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quinta-feira, 9 de julho de 2026

VACINAÇÃO, ALÉM DA HESITAÇÃO

 Por Magda Almeida (*)

A queda das coberturas vacinais no Brasil é um problema grave e merece preocupação. No entanto, reduzir esse fenômeno à hesitação vacinal ou à suposta resistência da população às vacinas simplifica excessivamente uma realidade muito mais complexa e pode nos afastar das soluções necessárias.

É verdade que a circulação de desinformação e os movimentos antivacina ganharam espaço nos últimos anos e devem ser enfrentados com firmeza. Mas explicar o fracasso sucessivo das metas vacinais quase exclusivamente por esse fator produz uma narrativa incompleta, que transfere o peso do problema apenas para o indivíduo e reduz a responsabilidade dos gestores e da organização dos serviços de saúde.

O Brasil já foi referência mundial em vacinação. Não alcançamos coberturas superiores a 90% apenas porque a população confiava nas vacinas, mas porque existia uma rede capilarizada de Atenção Primária à Saúde, com agentes comunitários realizando busca ativa, vacinação nas escolas, campanhas territoriais e equipes capazes de identificar quem estava ficando para trás.

Hoje, esse cenário é diferente. Em muitos municípios, há fragilização das equipes, redução da capacidade territorial e dificuldades operacionais. As salas de vacina nem sempre funcionam em horários compatíveis com a vida das pessoas, o acesso pode ser burocratizado e ainda se observa a exigência de carteira física mesmo diante de registros digitais disponíveis. Pequenas barreiras, somadas, tornam-se obstáculos reais.

Há ainda uma mudança demográfica importante: o Brasil envelheceu. Parte significativa do público-alvo das campanhas é formada por idosos com dificuldades de mobilidade, dependência familiar ou limitações para chegar até as unidades de saúde. Para muitos, não basta a vacina estar disponível no posto, é preciso que o sistema consiga chegar até eles, por meio de vacinação domiciliar, apoio das equipes e atuação dos agentes comunitários de saúde.

Também é preciso olhar para as diferenças regionais. No Nordeste, por exemplo, a sazonalidade da influenza ocorre mais cedo. Quando a vacina chega tardiamente, parte da população já adoeceu ou está em plena circulação do vírus.

A pergunta central, portanto, não deveria ser apenas "por que as pessoas não se vacinam?", mas também "por que o sistema não conseguiu alcançá-las?". Recuperar coberturas vacinais exige enfrentar a desinformação, sim, mas, sobretudo, fortalecer a Atenção Primária, ampliar acesso e reconstruir capacidades que levaram décadas para serem consolidadas e pouco tempo para serem desconfiguradas.

(*) Médica de Família e Comunidade. Professora da Famed/UFC. Gestora pública.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 12/06/2025. Opinião. p.19.

sábado, 20 de janeiro de 2024

Resposta do Conselho Federal de Medicina à denúncia de pesquisa de opinião sobre a vacinação obrigatória contra a Covid em crianças

Por Ana Tute Medeiros (*)

O Conselho diz que não contesta eficácia da vacina contra a Covid

Em nota, o Conselho Federal de Medicina afirma quem "em nenhum momento, o CFM contesta a eficácia ou a decisão do Ministério da Saúde de disponibilizar a vacina contra a Covid-19 para a população infantil".

"A pesquisa visa unicamente conhecer a percepção do médico brasileiro sobre a obrigação imposta aos pais", explica.

De acordo com a autarquia médica, "a decisão decorre de inúmeros pleitos encaminhados à autarquia buscando conhecer o posicionamento do CFM sobre esse tema". Isso porque "a vacina disponibilizada pelo fabricante condiciona sua venda à prescrição médica".

"Sempre existe lá a observação de se procurar um médico. Está presente nas bulas de todos os medicamentos", refuta Roberto da Justa.

"Não é baseado em conteúdo de bula que se definem políticas públicas, não é baseado em enquete. São determinadas baseadas em evidências científicas. Isso desvia o foco das atenções, que é aumentar a cobertura vacinal das crianças", salienta o profissional cearense.

"O CFM ressalta à população e aos médicos que empenha total apoio às ações empreendidas para ampliar a cobertura de vacinas que ajudam na prevenção e combate doenças, como poliomielite, sarampo, meningite, rubéola e tuberculose, disponibilizadas dentro do Programa Nacional de Imunizações (PNI), considerado o maior do mundo em sua modalidade", afirma o órgão.

O CFM explica ainda que "os dados registrados permitem a geração de um único código de validação. Ressalte-se que apenas o primeiro envio de respostas será computado como voto".

"As informações oferecidas serão tratadas sob os critérios de sigilo e anonimato, nos termos da Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD), e os resultados da pesquisa subsidiarão o CFM no desenvolvimento de ações relacionadas ao tema", informa.

Em nota, o CRM-DF afirmou "que todas as denúncias feitas à autarquia são investigadas por meio de sindicâncias, no entanto, o procedimento ocorre em sigilo processual".

(*) Jornalista de O Povo.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 17/01/2024. Cidades. p.16.

