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terça-feira, 23 de junho de 2026

O PARADOXO DAS MÉDICAS NO BRASIL

Por Luciana Rodrigues (*)

O Brasil atravessa uma transformação histórica na medicina. Pela primeira vez, as mulheres são maioria entre os médicos em atividade no País: representam 50,9% do total, segundo a Demografia Médica 2025. Em 2010, eram 41%, e a tendência é de crescimento contínuo — até 2035, devem alcançar 56% da força de trabalho médica.

O avanço numérico reflete maior acesso a formação, ampliação de oportunidades e mudança cultural importante. No entanto, os dados revelam um descompasso: a presença feminina cresce, mas a igualdade de condições ainda não acompanha esse movimento.

Hoje, menos de 30% dos cargos de liderança na medicina são ocupados por mulheres. Em hospitais, universidades e entidades de classe, médicas ainda enfrentam barreiras para ascender profissionalmente. Relatos de assédio moral e sexual persistem, assim como dificuldades para conciliar carreira e responsabilidades familiares — desafio que continua recaindo de forma desproporcional sobre elas.

A desigualdade de gênero impacta diretamente a qualidade da medicina. Ambientes diversos são mais inovadores, produzem decisões mais equilibradas e refletem melhor a sociedade. Ignorar esse cenário é limitar o potencial do sistema de saúde.

Foi diante dessa realidade que a Associação Médica Brasileira criou a Comissão Nacional em Defesa dos Direitos do Trabalho da Mulher Médica (Conadem), voltada ao enfrentamento de questões como equidade salarial, combate ao assédio, garantia de condições adequadas durante gestação e amamentação e estímulo à presença feminina em cargos de liderança.

A mudança já era visível nas universidades. As mulheres representam a maioria entre os estudantes de medicina desde a década passada: eram 53,7% em 2010 e chegaram a 61,8% em 2023. O futuro da profissão já tem rosto majoritariamente feminino.

O desafio agora é transformar presença em protagonismo, influência e poder de decisão. Para isso, é fundamental ampliar a produção de dados, fortalecer políticas de inclusão e construir ambientes mais justos. Valorizar a mulher médica não é apenas atender a uma demanda da categoria, mas fortalecer o sistema de saúde e melhorar a assistência prestada à população.

(*) Pediatra e Vice-presidente da Associação Médica Brasileira.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 16/05/2026. Opinião. p.22.


sábado, 25 de abril de 2026

O FANTASMA NO ESCRITÓRIO

Marcelo chega ao escritório de manhã. Ele mal senta na cadeira e seu chefe já vem atrás. No entanto, o chefe faz uma pergunta bastante estranha...

— Bom dia, Marcelo. Deixe-me perguntar: você acredita em vida após a morte?

Ele não entende nada da pergunta, mas responde:

— Ah, chefe, eu não acredito nisso não.

— E por que você não acredita? Marcelo fica com a pulga atrás da orelha, mas não contesta o chefe.

— Ah, para mim se a pessoa morreu, morreu e acabou, chefe. Não existe prova nenhuma para isso. Ninguém nunca voltou do outro lado depois de morto. Pelo menos eu nunca vi!

O chefe responde:

 — É mesmo? Pois você está enganado. Agora essa prova existe! Marcelo arregalou os olhos e ficou com medo também.

— Existe?!

— Sim, existe. A prova apareceu ontem aqui no escritório. Marcelo ficou gelado e começou olhar para os lados. Será que ali haviam mesmo fantasmas?

— E... e... que prova é essa, chefe?

— Ontem, quando você saiu mais cedo para ir ao velório do seu tio... Ele veio aqui te procurar!

Fonte: Disponível na home page “Tudoporemail”.


domingo, 22 de março de 2026

KEVIN E A SECRETÁRIA

Poucos dias depois, sua esposa fica sabendo dessa nova contratação e ele enfrenta uma saraivada de perguntas rápidas e suspeitas.

Emma (esposa de Kevin): "Sua nova secretária tem pernas bonitas?"

Kevin: "Não percebi direito."

Emma: "De que cor são os olhos dela?"

Kevin: "Não tive tempo de verificar."

Emma: "Quais são as cores de esmalte que ela usa, metálico, gel ou neon?"

Kevin: "Não faço a menor ideia."

Emma: "Ela tem sotaque local?"

Kevin: “Eu mal falei com ela, então não sei.”

Emma: "Como ela se veste?"

Kevin: "Muito rápido."

Fonte: Disponível na home page “Tudoporemail”.


domingo, 1 de março de 2026

Mais vagas, menos estrutura: o risco da proliferação de cursos de Medicina

Por Daniel Pinheiro (*)

Os resultados mais recentes do Enade, divulgados pelo Ministério da Educação, trouxeram um dado que não pode ser ignorado: um número expressivo de cursos de Medicina (32%) obteve desempenho insatisfatório, levando o próprio governo federal a anunciar medidas de supervisão, redução de vagas e suspensão de novos ingressos.

Mais do que um ranking acadêmico, o Enade funciona como um termômetro da qualidade da formação médica no país - e o diagnóstico é preocupante. Ele expõe, de forma objetiva, os efeitos de uma expansão acelerada e pouco criteriosa das escolas médicas no Brasil.

Apresentada como solução para a escassez e a má distribuição de médicos, a abertura indiscriminada de cursos tem sido conduzida, em muitos casos, sem o planejamento necessário para garantir formação adequada. A Medicina é uma profissão de alta complexidade, cuja aprendizagem depende menos da sala de aula e mais do contato supervisionado com pacientes reais.

Hospitais, unidades básicas, emergências e equipes de preceptores experientes são o verdadeiro núcleo da formação médica. Esses cenários, contudo, não se multiplicam no mesmo ritmo das autorizações de novos cursos.

Criam-se faculdades, mas não se criam hospitais-escola, leitos, centros cirúrgicos, UTIs e preceptores qualificados em quantidade suficiente. Quando o campo de prática é insuficiente, o estudante torna-se observador passivo ou executa atividades sem a supervisão adequada. Isso compromete a formação e coloca o paciente em situação de risco. O problema deixa de ser apenas educacional e passa a ser um problema concreto de segurança do paciente, com potencial aumento de erros, retrabalho, judicialização e custos para o sistema de saúde.

