domingo, 9 de agosto de 2026

ENFERMAGEM: mudanças na formação e luta pela valorização I

Por Ana Rute Ramires, Ana Sá e Samuel Setúbal

Categoria hegemônica na Saúde, enfermagem ainda luta por valorização plena. Enfermeiros, técnicos e auxiliares enfrentam sobrecarga física e mental

Maior força de trabalho da Saúde no Brasil, os profissionais de enfermagem ainda lutam por valorização. O Piso Salarial Nacional da categoria, estabelecido pela Lei nº 14.434 apenas em 2022, após três décadas de mobilização, foi uma conquista importante para corrigir distorções históricas e garantir dignidade aos trabalhadores. Mas ainda não é realidade para todos.

A conquista do piso da categoria deveria ter sido o ponto de virada. No entanto, a implementação integral da lei tornou-se uma batalha judicial e administrativa.

"Observam-se tentativas de reduzir o impacto financeiro da medida com flexibilização de vínculos, da pejotização, da terceirização excessiva, da contratação intermitente ou da fragmentação das jornadas de trabalho, sobretudo no setor privado", afirma Jacinta Fátima Sena da Silva, presidenta da Associação Brasileira de Enfermagem (Aben).

Quintino Neto, presidente Sindicato dos Empregados em Estabelecimentos de Serviços de Saúde do Ceará (Sindsaúde/CE), afirma que, após a aprovação da Lei, a decisão do STF acabou "desconfigurando" diversos aspectos da conquista. "Ao permitir condicionantes para sua implementação, abriu espaço para interpretações que vêm sendo utilizadas por parte dos empregadores para reduzir o alcance da própria lei", critica.

O Sindsaúde representa os trabalhadores e trabalhadoras de nível médio e técnico que atuam na Saúde, como os técnicos e auxiliares de enfermagem.

Nesse contexto, outro ponto crítico é a ascensão das chamadas "falsas cooperativas". Entidades que, segundo Quintino, são utilizadas para "mascarar vínculos empregatícios e retirar direitos fundamentais".

De acordo com Natana Pacheco, presidente do Conselho Regional de Enfermagem do Ceará (Coren-CE), essa prática também é prejudicial quando ocorre dentro de espaços públicos por meio de contratos de terceirização, pois impede que o profissional receba a assistência financeira complementar da União.

Além dessas estratégias, a categoria enfrenta disputa jurídica no Supremo Tribunal Federal. O setor privado ingressou com Ação Direta de Inconstitucionalidade (ADI) 7222 que questiona a constitucionalidade da Lei do Piso Salarial Nacional da Enfermagem (Lei nº 14.434/2022).

A presidenta da Aben, Jacinta Fátima Sena da Silva, defende que "não pode haver dois pesos e duas medidas". "Trabalhadoras (es) dos setores públicos e privados realizam o mesmo trabalho e devem ter os mesmos direitos. Não é coerente que trabalhadoras (es) celetistas precisem negociar com seus patrões para ter seus direitos garantidos. A Lei deve ser cumprida", pontua. Ela considera "inaceitável" que o setor privado alegue não ter condições de pagar salários justos.

Para mudar este cenário de precarização, as entidades de classe apostam em novos avanços legislativos. A Proposta de Emenda à Constituição (PEC) 19 surge como uma solução para corrigir distorções, garantindo que o reajuste do piso seja anual e vinculado a uma jornada de 36 horas semanais, evitando que a inflação corroa o poder de compra.

Natana Pacheco, presidente do Coren-CE, reforça que a aprovação dessa PEC, somada à histórica luta pelas 30 horas semanais, traria a segurança jurídica necessária para que o profissional possa optar por menos vínculos sem comprometer sua renda. No setor público, segundo ela, a urgência é o reajuste da assistência financeira complementar da União, que está congelada há quase quatro anos.

O POVO buscou entidades que representam hospitais e planos de saúde para resposta sobre os pontos levantados por conselhos e sindicados da enfermagem. A Associação Brasileira de Planos de Saúde (Abramge) respondeu que não iria se pronunciar nesta pauta. A Federação Nacional de Saúde Suplementar (FenaSaúde) indicou buscar "representantes das redes hospitalares".

