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sexta-feira, 3 de julho de 2026

SANCTA DEI TRINITAS

Por Pedro Bezerra de Araújo – Pierre Nadie

A Trindade é um mistério em si mesmo, um mistério estrito, que a razão não alcança e se curva ante a revelação de Deus, nos escreve Santo Tomás.

Pela fé mergulhamos no mistério, mas, pela razão, jamais o compreenderemos, pois, transcende os limites de nossa contingência.

Deus é amor, diz-nos o Evangelista São João (1Jo 4,16).

O amor é uma relação de saída ao encontro de um amado. E só se concretiza se o amado se fizer amante. E entre os dois, há de nascer o fogo, que impulsiona e consolida o amor. Uma pessoa isolada não dispõe de elementos essenciais para curtir o amor. Assim, Deus, que é amor absoluto, não se fecha num egoísmo narcísico, mas faz-se comunhão intrínseca com o Filho, no fogo amoroso do Espírito Santo.

Não precisou criar o homem para viver o amor, ao contrário, derramou na sua criatura a chama de Seu amor e, no Seu exemplo modelar, transparece a afirmação de Jesus: “Eu quero a misericórdia e não o sacrifício’ (Mt 9,13; 12,7), priorizando a atitude do coração, o amor ao próximo e o perdão, que do amor é irmão.

O Espírito pairava sobre as águas: "A terra estava informe e vazia; as trevas cobriam o abismo e o Espírito de Deus pairava sobre as águas." (Gn 1,2).

O Pai manifesta-se a Moisés: Deus respondeu a Moisés: “Eu sou aquele que sou”. E ajuntou: “Eis como responderás aos israelitas: (Aquele que se chama) ‘Eu sou’ envia-me junto de vós” (Ex 3,14).

O Filho: ‘Respondeu-lhe (à Maria) o anjo: “O Espírito Santo descerá sobre ti, e a força do Altíssimo te envolverá com a sua sombra. Por isso, aquele que nascer de ti será chamado Filho de Deus.’” (Lc 1,35).

E, no batismo de Jesus, Marcos registra a plena revelação da Trindade: ‘No momento em que Jesus saía da água, João viu os céus abertos e descer o Espírito em forma de pomba sobre ele. E ouviu-se dos céus uma voz: “Tu és o meu Filho muito amado, no qual pus toda a minha complacência.”’ (Mc 1,10-11).

A Trindade é concebida pela Patrística, com São Gregório de Nazianzo e desenvolvida por São João Damasceno, com o termo grego περιχώρησις  e em latim circumincessioPericorese’, ou seja, como uma mútua interpenetração e coabitação do Pai, Filho e Espírito Santo. Têm a mesma οὐσία (ousia - essência), habitam um no outro e são um na intimidade de sua amizade. O conceito teológico de Pericorese é ilustrado como uma "dança" eterna de amor, movimento e doação mútua entre as três pessoas.

Este termo já foi utilizado, antes, pelos gregos, como Anaximandro por volta de 450 a.C. e também Platão expõe-no como relação entre alma e corpo. Encontra-se ainda nos textos de Pseudo-Cirilo, todavia, associado à Cristologia.

Em cada uma das três Pessoa da Trindade habitam as outras Pessoas, mutuamente, em perfeita e íntima unidade e comunhão κοινωνία (koinonia), sem perder suas individualidades, nem se fundirem. Não há divisão da divindade. Elas compartilham os mesmos tributos: onisciência, onipotência, eternidade.

Embora todas ajam em conjunto, atribui-se ao Pai a Criação; ao Filho, a Redenção e ao Espírito Santo, a Santificação.

Santo Agostinho comenta:  A Trindade é a estrutura própria do amor absoluto (De Trinitate).

A Koinonia divina inspira a koinonia humana na partilha, no acolhimento e amor mútuos.

Portanto, ser cristão, à luz da Trindade, é ser um ser-em-constante-relação (GRESHAKE, 2001).

A comunhão trinitária é o antídoto cristão contra o individualismo.

Fontes: https://www1.unicap.br/ojs/index.php/theo/article/view/826

https://www.youtube.com/watch?v=E2s61E34elY

https://www.youtube.com/watch?v=uAczIwjoHXE

Uma boa segunda-feira, com as bênçãos de Deus!!!

(*) Pediatra e professor da Uece aposentado. Enviado por WhatsApp em 1/06/26.


sábado, 27 de junho de 2026

A ascensão de Jesus e a missão de comunicar a boa nova

Por Pe. Reginaldo Manzotti (*)

O mês de maio ocupa um lugar especial na vida da Igreja e na devoção popular. Tradicionalmente, é reconhecido como o mês de Maria, tempo em que os fiéis intensificam sua oração mariana, especialmente através do Rosário, e rendem homenagens à Mãe de Deus, modelo de fé e entrega. Ao mesmo tempo, maio é também o mês das mães, ocasião em que celebramos aquelas que, à semelhança de Maria, acolhem a vida, cuidam e se doam com amor silencioso e perseverante.

Mas, neste ano, maio também é marcado pela celebração da Ascensão do Senhor.

"Enquanto os abençoava, afastou-se deles e foi levado ao céu. Eles, então, o adoraram e voltaram para Jerusalém com grande alegria" (Lc 24,51-52).

A Ascensão de Jesus não é uma despedida, mas a plenitude da sua missão. Ele sobe ao Pai levando consigo nossa humanidade, abrindo para nós o caminho da vida eterna. Ao mesmo tempo, confia aos discípulos (a todos nós), a missão de anunciar o Evangelho "até os confins da terra" (At 1,8).

A cena é marcante: os discípulos olham para o céu, mas logo são chamados a olhar para a terra, para o mundo real, onde devem testemunhar a Boa Nova. A Ascensão nos recorda que comunicar a fé é parte essencial da missão da Igreja.