Há ainda um equívoco estrutural que o próprio Enade ajuda a revelar: formar mais médicos não significa, automaticamente, garantir médicos onde a população precisa. A experiência brasileira demonstra que a simples ampliação do número de diplomas não corrige a concentração de profissionais nos grandes centros.

Fixação depende de carreira, remuneração, infraestrutura, suporte diagnóstico e condições de trabalho - fatores que não se resolvem simplesmente com a abertura de faculdades. Países com bons indicadores de saúde não alcançaram esse patamar multiplicando escolas sem critério, mas investindo em planejamento, avaliação rigorosa e forte integração entre ensino e sistema assistencial.

Persistir na expansão descontrolada da formação médica é assumir um risco coletivo. Em Medicina, os custos do improviso não são abstratos nem estatísticos: recaem diretamente sobre vidas humanas. E esse é um preço alto demais para qualquer sociedade responsável.

(*) Médico otorrinolaringologista.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 19/02/2026. Opinião. p.11.


A formação médica não pode ser laboratório político

Por Heitor Férrer (*)

Ser atendido por um médico mal formado corre-se mais risco do que não ser atendido. Essa afirmação, dura, resume o momento crítico que atravessa a formação médica no Brasil. Não se trata de debate acadêmico nem de disputa ideológica. Estamos falando de vidas humanas, de saúde pública e do futuro do sistema de atenção à saúde no Brasil.

Os dados recentes do Exame Nacional de Desempenho dos Estudantes de Medicina são um alerta inequívoco. Cerca de 32% das faculdades avaliadas apresentaram desempenho catastrófico. Na prática, mais de 100 instituições com desempenho abaixo do mínimo aceitável, sujeitas a sanções e até à suspensão de vagas, ainda que a maioria tenha alcançado proficiência. É um contingente elevado demais para ser tratado com indiferença.

Há um risco direto à sua pública. Cada médico mal formado representa um risco concreto a cada um de nós. Não é apenas um dado estatístico, mas alguém exposto a erros de diagnóstico, condutas inseguras e equivocadas. Durante a pandemia, isso ficou evidente quando profissionais recém-formados demonstraram dificuldades em procedimentos básicos, como a correta intubação de pacientes graves. Falhas como essa se transformam em tragédia. Elas custam vidas.

Minha crítica não é de agora. Desde o ano passado, venho alertando, na Assembleia Legislativa, para a proliferação irresponsável de cursos de medicina sem estrutura adequada. Formar médicos exige mais do que autorização administrativa. Exige professores qualificados, hospitais de ensino, leitos disponíveis, preceptores experientes e uma rede pública preparada para receber estudantes com supervisão rigorosa.

No Ceará, diante da quantidade de cursos autorizados, pergunta-se: onde estão os hospitais de ensino? Onde estão os campos de prática? Onde estão os mestres?

Ao se permitir faculdades sem condições reais de formação, estamos comprometendo a formação médica e quem pagará essa conta será o cidadão.

A expansão sem critérios transforma a medicina em laboratório político, como a atual política do MEC, dirigido pelo ex-governador Camilo Santana insiste em fazer. A formação médica exige planejamento, responsabilidade e compromisso com a qualidade. Reduzi-la ao aumento do número de vagas é erro grave. Vidas estão em jogo.

(*) Médico e deputado estadual (Solidariedade).

Fonte: Publicado In: O Povo, de 6/02/2026. Opinião. p.17.


quarta-feira, 28 de janeiro de 2026

PROFESSOR TRABALHA? II

Por Vladimir Spinelli Chagas (*)

Em 13 de setembro de 2021 fiz a interrogação irônica sobre o profissional responsável pela formação de todos os outros profissionais e sobre o qual sempre parece estar a dúvida quanto a se exercer o magistério é um trabalho de verdade.

Ali convidei a desconstruirmos a visão deturpada da realidade do professor que, para além da chamada sala de aula, precisa estar atualizado do mundo como um todo e não apenas na sua área de ensino. Precisa planejar adequadamente a próxima aula e, depois, precisa corrigir trabalhos, provas, atribuir notas e registrá-las, propor pesquisas e estudos, dentre outras atividades ligadas diretamente à profissão.

Assim, o professor precisa ser reconhecido diariamente, por essas atividades e pelo que proporciona de aprendizagem, desde as primeiras letras até os projetos de pós-doutoramento, em que os níveis mudam, mas não a função básica de construir conhecimentos.

Neste cenário, surge a PEC 169/2019, promulgada como Emenda Constitucional 138, de 2025, que altera as regras para que professores da rede pública possam exercer outras atividades, acumulando licitamente outro cargo público com o magistério.

Ao reconhecer que a EC 138/2025 torna mais ampla a possibilidade da acumulação e mais claras as regras vigentes, com maior segurança jurídica, considero que a Lei é mais bem-vinda para os servidores que exercem cargos no serviço público e resolvam levar suas qualificações para o magistério.

Do lado do professor, o que continuo a enxergar é, não apenas a sua quase invisibilidade no mundo real, como uma remuneração inadequada para o seu precioso papel, obrigando-o a estender horários, acumular tarefas, dedicar-se a mais de uma instituição. Enfim, uma perda de condições ideais de exercício da nobre missão.

Assim, para além de clarear regras de acumulação, o Estado precisa debruçar-se sobre uma política pública para o ensino, de forma a que a acumulação de cargos seja uma escolha de expansão profissional, e não de sobrevivência ante a remuneração insuficiente.

Ao fim, repetimos os parabéns aos que se dedicam ao ensino, doando um pouco de si para que os saberes se propaguem!

