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terça-feira, 24 de fevereiro de 2026

JANEIRO BRANCO: quem cuida da mente, cuida da vida

Por Vladimir Spinelli Chagas (*)

Em 2014, o psicólogo mineiro Leonardo Abrahão iniciou um movimento com outros colegas da região de Uberlândia (MG), convidando-os a irem às ruas e espaços públicos conversar com as pessoas sobre a importância dos cuidados com a mente e as emoções.

Inspirada em outras campanhas já consolidadas, como o Outubro Rosa e o Novembro Azul, que tratam dos temas do câncer de mama e da saúde do homem, a ideia tomou corpo, sendo o branco e o início do ano simbólicos para a recriação das próprias histórias pessoais.

O engajamento dos pares do psicólogo e a acolhida pela população levou o movimento a experimentar um crescimento cada vez mais acentuado, a ponto de, em abril de 2023, através da lei federal 14.556, ter sido acolhido como política de Estado, com a instituição oficial da Campanha Nacional Janeiro Branco.

A associação da saúde mental ao bem-estar vem quebrando tabus e estigmas, criados a partir da história de negligências e preconceitos com o tema, com as campanhas destacando a ajuda profissional como alicerce para a redução do sofrimento emocional, parte intrínseca da condição humana.

Outro ponto importante é que as campanhas chamam a atenção para a prevenção de transtornos mentais, como ansiedade, depressão e burnout, cada vez mais relatados e que podem ser cuidados antecipadamente, da mesma forma como as pessoas têm acorrido às academias e aos check-ups médicos para cuidar do corpo físico.

Assim, as campanhas trabalham também no sentido do que vem sendo chamado de alfabetização emocional, disseminando junto à sociedade conceitos fundamentais para o autoconhecimento, melhorando o entendimento das próprias emoções, as definições dos necessários limites sempre que a saúde mental possa ser afetada, além da priorização da qualidade de vida, com o equilíbrio entre trabalho, lazer e descanso.

Em Fortaleza, o Hospital Psiquiátrico São Vicente de Paulo — pioneiro no cuidado planejado à saúde mental — abraça a causa mais uma vez. A instituição abriu o Janeiro Branco com palestras motivacionais como um convite à reflexão e à valorização da vida. Afinal, quem cuida da mente, cuida da vida.

(*) Professor aposentado da Uece, membro da Academia Cearense de Administração (Acad) e conselheiro do CRA-CE. Provedor da Santa Casa da Misericórdia de Fortaleza.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 26/01/26. Opinião. p.22.

terça-feira, 9 de dezembro de 2025

Saúde mental, da via Crucis para a via Lucis

Por Pe. Rino Bovini (*)

O Leão XIV apresentou sua intenção de oração para o mês de novembro no vídeo produzido e divulgado pela Rede Mundial de Oração do Papa. "Rezemos para que as pessoas que lutam contra pensamentos suicidas encontrem em suas comunidades o apoio, a assistência e o amor de que precisam e se abram para a beleza da vida". Na audiência pública o Papa afirmou que é necessário vivenciar a potência da Ressureição que transforma a dor da Via Crucis na alegria da Via Lucis.

Os dados que a Organização Mundial da Saúde (OMS) apresenta são preocupantes. Todo ano cerca de 800 mil pessoas no mundo se suicidam, mais de 2 mil por dia. Mais da metade dos suicídios globais (56%) ocorre antes dos 50 anos. Para cada suicídio, há muito mais pessoas que atentam contra a própria vida.

O suicídio é a segunda principal causa de morte entre jovens com idades entre 15 e 29 anos e 79% ocorrem em países de baixa e média renda. A OMS afirma que 30% da população ativa sofre de algum transtorno mental.

Tudo isso é confirmado pela conferência internacional que iniciou no dia 5 de novembro, em Roma, organizada pela Associação dos Ministros Católicos para a Saúde Mental (CMHM) com o patrocínio da Pontifícia Academia para a Vida.

Até 7 de novembro, pessoas de todo o mundo, envolvidas na pastoral da saúde mental, discutirão como acompanhar as pessoas que enfrentam problemas dessa natureza, como depressão, dor profunda e prevenir, através da escuta e da proximidade, o risco de suicídio.

O Movimento Saúde Mental vai contribuir neste evento apresentando a sua metodologia socioterapêutica de múltiplo impacto, a Abordagem Sistêmica Comunitária, elaborada em quase 30 anos de experiência no Bom Jardim.

Acolher, escutar e cuidar das pessoas que sofrem psiquicamente são os passos principais para iniciar um processo de cura e de evolução, oferecendo caminhos para ressignificar a doença e transformá-la numa oportunidade de evolução biopsicossocioespiritual.

A Comunidade se organiza autopoieticamente e encontra caminhos de solução mobilizando a comunicação intrapessoal e interpessoal, através das Práticas Integrativas e Complementares em Saúde (PICS). As vivências terapêuticas também favorecem o encontro com a dimensão sagrada do ser humano, fortalecendo a Fé no Deus da Vida, que nos ajuda a transformar a dor da via Crucis na alegria da cura da via Lucis.

(*) Médico psiquiatra e padre missionário comboniano.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 7/11/2023. Opinião. p.18.

quarta-feira, 24 de setembro de 2025

Setembro Amarelo e o papel do ajustamento criativo nos processos autodestrutivos

Por Marluce da Mata Martins (*)

Falar sobre ideação suicida e processos autodestrutivos nunca é tarefa simples. Trata-se de um tema delicado, cercado de tabus — mas que precisa ser discutido com responsabilidade, empatia e acolhimento. Muitas pessoas, em diferentes momentos da vida, enfrentam sentimentos de incapacidade, insegurança, medo de não pertencer e até pensamentos suicidas.