Não por acaso, a Igreja em sua sabedoria guiada pelo Espírito Santo, escolheu o domingo da Ascensão para celebrar o Dia Mundial das Comunicações Sociais, instituído pelo Concílio Vaticano II. A lógica é clara: assim como os discípulos foram enviados a anunciar, também nós somos chamados a usar os meios de comunicação para irradiar Cristo vivo.

"Ide por todo o mundo e proclamai o Evangelho a toda criatura" (Mc 16,15).

A comunicação é ponte entre pessoas, culturas e gerações. É missão, é serviço, é testemunho.

No mundo atual, marcado por redes sociais, inteligência artificial e algoritmos, a Igreja insiste que comunicar não é apenas transmitir dados, mas preservar a dignidade humana, por isso o Tema escolhido para o 60º Dia Mundial das Comunicações Sociais 2026: "Preservar vozes e rostos humanos".

Vivemos em uma era de avanços tecnológicos sem precedentes. O mundo digital nos oferece ferramentas incríveis, mas também nos apresenta um risco silencioso: o de perdermos o que nos torna únicos. Como nos adverte o papa Leão XIV, em meio a tantas vozes sintéticas e rostos gerados por máquinas, a Igreja é chamada a ser a guardiã do encontro real.

Jesus, ao subir aos céus, confiou a missão a pessoas de carne e osso. Ele não enviou conceitos abstratos, Ele enviou vozes que tremiam de emoção, que tinham sentimentos e rostos que manifestavam a alegria do Ressuscitado. A Ascensão nos ensina que a comunicação cristã nunca será apenas técnica; ela é, acima de tudo, a transmissão de uma vida por meio de uma presença humana.

O rosto e a voz são sinais únicos da identidade de cada pessoa. Preservá-los significa não reduzir o ser humano a dados ou figuras sem alma.

Preservar vozes e rostos humanos significa lutar para que a tecnologia nunca substitua o calor do abraço, a verdade do olhar e a singularidade da alma de cada filho de Deus.

Preservar a Voz: Que a nossa comunicação não seja o eco frio de mensagens prontas, mas a voz que consola, que denuncia a injustiça e que anuncia a misericórdia com a ternura que só o coração humano possui.

Preservar o Rosto: Que nas nossas redes sociais e nas nossas pastorais, o rosto do irmão sofredor, do idoso e do jovem não seja ocultado por filtros ou indiferença. Devemos ver Cristo no rosto de cada pessoa que encontramos.

Jesus, o Verbo feito carne (Jo 1,14), comunicou o amor de Deus com sua voz e seu rosto humano. Ele olhou nos olhos, chamou pelo nome, tocou os corações, façamos o mesmo.

A todas as mães, meu fraterno abraço. Deus as abençoe!

(*) Fundador e presidente da Associação Evangelizar é Preciso e pároco reitor do Santuário Nossa Senhora de Guadalupe, em Curitiba (PR).

Fonte: O Povo, de 16/05/2026. Opinião. p.22.


domingo, 21 de junho de 2026

Amar em Comunhão: a força dos primeiros passos

Por Pe. Eugênio Pacelli SJ (*)

Em um tempo marcado por relações frágeis e vínculos muitas vezes efêmeros, a proposta do movimento Amare, idealizado por mim, surge como um convite profundo à solidez do amor vivido a dois.

Há dez anos no Ceará, o movimento acolhe casais nos primeiros anos de união — até sete anos — reconhecendo nesse período um dos mais desafiadores da vida conjugal. É justamente nesse tempo inaugural que se moldam as bases do diálogo, da escuta, do perdão e da perseverança, elementos indispensáveis para que o amor não se desgaste diante das inevitáveis provas da convivência, nem se perca diante das pressões externas do mundo contemporâneo.

A inspiração encontra eco no magistério da Igreja, especialmente na Amoris Laetitia, na qual o Papa Francisco ressalta que o amor no matrimônio é um caminho de construção contínua, feito de pequenas escolhas diárias. Ele recorda que os primeiros anos exigem paciência, maturidade e, sobretudo, enraizamento espiritual — um tempo em que o casal aprende a sair de si para acolher o outro, a transformar diferenças em aprendizado e a cultivar a unidade sem anular a individualidade, construindo assim uma comunhão verdadeira.

Caminhar com a Igreja, nesse contexto, não é apenas frequentar celebrações, mas permitir que a graça divina permeie as realidades concretas da vida a dois: os conflitos silenciosos, os sonhos partilhados, as limitações humanas e as conquistas que se tornam testemunho. Ao viver em comunidade, os casais descobrem que não estão sós — há outros que também enfrentam dúvidas, crises e recomeços. E é justamente nesse espelho do outro que Deus se revela, sustentando, curando e orientando cada passo, fortalecendo o vínculo conjugal com esperança renovada.

Mais do que um movimento, o Amare se configura como um verdadeiro itinerário espiritual e humano, no qual o amor conjugal é educado, amadurecido e fortalecido. Em tempos de dispersão e imediatismo, ele resgata a beleza de permanecer, de reconstruir quantas vezes forem necessárias e de compreender que o matrimônio, quando vivido à luz do Evangelho, torna-se não apenas um compromisso, mas uma vocação viva, fiel e renovada todos os dias, sustentada pela graça e pela presença constante de Deus. 

(*) Sacerdote jesuíta e mestre em Teologia. Escritor. Diretor do Mosteiro dos Jesuítas de Baturité e do Polo Santo Inácio. Fundador do Movimento Amare.

Fonte: O Povo, de 2/05/2026. Opinião. p.22.


sábado, 23 de maio de 2026

Tradição Cristã ou Tradicionalismo Católico?

Por Pedro Bezerra de Araújo – Pierre Nadie

Em se tratando da Igreja Católica, assiste-se a uma avassaladora onda de liberalismo progressista, e, diante desses ‘neologismos pragmáticos’, é necessário um ponto de reflexão para não sairmos da estrada, definida por Jesus.

Trago aqui minha singela opinião, sem pretensões de maiores aprofundamentos, tampouco de convencer ninguém.