(*) Professor aposentado da Uece, membro da Academia Cearense de Administração (Acad) e conselheiro do CRA-CE. Provedor da Santa Casa da Misericórdia de Fortaleza.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 29/12/25. Opinião. p.16.


quarta-feira, 21 de janeiro de 2026

NOTA DA AMB ENAMED 2025

Nota da Associação Médica Brasileira (AMB) sobre os resultados do Enamed 2025 e a qualidade da formação médica no Brasil

Após a divulgação dos resultados do Enamed 2025 (Exame Nacional de Avaliação da Formação Médica), a Associação Médica Brasileira (AMB) vem a público demonstrar sua extrema preocupação com os números que foram apresentados, que revelam uma realidade gravíssima na formação médica do país.

O exame, que mede o desempenho dos estudantes e a qualidade dos cursos de Medicina no país, revela um cenário alarmante, que exige respostas firmes e responsáveis por parte das instituições de ensino e das autoridades regulatórias.

Os dados foram apresentados nesta segunda-feira (19/01/2026) pelo Ministério da Educação (MEC), da Saúde e pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep).  Acreditamos que esta avaliação vem em bom tempo para nos mostrar objetivamente a realidade do ensino de graduação médica em nosso país.

Foram avaliados 351 cursos de Medicina. Desse total, 99 cursos sob regulação federal obtiveram conceitos 1 ou 2, faixas consideradas insatisfatórias pelo Inep. Embora 67,1% dos cursos estejam entre conceitos 3 e 5, a presença de 32,6% de cursos com desempenho abaixo do mínimo aceitável segue preocupante. Entre os 39.258 estudantes concluintes avaliados, apenas 67% demonstraram proficiência adequada, enquanto cerca de 13 mil alunos não atingiram o nível esperado para o exercício seguro da Medicina.

 Os cursos de medicina no Brasil são terminais. Ou seja, quando o aluno conclui o curso de graduação, ele recebe o diploma de formado em medicina. Com base neste certificado, vai ao Conselho Regional de Medicina (CRM) do seu estado, obtém o seu registro profissional e o seu número de inscrição no CRM. Uma vez portador desta documentação, está legalmente habilitado para atender pacientes e exercer a medicina em nosso país.

Nestas circunstâncias, equivale dizer que esses 13.000 médicos apontados pelo Enamed como não proficientes podem, de acordo com a legislação atual, atender pacientes em nosso país. Isso nos permite afirmar, sem sombra de dúvidas, que a nossa população atendida por esse contingente de médicos não proficientes ficará exposta há um risco incalculável de má prática médica.

Esses números apontam claramente para a necessidade de instituirmos o mais breve possível exame de proficiência médica como um pré-requisito para o exercício da medicina. Sendo mais claro, não comprovada a proficiência médica pelos egressos dos cursos de medicina, não lhes seria concedido o registro profissional pelos CRM, impedindo-os, desta forma, de atender pacientes.

Esta seria uma ação muito bem-vinda em direção a proteção e segurança dos pacientes. Esta não é uma medida contra o egresso de medicina. É uma medida com finalidade voltada única e exclusivamente à boa prática da medicina e a segurança dos pacientes.

Os dados do Enamed também evidenciam uma forte assimetria na formação médica no Brasil. Universidades públicas federais e estaduais concentram mais de 84% de seus cursos nas faixas de excelência, enquanto os piores resultados ocorrem principalmente em instituições municipais e privadas com fins lucrativos.

Estes achados reforçam alertas históricos da AMB sobre os riscos da expansão desordenada de escolas médicas, muitas vezes abertas sem infraestrutura adequada, corpo docente qualificado ou condições mínimas para a formação segura de novos médicos, nem residência médica.

O Ministério da Educação anunciou, na direção correta, sanções para as instituições avaliadas com desempenho insuficiente, incluindo suspensão total de ingresso, redução do número de vagas e restrição de acesso a programas federais como o Fundo de Financiamento ao Estudante do Ensino Superior (Fies). As instituições terão 30 dias para apresentar defesa e as penalidades permanecerão em vigor até o próximo Enamed, previsto para outubro de 2026.

Consideramos essas medidas necessárias para proteger a população e garantir padrões mínimos de qualidade no ensino médico e reforça que o Enamed representa um avanço importante para o país ao oferecer um diagnóstico objetivo da formação médica e ao fortalecer a transparência na avaliação das instituições.

Porém alertamos que a questão central não é ampliar indiscriminadamente o número de vagas, mas assegurar que cada futuro médico tenha formação adequada, sólida e compatível com as demandas reais do sistema de saúde. Não se trata de formar mais médicos, mas de formar bons médicos, preparados para atuar no SUS e para responder às necessidades da população brasileira.

A Associação Médica Brasileira reitera seu compromisso permanente com a educação médica de qualidade e com a proteção da sociedade.

Continuaremos trabalhando junto ao MEC, ao Ministério da Saúde, ao Conselho Federal de Medicina, ao Conselho Nacional de Educação e aos órgãos reguladores para aprimorar as diretrizes curriculares, fortalecer os estágios e o internato e estabelecer critérios rigorosos para abertura de novos cursos e ampliação de vagas.

O país precisa de uma política nacional de formação médica pautada pelo rigor acadêmico, pela responsabilidade social e pelo compromisso com a segurança do paciente.

Associação Médica Brasileira (AMB)

20 de janeiro de 2026


segunda-feira, 12 de janeiro de 2026

O CALVÁRIO DOS CONCURSADOS NO CEARÁ

Por Heitor Férrer (*)

É de causar perplexidade a situação enfrentada pelos concursados do Estado do Ceará. São pessoas que estudaram, renunciaram a empregos, reorganizaram suas vidas e acreditaram no concurso público como caminho de ingresso no serviço estatal. Foram aprovados, homologados, divulgados em listas oficiais, mas não convocados.

O Estado, que, por edital, reconheceu a necessidade de novos servidores, agora posterga nomeações e, o que é pior, contrata temporários, terceirizados e comissionados para ocupar o lugar de quem passou em concurso público.

É inaceitável que o poder público lance um edital ofertando vagas, ateste a carência de pessoal, avalie os melhores candidatos, homologue o resultado e, ao final, deixe os aprovados aguardando enquanto contrata servidores provisórios para o mesmo serviço. Isto é uma afronta à moralidade administrativa.