Quando o sofrimento não encontra espaço de escuta e apoio, pode levar ao isolamento, ao adoecimento do corpo e da mente — e até à perda do sentido de viver. Segundo a Gestalt-Terapia, esses processos envolvem não apenas dor psíquica, mas também uma dimensão existencial profunda.

A ausência de acolhimento e suporte pode intensificar mecanismos autodestrutivos, como a introjeção — quando o indivíduo passa a viver a partir das expectativas alheias, desconectando-se de sua própria essência. No auge do sofrimento, o suicídio pode surgir como uma aparente solução permanente para problemas passageiros.

No entanto, a experiência clínica e teórica nos mostra que, quando há hetero-suporte (apoio vindo do outro), vínculos saudáveis e um espaço real de pertencimento, é possível ressignificar a dor e reconstruir a vida. A Gestalt-Terapia propõe o conceito de ajustamento criativo — a capacidade de desenvolver novas formas de lidar com o sofrimento. Esse movimento pode transformar experiências autodestrutivas em aprendizado e crescimento.

O amor, o acolhimento e a possibilidade de pedir ajuda são elementos fundamentais nesse processo. Neste Setembro Amarelo, é essencial reforçar: O sofrimento pode ser ressignificado. O amor e o acolhimento têm poder de cura. Pedir ajuda é um ato de coragem. Ninguém precisa enfrentar a dor sozinho. Falar salva vidas. Que possamos criar espaços de escuta, cuidado e pertencimento, fortalecendo a consciência de que sempre há possibilidade de recomeço.

Nós, da SAS Brasil, cuidamos da saúde mental para que mais pessoas tenham acesso a atendimento psicológico e qualidade de vida. Nosso projeto apoia quem precisa de ajuda e não tem condições de pagar por um acompanhamento.

(*) Diretora da SAS Brasil.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 2109/2025. Opinião. p.18.

quarta-feira, 13 de agosto de 2025

O IFCE celebra o seu primeiro doutor bonjardinense

Por Pe. Rino Bonvinni (*)

No dia 25 de junho, foi realizada a defesa de tese do primeiro doutor do Instituto Federal do Ceará (IFCE), o agora dr. José Gleison Gomes Capistrano. O título da tese é "A Abordagem Sistêmica Comunitária no ensino de ciências em escolas indígenas com foco na saúde mental".

O título carrega uma história de participação do dr. Gleison nas atividades do Movimento Saúde Mental (MSM) que desde 1996 atua ao serviço dos mais pobres abandonados e excluídos. O dr. José é morador do Bom Jardim, bairro tristemente famoso pelas suas problemáticas socioeconômicas. Gleison participou da Pastoral da Juventude e de várias atividades organizadas pelos Missionários Combonianos.

Foi professor voluntario do cursinho de pré-vestibular e sempre foi muito prestativo com os jovens menos favorecidos. Se formou em nutrição e em biologia e terminou o mestrado em nutrição na Uece. Mas sempre ficou fascinado pela Abordagem Sistêmica Comunitária do MSM. Assim iniciou uma reflexão que o levou a conectar esta metodologia socioterapêutica multidisciplinar com o ensino das ciências, aceitando o desafio de realizar sua pesquisa inovadora no contexto da escola indígena do Povo Pitaguary na aldeia do Santo Antônio em Maracanaú.

Nesta escola, o MSM realiza o Sim à Vida, um projeto de prevenção da dependência química que está inovando as políticas públicas, inserindo atividades de autoconhecimento, fortalecimento da autoestima, artesanato, aprendizagem da língua Tupi, cantos, danças, pinturas corporais e trilhas ecofílicas na Mata Sagrada.

O dr. Gleison com suas entrevistas observou a potência das atividades e os resultados positivos que o Sim à Vida gera nas crianças e adolescentes. A escola municipal indígena Povo Pitaguary estava no último lugar no diagnóstico do sistema de avaliação externa do Ceara (Spaece) e, depois da experiência do projeto do Movimento Saúde Mental, alcançou o quarto lugar entre mais de 80 escolas do Município. O dr. Gleison abre um novo caminho para que o Bom Jardim e o Povo Pitaguary continuem gerando novos mestres e doutores.

(*) Psiquiatra e padre missionário comboniano. Dirigente do Movimento Saúde Mental (MSM).

Fonte: O Povo, de 7/07/2025. Opinião. p.22.

quarta-feira, 11 de junho de 2025

Iguatu é pioneiro no CAPS no Nordeste

Por Honório Bezerra Barbosa (*)

Em 1991, uma decisão do prefeito de Iguatu, Hildernando Bezerra, ao lado do então secretário de Saúde do Município, Carlile Lavor, iria colocar esta cidade na história das mudanças da reforma psiquiátrica que estavam em curso no então Sistema Único e Descentralizado de Saúde (SUDS), ao implantar o primeiro Centro de Atenção Psicossocial (Caps) do Nordeste.

Na época, o médico psiquiatra, Weimar Gomes dos Santos, vereador eleito em seu primeiro mandato, ocupava a bancada de oposição, mas lhe foi apresentado o convite para participar de um encontro nacional, em Santos, no litoral Paulista, sobre a temática - novidade no Brasil.

Os ventos das mudanças da Constituição Cidadã de 1988, as reformas estruturais em curso na Saúde, a partir da discussão no Congresso Nacional, nos Estados e municípios de novos modelos de gestão e financiamento público sopravam forte, ecoavam e encontraram em Iguatu uma gestão acolhedora.

Ao retornar do encontro nacional, o psiquiatra Weimar Gomes anunciou a mudança, afirmando que deveríamos esquecer o projeto de construção de um hospital psiquiatra. Apresentou a novidade de um projeto de atendimento humanista, com equipe multiprofissional, um novo olhar sobre os pacientes com transtornos mentais - encarcerados em quartos em suas casas ou maltratados e empilhados em "hospitais de doidos".

