Por
Mário Mamede (*)
A identidade de um povo tem como pilares
fundamentais suas características étnicas, sua língua, sua cultura e a
capacidade de ser guardião de suas memórias, preservando-as e transmitindo-as
às gerações vindouras. A partir destes pilares, estão firmadas as condições
para nos reconhecermos e sermos reconhecidos como um grupo identitário e
fortalecermos num projeto de nação com uma visão de futuro.
Essa identidade estabelece a coesão
necessária para termos consciência do que somos e do que desejamos para nós e
para os nossos descendentes.
E esta percepção nos impulsiona para
firmarmos um sentimento de pertencimento, alimentarmos a nossa autoestima e
construirmos uma cidade que seja um lugar bom de viver para todas as pessoas.
A partir dessas breves reflexões,
vamos ao que julgo mais importante e urgente, do que sinto necessidade de
comentar.
Em Fortaleza, temos um acervo importante da
memória de nossa cidade do ponto urbanístico, fotográfico, social, e um arquivo
musical organizado por um funcionário público de nome Miguel Ãngelo de Azevedo,
mais conhecido por Nirez, hoje uma importante referência e fonte de pesquisa
sobre a nossa Capital.
Com a felicidade de viver seus 91 em plena
lucidez e uma invejável memória para fatos recentes e passados, Nirez organizou
e alimentou o seu acervo, acumulado ao longo de toda uma vida, com muita
dedicação. Muitas e muitas histórias de Fortaleza estão guardadas em seu
computador, em documentos físicos e em fotos.
Nirez é o guardião da maior e mais bem
conservada coleção de discos de cera do Brasil, desde os primeiros gravados no
Rio de Janeiro, nos anos 30 do século passado. Mais do que uma coleção, um
tesouro!
Ocorre que todo esse patrimônio está hoje
guardado em sua própria casa, e chega a um momento de vida em que já não tem
mais como dar conta de mantê-lo.
Em comum entendimento com o Nirez, procurei
o diretor do Museu da Imagem e do Som, que demostrou vivo interesse, levantando
a possibilidade de sua incorporação ao acervo do MIS. Avançamos animados para
uma agenda com uma relevante expressão política do Governo Estadual, acontecida
no mesmo local no 06 de junho do ano passado.
As ideias convergiram e, pela sua
importância, o assunto seria levado para análise do Governador. Adentramos 2026
e, até hoje, a resposta tem sido o silêncio, um silêncio que incomoda. Por isso
faço publicamente um apelo às nossas autoridades, instituições acadêmicas e
setor empresarial para não deixarmos que esse pedaço da nossa memória vire
poeira.
O que se tornou antigo não pode continuar
sendo traduzido equivocadamente como obsoleto, sem valor, isso é história que
forma a identidade de uma cidade e de um povo.
(*) Médico ortopedista.
Fonte: Publicado In: O Povo, de 15/01/2026. Opinião. p.15.

Um comentário:
28/03/2008, Blog EntreMentes.
Levado pelo clínico Eduilton Girão, um dia fui conhecer o Arquivo Nirez. Estimo que possa ter sido há uns vinte anos; numa manhã de sábado, certamente. O jornalista Blanchard Girão e o Sr. Ferrer, de Oeiras - Piauí, foram as outras agradáveis companhias do grupo que se formou para visitar este museu no bairro Rodolfo Teófilo.
O próprio Nirez, como é conhecido Miguel Ângelo de Azevedo, foi quem nos ciceroneou na inesquecível incursão que fizemos àquele mundo de sons, imagens e objetos da comunicação.
Pensar que tudo começou por volta de 1958. Quando Nirez passou a colecionar os seus primeiros discos de cera, os quais constituem a base do acervo que reúne na casa de n° 560 da rua Prof. João Bosco (onde ele até hoje reside). E que, com o passar do tempo, foi o acervo expandido para outros campos como fotografias, rótulos, revistas e objetos diversos. ~ Paulo Gurgel
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