Leia nota na íntegra

NOTA AOS BRASILEIROS

CFM esclarece pontos do levantamento sobre a percepção do médico acerca da obrigatoriedade da vacina de covid-19 em crianças

Com respeito à realização de pesquisa junto aos mais de 560 mil médicos brasileiros para conhecer a percepção dos profissionais acerca da obrigatoriedade de aplicação da vacina contra covid-19 em crianças de 6 meses a 4 anos e 11 meses, o Conselho Federal de Medicina (CFM) esclarece os seguintes pontos:

1) Em nenhum momento, o CFM contesta a eficácia ou a decisão do Ministério da Saúde de disponibilizar a vacina contra a covid-19 para a população infantil;

2) A pesquisa visa unicamente conhecer a percepção do médico brasileiro sobre a obrigação imposta aos pais para que as crianças de 6 meses a 4 anos e 11 meses sejam vacinadas, independentemente de prescrição médica da vacina contra COVID-19;

3) A decisão decorre de inúmeros pleitos encaminhados à autarquia buscando conhecer o posicionamento do CFM sobre esse tema, pois a bula da vacina disponibilizada pelo fabricante condiciona sua venda à prescrição médica;

4) Assim, o CFM decidiu ampliar o debate, dando direito a cada médico brasileiro de se manifestar, conhecendo a visão da maioria da classe;

5) Os médicos têm opiniões com base em conhecimento técnico-científico, são profissionais, pesquisadores e estudiosos em diversas áreas da ciência médica e por isso mesmo, são capacitados a se manifestarem sobre a obrigatoriedade da vacina contra COVID-19 em crianças de 6 meses a 4 anos e 11 meses;

6) Abordagens semelhantes foram usadas pelo CFM em outros temas, como telemedicina e publicidade médica, entre outros, oferecendo subsídios à autarquia e aos tomadores de decisão;

7) Além desse instrumento, o CFM informa que solicitou posicionamentos técnicos às suas Câmaras Técnicas de Pediatria, de Infectologia e de Bioética sobre a obrigatoriedade;

8) O CFM respeita o direito de outras entidades médicas se posicionarem sobre a realização da pesquisa, entendendo que essas manifestações enriquecem o debate ético e científico, desde que não atendam a interesses pessoais, políticos, ideológicos ou financeiros.

Finalmente, o CFM ressalta à população e aos médicos que empenha total apoio às ações empreendidas para ampliar a cobertura de vacinas que ajudam na prevenção e combate a doenças, como poliomielite, sarampo, meningite, rubéola e tuberculose, disponibilizadas dentro do Programa Nacional de Imunizações (PNI), considerado o maior do mundo em sua modalidade.

Brasília, 12 de janeiro de 2024.

CONSELHO FEDERAL DE MEDICINA

Médico cearense denuncia presidente do CFM por pesquisa de opinião sobre vacinação de crianças contra Covid

Por Ana Tute Medeiros (*)

O CFM divulgou nota de esclarecimento sobre a pesquisa da entidade sobre percepção dos médicos acerca da obrigatoriedade da vacinação de crianças contra a Covid-19

Um médico cearense apresentou denúncia contra o presidente do Conselho Federal de Medicina (CFM), José Iran da Silva Gallo, por pesquisa da entidade sobre a opinião dos médicos acerca da vacina contra a Covid-19 em crianças. O infectologista Roberto da Justa, professor da Universidade Federal do Ceará (UFC), aponta "erros de natureza ética e quebra de sigilo de dados, além de risco à saúde pública".

No site da entidade, a pesquisa é apresentada com o objetivo de "conhecer a percepção dos médicos brasileiros sobre a obrigatoriedade da vacinação contra Covid-19 em crianças de 6 meses a 4 anos e 11 meses". Questionário também foi enviado para os profissionais membros do CFM por e-mail.

Denúncia foi feita junto ao Conselho Regional de Medicina do Distrito Federal (CRM-DF), onde o presidente do CFM tem registro. 

Roberto da Justa argumenta que não há menção a aprovação de protocolo em Comitê de Ética em Pesquisa nem solicitação de preenchimento de Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE).

Segundo ele, também não há "esclarecimento detalhado sobre a natureza da pesquisa, justificativa, metodologia, plano amostral, critérios de inclusão ou exclusão".

Conforme o médico infectologista, qualquer pessoa pode responder à "pesquisa" utilizando somente o número de CRM e do CPF de um médico. 

"Eu realizei o preenchimento até o final e constatei que o código de validação é gerado na própria plataforma, quando deveria ser enviado por e-mail", relata. 

"Denunciei o presidente do CFM, responsável legal pela "pesquisa", por infração a um princípio fundamental e a dois artigos do Código de Ética Médica (CEM)". 

Ele cita o Princípio Fundamental XXIV do CEM: "Sempre que participar de pesquisas envolvendo seres humanos ou qualquer animal, o médico respeitará as normas éticas nacionais, bem como protegerá a vulnerabilidade dos sujeitos da pesquisa".

O Art. 100 diz que "é vedado ao médico deixar de obter aprovação de protocolo para a realização de pesquisa em seres humanos, de acordo com a legislação vigente".

Já o Art. 103 veda "ao médico realizar pesquisa em uma comunidade sem antes informá-la e esclarecê-la sobre a natureza da investigação e deixar de atender ao objetivo de proteção à saúde pública, respeitadas as características locais e a legislação pertinente".

"Além da denúncia, solicitei ao Conselho Regional (do Distrito Federal) que envide esforços para que a pesquisa seja interrompida. Que a denúncia seja encaminhada ao Ministério Público Federal. Também pedi para acionarem a Anvisa, pois se trata de um assunto relacionado à saúde pública. Esses órgãos também precisam ser mobilizados", afirma o médico cearense.

(*) Jornalista de O Povo.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 17/01/2024. Cidades. p.16.

quarta-feira, 19 de abril de 2023

A DEMOCRATIZAÇÃO DO DEBATE SOBRE JUROS E VACINAS

Por Lauro Chaves Neto (*)

Um dos maiores ganhos com a universalização do uso das redes sociais foi a democratização dos debates, antes limitados aos ambientes físicos presenciais, pessoal ou profissional. A conectividade fez com que todo e qualquer tema passasse a ser debatido por grande parte da população.

Temas antes tidos como técnicos e muitas vezes restritos as divergências apenas entre especialistas, passaram a ser debatidos por grupos de todas as idades e áreas de conhecimento.

Esse fantástico ganho de participação popular passou a exigir que os especialistas nos assuntos em debate, sejam eles médicos ou economistas, entre outros, passem a se expressar com linguajar cada vez mais acessível, sem perder a consistência dos argumentos, para se fazer entender por todos.