Seria possível vencer as barreiras sociais do preconceito? O temor das famílias? E a desconfiança dos profissionais de saúde? E o que se ouvia era que 'louco é perigoso', "vai quebrar tudo", e "isso não vai dar certo".

Trinta e quatro anos depois, a história nos mostra com clareza e consistência que o projeto se tornou viável e modelo para outros municípios. Por não ser mais novidade, muitos nem se dão conta da importância dos Caps.

Iguatu, cidade polo da região Centro-Sul cearense, partiu na frente. Após mais de três décadas, Iguatu, hoje, oferece uma das redes mais completas de atenção psicossocial - CAPS Álcool e Drogas; Infantil; Geral; Residência Terapêutica, além da oferta de cursos de Residência em Psiquiatria em parceria com a Escola de Saúde Pública do Estado do Ceará.

O próximo passo está em andamento. O secretário de Saúde, Leonardo Mendonça, acabou de anunciar a implantação de leitos psiquiátricos no Hospital Regional - uma estratégia recomendada pela Política Nacional de Saúde Mental para garantir temporariamente o atendimento a pacientes em crise aguda.

(*) Jornalista e bacharel em Direito. Colunista de O Povo.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 17/05/25. Opinião. p.19.

segunda-feira, 26 de maio de 2025

Saúde mental no trabalho e a tragédia retratada

Por Valdélio Muniz (*)

Dados recém-divulgados pelo Ministério da Previdência Social expõem grave e preocupante quadro relativo à saúde mental dos trabalhadores no Brasil: foram 472.328 mil afastamentos (licenças médicas) do trabalho por transtornos mentais em 2024. O número supera o dobro dos registros de 2014 (221.721 casos) e é 68% maior que o de 2023 (283.471). No Ceará, foram 12.202 afastamentos do trabalho que tiveram, entre outros motivos, ansiedade (4.095) e depressão (3.024).

Não se tratam de meros números. São cidadãos que, após terem sobrevivido (com cicatrizes) a um tormentoso, mas necessário, período de isolamento social (lockdown) durante a pandemia de Covid-19, encontram no mercado de trabalho tratamentos costumeiramente degradantes e desrespeitosos à sua dignidade, com pressões exacerbadas para cumprimento de metas que extrapolam limites do poder diretivo do empregador, chegando a configurar assédio moral.

A estas estatísticas somem-se familiares e amigos que padecem com as vítimas, os impactos desta tragédia sobre o clima nas empresas (reflexo nos demais empregados, colegas de trabalho das vítimas) e a repercussão nos cofres públicos com o pagamento de benefícios previdenciários e os atendimentos destes pacientes na rede pública de saúde. Apesar disso tudo, pouco esforço efetivo se vê para reverter tão catastrófico quadro.

Byung-Chul Han, em sua clássica obra Sociedade do cansaço, constatou que a "paisagem patológica do começo do século XXI" é determinada por doenças como depressão, transtorno de déficit de atenção com síndrome de hiperatividade-TDAH, transtorno de personalidade limítrofe- TPL e síndrome de burnout, do inglês, burn (queima) out (exterior), que reflete completa exaustão (física e mental) decorrente do excesso de trabalho e, por isso, reconhecida em 2022 pela Organização Mundial de Saúde-OMS como doença ocupacional.

Em números brutos (alguns trabalhadores com mais de um afastamento), foram 141.414 afastamentos por ansiedade no País em 2024, 113.604 por depressão e 52.627 por depressão recorrente. Completam a estatística casos de transtorno bipolar, vício em drogas, alcoolismo, esquizofrenia, vício em cocaína, psicose, reação ao stress grave e transtornos de adaptação. A tragédia retratada requer ações urgentes.

(*) Jornalista, professor universitário e analista judiciário.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 23/04/25. Opinião. p.18.

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2025

Saúde mental como aliado no tratamento bariátrico

Por Paulo Campelo (*)

A campanha do Janeiro Branco nos convida a refletir sobre a importância da saúde mental, um tema que muitas vezes é subestimado na conexão entre mente e corpo. No contexto da obesidade, esse alerta ganha ainda mais relevância. Frequentemente vista de forma simplista como consequência de desleixo, alimentação inadequada ou falta de atividade física, a obesidade é uma condição muito mais complexa e multifatorial pois envolve questões emocionais e psicológicas.

A luta contra a balança impacta a autoestima, os relacionamentos e a percepção que as pessoas têm de si mesmas. Ao optar por um tratamento, seja clínico ou cirúrgico, é fundamental que os pacientes entendam a importância do acompanhamento psicológico ou psiquiátrico. Cada indivíduo é único, o que torna essencial a avaliação das causas primárias da obesidade para garantir o sucesso do tratamento e alcançar resultados duradouros.

Muitos pacientes enfrentam ansiedade, depressão ou compulsão alimentar sem estarem cientes dessas condições. Sem um apoio psicológico paralelo ao tratamento, as chances de insucesso aumentam significativamente. Infelizmente, uma parcela dos pacientes resiste à recomendação de acompanhamento psicológico, subestimando seu impacto no processo.

É amplamente conhecido que pacientes bariátricos correm o risco de recuperar o peso perdido, especialmente quando não há suporte psicológico adequado. Para aqueles que convivem com a obesidade desde a infância, por exemplo, a transformação física após a cirurgia pode gerar um impacto psicológico profundo.

Reconhecer-se em um corpo mais magro, com novas proporções e vestindo tamanhos menores, como P em vez de GG, exige uma adaptação emocional que só é possível com acompanhamento contínuo.

