sábado, 13 de junho de 2026

MARGARETH DALCOLMO: entre a literatura e o compromisso com a ciência II

Por Ana Rute Ramires, jornalista de O Povo.

OP - A senhora também menciona que, durante esse período da Covid-19, a gente teve um retrocesso de 10 anos no combate à tuberculose. Como é que o Brasil pode recuperar esse tempo perdido? A senhora acha que a gente vai conseguir recuperar?

Margareth - Vai. Mas, quer dizer, você não recupera um tempo perdido. Ele não é recuperável, né? O tempo perdido, ele é, eu diria, recomponível de uma outra maneira. Então, nós tivemos um retrocesso em todas as doenças, não foi só nas doenças transmissíveis, a tuberculose foi a que mais sofreu, mas nós tivemos um retrocesso muito grande em outras doenças, como as cardiovasculares, onde a mortalidade aumentou, mas sobretudo nos cânceres. Nos cânceres realmente foi devastador o retrocesso. Por quê? Porque pessoas que estavam em tratamento, muitas interromperam, pessoas não tiveram seus exames preventivos feitos, portanto, não tiveram seus diagnósticos de câncer de mama, de câncer de próstata e de outros cânceres e pessoas que não foram operadas, não foram tratadas numa temporalidade adequada. Então, sem dúvida, o impacto sobre o câncer foi devastador. Na tuberculose também, porque o Brasil tem um paradoxo, né? O Brasil tem uma carga de doença muito alta ainda. Nós tínhamos aproximadamente 90.000 casos por ano, passamos para 100.000 casos por ano. Uma mortalidade que também teve um impacto muito grande, porque as pessoas deixaram de se tratar, os serviços não funcionaram. Eu trabalho na Fiocruz, um serviço que nunca deixou de funcionar, porque como nós fazemos pesquisa, nós temos voluntários e não podíamos deixar de ser atendidos de modo algum. Tem muitas implicações de natureza ética e, além disso, nós desenvolvemos pesquisa, então, nós estávamos lá o tempo todo, mas isso não aconteceu com a maior parte do serviço. Então, o paradoxo ao qual eu me refiro é que o Brasil tem tratamento rápido molecular na rede pública, ou seja, um diagnóstico que pode ser feito em 24 horas. O Brasil tem tratamento gratuito, governamental, para todo mundo, inclusive com medicamentos de alto custo e que são oferecidos pelo SUS. Então, nada justifica a não ser uma ineficiência dos serviços e eu acho que isso é um exemplo bastante revelador das necessidades de melhoria do funcionamento do SUS. O SUS, você sabe, eu sou defensora absolutamente convicta do SUS, né? Eu acho que o SUS é o maior programa de inclusão social do mundo. Não há nenhum país que tenha mais de 100 milhões de habitantes que ofereça serviço para todo mundo de maneira equânime. Como SUS, com todos os seus problemas, com todas as suas falhas, com todo o seu subfinanciamento, nós ainda gastamos muito pouco com saúde, né? Nós gastamos menos de 5% do nosso PIB com saúde, quando outros países gastam muito mais, mais de 10%. Então, assim, nós precisamos aumentar o investimento do SUS, precisamos melhorar a qualificação das pessoas que lá trabalham. Então, essa questão de recursos humanos é muito importante e nós precisamos dar acesso maior, lembrando algo que eu considero muito importante que todo mundo tem que ter essa consciência. O Brasil é um país que envelheceu rapidamente. Nossa população aumentou a sua longevidade de maneira quase abrupta nos últimos 40 anos, né? Nós aumentamos a nossa expectativa de vida ao nascer de 54 para 78 anos em 40 anos. Isso se deve a uma ação de saúde pública chamada vacinas. E essa crença, essa confiabilidade, é muito importante que seja retomada para que nós consigamos manter não só a confiança da nossa população, como as medidas que estão ligadas a isso. Então, as doenças tiveram impacto com a Covid-19, sem dúvida nenhuma, mas isso levou a uma consciência e que hoje tá muito clara para nós. Essa não foi a última pandemia das nossas vidas. A Covid-19 não é a última pandemia, teremos outras. Então, o relatório global publicado no final de 2024, o Global Report publicado na revista Lancet agora em 2025, revela por estudos muito bem feitos que nós temos uma chance real de 48%, matematicamente calculada, de que nós teremos nos próximos 8 anos uma grande pandemia com muitas de mortes, por mais de 1 milhão de mortes. E isso é esperado. Então, o Brasil não pode mais ser apanhado tão desprevenido como foi quando a Covid a chegou, de modo algum. Então, o Brasil precisa de uma nova institucionalidade que cuide disso, que prepare o país para isso. Então, faço parte de um grupo criado pelo Ministro Padilha, assim que ele assumiu no ano passado, para a criação de uma nova institucionalidade que nesse momento tá aprovada e que depende apenas agora de um marco legal, né, um projeto de lei, uma medida provisória, algo que possa institucionalizar de maneira definitiva e nós possamos ter todas as providências rapidamente tomadas.