Outro ganho é que os "especialistas" perderam aquele pseudo poder de encerrar um debate com uma "carteirada técnica" e precisam explicar a lógica, as possíveis causas e consequências envolvidas, como também aceitar a contra-argumentação daqueles que muitas vezes são os principais implicados e não são especialistas no tema.

Temas extremamente técnicos como as vacinas e os juros passam exatamente por isso, no caso das vacinas existe a Anvisa, o Butatan, a Fiocruz, a classe médica e os laboratórios de um lado, do outro a sociedade como principal implicada. No caso de um vírus novo sobravam narrativas e era impossível existirem pesquisas anteriores. Nesse caso, como leigo, particularmente sigo as orientações do meu médico infectologista e tenho as quatro doses da vacina aplicadas.

Em relação ao patamar dos juros, como economista considero que a taxa Selic de 13,75% ao ano deveria ser reduzida, porém o mais grave são os juros praticados no mercado que chegam a custar 60% ou 80% ao ano, em algumas modalidades.

O Banco Central tem como função principal manter a estabilidade da economia e possui um modelo desenvolvido para fundamentar as suas decisões sobre o patamar da Selic adequado para se alcançar essa estabilidade. O debate sobre esse tema tão técnico deveria ser se esse modelo está adequado ou se existem alternativas técnicas mais viáveis, e isso não foi feito até o momento.

(*) Consultor, professor doutor da Uece e conselheiro do Conselho Federal de Economia.

Fonte: O Povo, de 6/3/23. Opinião. p.20.

segunda-feira, 3 de abril de 2023

COVID-19 E A VACINA BIVALENTE EM NOVO TEMPO

Por Lígía Kerr (*)

As primeiras doses da vacina contra a Covid-19 administradas em populações não experimentais tiveram início nos primeiros dias de dezembro de 2020, em países de alta renda como EUA e Reino Unido.

Apesar da aplicação das vacinas ter sido heterogênea, produziu um impacto enorme na redução dos óbitos e das internações no mundo. Um estudo estimou que a vacinação evitou 14,4 milhões de mortes por Covid-19, ou seja, reduziu as mortes mundiais em 79% no primeiro ano da vacinação.

O Brasil só iniciou a vacinação nos 10 últimos dias de janeiro de 2021. A maior parte do processo, comandado por um governo negacionista, foi caótico. O próprio governo promoveu mentiras que resultaram em menores coberturas vacinais. Mesmo assim, alcançamos altos níveis de vacinação com duas doses, mas menores coberturas com o reforço.

Estudo brasileiro em adultos acima de 60 anos estimou que aproximadamente 168.000 internações não ocorreram e cerca de 59.000 vidas foram salvas por causa das vacinas, até 28 de agosto de 2021. Mostrou, ainda, que uma aceleração no processo salvaria mais 48.000 vidas e evitaria mais 104.000 hospitalizações.

As vacinas utilizadas até o momento no país foram feitas a partir da cepa original do coronavírus, com menor proteção contra as variantes da Ômicron. A vacina bivalente adiciona a proteção contra as subvariantes BA.1, BA.4 e BA.5 da Ômicron.

A proteção desta vacina para as mais recentes variantes, embora não chegue aos valores desejados, aumentou em cerca de 2 a 3 vezes a proteção contra óbitos e internações. Os CDC dos EUA relataram que as doses de reforço com a bivalente reduzem o risco de adoecimento pela Covid-19 em cerca de metade, mesmo para infecções causadas pelas mais novas subvariantes.

A partir de 27 de fevereiro, o Ministério da Saúde iniciará a vacinação de reforço com a bivalente no público prioritário. Sabemos que o sucesso de uma vacinação depende de decisão política. E diferente do governo anterior, Lula indicou profissionais da mais alta qualificação e experiência para liderar a vacinação.

(*) Médica epidemiologista e professora da UFC. Vice-presidente da Abrasco.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 8/02/2023. Opinião. p.20.

segunda-feira, 26 de dezembro de 2022

VACINA CONTRA COVID-19: direito e dever

Por José Sarto (*)

O aumento no número de casos de Covid-19 nas últimas semanas gera preocupação e reforça, mais uma vez, a importância da vacinação. A vacina é a ferramenta disponível mais eficaz no enfrentamento da pandemia. Por isso, temos feito todo o possível na Capital para assegurar esse direito a cada um dos fortalezenses. Mas, infelizmente, temos registrado redução da procura por parte da população, especialmente para o público infantil.

Em que pesem os esforços do Município para descentralizar locais de atendimento, realizar mutirões e fazer a vacina chegar aos bairros e comunidades, enfrentamos, desde o início da pandemia, o imenso desafio de superar o negacionismo, a desinformação e a falta de uma liderança nacional em favor da imunização. O pior efeito disso é a resistência de muitas famílias em se vacinar e vacinar suas crianças não apenas contra a Covid-19, mas também contra doenças que já foram erradicadas no País e agora voltam a ser um risco.

No caso da Covid-19, registramos atualmente mais de 1,9 milhão de pessoas, em todas as faixas etárias, que não concluíram o esquema vacinal ou estão com doses em atraso em Fortaleza. Não queremos que essa baixa adesão se reverta em alta demanda hospitalar. Por esse motivo, temos reunido as equipes e estamos trabalhando em novas estratégias. Estejam certos do nosso compromisso e empenho nesta causa. Nos próximos dias, anunciaremos medidas para atualizar o cartão de vacinação dos adultos e alcançar nossas crianças.

