Por Pe. Eugênio Pacelli SJ (*)
No dia 31 de julho, a
Igreja celebra Santo Inácio de Loyola, fundador da Companhia de Jesus e um dos
maiores mestres da espiritualidade cristã. Diferentemente do que fazemos ao
comemorar aniversários, a liturgia recorda o dia de sua páscoa definitiva, sua
entrada na vida eterna. Mais do que recordar uma data, celebramos o testemunho
de uma vida que continua iluminando pessoas em busca de sentido.
Vivemos um tempo marcado
pela velocidade, pela hiperconectividade e pela dificuldade de permanecer em
silêncio. Somos constantemente estimulados a produzir, responder e consumir,
mas pouco ensinados a contemplar. É justamente nesse cenário que a espiritualidade
inaciana revela toda a sua atualidade. Santo Inácio nos convida a desacelerar,
a discernir e a reconhecer que Deus continua presente na simplicidade da vida.
Seu ensinamento mais
conhecido, "encontrar Deus em todas as coisas", é um verdadeiro
caminho de transformação. Deus não se manifesta apenas em acontecimentos
extraordinários ou em momentos de intensa emoção religiosa. Ele também está na
mesa compartilhada em família, no trabalho realizado com honestidade, no gesto
de perdão, na escuta atenta, na contemplação da natureza e no cuidado com o
outro.
Essa espiritualidade
torna-se necessária dentro das famílias. Em meio às telas, às agendas cheias e
à convivência cada vez mais apressada, corremos o risco de estarmos fisicamente
próximos, mas emocionalmente distantes. Santo Inácio nos recorda que a presença
é uma forma de amor e que Deus costuma falar nos espaços onde existe atenção,
escuta e disponibilidade interior.
Pausa não representa perda
de tempo, mas exercício de sabedoria. Quando silenciamos o coração,
reorganizamos os afetos e recuperamos a capacidade de perceber a presença
amorosa de Deus no cotidiano. Essa também é a inspiração de Tempo de Pausa e
Calma: recordar que a serenidade nasce da confiança em Deus e da disposição de
viver cada instante com profundidade.
Celebrar Santo Inácio é
renovar esse convite. Em um mundo fascinado pelo extraordinário, talvez a maior
revolução espiritual seja aprender a reconhecer Deus nas pequenas coisas.
(*) Sacerdote jesuíta e
mestre em Teologia. Escritor. Diretor do Mosteiro dos Jesuítas de Baturité e do
Polo Santo Inácio. Fundador do Movimento Amare.
Fonte: O Povo, de 25/07/2026.
Opinião. p.22.

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