A tradição é a transmissão de valores, princípios e costumes de geração em geração, de tal maneira a manter a identidade cultural e a essência dos valores e princípios de um povo, de uma nação, de uma instituição. O tradicionalismo, por sua vez, está mais atento ao como, valoriza mais o rito do que a essência.

A Igreja Católica tem como suporte a Sagrada Escritura, a Sagrada Tradição e o Sagrado Magistério.

O Cristianismo não existiria sem a historicidade dos Apóstolos e de Jesus Cristo, cujo ensinamento foi preservado e transmitido pelos Apóstolos, a partir da Igreja primitiva, sem a qual a Bíblia seria apenas um livro sem contexto.

Há registros, tanto na cultura grega, quanto na cultura romana, de baluartes que nos legaram a Bíblia. Assim, temos Clemente de Roma e Policarpo de Esmirna, no século I, Irineu de Lião, no século II, Agostinho de Hipona, no século V, Tomás de Aquino, no século XIII e os gregos Orígenes, Atanásio de Alexandria, entre tantos outros. Romper, portanto, com a Sagrada Tradição, é desvincular-se da história, rompendo com os próprios Apóstolos e, enfim, com a Palavra que é o Cristo Jesus.

A liturgia, com seus gestos, atitudes, músicas e símbolos propicia um ambiente de espiritualidade e de adoração, não deve ser adaptada à vaidade e transitoriedade do mundo, aliás o fermento é a Palavra e jamais o mundo.

Dando um olhar pragmático, é possível perceber-se que a atitude de adoração à Eucaristia parece ter-se encolhido, o Santíssimo circula pelo meio das pessoas como algo vulgar, não há sinalização de que Jesus está passando; a atitude de alguns sacerdotes e alguns ministros, diante da Eucaristia, não chega a ser nem mesmo uma vênia e a distribuição da Santíssima Eucaristia é mais semelhante a uma feira do que ao Santíssimo Sacramento, o Filho de Deus encarnado, presente no pão eucarístico.

Como católico, há vezes, que eu não me sinto num templo católico, sendo mais convidativo à oração e ao encontro com Deus o interior de minha moradia. Muitos ritmos musicais, nas celebrações, espantam e afastam mais do que despertam o espírito e não convidam à adoração, ‘data venia’, parece-me mais um show de calouros; muitas proclamações da Palavra são péssimas e incompreensíveis leituras sem qualquer preparo, nem compreensão do próprio leitor, constituindo, na minha visão, um desrespeito para com a Palavra.

O objetivo da substituição da língua oficial, o latim, pelo vernáculo, parece-me que vulgarizou, mas não espiritualizou, como se pranteava.

E o Presidente da celebração não é o sacerdote, é o próprio Cristo, tanto que a consagração é feita ‘in persona Christi’. O sacerdote é o intercessor, junto a Jesus Cristo, de quantos participam da liturgia e extensivo a todos.

A Igreja não é estática, nem o sacrifício da cruz e a ressurreição, riqueza museológica. Mas, a sua dinâmica não coincide com a dinâmica do mundo. É o Espírito que a vivifica, e não o mundo. Sempre foi, é e sempre será!!!

O Bispo auxiliar de Hertogenbosch, Robert Mutsaerts, afirmou que o colapso da prática religiosa, na Holanda, deveu-se à tentativa de tornar a Igreja mais atraente, ao modernizar suas práticas e diluir a identidade católica, resultando em esvaziamento, ao invés de renovação. (https://www.instagram.com/p/DWbWzLXDolJ/?img_index=1).

A Palavra nunca envelhece e jamais precisará de alterações, mesmo semânticas: evangelizar implica, sim, contextualização dentro do modal cultural, mas nunca o inverso, nem tampouco alteração e/ou adaptação de quaisquer citações da Palavra. À catequese cabe a explicação compreensível do Texto Sagrado.

Domine, auge fidem meam’!!!

Uma boa sexta-feira, as bênçãos de Deus!!!

(*) Pediatra e professor da Uece aposentado. Enviado por WhatsApp em 10/04/26.


segunda-feira, 18 de maio de 2026

A ASCENSÃO DIGNIFICA-NOS

Por Pedro Bezerra de Araújo – Pierre Nadie

A celebração da Ascensão do Senhor culmina o processo do resgate amoroso de Deus de suas criaturas e, em especial, de quem Ele fez com Suas próprias mãos e soprou-lhe Sua imagem e semelhança.

O Filho nasceu no seio de uma família, deu-Se a todos sem acepção de pessoas e sem opções privilegiadas, acolheu a fé dos que nEle creram, foi morto no patíbulo da cruz pelas garras do poder usurário, injusto e usurpador e ressuscitou, após três dias. Este, o mistério do amor incondicional de Deus por todos e por cada um de nós.

Temos o presente de Deus: “Filius datus est nobis”. (Um Filho nos foi dado).

Temos a missão do Filho: “Ecce Agnus Dei, qui tollit peccata mundi”. (Eis o Cordeiro de Deus, que tira os pecados do mundo)

Temos a prova do amor incondicional de Deus: “Ecce lignum crucis in quo pependit salus mundi”. (Eis o lenho da Cruz, do qual dependeu salvação do mundo).

Temos a consagração da garantia plena e total: “Christus ressurrexit, sicut dixit”. (Cristo ressuscitou, como disse).

Após a consumação do Plano de Deus “Consummatum est” (Tudo está realizado), em grego “Τετέλεσται”, o Filho Ressuscitado passa quarenta dias fortalecendo, enriquecendo e complementando o ensinamento divino “Quod Ego facio, tu nescis modo: scies autem postea”. (O que faço não compreendes agora; saberás mais tarde).

Restava agora o coroamento da dignidade humana, ante a infinita amorosidade de Deus: Jesus, o Filho Salvador, ascende aos céus e, com Sua humanidade, assenta-se à direita do Pai. Jesus, não só nos leva aos céus, Ele nos eleva a dignidade perdida; na Sua Ascensão, Ele nos incendeia’ o coração e acende e faz arder a fé: “Eius Ascensio restituit dignitatis nostrae plenitudinem”. (Sua Ascensão restituiu nossa plena dignidade).