A Associação Nacional de Hospitais Privados (Anap) não deu retorno após tentativa de contato por e-mail e WhatsApp. A Federação Brasileira de Hospitais (FBH) e a Associação de Hospitais do Estado do Ceará (AHECE) não responderam após tentativas de contato por e-mail e ligação.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 12/07/26. Caderno Ciência & Saúde. p. 16-18.


sábado, 8 de agosto de 2026

CIÊNCIA DO CUIDAR: A enfermagem na alta complexidade III

Por Ana Rute Ramires, Ana Sá e Samuel Setúbal

De Nightingale ao piso salarial: uma trajetória centenária

1853-1856. Durante a Guerra da Crimeia, a britânica Florence Nightingale institui regras sanitárias e estatísticas, criando o marco fundante da enfermagem moderna. À ela é outorgada o título de fundadora da enfermagem mundial.

1860. Nightingale fundou a primeira escola de enfermagem do mundo, em Londres, transformando a enfermagem em ciência.

1890. No Brasil, é fundada a primeira Escola de Enfermagem, chamada Alfredo Pinto,
no Rio de Janeiro.

1923. É criada a Escola de Enfermagem Anna Nery — figura emblemática na história da enfermagem brasileira, principalmente pela atuação na Guerra do Paraguai.

1926. A Associação Brasileira de Enfermagem (Aben) é criada, denominada anteriormente denominada de Associação Nacional de Enfermeiras Diplomadas (Aned).

1955. A profissão da enfermagem é regulamentada (Lei nº 604), assegurando território profissional, exclusividade do exercício para a categoria no País, o que exigirá diploma e registro profissional para o exercício legal da profissão.

1973. É criado o Conselho Federal de Enfermagem.

1986. Lei do Exercício Profissional (1986) e seu decreto regulamentador (1987) atualizam a norma de 1955, traz modernização e divide a categoria formalmente em níveis de formação.

1987. É fundada a entidade sindical nacional: Federação Nacional dos Enfermeiros.

2022. Lei n.º 14.434, institui o Piso Salarial Nacional para enfermeiros, técnicos, auxiliares de enfermagem e parteiras.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 5/07/26. Caderno Ciência & Saúde. p. 13-14.

CIÊNCIA DO CUIDAR: A enfermagem na alta complexidade II

Por Ana Rute Ramires, Ana Sá e Samuel Setúbal

Força de trabalho no Brasil é feminina

Segundo o Conselho Federal de Enfermagem (Cofen), 87% da força de trabalho na enfermagem brasileira é de mulheres.

"Enfermagem é feminina, com traços de uma força de trabalho jovem em sua maioria, hegemônica na Saúde e que se constitui como equipe profissional que atua em harmonia e competência em todo o território nacional", analisa Maria Helena Machado, pesquisadora da Escola Nacional de Saúde Pública da Fundação Oswaldo Cruz (ENSP/Fiocruz).

Cientista social e doutora em Sociologia, ela coordenou a pesquisa nacional intitulada "O perfil da Enfermagem no Brasil" (Fiocruz-Cofen, 2017).

A maioria feminina na enfermagem se mantém seja na categoria de enfermeira(o), seja entre os técnicos e auxiliares de enfermagem, chegando a mais de 80%, já constatado na pesquisa.

A pesquisadora acrescenta que a categoria está presente em todas as regiões geográficas do País, com mais de três milhões de profissionais.

A ciência do cuidado: humanismo, observação, protocolos rígidos e decisões rápidas

Em meio à explosão na demanda por profissionais especializados durante a pandemia de Covid-19, a missão chamou a enfermeira Ana Lívia Girão, que à época atuava em sala de aula, de volta para as UTIs. Em um momento de incertezas e medos, ela retornou à linha de frente da terapia intensiva.

"Eu me sentia muito mal de estar ensinando para os meus alunos uma coisa que eu não estava mais colocando em prática. E estava tendo a demanda de profissionais especializados na área", relata Ana Lívia, doutora em Cuidados Clínicos em Saúde e coordenadora de enfermagem de terapia intensiva do Instituto Dr. José Frota (IJF), em Fortaleza.

No cenário de caos vivenciado durante a pandemia, a enfermagem liderou a montagem de leitos, o dimensionamento de pessoal e a gestão de equipamentos vitais nas unidades de saúde, provando ser um pilar de sustentação.