Diante desse contexto, é fundamental reforçar: vacinas salvam vidas. Têm eficácia e segurança confirmadas pelas principais agências sanitárias do mundo. Fornecem boa proteção para adultos e crianças. Graças à vacina, temos reduzido a gravidade de casos de coronavírus e também o número de óbitos. Mas a pandemia ainda é uma realidade e não podemos descuidar. Pedimos que cada fortalezense procure um centro de vacinação e busque tomar as doses disponíveis. Vamos juntos fortalecer essa luta contra a Covid-19 protegendo nossa saúde e a saúde daqueles que tanto amamos. A imunização é um pacto coletivo e depende da adesão de todos.

(*) Médico ginecologista. Prefeito de Fortaleza.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 30/11/2022. Opinião. p.25.

quinta-feira, 8 de dezembro de 2022

VACINA E A CZARINA CATARINA II

Meraldo Zisman (*)

Médico-Psicoterapeuta

Ouço por aí, jocosamente, que Putin acabou rapidamente com a pandemia do coronavírus com a ordem de invasão de uma das mais importantes e adiantadas províncias da extinta União das Repúblicas Socialistas Soviéticas. E já que estamos falando de eslavos e das disputas vacinais, acabei de ter ciência, por um livro da escritora e jornalista Lucy Ward, recém-lançado, creio, na Inglaterra: A Imperatriz e o Doutor inglês (no original: The Empress and the English Doctor, Ed. Oneworld).

Esse livro descreve o papel das mulheres na promoção de descobertas científicas, papel esse, na maioria das vezes, omitido. Conta ela, a autora, da importância da ‘czarina’ Catarina, a Grande, pela bravura de sua visão exata e sua determinação em proteger os súditos do seu império defendendo a vacinação contra a varíola. O procedimento envolvia espalhar pus das bolhas de uma pessoa infectada em pequenas incisões na pele de uma pessoa saudável.

Era muito mais seguro do que pegar a doença naturalmente. Essa história emocionante e importante oferece uma visão sobre a determinação, tenacidade e garra das mulheres para trabalhar pela ciência e cuidar de sua família/povo.

Esclareço mais:

Para os quem não sabem, a varíola, naquela época, era muitas vezes letal. Quando não matava, podia cegar ou desfigurar.  Em 1768, o médico inglês Dr. Thomas Dimsdale foi convidado a visitar São Petersburgo pela própria ‘czarina’ Catarina a Grande, de quem era amigo, para vaciná-la e ao seu filho, assegurando-lhe precavidamente que ordenara um iate de prontidão no Golfo da Finlândia, pronto para levá-lo para fora da Rússia, caso algo desse errado, marcando assim um divisor de águas na aceitação popular da técnica profilática das vacinações.

Lembro-me que, quando eu exercia a Pediatria, a vacinação contra a varíola era compulsória e tenho a minha cicatriz da vacina no braço esquerdo; depois, as meninas eram inoculadas/escarificadas em uma das coxas, para não deixar marcas nos braços… antes da invenção dos biquínis.

Lembro ainda que, nos últimos cem anos de sua existência, estima-se que a varíola tenha matado meio bilhão de pessoas; mas na Rússia, o gesto de Catarina promoveu inoculação — e a vacina virou moda — o que levou à rápida queda da varíola. Dessa forma, ela, a ‘czarina’ de todas as Rússias, ajudou a colocar o mundo no caminho para a erradicação daquele flagelo. Esse marco sanitário mundial foi apregoado em 1980, pouco mais de dois séculos depois que Catarina e o filho foram vacinados com outros nobres.

Coisas esquecidas! Porém, agora que a tempestade pandêmica/midiática mudou de rumo, acredito ser oportuno relembrar…

(*) Professor Titular da Pediatria da Universidade de Pernambuco. Psicoterapeuta. Membro da Sobrames/PE, da União Brasileira de Escritores (UBE), da Academia Brasileira de Escritores Médicos (ABRAMES) e da Academia Recifense de Letras. Consultante Honorário da Universidade de Oxford (Grã-Bretanha).


quarta-feira, 9 de novembro de 2022

VACINAÇÃO INFANTIL EM QUEDA

Por Olívia Bessa (*)

vacinação é considerada um dos maiores avanços da humanidade em termos de saúde pública nas últimas décadas, com importantes marcos na erradicação e controle de doenças com potencial epidêmico e de gravidade.

No Brasil, o Programa Nacional de Imunização (PNI) sempre foi uma referência internacional de política pública de saúde, com grandes avanços e conquistas nessas quase 5 décadas, desde a sua criação.

As vacinas, junto com outras ações, foram responsáveis pela eliminação da varíola, interrupção da transmissão da poliomielite, controle do sarampo, diminuição na incidência de pneumonia e meningite, com impacto na redução nas taxas de mortalidade infantil.

No entanto, após quase atingir a cobertura universal entre 2010 e 2015, houve um grande retrocesso e os índices de vacinação infantil despencaram nos últimos anos. Dados do PNI mostram que a cobertura vacinal no Brasil alcançou em 2021 somente 70% da população-alvo. O Ceará acompanhou essa tendência nacional. Embora no período de 2017 a 2018, a cobertura vacinal das crianças menores de 1 ano de idade tenha alcançado as metas, superando mais de 95% da população vacinada, verifica-se uma queda na variação percentual, sobretudo no período da pandemia. As baixas coberturas vacinais colocam em risco a saúde individual da criança, além de um risco coletivo potencial, com retorno de doenças que já haviam sido controladas.

Esse retrocesso histórico nas taxas de imunização acontece em um cenário onde o Brasil volta ao Mapa da Fome, com muitas famílias vivendo em contexto de insegurança alimentar, deixando crianças com sistema imunológico fragilizado e mais suscetíveis a doenças. No ano que o ECA completa 32 anos, um caso suspeito de poliomielite em criança é notificado. O Ministério da Saúde descartou, mas convivemos com a possibilidade de, após 33 anos, ter o vírus circulando no Brasil.

Reverter a queda na cobertura vacinal na população infantil exigirá conhecer a real dimensão do problema e suas causas. Os mitos em torno dos riscos das vacinas têm circulado e isso é preocupante, sobretudo quando se trata de prevenção de doenças potencialmente graves e letais.

