Por Ana Rute Ramires, Ana Sá e Samuel Setúbal
|CARTOLA | A ciência do cuidado é a espinha dorsal da
saúde, com mais de 3 milhões de profissionais no Brasil. Na alta complexidade,
a atuação é estratégica
Uma linha de frente por muito tempo
invisibilizada, mas cuja atuação no suporte à saúde sempre definiu a diferença
entre a vida e a morte. Ainda no século XIX, a fundadora da enfermagem moderna,
Florence Nightingale (1820-1910), ensinou: "Existe cuidado sem cura, mas não existe cura sem cuidado".
A ciência do cuidado guia a atuação de mais
de três milhões de profissionais atualmente no Brasil, entre enfermeiros
(837.636), técnicos (1.935.341) e auxiliares (264.283), conforme dados do Conselho
Federal de Enfermagem (Cofen). A categoria hegemônica é a espinha dorsal do
Sistema Único de Saúde (SUS), coordenando fluxos e garantindo a segurança
assistencial.
Tudo começou no século XIX, na Guerra da
Crimeia, quando Florence Nightingale, considerada fundadora da enfermagem
mundial, aplicou práticas de higiene que salvaram milhares de vidas. De lá pra
cá, a categoria se organizou e, baseada em evidências científicas, definiu
protocolos rígidos, se consolidando com uma atuação estratégica em áreas como a
alta complexidade.
Helga Regina Bresciani, segunda-secretária
do Cofen, detalha que a enfermagem atua como um pilar estratégico e de suporte
à vida. Ela salienta que a autonomia profissional é baseada em evidências
científicas e que o enfermeiro exerce funções de planejamento, gestão e tomada
de decisão crítica.
"A enfermagem cuida das
pessoas em suas necessidades. Então, nós estamos em todas as áreas da saúde, na
atenção primária, na média complexidade, na alta complexidade, em consultórios
de enfermagem, em trabalhos no pré-hospitalar, nas emergências", cita.
A secretária do Cofen destaca que, na alta
complexidade, o enfermeiro é responsável por gerenciar tecnologias duras, como
ventiladores mecânicos e sistemas de circulação extracorpórea, além de
monitorar ininterruptamente os sinais vitais do paciente crítico.
"A ciência da saúde, a
ciência de enfermagem, ela evolui muito rapidamente... a enfermagem ao longo
dos anos acompanha essa evolução em suas capacitações, na educação permanente,
na formação",
afirma.
A prática da enfermagem é regida por normas
rígidas e resoluções do Cofen, que garantem que procedimentos complexos, como o
uso de ultrassom à beira leito para punções e a prescrição de medicamentos em
protocolos institucionais, sejam realizados com segurança e respaldo legal.
Maria Helena Machado, pesquisadora da
Escola Nacional de Saúde Pública da Fundação Oswaldo Cruz (ENSP/Fiocruz),
explica que a autonomia profissional da enfermagem "advém da base cognitiva de conhecimento (teórico e prático)" que os
profissionais adquirem na sua formação profissional básica e é aprofundada na
pós-formação.
Portanto, segundo ela, "a autonomia profissional advém fortemente na capacidade que
cada profissão tem de responder às demandas e desafios que o processo de
trabalho exige no cotidiano do mundo do trabalho".
"A enfermagem faz parte
dessas profissões que adquiriu, ao longo de sua existência, essa base cognitiva
que lhe assegura autonomia plena em suas ações, emanando para sua equipe
técnica (técnicos e auxiliares de enfermagem) orientações e direcionamento para
suas atividades no cotidiano do trabalho", afirma a pesquisadora.
A responsabilidade de salvar vidas
diariamente, contudo, contrasta com a luta histórica pela efetivação do piso
salarial e por condições dignas de trabalho. "Se você fosse perguntar a valorização financeira, a gente
não é valorizada. Nós estamos vendo pela dificuldade que a gente tem de
implantar o piso básico para a profissão", critica Helga Bresciani, do Cofen.
Fonte: Publicado In: O Povo, de 5/07/26.
Caderno Ciência & Saúde. p. 13-14.

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