Por Izabel Gurgel (*)
Hércules Modesto de Souza, escultor. Vi
primeiro o trabalho. Um presépio de madeira, com vinte e quatro figuras
sentadas, uma ao lado da outra, em um estreito e longo banco. Figuras e banco
miniaturizados, é um presépio de dupla anunciação. Além do nascimento do Menino
Deus, diz sem uma palavra, com a eloquência de uma promessa desejada e pronta
para acontecer: a brincadeira vai começar.
Simples como uma linha, e fecunda para
convocar a imaginação, a composição do Hércules é singular. Esculpidas uma a
uma na imburana, pela 'docilidade ao talho' a madeira preferida para a
xilogravura, as figuras estão prontinhas para entrar em cena. São seis anjos, a
sagrada família, três reis e pastores visitadores, burricos, camelos,
carneiros, vaca, boi e, o que deu mais trabalho, o galo, "difícil fazer um
galo sentado". Os bichos são os únicos que não têm pernas de "palitos
feitos de espeto de churrasco que vende em mercantil", mesmo material das
pernas do banco de maçaranduba e dos pinos que fixam cada peça no assento.
O presépio feito por Hércules Modesto
estava entre os quarenta e três feitos por mulheres e homens em arame, argila,
fibras vegetais, papel e pedra, dentre outros materiais, inscritos na edição
2025 do concurso anual realizado pela Ceart - Central de Artesanato do Ceará.
Estive outra vez no júri. Há anos vou ver a mostra na loja da Aldeota. E torço
para que a própria Ceart venha a constituir um acervo público.
"Nascido e criado em Juazeiro do
Norte", Hércules tinha 12 anos em 2000 quando foi levado pelo pai ao
Centro de Arte Popular Mestre Noza para acompanhar o trabalho de dois tios
maternos, Paulo Sérgio e Severino Silva de Souza. "No começo era só
brincadeira." Tornou-se iniciação no ofício.
A escola no Mestre Noza lhe proporcionou
mais encontros, e contínua aprendizagem na lida com a madeira. Cita Beto,
Adalberto Soares da Silva. Aprendeu a fazer o "monte de mulheres
juntas" com Diomar Freitas Dantas (1974-2019), o Diomar das Velhas, por
sua vez iniciado pelo mestre Nino (1220-2002). Se Zumbin, de batismo Cícero
Caetano Rodrigues, foi iniciado pelo irmão Raimundo Caetano Rodrigues, o Racar
(1966-2024), Hércules aprendeu com os dois. "A gente aprende com
tudim."
(*) Jornalista de O Povo.
Fonte: Publicado In: O Povo, de 7/12/25. Vida & Arte, p.2.

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