Por Pe. Reginaldo Manzotti (*)
A Páscoa é o coração da fé cristã. Não é
apenas uma data no calendário litúrgico nem a lembrança de um fato do passado.
A Páscoa é um acontecimento vivo, permanente, que atravessa os séculos e
alcança cada ser humano em suas dores, medos e esperanças. Celebrar a Páscoa é
proclamar que a morte não tem a última palavra, que o sofrimento não é
definitivo e que Deus permanece fiel até o fim.
Desde o Antigo Testamento, a Páscoa está
ligada à passagem: passagem da escravidão para a liberdade, da opressão para a
terra prometida. Em Jesus Cristo, essa passagem atinge sua plenitude. Ele
atravessa a morte e abre para toda a humanidade um caminho novo. Como afirma
São Paulo: "Se Cristo não ressuscitou, vazia é a nossa fé" (1Cor 15,14).
Não se trata de um detalhe da fé, mas de seu fundamento.
A Páscoa nos revela quem é Deus: não um
Deus distante ou indiferente, mas um Deus que entra na história, sofre conosco,
morre por amor e ressuscita para nos devolver a vida.
A ressurreição não apaga a cruz, mas dá sentido a ela. O Ressuscitado
conserva as marcas dos cravos, mostrando que o amor vivido até o extremo não é
destruído, mas transfigurado.
O túmulo vazio é um sinal aberto. Ele
aponta para algo maior: Jesus não está mais entre os mortos porque Deus agiu.
Como diz o anjo: "Por que procurais entre os mortos aquele que está vivo?" (Lc 24,5).
Quantos de nós carregamos sepulcros
interiores - medos, culpas, desesperanças? O sepulcro vazio nos provoca a sair.
Não é um lugar para permanecer, mas para partir em missão. A Páscoa nos tira
das seguranças, das certezas fechadas, e nos envia a anunciar que a vida
venceu.
A Igreja sempre afirmou com clareza: a
ressurreição de Jesus não é metáfora nem símbolo psicológico nem simples
continuidade da memória dos discípulos. Trata-se de um acontecimento real,
histórico, mas que ultrapassa a história. O corpo de Jesus ressuscita, porém
não volta à vida biológica como Lázaro. Ele entra numa condição nova,
glorificada.
Celebrar a Páscoa não é apenas afirmar
que Jesus ressuscitou, mas permitir que Ele ressuscite em nós. Cada vez que
escolhemos a vida, o perdão, a reconciliação, a justiça, participamos da
dinâmica pascal.
A ressurreição nos ensina que Deus age
mesmo quando tudo parece perdido. Quando a pedra parece pesada demais, quando o
túmulo parece definitivo, Deus já está trabalhando no silêncio da madrugada. A
Páscoa nasce no escuro, antes do sol aparecer.
Como Igreja, somos chamados a ser sinais
de ressurreição num mundo marcado por tantas mortes: físicas, emocionais,
sociais e espirituais. Onde há exclusão, somos chamados à comunhão. Onde há
desespero, à esperança. Onde há cruz, a anunciar que ela não é o fim.
A essência da Páscoa cabe numa simples
proclamação: Ele vive. E porque Ele vive, a vida tem sentido, a dor não é
absurda e o amor não é em vão. O túmulo vazio não é um ponto final, mas um
começo.
Cristo ressuscitou. Verdadeiramente
ressuscitou. Aleluia! Feliz e abençoada Páscoa!
(*) Fundador e presidente da
Associação Evangelizar é Preciso e pároco reitor do Santuário Nossa Senhora de
Guadalupe, em Curitiba (PR).
Fonte: O Povo, de 18/04/2026.
Opinião. p.22.

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