Por Emanuel
Freitas da Silva (*)
A instrumentalização do campo evangélico
pelo bolsonarismo encontra algumas vozes dissidentes, que se expressam tanto no
mercado editorial (vide as obras “E a verdade vos libertará”, de Ricardo
Alexandre, e “Igreja Polarizada”, de Gutierres Siqueira) como nos púlpitos das
igrejas e dos parlamentos.
Nestes, destacam-se o deputado federal
Otoni de Paula (MDB-RJ) e o nosso estadual Apóstolo Luiz Henrique (REP).
Otoni tem sido a voz evangélica nacional
mais estridente contra a captura das igrejas pelos próceres do bolsonarismo,
incluindo, em suas críticas, Silas Malafaia.
Na sua empreitada para desvencilhar a fé
cristã (evangélica) das amarras do bolsonarismo, o deputado chegou a um
ponto muito interessante no último dia 29/01, em vídeo postado em suas redes,
ao lembrar que a “manipulação” e “o engano” de pastores teriam sido “tão
grandes” que os levou a fechar os olhos ao ato de “consagração do Brasil a Nossa
Senhora” pelo ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), em vez de terem denunciado “o
pecado da idolatria” cometido pelo “Messias”.
O leitor não entendeu? Explico: o
deputado lembrou a seus irmãos de fé aquilo que se diz, diuturnamente, em
muitos templos evangélicos desde a reforma protestante, ou seja, que católicos
praticam “idolatria” ao “adorarem imagens” de Jesus, Maria, dos santos e dos
anjos; tal “pecado”, como se dizem nas pregações evangélicas, não leva à
salvação. Como, pois, denunciar o que faz um fiel católico e se calar diante de
idolatria maior cometida pelo presidente que os evangélicos apontam como
“cristão”?
Quem circula por ambientes católicos
também escuta a exclusão de evangélicos do “reino” de Cristo, para onde alguns
poucos irão. Carismáticos nomeiam como “falsas doutrinas” toda e qualquer
denominação que não seja a própria Igreja, pois só esta tem “as chaves do céu”;
o mesmo pode se ouvir nas pregações dos “tradicionalistas”, ambos animados pelo
conteúdo da Declaração Dominus Iesus, assinada no ano 2000 por João Paulo II –
“fora da Igreja Católica não há salvação”.
Mas, no Brasil vemos o milagre da união
dos tidos como “idolatras”, por uns, com os tidos seguidores das “falsas
doutrinas”, por outros, que põem fim às diferenças em nome da causa do
“Messias”.
(*) Professor adjunto
de teoria política da Uece/Facedi.
Fonte: Publicado In: O Povo, de 4/02/26.
Opinião. p.14.

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