De O Povo, Editorial.
Há trajetórias que
ultrapassam os limites de uma instituição e passam a integrar a própria
história de uma sociedade. A caminhada de dom Manuel Edmilson da Cruz, bispo
emérito de Limoeiro do Norte, no Ceará, é um desses exemplos. Ao celebrar 60
anos de ordenação episcopal, no próximo dia 6 de novembro, o religioso oferece
ao Ceará e ao Brasil a oportunidade de reconhecer não apenas a longevidade de
seu ministério, mas, sobretudo, a coerência de uma vida dedicada à fé, à
justiça social e à defesa da cidadania.
Aos 102 anos de idade,
completados em outubro, dom Edmilson carrega uma experiência que atravessa
diferentes períodos da história brasileira. Sua atuação como bispo auxiliar em
São Luís (MA), bispo auxiliar de Fortaleza e bispo de Limoeiro do Norte revela
uma caminhada da compreensão de que a missão da Igreja não pode estar
dissociada das necessidades da população.
A história de dom Edmilson
está associada a uma compreensão de Igreja que ultrapassa os espaços dos
templos e se faz presente no cotidiano das pessoas. Seu apoio às Comunidades
Eclesiais de Base (CEBs), sua participação em iniciativas de assistência e sua
atuação em pastorais demonstram a importância à organização comunitária e à
participação popular.
Outro aspecto significativo
de sua trajetória foi a convivência com dom Aloísio Lorscheider, referência da
Igreja Católica no Brasil no século XX. Quando dom Edmilson atuou como bispo
auxiliar de Fortaleza (1974-1994), os dois compartilharam responsabilidades
pastorais em uma Igreja que precisava dialogar intensamente com os desafios
sociais e políticos do país.
Um episódio emblemático
ocorreu em março de 1994, em uma visita pastoral ao então Instituto Penal Paulo
Sarasate (CE). Dom Edmilson e dom Aloísio foram feitos reféns. Houve
repercussão nacional, e a lembrança desse episódio faz refletir sobre a
necessidade de uma sociedade que não abandone aqueles que se encontram em
situações de vulnerabilidade. A relação de dom Edmilson com dom Aloísio ajuda a
compreender uma geração de lideranças católicas que procurou aproximar a
mensagem do Evangelho dos dilemas de seu tempo.
Em 2010, dom Edmilson
recusou a Comenda de Direitos Humanos Dom Hélder Câmara, concedida pelo Senado
Federal, em protesto contra o aumento dos salários dos parlamentares. O gesto
foi uma manifestação de inconformismo com decisões que, a seu ver, contrariavam
princípios de responsabilidade pública e justiça social. Nestas eleições de
2026, ele fez questão de ir votar, mesmo não sendo mais obrigado.
Homenagear dom Edmilson da
Cruz é reconhecer uma vida de serviço e reafirmar a importância de uma Igreja
comprometida com a justiça social, a democracia, a solidariedade e os direitos
humanos.
Que este jubileu seja, para
o Ceará e o Brasil, não apenas uma ocasião de gratidão, mas também um chamado à
continuidade de seus melhores ideais: colocar a vida em primeiro lugar,
defender a dignidade de cada pessoa e compreender que a verdadeira grandeza de
uma missão se mede, sobretudo, pelo bem que ela é capaz de produzir na
sociedade.
Fonte: Publicado In: O Povo, de 1/11/26. Editorial
p.18.

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