O diagnóstico de enfermagem foca nos cuidados necessários para o restabelecimento do paciente. Jéssica Benevides, doutora em Enfermagem e coordenadora de enfermagem de terapia intensiva no IJF, detalha que a autonomia da enfermagem no processo de saúde manifesta-se através do Processo de Enfermagem.

O método científico, conforme a profissional, é dividido em cinco etapas: histórico (coleta de dados para entender o estado do paciente), diagnóstico (identificação das necessidades de cuidado), planejamento (elaboração do que será feito com base nas prioridades elencadas), implementação (execução das ações planejadas) e reavaliação (análise contínua dos resultados para ajustar o ciclo de cuidado conforme a evolução do paciente).

Enquanto outras categorias passam pelo leito em momentos específicos, a equipe de enfermagem permanece 24 horas ao lado do paciente, o que permite identificar precocemente alterações clínicas. Jéssica e Ana Lívia explicam que a equipe de enfermagem é treinada para perceber alterações clínicas (como desorientação ou queda de débito urinário) antes que uma parada cardiorrespiratória ocorra, agindo preventivamente.

Também cabe à enfermagem decidir prioridades clínicas, gerenciar recursos escassos e tomar decisões autônomas, como definir qual paciente necessita de monitoramento mais intensivo em um cenário de alta demanda.

Jéssica Benevides frisa que a atuação da enfermagem é feita em parceria e diálogo com as demais profissões, sempre com o intuito de atingir o mesmo objetivo: o bem-estar e a evolução clínica do paciente.

As coordenadoras destacam que essa atuação científica é aliada a um olhar humanizado, que enxerga o paciente não apenas como um diagnóstico de trauma, por exemplo, mas como o pai ou filho de alguém, integrando a técnica à sensibilidade necessária para cuidar de quem está em vulnerabilidade.

Para as profissionais, o momento de fechar unidades de terapia intensiva após passado o período crítico da Covid-19 foi marcante. "No dia que a gente foi fechar mesmo [a unidade], que olhou um pro outro assim mesmo sem nem a gente se conhecer direito. A gente não conhecia as pessoas direito porque era todo mundo todo coberto... Olhou um pro outro como se dissesse assim: 'Obrigada, a gente conseguiu'", compartilha.

A segunda reportagem da série "Enfermagem: a espinha dorsal da saúde" abordará a formação profissional e a luta por valorização da categoria.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 5/07/26. Caderno Ciência & Saúde. p. 13-14.


CIÊNCIA DO CUIDAR: A enfermagem na alta complexidade I

Por Ana Rute Ramires, Ana Sá e Samuel Setúbal

|CARTOLA | A ciência do cuidado é a espinha dorsal da saúde, com mais de 3 milhões de profissionais no Brasil. Na alta complexidade, a atuação é estratégica

Uma linha de frente por muito tempo invisibilizada, mas cuja atuação no suporte à saúde sempre definiu a diferença entre a vida e a morte. Ainda no século XIX, a fundadora da enfermagem moderna, Florence Nightingale (1820-1910), ensinou: "Existe cuidado sem cura, mas não existe cura sem cuidado".

A ciência do cuidado guia a atuação de mais de três milhões de profissionais atualmente no Brasil, entre enfermeiros (837.636), técnicos (1.935.341) e auxiliares (264.283), conforme dados do Conselho Federal de Enfermagem (Cofen). A categoria hegemônica é a espinha dorsal do Sistema Único de Saúde (SUS), coordenando fluxos e garantindo a segurança assistencial.

Tudo começou no século XIX, na Guerra da Crimeia, quando Florence Nightingale, considerada fundadora da enfermagem mundial, aplicou práticas de higiene que salvaram milhares de vidas. De lá pra cá, a categoria se organizou e, baseada em evidências científicas, definiu protocolos rígidos, se consolidando com uma atuação estratégica em áreas como a alta complexidade.

Helga Regina Bresciani, segunda-secretária do Cofen, detalha que a enfermagem atua como um pilar estratégico e de suporte à vida. Ela salienta que a autonomia profissional é baseada em evidências científicas e que o enfermeiro exerce funções de planejamento, gestão e tomada de decisão crítica.

