e os jovens estão sem perspectiva alguma". Novos tempos?

(*) Reitor do FB UNI e Dir. Superintendente da Org. Educ. Farias Brito. Presidente da Academia Cearense de Letras.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 20/08/26. Opinião, p.18.

segunda-feira, 21 de setembro de 2026

EU VI!

Por Izabel Gurgel (*)

Houve um tempo em que nossa Tia Esmeralda dizia: "Caetano Veloso e Maria Bethânia são a mesma pessoa". Absoluta, Tia Esmeralda. "Uma só pessoa."

Eu não entendia. Era demais mesmo eu já tendo visto Fu Man Chu serrar uma mulher ao meio e deixá-la inteira ao final da mágica mais esperada no circo de passagem por Uruburetama. Também já havia angariado recursos para a cirurgia de recomposição da "Rose, a decapitada viva". Como? Levava mais gente para ver Rose na barraca da Feira dos Municípios, em Fortaleza. A bilheteria era para a cirurgia de recolocação da cabeça junto ao corpo, dizia o comovido senhor que apresentava cada sessão.

Depois de tanto trabalho, de mobilização de público, a produção de decapitada, a plateia pagante, vi Rose e o comovido senhor de mãos dadas na tarde do domingo, em cuja noite se daria a última apresentação. Estavam no Parque de Exposições, a caminho, talvez, da barraca-do-drama. Bem que o Dr. Prefeito havia explicado, a pedido da minha mãe, que era impossível alguém viver decapitado. Explicou como médico que era e usando um exemplo da física. O que acontecia ali era um truque de ilusionismo, com espelhos, luz, refração, eu iria ver com meus próprios olhos nos livros que ele me mostraria na volta para casa.

Ouvir eu ouvi. Valeu nada. Eu não pagava mais ingresso, pois estava a serviço. Quem pagava, via, no congelador da geladeira vazia, a cabeça ligada por mangueiras de jardinagem ao corpo na maca. E Rose falava. Falar com som, emissão de voz, não, mas abria e fechava os olhos, em diálogo com o citado comovido senhor e, por meio dele, com a plateia.

- Rose, Rose...

Em tom de dramática incerteza, parecia perguntar a si. A dúvida se Rose ainda teria forças para responder nos abalava. Silêncio de cortar corações, como cortada estava a cabeça.

Alonga-se a pausa dramática.

- Rose..., você quer viver, Rose?

Mais nove desertos de drama.

... uma sequência mais dramática ainda de abrir-e-fechar-de-olhos. Por vezes, Rose se fazia em lágrimas. Bem poucas. Havia mais lágrima na plateia.

Antes e depois da pergunta mil e uma vezes recolocada (há anos estavam em peregrinação. Via-se pelo estado da geladeira), o comovido senhor contava tudo o que havia acontecido com ela aos 19 anos. A tentativa de assassinato pelo marido, a fuga, os primeiros socorros, a esperança itinerante no combo barraca-Rose-geladeira-maca-comovido-senhor, único modo de sensibilizar as pessoas. Cada sessão urgia ser a última antes da cirurgia e restauro. O tempo de vida de Rose cada vez menor, a urgência por justo aquele tanto que faltava para cobrir o volume de gastos; os agradecimentos por estarmos ali, não só pagando ingresso, mas doando um tanto mais, o possível de cada qual para costurar a cabeça ao corpo da artista.

Não sei como, mas eu já sabia que Rose e o comovido senhor eram artistas. E duas pessoas tão separadas uma da outra quanto a cabeça e o corpo da Rose.

(*) Jornalista de O Povo.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 16/08/26. Vida & Arte, p.2.


domingo, 20 de setembro de 2026

SULIVAN MOTA

Por Lêda Maria, jornalista de O Povo

Desde criança ele já manifestava o desejo de ser médico. Aos 9 anos, conseguiu comprar o seu primeiro livro de pequenos socorros e logo aprendeu a aplicar injeção, ganhando a confiança das pessoas e entregando-se à prática de um "pequeno doutor", recebendo da família orientação e motivação.

Após a formação em Medicina, pela UFC, conheceu o Iprede, ali exercendo sua vocação de amor. São 40 anos de dedicação. Aqui está Sulivan Mota, nosso entrevistado.

1. Quem é você?

Eu sou o Sulivan Mota. Ou melhor, eu fui o Sulivan Mota até alguns anos atrás, quando assumi o Iprede. A partir dali, passei a ser o Sulivan do Iprede.