Importante mobilizar esforços para intensificar a vacinação de rotina e elaborar estratégias de vacinação, além de implementar medidas efetivas de comunicação que combatam a desinformação.

(*) Médica pediatra. Diretora de Educação e Extensão em Saúde da Escola de Saúde Pública do Ceará.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 13/10/2022. Opinião. p.17.

quinta-feira, 22 de setembro de 2022

Vacina, o melhor investimento para conciliar saúde e economia...

Por Gesner de Oliveira (*)

Os números falam por si só sobre a importância da vacina na defesa da vida. Foram evitadas 500 mortes por dia nos primeiros quatro meses após o aumento da cobertura vacinal em 2021, chegando a salvar 600 vidas no segundo quadrimestre subsequente, segundo estudo econométrico realizado pela GO Associados.

A vacina termina com a escolha de Sofia entre a proteção contra a Covid-19 e o emprego e renda das famílias. De acordo com o mesmo estudo, cada R$ 1,00 investido em vacina em 2021 gerou R$ 9,00 em ganho no PIB. O governo investiu cerca de R$ 22 bilhões em vacinas em 2021, o que possibilitou obter um ganho de R$ 200 bilhões no PIB. O modelo captou o efeito da vacina sobre a circulação das pessoas e a correlacionou com a atividade econômica medida pelo PIB, permitindo chegar à mencionada relação de R$ 1,00 de custo para R$ 9,00 de benefício.

Assim, a imunização da população deveria ter máxima prioridade na política pública para combater e sobretudo prevenir contra novas epidemias e várias outras doenças preveníveis, como o sarampo e a poliomelite.

É muito mais eficiente arcar com os investimentos de um plano de imunização do que correr o risco de enfrentar uma nova pandemia. Dados da Secretaria do Tesouro Nacional e Portal da Transparência apontam para o elevado montante de R$ 660 bilhões gastos no combate à Covid-19!

Os resultados obtidos a partir de estudo de vacinação em massa em Serrana no interior do estado de São Paulo trouxeram ainda mais evidências acerca da importância da vacina para salvar vidas. A aplicação de uma técnica estatística chamada de controle sintético mostrou que a adoção da vacinação em massa naquele município conseguiu reduzir em até 48% o número de óbitos.

Diante de tais evidências, não pode haver dúvida quanto à necessidade de imunizar a população, não apenas em relação à Covid-19, mas para um conjunto de doenças preveníveis.

Não se pode baixar a guarda em relação à vacinação. Urge mobilizar sociedade e governo para reforçar aquilo que o Brasil demonstrou que pode fazer com competência: proteger sua população através de planos regulares de vacinação. Neste sentido, três iniciativas são particularmente importantes: (i) recuperar o atraso da vacinação contra a Covid 19 nas faixas mais jovens e nas regiões Norte e Nordeste; (ii) investir mais no setor de saúde, em especial para fortalecimento do Sistema Único de Saúde (SUS); e (iii) conscientizar a população e combater a desinformação (fake news), mostrando como prevenir é muito menos custoso do que remediar. Tanto em vidas quanto em renda e emprego.

(*) PhD em Economia pela Universidade da California (Berkeley). Sócio da G0 Associados, professor da FGV e membro da Academia Internacional de Direito e Economia. assessoria,fgv@insightnet.com.br

Fonte: O Povo, de 22/7/22. Opinião. p.23.

segunda-feira, 18 de julho de 2022

MEMÓRIAS E DESMEMÓRIAS DA VACINAÇÃO

Por Lauro Perdígão (*)

A busca pela vacina contra a covid-19 precisa ser intensificada em meio ao surgimento de novos casos da doença no Brasil. Quando alguém decide não se vacinar, percebe-se que os aprendizados adquiridos em um passado não tão distante se esvaem.

A produção das vacinas tem diminuído a incidência de doenças graves como poliomielite, coqueluche, tétano, difteria, meningites, sarampo, caxumba, rubéola e febre amarela. Além disso, a varíola humana, responsável por mais de 300 milhões de mortes no planeta, foi erradicada em 1980 a partir do advento da vacina.

O impacto positivo da imunização ao longo da história pode gerar a falsa sensação de que doenças imunopreveníveis são raras e não oferecem mais riscos à saúde. No entanto, é preciso salientar que a queda das coberturas vacinais cria um ambiente favorável ao surgimento de surtos e epidemias.

Entre o início da produção de uma vacina e a disponibilidade do imunizante, levava-se, em média, dez anos. Porém, o progresso da ciência e a crise sanitária mundial contribuíram para que a covid-19 figurasse, em tempo recorde, na lista de doenças para as quais há imunizantes disponíveis. Esta é uma conquista simbólica que deve ser celebrada e jamais esquecida.

Apesar de não ter sido pioneiro na vacinação, o Brasil mostrou ao mundo, por meio do Sistema Único de Saúde (SUS), que possui um programa de imunização acessível, eficaz e gratuito. Em 2021, o País conseguiu ampliar a cobertura vacinal e, gradualmente, reduzir a transmissão do vírus e o número de mortes.

A disseminação da covid-19 ainda é uma realidade. Portanto, é fundamental que a população complete o esquema vacinal com as doses disponíveis. Precisamos lembrar que a vacinação é uma estratégia coletiva e com uma história respeitável, da qual todos devem participar.

As experiências do passado e todas as perdas causadas pela pandemia não podem cair no esquecimento. Para além dos questionamentos e tentativas de desqualificar a vacinação, as vacinas, mais uma vez, provam que são confiáveis e que salvam vidas.