A mobilização dos aprovados na Assembleia Legislativa deixou evidente a gravidade da situação. Apesar da carência reconhecida de médicos, professores, técnicos, analistas e profissionais de diversas áreas, o governo tem lançado mão de soluções temporárias para suprir demandas que deveriam ser atendidas definitivamente e não precarizando serviços e causando descrédito no concurso público.

Os relatos são contundentes. Em áreas estratégicas como saúde, educação superior, meio ambiente, mobilidade e gestão pública, cargos previstos nos editais permanecem vagos, enquanto terceirizados ou comissionados assumem funções para as quais já existem aprovados aguardando nomeação.

Em algumas instituições, a dependência de temporários chega a níveis alarmantes, com cursos inteiros funcionando com vínculos precários, mesmo diante de concursos válidos e com ampla lista a espera de convocação.

Em outras, aposentadorias e desistências abrem vagas que, por direito, deveriam ser preenchidas por aprovados, mas continuam sendo ocupadas por contratos transitórios que se renovam sucessivamente.

É inadmissível que, diante de tantas carências, o Estado ignore quem se submeteu ao mais republicano dos processos seletivos.

O concurso público não é ornamento, não é formalidade. É instrumento de justiça, de impessoalidade e de moralidade administrativa. Quando o governo deixa de convocar aprovados e contratar temporários, fere a Constituição e corrói a confiança do cidadão no serviço público.

A convocação dos aprovados não é favor! É obrigação de um Estado que se pretende sério. Enquanto isso não acontecer, continuará pairando sobre a administração estadual a sombra da transgressão e sobre os concursados, a injustiça de terem feito tudo certo, menos contar com o compromisso do Estado.

(*) Médico e deputado estadual (Solidariedade).

Fonte: Publicado In: O Povo, de 12/12/2025. Opinião. p.19.

quinta-feira, 8 de janeiro de 2026

CONQUISTAS E DILEMAS DO TRABALHO NO BRASIL

Por Lauro Chaves Neto (*)

O Brasil comemora as mais de 100 milhões de pessoas ocupadas e uma taxa de desemprego em patamares históricos de 5,6%, a comemoração, no entanto, deve ser pautada por algumas ressalvas geradas pelas peculiaridades do mercado de trabalho brasileiro. A excessiva informalidade, estimada pelo IBGE em mais de 40 milhões de trabalhadores, se mantém estável há mais de uma década, o que gera uma série de empecilhos para o desenvolvimento sustentável e inclusivo, com maior redução da pobreza e da desigualdade.

Mesmo com a reforma trabalhista, ainda é muito alto o custo da formalização pela CLT, já que encargos sociais, previdenciários e fiscais chegam a estimados 70% sobre o salário bruto, dificultando a formalização, principalmente, em pequenas e médias empresas, além de ser um gargalo para a melhoria da produtividade.

Vale ressaltar que uma das principais explicações para a alta ocupação tem sido o crescimento acelerado da quantidade de microempreendedores individuais (MEI) e outros profissionais enquadrados como pessoas jurídicas.

Desde 2012, a parcela dos trabalhadores por conta própria com CNPJ saltou de 3,3% para quase 7%, alavancada por 5,5 milhões de migrações diretas de contratos pela CLT para esses regimes entre 2022 e julho de 2025. A parcela desse crescimento explicada pelo empreendedorismo é positiva, enquanto as demais podem representar a simples pejotização.

Um ponto importante é que a renda média desses profissionais, de R$ 4.947 mensais, é superior à dos empregados formais no setor privado (excluindo domésticos): de R$ 3.200 mensais. Pode-se inferir que, principalmente em funções qualificadas, a modalidade PJ/MEI pode elevar ganhos por meio de custos reduzidos e ampliação da carteira de clientes.

Uma pesquisa do Instituto Datafolha revela que 59% dos brasileiros afirmam que preferem trabalhar por conta própria, sendo assim um aspecto positivo no crescimento das modalidades PJ. Esse dinamismo no mercado de trabalho com a ampliação de outras modalidades contratuais é benéfico, porém os cuidados para se se evitar ou reduzir a precarização devem ser reforçados.

(*) Consultor, professor doutor da Uece e conselheiro do Conselho Federal de Economia.

Fonte: O Povo, de 8/12/25. Opinião. p.18.

terça-feira, 18 de novembro de 2025

OS MÉDICOS MERECEM RESPEITO

Por Heitor Férrer (*)

Quando uma categoria conquista, após anos de luta sindical, a implantação de um Plano de Cargos, Carreiras e Salários (PCCS), o que se consagra não é um privilégio, mas o reconhecimento do Estado pelos serviços prestados por esses servidores. O PCCS é uma forma de valorização profissional, um instrumento de justiça que garante progressão e dignidade na função.

Assim, ocorreu em 2008, quando o Sindicato dos Médicos do Estado do Ceará travou uma batalha histórica e obteve, no governo Cid Gomes, um novo plano de cargos e carreiras, aprovado pela Assembleia Legislativa em novembro daquele ano. A lei, claríssima. Estabelece os critérios de ascensão profissional e prevê sua vigência imediata a partir da publicação.

Logo após a sua aprovação, o governador Cid cumpriu parcialmente o que determinava a lei, e deu os avanços apenas em 2009, 2010 e 2011. A partir daí, simplesmente o governador suspendeu os avanços nos anos seguintes. Jogou a lei no lixo! Ao deixar o cargo, os médicos já acumulavam prejuízos irreparáveis.

Com a chegada do governador Camilo Santana, esperava-se a correção dessa injustiça, mas, para frustração dos médicos, persistiu o descumprimento da lei durante todo o seu governo. Somente no segundo mandato, num esforço hercúleo do então secretário da Saúde, Dr. Cabeto, foi encaminhado à Assembleia projeto para descomprimir o plano de cargos de 2011 a 2019, quase 10 anos de atraso, sem o Estado pagar nada do retroativo da lei ignorada, permanecendo a dívida até hoje.

