segunda-feira, 12 de janeiro de 2026

O CALVÁRIO DOS CONCURSADOS NO CEARÁ

Por Heitor Férrer (*)

É de causar perplexidade a situação enfrentada pelos concursados do Estado do Ceará. São pessoas que estudaram, renunciaram a empregos, reorganizaram suas vidas e acreditaram no concurso público como caminho de ingresso no serviço estatal. Foram aprovados, homologados, divulgados em listas oficiais, mas não convocados.

O Estado, que, por edital, reconheceu a necessidade de novos servidores, agora posterga nomeações e, o que é pior, contrata temporários, terceirizados e comissionados para ocupar o lugar de quem passou em concurso público.

É inaceitável que o poder público lance um edital ofertando vagas, ateste a carência de pessoal, avalie os melhores candidatos, homologue o resultado e, ao final, deixe os aprovados aguardando enquanto contrata servidores provisórios para o mesmo serviço. Isto é uma afronta à moralidade administrativa.

A mobilização dos aprovados na Assembleia Legislativa deixou evidente a gravidade da situação. Apesar da carência reconhecida de médicos, professores, técnicos, analistas e profissionais de diversas áreas, o governo tem lançado mão de soluções temporárias para suprir demandas que deveriam ser atendidas definitivamente e não precarizando serviços e causando descrédito no concurso público.

Os relatos são contundentes. Em áreas estratégicas como saúde, educação superior, meio ambiente, mobilidade e gestão pública, cargos previstos nos editais permanecem vagos, enquanto terceirizados ou comissionados assumem funções para as quais já existem aprovados aguardando nomeação.

Em algumas instituições, a dependência de temporários chega a níveis alarmantes, com cursos inteiros funcionando com vínculos precários, mesmo diante de concursos válidos e com ampla lista a espera de convocação.

Em outras, aposentadorias e desistências abrem vagas que, por direito, deveriam ser preenchidas por aprovados, mas continuam sendo ocupadas por contratos transitórios que se renovam sucessivamente.

É inadmissível que, diante de tantas carências, o Estado ignore quem se submeteu ao mais republicano dos processos seletivos.

O concurso público não é ornamento, não é formalidade. É instrumento de justiça, de impessoalidade e de moralidade administrativa. Quando o governo deixa de convocar aprovados e contratar temporários, fere a Constituição e corrói a confiança do cidadão no serviço público.

A convocação dos aprovados não é favor! É obrigação de um Estado que se pretende sério. Enquanto isso não acontecer, continuará pairando sobre a administração estadual a sombra da transgressão e sobre os concursados, a injustiça de terem feito tudo certo, menos contar com o compromisso do Estado.

(*) Médico e deputado estadual (Solidariedade).

Fonte: Publicado In: O Povo, de 12/12/2025. Opinião. p.19.

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