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quinta-feira, 27 de abril de 2023

ANGÚSTIA NA GESTAÇÃO

Meraldo Zisman (*)

Médico-Psicoterapeuta

“A angústia é, dentre todos os sentimentos e modos da existência humana, aquele que pode reconduzir as mulheres e homens ao encontro de sua totalidade como ser (…).” Martin Heidegger (1889 – 1976)

Gestação de um novo ser traz agora um aumento da angústia vital.

Conceba por um momento que seu filho ou filha ainda não nascido tem uma doença genética rara que fará do mesmo portador de uma vida bastante limitada ou com poucas possibilidades de sobrevivência. Jamais será um adulto normal. Acrescento: a sabedoria chinesa afirma que, quando se pergunta a um asiático: — qual a sua idade? — ele acrescenta os 9 meses de vida intrauterina que sabemos ser o espaço de tempo mais importante quando o ser passa de ovo (junção de um espermatozoide com o óvulo), para embrião (feto) para se tornar um recém-nascido e seguir uma nova vida fora da mãe. O tempo de vida intrauterina é o mais formidável e transformador processo de toda a existência dos seres. Caso tenha nascido no tempo da gestação de um ser humano (em torno de 40 semanas), essas semanas serão mais importantes do que os cerca de 90 anos que viverá fora do útero materno.

As transformações futuras serão sempre menores do que aquelas que ocorrem na barriga da mãe. A vida intrauterina sempre foi um grande mistério e provoca o que denomino angústia vital, mas forte do que outros traumas que possam ocorrem durante a vida pós-parto.

Com o advento da ultrassonografia e demais avanços médico-técnicos começamos a tomar “algum” conhecimento desse estágio da vida, importante fase da existência do Homo sapiens e de outros animais. Por isso, é compreensiva a expectativa do casal grávido (homem e mulher) quanto aos filhos que gerou ou irá gerar.

O aumento dessa expectativa deve-se à  biologia tecnológica, que descobriu o genoma, que sintetiza todos os dados transmitidos de uma geração de seres vivos para outra, armazenados em um organismo que utiliza uma linguagem de códigos, mais precisamente no seu ‘DNA’ (ácido desoxirribonucleico), sendo uma categoria de ácido nucleico que possui papel fundamental na hereditariedade, sendo considerado o portador da mensagem genética, uma espécie de roteiro orgânico molecular que traz todas as orientações que supervisionam a evolução, a atuação e as atitudes das entidades vivas.

Vinte anos depois que o primeiro genoma humano foi mapeado, o preço do sequenciamento do genoma completo caiu o custo a ponto de poder, pelo menos em países ricos, ser oferecido habitualmente a todos os recém-nascidos. O que de princípio parece ser um avanço da Medicina, agudiza a denominada angústia vital.

A acepção desta tal de angústia vital está associada a emoções que nos causam desconforto e consiste em um medo constante de ser atacado a qualquer momento. Essas emoções limitam as pessoas que as sentem, causando ansiedade, depressão ou outros sentimentos que levam a sensações desagradáveis.

A angústia vital tem efeitos psicológicos e físicos na mãe e no pai, durando muito tempo, indo mais do que o esperado e sendo acrescentado à responsabilidade da criação de um novo ser, seu filho ou filha.

(*) Professor Titular da Pediatria da Universidade de Pernambuco. Psicoterapeuta. Membro da Sobrames/PE, da União Brasileira de Escritores (UBE), da Academia Brasileira de Escritores Médicos (ABRAMES) e da Academia Recifense de Letras. Consultante Honorário da Universidade de Oxford (Grã-Bretanha).

quinta-feira, 13 de outubro de 2022

PANDEMIA E GRAVIDEZ NA ADOLESCÊNCIA

Meraldo Zisman (*)

Médico-Psicoterapeuta

A gravidez na adolescência é um problema de saúde pública comum em todo o mundo. O objetivo deste artigo é estudar a possível associação entre os percentuais de gravidez na adolescência e as características socioeconômicas afetadas pela atual pandemia.

Lembro que o verbete pandemia significa uma epidemia que se espalha geograficamente, saindo do seu lugar de origem e assolando o mundo inteiro.

Nesta pandemia, apesar da grande morbimortalidade (conceito da Medicina que se refere ao índice de pessoas mortas em decorrência de uma doença específica em determinado grupo populacional) e os argumentos polarizados advindos das vacinações contra a Covid-19, acompanhados da exigência do salvo-conduto ou passaporte vacinal, não passam de consequências dos medos atávicos das pessoas e não se trata de ser da esquerda ou da direita.

Advirto, existe um lado construtivo nos fracassos.

Alguns estudos recentes apontam na direção de coisas boas que virão com esse futuro “novo-normal”.

Lembro que o futuro dependerá daquilo que fazemos no presente. Sem dúvida os adolescentes estão agora mais ligados à família e ao lar, contudo apartados de seus amigos e grupos; refiro-me à classe média urbana, pois nas ditas “comunidades”, penso que vão permanecer com as mesmas mazelas. Dito isso, acredito que os jovens estão fazendo menos coisas do que faziam antes da pandemia. Simultaneamente, sentem-se crescidos e prontos para deixar a escola, trabalhar, beber e se drogarem, além de fazer menos sexo.

O nível das relações entre essas meninas e meninos, ainda de menor idade, é muito alto, apesar de alguns trabalhos médicos e estatísticos apontarem para que a incidência das gestações em adolescentes tenha caído exponencialmente nos países ricos e nas camadas mais abastadas dos países em desenvolvimento. Os adolescentes provavelmente estão fazendo menos sexo, não apenas ficando mais esclarecidos no uso de métodos contraceptivos.

Segundo dizem eles, as contaminações das doenças sexualmente transmissíveis estão tombando.

Pode até ser!

Não sei se a quantidade de gestações em adolescentes aumentará ou permanecerá menor durante esta pandemia.

O que ouço dizer é que os jovens pertencentes às classes sociais mais abastadas reclamam muito do isolamento do tal do lockdown, medida fajuta.

Lembro ao leitor de uma reportagem publicada na Folha de São Paulo (5.nov.2019) que mancheteava — Gravidez na Adolescência de Bairro Pobre de S.P. é 53 vezes a de Bairro Rico.

“Vamos ver para crer”; desculpe o clichê caro leitor…

(*) Professor Titular da Pediatria da Universidade de Pernambuco. Psicoterapeuta. Membro da Sobrames/PE, da União Brasileira de Escritores (UBE), da Academia Brasileira de Escritores Médicos (ABRAMES) e da Academia Recifense de Letras. Consultante Honorário da Universidade de Oxford (Grã-Bretanha).

 

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