terça-feira, 16 de novembro de 2021

A LONGA ESPERA DA VACINA CONTRA O HIV

Por Érico Arruda (*)

Cursava o primeiro ano de residência médica em infectologia, quando explodia a Aids em São Paulo, em 1990. Comentava-se o início do esforço mundial pelo desenvolvimento da vacina. Sabia que iria demorar, mas não imaginava o quanto.

A esperança veio claudicando com os frustrantes resultados dos primeiros estudos, mas se reequilibrando a cada novo passo firme na compreensão da complexa capacidade mutacional do vírus HIV e de como essas mutações são capazes de driblar a resposta imunológica.

A vacina, portanto, precisa despertar anticorpos (imunidade) para regiões mais preservadas (menos modificadas) do vírus, e que sejam fundamentais ao seu mecanismo de replicação; preferencialmente contra as estruturas que promovem sua entrada nas células humanas, impedindo a infecção.

Desde então, avançamos substancialmente na prevenção com uso dos medicamentos antirretrovirais, que chamamos de profilaxia pós-exposição (PEP) e profilaxia pré-exposição (PrREP). Os estudos com vacinas continuaram e chegamos atualmente a 20 candidatas em fase pré-clínica (em animais de experimentação); 19 em fase clínica (estudos em humanos) e 3 em fase mais avançada desses ensaios clínicos.

O estudo Mosaico é um deles, incluindo vários países e com participação do Brasil. Trata-se de uma experimentação utilizando vacinas com vetor do Adenovírus 26, modelo também utilizado com sucesso na vacina contra Covid-19 da Janssen, e vários fragmentos de vários subtipos de vírus HIV, daí o nome "Mosaico" (uma vez que existem algumas diferenças entre os vírus que circulam em algumas regiões do planeta). A vacina vem sendo testada desde 2019, com aplicações de 4 doses, a cada 3 meses, durante 1 ano.

Chegamos ao final do recrutamento internacional e aguardamos pelos resultados, com esperanças renovadas, mas sem euforia, que os fracassos anteriores nos ensinaram a evitar. Uso de preservativos, diagnóstico e tratamento de infecção sexualmente transmissível, testagem para o HIV e PrEP, deverão continuar como nossas principais estratégias na prevenção do HIV, por mais alguns anos. 

(*) Médico infectologista. Doutor em Doenças Infecciosas e professor da UECE.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 1/10/2021. Opinião. p.22.

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