Por Pe. Eugênio
Pacelli SJ
(*)
A Páscoa é o grande coração da fé
cristã. Mais do que recordar um acontecimento do passado, ela nos convida a
atravessar, com Cristo, o caminho da morte para a vida, da escuridão para a
luz, da desesperança para a esperança renovada.
A Ressurreição inaugura uma nova
possibilidade para a existência humana: a certeza de que Deus continua agindo
na história e conduzindo a vida para além de toda derrota, de toda dor e de
toda aparente perda.
Na pedagogia espiritual de Santo Inácio
de Loyola, aprendemos que Deus fala na trama concreta da vida. Ele se manifesta
nos acontecimentos, nos movimentos do coração, nas alegrias e também nas dores
que atravessamos. A espiritualidade inaciana nos ensina a contemplar a
realidade com profundidade, percebendo que Deus trabalha silenciosamente em
todas as coisas e conduz a história com uma sabedoria que muitas vezes só
compreendemos com o passar do tempo.
A Páscoa, portanto, não é apenas uma
celebração litúrgica; é uma experiência espiritual que nos transforma por
dentro. É o convite a reconhecer que o Cristo ressuscitado continua caminhando
ao nosso lado, mesmo quando os olhos da fé parecem obscurecidos pelas
preocupações e pelas cruzes da vida. Assim como os discípulos de Emaús descobriram
a presença de Jesus ao partir do pão, também nós somos chamados a abrir o
coração para perceber sua presença no cotidiano.
A pedagogia inaciana também nos convida
a olhar a Ressurreição como um movimento interior de libertação. Libertar-se do
medo que paralisa, das culpas que aprisionam e das tristezas que roubam o
sentido da caminhada. Cristo ressuscitado rompe as pedras dos nossos sepulcros
interiores e nos devolve a coragem de viver, de recomeçar e de confiar
novamente na força da graça.
Viver a Páscoa é permitir que a vida
nova de Cristo transforme nosso olhar, nossas escolhas e nossa maneira de estar
no mundo. Como recordava Santo Inácio, somos chamados a buscar e encontrar Deus
em todas as coisas, reconhecendo sua presença também nos pequenos sinais da
vida cotidiana.
Porque, para quem caminha com o
Ressuscitado, nenhuma noite é definitiva. Sempre haverá uma aurora anunciando
que a vida venceu.
(*) Sacerdote
jesuíta e mestre em Teologia. Escritor. Diretor do Mosteiro dos Jesuítas de
Baturité e do Polo Santo Inácio. Fundador do Movimento Amare.
Fonte: O Povo, de 4/04/2026. Opinião. p.16.

Nenhum comentário:
Postar um comentário