Por
Romeu Duarte Junior (*)
Mesmo não chegando a ser nem de longe um
Sérgio Redes (também conhecido nos mundos da bola e do livro como Serginho
Amizade), meu prezadíssimo amigo, gosto de dar meus pitacos quando o assunto é
futebol. Não, hipócrita leitor(a), não falarei da tragédia em curso no futebol
cearense, de times em baixa, lisos e abandonados pelos próprios torcedores.
Reportar-me-ei a um problema muito maior: a péssima fase da nossa seleção,
antes chamada carinhosamente de Canarinho e hoje por mim apelidada de
selecinha, pelo péssimo futebol que ela apresenta. Fomos campeões do mundo pela
última vez em 2002, já lá se vão 24 anos. De lá para cá, só fracasso e
frustração. Lembro-me de que eu parava tudo o que estava fazendo para ver um
jogo dela. Hoje prefiro mais ver o Chaves.
Sou do tempo em que um jogador, ao ser
convocado para a seleção brasileira, levantava as mãos para o céu e agradecia a
Deus pelo presente. Sua família o saudava como a um herói de guerra. Na
convocação, o sorriso aberto, o peito estufado de orgulho, a postura de
guerreiro. Nas copas a que assisti e que o Brasil ganhou (a primeira em 1970),
os técnicos eram praticamente entregadores de camisas aos jogadores. Ora, como
ensinar o esporte bretão a um Pelé, a um Tostão, a um Gérson, a um Carlos
Alberto, a um Rivelino? Os caras resolviam as coisas no campo com a qualidade,
a matreirice e o talento que tinham de sobra. Presentemente, parece-me que os
nossos atletas veem qualquer jogo da seleção como uma partida a mais, a frio,
sem tesão. Nelson Rodrigues vomitaria.
Senão, vejamos: no último prélio com a
França, quando perdemos por 2 a 1, com a seleção gaulesa com um a menos, viu-se
uma equipe com uma defesa fraca, um meio de campo sem qualquer criatividade e
um ataque comandado por um jogador mais interessado em denunciar atos de
racismo contra si (no que está certo) do que jogar futebol. O desempenho que os
nossos players exibem nos seus clubes da Europa está muito distante daquele que
apresentam na seleção. Quando são chamados de "jogadores de time" ficam
bravos, vociferam, brigam. Mas, infelizmente, é o que acontece. Salvo uma ou
duas exceções de praxe (que só confirmam a regra), são apenas atletas
bonzinhos, daqueles que costumam tirar a canela de jogadas mais duras. Assim
não passaremos da fase de grupos.
O morcego que mora no meu escritório,
pendurado no varal da área de serviço, leu meus pensamentos e veio de lá com
uma provocação: "O Brasil só ganha essa Copa se o Neymar for
convocado". "Só se for a Copa de mau-caratismo, trambicagem e jogador
mascarado", retruquei. Ele deu de ombros, bateu as asas e saiu voando por
aí. "Ainda mais essa, aguentar praga de morcego", disse de mim para
comigo. Saio do estúdio para tomar um ar sob a sombra do jasmim-manga do meu
jardim, quando ouço a conversa de dois sujeitos: "O Brasil não vai ganhar
essa Copa porque o treinador é italiano". Febeapá puro, o que tem a ver o
traseiro com as calças? O que falta, na verdade, é futebol bem jogado, com
raça, malícia e destreza, como alguém faminto que avança num prato de comida.
(*) Arquiteto e
professor da UFC. Sócio do Instituto do Ceará. Colunista de O Povo.
Fonte: Publicado In: O Povo, de 30/03/26. Vida & Arte. p.2.

Nenhum comentário:
Postar um comentário