Na minha época era só um lesado
Dr.
Chico Mamão, colega do Grupo Escolar Gustavo Barroso - bairro de São Gerardo,
final dos anos 1960. Pense num menino "avoado", tipo desligadão de
tudo, se abrindo pro tempo, "obrando e andando pra não fazer ruma"...
Ele me conta, em síntese - via zap, novidade deveras valendo, nos tempos
atuais.
-
Jornalista, de repente eu me deparo com uma ruma de gente se descobrindo
portadora de condições como Transtorno do Espectro Autista (TEA), TDAH,
dislexia e tal e coisa. Do nada, um povo se dizendo neurodivergente.
Eu,
confabulando comigo mesmo ealguns botões...
-
Na verdade, Mamãozim! Tudo isso são "variações naturais do funcionamento
cerebral humano", não são falhas. E se havia ontem, muito mais se observa
presentemente. São amores nossos!
-
É vero! Minha filha, médica, assume na boa que tem déficit de aprendizagem.
Bacana!
-
Isso é fruto da maior conscientização e aceitação social! Legal! E tu?
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Eu? Na idade dos meus 12 pros 13 anos, pelo jeitão de ser, eu era só um lesado
véi!
Sonhou que era um vulcão...
Leontino
Camiranga, guardem esse nome, acordou no meio da madrugada aos gritos. Pesadelo
brabo. A mulher quem o despertou do "sonho vívido e perturbador", ao
assistir ao desespero monossilábico do marido, trêmulo e suando em bicas.
-
León!!! León!!! Acorda!!!
-
Ham! Ham! Ham!... Medo, Jandira!!! Medo!!!
-
Medo de que, homem?!?
-
Medo, Jandira!!! Medo!!!
-
De avião?!?
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Não, Jandira!!! Medo!!!
-
Medo de que, criatura de Deus?!?!?!?
-
Medo de peidar, Jandira!!!
-
Ah! Passou, passou, passou...
Levantaram-se,
higienizaram as partes, trocaram de roupa. Estão tomando café. Na mesa, um
Leontino de olhar esgazeado, como se no mundo da lua. Algo a lhe doer muito -
tal a densidade do sonho penoso de há pouco. Como se fosse provocar. Jandira
analisa.
-
Tá normal não, o meu véi! Tonha (filha deles), vá ao quintal do Zé Expedito e
pegue cidreira, capim santo e alfavaca!
-
Um peso, Jandira!!! Um peso!!! - murmurou Camiranga, em risco de desabar.
-
Num falei, Tonha! Tá zuruó do juízo o meu esposo!
-
Um peso, Jandira!!! Um peso!!! - continuou Leontino.
-
Na consciência?!?
-
Nos meus eggs!!!
Feita a comparação implícita...
Na
casa de cumade Eurídice, professora prática de Português da única escola da
comunidade. 11 da manhã e o menino mais novo dela reclama-se da dor que somente
uma pratada de feijão com toicim pode aplacar.
-
Tô com fome, mãe!
-
Tem paciência, José!
-
Mas eu tô com fome, mãezinha! Bucho colado no espinhaço...
-
Filho, a fome é uma metáfora!
-
Pois cozinhe uma pra mim... E bote uma coisinha de farinha por cima!
-
Tá bom, José! Tá bom! Vou fazer um escondidinho de carne de sol pra você.
-
Não, mãe! Me dê um dicumê que eu não precise procurar!
Fonte: O POVO, de 16/01/2026. Coluna “Crônicas”, de Tarcísio Matos. p.2.

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