Por
Izabel Gurgel (*)
Maria Socorro Alves Bezerra faz o bolo de
milho com rapadura servido no café-da-manhã dos dias 6 de janeiro no sítio
Aroeiras, em Guassussê, Orós. Abre-se com uma mesa longa feito estrada reta o
encontro sobre experiências de chuva realizado há mais de 20 anos na casa da
família do poeta, compositor, cantor Zé Vicente. O bolo leva cravo, erva doce,
canela em pau e gergelim. Na finalização, já na forma, Socorro coloca amendoim
e castanha.
Os dias 6 no sítio Aroeiras têm cortejo de
Santos Reis depois do café. A manhã inteira é cantada. Tem poeta repentista,
tem coro livre na partilha das sementes, improviso na roda de conversa e
sanfoneiro depois do almoço, outro banquete, de renovada comunhão.
Ricardo Bernardo Silva faz os sequilhos
para a Renovação na casa de Dona Teresinha e do finado Seu Manoel, no sítio
Baixa do Quaresma, em Missão Velha. É a casa junto à qual a filha loiceira
Corrinha construiu a olaria, com forno no quintal. Tornou-se museu e manteve a
placa "Mão na Massa Artesanato".
Renovação, a palavra anuncia, é como se diz
da confirmação, a cada ano, da entrega da casa e da família ao Sagrado Coração
de Jesus. O Cariri cearense cultua e cultiva a prática. A entronização do
Sagrado Coração quase sempre se dá relacionada à data das núpcias do casal. O
casamento de Dona Teresinha e Seu Manoel se deu em um mês de novembro. Seu
Manoel manteve a data da Renovação que trazia da casa dos pais, Josefa Joaquina
do Espírito Santo e Vicente José do Nascimento, o dia 6 de janeiro. Corrinha conta
que a avó paterna levou o Sagrado Coração para Padre Cícero benzer e ele
recomendou o dia de Santos Reis. Ricardo, na casa dos 30 anos, mora no sítio
Passagem de Pedra. É "tirador" de Renovação, como se nomeia o
encarregado das rezas e cânticos.
Cuscuz de milho com galinha cozida foi o
prato de sustança servido na manhã de 6 de janeiro último, quando da saída do
Reisado dos Irmãos, na casa-sede no bairro João Cabral, em Juazeiro do Norte. O
grupo dançaria o dia inteiro conduzido por Mestre Antônio, subindo e descendo
as ruas do bairro, com encontro final à noite no terreiro da casa de onde havia
saído depois da comida de sustentação.
Sexta-feira agora, como todo primeiro de
maio, acontece a Renovação do Reisado São Miguel, na casa-sede do grupo do
Mestre Tarcísio, no citado João Cabral. A louvação, a brincadeira e o comer
junto se dão com fartura, abundância, na batida da casa aberta, terreiro aceso
e, como sabemos sobre as festas, muito trabalho e investimento nos bastidores
para que se realize.
Em Fortaleza, estaremos assim no primeiro
de maio, nos festejos de abertura da Casa Plebeu, nova sede do Plebeu Gabinete
de Leitura, no São João do Tauape. Escrevo Tauape e me dou conta que contém
Tauá, o lugar de nascença da leitora Adelaide Gonçalves, que nos daria a
biblioteca. Plebeu é uma casa-sementeira, de força e fé na produção da alegria.
Louvação da leitura, livros pra comer com os olhos, mesa farta. Tem açude
sangrando na Fortaleza.
(*) Jornalista de O Povo.
Fonte: Publicado In: O Povo, de 26/04/26. Vida & Arte, p.2.

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