Por Ana Rute Ramires, Ana Sá e Samuel Setúbal
Categoria sente maior valorização
simbólica, mas não financeira
Durante a pandemia de Covid-19, a população
reconheceu de forma mais clara o papel de enfermeiras, enfermeiros, técnicas,
técnicos e auxiliares de enfermagem na sustentação dos sistemas de saúde. A
categoria foi elevada ao status de heroísmo por atuar sob risco constante.
Contudo, o reconhecimento social não se
traduziu em estabilidade financeira. Para uma parcela da categoria, a
sobrevivência exige a manutenção de múltiplos vínculos de trabalho, realidade
que prejudica a qualidade de vida e a saúde mental.
De acordo com a pesquisa Perfil da
Enfermagem no Brasil 2017 (Fiocruz/Cofen), 66% dos entrevistados relatam
desgaste profissional, cansaço físico e mental. Pesquisa também aponta a
multiplicidade de vínculos como um dos principais fatores para o desgaste da
categoria.
O POVO conversou com três técnicos de
enfermagem sobre a rotina de dedicação e sobrecarga e optou por não divulgar os
nomes das fontes.
Um deles, com 26 anos, exemplifica o dilema
da dupla jornada. O profissional se divide no trabalho em uma empresa privada e
um organização filantrópica, além da graduação em Enfermagem. Relata que a
recente conquista financeira do piso veio acompanhada de um aumento na carga
horária.
“Eu abro mão da minha
saúde para poder conseguir pagar minhas contas”. Para ele, o aumento das horas
trabalhadas, que em alguns setores passou de 30 para 40 horas, resultou em uma
sobrecarga que abala tanto o esforço físico quanto o equilíbrio emocional.
Outra técnica de enfermagem, de 32 anos,
relata os "plantões exaustivos,
muitas vezes, com setores com redução de funcionários". Ela conta que
alguns colegas precisam de afastamento por problemas de saúde mental, como
ansiedade, e burnout.
"No setor público e em
organizações contratualizadas, o pagamento do piso muitas vezes é feito de
forma fragmentada por meio de complementos que não atingem o valor real devido", compartilha
outra técnica de enfermagem de 40 anos que atua em uma associação filantrópica.
"O principal desafio da
nossa profissão é justamente ter que lidar com isso, a desvalorização
profissional, porque a gente trabalha com amor, com carinho. Eu, pelo menos,
amo o que eu faço, amo minha profissão. Porém, o que entristece a gente e está
adoecendo — muitos profissionais que estão de licença e afastados por problemas
psiquiátricos — é justamente essa desvalorização", compartilha.
Fonte: Publicado In: O Povo, de 12/07/26.
Caderno Ciência & Saúde. p. 16-18.

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