(*) Médico infectologista. Vice-presidente da Sociedade Cearense de Infectologia.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 17/06/2022. Opinião. p.19.

quinta-feira, 19 de maio de 2022

IDEIA FIXA É COISA DE LOUCO

Meraldo Zisman (*)

Médico-Psicoterapeuta

…apesar de respeitar a opinião de cada pessoa, a apreciação é um evento emocional e os acontecimentos — sejam bons ou ruins— são fidedignos. Como médico ou simples cidadão tenho por obrigação alertar sobre o agravamento dessa negação à vacinação.

Aqui no Brasil estamos aceitando a polarização política. Raiva, brigas, famílias se decompondo, antigas amizades apartadas, muitos deus-nos-acuda motivados por diferenças ideológicas ou políticas. Virou um “nós contra eles” agudíssimo, fora de ocasião e destrutivo. Muitos estão sofrendo o impacto desses debates que, em muitos casos, afetam a própria saúde psicossomática. Lembro sermos seres gregários (animais que vivem em grupo e se juntam por instinto ou, se desejarem, por natureza). A nossa própria família de origem é exemplo meridiano dessa tendência.

Escrevo este artigo como simples cidadão brasileiro e médico, sem acusar a mídia como a única culpada por tamanha balbúrdia entre nossas diferenças individuais, ainda que dentro do mesmo grupo social.

Percorramos o fato de tomar ou não tomar vacina?

Para uma tentativa de resposta, afirmo: apesar de respeitar a opinião de cada pessoa, a apreciação é um evento emocional e os acontecimentos — sejam bons ou ruins— são fidedignos. Como médico ou simples cidadão tenho por obrigação alertar sobre o agravamento dessa negação à vacinação.

Passeando por Sigmund Freud, gostaria primeiro, de lembrar… as conhecidas personalidades narcísicas que admiram exageradamente sua imagem e nutrem uma paixão por si mesmo – e adiciono: não aceitam opinião que divirja da sua.

Não mudam, nem diante dos fatos. Por suas opiniões, próprias ou herdadas do grupo ao qual avaliam pertencer e no caso particular das “polarizações políticas”, tornam-se arautos de negatividades e desesperanças que agridem nosso maior bem que é a Vida Humana.

Para esses enviesados pouco importam as evidências acumuladas. Pouco lhes importa se a polarização política traz como consequência a ausência de empatia de um para com o outro. Cautela, leitor, quanto às generalizações, elas são sempre muito perigosas. No caso, essa dicotomia é uma forma de narcisismo – separa o seu Eu dos outros, como se você fosse um gigante da moralidade, talvez o único ser perfeito na face da Terra.

Será que você é algum anjo? Algum enviado do Senhor? Um descrente da ciência ou niilista político que, como tal, deseja fundamentalmente a destruição de todas as forças políticas, religiosas e sociais que, na verdade, são essenciais para um futuro melhor. E acrescento: se todo mundo não presta e o único certo é aquele que generaliza o tal de ‘politicamente correto’, ele próprio termina por ficar paralisado e vai para casa. Tem medo de ser rejeitado pelo seu grupo. Desiste de lutar. Fica enclausurado em um conformismo individualista e, pior, não se junta aos homens e mulheres de bem para lutar contra a Pandemia. Fica conformado em nada mudar. Não tem jeito. E não tem mesmo jeito, o mundo é todo imperfeito, como é possível alguém ficar dizendo para si mesmo:— detenho dentro de mim toda a Moral e toda a Ética? Sou um Ser perfeito e único!  Se todos e tudo são imperfeitos e eu sou o único perfeito, para que lutar?… Já ganhei a batalha (perdida)!

O velho Freud tinha razão quando escreveu: “É costume de um tolo pôr a culpa no outro e de um indivíduo sábio agir”. E acrescento: tais indivíduos, quando erram, em vez de se culparem por sua opinião, passam a colocar nos outros a responsabilidade pelo erro.

Lembre-se: “O conformismo é o desespero de quem não luta mais”, ensina o adágio popular, tão antigo quanto a nossa legendária fuga à responsabilidade sobre nossos atos e conceitos, o que leva inexoravelmente à Fênix do Totalitarismo.

Este velho médico, simples esculápio de província, teve sua atenção chamada pela manchete publicada no Diário de Pernambuco:

BOLSONARO CEDE E INFORMA QUE SERÁ VACINADO NESTE SÁBADO DE ALELUIA (EDIÇÃO DIA 3 E 4 DE ABRIL DE 2020)

Advirto: parece que o presidente não mudou de apreciação, mas assistindo ao somatório dos fatos mudou de opinião quanto à vacinação e sua pertinência. Por isso reafirmo ser a “ideia fixa” uma exclusividade dos loucos.  Mudar de postura, antes tarde do que nunca, é que é racional. Já hoje, 04/04/2021, a CNN noticiou que o presidente não se vacinou. Dado tudo isso, este velho esculápio já não sabe em quem acreditar. Porém, enfatizo: se o presidente Bolsonaro não se vacinou, há que lembrar o que ensinou o Rabino Maimônides (Ram bam) -1138-1204): “Os fatos moldam a opinião e não o contrário. As opiniões não moldam os fatos. As coisas existem e são verdadeiras ou não existem, independentemente das crenças e opiniões das pessoas”.

O meu desejo é que se criem fatos concretos e, para isso, que se vacinem todos os que quiserem e puderem.

(*) Professor Titular da Pediatria da Universidade de Pernambuco. Psicoterapeuta. Membro da Sobrames/PE, da União Brasileira de Escritores (UBE), da Academia Brasileira de Escritores Médicos (ABRAMES) e da Academia Recifense de Letras. Consultante Honorário da Universidade de Oxford (Grã-Bretanha).

sábado, 16 de abril de 2022

ENDEMIA DE COVID-19 EM FORTALEZA

Por Antônio Vasques (*)

Após mais de 2 anos está chegando ao final a pandemia de Covid19 em Fortaleza. Cada família fortalezense atingida pela periculosidade do vírus tem uma história dramática para contar às gerações futuras. No âmbito do setor público as ações de enfrentamento ao vírus foram muito bem coordenadas entre governo do Estado e a Prefeitura Municipal.