É assim que a sociedade carinhosamente me chama. E eu sou imensamente feliz por isso — por estar nesta casa e ouvir "o Sulivan do Iprede" e não o inverso, "o Iprede do Sulivan", o que me deixaria profundamente triste. Sou pediatra de alma.

Professor aposentado da Universidade Federal do Ceará, onde exerci a docência por escolha de vida durante 44 anos.

2. Por que optou pela profissão de médico?

É difícil dizer, porque me falta a lembrança de ter pensado em qualquer outra profissão. Sempre tive a certeza absoluta de que seria médico.

O que me levou a isso, realmente, não sei. Não tive um pai ou um irmão mais velho médico para me influenciar.

Aos 10 anos de idade, depois de insistir muito, meu pai comprou para mim um livro que ensinava a aplicar injeção intramuscular.

Li e reli aquele livro e, depois de meu pai tomar a lição repetidamente, abri meu pequeno ambulatório para fazer curativos e aplicar injeções.

Tinha uma maletinha que eu carregava para cima e para baixo, atendendo a vizinhança ou alguém da família que necessitasse. Assim, ainda menino, eu já me projetava médico.

3. E o Iprede, como chegou à sua vida?

O Iprede chegou de forma muito suave, muito terna. Não sou fundador, mas, logo depois de fundado, cheguei ao Iprede como professor da UFC, levando meus alunos da disciplina de Desnutrição para aulas práticas.

Naquela época, a desnutrição atingia um pouco mais de um terço de nossas crianças. Logo me encantei com o Iprede, pela sua capacidade de estudar e por suas articulações com entidades do mundo inteiro, como o Instituto de Nutrição de Londres, onde Waterlow era o maior pesquisador em desnutrição da época.

Depois passamos a ser plantonista e médico do ambulatório, sempre nos comprometendo com aquele trabalho lindo, que transforma vidas. Falo no plural porque essa caminhada tem a companhia inseparável do pediatra João Nelson.

Nos encantamos tanto que, quando o Iprede esteve ameaçado de fechar as portas, decidimos assumir a entidade, mesmo em meio a grandes dificuldades. Chegamos com o coração aberto, com muita fé em Deus, que se faz manifestar aqui a todo instante.

4. Hoje quais são os seus dois principais desejos nessa caminhada no Iprede?

Alimentamos um dos maiores sonhos: a autossustentabilidade. No início nos pareceu utopia, mas a cada dia nos aproximamos mais dela. O primeiro desejo foi honrar e pagar as dívidas.

O segundo, o sonho que hoje nos move, é alcançar escala no atendimento das crianças neurodivergentes. Hoje temos uma demanda que jamais o Estado brasileiro terá condições de atender sozinho.

Mesmo havendo recursos, não teremos profissionais suficientes para assistir todas as crianças necessitadas.

A metodologia que se tem hoje para a intervenção no autismo exige um contingente de especialistas que o Brasil não dispõe.

O Iprede estudou e desenvolveu uma metodologia 10 a 12 vezes mais barata que a tradicional e que pode ser implantada tanto no pequeno quanto no grande município do Brasil.

Meu sonho é vê-la implantada, atendendo à demanda por inteiro. Só em Fortaleza, esta demanda ultrapassa 55.000 crianças buscando uma vaga para atendimento que, certamente, não terão se nada mudar.

5. Devoto de Irmã Dulce, como se relaciona com ela e qual uma graça alcançada?

Irmã Dulce tem sido a nossa mentora, a nossa santa milagrosa fazendo com que aqui dentro hoje possamos atender 4 mil crianças, 4 mil famílias.

A gente conseguir fazer a transformação dessas realidades confirma a cada momento a verdadeira realização de um milagre dela.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 19/09/2026. V&A. Lêda Maria. p.3.


A COLISÃO DE TRENS

Um dia o chefe de uma estação ferroviária, conversando com um dos funcionários, pergunta-lhe:

- Diga-me, o que você faria se visse que dois trens iriam colidir?

- Avisaria por rádio ou com bandeiras para mudar de faixa - o funcionário responde com muita segurança.

- E se eu não tivesse rádio nem bandeiras? - insistiu o chefe.

-  Bem, então eu ligaria para meu primo.

Surpreso, o patrão lhe pergunta:

- O seu primo saberia o que fazer?

- Não, é que ele nunca viu um acidente de trem.

Fonte: Disponível na home page “Tudoporemail”.


 

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