Ao ascender aos céus, Jesus faz-nos uma ‘intimação’ tão precisa, tão transparente e tão rigorosa, quanto amigável:

Homens da Galileia, por que ficais parados, olhando para o céu?  Ele virá do mesmo modo que O vistes subir para o céu.” (cfe. At 1,11).

Recebereis o poder do Espírito Santo para serdes Minhas testemunhas em Jerusalém, em toda a Judeia e na Samaria e até os confins da terra.” (At 1, 8).

Toda autoridade Me foi dada no céu e sobre a terra. Portanto, ide e fazei discípulos Meus todos os povos, batizando-os em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo e ensinando-os a observar tudo o que vos ordenei e estarei convosco até o fim do mundo.” (cfe. Mt 28, 19).

Para todos nós, cristãos, eis duas mensagens: não ficar parado, mas crescer na fé, na caridade, no amor, pois o céu não se conquista com olhares, senão com o testemunho vívido do Evangelho; a segunda é a certeza da Parusia, aliás, o lençol dobrado no túmulo já o anunciara.

Para a Igreja, Jesus define, claramente, sem rodeios nem ambiguidades, a sua missão.

Dominus vobiscum, (O Senhor esteja convosco) diz o sacerdote e o povo responde Et cum spiritu tuo (E com teu espírito). A mutualidade partilhada da oração irmana sacerdote e fiéis.

Um bom domingo, com as bênçãos de Deus!!!

(*) Pediatra e professor da Uece aposentado. Enviado por WhatsApp em 17/05/26.

domingo, 17 de maio de 2026

O AMOR QUE VENCE A MORTE

Por Pe. Reginaldo Manzotti (*)

A Páscoa é o coração da fé cristã. Não é apenas uma data no calendário litúrgico nem a lembrança de um fato do passado. A Páscoa é um acontecimento vivo, permanente, que atravessa os séculos e alcança cada ser humano em suas dores, medos e esperanças. Celebrar a Páscoa é proclamar que a morte não tem a última palavra, que o sofrimento não é definitivo e que Deus permanece fiel até o fim.

Desde o Antigo Testamento, a Páscoa está ligada à passagem: passagem da escravidão para a liberdade, da opressão para a terra prometida. Em Jesus Cristo, essa passagem atinge sua plenitude. Ele atravessa a morte e abre para toda a humanidade um caminho novo. Como afirma São Paulo: "Se Cristo não ressuscitou, vazia é a nossa fé" (1Cor 15,14). Não se trata de um detalhe da fé, mas de seu fundamento.

A Páscoa nos revela quem é Deus: não um Deus distante ou indiferente, mas um Deus que entra na história, sofre conosco, morre por amor e ressuscita para nos devolver a vida. A ressurreição não apaga a cruz, mas dá sentido a ela. O Ressuscitado conserva as marcas dos cravos, mostrando que o amor vivido até o extremo não é destruído, mas transfigurado.

O túmulo vazio é um sinal aberto. Ele aponta para algo maior: Jesus não está mais entre os mortos porque Deus agiu. Como diz o anjo: "Por que procurais entre os mortos aquele que está vivo?" (Lc 24,5).

Quantos de nós carregamos sepulcros interiores - medos, culpas, desesperanças? O sepulcro vazio nos provoca a sair. Não é um lugar para permanecer, mas para partir em missão. A Páscoa nos tira das seguranças, das certezas fechadas, e nos envia a anunciar que a vida venceu.

A Igreja sempre afirmou com clareza: a ressurreição de Jesus não é metáfora nem símbolo psicológico nem simples continuidade da memória dos discípulos. Trata-se de um acontecimento real, histórico, mas que ultrapassa a história. O corpo de Jesus ressuscita, porém não volta à vida biológica como Lázaro. Ele entra numa condição nova, glorificada.

Celebrar a Páscoa não é apenas afirmar que Jesus ressuscitou, mas permitir que Ele ressuscite em nós. Cada vez que escolhemos a vida, o perdão, a reconciliação, a justiça, participamos da dinâmica pascal.

A ressurreição nos ensina que Deus age mesmo quando tudo parece perdido. Quando a pedra parece pesada demais, quando o túmulo parece definitivo, Deus já está trabalhando no silêncio da madrugada. A Páscoa nasce no escuro, antes do sol aparecer.

Como Igreja, somos chamados a ser sinais de ressurreição num mundo marcado por tantas mortes: físicas, emocionais, sociais e espirituais. Onde há exclusão, somos chamados à comunhão. Onde há desespero, à esperança. Onde há cruz, a anunciar que ela não é o fim.

A essência da Páscoa cabe numa simples proclamação: Ele vive. E porque Ele vive, a vida tem sentido, a dor não é absurda e o amor não é em vão. O túmulo vazio não é um ponto final, mas um começo.

Cristo ressuscitou. Verdadeiramente ressuscitou. Aleluia! Feliz e abençoada Páscoa!

(*) Fundador e presidente da Associação Evangelizar é Preciso e pároco reitor do Santuário Nossa Senhora de Guadalupe, em Curitiba (PR).

Fonte: O Povo, de 18/04/2026. Opinião. p.22.

quinta-feira, 30 de abril de 2026

Por que na sexta-feira santa não há missa?

Por Pedro Bezerra de Araújo – Pierre Nadie

Num Planeta, onde todos os dias são celebradas missas, há um dia em que nenhum sacerdote pode celebrar a santa missa.

Antes de tudo, uma contextualização histórica:

Após a ceia eucarística, Jesus retira-se com seus apóstolos ao Getsêmani e, ao romper da noite, começa o seu martírio, com o beijo fatídico do apóstolo Judas Iscariotes. Jesus é levado preso, sofre humilhações, é torturado, flagelado, coroado de espinhos e, no dia seguinte, uma sexta-feira, é crucificado ao lado de dois ladrões, Gestas e Dimas.

