segunda-feira, 15 de junho de 2026

Mães no labirinto da Prainha do Canto Verde

Por Izabel Gurgel (*)

Aíla faz labirinto com a malha bem fina. Bordado rendado ou renda bordada, ofício de agulha e linha, o labirinto refaz um tecido previamente desfiado. O desfiado segue o risco do desenho a ser executado. E o corte correspondente, resultando na "malha, na trama". Aíla conhece todas as etapas do trabalho. "Não sou boa de risco. O corte, não é toda pessoa que faz. Corto reto, mas não corto enviesado. A Prainha do Canto Verde tem três cortadeiras". Aíla aprendeu com a mãe, Francisca. Órfã desde cedo, dona Francisca aprendeu com a avó materna, dona Júlia, que foi sua mãe.

Aíla Maria da Silva Fernandes tem 62 anos. Dona Francisca Pereira da Silva, 86, segue fazendo labirinto. O trancelim do aprender e ensinar, a transmissão, no caso das duas, nomeia-se em cinco gerações. Aíla se enche de graça ao citar a filha labirinteira. "Tem coisa que Jaíla faz até melhor do que eu". Jaíla tem 32 anos. Casada, mora na vizinha Sucatinga. Os dois lugares ficam em Beberibe, limite da região metropolitana de Fortaleza no litoral leste.

A malha bem fina resulta no labirinto mais perto das filigranas de uma joia. Quem viu peças embaladas, percebe o trabalho de minúcias, que nos fez pensar no silêncio sinônimo de acolhimento de enxovais de bebê com bordados mínimos, o gesto do cuidar e do cultivo de uma calmaria necessária, invocada, quase impossível para os dias de sobrecarga de uma mãe.

Ouvi de mulheres labirinteiras, em outras praias do Ceará: o mar tem seca. A pesca artesanal tem período de paradeiro. Faz-se labirinto o ano todo. Nosso entendimento do trabalho das mulheres como complementação da renda familiar talvez seja equivocado. É sustento não só da casa, da família. Sustenta o mundo, sabemos.

Aprendemos a dizer e ver e reproduzir vila de pescadores e, mesmo sabendo que onde tem pesca (tem rede) tem renda, nunca dizemos vila de rendeiras. Equivocado como associar o fazer renda apenas à zona de praia. Um dos registros mais antigos de ensino da renda no Ceará data de 1760 e se refere à escola em vilas indígenas, ação jesuítica, desde a atual Viçosa, na Ibiapaba.

"Aprendi com a minha mãe. Amava ver minha tia e avó fazendo, lavando, colocando no grude", conta Jaíla. Aíla se reporta às oficinas que ministrou na escola, a filha por perto. Escuto, uma vez mais, Aíla dizer das etapas do labirinto: riscar (antes com lápis, hoje usa uma caneta cuja tinta se apaga quando a peça é passada a ferro), cortar, desfiar, encher, torcer, casear, fazer o paletão, o acabamento/recortar, lavar com grude de goma para, literalmente, engomar quando passar a ferro.

Um contundente mapa dos cearás do Ceará pode ser fiado no algodão, no linho, na seda, em caminhos cruzados, entrelaçados, riscando diminutos e vastos territórios. De mãos sempre ocupadas e olhos a cuidar das crianças no terreiro, do plantio de quintal, do fogo da casa, as mulheres tratam de nascimentos e mortes e de quase tudo que acontece no intervalo entre um e outro.

(*) Jornalista de O Povo.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 10/05/26. Vida & Arte, p.2.


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