Por
Izabel Gurgel (*)
Leitora de Horácio Dídimo, levo o poeta
comigo. Releio, cito, invoco. Ano passado, levei "A palavra e a
Palavra", editado pela UFC em 2002, para o curso que elaborei e
ministramos com a bordadeira Alba Alves. Tornou-se nosso poeta-guia.
Leia comigo: "Vede como dentro e fora
antemão entrementes e outrora estão aqui agora". Você não vê o poema
espacializado como no livro, com pausa, respiro, ritmo que o desenho sugere na
página. Digito o poema em linha contínua e me ocorre o "Galáxias", de
Haroldo de Campos, a terceira edição revista da editora 34, realizada em 2004.
A conversa entre poetas, feito constelação,
é movente.
Alba descobriu nosso poeta. E bordou
Horácio Dídimo para vestir. O tecido, guardado desde 2002, ano da edição do
livro, foi tingido com jucá. Cortado para vestido, ganhou, nas costas, o poema
citado, e, na frente, um jardim com croché de Vilani Moreira Barbosa. Galhos se
bifurcam com micro botões bordados. Botões de flor em um ponto tão presente em
enxoval de bebê que nos faz pensar nos nascimentos da inteligência das mãos.
Tem linha tracejada, tem folha com o desenho que nossas rendeiras de bilro
chamam de traça e se vê direitinho tanto no papelão riscado e pinicado, o
"molde" da renda, quanto na renda pronta. Traças-pétalas, compondo
flor.
Tem mais Horácio Dídimo por Alba. Em
pequenos formatos, uma vez abertos e folheados, os três livros-arte remetem a
borboleta batendo asa e desenhando no ar. Pouco maiores que caixas de fósforo
convencional, os horacinhos voadores (nos) acendem. São corte e costura,
caligrafia, apliques de bordado, um reuso de material que se vê com mais gosto
ainda andando com Alba pelas bordas da Chapada do Araripe, onde ela mora.
Prestar atenção é prática. Torna-se
incontornável para sempre, como achar grande o mar. Os horacinhos têm papel de
sabonete com cerejeiras em flor, de catálogo botânico; de pacotes de chá, de
café, de chocolate (você também gosta da expressão "pra comer com os
olhos"?) e um etc. que inclui pedaço de artigo com nota de rodapé sobre
"O apanhador no campo de centeio".
Horácio Dídimo (1935-1918), seu livro é
fonte de mel, colmeia.
Estão lá outros livros dele. Cito
"Tijolo de Barro" e "Tempo de Chuva" para ir terminando
junto com março saudando as águas e São José, padroeiro do Ceará e protetor de
mulheres e homens das artesanias.
A aranha tece puxando o fio da teia.
Citei uma linha da canção "Na asa do
vento", de João do Valle e Luiz Vieira. Escuto Caetano. E me ocorre
Liberal de Castro inscrevendo, e escrevendo Fortaleza como uma dádiva do vento.
Refere-se o professor aos ventos bravios que dificultavam a travessia pela
costa.
Feliz aniversário, Fortaleza.
Vou começar abril relendo
"Yuxin". Outra vez na floresta, nas águas e seres que Ana Miranda nos
convida a escutar ao tempo que seguimos com Yuxin. Yuxin borda, borda.
(*) Jornalista de O Povo.
Fonte: Publicado In: O Povo, de 29/03/26. Vida & Arte, p.2.

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