Por
Romeu Duarte Junior (*)
Tenho refletido muito sobre as
transformações do cotidiano. A vida tem se alterado numa velocidade estonteante
e, neste tropel, também os modos de se lidar com ela. O que até bem pouco tempo
era algo de uso corriqueiro, banal, até fundamental, já faz parte do rol de
detritos depositados na lata de lixo da existência. Incrível como é célere essa
substituição de coisas e procedimentos considerados superados por outros novos
e assim por diante. O celular recém-adquirido, mega-super-hiper potente, já, já
será trocado por outro mais danado, tal como estabelece a cruel lei capitalista
da obsolescência programada, a qual se estende até às relações humanas. Novas
formas de convívio social, novos costumes, novas modas entram e saem do radar a
todo instante. E agora, José?
Todo mundo hoje sabe cozinhar e
é expert em vinhos. O macharal, antes fora da cozinha e adepto da
cachaça, hoje, de dólmã, prepara e troca receitas finas e fala de tons de
frutas cítricas e notas de tabaco para colocar no Instagram. De outra parte,
ninguém quer saber mais de atender telefone. Sofro com o meu peba para me
comunicar com alguém, já que o zap solicito apenas à corriola listada e os
muitos golpes telefônicos impedem o contato. Como a sensibilidade hoje é muito
mais imagética do que literária, ninguém lê mais e tome o adjetivo "textão"
para todo e qualquer escrito que ultrapasse dez linhas. Se há o tal streaming,
por que ir ao cinema, cujo ingresso é caro e suas comidinhas idem? Há quem
ainda redija cartas, use cartão de apresentação, telefone fixo? Escreva à mão?
Atônito, analógico e cada vez mais
paranoico, sinto-me como a próxima vítima desse complô cibernético. A
informática e a sua filha mais nova, a impiedosa IA, já assassinaram muitas
coisas e agora se organizam para dar conta do gênero humano. Nada contra um
sistema digital realizar tarefas repetitivas e por isso cansativas para liberar
o homem de tais chatos afazeres. O problema reside no fato de estarmos sendo
gradativamente substituídos por máquinas que tomam o nosso trabalho e o bendito
sistema não ter qualquer responsabilidade quanto ao nosso reposicionamento no
mercado e na vida. Somos tão somente eliminados por esse algoritmo ideal
do capitalismo, que só deseja lucro máximo e zero pagamento. Isso se
dá desde os luditas do século XIX aos trocadores de ônibus.
E o romance em tempos de aplicativo, por
quais mudanças tem passado? Lembro do Gil dizendo em sua canção "Lunik
9" "poetas, seresteiros, namorados, correi; É chegada a hora de
escrever e cantar; talvez as derradeiras noites de luar", quiçá temeroso
de que o satélite soviético atrapalhasse as escaramuças dos amantes. Também foi
o mesmo Gil que compôs "Parabolicamará": "Antes o mundo era
pequeno; porque a Terra era grande; Hoje o mundo é muito grande; porque a Terra
é pequena; do tamanho da antena". Não, não sou saudosista nem refém do
passado, apenas alguém preocupado com o veloz andamento do tempo, que não
espera por ninguém, e sabedor, sem qualquer deslumbre, de que a ciência e a
tecnologia não são neutras nem redentoras. Apenas observo...
(*) Arquiteto e
professor da UFC. Sócio do Instituto do Ceará. Colunista de O Povo.
Fonte: Publicado In: O Povo, de 19/01/26. Vida & Arte. p.2.

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