Por José Lima de Carvalho Rocha (*)
A Inteligência Artificial (IA) pode
analisar sintomas, sugerir diagnósticos, propor exames e organizar informações
em poucos segundos. Para o estudante de medicina, essa rapidez é atraente, mas
oculta um perigo: uma resposta bem elaborada pode parecer correta mesmo quando
não está.
Na formação médica, o uso inadequado da IA
pode acarretar três efeitos: o estudante pode deixar de desenvolver
competências, ao delegar cedo demais o raciocínio; perder competências já
adquiridas por falta de exercício; ou aprender de modo inadequado ao aceitar
respostas incorretas sem questioná-las.
Em todos os casos, surge um perigo: parecer
competente com a ajuda da IA, mas não conseguir decidir sozinho. Assim, há um
paradoxo: quanto mais eficiente a tecnologia, maior a tendência de confiar nela
e delegar decisões; quanto maior essa dependência, maior o risco de
enfraquecer justamente as habilidades necessárias para perceber quando a
máquina erra.
A solução não é proibir a tecnologia, mas
aprender a usá-la com método: primeiro pensar, depois consultar a IA. Diante de
um caso clínico, o estudante deve inicialmente identificar os dados relevantes,
formular hipóteses, considerar diagnósticos alternativos e justificar seu
raciocínio, para depois comparar suas conclusões com as sugestões da
ferramenta.
Se bem utilizada, a IA também enriquece o
ensino, pois simula pacientes, apresenta situações clínicas pouco frequentes,
oferece feedback e ajuda a identificar lacunas de aprendizagem. O professor
pode apresentar respostas plausíveis, porém equivocadas, de IA e pedir ao
estudante que identifique o problema, avalie suas consequências e reconstrua a
decisão correta.
A avaliação também precisa mudar. Trabalhos
escritos, isoladamente, dizem cada vez menos sobre o que o aluno, de fato, sabe
fazer. Provas presenciais, discussões de casos e justificativas orais ajudam a
verificar se o raciocínio é realmente do estudante. O desafio da educação
médica será formar profissionais capazes de pensar sem IA, pensar melhor com
ela e, sobretudo, reconhecer quando não devem confiar nela.
(*) Médico e pedagogo.
Reitor do Centro Universitário Christus (UniChristus) e diretor do Colégio
Christus. Membro da Academia Cearense de Medicina.
Fonte:
Publicado In: O Povo, de 21/08/2026.
Opinião. p.18.