Neste Janeiro Branco, e em todos os meses do ano, é fundamental lembrar que tratar a obesidade vai além de reduzir peso e medidas. É uma jornada de construção de uma vida equilibrada, consciente e plena. Saúde mental e física andam de mãos dadas, e somente com essa abordagem integrada é possível alcançar resultados transformadores.

(*) Médico. Cirurgião geral e bariátrico. Presidente da Sociedade Brasileira de Cirurgia Bariátrica e Metabólica (SBCBM - Capítulo Ceará).

Fonte: Publicado In: O Povo, de 21/01/2025. Opinião. p.16.

terça-feira, 23 de julho de 2024

CEARÁ TEM ESCASSEZ DE PROFISSIONAIS PARA FAZER DIAGNÓSTICO DE AUTISMO

Por Lara Vieira, jornalista de O Povo, Editoria de Cidades.

Audiência discutiu propostas para melhorar os serviços oferecidos pelo SUS voltados a crianças diagnosticadas ou com suspeita de Transtorno do Espectro Autista (TEA)

O Ceará tem escassez de profissionais capacitados para realizar diagnósticos precoces de Transtorno do Espectro Autista (TEA) no Estado. Para minimizar a questão, propostas de melhorias para os serviços e políticas oferecidas pelo Sistema Único de Saúde (SUS) às pessoas com TEA serão encaminhadas aos órgãos e secretarias responsáveis pelas áreas de saúde e educação, municipais e estaduais.

O encaminhamento foi tirado da audiência pública sobre o déficit de atendimento especializado para crianças com TEA no Ceará, realizada pelo Ministério Público do Estado do Ceará (MPCE), na manhã dessa segunda-feira, 22, no auditório da Procuradoria Geral de Justiça (PGJ), no bairro Cambeba, Fortaleza. Participaram da audiência promotores de Justiça, representantes das Secretarias da Saúde de Fortaleza (SMS) e do Estado (Sesa), além de membros da sociedade civil.

A audiência foi aberta com palestra de Alexandre de Aquino, supervisor do serviço de psiquiatria da infância e adolescência do Hospital de Saúde Mental de Messejana (Professor Frota Pinto). Conforme o especialista, dados indicam que a prevalência de autismo está crescendo. Nos Estados Unidos, por exemplo, a estimativa é que 2,8% da população infantil seja diagnosticada com autismo.

Trazendo essa estimativa para Fortaleza, isso sugere que teríamos aproximadamente 24 mil crianças e adolescentes com autismo. Se cada um recebesse apenas um atendimento por ano, a rede de saúde precisaria atender 2 mil crianças por mês. Estamos falando de um contingente imenso de pessoas. Precisamos de muitos profissionais e uma rede ampla e bem preparada para atender a essas demandas”, ressaltou o especialista.

Conforme comentou o promotor de Justiça, Eneas Romero, que presidiu a audiência, o grande desafio do Estado é a baixa cobertura de atendimentos, que precisa ser discutida em termos de política pública, tanto pela Secretaria da Saúde do Estado quanto pelo município de Fortaleza. “Isso pode representar um atraso no acompanhamento e desenvolvimento do paciente, além da angústia de não saber exatamente qual a situação dele”, ressaltou Eneas Romero.

Luciana Passos Aragão, coordenadora das Rede de Atenção Primária e Psicossocial de Fortaleza, também ressaltou que uma das problemáticas observadas no município são os possíveis diagnósticos de TEA imprecisos. “Temos reavaliado crianças que foram mal diagnosticadas. Temos que trabalhar com os profissionais dos postos de saúde para realizar uma vigilância e encaminhar rapidamente essas crianças para reabilitação”, comenta.

Como conseguir atendimento especializado em TEA

Para conseguir tratamento especializado em TEA, o primeiro passo é procurar uma Unidade Básica de Saúde. Após isso, a criança ou adolescente será direcionado a um centro especializado. Em Fortaleza, conforme apresentou a Secretaria Municipal da Saúde (SMS), no momento há 13 unidades, entre iniciativas estaduais e municipais, voltadas a atendimentos iniciais:

Núcleo de Tratamento e Estimulação Precoce (Nutep): 4 vagas

Hospital Infantil Filantrópico (SOPAI): 20 vagas

UAPS Maria de Loures: 90 vagas

Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais (APAE) Fortaleza: 21 vagas

Casa da Esperança: 15 vagas

Centro de Atendimento Educacional Pestalozzi de Fortaleza: 2 vagas

Centro de Integração Psicossocial do Ceará: 8 vagas

Instituto Moreira de Sousa: 23 vagas

CIAR: 8 vagas

Policlínica Dr. João Pompeu Lopes Randal: 24 vagas

Policlínica Dr. Luiz Carlos Fontenele: 16 vagas

Policlínica Lusmar Veras Rodrigues: 12 vagas

Espaço Seres: 10 vagas

Em todo o Ceará, são 13 os Centros Especializados em Reabilitação (CER) que também fornecem acompanhamento especializado para crianças com Transtorno do Espectro Autista (TEA). Eles estão situados em Caucaia, Fortaleza (3), Maracanaú, Eusébio, Pacajus, Russas, Iguatu, Barbalha, Crato e Sobral (2).

Com grande parte do Estado sem a cobertura dos CER, a coordenadora das Redes de Atenção à Saúde da Sesa, Rianna Nobre, declarou que a Sesa está planejando implantar 14 novos serviços de referência para pessoas com deficiência. “Estamos em fase de seleção de locais e preparação de infraestrutura”, disse.