Os Evangelistas Lucas, Mateus e Marcos atestam que uma como mortalha negra cobriu a terra: “Era quase à hora sexta e em toda a terra houve trevas até a hora nona, isto é, das 12h às 15h. Escureceu-se o sol e o véu do templo rasgou-se pelo meio”. Foi o momento da morte de Jesus.

É importante esclarecer que esse eclipse de 3 horas se deu, contrariando evidências científicas: 1) a Páscoa judaica, celebrada na lua cheia, permitiria apenas cenário de um eclipse lunar, mas não de um eclipse solar, que se dá quando a lua está na fase de lua nova, ou seja, a lua fica entre a terra e o sol; 2) A duração máxima de um eclipse solar é de 7h:31min.

Um aspecto considerável é o rasgamento, de alto a baixo, do véu do Santo dos Santos, pois, onde só podia entrar o sumo sacerdote uma vez por ano, agora é uma porta aberta a todos.

No que tange à celebração eucarística, como a Missa é a memória da morte e ressureição de Jesus, é o Sacrifício celebrado, sacramentalmente, na sexta-feira santa, a Igreja contempla o Sacrifício de Cristo, em sua realidade histórica: vivência litúrgica como acontecimento: o Cordeiro de Deus imolado por nossos pecados.

Daí que a sexta-feira santa, com a mesa sem toalha, o sacrário vazio, a matraca em lugar dos sinos, faz uma provocação espiritual: o silêncio vazio exorta-nos a refletir, a escutar e a contemplar o mistério Pascal. O silêncio do túmulo que precede a alegria da ressurreição.

A celebração litúrgica da sexta-feira santa é chamada a ‘missa dos pré-santificados’, porque não há a consagração, sendo as partículas consagradas na quinta-feira santa oferecidas para a comunhão desse dia.

Ecce lignum Crucis in quo pependit salus mundi. Venite adoremus” (Eis o lenho da Cruz, do qual pendeu a salvação do mundo. Vinde, adoremos) ensina-nos a enfrentar nossas dores, sofrimentos e limitações, e a não nos acovardarmos ante a cruz.

Com as bênçãos de Deus!!!

(*) Pediatra e professor da Uece aposentado. Enviado por WhatsApp em 4/04/26.

quarta-feira, 29 de abril de 2026

EUCARISTIA: Centro de nossa fé

Por Pedro Bezerra de Araújo – Pierre Nadie

A Eucaristia não é um símbolo, nem uma representação, mas a presença real de Cristo. É a atualização do sacrifício da Cruz, não uma nova imolação.

Ao celebrar a Páscoa com seus discípulos, Jesus institui a Eucaristia (cf. Mt 26,26-29; Mc 14,22-25; Lc 22,19-20) que, a partir daquele momento, assume novo sentido, no mundo cristão. A Páscoa torna-se o evento da morte e ressurreição de Jesus.

Antes da instituição da Eucaristia, Jesus faz várias afirmações conexas:

- Em João 6,48-50: “Eu sou o pão da vida. Vossos pais, no deserto, comeram o maná e morreram. Este é o pão que desceu do céu, para que não morra todo aquele que dele comer.”

- Em João 6, 51; “Eu sou o pão vivo que desceu do céu. Quem comer deste pão viverá eternamente. E o pão, que Eu hei de dar, é a minha carne para a salvação do mundo”.

- Em João 6,53: "Jesus disse-lhes: 'Em verdade, em verdade vos digo: se não comerdes a carne do Filho do Homem e não beberdes o seu sangue, não tereis a vida em vós".

- Em João 6, 54-55: "Quem come a Minha carne e bebe o Meu sangue tem a vida eterna, e Eu o ressuscitarei no último dia". "Pois a minha carne é verdadeira comida e o meu sangue é verdadeira bebida".

Em Jo 6, 56: "Quem come a minha carne e bebe o meu sangue permanece em Mim e Eu nele.”

Na Última Ceia, os Evangelhos sinóticos apresentam, com toda clareza e exatidão, o mistério da transubstanciação, transbordando amor, paz e misericórdia, convocando todos à união e perpetuando a presença de Jesus, no meio de todos nós: - Jesus, na Última Ceia, parte o pão e dá o cálice, dizendo: "Isto é o meu corpo... este é o meu sangue", estabelecendo a Nova Aliança (Mt 26, 26-28; Mc 14, 22-24; Lc 22, 19-20).

“ISTO É O MEU CORPO / ISTO É O MEU SANGUE”: o tempo verbal usado para afirmar esta realidade

* apresenta qualidade de ação durativa (τοῦτό ἐστιν τὸ σῶμά μου / τοῦτό ἐστιν τὸ αἷμά μου), ou seja, não ficou somente naquele momento e não é uma representação simbólica, mas a realidade do que se afirma.

Em seguida, ordena Jesus: - Fazei isto em memória de Mim (τοῦτο ποιεῖτε εἰς τὴν ἐμὴν ἀνάμνησιν). Este tempo ποιεῖτε está flexionado no imperativo, expressa uma ordem de uma ação que já começou.

O Papa Paulo VI, na Carta Encíclica Mysterium Fidei, de 03 de setembro de 1965, 28 comenta: “Jesus ao ordenar aos Apóstolos que fizessem o partir do pão e o beber do cálice em sua memória, deixa explícita a sua “[...] vontade de que este mistério se renovasse. Na realidade, foi o que a Igreja primitiva realizou fielmente, perseverando na doutrina dos Apóstolos e reunindo-se para celebrar o sacrifício Eucarístico.

Tomai, todos, e comei: Isto é o Meu corpo, que será entregue por vós”.

Tomai, todos, e bebei: Este é o cálice do Meu sangue, o sangue da Nova e Eterna Aliança, que será derramado por vós e por todos, para remissão dos pecados.

FAZEI ISTO EM MEMÓRIA DE MIM.”

FONTE:https://www.academia.edu/145023418/Sacramento_da_Eucaristia_fundamentação_bíblica_e_teológica

Uma boa sexta-feira santa, com as bênçãos de Deus!!!

