Por Patrícia Soares de Sá Cavalcante (*)
Os nomes começaram a escapar depois dos
quarenta. Pergunto, não memorizo e, logo em seguida, repito: qual é mesmo o seu
nome? Daí, associo-o ao nome de alguém que conheço - uma amiga, uma tia, um
irmão.
Às vezes, surpreendo-me ao relembrar
pessoas há tempos esquecidas: Raimundinha. Mundinha costureira. Casa da
vovó. Baralho com os primos. Vovó falando para quem não estava no jogo:
"Não vale peruar". Uma lembrança puxa a outra e, se continuo, é como
puxar a linha de um novelo que não termina.
Quando a associação funciona, respiro
aliviada. É delicado chamar as pessoas pelo nome, reconhecê-las. Talvez porque,
ao ouvir o próprio nome, a gente se sinta, ainda que por um instante, existindo
para alguém.
Outro dia, entrei em uma ótica e uma moça
muito gentil me atendeu. Como é o seu nome? Wendy, respondeu. Fiquei animada e
logo associei: a Wendy do Peter Pan? Ela sorriu e disse: não, foi um nome que
minha mãe viu num romance. Você conhece a história original? Só conheço as
adaptações da Disney, ela respondeu.
"Wendy estava brincando no jardim e,
depois de colher mais uma flor, correu para junto de sua mãe. "Ah, se
você ficasse assim para sempre!", disse a senhora Darling. Foi a partir
daí que Wendy soube que teria de crescer. A gente sempre sabe quando tem dois
anos: dois é o começo do fim."
Peter Pan foi, certamente, o livro que mais
li para os meus filhos. Logo na primeira página, eu já ficava angustiada,
engasgava-me e, em seguida, falava com uma voz bem animada, quase
cantada: "Dois é o começo do fim!" Eles riam e pediam: faz de
novo, mamãe, faz de novo.
E eu fazia tantas vezes que, em certo
momento, já não lia mais aflita e me demorava um pouco mais na Terra do Nunca.
Quem sabe ali fosse a terra do sempre.
Nessa época, eu lia sem óculos. Agora,
compro meu primeiro par. Espero que me ajudem a enxergar melhor as minúcias do
mundo, dos outros e as minhas, como escreveu José Saramago, "Se podes
olhar, vê. Se podes ver, repara."
Qual é mesmo o seu nome?
(*) Médica
psiquiatra.
Fonte:
Publicado In: O Povo, de 21/04/2026.
Opinião. p.22.

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