Durante a Audiência Pública, o Promotor de Justiça Eneas Romero também cobrou que a Secretaria da Saúde do Ceará (Sesa) apresente, em próxima audiência, dados sobre os quantitativos de pessoas diagnosticadas com autismo no Ceará, tanto crianças e adolescentes, como adultos. O quantitativo é importante para embasar políticas públicas voltadas ao grupo.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 23/07/2024. Cidades. p.17.


quinta-feira, 11 de julho de 2024

O que aprendemos com David Capistrano Filho

Por Doutor Vicente (*)

Em 2003 aprovamos, depois de muita luta, a lei que estabelece os direitos fundamentais das pessoas com transtornos mentais. A Reforma Psiquiátrica, como ficou conhecida a Lei n.º 10.216 de 2001, demarca a garantia dos direitos básicos da pessoa que possui transtornos mentais.

David Capistrano Filho foi um político responsável por uma intensa e importante luta pelos direitos das pessoas com transtornos mentais. O jornalista e médico sanitarista realizou a intervenção da Casa de Saúde Anchieta no ano de 1989, após denúncias de maus tratos e abusos.

A intervenção resultou na criação do NAPS, ou Núcleo de Acompanhamento Psicossocial, evoluindo para CAPS, os Centros de Atenção Psicossocial. A luta do Dr. David serviu de exemplo para o resto do Brasil.

Entretanto, o CAPS vem se perdendo ao longo dos anos. O sistema encontra-se em visível declínio. Faltam profissionais, principalmente médicos psiquiatras. A periculosidade de Fortaleza também interfere no bom funcionamento do sistema, alguns pacientes não podem se ser atendidos em determinados endereços e precisam procurar o de outros bairros. A prefeitura realiza concursos, mas o salário desvalorizado impede a permanência dos médicos e de demais profissionais para compor os quadros de funcionários. Somado a esses problemas, vem o resultado inevitável: a indiferença!

Sou médico psiquiatra há mais de 30 anos e compus o quadro de psiquiatria do Hospital Mental de Messejana e do CAPS de Messejana, acompanho a cada dia os problemas que essa indiferença causa. Não podemos destratar o paciente que procura o serviço em sofrimento.

Pessoas que se deslocam pegando dois ou mais transportes públicos para conseguir seu atendimento, e por vezes voltam sem sequer terem marcado consulta. Todas as pessoas devem ser bem recebidas no CAPS. Ninguém deve sair de lá sem ter sido atendido. O acolhimento é parte essencial de qualquer tratamento!

É necessário fortalecer o atendimento básico à saúde mental e políticas efetivas através dos CAPS, mas primeiro precisamos melhorar o atendimento.

A luta de Capistrano Filho pela melhoria da saúde mental e humanização do SUS é um exemplo a ser seguido. Quem tem transtorno mental precisa ser tratado com humanidade. É necessário repensar as políticas públicas voltadas para a saúde mental. Sempre juntos.

(*) Médico psiquiatra. Vereador de Fortaleza (PT).

Fonte: Publicado In: O Povo, de 26/06/2024. Opinião. p.19.

quarta-feira, 8 de maio de 2024

EPIDEMIA DE AUTISMO

Por Sabrina Matos (*)

Quando o psiquiatra austríaco Leo Kanner, radicado nos EUA, definiu o autismo em 1943, a denominação inicial era de distúrbio autístico do contato afetivo, sinalizando uma condição com características específicas, como perturbação das relações afetivas com o meio, solidão autística extrema, inabilidade com o uso da linguagem para comunicação, comportamentos ritualísticos, início precoce e incidência predominante no sexo masculino.

O que nos chama a atenção enquanto profissional da saúde mental (e já não é de hoje) é o desmedido nos diagnósticos de autismo, do transtorno do espectro autista, assim como também dos diagnósticos de transtorno de déficit de atenção e hiperatividade. Nem vou abordar aqui os excessos nos diagnósticos de depressão e ansiedade, igualmente estarrecedores.

No que tange ao autismo, lembro-me de uma matéria em uma revista de circulação nacional que apontava um percentual de prevalência de 25% na população, ou seja, a cada 100 pessoas, 25 seriam autistas. Um dado absurdo sob todos os aspectos. Urge nos questionarmos: a quem isso serve? Sim, porque o cenário é o de uma verdadeira indústria do autismo. Uma epidemia de diagnósticos que serve a uma outra indústria: a dos psicofármacos. Mas também a um mercado de diversos "produtos" que vão de suplemento vitamínico para autistas, clínicas especializadas, brinquedos e até o partido político dos autistas, o "Agir".

Precisamos nos atentar para o fato de que falar de autismo implica sempre algo complexo por abranger etiologias múltiplas e deixar de lado discursos ancorados em pseudociências que enfeitiçam, ancoradas, na maioria das vezes, nos pausterizados protocolos de reeducação comportamental, por exemplo. É preciso que se considere que cada sujeito é singular e único, a despeito de sintomatologias que podem ser idênticas. Cada sujeito tem sua história, ocupa um lugar na família, está inserido em um tempo, faz parte de uma cultura. Como já disse o colega psicanalista Éric Laurent, falar de autismo é sempre uma batalha.

(*) Psicóloga e psicanalista. Professora da Unifor.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 19/04/2024. Opinião. p.22.


quinta-feira, 19 de outubro de 2023

EM MOVIMENTO...

Por Rino Bovini (*)

O Movimento Saúde Mental (MSM) participará de dois grandes eventos internacionais em Fortaleza.

A Abordagem Sistêmica Comunitária do MSM, metodologia socioterapêutica de múltiplo impacto, será apresentada no II Congresso Internacional e V Congresso das Américas sobre Fatores Psicossociais e Stress no Trabalho, 18 a 21 de outubro, no Campus Itaperi da Universidade Estadual do Ceará.

A autopoiese comunitária, proporcionada nas várias atividades realizadas no MSM, é o fenômeno que integra a riqueza das experiências e da sabedoria de todas as pessoas que dela participam.

