sábado, 8 de agosto de 2026

CIÊNCIA DO CUIDAR: A enfermagem na alta complexidade I

Por Ana Rute Ramires, Ana Sá e Samuel Setúbal

|CARTOLA | A ciência do cuidado é a espinha dorsal da saúde, com mais de 3 milhões de profissionais no Brasil. Na alta complexidade, a atuação é estratégica

Uma linha de frente por muito tempo invisibilizada, mas cuja atuação no suporte à saúde sempre definiu a diferença entre a vida e a morte. Ainda no século XIX, a fundadora da enfermagem moderna, Florence Nightingale (1820-1910), ensinou: "Existe cuidado sem cura, mas não existe cura sem cuidado".

A ciência do cuidado guia a atuação de mais de três milhões de profissionais atualmente no Brasil, entre enfermeiros (837.636), técnicos (1.935.341) e auxiliares (264.283), conforme dados do Conselho Federal de Enfermagem (Cofen). A categoria hegemônica é a espinha dorsal do Sistema Único de Saúde (SUS), coordenando fluxos e garantindo a segurança assistencial.

Tudo começou no século XIX, na Guerra da Crimeia, quando Florence Nightingale, considerada fundadora da enfermagem mundial, aplicou práticas de higiene que salvaram milhares de vidas. De lá pra cá, a categoria se organizou e, baseada em evidências científicas, definiu protocolos rígidos, se consolidando com uma atuação estratégica em áreas como a alta complexidade.

Helga Regina Bresciani, segunda-secretária do Cofen, detalha que a enfermagem atua como um pilar estratégico e de suporte à vida. Ela salienta que a autonomia profissional é baseada em evidências científicas e que o enfermeiro exerce funções de planejamento, gestão e tomada de decisão crítica.

"A enfermagem cuida das pessoas em suas necessidades. Então, nós estamos em todas as áreas da saúde, na atenção primária, na média complexidade, na alta complexidade, em consultórios de enfermagem, em trabalhos no pré-hospitalar, nas emergências", cita.

A secretária do Cofen destaca que, na alta complexidade, o enfermeiro é responsável por gerenciar tecnologias duras, como ventiladores mecânicos e sistemas de circulação extracorpórea, além de monitorar ininterruptamente os sinais vitais do paciente crítico.

"A ciência da saúde, a ciência de enfermagem, ela evolui muito rapidamente... a enfermagem ao longo dos anos acompanha essa evolução em suas capacitações, na educação permanente, na formação", afirma.

A prática da enfermagem é regida por normas rígidas e resoluções do Cofen, que garantem que procedimentos complexos, como o uso de ultrassom à beira leito para punções e a prescrição de medicamentos em protocolos institucionais, sejam realizados com segurança e respaldo legal.

Maria Helena Machado, pesquisadora da Escola Nacional de Saúde Pública da Fundação Oswaldo Cruz (ENSP/Fiocruz), explica que a autonomia profissional da enfermagem "advém da base cognitiva de conhecimento (teórico e prático)" que os profissionais adquirem na sua formação profissional básica e é aprofundada na pós-formação.

Portanto, segundo ela, "a autonomia profissional advém fortemente na capacidade que cada profissão tem de responder às demandas e desafios que o processo de trabalho exige no cotidiano do mundo do trabalho".

"A enfermagem faz parte dessas profissões que adquiriu, ao longo de sua existência, essa base cognitiva que lhe assegura autonomia plena em suas ações, emanando para sua equipe técnica (técnicos e auxiliares de enfermagem) orientações e direcionamento para suas atividades no cotidiano do trabalho", afirma a pesquisadora.

A responsabilidade de salvar vidas diariamente, contudo, contrasta com a luta histórica pela efetivação do piso salarial e por condições dignas de trabalho. "Se você fosse perguntar a valorização financeira, a gente não é valorizada. Nós estamos vendo pela dificuldade que a gente tem de implantar o piso básico para a profissão", critica Helga Bresciani, do Cofen.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 5/07/26. Caderno Ciência & Saúde. p. 13-14.


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