Diferentemente de algumas outras capitais, Fortaleza teve a sorte e o privilégio de contar com rápida ampliação da infraestrutura de leitos hospitalares, evitando-se cenas dramáticas oriundas da falta de pronto atendimento.

No setor privado, destaque-se o desenvolvimento do capacete Elmo - mecanismo de respiração artificial não invasivo - que diminuiu em até 60% a necessidade de internação em leitos de Unidade de Terapia Intensiva (UTI). Os protótipos foram desenvolvidos no Instituto SENAI de Tecnologia (IST) com o decisivo apoio do diretor regional do Senai engenheiro Paulo André Holanda.

Ainda no setor privado destaco a atuação do dr Elias Leite que, como presidente da Unimed Fortaleza, tornou-se conhecido pela divulgação de vídeos diários sempre com a positividade da hashtag "#vai dar certo".

Destaco, também, o sucesso da campanha de doação e distribuição de capacetes Elmo liderada pelo dr Ricardo Pessoa, da clínica Progastro. O panorama futuro aponta para a Covid19 em Fortaleza entrar em um processo endêmico a partir de abril próximo, com o gráfico em forma de sino da curva do vírus pararelo ao eixo X onde permanecerá até o infinito.

Por isso há a necessidade de vacinação periódica..com ampla possibilidade de termos, ainda neste ano, a vacina única contra influenza e Covid19, já em fase de desenvolvimento pelo Instituto Butantan. Não prevejo quadro de maior gravidade para os próximos meses, salvo o surgimento aleatório de novas variantes. Cuide-se! Que Deus proteja a nossa bela cidade. 

(*) Professor associado da Uece. Pós-Doutor em Educação.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 27/04/22. Opinião, p.18.

quinta-feira, 7 de abril de 2022

PASSAPORTE VACINAL NA UNIVERSIDADE

Por Roberto da Justa Pires Neto (*)

Depois de muita cobrança da comunidade universitária e de um longo período de omissão, a Reitoria da Universidade Federal do Ceará (UFC) divulgou no dia 9 de março uma portaria instituindo o comprovante vacinal como critério para que estudantes e professores retornassem às aulas presenciais. Também foi publicado o "Guia Tô de Volta", com orientações normativas para essa retomada.

Apesar de não citar explicitamente o termo "passaporte vacinal", a normativa foi uma mudança de postura. A administração superior, finalmente, cedeu às pressões da comunidade acadêmica pela adoção de medidas de proteção respaldadas pela ciência, apesar de ainda fazê-lo de forma equivocada e desresponsabilizando a Reitoria. Várias unidades acadêmicas já vinham se organizando para implementar o passaporte vacinal e outras medidas à revelia da gestão superior.

A mudança de postura também se dá em decorrência da imposição da lei. Decreto do Governo do Estado de 5 de março de 2022 já condicionava o retorno das atividades de ensino à apresentação do passaporte vacinal. A UFC estaria descumprindo a lei se retomasse as aulas presenciais sem a comprovação vacinal. Além disso, a UFC foi uma das últimas entre as 69 universidades federais a instituírem o passaporte da vacina.

Mesmo com a sinalização positiva da Reitoria, a mobilização permanece necessária, inclusive porque há alguns itens do Guia Tô de Volta que requerem atenção, como o tópico que prevê uma autodeclaração, a ser enviada aos professores, pelos alunos não vacinados, que devem ser colocados em regime especial temporariamente. Aqui parece evidente que a fiscalização do passaporte recairá sobre o professor, quando deveria ser garantida já no ato da matrícula.

Outra fragilidade encontrada é a ausência do protocolo de testagens. Essa omissão por parte da Universidade é inaceitável e representa riscos para a comunidade acadêmica e seus familiares. Neste momento, as entidades acadêmicas e sindicais devem continuar acompanhando e cobrando da Reitoria medidas seguras e uma postura transparente sobre os protocolos de prevenção à Covid-19.

(*) Médico infectologista e professor da Faculdade de Medicina da UFC.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 12/03/2021. Opinião. p.18.

terça-feira, 5 de abril de 2022

COVID-19 E SEUS IMPACTOS NA FERTILIDADE

Por Marcelo Cavalcante (*)

O início da pandemia da Covid-19, advertimos a comunidade científica sobre os possíveis impactos da infecção pelo novo coronavírus na fertilidade masculina e feminina. O alerta foi feito por meio de cartas enviadas às revistas científicas, The Journal of Maternal-Fetal & Neonatal Medicine e Molecular Human Reproduction.

A preocupação era devido à capacidade do Sars-CoV- 2 provocar infecções nos testículos e ovários, além do histórico de casos de infertilidade relatados durante surtos infecciosos de outros tipos de coronavírus.

Diante dessas incertezas e dos riscos de complicações da Covid-19 para as gestantes, a Anvisa recomendou que os centros de reprodução assistida suspendessem os tratamentos de fertilização in vitro em casais com dificuldades para engravidar.

Na primeira onda da Covid-19, os estudos não observaram risco elevado de abortamento espontâneo ou de malformações fetais em gestantes acometidas pela doença. Dessa forma, no segundo semestre de 2020, houve o retorno gradativo desses tratamentos.

Em relação ao impacto da Covid-19 na fertilidade, um estudo publicado já em 2022 pela Universidade de Boston, observou que a infecção pelo Sars-CoV-2 provoca uma redução transitória na fertilidade masculina, sem nenhum impacto na fertilidade feminina.

O efeito da vacinação contra a Covid-19 na fertilidade é outra preocupação dos casais que desejam engravidar ou estão em tratamento para infertilidade. Tentantes e gestantes apresentam contraindicações para algumas vacinas que compõe o calendário vacinal de adultos, em especial as que são preparadas a partir de vírus vivos e atenuados.