O aquecimento da comunicação intrapessoal por meio das práticas de autoconhecimento, da comunicação interpessoal que acontece nas práticas socioterapêuticas e da comunicação transpessoal que respeita a diversidade da espiritualidade de cada participante, gera novos caminhos de autorrealização e proporciona a emergência sintrópica de novas oportunidades.

É assim que no MSM nasceram novas propostas para uma saúde mental amorosa e humanizada, superando o modelo hospitalocêntrico manicomial. A circularidade dos cuidados é necessária para que o terapeuta que cuida dos outros, possa manter a harmonia e a serenidade, recebendo também pessoalmente a energia e a amorosidade que transmite aos participantes.

O progresso individual se estende ao coletivo, que se apropria do espaço das decisões e das novas propostas, contribuindo para que o MSM se mantenha em... Movimento! Assim iniciaram a Escola de Gastronomia Autossustentável e o Giardino Buffet. As preciosas parcerias com o projeto de extensão de Gastronomia Social da Universidade Federal do Ceará e com a Somos Um, a organização que ajuda o Giardino Buffet no seu processo de crescimento e de expansão, acompanham o MSM na construção de um futuro de autonomia financeira ao serviço da comunidade.

O Giardino Buffet estará presente no Conexão ODS, um encontro de líderes que visa equilibrar o crescimento econômico, a inclusão social e a preservação ambiental. O evento foi organizado pela Somos Um, em parceria com o Pacto Global da ONU.

(*) Médico psiquiatra e padre missionário comboniano.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 19/10/2022. Opinião. p.18.

quarta-feira, 18 de outubro de 2023

Saúde mental e trabalho em debate científico e ético construtivo

Por José Jackson Coelho Sampaio (*)

Pesquisadores universitários, profissionais dos serviços de saúde e estudantes de graduação e pós-graduação estarão de 18 a 21 de outubro, no campus Itaperi da Universidade Estadual do Ceará (Uece), nesta cidade de Fortaleza, para avançar no debate científico sobre o trabalho, a organização social do trabalho, a saúde mental e o impacto do trabalho na saúde mental, com as formas que trabalho e saúde mental tomam neste início de século XXI, em decorrência de mudanças tecnológicas, desregulamentações do trabalho e pandemia de Covid-19.

O trabalho tem sido cuidado de forma ambígua no campo da saúde. Observe-se que a anamnese hipocrática foi modificada pela 1ª vez mais de dois milênios depois de concebida e para incluir a pergunta sobre trabalho, o que gerou o desdobramento dos conceitos de "acidente de trabalho" e de "insalubridade ocupacional", embora praticados de modo precário, e que apenas no final do século XX desdobrou "penosidade", que inclui a saúde mental, conceito ainda não operativo, mesmo estando na nossa Carta Magna de 1988.

Saúde mental também é naturalizada. Numa sociedade plenamente monetarizada qualquer trabalho é melhor que o desemprego e há que se ajustar sem protestos. Numa sociedade com abissais desigualdades e muitas fomes, o tema da saúde mental é vivido como um luxo e a doença mental é vivida como fraqueza ou como ruptura de uma norma moral cujo único responsável é o indivíduo.

Trabalho e saúde mental devem ser encarados em toda a complexidade de cada termo e da relação entre eles. O II Congresso Internacional e V Congresso das Américas sobre Fatores Psicossociais, Saúde Mental e Stress no Trabalho enfrentará este debate por meio de seis conferências presenciais e oito remotas, 14 minicursos presenciais e 21 remotos, 16 mesas redondas presenciais e seis remotas, e 286 trabalhos livres (oral e poster) remotos.

Grupos de pesquisa de Brasil, México, Argentina, Guatemala, Espanha e Portugal, membros da Red de Investigadores sobre Factores Psicosociales en el Trabajo (Rifapt) e pertencentes a universidades públicas, estarão representados. Espera-se construir acordos teóricos e práticos, para que o elo estabelecido entre trabalho e saúde mental seja equacionado e melhore a qualidade de vida de todos, os que estão trabalhando, os que se preparam para o trabalho e aqueles que já trabalharam.

Usando a subjetividade para modificar a natureza, o ser humano se descobre como se olhasse para um espelho alterado por processos sociais como os da alienação decorrente de especializações, colapso do valor e abstração dos produtos. Doenças e acidentes, desgastes somatopsíquicos e psicossomáticos, sensação de esgotamento, vazio existencial e sentimento de desumanização são formas de expressão mais profundas, muito além do que evocam as expressões inglesas "stress" e "burnout".

Convidamos a sociedade cearense para prestigiar o debate por meio do acompanhamento do que será produzido e divulgado, além de comparecer ao Cine Teatro São Luiz, às 19h de 18/10/23, na ocasião da abertura e da apresentação da Orquestra Sinfônica e do Coral, da Uece.

(*) Professor titular de Saúde Pública e ex-Reitor da Uece.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 11/10/2023. Opinião. p.21.

quinta-feira, 6 de julho de 2023

ANSIEDADE E ELEIÇÕES – 1

Meraldo Zisman (*)

Médico-Psicoterapeuta

Não sei se é verdade, porém dizem por aí que o povo com a maior ansiedade no mundo é o brasileiro.

O psicólogo norte-americano Steven Stosny escreve na revista Psychology Today e fundou a empresa “Compassion Power”. Além disso, é autor de vários livros sobre autoconhecimento e relacionamentos. Apesar de se dedicar mais a casais problemáticos, cunhou uma denominação para um novo tipo de ansiedade causada pelo aumento da carga mental que seus pacientes e parte dos americanos sentiam ao ver a disputa entre o republicano Trump e sua rival, a democrata Hillary Clinton. Criou então o termo transtorno de estresse eleitoral (“election stress disorder” em inglês). A condição é causada pela elevação da ansiedade provocada pela discussão/agressões/ desavenças políticas.