Em 2023, com a chegada do governador Elmano de Freitas, os médicos já tinham os seus avanços atrasados de 2019 a 2022. Mais quatro anos de prejuízo. Já com quase três anos de governo Elmano, permanecem o descaso, o desrespeito à lei, o deboche. Nenhum avanço foi concedido. Seis anos de perdas.

Essa postura configura não apenas um desrespeito com os servidores médicos, mas também uma afronta à Assembleia Legislativa, que aprovou o plano de cargos em reconhecimento, valorização e respeito a esses profissionais. Como aceitar que uma lei aprovada, publicada e vigente continue sendo descaradamente ignorada pelo governador?

Desde o início do atual governo, o Sindicato dos Médicos tenta negociar uma solução, mas tem sido a inércia e a má vontade a resposta do governo em cumprir o que é obrigação legal.

A lei existe para ser cumprida e o Estado tem o dever de dar o bom exemplo. Ignorá-la é ferir o princípio da legalidade e trair a confiança de quem dedica toda a sua vida a cuidar da saúde dos cearenses.

O governador não pode continuar sendo um "fora da lei", descumprindo legislação aprovada para fazer justiça e reconhecer o valor desses abnegados servidores. Os médicos merecem respeito...

(*) Médico e deputado estadual (Solidariedade).

Fonte: Publicado In: O Povo, de 17/10/2025. Opinião. p.19.

segunda-feira, 10 de novembro de 2025

SER PROFESSOR: sim ou não?

Por Sofia Lerche Vieira (*)

Aproximando-se o Dia do Professor é oportuno refletir sobre o complexo desafio do exercício desta profissão. Vamos lá... Em todo o mundo os docentes representam um elevado contingente do serviço e do orçamento público. Embora sejam muitos, em poucos países seus salários são semelhantes ao de profissionais com qualificação similar. Por isso mesmo, hoje o magistério é profissão de pouca atratividade. Baixos salários, sobrecarga de trabalho e falta de reconhecimento social são elementos de uma desvalorização que provoca uma crise no próprio recrutamento de docentes.

Há uma grave escassez de professores. A Unesco estima que até o ano de 2030 serão necessários 44 milhões de novos docentes para repor os profissionais da educação básica que abandonaram o magistério ou se aposentaram.

Sendo este o panorama mundial, o que dizer do Brasil? A situação é semelhante a outros contextos e tem especificidades. Somam-se aos fatores já referidos o agravamento das condições de trabalho, sobretudo em territórios de maior vulnerabilidade social e econômica, ameaçados pelo crime organizado. O antes protegido espaço da escola hoje está em risco...

Outro agravante da crise do magistério é o aumento de contratações provisórias, criando muros invisíveis entre duas categorias de professores - os efetivos e os temporários, cujos direitos raramente são os mesmos. Estudos mostram que o quantitativo de temporários tem aumentado significativamente nos últimos anos e hoje, já representa a maioria do corpo docente da educação básica. Muitos estados e municípios estão encontrando nessa estratégia uma forma de driblar compromissos previdenciários acarretados pela "Lei do Piso" (Lei nº 11.738/2008).

A despeito de todas as dificuldades, contribuir para formar cidadãos e cidadãs permanece sendo o sonho de homens e mulheres que abraçam o magistério. Para que mais jovens digam "sim" são necessárias e urgentes políticas públicas que reconheçam e valorizem a profissão. A imagem positiva da sociedade, por sua vez, é a pedra de toque para que pessoas competentes e comprometidas queiram ser professores.

(*) Professora do Programa de Pós-Graduação em Educação da Uece e consultora da FGV-RJ.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 6/10/25. Opinião. p.18.


quinta-feira, 14 de agosto de 2025

UM MINUTO DE EMPATIA

Por Sofia Lerche Vieira (*)

Empatia é palavra que anda escassa e faz falta no cotidiano de nossas relações pessoais, profissionais e políticas. De origem grega, vem de "empatheia', termo formada pela junção de "en" (em, dentro) e "pathos" (sentimento, sofrimento, emoção ou paixão). Refere-se, portanto, à capacidade de nos colocarmos no lugar do outro e, de tal maneira, sermos capazes de compreender suas emoções, motivações e percepções. Embora o conceito tenha evoluído ao longo do tempo, a essência de seu significado permanece.

Num mundo marcado pela competição, a família, a escola e outras instituições formativas da sociedade pouco abraçam a empatia como um valor universal. Por isso mesmo é necessário falar sobre sua importância no âmbito das relações individuais e coletivas. Como compreender as necessidades deste outro, que nos é estranho e parece indecifrável, se não vislumbrarmos nele a disposição para sentimentos semelhantes aos nossos?

É incomensurável o sofrimento que circula no mundo. Seres depauperados, atingidos por intempéries climáticas, guerras, abatidos pela fome e desabrigo. O próximo-distante que perdeu um filho. O amigo que não encontra inserção profissional. O trabalhador anônimo que varre as ruas sob o sol inclemente. O desconhecido que somos incapazes de desvelar. Que empatia exercitamos junto a eles? Somos capazes de compreender sua dor e estender-lhes a mão? Ou nos refugiamos em nossa indiferença?

A política, em tempos de radicalização, onde vencer é um atributo central, não é terreno fértil ao germe das sementes da empatia. Já imaginaram se os grandes senhores da guerra e do caos exercessem um minuto de empatia por dia? Se saíssem de si para enxergar o outro lado? Gaza não seria uma faixa de sofrimento, fome e morte. O mundo está repleto de outros exemplos semelhantes ignorados. Aqui e alhures.

Em tempos de dissenso, intolerância e disrupção, a empatia, esse atributo raro em nossos dias, é uma chave para o resgate da essência de nossa humanidade. Escutar o outro. Percebê-lo. Ser capaz de compreendê-lo. Aceitá-lo. Este o desafio.

