Por Carlos Roberto Martins
Rodrigues Sobrinho (Doutor Cabeto) (*)
Em 1º de março de 2001, inauguramos o
Instituto de Ciências Médicas Paulo Marcelo Martins Rodrigues. Ali começava um
sonho ousado: criar no Ceará um centro de excelência capaz de unir assistência
qualificada, pesquisa, ensino e inovação. Inspirados em modelos nacionais de
referência, acreditávamos que era possível transformar a realidade da saúde
pública do Estado.
De início, saímos divulgando a ideia,
movidos por entusiasmo e esperança. Alguns embarcaram nessa jornada comigo,
mesmo diante da descrença de tantos outros. Vieram anos de trabalho intenso, de
tentativas, visitas técnicas pelo Brasil, análises de modelos de financiamento
e estudos sobre o que deu certo e errado em outras instituições. Aprendemos que
os modelos exclusivamente públicos enfrentavam limitações, enquanto os privados
nem sempre priorizavam educação e pesquisa. Foi nesse contexto que fomos construindo,
pouco a pouco, o nosso caminho.
Com o apoio sensível de líderes da
sociedade cearense, conseguimos transformar parte desse sonho em realidade. A
obra do hospital no Porangabuçu é fruto dessa união de esforços. O prédio, ao
lado da Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Ceará, representa mais
que uma construção física: simboliza uma visão de saúde que valoriza
profissionais, incentiva inovação, atrai talentos e coloca o paciente no
centro, independentemente de sua condição social.
No entanto, depois de 24 anos de dedicação
contínua, compreendemos que o projeto, tal como foi concebido, ainda não
encontrava apoio político e institucional suficiente para se concretizar
plenamente. Assim, transferimos o patrimônio para a Universidade Federal do
Ceará, que de parceira passou a ser a única responsável por seguir adiante.
A continuidade da obra foi licitada há
cerca de um ano. Não sabemos se o projeto físico permanecerá fiel ao original
e, certamente, o modelo assistencial idealizado não será mantido. Ainda assim,
sua conclusão poderá fortalecer a assistência pública, ampliar oportunidades de
ensino e contribuir para a humanização do atendimento no Estado. Mesmo distante
da proposta inicial, será um passo importante para o Ceará.
Encerramos, assim, um ciclo. Mas não
perdemos a esperança. Acreditamos que o tempo esclarecerá nossa trajetória e,
quem sabe, permitirá que os princípios que guiaram essa instituição um dia
sejam retomados. A responsabilidade por esse legado não se extingue; permanece
com todos nós, os teimosos que continuam acreditando.
Um dia, como diz a música, "o sertão
vai virar mar".
Agradeço profundamente a todos que ajudaram
a construir essa história.
(*) Médico. Professor da UFC.
Ex-Secretário Estadual de Saúde do Ceará.
Fonte:
Publicado In: O Povo, de 21/03/2026.
Opinião. p.17.

Nenhum comentário:
Postar um comentário