Hoje, no Brasil, o aumento da violência política é um dos fatores a impulsionar o debate sobre saúde mental, mormente tendo em vista o acirramento dos ânimos causados pela imprensa, que parece querer apenas colocar mais lenha na fogueira. Pesquisa do Datafolha mostrou que um em cada três eleitores temiam atos de violência no segundo turno da disputa entre Lula (PT) e o atual presidente Jair Bolsonaro (PL) independentemente do resultado eleitoral. O que é sabido é que a violência política é gatilho para a depressão e a ansiedade nas pessoas. Stosny assevera ademais que o estresse eleitoral é uma tendência mundial e é veemente ao afirmar que, após as eleições no Brasil, a condição não só permanecerá, como pode piorar. Para ele, esse não é um fenômeno novo, mas foi potencializado pelo extremismo e pelas redes sociais. Assevera ainda: “Sempre existiu, mas não era tão onipresente. Hoje você não mais consegue dela fugir”. Ao perceber o quanto esse estresse estava relacionado às notícias divulgadas pela mídia, ele chamou-o de transtorno do estresse da manchete (“headline stress disorder“, em inglês).

A solução, aponta, está na mudança de comportamento em nível pessoal, interpessoal e institucional — principalmente por parte da imprensa, seja ela profissional ou social. Sempre existiram notícias ruins, mas com as redes televisivas de notícias funcionado 24 horas por dia e os alertas das redes sociais, o fluxo de más notícias tornou-se constante. E elas vêm misturadas com as suas mensagens pessoais. Isso causa confusão. Você acaba levando as notícias para o lado pessoal, sabe? Sinal disso é que você se sente ansioso antes de assistir às notícias ou as notificações no seu celular. Se você tem as notificações ativadas — o que eu não recomendo — você sente seu corpo todo ficando tenso pouco antes de olhar para a tela do seu smartphone. Isso é seu corpo lhe preparando para o estresse, lhe preparando para lutar uma batalha.

Os últimos quatro anos foram uma chance de restaurar uma velha visão do patriarcado onde o papel do homem na sociedade é prover para sua família, cuidar dela e protegê-la. Já vivemos numa época na qual o patriarcado está desaparecendo, devido à emancipação feminina.

Os questionamentos feitos pelos militares e usados pelo presidente Jair Bolsonaro para reforçar dúvidas sobre o sistema eleitoral brasileiro criaram um aumento da ansiedade sobre o final real das eleições. Como a ansiedade aumenta mesmo com os resultados das eleições consagrado, o medo da população permanece muito alto.

Não sei se é verdade, porém dizem por aí que o povo com a maior ansiedade no mundo é o brasileiro.

(*) Professor Titular da Pediatria da Universidade de Pernambuco. Psicoterapeuta. Membro da Sobrames/PE, da União Brasileira de Escritores (UBE), da Academia Brasileira de Escritores Médicos (ABRAMES) e da Academia Recifense de Letras. Consultante Honorário da Universidade de Oxford (Grã-Bretanha).

quinta-feira, 27 de abril de 2023

ANGÚSTIA NA GESTAÇÃO

Meraldo Zisman (*)

Médico-Psicoterapeuta

“A angústia é, dentre todos os sentimentos e modos da existência humana, aquele que pode reconduzir as mulheres e homens ao encontro de sua totalidade como ser (…).” Martin Heidegger (1889 – 1976)

Gestação de um novo ser traz agora um aumento da angústia vital.

Conceba por um momento que seu filho ou filha ainda não nascido tem uma doença genética rara que fará do mesmo portador de uma vida bastante limitada ou com poucas possibilidades de sobrevivência. Jamais será um adulto normal. Acrescento: a sabedoria chinesa afirma que, quando se pergunta a um asiático: — qual a sua idade? — ele acrescenta os 9 meses de vida intrauterina que sabemos ser o espaço de tempo mais importante quando o ser passa de ovo (junção de um espermatozoide com o óvulo), para embrião (feto) para se tornar um recém-nascido e seguir uma nova vida fora da mãe. O tempo de vida intrauterina é o mais formidável e transformador processo de toda a existência dos seres. Caso tenha nascido no tempo da gestação de um ser humano (em torno de 40 semanas), essas semanas serão mais importantes do que os cerca de 90 anos que viverá fora do útero materno.

As transformações futuras serão sempre menores do que aquelas que ocorrem na barriga da mãe. A vida intrauterina sempre foi um grande mistério e provoca o que denomino angústia vital, mas forte do que outros traumas que possam ocorrem durante a vida pós-parto.

Com o advento da ultrassonografia e demais avanços médico-técnicos começamos a tomar “algum” conhecimento desse estágio da vida, importante fase da existência do Homo sapiens e de outros animais. Por isso, é compreensiva a expectativa do casal grávido (homem e mulher) quanto aos filhos que gerou ou irá gerar.

O aumento dessa expectativa deve-se à  biologia tecnológica, que descobriu o genoma, que sintetiza todos os dados transmitidos de uma geração de seres vivos para outra, armazenados em um organismo que utiliza uma linguagem de códigos, mais precisamente no seu ‘DNA’ (ácido desoxirribonucleico), sendo uma categoria de ácido nucleico que possui papel fundamental na hereditariedade, sendo considerado o portador da mensagem genética, uma espécie de roteiro orgânico molecular que traz todas as orientações que supervisionam a evolução, a atuação e as atitudes das entidades vivas.