(*) Professora do Programa de Pós-Graduação em Educação da Uece e consultora da FGV-RJ.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 14/07/25. Opinião. p.20.

quarta-feira, 25 de junho de 2025

A ENFERMAGEM E O RISCO DA QUARTEIRIZAÇÃO

Por Martinha Brandão (*)

Nos últimos anos, a enfermagem tem sido alvo de um processo cada vez mais acelerado de precarização. A terceirização por meio de organizações sociais, contratos temporários e cooperativas tem minado direitos históricos da categoria, enfraquecendo a segurança e a estabilidade desses profissionais que são fundamentais para o funcionamento do Sistema Único de Saúde (SUS). Agora, assistimos ao avanço de uma forma ainda mais perversa de exploração: a quarteirização.

Essa prática vem se espalhando por diversos municípios do Ceará e, de forma alarmante, até em unidades geridas diretamente pela Secretaria da Saúde do Estado. Nesse modelo, uma organização social é contratada para administrar uma unidade de saúde e, por sua vez, subcontrata uma cooperativa para fornecer profissionais de Enfermagem.

Muitas dessas cooperativas não asseguram sequer os direitos trabalhistas básicos, como férias, 13º salário, FGTS, adicionais de insalubridade e noturno. Essa forma de contratação fere a legislação trabalhista e desvirtua o verdadeiro espírito do cooperativismo, que deveria ser baseado na colaboração e não na exploração.

A precarização da enfermagem não impacta apenas os trabalhadores. Ela compromete diretamente a qualidade do atendimento à população. Profissionais sobrecarregados, inseguros e sem garantias são impedidos de exercer suas funções com excelência. Casos como o de trabalhadoras grávidas obrigadas a atuar em ambientes insalubres exemplificam o grau de descaso e retrocesso que essa prática representa.

A Justiça do Trabalho já reconheceu a existência de fraudes em contratos envolvendo cooperativas atuantes em vários municípios cearenses. Mesmo com essas decisões, a Sesa tem mantido a prática, inclusive em hospitais estratégicos como o novo Hospital Universitário. Há indícios sérios de que uma das cooperativas contratadas possui histórico de condenações trabalhistas, o que agrava ainda mais a situação.

Diante disso, é urgente que o governo estadual reveja essas contratações e adote políticas públicas que valorizem de fato os profissionais da saúde. A realização de concursos públicos é o caminho mais justo e eficaz para garantir estabilidade, dignidade e qualidade no serviço prestado à população.

A enfermagem é a espinha dorsal do SUS. São esses profissionais que asseguram a continuidade do cuidado, com conhecimento, coragem e compromisso. Explorar essa categoria é comprometer a saúde pública como um todo. O Sindsaúde Ceará seguirá firme na luta por respeito, valorização e direitos.

Convocamos a sociedade a se unir contra essa ofensiva. A dignidade desses profissionais não pode ser negociada. Precisamos estar ao lado de quem cuida da sociedade todos os dias.

(*) Dirigente do Sindsaúde Ceará. Graduada em Serviço Social

Fonte: Publicado In: O Povo, de 21/06/2025. Opinião. p.17.


domingo, 15 de junho de 2025

Leão XIII e o Direito do Trabalho

Por Valdélio Muniz (*)

A escolha do cardeal americano Robert Prevost, eleito no recente conclave, pelo nome Papa Leão XIV trouxe alusão que, um dia depois, ele mesmo confirmou: a inspiração em Leão XIII (italiano Gioacchino Vincenzo Raffaele Luigi 1810-1903), o papa que moldou a doutrina social da igreja. O que isso tem a ver com o Direito do Trabalho?

Façamos uma breve digressão à história do próprio trabalho. Das eras primitivas em que a caça e a pesca eram necessidade de subsistência, passou-se também ao uso da força de trabalho humana e animal (tração) em benefício de terceiros. Transitou-se da escravidão (de povos colonizados, tidos como propriedades de seus colonizadores e que, por não serem vistos como sujeitos, não tinham direitos) à versão mais amena chamada servidão (com direito à proteção política e militar dos servos e o dever destes de dividir com seu senhor uma parte de tudo que produzissem nas terras que lhe foram confiadas).

Por muito tempo, trabalho era visto também como forma de obter expiação (purificação) dos pecados e liberdade. Tanto que, no portão do campo de concentração de Auschwitz, se estampou, em alemão: Arbeit macht frei (o trabalho liberta). As corporações de ofício (espécie de embriões dos sindicatos surgidas no século XII) chegaram a ser proibidas, pois encaradas como forma de conspiração dos trabalhadores.

A Revolução Francesa (1789) trouxe, no ideal de liberdade, aparato teórico à defesa do respeito à autonomia da vontade no contrato, inclusive de trabalho (desconsiderada a clara situação de desigualdade e dependência entre os contratantes), que se somou à filosofia do laissez-faire (em francês, deixe acontecer), para apregoar o distanciamento do Estado das relações econômicas.

A primeira Revolução Industrial (1760-1860) trouxe a expansão das fábricas e o surgimento da classe trabalhadora (proletariado), submetida a jornadas de até 17 horas diárias (incluindo idosos, crianças e mulheres). E, em 1891, o Papa Leão XIII editou a histórica encíclica Rerum Novarum (do latim, Coisas Novas), alertando para a situação de penúria dos operários e para a necessidade de intervenção estatal nas relações de trabalho.

A encíclica tornou-se documento essencial para a construção do Direito do Trabalho, a partir de regras como limitação de jornada diária, direito a repouso semanal remunerado, salário mínimo etc,, o que se difundiu com mais força após a criação da Organização Internacional do Trabalho (OIT), em 1919, com o surgimento de diversos aparatos legais protetivos ao trabalhador em todo o mundo.

Que esta inspiração ajude o Papa Leão XIV a lançar luzes sobre os impactos que as atuais revoluções tecnológicas têm trazido ao mundo do trabalho, como ele mesmo também já demonstrou preocupação.