Hoje, as vacinas disponíveis comercialmente contra Covid-19 são elaboradas a partir de vírus inativado, vetor viral ou RNA mensageiro. Esse estudo também observou que a vacinação dos tentantes não teve impacto negativo na fertilidade masculina ou feminina.

Assim, diante da segurança atestada pelas evidências atuais e dos riscos de complicações da infecção da Sars-CoV-2 à saúde das futuras gestantes, recomenda-se que as tentantes mantenham o esquema de vacinação para Covid-19 atualizado.

(*) Médico especialista em Reprodução Humana.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 5/03/2022. Opinião. p.18.

terça-feira, 22 de março de 2022

ANTIVAX E HESITANTES, VAMOS CONVERSAR?

Por Marcelo Alcântara Holanda (*)

Em 1796 Edward Jenner, médico e cientista inglês, inoculou líquido de feridas de varíola de gado (cowpox) nos braços de um garoto de 8 anos. A cowpox, condição comum e branda, afetava as mãos de ordenhadoras de vacas. Parecia protegê-las da variante humana, a varíola (smallpox) que chegou a matar 20% da população urbana à época.

Jenner teorizou que o procedimento iria proteger o menino de adquirir a doença. Desafiado com exposição a material contaminado, a criança não adoeceu. Nasceu a vacina, termo derivado de vaca. Junto, surgiram os antivacinas, semeadores de dúvidas e opositores da nova invenção.

Inspiraram as fakenews antivax no século XVIII. Caricaturas mostravam pessoas inoculadas que se transformavam, imaginem, em vaca! Hoje, nosso jacaré virou o animal símbolo do movimento no país. Voltemos a Jenner. Foi condecorado por Napoleão por mérito científico. A vacinação protegeu o exército francês nas campanhas militares. Ciência acima de ideologia.

Caro(a) leitor(a), se você chegou à vida adulta sem as sequelas da poliomielite, a infertilidade da caxumba ou as cicatrizes da varíola, agradeça às vacinas. Os antivax ganharam reforços recentes. Em 1998, o britânico Andrew Wakefield inoculou desconfiança na vacinação. Publicou artigo associando autismo (TEA) à vacina MMR (contra sarampo, caxumba e rubéola) na famosa revista Lancet. Mentira disfarçada de verdade científica. O artigo foi posteriormente despublicado, os autores se retrataram e sua licença médica foi caçada. Descobriu-se espúria associação dele com um fabricante de vacinas.

Mesmo assim, o estrago foi grande. A internet propiciou globalização do movimento antivacina a partir do caso. Na Pandemia, a ideologização da saúde, com ataques dia sim, dia não às vacinas, foi incluída no combo de identidade da extrema direita brasileira, tendo o presidente da república como seu expoente. Paramos nos 70% com duas doses, menos de 20% com a de reforço. Mas há motivos para otimismo. O povo brasileiro sabe dos benefícios e quer a vacinação. Os superpoderes do Zé Gotinha seguem na memória coletiva.

Cabe a nós, médicos, escutar bem os pacientes e apontar com serenidade, lucidez e empatia a melhor recomendação vacinal. Tenho um filho com TEA que tomou as duas doses anti-Covid-19. Esteve exposto a casos sintomáticos em casa este ano. Não adoeceu. 

(*) Médico. Professor da UFC. Superintendente da Escola de Saúde Pública do Ceará Paulo Marcelo Martins Rodrigues.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 22/01/2022. Opinião. p.19.

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2022

TERCEIRA(S) ONDA(S)

Por Sofia Lerche Vieira (*)

Quando a Covid-19 começou a varrer o mundo, em março de 2020, a humanidade não tinha noção de que a convivência com o vírus seria tão sofrida e extensa.

O ano de 2022 começou com a chegada de uma terceira onda que, devido a seu alto poder de propagação, configurou-se como novo desafio a enfrentar. Identificada na África do Sul, a variante Ômicron surge em um contexto de exaustão dos profissionais de saúde e de sobrecarga das redes hospitalares, devido à intensiva demanda e oferta de serviços. O que fazer se os hospitais voltarem a ter superlotação, motivada sobretudo pela parcela da população não vacinada?

O processo de vacinação no Brasil sofreu tropeços iniciais e constantes ameaças por parte de algumas autoridades públicas. A cultura de vacinação e o Sistema Único de Saúde, contudo, viabilizaram um percentual razoável de adultos vacinados. Agora, começam a ser vacinadas crianças de 5 a 11 anos.

A pergunta que merece ser feita é: o que virá depois? Ao refletir sobre o tema, não deixa de ser tentador lembrar que a expressão terceira onda foi antes utilizada por Alvin Toffler, autor dos anos oitenta do século XX, best-seller no campo de previsões sobre o futuro da humanidade.

Reconhecendo a existência de três ondas, o mesmo associava a primeira à revolução agrícola, a segunda à revolução industrial e a terceira à era da informação. Nessa terceira onda, o capital essencial da humanidade seria a mente, a capacidade de inovação e o uso da tecnologia.

Algumas das previsões de Toffler foram confirmadas e aprofundadas por outros. Um deles foi Manuel Castells, cientista político espanhol que, na obra A Era da Informação, publicada entre 1996 e 1998, apresenta alguns argumentos na mesma direção. Embora mais recentemente outros pensadores tenham se debruçado sobre o tema, grandes dúvidas sobre o futuro do planeta persistem.

Afinal, por que, apesar de tantos avanços, as economias dominantes mundiais não foram capazes de prever a chegada e o grau de destruição provocada pela Covid-19? Por que não foi possível deter as ondas da pandemia? São perguntas que pedem respostas.

(*) Professora do Programa de Pós-Graduação em Educação da Uece e consultora da FGV-RJ.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 31/01/22. Opinião, p.20.

 

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