quinta-feira, 5 de maio de 2022

DOS VELHOS E DOS MOÇOS

Meraldo Zisman (*)

Médico-Psicoterapeuta

Todo país que se preza enaltece os seus velhos. Assim foi e continua sendo, desde os primórdios da civilização.

O que assisto agora é que os jovens não aceitam mais os conselhos dos idosos. Refiro-me aos jovens e aos adultos igualmente e advirto ser a consideração com o próximo coisa rara neste contemporâneo. No caso dos jovens, trata-se de uma verdadeira contestação inter-geracional.

Explanações socioeconômicas não são suficientes para explicar o desamparo/desprezo dirigido à geração precedente.

Os avanços tecnológicos tornam tudo isso mais avassalador neste embate desrespeitoso. Repito — inter-geracional.

Tais avanços ofertaram aos jovens a oportunidade de se tornarem desrespeitosos para com as gerações anteriores, na ilusão de que apenas o que é novo é certo. Porém sei também que muitos idosos de hoje, que vivem mais e têm mais experiência, em lugar de exercerem a sua função apreendida pela angústia vital, preferem tentar disfarçar a idade, seja por cirurgias plásticas ou outras camuflagens e embustes. Submetem-se a disputar com a juventude o papel (aparência) que não mais lhes pertence, tornando-se prezas fáceis dos que oferecem panaceias para que pareçam sempre mais novos do que são. Bastaria dizer que já existe uma especialidade médica dedicada ao aumento da longevidade denominada Geriatria. Uma espécie de Pediatria para idosos.

O resultado aí está. Idosos perdem a deferência e o respeito das crianças, jovens e adultos. A juventude inebriada, por sua vez, julga que só o que é novo é bom, pois a experiência ainda está para ser adquirida por este grupo etário. E como o passado não lhes importa, julgam-se os donos da verdade. Resultado: os mais velhos são esquecidos como sucata da vida privada ou pública. Pertinente será lembrar uma historieta bíblica.

O Velho Testamento ensina que o rei Davi, antes de ser rei, era um pastor de ovelhas e, dizem, bastante competente. Suas ovelhas eram as mais bonitas da região. Sabem porquê? Pela maneira como as alimentava.

Separava a ração que oferecia: o primeiro grupo comia as folhas mais tenras; a parte de cima do capim mais novo era para as ovelhas mais velhas. Depois vinham as crianças, digo os cordeirinhos, e por último os jovens e sadios pois necessitavam e tiravam melhor proveito da parte endurecida da ração, formando uma juventude mais bem treinada para os embates da vida.

Agora, quando se toma qualquer medida coletiva, penaliza-se primeiro os velhos, que acham que nada sabem, não desejam conhecer sua experiência ou sabedoria acumuladas.

Uma aldeia que não tiver seu conselho de anciões perecerá na certa. O resto, os leitores podem deduzir.

(*) Professor Titular da Pediatria da Universidade de Pernambuco. Psicoterapeuta. Membro da Sobrames/PE, da União Brasileira de Escritores (UBE), da Academia Brasileira de Escritores Médicos (ABRAMES) e da Academia Recifense de Letras. Consultante Honorário da Universidade de Oxford (Grã-Bretanha).

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