(*) Jornalista, professor universitário e analista judiciário.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 23/04/25. Opinião. p.25.

segunda-feira, 26 de maio de 2025

Saúde mental no trabalho e a tragédia retratada

Por Valdélio Muniz (*)

Dados recém-divulgados pelo Ministério da Previdência Social expõem grave e preocupante quadro relativo à saúde mental dos trabalhadores no Brasil: foram 472.328 mil afastamentos (licenças médicas) do trabalho por transtornos mentais em 2024. O número supera o dobro dos registros de 2014 (221.721 casos) e é 68% maior que o de 2023 (283.471). No Ceará, foram 12.202 afastamentos do trabalho que tiveram, entre outros motivos, ansiedade (4.095) e depressão (3.024).

Não se tratam de meros números. São cidadãos que, após terem sobrevivido (com cicatrizes) a um tormentoso, mas necessário, período de isolamento social (lockdown) durante a pandemia de Covid-19, encontram no mercado de trabalho tratamentos costumeiramente degradantes e desrespeitosos à sua dignidade, com pressões exacerbadas para cumprimento de metas que extrapolam limites do poder diretivo do empregador, chegando a configurar assédio moral.

A estas estatísticas somem-se familiares e amigos que padecem com as vítimas, os impactos desta tragédia sobre o clima nas empresas (reflexo nos demais empregados, colegas de trabalho das vítimas) e a repercussão nos cofres públicos com o pagamento de benefícios previdenciários e os atendimentos destes pacientes na rede pública de saúde. Apesar disso tudo, pouco esforço efetivo se vê para reverter tão catastrófico quadro.

Byung-Chul Han, em sua clássica obra Sociedade do cansaço, constatou que a "paisagem patológica do começo do século XXI" é determinada por doenças como depressão, transtorno de déficit de atenção com síndrome de hiperatividade-TDAH, transtorno de personalidade limítrofe- TPL e síndrome de burnout, do inglês, burn (queima) out (exterior), que reflete completa exaustão (física e mental) decorrente do excesso de trabalho e, por isso, reconhecida em 2022 pela Organização Mundial de Saúde-OMS como doença ocupacional.

Em números brutos (alguns trabalhadores com mais de um afastamento), foram 141.414 afastamentos por ansiedade no País em 2024, 113.604 por depressão e 52.627 por depressão recorrente. Completam a estatística casos de transtorno bipolar, vício em drogas, alcoolismo, esquizofrenia, vício em cocaína, psicose, reação ao stress grave e transtornos de adaptação. A tragédia retratada requer ações urgentes.

(*) Jornalista, professor universitário e analista judiciário.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 23/04/25. Opinião. p.18.

terça-feira, 20 de maio de 2025

Novos médicos quase sem plantões e sem trabalho

Por Honório Bezerra Barbosa (*)

O ano de 2025 pode entrar para a história da medicina no Ceará, e em outros estados, como um marco em que médicos recém-formados encontram dificuldades para obter vaga no serviço público, particular e em plantões, que sempre foram a porta aberta de para esses profissionais.

Para os novos médicos, a frase repetida, por professores ou colegas formados, era "comece por plantões, já vai ganhando um dinheirinho", ou "Prefeituras do interior estão procurando médicos".

Quem recebeu o diploma em dezembro e em janeiro deste ano já encontrou realidade diferente, pelo menos no Centro-Sul e Sul cearenses. O programa Mais Médico, iniciativa do governo federal, promove seleção para os profissionais ocuparem vagas nas unidades básicas de saúde, limitando a tradicional indicação livre e política dos gestores.

No Brasil, cerca de 45 mil médicos são formados por ano e, no Ceará, a estimativa é de 1.100 profissionais em 19 faculdades, 15 delas no interior, revelando interiorização do ensino de Medicina, que até pouco tempo estava restrito a Fortaleza. E, mais posteriormente, aos dois núcleos urbanos mais desenvolvidos do sertão cearense, Sobral e Juazeiro do Norte.

A tendência de abertura de mais cursos de Medicina segue livre. É a busca do lucro por instituições mais empresariais do que educacionais. Resumo do quadro clínico: começa a sobrar médicos e faltam vagas. O remédio apontado é a busca de especialização, por meio de cursos de residência ou especialidades rápidas.

Na capital, essa realidade parece ocorrer há algum tempo, daí a explosão das chamadas clínicas populares, que não se limitam mais a psicólogos, enfermeiros, fisioterapeutas e dentistas.

No interior, as clínicas populares, em espaços de laboratórios ou em salas comerciais, começam a aparecer, com ofertas de exames e de consultas a preços diferenciados, em que pese a falta de qualidade na maioria das vezes.

A situação tende a piorar, porquanto falta ao Brasil uma política de temporariamente suspender ofertas de cursos universitários em que há nítido excesso de profissionais. Diagnóstico final: jovens desempregados, tristes, ansiosos, pais preocupados e todos angustiados.

(*) Jornalista e bacharel em Direito. Colunista de O Povo.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 19/04/25. Opinião. p.14.

quarta-feira, 4 de dezembro de 2024

A ENFERMAGEM PEDE SOCORRO!

Por Natana Pacheco (*)

Estamos enfrentando, mais uma vez, um aumento alarmante no número de pacientes com problemas respiratórios, incluindo casos de Covid-19. As novas variantes ainda são pouco conhecidas, e os sintomas são variados, o que torna o diagnóstico rápido e preciso um desafio constante.

Nesse cenário, a Enfermagem está na linha de frente, sendo a porta de entrada das instituições de saúde e, infelizmente, a primeira a receber as consequências de um sistema sobrecarregado: a insatisfação da população, a escassez de insumos e medicamentos, o dimensionamento inadequado e o peso de uma demanda crescente. Enquanto a população deseja ser cuidada, os profissionais de Enfermagem desejam, acima de tudo, cuidar com dignidade e respeito.

A falta de estrutura não afeta apenas os pacientes; ela impacta diretamente o emocional e o físico dos profissionais. Muitos trabalham em condições insalubres, enfrentando jornadas exaustivas e sem o suporte necessário. A pressão psicológica é imensa, agravada pela falta de reconhecimento e por situações de violência, que têm se tornado cada vez mais frequentes.

