Por Pedro Bezerra de Araújo – Pierre Nadie
Naquela tarde, o inverno tinha chovido toda
a manhã e continuava um sereno inconstante.
Quando? eu não recordo, mas não havia
atravessado os 7 anos de minha meninice.
Aconteceu, à tardinha, ainda com o céu
plúmbeo; o cheiro de terra molhada lembrava as pancadas da manhã. Era, na
verdade, o petricor, que ainda exsudava da terra molhada.
A rua estendia-se sobre o barro. Aqui e
ali, algumas poças d’água, entremeadas de pequenas moitas de plantas
silvestres, expandiam-se, livremente, sem a ameaça de transportes, salvo as
carroças de seu Odilo, que, naquele dia, estavam recolhidas, e o livre ir e vir
de transeuntes.
Foi, nesse cenário, que eu e uma querida
amiga, infante como eu, resolvemos desafiar aquela tardezinha cinzenta, com uma
das diversas brincadeiras, que criávamos.
Deixamos a calçada, onde estávamos a
conversar e rir de nossas tagarelices, caminhamos até o meio da rua e, entre
duas poças d’água, naquele pedaço de barro ainda empapado, mas não escorregadio
e começamos a rodopiar, segurando-nos com uma mão – mão-com-mão – tendo como
ponto de apoio um pé-com-um pé.
E rodopiamos e rodopiamos, com alegria no
sorriso, contrastando com a carranca, que as nuvens se nos ofereciam.
E foi, num desses rodopios, que nos pregou
um susto uma pequena cobra listrada, que atravessava nosso pequeno espaço;
levantou a cabeça com a boca aberta, no que não pude evitar pisar-lhe a cabeça,
pois, em nosso rodopio, aquela passada era minha.
Paramos o rodopio, incontinenti. A cobra
estava morta, era uma cobra coral. Seu corpo, com as belas listras à vista, tinha
também marcas de um pé, provavelmente, de minha amiga.
O pavor apresentou-se na lividez de nossos
rostos, enquanto o coração disparava. Assustados, corremos para a calçada,
onde, sentados, passamos a examinar, nervosa e ansiosamente, nossos pés e
pernas: dobramos a perna direita sobre a coxa esquerda e, depois, a perna
esquerda sobre a coxa direita. Nossos olhos varreram-nas, seguindo a palpação
de nossas mãos. Então, uma onda de calmaria deu um banho em nosso medo: não
havia sinais de picada em nossos pés e pernas.
Respiramos, enfim, aliviados e agradecemos
a Deus.
Acabara a brincadeira e retornamos para
nossas casas.
Um bom sábado, com as bênçãos de Deus!!!
(*) Pediatra e professor da Uece aposentado. Enviado por WhatsApp em 18/04/26.

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