"A enfermagem cuida das pessoas em suas necessidades. Então, nós estamos em todas as áreas da saúde, na atenção primária, na média complexidade, na alta complexidade, em consultórios de enfermagem, em trabalhos no pré-hospitalar, nas emergências", cita.

A secretária do Cofen destaca que, na alta complexidade, o enfermeiro é responsável por gerenciar tecnologias duras, como ventiladores mecânicos e sistemas de circulação extracorpórea, além de monitorar ininterruptamente os sinais vitais do paciente crítico.

"A ciência da saúde, a ciência de enfermagem, ela evolui muito rapidamente... a enfermagem ao longo dos anos acompanha essa evolução em suas capacitações, na educação permanente, na formação", afirma.

A prática da enfermagem é regida por normas rígidas e resoluções do Cofen, que garantem que procedimentos complexos, como o uso de ultrassom à beira leito para punções e a prescrição de medicamentos em protocolos institucionais, sejam realizados com segurança e respaldo legal.

Maria Helena Machado, pesquisadora da Escola Nacional de Saúde Pública da Fundação Oswaldo Cruz (ENSP/Fiocruz), explica que a autonomia profissional da enfermagem "advém da base cognitiva de conhecimento (teórico e prático)" que os profissionais adquirem na sua formação profissional básica e é aprofundada na pós-formação.

Portanto, segundo ela, "a autonomia profissional advém fortemente na capacidade que cada profissão tem de responder às demandas e desafios que o processo de trabalho exige no cotidiano do mundo do trabalho".

"A enfermagem faz parte dessas profissões que adquiriu, ao longo de sua existência, essa base cognitiva que lhe assegura autonomia plena em suas ações, emanando para sua equipe técnica (técnicos e auxiliares de enfermagem) orientações e direcionamento para suas atividades no cotidiano do trabalho", afirma a pesquisadora.

A responsabilidade de salvar vidas diariamente, contudo, contrasta com a luta histórica pela efetivação do piso salarial e por condições dignas de trabalho. "Se você fosse perguntar a valorização financeira, a gente não é valorizada. Nós estamos vendo pela dificuldade que a gente tem de implantar o piso básico para a profissão", critica Helga Bresciani, do Cofen.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 5/07/26. Caderno Ciência & Saúde. p. 13-14.


sexta-feira, 7 de agosto de 2026

FOLCLORE POLÍTICO: Porandubas 726

Abro a coluna com uma fábula.

Em cinco anos, tudo pode ocorrer

Um poderoso sultão, sábio entre os sábios, possuía um camelo muito inteligente. Obedecia a todas as ordens que nem precisavam ser emitidas de viva voz. Faltava-lhe apenas o dom da palavra. Esse detalhe entristecia sobremaneira o sultão. Um dia, decidiu convocar o Grande Conselho e chamou o grão-vizir.

- Quero que ensine meu camelo a falar!

- Mas isso é impossível.

- Cortem a cabeça dele! Tragam-me o adjunto!

Mesma afirmação de desejo sultanesco, mesma resposta, mesma sentença. A cena repetiu-se diversas vezes e cabeças rolaram. Exasperado o sultão declarou.

- Aquele que ensinar meu camelo a falar será meu grão-vizir.

Silêncio! O sultão repetiu a exortação. Eis que surgiu um humilde ajudante de cozinheiro. Disse:

-Dá-me, ó incomparável senhor, um prazo de cinco anos, e farei falar teu camelo.

Estupefação geral. Seguida do cumprimento da promessa.

-Doravante, és meu grão-vizir! Mas se falhares, sabes o que te espera!

- Bem sei!

Encantado, o jovem fez profunda reverência e saiu correndo para dar a boa notícia à esposa.

- Infeliz, acabas de assinar tua condenação.

- Não é bem assim, meu bem. Pedi cinco anos. Você sabe que muitas coisas poderão acontecer em cinco anos: morre o camelo, morre o sultão...

(Fábula enviada pelo atento Alexandru Solomon). Nada a ver com as próximas eleições.