O Conselho tem identificado um aumento preocupante nos casos de agressões contra profissionais de Enfermagem. A sensação é de que estamos recebendo uma conta que não nos pertence. Estamos lutando para salvar vidas e oferecer assistência de qualidade, mas precisamos de apoio e respeito.

O que queremos é que a sociedade compreenda que estamos pedindo socorro. Faltam equipamentos, medicamentos e, em muitos casos, até o pagamento salarial está em atraso. A Enfermagem não pode continuar sendo ignorada. Precisamos de investimentos em infraestrutura, melhores condições de trabalho e políticas públicas que valorizem verdadeiramente os profissionais.

A Enfermagem está comprometida em cuidar da população. Agora, mais do que nunca, precisamos que todos se unam para garantir que tenhamos condições dignas de trabalho. Somente assim poderemos continuar cuidando de quem precisa. A valorização da Enfermagem é um compromisso de toda a sociedade.

(*) Enfermeira. Presidente do Coren-CE.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 4/12/2024. Opinião. p.18.


REFLEXÃO SOBRE O PAPEL DO SINDIODONTO

Por Raquel Praxedes (*)

No Ceará, existem hoje 11.759 cirurgiões-dentistas em atividade, contabilizando a proporção de um profissional para cada 747 habitantes. Esse número tem aumentado de forma exponencial devido à quantidade crescente de faculdades e nos faz refletir sobre a urgente necessidade de organização de uma categoria que já vem sofrendo os efeitos da precarização do trabalho, muitas vezes refletida na imensidão de cirurgiões-dentistas que se sentem lesados em seus direitos e não são remunerados dignamente.

Diante desse contexto, a direção do Sindiodonto vem desenvolvendo estratégias para promover a consciência dos profissionais sobre a importância da sindicalização e da participação direta nas decisões em assembleias e atividades promovidas.

Um sindicato tem como principal objetivo a defesa de uma coletividade e consiste em uma associação permanente de trabalhadores que se unem a partir da constatação de problemas e necessidades comuns. Infelizmente, essas entidades se deparam com a mesma dificuldade que também acomete o Sindiodonto: a maioria dos trabalhadores não compreende o seu verdadeiro papel.

Há cirurgiões-dentistas que desejam se filiar, mas não entendem os benefícios dessa filiação, visto que a temática é pouco explorada nas faculdades. Outros pensam que é só filiar, cruzar os braços e tudo estará resolvido. Há ainda aqueles que querem saber se terão direito a outros benefícios. O certo é que os principais motivos para um trabalhador se filiar ao seu sindicato são: união, segurança jurídica, reconhecimento e busca por valorização profissional. Os sindicatos têm grande importância na vida dos trabalhadores. Quando bem estruturados, podem proporcionar, através da participação ativa dos seus filiados, melhores condições de vida e de trabalho.

Em outubro, mês alusivo ao cirurgião-dentista, a direção do Sindiodonto lança o seu boletim bimestral, cujo objetivo é dialogar com os profissionais que ainda desconhecem suas atribuições e como funciona. Esse boletim é para os cirurgiões-dentistas que trabalham há anos sem receber o piso salarial, sem reajuste anual, sem plano de cargos, salários e carreiras, sem carteira assinada, sem condições de trabalho salubres e submetidos a diversas precarizações.

É tempo da categoria se unir em defesa dos interesses da nossa classe e valorização profissional!

(*) Cirurgiã-dentista. Diretora Geral do Sindiodonto-CE.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 31/10/2024. Opinião. p. 28.

quinta-feira, 10 de outubro de 2024

A IMPORTÂNCIA DO COOPERATIVISMO NA ORTOPEDIA

Por Leonardo Drumond (*)

No dia 19 de setembro, celebramos o Dia do Ortopedista, uma data que nos convida a refletir sobre o papel essencial dos profissionais de ortopedia na promoção da saúde musculoesquelética. No entanto, também é um momento oportuno para pensar sobre como podemos fortalecer a prática ortopédica e melhorar o atendimento à população. Como presidente da Cooperativa dos Médicos Traumatologistas e Ortopedistas do Ceará (Coomtoce), acredito que o caminho para esse fortalecimento passe pelo cooperativismo.

A ortopedia é uma área da medicina que exige uma abordagem multidisciplinar e coordenada para proporcionar o melhor cuidado aos pacientes. Precisamos de um sistema de saúde em que os ortopedistas tenham condições adequadas de trabalho, acesso a recursos atualizados, oportunidades de educação continuada e, sobretudo, uma estrutura que valorize o trabalho médico e permita que o foco seja sempre o paciente.

O cooperativismo, como modelo de gestão e organização, oferece uma alternativa valiosa em um cenário onde a saúde frequentemente é tratada como um negócio. A lógica cooperativa é baseada em valores como a solidariedade, a colaboração e a busca pelo bem comum. Em um contexto onde o setor privado visa o lucro e o setor público, muitas vezes, enfrenta dificuldades de financiamento e gestão, as cooperativas médicas se tornam um espaço de resistência e inovação na promoção de saúde de qualidade.

Na Coomtoce, temos trabalhado para criar um ambiente onde o ortopedista pode se desenvolver plenamente como profissional. Através do cooperativismo, promovemos a união de forças para negociar melhores condições de trabalho, assegurar um ambiente ético e transparente, e promover a constante atualização dos nossos cooperados. Ao trabalharmos juntos, conseguimos não apenas oferecer melhores condições para os ortopedistas, mas também impactar diretamente a qualidade do atendimento oferecido à população.

É fundamental reconhecer que o futuro da nossa especialidade depende da união de forças. Somente através da cooperação e do comprometimento com o bem comum podemos oferecer um atendimento de excelência, acessível e humanizado para toda a população. Este é o caminho que devemos seguir para fortalecer a ortopedia e garantir que ela continue evoluindo de forma sustentável e inclusiva.

(*) Médico. Presidente da Sociedade Brasileira de Ortopedia e Traumatologia (SBOT) – Regional Ceará.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 19/09/2024. Opinião. p.28.

 

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