(*) Pediatra e professor da Uece aposentado. Enviado por WhatsApp em 3/04/26.

domingo, 5 de abril de 2026

PÁSCOA: Esperança que ressuscita

Por Pe. Eugênio Pacelli SJ (*)

A Páscoa é o grande coração da fé cristã. Mais do que recordar um acontecimento do passado, ela nos convida a atravessar, com Cristo, o caminho da morte para a vida, da escuridão para a luz, da desesperança para a esperança renovada.

A Ressurreição inaugura uma nova possibilidade para a existência humana: a certeza de que Deus continua agindo na história e conduzindo a vida para além de toda derrota, de toda dor e de toda aparente perda.

Na pedagogia espiritual de Santo Inácio de Loyola, aprendemos que Deus fala na trama concreta da vida. Ele se manifesta nos acontecimentos, nos movimentos do coração, nas alegrias e também nas dores que atravessamos. A espiritualidade inaciana nos ensina a contemplar a realidade com profundidade, percebendo que Deus trabalha silenciosamente em todas as coisas e conduz a história com uma sabedoria que muitas vezes só compreendemos com o passar do tempo.

A Páscoa, portanto, não é apenas uma celebração litúrgica; é uma experiência espiritual que nos transforma por dentro. É o convite a reconhecer que o Cristo ressuscitado continua caminhando ao nosso lado, mesmo quando os olhos da fé parecem obscurecidos pelas preocupações e pelas cruzes da vida. Assim como os discípulos de Emaús descobriram a presença de Jesus ao partir do pão, também nós somos chamados a abrir o coração para perceber sua presença no cotidiano.

A pedagogia inaciana também nos convida a olhar a Ressurreição como um movimento interior de libertação. Libertar-se do medo que paralisa, das culpas que aprisionam e das tristezas que roubam o sentido da caminhada. Cristo ressuscitado rompe as pedras dos nossos sepulcros interiores e nos devolve a coragem de viver, de recomeçar e de confiar novamente na força da graça.

Viver a Páscoa é permitir que a vida nova de Cristo transforme nosso olhar, nossas escolhas e nossa maneira de estar no mundo. Como recordava Santo Inácio, somos chamados a buscar e encontrar Deus em todas as coisas, reconhecendo sua presença também nos pequenos sinais da vida cotidiana.

Porque, para quem caminha com o Ressuscitado, nenhuma noite é definitiva. Sempre haverá uma aurora anunciando que a vida venceu.

(*) Sacerdote jesuíta e mestre em Teologia. Escritor. Diretor do Mosteiro dos Jesuítas de Baturité e do Polo Santo Inácio. Fundador do Movimento Amare.

Fonte: O Povo, de 4/04/2026. Opinião. p.16.

sexta-feira, 3 de abril de 2026

DO DESERTO À VIDA NOVA

Por Pe. Reginaldo Manzotti (*)

A Quaresma já caminha há alguns dias. Este tempo santo não é feito apenas de começos, mas de continuidade, porque talvez tenhamos feito, na Quarta-feira de Cinzas, propósitos que já foram colocados à prova. É exatamente aqui que a Quaresma revela sua verdade mais profunda: ela nos ensina a perseverar, a permanecer. Perseverar quando a oração parece árida. Perseverar quando mudar exige renúncia. Quando amar custa mais do que gostaríamos. Se em algum momento falhamos nos propósitos assumidos no início dessa caminhada, não devemos desanimar. Sempre é tempo de recomeçar. O Senhor é rico em misericórdia e não se cansa de nos oferecer novas oportunidades. Cada dia é um novo chamado à conversão.

Esse é um tempo oportuno para rever o caminho. Não com culpa, mas com sinceridade. Como está nossa oração? Temos reservado um espaço para Deus em meio às preocupações diárias? O jejum que escolhemos está nos tornando mais livres ou apenas mais rígidos? E a caridade, tem se traduzido em gestos concretos de atenção, escuta e partilha?

Estamos nos preparando para a Páscoa, para a vitória da vida sobre a morte, da luz sobre as trevas. Mas não chegaremos à alegria pascal sem antes atravessar o deserto.

Dentro deste itinerário, a Igreja celebrou, no dia 19, a solenidade de São José, esposo de Maria. Poderia parecer estranho uma festa tão solene em meio à sobriedade da Quaresma, mas São José é o modelo perfeito para este tempo. Ele foi um mestre silencioso da conversão diária, um homem justo que soube ouvir Deus no silêncio e obedecer com prontidão, mesmo quando não compreendia plenamente os caminhos que lhe eram propostos.

São José simboliza virtudes como a humildade, a obediência e a fé. Sua vida de entrega e serviço, especialmente ao cuidar de Maria e Jesus, reflete o espírito de sacrifício e dedicação são centrais na Quaresma.

Que este mês de março nos ajude a viver uma Quaresma mais profunda, menos apressada e mais verdadeira. Que não caminhemos movidos apenas por sentimentos, mas sustentados pela confiança em Deus. Que São José interceda por nós, para que saibamos perseverar neste tempo de graça, guardando no coração a esperança da Ressurreição.

(*) Fundador e presidente da Associação Evangelizar é Preciso e pároco reitor do Santuário Nossa Senhora de Guadalupe, em Curitiba (PR).

Fonte: O Povo, de 21/03/2026. Opinião. p.16.


domingo, 15 de março de 2026

Atravessar a dor com fé: os enfermos sob o olhar de Nossa Senhora de Lourdes

Por Pe. Reginaldo Manzotti (*)

Fevereiro, embora seja o mês mais curto do calendário, possui um significado profundo para a espiritualidade cristã. É neste período que a Igreja Católica celebra o Dia Mundial do Enfermo, em 11 de fevereiro, data da memória litúrgica de Nossa Senhora de Lourdes.

Ao vivermos este mês como tempo dedicado aos enfermos, a Igreja nos convida a entrar num dos mistérios mais profundos da vida cristã: o encontro entre a fragilidade humana e a misericórdia de Deus. Não é um convite teórico, mas profundamente concreto, feito de rostos, histórias, dores e esperanças.

