Por
Izabel Gurgel (*)
Aíla faz labirinto com a malha bem fina.
Bordado rendado ou renda bordada, ofício de agulha e linha, o labirinto refaz
um tecido previamente desfiado. O desfiado segue o risco do desenho a ser
executado. E o corte correspondente, resultando na "malha, na trama".
Aíla conhece todas as etapas do trabalho. "Não sou boa de risco. O corte,
não é toda pessoa que faz. Corto reto, mas não corto enviesado. A Prainha do
Canto Verde tem três cortadeiras". Aíla aprendeu com a mãe, Francisca. Órfã
desde cedo, dona Francisca aprendeu com a avó materna, dona Júlia, que foi sua
mãe.
Aíla Maria da Silva Fernandes tem 62 anos.
Dona Francisca Pereira da Silva, 86, segue fazendo labirinto. O trancelim do
aprender e ensinar, a transmissão, no caso das duas, nomeia-se em cinco
gerações. Aíla se enche de graça ao citar a filha labirinteira. "Tem coisa
que Jaíla faz até melhor do que eu". Jaíla tem 32 anos. Casada, mora na
vizinha Sucatinga. Os dois lugares ficam em Beberibe, limite da região
metropolitana de Fortaleza no litoral leste.
A malha bem fina resulta no labirinto mais
perto das filigranas de uma joia. Quem viu peças embaladas, percebe o trabalho
de minúcias, que nos fez pensar no silêncio sinônimo de acolhimento de enxovais
de bebê com bordados mínimos, o gesto do cuidar e do cultivo de uma calmaria
necessária, invocada, quase impossível para os dias de sobrecarga de uma mãe.
Ouvi de mulheres labirinteiras, em outras
praias do Ceará: o mar tem seca. A pesca artesanal tem período de paradeiro.
Faz-se labirinto o ano todo. Nosso entendimento do trabalho das mulheres como
complementação da renda familiar talvez seja equivocado. É sustento não só da
casa, da família. Sustenta o mundo, sabemos.
Aprendemos a dizer e ver e reproduzir vila
de pescadores e, mesmo sabendo que onde tem pesca (tem rede) tem renda, nunca
dizemos vila de rendeiras. Equivocado como associar o fazer renda apenas à zona
de praia. Um dos registros mais antigos de ensino da renda no Ceará data de
1760 e se refere à escola em vilas indígenas, ação jesuítica, desde a atual
Viçosa, na Ibiapaba.
"Aprendi com a minha mãe. Amava ver
minha tia e avó fazendo, lavando, colocando no grude", conta Jaíla. Aíla
se reporta às oficinas que ministrou na escola, a filha por perto. Escuto, uma
vez mais, Aíla dizer das etapas do labirinto: riscar (antes com lápis, hoje usa
uma caneta cuja tinta se apaga quando a peça é passada a ferro), cortar,
desfiar, encher, torcer, casear, fazer o paletão, o acabamento/recortar, lavar
com grude de goma para, literalmente, engomar quando passar a ferro.
Um contundente mapa dos cearás do Ceará
pode ser fiado no algodão, no linho, na seda, em caminhos cruzados,
entrelaçados, riscando diminutos e vastos territórios. De mãos sempre ocupadas
e olhos a cuidar das crianças no terreiro, do plantio de quintal, do fogo da
casa, as mulheres tratam de nascimentos e mortes e de quase tudo que acontece
no intervalo entre um e outro.
(*) Jornalista de O Povo.
Fonte: Publicado In: O Povo, de 10/05/26. Vida & Arte, p.2.

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