terça-feira, 28 de abril de 2026

Um trecho da história — e de um sonho que marcou gerações

Por Carlos Roberto Martins Rodrigues Sobrinho (Doutor Cabeto) (*)

Em 1º de março de 2001, inauguramos o Instituto de Ciências Médicas Paulo Marcelo Martins Rodrigues. Ali começava um sonho ousado: criar no Ceará um centro de excelência capaz de unir assistência qualificada, pesquisa, ensino e inovação. Inspirados em modelos nacionais de referência, acreditávamos que era possível transformar a realidade da saúde pública do Estado.

De início, saímos divulgando a ideia, movidos por entusiasmo e esperança. Alguns embarcaram nessa jornada comigo, mesmo diante da descrença de tantos outros. Vieram anos de trabalho intenso, de tentativas, visitas técnicas pelo Brasil, análises de modelos de financiamento e estudos sobre o que deu certo e errado em outras instituições. Aprendemos que os modelos exclusivamente públicos enfrentavam limitações, enquanto os privados nem sempre priorizavam educação e pesquisa. Foi nesse contexto que fomos construindo, pouco a pouco, o nosso caminho.

Com o apoio sensível de líderes da sociedade cearense, conseguimos transformar parte desse sonho em realidade. A obra do hospital no Porangabuçu é fruto dessa união de esforços. O prédio, ao lado da Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Ceará, representa mais que uma construção física: simboliza uma visão de saúde que valoriza profissionais, incentiva inovação, atrai talentos e coloca o paciente no centro, independentemente de sua condição social.

No entanto, depois de 24 anos de dedicação contínua, compreendemos que o projeto, tal como foi concebido, ainda não encontrava apoio político e institucional suficiente para se concretizar plenamente. Assim, transferimos o patrimônio para a Universidade Federal do Ceará, que de parceira passou a ser a única responsável por seguir adiante.

A continuidade da obra foi licitada há cerca de um ano. Não sabemos se o projeto físico permanecerá fiel ao original e, certamente, o modelo assistencial idealizado não será mantido. Ainda assim, sua conclusão poderá fortalecer a assistência pública, ampliar oportunidades de ensino e contribuir para a humanização do atendimento no Estado. Mesmo distante da proposta inicial, será um passo importante para o Ceará.

Encerramos, assim, um ciclo. Mas não perdemos a esperança. Acreditamos que o tempo esclarecerá nossa trajetória e, quem sabe, permitirá que os princípios que guiaram essa instituição um dia sejam retomados. A responsabilidade por esse legado não se extingue; permanece com todos nós, os teimosos que continuam acreditando.

Um dia, como diz a música, "o sertão vai virar mar".

Agradeço profundamente a todos que ajudaram a construir essa história.

(*) Médico. Professor da UFC. Ex-Secretário Estadual de Saúde do Ceará.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 21/03/2026. Opinião. p.17.


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