Vinte anos depois que o primeiro genoma humano foi mapeado, o preço do sequenciamento do genoma completo caiu o custo a ponto de poder, pelo menos em países ricos, ser oferecido habitualmente a todos os recém-nascidos. O que de princípio parece ser um avanço da Medicina, agudiza a denominada angústia vital.

A acepção desta tal de angústia vital está associada a emoções que nos causam desconforto e consiste em um medo constante de ser atacado a qualquer momento. Essas emoções limitam as pessoas que as sentem, causando ansiedade, depressão ou outros sentimentos que levam a sensações desagradáveis.

A angústia vital tem efeitos psicológicos e físicos na mãe e no pai, durando muito tempo, indo mais do que o esperado e sendo acrescentado à responsabilidade da criação de um novo ser, seu filho ou filha.

(*) Professor Titular da Pediatria da Universidade de Pernambuco. Psicoterapeuta. Membro da Sobrames/PE, da União Brasileira de Escritores (UBE), da Academia Brasileira de Escritores Médicos (ABRAMES) e da Academia Recifense de Letras. Consultante Honorário da Universidade de Oxford (Grã-Bretanha).

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2023

SAÚDE MENTAL DAS FAMÍLIAS PÓS-COVID

Por Marcelo Cavalcante (*)

Estamos iniciando mais um ano, momento oportuno para fazermos reflexões e planejarmos os próximos 365 dias. Janeiro também é conhecido como Janeiro Branco, um mês dedicado para avaliarmos nossa saúde mental. Além de propiciar melhor qualidade de vida, cuidar de nossa mente é o ponto de partida para qualquer projeto vitorioso.

No último mês de dezembro, a pandemia da Covid-19 completou três anos de seu primeiro caso. Confinamento, distanciamento social, trabalho domiciliar e suspensão das atividades escolares das crianças foram intervenções necessárias para evitar o rápido avanço da doença e reduzir o número de óbitos.

Além das sequelas físicas, conhecida como síndrome pós-Covid-19, as sequelas mentais são as mais preocupantes. Os estudos científicos começam a confirmar o que já estávamos testemunhando no nosso dia a dia: um aumento assustador no número de casos de ansiedade, depressão, estresse pós-traumático e dificuldades de aprendizado nas crianças.

A mudança na rotina das famílias contribuiu fortemente para a deterioração da saúde mental de seus integrantes. Durante a pandemia, foi observado aumento na violência contra a mulher e crescimento do número de divórcios e de brigas entre parentes, impactando, direta e indiretamente, na saúde mental de várias pessoas em um único ambiente familiar. Os danos para as famílias brasileiras foram além, com considerável redução do número de nascimentos durante o ano de 2021, estatística que também alcançou vários países da Europa e do mundo. O IBGE estimou que no Brasil, em 2020/2021, 300 mil bebês deixaram de nascer devido ao adiamento pelos casais, em virtude dos riscos da pandemia.

Felizmente, alguns indicadores começam a revelar uma recuperação da estrutura familiar. Em 2022, houve um crescimento importante do número de casais que desejam e buscam ajuda para engravidar. Além disso, algumas regiões dos Estados Unidos e Europa observaram um crescimento do número de nascimentos no ano de 2022.

Diante desse cenário positivo, é chegada a hora de zelar por nossa saúde mental e de nossa família. Afinal, a vida pede equilíbrio.

(*) Médico especialista em Reprodução Humana.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 27/01/2023. Opinião. p.18.


sexta-feira, 20 de janeiro de 2023

JANEIRO BRANCO E O AUTOCUIDADO

Por Daphinis Brito (*)

Como uma folha em branco, janeiro chega com um sentimento comum a todos, ou pelo menos à grande maioria das pessoas, o da renovação. É o período em que estamos mais propensos à reflexões acerca de nossas vidas e também mais abertos a fazermos as mudanças que planejamos ainda no ano anterior. Um tempo para olhar pra si diante de um novo ciclo que se inicia. Dentro dessa perspectiva, foi criado o movimento do Janeiro Branco, campanha que tem como proposta chamar a atenção para questões relacionadas à Saúde Mental e Emocional a partir da conscientização sobre a importância do autocuidado e do reconhecimento das próprias necessidades físicas, mentais, sociais e emocionais.

Cercado de muitos estigmas e tabus, o tema da saúde mental vem ganhando cada vez mais atenção nos últimos anos, principalmente em decorrência da pandemia. Essa tendência tem sido notória a partir do crescimento do número de casos e atendimentos. O Brasil hoje perde apenas para os Estados Unidos em número de casos de depressão nas Américas, por exemplo, segundo levantamento da Organização Mundial de Saúde. Já quando falamos em ansiedade, temos a maior prevalência de ansiedade no mundo, 9,3%. Por isso, falar sobre o assunto é ainda mais importante.

A saúde mental é um aspecto fundamental da saúde geral e pode afetar todos os âmbitos da vida de uma pessoa. Por isso, é importante lembrar que cuidar da saúde mental é tão importante quanto cuidar da saúde física. Algumas dicas para cuidar da saúde mental incluem praticar exercícios físicos regularmente, manter uma dieta saudável, dormir o suficiente, manter relações sociais saudáveis, aprender a gerenciar o estresse e buscar ajuda profissional, se necessário.

O Janeiro Branco é uma ótima oportunidade para refletir sobre a própria saúde mental e tomar medidas para cuidar dela. Se você ou alguém que conhece estiver passando por dificuldades emocionais ou de saúde mental, não hesite em procurar ajuda profissional. Existem muitos recursos disponíveis, incluindo terapia e grupos de apoio, que podem ajudar a lidar com esses problemas de forma saudável. Cuide-se. 

(*) Médica psiquiatra e diretora clínica do Grupo Nosso Lar.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 13/01/2023. Opinião. p.20.

 

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