Fonte: Gaudêncio Torquato (GT Marketing Comunicação).

https://www.migalhas.com.br/coluna/porandubas-politicas/349194/porandubas-n-726


quinta-feira, 6 de agosto de 2026

PEDRO, A ROCHA

Por Pedro Bezerra de Araújo – Pierre Nadie

No pátio de Caifás, Pedro negou Jesus,

Mas, reconheceu sua divindade,

Quando, categórico, com lucidez, afirmou:

Tu és o Cristo, o Filho de Deus Vivo.

 

Esta profissão de fé

Não o fez o mais amado,

Porém, o mais fiel e confiável,

Mais que Tomé, Tiago e João.

 

A Pedro tornou rocha da Igreja,

Deu-lhe as chaves do Céu,

Ordenou-lhe confirmar os irmãos,

Na fé, que lhes tinha ensinado.

 

A Igreja é de Cristo,

Pedro, seu fiel servidor.

Os princípios da Igreja

Foi Jesus quem implantou.

 

Pedro recebeu o poder:

Ligar ou desligar na terra

Será sancionado no céu.

Uma advertência Jesus lhe deu,

 

Ninguém pode a(dul)lterar,

O que Deus escreveu.

Sua Palavra é eterna,

Sabedoria e salvação dos povos.

"Mas, ainda que nós mesmos ou um anjo do céu vos anuncie outro evangelho além do que já vos tenho anunciado, seja anátema. Assim, como já vo-lo dissemos, agora de novo também vo-lo digo. Se alguém vos anunciar outro evangelho além do que já recebestes, seja anátema." (Gal 1, 8-9)

Um bom domingo, com as bênçãos de Deus!!!

(*) Pediatra e professor da Uece aposentado. Enviado por WhatsApp em 28/06/26.


Praça Luiza Távora: um pedaço de cidade sem sorte

Por Romeu Duarte Junior (*)

Como se dizia antigamente no saudoso Pasquim, meninos, eu vi! Vi com estes olhos que a terra há de comer um dia. Foi com assombro e êxtase que dei com ele pela primeira vez. Já abandonado, esvaziado dos seus moradores, o mato crescendo à volta, os palacetes fechados, em meio a um dos locais mais belos da Aldeota onde os oitizeiros dão-se os galhos num abraço de sombra e afeto. Sim, caras e caros, estou falando do Castelo do Plácido, obra monumental que o seu dono mandara projetar pelo maior arquiteto do Ceará    de todos os tempos, João Sabóia Barbosa, para agradar sua esposa italiana. Em 1974, um grupo empresarial comprou e demoliu o edifício para no terreno construir um centro comercial. Talvez por maldição, quebrou que apartou. Os palacetes restaram lá.

Ednardo, o grande cantor de Fortaleza, nos embalou com a bela "Longarinas" logo após a perda do palácio: "E a lua viu desconfiada; a noiva do sol com mais um supermercado; era uma vez o meu castelo entre mangueiras; e jasmins florados; e o mar engolindo lindo; e o mal engolindo rindo". Algum tempo depois, alguém teve a bela ideia de implantar na praça criada um centro de exposição e comercialização do artesanato cearense. Confiou-se o projeto ao engenheiro Pedro Natale Rossi, sobrinho da proprietária original e famoso pelas casas que então projetava e construía. No projeto que elaborou, usou carnaúba, concreto, alvenaria e telha de barro. Talvez porque foi retirada a casca dos troncos da palmeira, a estrutura colapsou, o que fez com que a obra fosse demolida. Triste.

Súbito, chega-me a infausta notícia de que o Metrofor interditará a praça por dois anos e meio para a construção de uma estação metroviária subterrânea, cuja implantação importará na escavação de uma vala de 38 metros de profundidade com diâmetro de mesma dimensão, o que fará com que seja suprimida boa parte da arborização. Pergunta-se: a central de artesanato e os palacetes serão também afetados pelo impiedoso tatuzão? Mais uma indagação: Fortaleza tem um metrô ou é o metrô que manda na cidade? Será que não há alternativas para a solução do problema de engenharia? Acode-me Roberto Carlos, o Rei: "Não sou contra o progresso, mas apelo pro bom senso". Depois da tragédia de Parangaba, mais essa. Será que o Ednardo vai ter que fazer mais uma canção?

(*) Arquiteto e professor da UFC. Sócio do Instituto do Ceará. Colunista de O Povo.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 6/07/26. Vida & Arte. p.2.


 

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