O Evangelho nos oferece uma parábola que se torna guia para este tempo: o Bom Samaritano Jesus narra a história de um homem ferido à beira do caminho, ignorado por um sacerdote e um levita, mas socorrido por um samaritano que, movido pela compaixão, cuidou de suas feridas e garantiu-lhe abrigo (Lc 10, 25-37).

Neste contexto, ecoa com força a mensagem do Papa Leão XIV, que, ao refletir sobre essa parábola, recorda à Igreja que o verdadeiro amor cristão nasce quando somos capazes de interromper o nosso caminho para cuidar do outro, especialmente daquele que sofre. Segundo ele, o mundo atual corre o risco de se acostumar com a dor alheia, passando por ela sem se deter, exatamente como fizeram o sacerdote e o levita da parábola.

O homem caído à beira do caminho continua presente em nosso tempo. Ele tem o rosto do enfermo que espera uma visita, do doente que enfrenta longas noites de solidão, da família que carrega o peso da enfermidade sem apoio, do corpo fragilizado e da alma cansada. Isso nos ensina que não basta ver: é preciso aproximar-se.

O Papa Leão XIV nos adverte que a compaixão não é um sentimento passageiro, mas uma decisão. O Bom Samaritano decide ver no ferido não um problema, mas um irmão. Decide gastar tempo, recursos e até arriscar-se por alguém que não conhece. Essa decisão transforma o caminho da indiferença em caminho de salvação.

É exatamente isso que contemplamos em Nossa Senhora de Lourdes. Maria não permanece distante do sofrimento humano. Ela aparece numa gruta simples, e se faz próxima dos doentes. Lourdes se tornou um grande lugar de peregrinação, onde milhares de pessoas acorrem não para fugir da dor, mas para atravessá-la com fé.

Assim como o Bom Samaritano se inclina para cuidar das feridas, Maria se inclina com ternura maternal sobre os enfermos. Ela não pergunta de onde vêm, nem quais méritos possuem; ela acolhe. O Papa Leão XIV afirma que a Igreja deve aprender com essa lógica do amor gratuito, pois o Evangelho só é crível quando se traduz em cuidado concreto.

Em Lourdes, muitos buscam a cura do corpo, mas todos são convidados à cura do coração. Nem sempre o milagre acontece como esperamos, mas sempre acontece algo maior: a certeza de que Deus não abandona seus filhos na dor. Maria, como Mãe atenta, permanece junto à cruz de cada enfermo, sustentando a esperança quando as forças parecem faltar.

O Papa recorda ainda que o Bom Samaritano não delega o cuidado: ele mesmo se envolve. Isso nos interpela profundamente. Quantas vezes terceirizamos o amor? Quantas vezes achamos que o cuidado é tarefa apenas de familiares, profissionais e instituições? Fevereiro nos lembra que todos somos responsáveis uns pelos outros.

Cada cristão é chamado a ser samaritano: na família, na comunidade, no hospital, na paróquia. Um telefonema, uma visita, uma oração oferecida, um gesto de paciência - tudo isso se torna sinal visível do Reino de Deus. Como ensina o Papa Leão XIV, a santidade passa, muitas vezes, por caminhos silenciosos, onde ninguém aplaude, mas onde Deus age.

Queridos filhos e filhas, neste mês dos enfermos, peçamos a graça de aprender com o Bom Samaritano e com Nossa Senhora de Lourdes. Que não sejamos uma Igreja que passa apressada, mas uma Igreja que se detém. Que não sejamos uma comunidade distante, mas uma família que cuida.

Confiemos todos os doentes à intercessão de Nossa Senhora de Lourdes. Que ela nos ensine a transformar a dor em oração, o sofrimento em oferta e o cuidado em missão. E que, iluminados pelo ensinamento do Papa Leão XIV, possamos ouvir de Jesus, não como reprovação, mas como envio amoroso: "Vai, e faze tu o mesmo."

(*) Fundador e presidente da Associação Evangelizar é Preciso e pároco reitor do Santuário Nossa Senhora de Guadalupe, em Curitiba (PR).

Fonte: O Povo, de 21/02/2026. Opinião. p.16.


sábado, 7 de março de 2026

No "Messias", todos encontram a salvação (?)

Por Emanuel Freitas da Silva (*)

A instrumentalização do campo evangélico pelo bolsonarismo encontra algumas vozes dissidentes, que se expressam tanto no mercado editorial (vide as obras “E a verdade vos libertará”, de Ricardo Alexandre, e “Igreja Polarizada”, de Gutierres Siqueira) como nos púlpitos das igrejas e dos parlamentos.

Nestes, destacam-se o deputado federal Otoni de Paula (MDB-RJ) e o nosso estadual Apóstolo Luiz Henrique (REP).

Otoni tem sido a voz evangélica nacional mais estridente contra a captura das igrejas pelos próceres do bolsonarismo, incluindo, em suas críticas, Silas Malafaia.

Na sua empreitada para desvencilhar a fé cristã (evangélica) das amarras do bolsonarismo, o deputado chegou a um ponto muito interessante no último dia 29/01, em vídeo postado em suas redes, ao lembrar que a “manipulação” e “o engano” de pastores teriam sido “tão grandes” que os levou a fechar os olhos ao ato de “consagração do Brasil a Nossa Senhora” pelo ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), em vez de terem denunciado “o pecado da idolatria” cometido pelo “Messias”.

O leitor não entendeu? Explico: o deputado lembrou a seus irmãos de fé aquilo que se diz, diuturnamente, em muitos templos evangélicos desde a reforma protestante, ou seja, que católicos praticam “idolatria” ao “adorarem imagens” de Jesus, Maria, dos santos e dos anjos; tal “pecado”, como se dizem nas pregações evangélicas, não leva à salvação. Como, pois, denunciar o que faz um fiel católico e se calar diante de idolatria maior cometida pelo presidente que os evangélicos apontam como “cristão”?