OP - E o que é que a gente faz enquanto espera a próxima pandemia? A senhora falou desse grupo de trabalho que está sendo institucionalizado. O que é que a gente precisa fazer para se preparar para outro evento como esse?

Margareth - Primeiro, nós temos que ter toda uma questão logística de entendimento institucional da relevância, da magnitude que o problema pode ter. Isso é muito importante. Segundo, qualquer pandemia ou qualquer epidemia daqui para a frente será sempre, ou uma maioria delas, de origem zoonótica. Ela virá do mundo animal. O homem tá fazendo tão mal ao planeta com esses desmatamentos e mudanças climáticas e tudo que de modo negacionista pode ser negado, mas nós sabemos que é verdade. Tudo isso está relacionado, nada disso é independente. Então, muito provavelmente, as próximas epidemias serão não só de origem zoonótica, ou seja, gripes aviárias, mas relacionadas a viroses, doenças virais de transmissão respiratória, isto é, uma pessoa contaminada pode transmitir para várias outras. Então, é preciso que esse entendimento seja público, que as pessoas saibam disso. Segundo, que a comunicação seja muito imediata, seja feito alerta e que as pessoas possam cumprir normas e recomendações sanitárias que protejam as pessoas. E terceiro, que o Brasil tenha a contingência necessária. Então, você se lembra que nós não tínhamos máscara, nós não tínhamos vidro para envasar vacinas. Nós precisamos de autonomia, autonomia da indústria, para que nós tenhamos estoque adequado de tudo que é necessário para controlar algo que é transmissível e que é é transmissível de um vetor ou que é transmissível de uma pessoa para outra. Essa logística, que eu chamo de contingência, é crucial pro Brasil nesse momento. Nós precisamos disso e nós precisamos de autoridade. É claro que uma institucionalidade nova não terá poder de polícia. Eu não posso chegar e fechar esse hotel onde nós estamos, ou escola, não. Mas eu posso dizer ao público: escolas devem ser fechadas, cinemas devem ser fechados, locais públicos, festas canceladas, porque há uma transmissão que é coletiva e que uma pessoa pode transmitir para várias outras. Alguém com essa autoridade, um grupo de pessoas com a chancela governamental. E isso não pode estar ligado a governos. Isso tem que ser uma institucionalidade de Estado que não sofra nenhuma interferência de natureza política. Nós estamos aqui para orientar, prover informações, gerar conhecimento e, sobretudo, dizer do que foi encontrado, seja isso uma resposta boa, uma informação ruim, preocupante ou alarmante, mas nós temos que dizer a verdade. Felizmente, a imprensa brasileira, eu sou particularmente muito grata à imprensa brasileira de modo geral, salvo raras exceções, a imprensa brasileira optou numa encruzilhada de opção, optou pelo caminho correto. Ouviu-nos e nos deu voz permanente, como você viu. Tinha dias que eu dava quatro, cinco entrevistas em canais diferentes de televisão, de rádio, de jornais. Eu passei a escrever em um jornal semanalmente, eu dei entrevista para muitos órgãos internacionais, porque a situação do Brasil preocupava o mundo todo, naturalmente. Nós convivemos desde o início com algo muito nocivo ao Brasil, faço questão de frisar isso. Nós convivemos com uma tensão entre a nossa voz e a retórica governamental que era extremamente danosa à nossa população. Então, nós vivemos nessa tensão desde o início e procuramos, digamos assim, diminuir isso dando informação precisa e verdadeira.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 8/06/26. Páginas Azuis. p.6-7.


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