Quem circula por ambientes católicos também escuta a exclusão de evangélicos do “reino” de Cristo, para onde alguns poucos irão. Carismáticos nomeiam como “falsas doutrinas” toda e qualquer denominação que não seja a própria Igreja, pois só esta tem “as chaves do céu”; o mesmo pode se ouvir nas pregações dos “tradicionalistas”, ambos animados pelo conteúdo da Declaração Dominus Iesus, assinada no ano 2000 por João Paulo II – “fora da Igreja Católica não há salvação”.

Mas, no Brasil vemos o milagre da união dos tidos como “idolatras”, por uns, com os tidos seguidores das “falsas doutrinas”, por outros, que põem fim às diferenças em nome da causa do “Messias”.

(*) Professor adjunto de teoria política da Uece/Facedi.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 4/02/26. Opinião. p.14.


sexta-feira, 6 de março de 2026

A epifania do Senhor: luz para todos os povos

Por Pe. Reginaldo Manzotti (*)

Janeiro é o mês do recomeço. O calendário vira, os dias se renovam, e somos convidados a olhar para frente com esperança. Para nós cristãos, esse tempo não é apenas uma oportunidade de traçar metas e fazer promessas: é um chamado à conversão, à escuta de Deus e à vivência mais profunda da fé.

O tempo é um dos maiores dons que Deus nos concede. Cada segundo é uma oportunidade de amar, servir, crescer e se aproximar do Senhor. No entanto, muitas vezes vivemos como se o tempo fosse infinito, adiando decisões importantes, negligenciando relacionamentos e esquecendo que "o hoje" é tudo o que temos.

Por isso, Janeiro, por excelência traz a proposta de mudanças de renovação em nossa vida espiritual. Após as festas de fim de ano, é comum sentirmos um certo vazio ou cansaço. Mas Deus nos chama a recomeçar com Ele. A Solenidade de Santa Maria, Mãe de Deus (1º de Janeiro), nos lembra que o ano começa sob o olhar materno da Virgem Maria, que nos conduz a Jesus.

Logo depois, somos convidados a contemplar com profundidade o mistério da Epifania do Senhor, uma das celebrações mais ricas e universais da nossa fé cristã. A palavra "Epifania" vem do grego epiphaneia, que significa "manifestação" ou "revelação". Jesus Cristo se manifesta como luz para todas as nações, como Salvador não apenas de Israel, mas de toda a humanidade.

A Solenidade da Epifania encerra o Tempo do Natal. Enquanto o nascimento de Jesus foi revelado aos pastores - representantes dos humildes e marginalizados de Israel - a Epifania marca a visita dos Magos do Oriente, que representam os povos gentios, os estrangeiros, os buscadores da verdade. Eles vêm guiados por uma estrela, símbolo da luz divina que brilha nas trevas e conduz os corações sinceros até o Salvador.

Este encontro entre os Magos e o Menino Jesus é profundamente simbólico: é o cumprimento das profecias que anunciavam que todas as nações viriam adorar o Messias (Is 2,2-3. 11,10. 60,3; Zc 14,16). É a confirmação de que o amor de Deus não conhece fronteiras, que o Cristo é universal, que a salvação é oferecida a todos.

Quem eram esses Magos? A tradição os chama de reis, e lhes atribui nomes: Gaspar, Melchior e Baltasar. Mais do que reis, eram sábios, estudiosos dos astros, homens que buscavam sentido para a existência. Eles representam todos os que são tocados pela graça e se põem a caminho.

O que os move? Uma estrela. Um sinal no céu. Deus fala também através da criação, e os corações atentos percebem. Eles não se contentam com o conforto de suas terras; enfrentam perigos, atravessam desertos, perguntam, erram, recomeçam. São peregrinos da fé. E quando finalmente encontram o Menino, não hesitam: prostram-se e O adoram.

Os presentes que os Magos oferecem - ouro, incenso e mirra - são cheios de significado:

* Ouro: símbolo da realeza. Jesus é Rei, mas não como os reis deste mundo. Seu trono é a cruz, seu cetro é o amor.

* Incenso: símbolo da divindade. Jesus é Deus, digno de adoração.

* Mirra: símbolo do sofrimento. Jesus é homem, destinado a sofrer por nós.

Esses presentes revelam quem é Jesus: verdadeiro Deus e verdadeiro homem, Rei e Servo, Salvador e Sacrifício.

Celebrar a Epifania é mais do que recordar um evento do passado. É reconhecer que Deus continua se manifestando. A estrela ainda brilha. Os sinais ainda são dados. Mas é preciso ter olhos atentos e coração disponível.

Muitas vezes Deus se revela nas pequenas coisas: na beleza da natureza, na Palavra proclamada, na Eucaristia celebrada. A Epifania nos convida a sermos como os Magos: buscadores da verdade, adoradores do Mistério, generosos em nossa entrega.

A Epifania também nos ensina sobre conversão. Os Magos, depois de encontrarem Jesus, voltam por outro caminho. Isso não é apenas geográfico - é espiritual. Quem encontra o Cristo não pode seguir vivendo da mesma forma. A luz que brilha transforma, ilumina, purifica. A Epifania é convite à mudança, à renovação, à abertura ao novo.

Deixemo-nos guiar pela estrela da fé. Que possamos reconhecer os sinais de Deus em nossa vida, adorá-Lo com sinceridade, oferecer-Lhe o ouro do nosso amor, o incenso da nossa oração e a mirra dos nossos sofrimentos.

Que a luz de Cristo brilhe em nós e nos torne também manifestações do amor de Deus no mundo. Que sejamos estrelas que conduzem outros ao Salvador. E que, como os Magos, nunca deixemos de buscar, de caminhar, e de ser corações adoradores.

Desejo a todos um 2026 de bençãos, paz e prosperidade!

(*) Fundador e presidente da Associação Evangelizar é Preciso e pároco reitor do Santuário Nossa Senhora de Guadalupe, em Curitiba (PR).

Fonte: O Povo, de 24/01/2026. Opinião. p.18.

 

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